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Pars plana vitrectomy for complications of ocular to�ocariasis: report of 6 cases

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Academic year: 2019

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Vitrectomiapars

plana

para tratamento de complicações de

toxocaríase ocular: relato de 6 casos

Pars plana

vitrectomy for complications of ocular to�ocariasis: report of 6 cases

Carlos A. Moreira Jr. !1l Josmar Sabage !3l Ana Teresa R. Moreira !3l

"> Professor Títular de Oftalmologia da Universidade Federal do Paraná.

'" Fellow do Serviço de Retina e Vítreo do Hospital de O lhos do Paraná.

(l\ Professora Assistente de Oftalmologia da Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná.

Endereço para correspondência: Prof. Carlos A. Moreira Jr. Rua Pres. Taunay, 483 - Curitiba - 80730-200

ARQ. BRAS. OFTAL. 58(3), JUNH0/1995

RESUMO

A toxocaríase ocular pode evoluir como granuloma posterior de retina, granuloma periférico ou como endoftalmite. Seu tratamento é inicialmente clínico, entretanto, em casos de severo dano ocular, o tratamento poderá ser cirúrgico, através de vitrectomia.

São relatados neste estudo, seis casos de toxocaríase ocular e descolamento de retina, com A V pré-operatória que variou de PL a movimentos de mão, e que foram submetidos à vitrectomia na tentativa de recuperação visual. Os pacientes foram divididos em dois grupos: 1 - crianças menores (7-10 anos) e com apresentação clínica com forte componente inflamatório; II - pacientes com mais idade (19-22 anos) e que apresentaram descolamento de retina por rotura gigante e granuloma por toxocaríase. Destes, apenas 2 pacientes do grupo II apresentaram significativa melhora visual. Os outros mantiveram a mesma A V pré-operatória ou pioraram, devido à ocorrência de intenso processo inflamatório no pós-operatório (P. O.)

1 Palavras-chave: Toxocaríase ocular; Descolamento de retina; Vitrectomia.

INTRODUÇÃO

Os animais domésticos e silvestres possuem uma série de parasitas pró­ prios, cujas larvas infectantes só são capazes de completar o ciclo quando alcançam seu hospedeiro específico. Caso as larvas desses parasitas ani­ mais alcancem o homem, elas não se­ rão capazes de evoluir neste hospedei­ ro anormal, podendo então realizar migrações cutâneas ou viscerais. Este fato ocorre com a larva migrans, que ao atingir o ser humano se desenvolve de duas maneiras: a que penetra na pele (larva migrans cutânea), e a que é ingerida e migra para inúmeras vísceras (larva migrans visceral) 1 •

A larva migrans visceral, é mais uma síndrome devida a vários agentes etiológicos. Entretanto, cabe a um

ascarididae de cão, o Toxocara canis, ser o agente causal mais comum 1 • 2•

Eliminados em grande número pe­ las fezes de cães jovens e sendo extre­ mamente resistentes às condições ad­ versas, os ovos ficam presentes no solo, em águas contaminadas ou em alimentos, que uma vez ingeridos con­ taminam o ser humano. Estes ovos larvados eclodem no intestino e as lar­ vas migram pelo sistema circulatório para vários órgãos, como: figado, pul­ mões, rins, coração, cérebro e olhos 1 · 3· A inflamação ocular causada por Toxocara canis foi inicialmente des­ crita por Wilder em 1 950 4-6. Hoje as lesões da toxocaríase ocular são des­ critas como: endoftalmites crônicas, granulomas no polo posterior ou granulomas na periferia da retina 3• 7• Acredita-se que a larva atinge o olho

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Vitrectomia pars plana para tratamento de complicações de toxocaríase ocular: relato de 6 casos

através dos vasos ciliares, ou pela ar­ téria central da retina, localizando-se na retina, embora já tenha sido encon­ trada no vítreo 3· 5•

O propósito deste estudo é relatar casos graves de toxocaríase ocular com descolamento de retina, onde se utilizou a vitrectomia via pars plana como terapêutica.

RELATO DOS CASOS

Seis pacientes com suspeita clínica de toxocaríase ocular, e descolamento de retina foram submetidos à vitrecto­ mia via pars plana, na tentativa de se restabelecer a anatomia e função retinianas, bem como, eliminar a rea­ ção inflamatória e os possíveis nema­ tóides intra-oculares. Todos os pacien­ tes eram jovens e apresentavam o pro­ blema em apenas um olho, sendo o outro olho normal . Também, todos apresentaram ensaio imunoabsorvente ligado à enzima (ELISA) com soro adsorvido positivo para toxocaríase.

