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A cerâmica campaniense de Mesas do Castelinho

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Academic year: 2021

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DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

A CERÂMICA CAMPANIENSE DE MESAS DO CASTELINHO

Catarina Susana Antunes Alves

Mestrado em Arqueologia

2010

Volume I

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DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

A CERÂMICA CAMPANIENSE DE MESAS DO CASTELINHO

Catarina Susana Antunes Alves

Mestrado em Arqueologia

Dissertação orientada pelo Prof. Doutor Carlos Fabião

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À memória de Carla Matias 

 

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Agradecimentos 

A concretização deste projecto não teria sido possível sem a contribuição de inúmeras  pessoas que me apoiaram e incentivaram ao longo deste percurso, pelo que aqui expresso o  meu mais profundo agradecimento. 

  Em  primeiro  lugar,  ao  Prof.  Doutor  Carlos  Fabião  que,  com  imensa  paciência,  acompanhou  e  orientou  todas  as  linhas  que  compõem  este  texto,  sempre  com  uma  análise  crítica que me guiou por “caminhos” mais sensatos. 

  À  Prof.  Doutora  Ana  Margarida  Arruda  pela  disponibilidade  e  partilha  de  alguns  critérios de classificação cerâmica. 

À  Prof.  Doutora  Catarina  Viegas  pela  prontidão  em  partilhar  comigo  alguma  da  bibliografia  de  difícil  acesso,  cuja  consulta  se  mostrou  fulcral  para  a  concretização  deste  projecto. 

  Ao  Mataloto,  que  acompanhou,  bem  de  perto,  todo  o  processo,  pelas  conversas  e  questões sempre pertinentes. Por toda a ajuda e incentivo muito obrigado. 

  Agradeço  na  mesma  medida  à  Susana  Estrela  pelas  estimulantes  conversas  sobre  Mesas do Castelinho que em muito beneficiaram este trabalho. 

Não posso deixar de agradecer ao Carlos Pereira que disponibilizou bibliografia difícil  de aceder. 

  À  Márcia  perita  em  “moer  juízos”,  à  Tisha  pela  sua  permanente  boa  disposição  e  incentivo,  à  Loira,  ao  Bocas  e  à  Guida  amigos  de  longa  data  e  sempre  presentes  apesar  da  distância. 

  Ao Josué pela paciência e apoio essencial em momentos de desânimo. 

  Por último, mas nunca em último, um agradecimento muito especial à minha família,  que me aturou e albergou nestes últimos meses e sem a qual  nada, mas mesmo nada, seria  possível. 

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Resumo: 

O  sítio  arqueológico  Mesas  do  Castelinho,  Almodôvar,  é  de  um  povoado  fortificado  fundado  nos  finais do séc. V‐IV a.C. que mais tarde, já em pleno séc. II da mesma Era, pelas evidências materiais, revela,  fortes e precoces, contactos com o mundo Romano, sem sinais de qualquer espécie de violência.  

A ocupação Romana Republicana do povoado caracteriza‐se pela reorganização arquitectónica, que  definiu um urbanismo ortogonal, já sem sistema defensivo, bem como por um acervo material de dimensões  impressionantes,  cujas  potencialidades  informativas,  acompanhadas  das  leituras  estratigráficas  fornecidas  por um sítio escavado de acordo com os pressupostos metodológicos avançados por Ph. Barker (Barker, 1982)  e  complementados  pela  leitura  estratigráfica  preconizada  por  E.  Harris  (Harris,  1991),  definem  o  povoado  como  um  dos  mais  importantes  para  a  compreensão  da  evolução  das  comunidades  indígenas  face  à  nova  realidade e poder romano. 

Da  imensa  colecção  de  material  arqueológico  recolhido,  ao  longo  de  20  campanhas  de  escavação,  são aqui apresentados os dados referentes à cerâmica campaniense. O conjunto, um dos mais expressivos de  todo o território actualmente português, pelo menos dos que se conhecem publicados, encerra em si diversas  questões,  como  a  existência  de  formas  raras  ou  únicas,  mas  talvez  mais  importante  a  constatação  de  sequências  estratigráficas  que  permitem  abordar  o  tema  da  romanização  do  povoado,  relações  com  o  território envolvente e a sua integração nos circuitos comerciais de ligação com o mundo litoral e a bacia do  Mediterrâneo.       

Palavras‐chave: Mesas do Castelinho, Romano Republicano, Cerâmica Campaniense.  

Abstract: 

The archaeological site of Mesas do Castelinho, in Almodôvar, is a fortified settlement founded on  the  late  5th  to  6th  Century  B.C.,  which  subsequently,  by  its  material  evidence,  on  the  2nd  Century  B.C.,  reveals significant and early contacts with the Roman world with no signs of conflict. 

The Roman Republican occupation of the settlement is characterized by architectural reorganization  in  the  form  of  an  orthogonal  plan  no  longer  having  a  defence  system,  as  well  as  an  impressive  material  collection, with huge amount of information, along with the stratigraphic readings that an excavated site can  provide following the methodology of Ph. Barker (Barker, 1982) complemented by the stratigraphic reading  recommended  by  E.  Harris  (Harris,  1991),  making  the  site  one  of  the  most  important  settlements  to  understand the evolution of native communities facing the new Roman rule. 

Here  we  present  the  data  concerning  campanian  ware  originated  from  the  vast  collection  of  archaeological material recovered over 19 excavation campaigns. The ensemble, one of the most significant  on what is currently Portuguese territory, at least from those already published, encompasses various issues,  such  as  the  existence  of  rare  or  unique  forms  on  the  ensembles  already  published,  but  perhaps  most  importantly,  the  observation  of  stratigraphic  sequences  that  allow  us  to  establish  a  connection  with  the  Romanization  of  the  settlement,  the  relations  with  the  surrounding  territory  and  its  integration  on  commercial circuits that were connected to the Mediterranean basin coastline. 

