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O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual

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Academic year: 2021

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(1)Revista de Educação Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009. O USO PRAGMÁTICO DA PRIMEIRA E DA SEGUNDA PESSOA DO DISCURSO EM TEXTOS DE OPINIÃO E DE PUBLICIDADE DA IMPRENSA ESCRITA ATUAL. Denise Ribeiro Faculdade Anhanguera de Taubaté [email protected]. RESUMO Esta pesquisa tem por objetivo uma análise do uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso quando explicitadas pelos pronomes “eu”, “você(s)”, “nós” e pela expressão nominal “a gente”, ou apenas marcadas pela morfologia verbal. Foram analisados frases de 2 textos de opinião da Revista VEJA e 2 frases de publicidade da imprensa escrita atual, a partir dos pressupostos teóricos da teoria da enunciação de Mainguenau (2001) e de Benveniste (1988) sobre o uso pragmático das pessoas do discurso e do que definem as Gramáticas Normativas e os Dicionários sobre os pronomes. Concluímos que o uso pragmático dessas pessoas do discurso vai muito além do mencionado pelas Gramáticas Normativas, e que os autores dos textos analisados são hábeis com relação a esses recursos da língua. Palavras-Chave: pessoas do discurso; pronome pessoal; uso pragmático; teoria da enunciação; Gramática Normativa; texto de opinião e publicidade.. ABSTRACT This research aims to analyze the pragmatic use of the first and second person of speech when they are specified by the pronouns “eu”, “você(s)”, “nós” and the nominal expression “a gente”, or marked only by the verbal morphology. We analyzed phrases of 2 opinion texts from the VEJA Magazine and 2 publicity phrases from the actual written press, based in the theoretical assumptions of the theory of enunciation of Mainguenau (2001) and Benveniste (1988) about the pragmatic use of the people of speech and definitions given by the Normative Grammars and Dictionaries about the pronouns. We conclude that the pragmatic use of these people of speech goes far beyond the stated regulations by Grammars, and the authors of the analyzed texts are skillful in these features of the language. Keywords: person of speech; personal pronoun; pragmatic; theory of enunciation; Normative Grammars; opinion text and publicity. Anhanguera Educacional Ltda. Correspondência/Contato Alameda Maria Tereza, 2000 Valinhos, São Paulo CEP 13.278-181 [email protected] Coordenação Instituto de Pesquisas Aplicadas e Desenvolvimento Educacional - IPADE Artigo Original Recebido em: 17/8/2009 Avaliado em: 2/4/2011 Publicação: 18 de agosto de 2011. 39.

(2) 40. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. 1.. INTRODUÇÃO Esta pesquisa é um estudo do uso pragmático da primeira e da segunda pessoas discurso quando explicitadas pelos pronomes “eu”, “você(s)”, “nós” e pela expressão nominal “a gente”, ou apenas marcadas pela morfologia verbal. Serão analisadas frases de textos de opinião da Revista VEJA e de publicidade da imprensa escrita atual.. 1.1. Justificativa para a pesquisa Espera-se com esta pesquisa fornecer para alunos, professores e pessoas interessadas no uso das pessoas do discurso uma contribuição para a formação do leitor crítico, mostrando o uso desses pronomes numa perspectiva pragmática. Com isso, procurar-se-á enfatizar a necessidade de se considerarem no ensino também os aspectos relativos ao uso e ao funcionamento da língua, já que as gramáticas e os livros didáticos dão apenas um enfoque morfológico e sintático às formas linguísticas consideradas nesta pesquisa. Baseado em pesquisas linguísticas das últimas décadas, a pesquisa procurará mostrar as várias possibilidades de uso das pessoas do discurso no português do Brasil, especialmente com relação aos valores pragmáticos que os enunciados podem produzir a partir do uso das pessoas do discurso. O tema interessou a partir da leitura do artigo de opinião de Odino Marcondes “Nós quem, cara-pálida? No sucesso, quem faz sou eu. No fracasso, somos nós.” (anexo 1), publicado na Revista Exame de 22 de setembro de 1999, ed. 697, cujos trechos serão citados no corpus dos capítulos do artigo, que primeiro escreveu: “VOCÊ JÁ PENSOU EM QUANTAS VEZES POR dia fala você querendo dizer eu? Ou diz nós ou a gente quando queria dizer eu? No dia-a-dia (aqui é uma citação direta do texto de Odino Marcondes, ver anexo 1), nas situações mais absurdas e implausíveis, sou incluído na história dos outros.”. O autor, consultor de empresas e sociólogo, faz uma bem humorada análise do uso dessas pessoas do discurso na comunicação diária nas empresas. Há alguns estudos sobre o tema na língua escrita, mas nenhum, ao que parece, sobre os aspectos pragmáticos do uso da primeira e segunda pessoa do discurso na imprensa escrita brasileira. Por isso são necessários mais estudos sobre o tema para que alunos e professores possam entender melhor esse aspecto do uso da língua portuguesa.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(3) Denise Ribeiro. 41. 1.2. Objetivos O objetivo desta pesquisa é fazer um estudo sobre o uso, do ponto de vista pragmático, da primeira e segunda pessoa do discurso, explicitadas pelos pronomes “eu”, “você(s)”, “nós” e pela expressão nominal “a gente”, ou apenas marcadas pela morfologia verbal, em textos jornalísticos e publicitários. Especificamente, o objetivo é responder às seguintes perguntas: •. O uso dessas pessoas do discurso ocorre como define a gramática normativa, ou seja, “eu” e “nós” referindo-se à primeira pessoa do discurso e “você(s)” à segunda pessoa?. •. A expressão nominal “a gente” é usada como uma variante informal (mais popular) de “nós”, também para se referir à primeira pessoa do discurso?. •. Que efeitos de sentido podem resultar do uso dessas pessoas do discurso nos textos jornalísticos e publicitários?. 