Quatro pacientes eram do sexo mas­ culino e 2 do sexo feminino. Quatro apresentavam o problema no OE e dois no OD. Os pacientes foram separados em grupos de acordo com a apresenta­ ção clínica da doença ocular: Grupo 1 -pacientes mais jovens (7 a 1 0 anos) e que apresentavam um grande compo­ nente inflamatório; Grupo 2 - pacien­ tes com mais idade ( 1 9 a 22 anos) e que apresentavam descolamento de re­ tina por rotura gigante por granuloma de toxocaríase e nos quais o compo­ nente inflamatório era menor.

GRUPO J

Caso 1 - Paciente de 7 anos, do sexo feminino, apresentava leucocoria e exotropia no olho esquerdo (OE), com acuidade visual (A V) de percep­ ção de luz (PL). Ao exame oftalmos­ cópico observam-se a presença de te­ cido fibro-vascular atrás do cristalino, obscurecendo a visão da retina (Figura 1 ). O segmento anterior apresentava

Figura 1 - Forma endoftalmítica da toxocaríase ocular durante a cirurgia de vitrectomia.

células, mas a reação inflamatória não era intensa. O exame oftalmológico do olho direito (OD) estava dentro da normalidade com A V de 20/20. A PIO era de 13 mmHg em AO. Foram solici­ tados vários exames laboratoriais para elucidar o diagnóstico desta uveite posterior, os quais mostraram-se nor­ mais, com exceção do ELISA para toxocara (0,4 U OD), o que permitiu o diagnóstico de toxocaríase ocular na forma endoftalmítica. A ecografia de­ monstrava intensa opacidade vítrea e descolamento de retina total. A pacien­ te, foi então, submetida à vitrectomia e lensectomia, cintagem com silicone sólido e inj eção de gás C 3 F 8 . A acuidade visual seis semanas após foi de PPL. Havia um intenso processo inflamatório intra-ocular e não foi possível a observação da retina. Ape­

sar da administração de corticóide sistémico e tópico, dois meses após a cirurgia a PIO era de 6 mmHg e havia um descolamento total da retina. Seis meses após a cirurgia, persistia o descolamento de retina do OE, sem PL e a PIO era de 9 mmHg. Nesta época o

olho apresentava-se calmo, sem sinais inflamatórios.

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Vitrectomia pars plana para tratamento de complicações de toxocaríase ocular: relato de 6 casos

Figura 2 - G ranuloma posterior da toxocaríase ocular, mostrando pregas fixas da retina com descolamento associado.

retornou apenas 3 meses após a cirur­ gia com o OD em pré-phtisis, sem PL e PIO de 3 mmHg.

Caso 3 - Paciente de 8 anos, sexo masculino, com A V de movimentos de mão no OE e exotropia. O exame oftalmoscópico revelou células no ví­ treo com a presença de um descola­ mento de retina com pregas fixas e a presença de granuloma posterior su­ ge sti vo de toxocara. A hipótese diagnóstica de toxocaríase ocular foi confirmada com o ELISA adsorvido de 0,5 U OD. O exame oftalmológico no OD apresentava-se normal com A V de 20/2 0 . F o i , então , realizada vitrectomia, endolaser, dissecção de membranas, cintagem com silicone sólido e injetado C3F8. Não foi possí­ vel desfazer a pregas retinianas que eram fi x a s . Trê s m e s e s após a acuidade visual é de PPL e a PIO de 1 3 mmHg . Houve severa reação inflama­ tória no P.O. e descolamento total da retina.

GRUPO li

sexo masculino, apresentava acuidade visual de PL no OE e 20/20 no OD. O exame oftalmoscópico do OE indicava um descolamento total de retina por rotura gigante (Figura 3), com presen­ ça de células inflamatórias no vítreo. O paciente foi submetido à

vitrec-tomia pars plana (VPP) e lensecvitrec-tomia. Foi inj etado perfluorocarbono líquido (PFCL) e no momento da eversão do retalho retiniano, percebeu-se granu­ loma posterior próximo à papila carac­ terístico de toxocaríase ocuÍar. Foi rea­ I izada endofotocoagulação na borda da rotura retiniana e sobre o granu­ loma posterior (Figura 4). Neste últi­ mo local a fotocoagulação foi de alta intensidade até percebermos a forma­ ção de pequenas bolhas de ar quando do disparo de laser sobre o granuloma. Finalmente, colocamos óleo de sili­ cone ( 1 000 centistokes) na cavidade vítrea. Foi solicitado ELISA com soro adsorvido, o qual foi positivo para toxocara, apresentando um valor bas­ tante elevado de 0,8 U OD. No P.O. utilizou-se apenas anti-inflamatóri o não-hormonal . Este paciente apresen­ tou acuidade visual com correção de 20/200, 6 meses após a cirurgia.