Keywords: Mesas do Castelinho, Roman Republican, Campanian ware.   

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Índice

Volume I

1. O POVOADO DE MESAS DO CASTELINHO NA ANTIGUIDADE

1.1 Enquadramento natural ... ...8

1.2 Mesas do Castelinho e o território envolvente: enquadramento histórico-arqueológico...9

2. BREVE SINOPSE DOS TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS EM MESAS DO CASTELINHO 2.1 O pré 1986……….. ... ...11

2.2 A intervenção de C.J. Ferreira ...13

2.3 O projecto Mesas do Castelinho (1988 a 2008) ...13

2.3.1 Síntese dos resultados: faseamento e arquitectura ...14

2.3.1.1 Ocupação da Idade do Ferro ...15

2.3.1.2 Ocupação Romana Republicana ...15

2.3.1.3 Ocupação Romana Imperial ...18

2.3.1.4 Ocupação Islâmica ...19

3. A CERÂMICA CAMPANIENSE 3.1 História da investigação (breve sinopse) ...19

3.2 O estudo em Portugal ...22

3.3 O actual estado dos conhecimentos, seus condicionalismos e questões... 23

4. A COLECÇÃO DO SÍTIO MESAS DO CASTELINHO 4.1 Metodologia….. ...24

4.1.1 Composição, tratamento da amostra e critérios de quantificação...24

4.2 Áreas de produção ...28

4.2.1 Campânia………. ...28

4.2.1.1 cerâmica Campaniense A……….. ...28

4.2.1.2 cerâmica Campaniense B de Cales ...32

4.2.2 Etrúria…..……….. ...34

4.2.2.1 cerâmica Campaniense B de Arezzo…..……….. ...34

4.2.3 “local regional” de verniz negro…..……….. ...36

4.2.3.1 cerâmica de pasta cinzenta com verniz negro de imitação de Campaniense B ...38

4.2.3.2 cerâmica de pasta laranja com verniz negro de imitação de Campaniense A…40 4.3 Caracterização dos fabricos identificados ...41

4.3.1 Fabrico da Campânia F1 ...41

4.3.1.1 Fabrico da Campânia F2 ...41

4.3.2 Fabrico de Cales F3 ...42

4.3.2.1 Fabrico de Cales F4 ...42

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4.3.3 Fabrico de Arezzo F5 ...43

4.3.3.1 Fabrico de Arezzo F6 ...43

4.3.4 Fabrico local ou regional F7...43

4.3.4.1 Fabrico local ou regional F8 ...44

4.3.5 Análise dos dados ...45

4.4 Categorias cadas 4.4.1 categoria 1000 ...50 4.4.2 categoria 2000……… ...59 4.4.3 categoria 3000………... 70 4.4.4 categoria 7000……… ...72 4.4.6 decorações……… ... 76 4.4.7 grafitos……… ...80 4.4.8 marcas de oleiro ... 81

5. CONTEXTUALIZAÇÃO ESTRATIGRÁFICA DOS MATERIAIS EM ANÁLISE (1987-2008) 5.1 Dinâmica de evolução da ocupação do grafia e cronologias)...81

5.2 Evolução económica ... 90

6. A CERÂMICA CAMPANIENSE DE MESAS DO CASTELINHO NA DINÂMICA COMERCIAL ROMANA REPUBLICANA DO SÉCULO II E I A.C. NO SUDOESTE PENINSULAR...93

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 101

8. BIBLIOGRAFIA………..……… .105

Volume II Anexo I. Figuras Anexo II. Tabelas Anexo III. Estampas Anexo IV. Listagem descri va e pológica do material estudado Anexo V. Listagem descri va das Unidades áficas contempladas 4.4.5 outras... 74

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Preâmbulo 

A escolha do tema desta dissertação recua aos tempos da licenciatura, ainda que nessa  altura  este  objectivo  estivesse  longe  dos  meus  horizontes.  Assim,  no  âmbito  da  disciplina  Arqueologia do Mundo Provincial Romano, e em conjunto com Carla Matias, estudámos uma  pequena  amostra  da  cerâmica  campaniense  proveniente  das  intervenções  de  Mesas  do  Castelinho. Nos anos que se seguiram, o Prof. Doutor Amílcar Guerra sugeriu investirmos no  estudo daquele tipo cerâmico, dando início ao tratamento de uma amostra mais alargada (que  incluiria  todos  os  contextos  da  plataforma  superior  daquele  sítio  arqueológico),  com  a  finalidade  de  publicar  os  dados.  Infelizmente,  não  pudemos  concretizar  conjuntamente  esse  projecto  e  apenas  eu  pude  dar‐lhe  seguimento,  ainda  que  já  sob  a  forma  de  dissertação  de  mestrado. 

As  primeiras  publicações  que  divulgam  a  presença  de  cerâmica  campaniense  em  Mesas do Castelinho datam dos anos ‘90 (Fabião e Guerra, 1994 e Fabião, 1998). O trabalho  que  aqui  se  desenvolve  pretende  continuar  e  aprofundar  o  estudo  desse  conjunto,  pelo  que  alargámos a amostra, incluindo os registos de mais nove anos de intervenções arqueológicas.  

A  especificidade  cronológica  desta  cerâmica,  presente  no  actual  território  português  entre os sécs. II e I a.C., transforma‐a num excelente indicador, a par das produções anfóricas  vinárias  com  a  mesma  origem  itálica,  dos  primeiros  contactos  com  o  mundo  romano.  O  seu  potencial  informativo  (tipológico  e  cronológico),  cruzado  com  o  dos  restantes  materiais  com  que convive nas diferentes sequências estratigráficas escavadas, permite entendê‐la como um  excelente contributo para a caracterização económica de um sítio, e respectivamente, região.  