1.3. Procedimentos de pesquisa A seleção dos textos opinativos para a pesquisa teve como critério a escolha de artigos assinados, escritos por intelectuais da comunicação, que publicam regularmente em jornais e revistas e frases de publicidade, assim e continuando como referencial outra frase do mesmo artigo de Odino Marcondes (op. cit.) “A confusão aumenta ainda mais quando o interlocutor aponta para o próprio peito e começa: “quando você...” E logo continua na primeira pessoa do singular. Com freqüência, as pessoas com quem converso (aqui é uma citação direta do texto de Odino Marcondes, ver anexo 1), fazem um caminho mais longo: começam com você, passam pelo a gente, nós e, finalmente, eu. [...] Já o nós é usado mais freqüentemente para criar uma idéia de coletivo e, assim, diluir o ônus de um fracasso.” Utilizar-se-á para análise e conclusão da pesquisa frases de dois textos da Revista VEJA e duas frases de publicidade enumeradas a seguir e relacionadas abaixo: •. Texto 1 – “Ambição e ética” (anexo 2), escrito por Stephen Kanitz e publicado na Revista VEJA de 24 de janeiro de 2001, ed. 1684;. •. Texto 2 – “O inferno do tráfico” (anexo 3), escrito por Luiz Felipe de Alencastro e publicado na Revista VEJA de 21 de março de 2001, ed. 1693;. •. Texto 3 – Propaganda da “OX COSMÉTICOS”, publicada na Revista VEJA de 13 de maio de 2009, ed. 2112;. •. Texto 4 – Propaganda da “21Embratel”, de 25 de agosto de 2010, ed. 2179.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(4) 42. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. 2.. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS Esta seção apresentará um levantamento do que dizem as Gramáticas Normativas e Dicionário da Língua Portuguesa sobre os pronomes pessoais da primeira e da segunda pessoas do discurso, singular e plural, e da expressão nominal “a gente”, comentar outros estudos sobre o uso do “nós”, “a gente” e “você” no português brasileiro atual, apresentar as ideias de Mainguenau (2001) sobre Enunciado e a teoria de Benveniste (1988) sobre o uso pragmático das pessoas do discurso e, finalmente, comentar os resultados de algumas pesquisas sobre essas pessoas do discurso a partir das ideias de Benveniste (op. cit.).. 2.1. Os pronomes pessoais conforme a gramática tradicional Pesquisas feitas em Gramáticas Normativas de André (1997), Bechara (1987), Cegalla (1985), Cipro Neto (1998), Cunha (1985) e no Dicionário da Língua Portuguesa de Ferreira (1986) encontrou-se definições sobre os pronomes pessoais, baseadas na noção de três pessoas do discurso: •. 1ª Pessoa: a que fala;. •. 2ª Pessoa: a com quem se fala;. •. 3ª Pessoa: a de quem ou de que se fala.. Os pronomes pessoais no português brasileiro, conforme a gramática tradicional, são os pronomes “eu”, “nós” da primeira pessoa do discurso, “tu” e “vós” da segunda pessoa do discurso e “ele(a)” e “eles(as)” da terceira pessoa do discurso. O pronome de tratamento “você(s)” e a expressão nominal “a gente”, embora ainda não sejam reconhecidos pela Gramática Normativa como pronomes pessoais, são usados como pronomes da segunda pessoa do singular e primeira pessoa do plural, conforme o que dizem as gramáticas e dicionário sobre essas formas a seguir.. Eu e nós Estudos feitos nas gramáticas tradicionais sobre os pronomes pessoais de primeira pessoa, “eu” e “nós” levou-nos às constatações a seguir. Para Cunha (1985), “eu” e “nós” são pronomes pessoais do caso reto: aquela(s) pessoa(s) que fala(m); para André (1997) são pronomes pessoais, primeiras pessoas do discurso, singular e plural: o(s) falante(s); para Bechara (1987), são pronomes pessoais, primeiras pessoas do discurso, singular e plural, e funcionam como sujeito; para Cegalla (1985), os pronomes “eu” e “nós” são pronomes pessoais do caso reto, que substituem o(s) nome(s) e representam as primeiras pessoas do discurso: a(s) pessoas que fala(m) e têm. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(5) Denise Ribeiro. 43. função subjetiva (sujeito da oração); para Cipro Neto (1998), os pronomes indicam diretamente as pessoas do discurso. Estes últimos comentam que na língua culta formal esses pronomes não devem ser usados como complementos verbais. Ferreira (1986) define o pronome “eu” como pronome pessoal da primeira pessoa do singular e o pronome “nós” como pronome pessoal da primeira pessoa do plural: a(s) personalidade(s) que fala(m). Os autores pesquisados têm a mesma definição com referência aos pronomes “eu” e “nós”: são pronomes pessoais do caso reto, primeira pessoa do discurso, singular e plural, a(s) pessoa(s) que fala(m) e sujeito da oração. Enfim, os pronomes “eu” e “nós”, de acordo com os gramáticos citados, nos permitem identificar o ser como sendo aquele que utiliza a língua no momento da comunicação. Esses pronomes correspondem ao emissor e podem representar ou acompanhar o substantivo para tornar-lhe claro o sentido, indicando-o como pessoa do discurso ou situando-o no espaço e no tempo.. Você, vocês Na categoria de pronomes pessoais, Cunha (1985), Cegalla (1985) e Bechara (1987) definem “você” e “vocês” como pronomes de tratamento, porém, não sendo usados aqui no Brasil como formas cerimoniosas ou de reverência. Esses autores dizem que “você” e “vocês” são pronomes de segunda pessoa, mas usados com as formas verbais da terceira pessoa, e empregados no tratamento íntimo e familiar. Bechara (1987) diz que o pronome “você” é a redução da forma de reverência “Vossa Mercê” e, caindo o pronome “vós” em desuso, só usado nas orações de estilo solene, emprega-se “vocês” como plural de “tu”. Ferreira (1986) define a palavra “você” como pronome de tratamento e afirma que, em certas partes de Portugal, ainda indica respeito, prendendo-se semanticamente ao “Vossa Mercê” originário; é usado no tratamento íntimo entre iguais, ou de superior para inferior, e ainda argumenta que é tratamento dado hoje em dia, geralmente no singular, em anúncios de jornais, e por locutores de rádio e televisão, artistas de teatro e etc., a leitores, ouvintes e espectadores. Cipro Neto (1998) também afirma que o pronome “você(s)” pertence à segunda pessoa indireta e é empregado largamente no Brasil, praticamente substituindo as formas “tu” e “vós”, respectivamente, e que pode ser usado no lugar de pronomes pessoais do caso reto (atuando como sujeito ou predicativo) ou de pronomes pessoais do caso oblíquo (atuando como complementos verbais e nominais). Segundo Cunha (1985), no português europeu, a forma pronominal “tu” é de emprego geral. No português do Brasil, o seu uso restringe-se ao extremo sul do país e a. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(6) 44. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. alguns pontos da região norte, ainda não suficientemente delimitados. Em quase todo o território nacional o “tu” foi substituído por “você”. Pode-se dizer que para a maioria dos brasileiros só há dois tratamentos de segunda pessoa realmente usados: “você” como forma de intimidade; “senhor” e “senhora”, como forma de respeito ou cortesia. Observamos que Ferreira (1986) é o único que faz um comentário que reflete mais o uso atual. Os gramáticos têm uma mesma opinião: não se deve misturar na língua culta os tratamentos “tu” e “você”, como ocorre com frequência no Brasil, na língua oral cotidiana.. A gente O uso da forma “a gente” representando a primeira pessoa do plural, ou seja, como variante do pronome “nós”, é comum entre os falantes no Brasil. Cunha (1985), Bechara (1987) e Cipro Neto (1998) dizem que é uma forma de tratamento da primeira pessoa e na linguagem coloquial emprega-se “a gente” por “nós” e por “eu”, sendo esta forma não empregada na língua formal e estando fora da linguagem cerimoniosa, devendo ficar o verbo na terceira pessoa do singular. Cegalla (1985) e André (1997) não fazem referência a essa forma pronominal. Já Ferreira (1986) define “a gente” como a pessoa ou as pessoas que falam: “eu” e “nós”. As gramáticas normativas fazem poucas referências a essa forma pronominal, e outros autores consultados incluem-na como pronome pessoal, como será visto nas seções a seguir.. 2.2. Mudança no paradigma pronominal do Português do Brasil Duarte (1996), em sua Tese de Doutorado sobre A perda do princípio “evite pronome” no português brasileiro, na qual analisou dados da região sudeste, conclui que o português brasileiro falado passa por um processo de mudança na representação do sujeito pronominal, distanciando-se do português europeu e das outras línguas com possibilidade de sujeito oculto. Essa mudança pode ser relacionada à redução do paradigma flexional, por exemplo, com a substituição do pronome “nós” por “a gente”. Assim, perde-se a possibilidade de não representação fonológica do sujeito, ou seja, de sujeito oculto. Em outras palavras, perde-se o princípio “Evite pronome”, que nas línguas românicas leva à expressão do pronome sujeito apenas quando este for focalizado ou usado contrastivamente, necessitando evidentemente de realização fonética. A perda do princípio “Evite Pronome”, ou seja, do sujeito oculto, tem como causa a redução do paradigma pronominal. Observa-se a simplificação do paradigma flexional, a partir da Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(7) Denise Ribeiro. 45. perda, em quase todo o território nacional da segunda pessoa direta, representada pelos pronomes “tu” e “vós”, e sua substituição pela segunda pessoa indireta, representada pelos pronomes “você” e “vocês”, que usa as formas verbais de terceira pessoa. O paulatino desaparecimento do pronome “nós”, substituído pela expressão “a gente” (empregada no sentido genérico, distancia a pessoa que fala), usada com a forma verbal de terceira pessoa do singular, vem também contribuir para a aceleração da mudança.. 2.3. Aspectos pragmáticos do uso dos pronomes pessoais do caso reto Considerações sobre aspectos pragmáticos do uso dos pronomes começaram a surgir, a partir dos anos 70, quando novas abordagens linguísticas, enfocando o uso real da linguagem, começaram a serem realizadas. Uma delas é a teoria da enunciação de Benveniste (1988), que analisou o uso das pessoas do discurso de forma diferente da gramática tradicional. Para Benveniste (1988), o verbo e o pronome são as únicas palavras submetidas à categoria de pessoa. O pronome tem tantos outros caracteres que lhe pertencem particularmente e comporta relações tão diferentes que exigiria um estudo independente. No entanto, o autor se detém no estudo dos pronomes pessoais do caso reto considerando a pessoa verbal. Em todas as línguas que possuem um verbo, explica o autor, classificamse as formas da conjugação segundo a sua referência à pessoa, constituindo a enumeração das pessoas propriamente a conjugação; distinguem-se três no singular, no plural e eventualmente no dual. Essa classificação é notoriamente herdada da gramática grega: primeira pessoa, segunda pessoa e terceira pessoa. Tal como foi elaborada pelos gregos para a descrição da sua língua, essa classificação é ainda hoje admitida, não somente como verificada para todas as línguas dotadas de um verbo e admitida como natural, e inscrita na ordem das coisas. Resume, nas três relações que institui, o conjunto das posições que determinam uma forma verbal provida de um índice pessoal, e vale para o verbo de qualquer língua. Nessa concepção há sempre três pessoas e não há senão três. Em consequência, o autor conclui com nitidez: a “terceira pessoa” não é uma “pessoa”. A essa definição correspondem: a ausência de todo pronome da terceira pessoa, fato fundamental, e a situação muito particular da terceira pessoa no verbo da maioria das línguas, como evidenciam alguns exemplos de Benveniste (1988).. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(8) 46. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. 