C aso 5 - Paciente de 1 9 anos, sexo masculino, com acuidade visual no OE de PPL e 20/20 no OD. O exame oftalmoscópico mostrava uma uveíte granulomatosa (granulomas periféri­ cos e posteriores) com descolamento

Caso 4 - Paciente de 22 anos, do Figura 3 - Descolamento de retina por rotura gigante em olho com toxocaríase ocular.

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Vitrectomia pars plana para tratamento de complicações de toxocaríase ocular: relato de 6 casos

Figura 4 - Mesmo olho da figura 3, com a retina já aplicada e endofotocoagulação a laser sobre o granuloma posterior da toxocaríase ocular.

total de retina e rotura gigante no OE. Foram solicitados exames l abora­ toriais (VDRL, Proteína C Reativa, Hemograma, VHS, PPD, lgM e IgG para Toxoplasmose e E L I S A para Toxocara), além de raio X de tórax. Todos os exames laboratoriais esta­ vam dentro da normalidade, exceto o ELISA para toxocara que apresentava um valor elevado de 0,9 U OD. O pa­ ciente foi submetido à vitrectomia, lensectomia endolaser sobre os granu­ lomas e inj etado gás C3F8. Apresen­ tou no vigésimo dia de pós-operatório novo descolamento de retina, sendo então realizada nova intervenção ci­ rúrgica com aplicação de mais laser nos granulomas e colocação de óleo de silicone. Também, somente foi admi­ ni strado anti-inflamatório não­ hormonal no P.O. Sua A V 4 meses após a cirurgia é CD a I metro. Existe a presença de uma pequena bolha de óleo de silicone na câmara anterior e a retina inferior encontra-se tracionada por uma prega retiniana periférica.

Caso 6 - Paciente de 20 anos, sexo feminino, com A V no OD de PL e PIO

de 9 mmHg. O exame fundoscópico do 00 indicava um descolamento de reti­

na por rotura gigante com sinais infla­

matórios no vítreo. O OE apresentava­ se dentro da normalidade com A V de 20/20. Todos os exames laboratoriais foram normais e apenas o ELI S A adsorvido para toxocara fo i positivo (0,92 U OD). Foi, então, realizado vitrectomia associada à facectomia, e verificou-se a presença de granuloma

periférico. Realizou-se endofotocoa­

gulação na borda da rotura e sobre o granuloma, mais cintagem e coloca­ ção de óleo de silicone. Aproximada­ mente três meses depois da cirurgia a paciente apresentou novo descolamen­ to de retina, sendo realizada nova in­ tervenção cirúrgica, ou sej a, vitrec­ tomia com óleo de silicone. Cinco me­ ses depois a retina apresenta-se colada e a A V é de 20/400.

DISCUSSÃO

No Reino Unido cerca de trezentos casos de larva migrans visceral são re­ latados por ano. Destes 50%

apresen-tam comprometimento ocular 8 , cujo

diagnóstico é feito clinicamente e com suporte laboratorial 7• 8•

Clinicamente o diagnóstico é basea­ do no exame oftalmoscópico, na idade do paciente, e na história de contato com animais possivelmente infectan­ tes 7· 8•

Na oftalmoscopia não se pode es­ quecer de possíveis diagnósticos dife­ renciais, como: Doença de Coats, reti­ noblastoma, fibroplasia retro lentai e

outras causas de uveítes posteriores 6• 7•

Deve-se lembrar também que a toxo­ caríase ocular é geralmente uma lesão unilateral, sem prevalência por qual­ quer um dos olhos 3, o que foi consta­ tado em nossos casos.

A idade dos pacientes que apresen­ tam toxocaríase ocular, na maioria dos casos relatados, mostra uma incidên­ cia maior na faixa etária entre 4 e 6 anos, comprovados por exames histo­ lógicos. Este estudo, entretanto, apre­ senta pacientes com idades entre 7 e 22 anos, fato este que já foi demons­

trado ser possível em outros relatos 3 .