A  escassa  informação  que  se  tem  da  sua  presença  em  território  hoje  português,  associada à disparidade das amostras conhecidas, muitas vezes sem contextos arqueológicos,  limita uma apreciação geral do panorama nacional. 

É nosso objectivo congregar toda a informação que o conjunto recolhido em Mesas do  Castelinho  providencia,  beneficiando  dos  contextos  estratigráficos  seguros,  na  tentativa  de  contribuir  para  uma  melhor  compreensão  sobre  ocupação  republicada  deste  povoado  do  interior do Sul peninsular. 

Pese  embora  as  agressões  a  que  o  sítio  foi  sujeito  (naturais  e  especialmente  antrópicas), que conduziram à destruição de muitos dos seus contextos estratigráficos, grande  parte do povoado, especialmente a plataforma inferior, encontrava‐se muito bem preservado.  De  tal  forma,  que  proporcionou  leituras  estratigráficas  fulcrais  no  contributo,  que  pensamos  ser  incontornável,  para  a  compreensão  da  evolução  dos  núcleos  indígenas  nos  alvores  da 

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romanização,  bem  como  nas  dinâmicas  económico‐comerciais  dos  povoados  do  interior  meridional peninsular com a região envolvente e a bacia do Mediterrâneo. 

A  estruturação  deste  trabalho  conta  com  dois  volumes.  O  primeiro  dividido  em  sete  capítulos e o segundo em V anexos, figurativos, que auxiliam a leitura do texto. 

O primeiro capítulo refere‐se à “biografia” do sítio, com uma caracterização geográfica  do  povoado  e  onde  delimitamos,  sumariamente,  o  quadro  de  acontecimentos  histórico‐ arqueológicos, que de alguma maneira se relacionam com a “vida” daquele povoado e com a  região em que se insere. 

No  capítulo  2  expõe‐se,  de  forma  sintética,  as  escavações  arqueológicas  e  os  resultados  obtidos,  sob  a  direcção  científica  dos  Profs.  Doutores  Amílcar  Guerra  e  Carlos  Fabião,  ao  longo  de  19  campanhas,  logo  após  as  destruições  de  1986  e  da  intervenção  de  emergência supervisionada pelo Dr. C.J. Ferreira. 

Tentámos,  no  capítulo  3,  dar  uma  perspectiva  geral  da  história  da  investigação  da  cerâmica campaniense, seus condicionalismos e o actual estado da questão. 

O capítulo 4 é dedicado ao estudo dos materiais que dão mote a este trabalho. Aqui  são expostos os princípios metodológicos que regeram toda a análise qualitativa e quantitativa  do material, para em seguida analisar as áreas de produção identificadas, fabricos e tipologias  presentes no conjunto de Mesas do Castelinho. 

Com  base  nos  contextos  mais  significativos  e  com  maior  potencial  informativo,  o  capítulo  5  serve  para  contextualizar  a  cerâmica  campaniense  na  diacronia  de  ocupação  do  povoado, permitindo algumas considerações sobre as suas dinâmicas. 

Antes das considerações finais, onde tentamos condensar as linhas fortes que resultam  da  análise  da  cerâmica  campaniense  de  Mesas  do  Castelinho  e  o  seu  contributo  para  a  compreensão do sítio (capítulo 7), tentamos traçar o quadro de dinâmicas de comércio que a  região  interior  do  Sul  do  actual  território  português,  na  qual  se  insere  Mesas  do  Castelinho,  mantém com a bacia do Mediterrâneo durante os sécs. II e I a.C. (capítulo 6). 

No segundo volume pode encontrar‐se, no anexo I, um conjunto de figuras de apoio à  compreensão  do  texto.  O  anexo  II  refere‐se  a  um  conjunto  de  tabelas  referentes  à  quantificação cerâmica e dispersão de formas no actual território português que têm paralelos  em  Mesas  do  Castelinho,  bem  como  uma  base  de  dados  onde  estão  representados  as  contagens  e  os  contextos  estratigráficos  de  onde  se  recolheu  campaniense  inclassificável.  Seguem‐se  as  estampas,  no  anexo  III  e  o  anexo  IV  com  o  catálogo  de  peças  analisadas.  Por  último,  no  anexo  V  é  possível  consultar  uma  base  de  dados  com  a  descrição  das  Unidades  Estratigráficas contempladas neste trabalho.   

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1. O Povoado de Mesas do Castelinho na Antiguidade 

1.1 Enquadramento natural 

O povoado Mesas do Castelinho situa‐se na Herdade do Monte Novo do Castelinho, a  cerca de 2 quilómetros a Sul da aldeia de Santa Clara‐a‐Nova, no concelho de Almodôvar. Este  sítio  pode‐se  localizar  nas  seguintes  coordenadas  geográficas:  Latitude  =  37˚  08’  22’’  e  Longitude = 08˚ 07’ 30’’, segundo a CMP 1:25 000, folha nº 572, Dogueno‐Almodôvar (v. fig. 1  e 2). 

Implanta‐se  numa  área  de  fronteira  natural,  que  permite  a  passagem  entre  o  Baixo  Alentejo  e  o  Algarve,  num  ponto  de  transição  entre  as  áreas  mais  elevadas  da  peneplanície  alentejana  e  o  relevo  acidentado  da  Serra  do  Caldeirão.  Este  fenómeno  orográfico  ocorre  desde Mértola e acompanha‐se “… ao longo do interflúvio principal, seguido em grande parte  pela estrada de Almodôvar para a serra” (Oliveira et al., 1992). Esta peculiaridade geográfica  esteve  na  origem  da  existência  de  alguns  caminhos  que  atravessam  a  serra,  e  que  aliados  à  proximidade do Guadiana determinam, compreensivelmente, as ocupações antigas da região. 