2.4. O Enunciado Mainguenau (2001) salienta a complexidade das relações entre sentido e contexto. Para ele, todo o enunciado tem um locutor e um receptor e todo ato de comunicação é assimétrico, ou seja, o receptor interpreta o enunciado reconstruindo seu sentido através de indicações produzidas pelo locutor, mas não significa que exista coincidência com o mesmo sentido dado pelo locutor. Mainguenau (2001) entende também que o receptor precisa saber fazer hipóteses e raciocinar para construir um contexto e não só conhecer a gramática ou um dicionário. Isso quer dizer que não é possível saber realmente o sentido de um enunciado fora do contexto. Além disso, todo enunciado tem seu valor pragmático que é a relação entre o enunciador e seu destinatário, visto que o destinatário deve compreender a mensagem no contexto, do contrário não adotará um comportamento adequado em relação ao enunciado. O contexto, para o autor, não quer dizer apenas ambiente físico, o momento e o lugar da enunciação. Na verdade, a memória do receptor, que são os saberes anteriores à enunciação, deve ser mobilizada para dar a cada unidade a relação com uma outra do mesmo texto. Mainguenau (op. cit., p. 3) conclui que nunca há uma única interpretação de um enunciado. Dubois et al. (1973, p. 219), definem a palavra “enunciado” como sendo: 1. 2. 3. 4.. A palavra enunciado designa toda sequência acabada de palavras de uma língua emitida por um ou vários falantes. [...] Enunciado é termo usado às vezes por uma frase*, na medida em que a análise dos enunciados muitas vezes se reduz à análise das frases que o compõem. Às vezes, o enunciado é o significado de uma sequência de frases ou de uma frase. É preferível usar dictum* para evitar qualquer confusão com enunciado no sentido 1. Muitas vezes, a expressão análise de enunciado é empregada de preferência a análise* de discurso, na medida em que esse último é ambíguo (discurso na língua corrente designa certo tipo de enunciado). Além disso, como muitas vezes o corpus é constituído de segmentos de enunciados que não formam uma sequência contínua, enunciado, que admite, mais facilmente, sem ambiguidade, o número plural, é nesse caso, preferível a discurso.. 2.5. O uso do eu e nós em textos jornalísticos brasileiros Bastos (1988), em um trabalho sobre os aspectos discursivos do emprego da primeira pessoa do singular ou da primeira pessoa do plural em textos de jornais brasileiros, afirma que os pronomes “eu” e “nós”, mesmo elípticos no texto, podem possuir referentes diversos que dependem de contextos e conteúdos que favoreçam a manifestação de um ou de outro. Assim, a enunciação na primeira pessoa do singular, cujas marcas designam o autor (o ser empírico origem do enunciado), ocorre, em geral, nos momentos do texto. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(9) Denise Ribeiro. 47. em que há julgamento e avaliações, relatos de vivências pessoais ou considerações sobre o trabalho do eu-autor. Já a enunciação da primeira pessoa do plural só é possível de ser determinada a partir do conteúdo do texto e nas inferências feitas com base nesses conteúdos, podendo ser um plural de modéstia, um grupo específico, uma inclusão do autor em maior ou menor grau, ou até mesmo uma exclusão deste.. 2.6. Resumo das possibilidades de uso das pessoas do discurso O resumo abaixo apresenta as possibilidades de uso da primeira e da segunda pessoa do discurso, singular e plural, conforme a gramática normativa e as análises de dados do francês e do português comentado nesta seção. a) EU – A pessoa do discurso que fala (aquele que utiliza a língua no momento da comunicação); um grupo de indivíduos. b) TU – A pessoa com quem se fala (deve ser usado na língua culta); alguém fictício, no sentido genérico. c) VOCÊ(S) – Segunda pessoa indireta do singular e do plural (usado no tratamento íntimo e familiar e substitui “tu” e “vós”); d) NÓS – De autor ou de orador (atenua a afirmação muito marcada de “eu” numa expressão mais ampla e difusa); de afirmação voluntariamente vaga de um “eu” prudentemente generalizado (humildade). e) VÓS – As pessoas com quem se fala (deve ser usado na língua culta); de polidez (referindo-se a uma só pessoa). f) EXPRESSÃO NOMINAL “A GENTE” – Representa a 1ª pessoa do plural como variante do pronome pessoal “nós” (eu + não - eu, comum entre os falantes no Brasil, mais coloquial); refere-se a 1ª pessoa do singular (eu) na linguagem coloquial, no sentido de um “eu” prudentemente generalizado; possui um caráter indeterminado para referências discursivas mais vagas, amplas e indefinidas. A partir desse resumo que inspira a pesquisa será analisado o uso das pessoas do discurso nas frases dos textos que compõem o corpus deste artigo, inclusive nos casos de sujeito oculto, ou seja, em que a pessoa do discurso está marcada apenas pela morfologia verbal.. 3.. ANÁLISE DO USO PRAGMÁTICO DOS PRONOMES Mainguenau (2001) diz que o valor das marcas temporais dos verbos varia de acordo com seu emprego. O mesmo acontece com os embreantes (marcas linguísticas da presença do. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(10) 48. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. enunciador) de primeira e segunda pessoa, que só podem ser interpretados levando-se em consideração o movimento enunciativo do texto em que figuram. Com base nas Gramáticas Normativas, em Benveniste (1988) e Mainguenau (2001) e no Dicionário de Linguística (1973), foram feitas observações quanto ao uso dos pronomes “eu”, “você(s)”, “nós” e da expressão nominal “a gente”, em textos jornalísticos de opinião e em textos publicitários.. 