Quanto aos exames laboratori ais destacamos principalmente o estudo da eosinofilia no sangue, no aquoso ou

no vítreo 9 e a técnica de imuno­

enzima (ELISA) com soro adsorvido para estudo de anticorpos contra toxo­ cara no soro. Não se pesquisou a eosi­ nofilia sanguínea neste estudo por tra­ tar-se de um exame pouco específico e que não elucidaria o diagnóstico. Ape­ nas o teste de ensaio imunoabsorvente ligado à enzima foi empregado e utili­ zou-se a metodologia de densidade óptica, onde os valores acima de 0,3 U eram considerados positivos. Basean­ do-se nos resultados de ste exame sorológico, observamos valores positi­ vos (acima de 0,4 U) em todos os pa­ cientes, e valores mais elevados em pacientes com mais idade, possivel­ mente por apresentarem uma agressão mais prolongada, ou ainda por apre­ sentarem uma reação imunológica

mais exagerada ao antígeno do T. ca­

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Vitrectomia pars plana para tratamento de complicações

de toxocaríase ocular: relato de 6 casos

literatura dados que confirmassem tais observações.

Os pacientes mais jovens apresen­ taram formas mais graves de altera­ ções retinianas como endoftalmite (7 anos), e descolamento de retina com pregas fixas com granuloma posterior (8 e 10 anos). Neles, também, a reação inflamatória foi maior. Os 3 casos que obtiveram o melhor resultado cirúrgi­ co apresentavam descolamento de re­ tina por rotura gigante, sendo possível uma boa fotocoagulação sobre o gra­ nuloma e a idade variou entre 1 9 e 22 anos.

O tratamento da toxocaríase ocular é difícil. Não se encontrou ainda ne.­ nhum agente quimioterápico que pos­ sa destruir o organismo "in vivo" se­ guramente, como também não se co­ nhece completamente o mecanismo íntimo da injúria sofrida pelo olho du­

rante a infestação deste helminto 6.

O tratamento clínico baseia-se na utilização de corticóides orais, ou atra­ vés de injeções de corticóides perio­ culares se a lesão for periférica. Embo­ ra os agentes anti�helmínticos não te­ nham a capacidade de penetração ocu­ lar, alguns autores pregam seu uso, sempre associados a corticóides, uma vez que a morte das larvas aumenta a

reação inflamatória local 46

O tratamento cirúrgico baseia-se na fotocoagulação, nos casos de granu­

loma posterior 3 , e vitrectomia em ca­

sos de descolamento regmatogênico

ou tracionai de retina 3 • 6• 8, como tam­

bém em opacidades vítreas.

Neste estudo, utilizou-se uma com­ binação de ambos os tratamentos

ci-ARQ. BRAS. OFT AL. 58(3), JUNH0/1 995

rúrgicos, ou sej a, realizou-se uma vitrectomia e também fotocoagulação per-operatória, e justamente no pacien­ te em que o endolaser foi aplicado com maior intensidade obteve-se a melhor acuidade visual (20/200).

Dadas as características da toxo­ caríase ocular, juntamente com a bai­ xa efetividade de sua terapêutica atual devemos enfatizar que a vitrectomia associada com aplicação de laser com alta intensidade, dá melhores resulta­ dos apenas nos casos em que se pode

adequadamente identificar o

granuloma do T. canis e o descola­

mento de retina não tem pregas fixas. Os casos que apresentam a forma endoftalmítica ou descolamento de re­ tina com pregas fixas têm prognóstico sombrio, sendo que nestes casos a vitrectomia têm ação duvidosa, devido ao alto índice de complicações e pos­ sibilidade de atrofia do globo ocular.

SUMMARY

Ocular toxocariasis may appear as posterior or peripheral granuloma of

the retina, or as endophthalmitis. Jts treatment is initial/y clinicai,

however, in cases with severe ocular damage, vitrectomy may be

attempted.

ln the present work, we report 6 cases of ocular toxocariasis and retina/ detachment, which were submmitted to pars plana vitrectomy in an attempt to achieve visual recovery. Patients were divided in two groups: I - younger children

(7-10 yo) and presenting with a severe

ocular injl.amatory reaction; II -patients a little o/der (/9-22 yo) who presented with a giant retina/ tear

and retina/ detachment due to toxocariasis granuloma. Of the 6 cases, only 2 revealed a significant visual improvement. ln others, visual acuity remained the sarne or worse, mainly due to the occurrance of very severe post-operatory intraocular injl.ammation.

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Figura 1  - Forma endoftalmítica da toxocaríase ocular durante a cirurgia de vitrectomia
Figura 2 - G ranuloma posterior da toxocaríase ocular, mostrando pregas fixas da retina com descolamento  associado
Figura 4 - Mesmo olho da figura 3, com a retina já aplicada e endofotocoagulação a laser sobre o granuloma  posterior da toxocaríase ocular

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