O sítio arqueológico, circunscreve‐se a uma plataforma a Norte (designada Plataforma  B  ou  inferior)  de  planta  genericamente  rectangular,  coberta  por  estevas  e  olival  e  que  se  adossa a outra (designada Plataforma A ou superior), na extremidade Sul, a uma cota superior,  de  menores  dimensões  e  forma  arredondada.  Regista‐se  ainda,  a  Oeste  desta  última  plataforma, uma terceira que a circunda e que, aparentemente, não se regista em todo o seu  perímetro. Num total de cerca de 4 hectares o povoado assume o seu eixo maior no sentido  Norte  –  Sul  com  cerca  de  250  metros,  por  uma  média  de  100  metros  de  largura.  Hidrograficamente  implanta‐se  na  margem  Sul  da  ribeira  de  Mora,  de  escasso  caudal,  sendo  circundado por dois barrancos, a Este e a Oeste, de fluxo actualmente inexistente. Integra‐se  numa  região  xistosa  e  de  fracas  aptidões  agrícolas  decorrentes  dos  solos  esqueléticos  do  maciço  antigo,  onde  a  cobertura  vegetal  é,  predominantemente,  constituída  por  azinheiras,  sobreiros e estevas.  

Relativamente  às  actividades  económicas  do  povoado,  trabalhos  levados  a  cabo  em  1992  revelaram  a  ausência  de  vestígios  de  redução  primária  de  metais  (Beau,  1994),  o  que  contrasta com a proximidade da faixa piritosa Alentejana e a conhecida exploração, em grande  escala,  na  área  de  Aljustrel.  Essa  presença  na  economia  local  foi  atestada  em  recentes  escavações arqueológicas, por sugerirem a existência, no sector 3 da Plataforma B (v. capítulo  2),  de  um  conjunto  de  fornos  integrados  num  esquema  de  produção  industrial  metalúrgica,  num contraste evidente com os espaços de combustão de cariz doméstico da restante área do  povoado  (Fabião  et  al.,  2007,  p.  11).  Apesar  deste  facto,  a  conjugação  das  características 

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naturais  do  local  levam  a  supor  que  a  principal  actividade  económica  do  povoado  seria  a  pecuária (Fabião, 1998, p. 277). 

Actualmente,  o  sítio  possui  uma  aparente  defensibilidade  natural  suportada  pelos  taludes  bem  marcados  a  Norte,  Este  e  Oeste.  Possui  um  acesso  fácil  a  Sul  e  superfícies  aplanadas.  Estas  ter‐lhe‐ão  conferido  o  topónimo  por  que  ficou  conhecido:  Mesas,  e  distinguem‐no numa paisagem dominada por elevações com perfis ondulados (v. fig. 3). Esta  artificialidade  topográfica  é  consequência  da  natural  acumulação  de  terras,  resultante  das  diferentes  ocupações  ali  presentes.  Abel  Viana  descreveu  a  área  Sul  do  povoado  como  um  “…pico  vulcânico,  por  causa  da  sua  forma  cónica.”  (Viana,  Ferreira  e  Serralheiro,  1957),  referindo‐se,  no  entanto,  às  ruínas  da  fortificação  Omíada,  que  os  diferentes  processos  de  erosão cobriram (v. fig. 4). Mais tarde, em 1992, C.J. Ferreira publicou um registo gráfico que  documentava 5 metros de estratigrafia ocupacional, desde o topo ao sopé da encosta Este na  plataforma  B,  e  que  suportada  pela  muralha  da  Idade  do  Ferro  contribuiu  para  esta  noção  topográfica errónea. 

Atendendo à sua descrição orográfica percebe‐se que a escolha do local não se pautou  por critérios de defensibilidade, já que o povoado Mesas do Castelinho em nada se destaca do  que originalmente seria a topografia da paisagem envolvente. Esta estratégia de implantação  deveu‐se,  antes,  a  factores  geográficos  porque  permite  controlar  um  dos  poucos  corredores  naturais (Noroeste – Sudeste) entre o Baixo Alentejo e o Algarve. O povoado terá funcionando  como “posto” de controlo de via terrestre, ainda que secundária (Fabião, 1998, p. 276), já que  a  proximidade  e  navegabilidade  do  rio  Guadiana,  faziam  deste  a  mais  importante  via  de  circulação  de  produtos,  gentes  e  ideias.  A  preferência  desta  área  na  comunicação  entre  regiões,  transporte  e  circulação  de  gentes  assume  uma  perenidade  até  aos  dias  correntes  e  materializa‐se na construção da Estrada Nacional nº 2 e, posteriormente, na Auto‐Estrada A2,  caso que se repete por todo o território.        

1.2 Mesas do Castelinho e o território envolvente: enquadramento histórico‐

arqueológico 

 

Desde  o  século  V‐IV  a.C.  até  à  I  Guerra  Púnica,  Cartago  recorre  à  utilização  de  mercenários  ibéricos,  nomeadamente  dos  povos  indo‐europeus  do  Norte  e  Centro  do  território (Fabião, 1997, p. 195). As fontes clássicas são omissas relativamente a este período o  que deve ser entendido à luz da interpretação do segundo Tratado romano‐cartaginês, dado a  conhecer  por  Políbio,  em  348  a.C.  O  referido  documento  impõe  o  condicionamento  da 

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circulação  de  Roma  no  Mediterrâneo  ocidental,  com  limites  fixados  em  Mastia  e  Tarseion  (Arruda,  2004a,  p.  331),  o  que,  consequentemente,  limitava  a  circulação  daqueles  que  elaboravam  as  “fontes  antigas”.  Apesar  de  se  desconhecerem  os  contornos  das  movimentações  cartaginesas  os  actuais  dados  arqueológicos  não  suportam  a  existência  de  uma efectiva ocupação do território.  

A luta entre Roma e Cartago pela hegemonia do Mediterrâneo central e o pedido de  auxílio  de  Sagvntvm,  em  220,  motivada  pelo  descontentamento  em  relação  à  soberania  de  Cartago, desencadeou o retomar das hostilidades entre as duas potências. 