3.1. Análises dos textos opinativos Segue uma apresentação dos enunciados das frases dos textos analisados em que aparecem primeira e segunda pessoa do discurso, mesmo com sujeito oculto. Os dados serão apresentados de acordo com a ordem que os textos foram analisados e as frases numeradas sequencialmente, os pronomes, quando encontrados e explícitos, grifados para análise. O texto 1 “Ambição e ética” (anexo 2), escrito por Stephen Kanitz para a Revista VEJA de 24 de janeiro de 2001, ed. 1684, apresenta os seguintes casos de primeira e segunda pessoa do discurso: (1). “Ambição é tudo o que você pretende na vida.”. (2). “No fim da viagem você estará de volta...”. (3). “As pessoas mais infelizes que eu conheço são as mais ricas.”. (4). “Nunca me esqueço do comentário de uma copeira, na casa de um empresário (...)”. (5). “(...) e as mulheres, numa outra roda, conversavam sobre não sei o que, (...).”. (6). “As pessoas mais ambiciosas que conheço não são pontocom (...)”. (7). “Já a ética são os limites que você se impõe na busca de sua ambição.”. (8). “É tudo o que você não quer fazer na luta para conseguir realizar seus objetivos.”. (9). “Aprendemos a não falar em sala de aula, (...).”. (10) “Não conheço ninguém que tenha sido (...)” (11) “(...) normalmente decidimos nossa ambição antes de nossa ética, (...)” (12) “Quando percebemos que não (...)” (13) “(...) conseguiremos alcançar nossos objetivos, ( ...)” (14) “(...) a tarefa mais importante da vida, especialmente se você pretende ser um estagiário.” (15) “Nunca me esqueço de um almoço, há 25 anos, (...)” (16) “(...) entre empresários, e eu não conseguia (...)” (17) “(...) imaginar o que eu havia dito de errado.” Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(11) Denise Ribeiro. 49. O “eu” dos enunciados (3), (4), (5), (6), (10), (15), (16) e (17) refere-se à pessoa do discurso que fala. É usado, portanto, no sentido tradicionalmente descrito pelas gramáticas normativas. O “você” dos enunciados (1), (2), (7), (8) e (14) refere-se à segunda pessoa do singular, estabelecendo uma proximidade com o leitor que se identifica com o tema ou com as ideias que o autor defende; não se pode dizer, como afirmam os gramáticos, que o “você” é o substituto informal de “tu”, pois se sabe que no português brasileiro atual o “tu” praticamente não aparece. Imaginamos que se o autor fosse escrever de maneira mais formal, usaria “o senhor” ou “a senhora” ou alguma outra forma impessoal no lugar de “você”. O “nós” dos enunciados (9), (11), (12) e (13) é o que expressa as pessoas do discurso “eu” + “você(s), ou seja, o autor + as pessoas com quem ele “conversa”. Tem o sentido de “todos nós que somos ambiciosos”. No texto 2 “O inferno do tráfico” (anexo 3), escrito por Luiz Felipe de Alencastro para a Revista VEJA de 21 de março de 2001, ed. 1693, aparece apenas um enunciado em primeira pessoa do singular e nenhum com “você” e “nós”. O texto está basicamente escrito da terceira pessoa. (18) “(...) e não tenho nada a acrescentar ao comentário perspicaz que Isabela Boscov (...).” Esse “eu” é a pessoa do discurso que fala. Nota-se que o estilo desse autor diferentemente do autor do texto 1, é de distanciamento do leitor, pois apresenta os assuntos sem uso de pronomes de primeira e de segunda pessoa. Faz afirmações sobre os temas, como o seguinte exemplo: (19) “Se as mesmas causas produzirem os mesmos efeitos, outros dias difíceis virão para os brasileiros.” Sabe-se que o autor é brasileiro e os leitores também, mas ele não usa algo como “virão para nós brasileiros.” O texto se apresenta como mais formal que o anterior.. 3.2. Análises dos textos publicitários Segue uma apresentação dos enunciados de publicidade em que aparecem a primeira pessoa do plural do discurso e o “você”. Os dados são apresentados na sequência e de acordo com a ordem em que foram analisados.. O. texto. 3. apresenta. uma. propaganda da “OX COSMÉTICOS”, publicada na Revista VEJA de 13 de maio de 2009, ed. 2112, com o seguinte enunciado: (20) “LINHA OX FACE. VOCÊ QUE PODE SE MOSTRAR, APROVEITE.”. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(12) 50. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. No enunciado (20), o “você” refere-se à segunda pessoa do singular com quem se fala. É importante notar que a publicidade tem um público-alvo definido, no caso, as mulheres. Esse “você” refere-se à “você mulher que pode se mostrar”. No texto 4 a propaganda da “21Embratel”, publicada na Revista VEJA de 25 de agosto de 2010, ed. 2179, apresenta o seguinte enunciado: (21) “Agora nós é que vamos levantar a dele.” (ao fundo da propaganda tem a foto de Ayton Senna com a bandeira do Brasil nas mãos). No enunciado (21), o “nós” é de compreensão indefinida e ampla, referindo-se à empresa e a todos os brasileiros que se unirem ao projeto Cidadãos 21. Acredita-se até que, pela importância de Ayrton Senna e pelo o que ele significou para os brasileiros, todos querem realmente levantar sua bandeira. Isso significa que o uso do “nós” na propaganda refere-se ao “nós” das pessoas do discurso que falam, ou seja, eu + não-eu (eu + tu/vós ou eles), ou seja, todos “nós” brasileiros.. 4.. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir dos objetivos estabelecidos no presente artigo, concluiu-se o que a primeira e a segunda pessoa do discurso são usadas na língua com uma série de nuances de significado que apenas a perspectiva morfológico-sintática da Gramática Normativa não é capaz de descrever. A teoria da enunciação de Benveniste (1988) permitiu perceber o uso pragmático dessas pessoas do discurso, que vai muito além do mencionado pelas Gramáticas Normativas, e como os autores dos textos analisados são hábeis com relação a esses recursos da língua. A análise dos enunciados levou a perceber que muitas vezes o “nós” foi usado no lugar do “eu” e que a expressão nominal “a gente” tem o mesmo uso pragmático do “nós”. Essa expressão nominal, no entanto, não é usada em textos jornalísticos, uma vez que os mesmos, apesar de alguns demonstrarem uma aproximação maior com o leitor, seguem algumas formalidades. Já nos textos de publicidade, essa expressão aparece exatamente para permitir uma aproximação maior com o leitor. A pesquisa também fez verificar que o uso pragmático dessas pessoas do discurso pode provocar efeitos de sentidos diferentes daquele que está explicito no texto, ou seja, o “nós” pode não ser exatamente de “eu + não-eu”, mas, sim, de “eu” ampliado, indefinido ou prudência, conforme o autor do texto deseja aparecer mais ou menos. Há casos em que o “nós” expressa mais de uma pessoa, o autor do texto inclui ou não o leitor na sua própria opinião, ou usa um “nós” coletivo compacto, ou indefinido e amplo. O. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(13) Denise Ribeiro. 51. “você” pode ser percebido como a pessoa com quem se fala, tentando assim, o autor, uma aproximação maior, como um diálogo, com o leitor. Percebeu-se também que o sujeito oculto é muito utilizado pelos autores dos textos de opinião jornalísticos analisados, quando se colocam na primeira pessoa do singular. Imagina-se com isso que os autores, apesar de assumirem sua opinião, tentam de certa forma se esconder ao não utilizar explicitamente o “eu”. A escolha de uma ou outra possibilidade de significação das pessoas do discurso determina, entre outros fatores, o grau de formalidade do texto ou de aproximação com o leitor. Nesse sentido, os textos analisados mostraram que os opinativos de jornal se mantém mais distantes e os publicitários são mais informais, pois procuram um tom de conversa com o leitor, potencial consumidor do produto anunciado. Os de revista parecem ficar no meio termo e procuram estabelecer um “diálogo” com o leitor. E a análise do corpus da pesquisa levou a perceber também que os pronomes possessivos apresentam as características pragmáticas das pessoas do discurso. Esse assunto não foi abordado por não fazer parte dos objetivos desta pesquisa, mas parece ser interessante para futuras pesquisas. Assim, o conhecimento dessas características de uso das pessoas do discurso leva o leitor a uma leitura mais perspicaz e crítica. É importante que esse assunto seja abordado em sala de aula para o desenvolvimento das habilidades de leitura e de produção de textos dos alunos. Para isso, o professor não pode ficar restrito às Gramáticas Normativas porque elas não enfocam esses aspectos e uso da língua. Não é o caso de dizermos se esta ou aquela forma de expressão é melhor ou pior. O objetivo do trabalho foi fazer uma descrição linguística de dados atuais do português, o que levou a confirmar que a Língua Portuguesa oferece muitos recursos de expressão por meio do uso das pessoas do discurso e que a consciência desses fatos contribui para o maior domínio da língua materna.. REFERÊNCIAS ANDRÉ, Hildebrando A. de. Gramática ilustrada. 5.ed. São Paulo: Moderna, 1997. BASTOS, Liliana Cabral. O emprego da 1ª pessoa do singular ou da 1ª pessoa do plural - uma questão discursiva. Letras & Letras, v. 4, n. 1/2, p. 115-130, 1988. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 31. ed. São Paulo: Nacional, 1987. BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral I. 2. ed. Campinas: Unicamp, 1988. BUENO, Elza Sabino da Silva. O uso das variantes nós e a gente pela comunidade de bóias-frias da região de Assis. Estudos Linguísticos, v.XXVIII, p. 403-409, 1999.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(14) 52. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 27.ed. São Paulo: Nacional, 1985. CIPRO NETO, Pasquale. Gramática da Língua Portuguesa/Pasquale & Ulisses. São Paulo: Scipione. 1998. CUNHA, Celso Ferreira da. Gramática da língua portuguesa. Rio de Janeiro: FAE, 1985. DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia. A perda do princípio “evite pronome” no português brasileiro. Sínteses – Teses, v.1, 1996. DUBOIS, Jean et al. Dicionário de Linguística. São Paulo: Cultrix, 1973. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1986. LOPES, Célia R. dos Santos. Nós e a gente no português falado culto do Brasil. D.E.L.T.A., v.14, n.2, p. 405-422, 1988. MAINGUENAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001.. SITES CONSULTADOS http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0697/noticias/nos-quem-cara-palida-0047226 http://veja.abril.com.br/240101/ponto_de_vista.html http://veja.abril.com.br/210301/ponto_de_vista.html Denise Ribeiro Graduada em Letras - Português, Inglês e respectivas Literaturas. Especialista em Leitura e Produção de Textos pela Universidade de Taubaté - Unitau. Especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior pelo Programa Permanente de Capacitação Docente (PPCD) da Universidade Anhanguera - Uniderp.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(15) Denise Ribeiro. 53. ANEXOS Anexo 1 “Nós quem, cara-pálida? No sucesso, quem faz sou eu. No fracasso, somos nós.” Odino Marcondes. Você já pensou em quantas vezes por dia fala você querendo dizer eu? Ou diz nós ou a gente q uando queria dizer eu? No dia-a-dia, nas situações mais absurdas e implausíveis, sou incluído na história dos outros. É um tal de “você deve...”, “você tem que...”, “você não pode...” Outro dia, um alto funcionário do governo dizia na televisão, olhando para a câmera - e, portanto, para mim: - Se você aumentar as exportações para 4 bilhões de dólares... E, logo na seqüência: - Quando você tem um PIB de 800 bilhões de dólares... Fiquei pensando por alguns minutos na minha enorme responsabilidade e importância. A confusão aumenta ainda mais quando o interlocutor aponta para o próprio peito e começa: “quando você...” E logo continua na primeira pessoa do singular. Com freqüência, as pessoas com quem converso fazem um caminho mais longo: começam com você, passam pelo a gente, nós e, finalmente, eu. Tenho me dedicado a investigar as razões que levam a essa abdicação da autoria, a essa mania de simbiose com o interlocutor. Minha intenção é manter um método o mais próximo possível do científico, tentando identificar as situações em que as pessoas usam cada sujeito. Vamos tomar um exemplo próximo do dia-a-dia corporativo, universo de que trata esta revista. Reparei que, nas empresas, na maior parte das vezes em que falam de uma empreitada de sucesso, as pessoas tendem a usar a primeira pessoa do singular. Então, temos: “minha equipe...” ou “eu escolhi...”, “meu projeto...” e frases do gênero que você deve estar acostumado a ouvir naquelas reuniões com a diretoria. Já o nós é usado mais freqüentemente para criar uma idéia de coletivo e, assim, diluir o ônus de um fracasso. Outra situação pode ser, também, a de construir no próprio discurso uma válvula de escape para um eventual confronto: se eu faço uma afirmação no coletivo, sempre posso escapar pela tangente quando me cobrarem a autoria.