Em 218, Aníbal Barca ataca Roma a partir da Península Ibérica e dá‐se início à II Guerra  Púnica, cujo palco dos confrontos foi a área meridional da Península Ibérica, excluindo, ao que  tudo  indica,  o  actual  território  português  (Fabião,  1997,  p.  197).  Roma,  até  então,  não  manifestara interesse em  conquistar o  território da  Península ibérica, mas a necessidade  em  afastar  a  ameaça  cartaginesa,  fazendo‐os  recuar  para  o  Norte  de  África,  conduz  à  presença  física romana no território hispânico.  

Desde 218, ano em que C. Cornélio Cepião desembarca em Emporion, até 202, ano do  fim da II Guerra Púnica, que Roma conquista e consolida posições no vale do Ebro, assim como  na área meridional da Península Ibérica. Se nos finais do século III a.C. a presença romana era  essencialmente militar, com a incumbência de manter a ordem e controlo, posteriormente, e  já  consciente  das  potencialidades  do  extremo  ocidente,  inicia  mecanismos  de  exploração  e  organização  do  território,  com  a  implantação  do  primeiro  ensaio  administrativo  (Hispânia 

Ulterior e Hispânia Citerior), em 197 a.C. 

As  Guerras  Lusitanas  marcam  um  momento  importante  de  forte  instabilidade  e  transformação  do  ocidente  peninsular.  Estes  avanços  guerreiros,  alguns  bem  sucedidos,  têm  de ser entendidos numa perspectiva de “Banditismo Social” aliado, segundo alguns autores, a  um provável excesso populacional e procura de terrenos para explorar, não se tratando desta  forma de puros ataques contra o poder de Roma (Fabião, 1998).  

 A união dos governadores romanos da península, o enfraquecimento dos Lusitanos e a  impossibilidade  de  continuarem  a  sustentar  a  guerra,  leva‐os  a  aceitar  a  paz  em  139  aC.  Segundo  alguns  investigadores,  em  meados  deste  século  o  domínio  de  Roma  já  abrangia  o  médio e baixo Vale do Ebro e toda a Andaluzia e Algarve estariam pacificados, tal como parte  do  Alentejo  (Blázquez,  1988,  p.  95)  (v.  fig.  5).  Se  a  Sul  o  território  não  estivesse  sob  o  seu  domínio  não  faria  sentido  que,  segundo  as  fontes  clássicas,  o  novo  governador  da  Ulterior,  Décio  Júnio  Bruto,  em  138  a.C.,  tivesse  estabelecido  o  seu  quartel‐general  em  Móron,  localizado, ao que tudo indica, no vale do Tejo, e fortificado Olisipo, com o intuito de facilitar o  abastecimento  marítimo  dos  exércitos,  preparando‐se  para  o  início  do  que  é  considerado 

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como a primeira grande campanha militar romana, que teria seguido um trajecto análogo ao  que mais tarde se tornaria a via romana Olisipo – Bracara. 

Os conflitos decorrentes da disputa pelo poder de Roma entre  a aristocracia romana  intensificam‐se nos inícios do século I a.C. e ocorrem em parte na Hispânia. É neste contexto  que  Sertório,  partidário  de  Mário,  regressa  à  Península  Ibérica  para  combater  Sula  por  o  considerar usurpador do poder de Roma. A estratégia de combate incluía a criação de pactos  de hospitalidade e clientela com as populações indígenas que serviam, simultaneamente, para  vencer Sula e consolidar o seu poder na Hispânia, favorecendo a romanização (Fabião, 1997, p.  207‐211).  

No actual território português conhecemos várias instalações com diferentes soluções  arquitectónicas  e  funcionais  adoptadas  durante  o  período  romano  republicano.  Contudo,  a  área geográfica a que nos reportamos, Baixo Alentejo, carece de muito trabalho de escavação  e  investigação  para  melhor  compreender  a  malha  deste  povoamento.  Certo  será  que  o  sítio  Mesas  de  Castelinho  não  estaria  isolado.  Cerca  de  50  quilómetros  a  Nordeste  implanta‐se  o  povoado pré‐romano de Myrtilis, um importante entreposto comercial entre o Mediterrâneo e  o Alentejo que terá servido de pólo aglutinador de toda a região e que manteve contactos com  Mesas do Castelinho, como sugere o espólio numismático ali recolhido.  

Não  será  este  o  local  indicado  para  analisar  o  tema,  pelo  que  nos  limitamos  a  uma  simples menção aos designados castella enquanto produto de um modelo (os) de instalação já  expressivo,  diga‐se  em  número  de  presenças,  no  Baixo  Alentejo.  Cronologicamente,  surgem  entre  a  segunda  metade  do  séc.  I  a.C.  e  a  primeira  da  centúria  seguinte  e  deverão  corresponder  a  estruturas  de  fundação  romana,  não  necessariamente  itálica  (Fabião,  1997,  2004b), cuja funcionalidade e enquadramentos continuam sob acesso debate científico.  

O  sítio  Mesas  do  Castelinho  insere‐se  num  grande  grupo  de  ocupações  de  fundação  pré‐romana que continua a funcionar em período romano. Esta diacronia de ocupação torna‐o  fulcral  na  compreensão  das  transformações  do  espaço,  hábitos  e  cultura  material  que  acompanham a instalação do poder e influência romana nas populações indígenas.     

2. Breve sinopse dos trabalhos arqueológicos em Mesas do Castelinho 

2.1 O pré 1986 

 

O  sítio  arqueológico  Mesas  do  Castelinho  é  referido,  pela  primeira  vez,  em  finais  do  séc. XIX, por J.L. Vasconcelos, numa das suas visitas ao Baixo Alentejo (apud, Fabião, 1998, p. 

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278).  No  entanto,  é  em  meados  e  3º  quartel  do  século  seguinte  que  o  local  é  amplamente  mencionado nas publicações portuguesas.  

Em  1948,  João  Almeida  integra  o  povoado  no  Roteiro  dos  Monumentos  Militares  Portugueses, sugerindo tratar‐se de uma “…almenara do tempo dos Mouros.” (Almeida, 1948,  p.  298).  Passados  dez  anos,  Abel  Viana,  Octávio  da  V.  Ferreira  e  o  pároco  local  António  Serralheiro  voltam  a  mencioná‐lo,  bem  mais  pormenorizadamente,  no  que  é  considerada  como  a  1ª  notícia  de  carácter  científico.  Os  autores,  ainda  que  ludibriados  pelo  efeito  das  terraplanagens agrícolas, pequenos saques ilícitos e pela degradação natural das plataformas,  tecem  comentários  topográficos  e  cronológicos,  integrando  o  povoado  no  panorama  arqueológico regional. Importa salientar, que o seu mais importante legado reside nas duas e  únicas  fotos  publicadas  (Viana  et  al.,  1957,  p.  471)  que  registam  o  sítio  antes  das  grandes  destruições  dos  anos  ’80.  Simultaneamente,  alertam  para  a  necessidade  da  sua  escavação  “…enquanto a moderna maquinaria agrícola não entrar ali e destruir tudo.” (Viana et al., 1957,  p. 464), tal como viria a suceder, ainda que não com o propósito de cultivar o terreno.  

Relativamente ao material cerâmico publicado, também aqui Viana e seus colegas são  pioneiros,  referindo  uma  pequena  taça  hemisférica  de  cerâmica  ática  da  forma  2770/80,  da  tipologia  de  Morel  (Lamboglia  21‐24)  e  apresentando,  na  estampa  I,  uma  tigela  inteira  em  cerâmica  campaniense  (F2300/Lamb.  1)  (Viana  et  al.,  1957,  p.  470).  Mais  tarde,  em  1971,  Manuela Delgado retoma a referência daquela peça grega (F2786/Lamb. 24A), datada do séc.  IV‐III a.C. (Delgado, 1971, p. 419) que, curiosamente, pertencia à colecção pessoal do pároco  Serralheiro.  Três  anos  depois,  Teresa  Gamito  e  José  Arnaud  referem  a  presença  de  cerâmica  estampilhada  inserindo  o  sítio,  definitivamente,  no  contexto  da  II  Idade  do  Ferro  (Arnaud  e  Gamito, 1974‐77, p. 195)   Em suma, o povoado foi desde muito cedo conhecido e divulgado entre a comunidade  científica, integrando, desde 1960, as representações cartográficas do Bronze Final (Schubart,  1975, p. 287) e Idade do Ferro. Porém, isso não impediu os atrozes actos de vandalismo, uns  conscientes, outros talvez não, mas que danificaram, irremediavelmente, alguns contextos do  povoado.   A par da transposição de terras da cota mais elevada do povoado para a mais baixa, e  nesta  de  Oeste  para  Este,  a  propósito  do  plantio  de  olival,  torna‐se  impossível  não  remontarmos  ao  ano  de  1986.  Nesta  data,  o  então  proprietário  arrasou  cerca  de  1/3  do  povoado,  utilizando  um  bulldozer,  sob  o  pretexto  não  assumido  de  descobrir  um  tesouro.  Assim,  a  plataforma  A  encontrava‐se  bastante  revolvida,  o  que  resultou  da  abertura  de  uma  imensa vala Este ‐ Oeste junto à face interna da muralha e que danificou, irremediavelmente,  toda a área Sul. A Este da periferia do sítio, registou‐se outro corte de tal forma profundo que 

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na plataforma B se detectou um perfil de 5 m de altura (v. fig. 6). Os dados que permitiriam a  compreensão entre ambos os espaços (plataforma A e B) foram, igualmente, comprometidos  pela  abertura  de  uma  terceira  vala  no  sentido  Este  ‐  Oeste  que  afectou  o  talude  e  a  própria  muralha. Felizmente, a restante área da plataforma B ficou a salvo pelo simples facto de não  ser pertença daquele proprietário. 

Só  após  este  triste  episódio  se  reuniram  esforços  para  estudar  e  salvar  o  sítio,  começando  por  dar  seguimento  à  sua  classificação  como  imóvel  de  Interesse  Público,  o  que  ocorreu em 1989 (DL 29/90 de 89.07.17). 

   

2.2 A intervenção de C.J. Ferreira 

 

As  primeiras  intervenções  arqueológicas  no  sítio  devem‐se  ao  Dr.  Carlos  Jorge  Alves  Ferreira,  técnico  superior  do  Departamento  de  Arqueologia  do  antigo  Instituto  Português  do  Património Cultural (IPPC), que numa acção de emergência dá início aos trabalhos de limpeza  dos cortes resultantes da  acção mecânica de 1986, com registo  gráfico dos mesmos, recolha  de materiais à superfície e levantamento topográfico do povoado (Ferreira, 1992).  

A  constatação  do  elevado  índice  de  destruição  do  sítio  não  impediu  a  percepção  da  existência de uma diacronia de ocupação longa, que se estenderia desde a II Idade do Ferro ao  período Islâmico, com uma ocupação intermédia com datação romana republicana. Não terá  sido possível a identificação da presença romana em momento Imperial, dado que os pontos  abordados no terreno não seriam, como as escavações futuras viriam a demonstrar, as áreas  onde essa ocupação se registava/conservava.     

2.3 O projecto Mesas do Castelinho (1988‐2008) 

Dois anos após o grande atentado patrimonial e a convite do IPPC o Dr. Carlos Fabião e  o Dr. Amílcar Guerra assumem a direcção dos trabalhos, que se mantêm até aos dias de hoje,  com interregno no ano de 2004.  