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(16) 54. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. E quando você descobre que nós, na realidade, é só você? Zorro, naquela historinha clássica em que está cercado de índios, virou-se para Tonto, seu amigo pelevermelha, e disse: “Tonto, nós estamos fritos!” E o índio, sem pensar duas vezes: “Nós quem, cara-pálida?” Tonto mostra que o nós pode ser confortável não apenas porque inclui, mas, em outros casos, justamente pelo contrário. A primeira pessoa do plural, outras vezes, é usada para dar a sensação de poder. Exemplos? Fácil. Repare quando aquele colega que trabalha em uma grande multinacional diz: “nós investimos mais de 150 milhões de reais neste ano...” O uso do plural é, ainda, comum nos redutos burocráticos, onde a expressão do eu é reprimida e convenientemente evitada: “Vimos, por intermédio desta...” E lá vem a bomba. Não é à toa que, nesses casos, nunca achamos as pessoas com quem falar. Já tentou esclarecer alguma dúvida com a companhia de água ou o órgão que emite multas de trânsito? Pergunte: por favor, quem cuida disso? É fulano. E o fulano passa para o sicrano. E o sicrano, para o beltrano. E assim vai. Até que o sujeito plural, isento de qualquer responsabilidade, revela-se na célebre saída: “nós só cumprimos ordens”. Mas foi no esporte que encontrei um dos casos mais complicados. O sujeito se abstraiu completamente da ação e chamou uma terceira pessoa na conversa. Viola, sendo entrevistado após sua venda para o Sevilha, saiu-se com esta pérola: - E aí, Viola, sua transferência já está certa? - perguntou o repórter. - Só depende dos exames que os médicos vão fazer no corpo do Viola... - disse o jogador. Arrisco um palpite: será que o jogador, geralmente de origem humilde, tem dificuldade de assumir novos papéis? Incapaz de se ver obtendo sucesso a partir de uma identidade original, precisa criar uma terceira pessoa? Esse vício, hábito ou dificuldade - não consegui classificar ainda - pode ter sérias conseqüências. Além de abrir mão de algo que é meu (ou seu?), esse modo de falar levanta uma questão muito mais importante. Quando meu discurso está entremeado por um monte de nós, você e outras pessoas, fica a pergunta: quem é que está falando, afinal? Odino Marcondes é consultor de empresas e sociólogo. Artigo publicado na Revista Exame de 22 de setembro de 1999, ed. 697.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(17) Denise Ribeiro. 55. Anexo 2 - “Ambição e ética” Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição. Ambição é tudo o que você pretende fazer na vida. São seus objetivos, seus sonhos, suas resoluções para o novo milênio. As pessoas costumam ter como ambição ganhar muito dinheiro, casar com uma moça ou um moço bonito ou viajar pelo mundo afora. A mais pobre das ambições é querer ganhar muito dinheiro, porque dinheiro por si só não é objetivo: é um meio para alcançar sua verdadeira ambição, como viajar pelo mundo. No fim da viagem você estará de volta à estaca zero quanto ao dinheiro, mas terá cumprido sua ambição. As pessoas mais infelizes que eu conheço são as mais ricas. Quanto mais rico, mais infeliz. Nunca me esqueço do comentário de uma copeira, na casa de um empresário arquimilionário, que cochichava para a cozinheira: “Todas as festas de rico são tão chatas como esta?” “Sim, todas, sem exceção”, foi a resposta da cozinheira. De fato, ninguém estava cantando em volta de um violão. Os homens estavam em pé numa roda falando de dinheiro, e as mulheres numa outra roda conversavam sobre não sei o que, porque eu sempre fico preso na roda dos homens falando de dinheiro. Não há nada de errado em ser ambicioso na vida, muito menos em ter “grandes” ambições. As pessoas mais ambiciosas que conheço não são os pontocom que querem fazer uma IPO (sigla de oferta pública inicial de ações) em Nova York. São os líderes de entidades beneficentes do Brasil, que querem “acabar com a pobreza do mundo” ou “eliminar a corrupção do Brasil”. Esses, sim, são projetos ambiciosos. Já ética são os limites que você se impõe na busca de sua ambição. É tudo o que você não quer fazer na luta para conseguir realizar seus objetivos. Como não roubar, mentir ou pisar nos outros para atingir sua ambição. A maioria dos pais se preocupa bastante quando os filhos não mostram ambição, mas nem todos se preocupam quando os filhos quebram a ética. Se o filho colou na prova, não importa, desde que tenha passado de ano, o objetivo maior. Algumas escolas estão ensinando a nossos filhos que ética é ajudar os outros. Isso, porém, não é ética, é ambição. Ajudar os outros deveria ser um objetivo de vida, a ambição de todos, ou pelo menos da maioria. Aprendemos a não falar em sala de aula, a não perturbar a classe, mas pouco sobre ética. Não conheço ninguém que tenha sido expulso da faculdade por ter colado do colega. “Ajudar” os outros, e nossos colegas, faz parte de nossa “ética”. Não colar dos outros, infelizmente, não faz. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(18) 56. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. O problema do mundo é que normalmente decidimos nossa ambição antes de nossa ética, quando o certo seria o contrário. Por quê? Dependendo da ambição, torna-se difícil impor uma ética que frustrará nossos objetivos. Quando percebemos que não conseguiremos alcançar nossos objetivos, a tendência é reduzir o rigor ético, e não reduzir a ambição. Monica Lewinsky, uma insignificante estagiária na Casa Branca, colocou a ambição na frente da ética, e tirou o Partido Democrata do poder, numa eleição praticamente ganha, pelo enorme sucesso da economia na sua gestão. Definir cedo o comportamento ético pode ser a tarefa mais importante da vida, especialmente se você pretende ser um estagiário. Nunca me esqueço de um almoço, há 25 anos, com um importante empresário do setor eletrônico. Ele começou a chorar no meio do almoço, algo incomum entre empresários, e eu não conseguia imaginar o que eu havia dito de errado. O caso, na realidade, era pessoal: sua filha se casaria no dia seguinte, e ele se dera conta de que não a conhecia, praticamente. Aquele choro me marcou profundamente e se tornou logo cedo parte da ética na minha vida: nunca colocar minha ambição à frente da minha família. Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição. Stephen Kanitz é administrador. Artigo publicado na Revista Veja de 24 de janeiro de 2001, ed. 1684.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(19) Denise Ribeiro. 57. Anexo 3 - “O inferno do tráfico” A queda na demanda de drogas nos Estados Unidos redundará num aumento da oferta em outros países e dias difíceis virão para os brasileiros. O filme Traffic, de Steven Soderbergh, dá uma idéia da inferneira em que se enfiará nosso país se o narcotráfico tupiniquim medrar um bocadinho mais. O filme está sendo projetado no Brasil e não tenho nada a acrescentar ao comentário perspicaz que Isabela Boscov escreveu sobre ele (VEJA, 14 de março) – senão o fato de que a poeira vermelha, o espanhol suave dos mexicanos e a cara meio maranhense de Benicio Del Toro dão uma abrasileirada ao filme, tornando-o ainda mais inquietante. Pelo menos para quem está longe, assistindo a tudo no meio de uma fleumática platéia estrangeira. Já faz bastante tempo que o narcotráfico se transformou num componente geopolítico essencial do mundo contemporâneo. Agora, as estratégias de repressão confrontam-se com o enorme poder de fogo acumulado pelos capitais e pelas redes de proteção dos narcotraficantes. No horizonte, o surgimento de países comprometidos de cima a baixo nesse lucrativo ramo do comércio internacional. Reides nas zonas produtoras, ataques à logística dos cartéis e aos distribuidores de drogas compõem a panóplia da comunidade internacional nessa guerra. Economistas e estrategistas de renome elaboraram análises sofisticadas sobre a eficácia relativa dessas ações repressivas. Entretanto, nos cabedais de sua História, os brasileiros detêm uma excelente lição sobre o assunto. De fato, de 1822 a 1850, o Brasil foi o maior país-traficante do mundo. A economia, a sociedade, o regime político, todos tiravam proveito do tráfico negreiro. O negócio era de porte: os cerca de 335.000 africanos contrabandeados para o país entre 1841 e 1850 valiam uma quantia correspondente a 28% do valor das importações legais brasileiras. Em volta agiam cartéis traficantes de brasileiros e portugueses, americanos, espanhóis e até de napolitanos. Muita gente enriqueceu nessas atividades criminosas. Em Os Maias (1888), Eça de Queiroz diz que Maria Monforte, a mãe de Carlos Eduardo e Eduarda, era chamada “a negreira” porque seu pai fizera fortuna no tráfico de africanos para o Brasil. De saída, o romance sugere a sinistra associação entre a herança negreira e a sina dos amantes malditos. Resta que a pirataria brasileira parou de pronto em 1850, quando ainda dava muito dinheiro. Por quê? Por causa das negociações, comandadas pelo hábil Eusébio de Queiroz, entre negreiros, fazendeiros e o governo imperial. No acordo, a cessação do tráfico negreiro foi compensada pelo pacote do governo em favor dos fazendeiros: baixa das tarifas de exportação, política imigratória e financiamento das. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

(20) 58. O uso pragmático da primeira e da segunda pessoa do discurso em textos de opinião e de publicidade da imprensa escrita atual. estradas de ferro (fundamental para os fazendeiros de café dependentes das tropas de mulas). Trocando em miúdos: o tráfico negreiro transatlântico acabou porque a demanda acabou. É nessa direção que o New York Times (28 de novembro de 2000) dirige suas críticas à política de repressão ao tráfico de drogas nos Estados Unidos. Comentando justamente o filme Traffic, o jornal registra que o governo gasta 19,2 bilhões de dólares anuais na luta contra o narcotráfico, mas o número de viciados “duros” de cocaína não diminuiu (3,5 milhões) e o de heroína aumentou (de 600.000 para 980.000) na última década. Ora, escreve o NYT, todos os estudos mostram que o tratamento dos usuários tem muito mais efeito que a repressão na redução do uso de entorpecentes. Ou seja, o tráfico de drogas para os Estados Unidos diminuirá quando a demanda americana se reduzir, como reconheceu o próprio presidente Bush em sua recente visita ao México. O problema é que toda queda na demanda americana redundará num aumento da oferta em outros países. Foi assim com o tráfico negreiro: o negócio tornou-se quase incontrolável no Brasil e em Cuba depois de 1808, quando os americanos e os ingleses proibiram a entrada de africanos em seus territórios. Se as mesmas causas produzirem os mesmos efeitos, outros dias difíceis virão para os brasileiros. Luiz Felipe de Alencastro é historiador. Artigo publicado na Revista VEJA de 21 de março de 2001, ed. 1693.. Revista de Educação • Vol. XII, Nº. 14, Ano 2009 • p. 39-58.

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Referências

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