O  projecto  de  investigação  que  contemplava  a  salvaguarda  e  valorização  daquele  património contou com inúmeros apoios, nomeadamente UNIARQ (Centro de Arqueologia da  Universidade de Lisboa), Câmara Municipal de Almodôvar, Junta de Freguesia de Santa‐Clara‐ a‐Nova e seus moradores, Somincor, Instituto Português da Juventude, Exército, entre outros,  sem os quais seria impossível ter levado a cabo este projecto.    

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O primeiro ano de intervenções consistiu na limpeza das áreas revolvidas decorrentes  das interfaces negativas abertas em 1986 (v. supra). 

 A escavação da fortificação Omíada iniciou‐se no ano seguinte, com a delimitação do  sector  A1  (v.  fig.  7),  e  estendeu‐se  a  1992,  ano  em  que  se  iniciam  as  escavações  de  um  conjunto de construções romanas republicanas subjacentes ao castelo. Seguiram‐se diferentes  alargamentos a Noroeste, no ano 1990, e a Sul e Este em 1994. Este último ano marca o fim da  escavação dos níveis republicanos e início dos contextos da II Idade o Ferro.  

A escavação do sector A2, localizado a Sudoeste do A1, iniciou‐se em 1992, tendo sido  retomada  apenas  em  1995,  devido  a  questões  orçamentais.  Uma  das  valas  de  destruição,  já  referidas, cortava a estratigrafia presente entre A1 e A2, pelo que na tentativa de articular os  dados provenientes de ambos os sectores, definiu‐se, a Oeste da plataforma, um novo sector:  A3. 

Se nos primeiros anos os trabalhos na plataforma B se circunscreveram à colmatação  das  crateras  infligidas  pelo  bulldozer,  em  1996  os  investigadores  implantaram  uma  pequena  sondagem (B1) no topo da secção 3, do Corte C‐B desenhado por C.J. Ferreira, em 1987 (v. fig.  8 e 9).   

Em  1997,  iniciaram‐se  os  trabalhos  no  quadrante  Sudoeste  desta  plataforma  (sector  B2) que à partida se esperava melhor preservado. A finalização das escavações neste sector e a  consequente necessidade em perceber como se comportava o interior do povoado impôs um  natural alargamento a Este, naquilo que seria identificado com o sector B3. Estávamos no ano  de 2002.   

Seguidamente,  faremos  a  síntese  dos  principais  aspectos  caracterizadores  das  diferentes ocupações que o sítio conheceu, ainda que com especial incidência no período que  aqui nos importa. Este exercício teve como base os relatórios de escavação do sítio, entre os  anos  1988  e  2008,  pelo  que  correndo  o  risco  de  nos  tornarmos  repetitivos,  abstemo‐nos  de  multiplicar as indicações de referências bibliográficas ao longo deste sub‐capítulo (2.3.1).      2.3.1 Síntese dos resultados: faseamento e arquitectura    No decorrer das escavações foi possível identificar materiais arqueológicos de datação  Calcolítica e da Idade do Bronze. No entanto, são apenas o resultado de recolhas de superfície  e  material  residual  presente  em  níveis  de  cronologias  mais  recentes,  o  que  invalida  considerações  peremptórias  quanto  à  natureza  da  ocupação  do  local  nestes  momentos  mais  remotos. 

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2.3.1.1 Ocupação da Idade do Ferro 

A presença de um fragmento de uma taça Cástulo na [376], do ambiente (Amb.) VIII,  do sector B2, sobreposto a um nível com cerâmicas com decorações estampilhadas, (que lhes  confere, definitivamente, uma antiguidade no contexto da área do actual território português),  sugere  uma  primeira  ocupação  do  povoado  em  meados  do  século  V  a.C.  Isto  é,  inserível  na  designada  II  Idade  do  Ferro  do  Sudoeste  peninsular,  e  em  estreita  proximidade  cronológica  com os núcleos das áreas de Neves Corvo (Almodôvar/Castro verde) e Fernão Vaz (Ourique). 

Arquitectonicamente, tanto no sector A2 e A3, como no B1, verifica‐se a construção de  casas  adossadas  à  linha  de  muralha,  situação  que  não  ocorre  no  extremo  Sudoeste  da  plataforma  inferior,  onde  se  localiza  o  sector  B2.  Aqui,  e  ao  que  tudo  indica,  a  área  habitacional de dois edifícios, sem comunicação entre si e com portas voltadas a Este, articula‐ se mediante a construção de paredes justapostas à muralha. Estratigraficamente esta relação  de justaposição poderá representar a posterioridade da edificação da estrutura defensiva ou  relacionar‐se  com  técnicas  de  construção  que  dão  essa  ilusão.  Esta  estrutura  terá  adquirido  maior robustez dado que o espaço que a mediava do paramento exterior das construções pré‐ existentes foi preenchido com entulho pétreo e sedimentar. Na plataforma superior, na área  anexa  ao  “complexo  de  construções  do  século  I  a.C.”  (v.  infra),  sob  o  qual  se  identificaram,  igualmente,  construções  pétreas  de  cantos  arredondados,  muito  danificadas  ou  reutilizadas  pela  ocupação  posterior,  detectou‐se  uma  sequência  estratigráfica  com  associação  de  estruturas  precárias  (buracos  de  poste,  lareira  e  pavimentos).  Esta  situação  sugere  uma  ocupação sob a forma de cabanas aquando da construção do sistema defensivo, mais do que  um espaço aberto do tipo pátio.   A localização topográfica do sítio, sobranceiro a linhas de água e vertentes marcadas a  Norte, Este e Oeste, coloca o povoado antigo (da II Idade do Ferro) no tipo III de aglomerados  fortificados desta cronologia, segundo a tipologia de implantação definida por L. Berrocal para  a área céltica do Sudoeste peninsular (Berrocal‐Rangel, 1992, p. 205).  

A  propósito,  existe  em  curso  uma  dissertação  de  mestrado  acerca  da  fundação  do  povoado que irá trazer à discussão novos dados, pelo que aguardamos os resultados. 

   

2.3.1.2 Ocupação romana republicana 

 

Numa  área  central  da  plataforma  A,  também  escolhida  para  a  edificação  do  Castelo  Omíada  e  respectivo  fosso,  foi  edificado  um  “complexo  de  construções  do  século  I  a.C.”. 

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Compunha‐se de quatro compartimentos domésticos (Amb. VII, VIII, X e XI) bem conservados,  dois  parcialmente  destruídos  (Amb.  VI  e  IX)  e  um  último  (Amb.  XII),  que  não  foi  intervencionado  na  íntegra  (v.  fig.  10).  As  destruições  a  que  a  área  foi  sujeita  impedem  perceber  se  se  trata  de  um  conjunto  único  ou  se  parte  deste  pertence  a  outros  blocos  de  construção.  Numa  fase,  diga‐se,  fundacional  e  estruturante  da  construção  do  complexo  terá  sido  erguida  uma  parede  mestra  com  duplo  paramento  [74]  e  [78],  que  delimitando  a  Sul  o  Amb.  VIII  se  apoia  a  uma  sequência  estratigráfica  da  Idade  do  Ferro.  Este  conjunto  arquitectónico  sugere  que  a  ocupação  romana  se  estenderia  para  Sul,  mas  a  uma  cota  superior,  tendo  os  seus  vestígios  sido  removidos  pelas  destruições  Islâmicas  e  Contemporâneas, e reflecte, igualmente, a grande remoção de terras dos níveis pré‐romanos,  aquando da construção do complexo.  

A  circulação  dentro  do  complexo  faz‐se  no  eixo  Sul  ‐  Norte,  rodando  180˚  relativamente à ocupação pré‐romana, da qual reutiliza estruturas e destrói a maioria. Já numa  segunda fase a organização muda radicalmente e o eixo de circulação passa a ser Este ‐ Oeste,  excepção feita ao Amb. IX que poderia ter funcionado com corredor. Tecnicamente, as paredes  que criavam os diferentes ambientes foram construídas por pedra e adobe ou taipa, e os pisos  foram criados, maioritariamente, em terra batida. Já as portas possuíam molduras de pedra e  as coberturas, à falta de provas em contrário, utilizariam materiais perecíveis. Funcionalmente  é de difícil interpretação, não se vislumbrando nada que distinguisse nenhuma das divisões. O  conjunto  artefactual  é  homogéneo  e  semelhante  àquele  associado  às  construções  da  plataforma B. 

A construção do complexo data de finais do séc. II, inícios do I a.C., e o seu abandono  não  ultrapassará  o  3º  quartel  da  última  centúria,  dadas  as  ausências  de  fragmentos  de  terra 

sigillata e ânforas Dressel 7‐11.  

Na  área  a  Noroeste  do  complexo,  já  amplamente  descrita  noutro  lugar  (Fabião  e  Guerra,  1994),  não  se  vislumbram  rupturas,  sendo  que  o  material  exumado  é  muito  homogéneo e, genericamente, datado dos três primeiros quartéis do séc. I a.C. Portanto, trata‐ se de segmentos de um mesmo urbanismo, anexos a áreas de construção menos precária. 

Refira‐se,  ainda,  o  sector  A3  por  corroborar  a  análise  efectuada  nas  restantes  áreas  intervencionadas na plataforma superior. Arquitectonicamente verifica‐se a construção de um  espaço  doméstico  sobre  os  escombros  da  antiga  muralha  e  dos  derrubes  das  casas  a  ela  adossadas, sendo que o material mais recente se trata de um asse de Cneio Pompeio, datado  do  ano  45  a.C.,  pelo  que  a  ocupação  não  deverá  ter  ultrapassado  o  3º  quartel  desse  século.  Excepção  feita  a  este  compartimento,  de  curta  duração  e  erguido  após  a  regularização  do 

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terreno, os restantes vestígios romano republicanos resumem‐se, mais uma vez, a estruturas  precárias. 

  A  plataforma  inferior  encontra‐se  muito  melhor  preservada,  pelo  que  foi  possível  conhecer o plano urbanístico implementado em período romano republicano.   

Assim, ao contrário do que sucede noutros pontos do povoado, na área mais a Oeste ‐  sector  B2  –  assiste‐se  à  edificação  de  um  conjunto  de  paredes  justapostas  que  delimitam  a  área  residencial  sem  recurso  à  muralha,  que  já  se  encontrava  desactivada.  Não  sendo  fortificado assume‐se como um “povoado cego”, ou seja, fechado ao exterior já que todas as  aberturas deste núcleo periférico do povoado estão viradas a Este. 

Genericamente,  o  esquema  urbanístico  romano  republicano  de  Mesas  do  Castelinho  (sector B2 e  B3) caracteriza‐se pela justaposição de blocos de cariz habitacional virados para  um espaço comum de circulação – Ruas. Até ao momento não existem provas categóricas, mas  é expectável que existam outros eixos Este ‐ Oeste de ligação entre arruamentos.   

Importa  referir,  que  mesmo  que  nalguns  pontos  as  construções  republicanas  se  sobreponham a outras, pré‐romanas (como no sector A1 e B2), a reestruturação do espaço é  marca  deste  novo  urbanismo.  Assim,  os  dois  grandes  edifícios  pré‐romanos  localizados  no  sector B2 são substituídos por quatro compartimentos alongados com orientação Oeste ‐ Este  (Amb. I a VI), cujas portas estão voltadas a Este e dão acesso à Rua 1. 

Os  arranjos  são  uma  constante  e  vão  desde  a  escolha  diferenciada  do  tipo  de  pavimentos (argila ou pedra) até à alternância entre paredes de pedra ou taipa, tal como do  fecho e abertura de novos acessos, por vezes, ligando compartimentos, num conjunto que terá  sido  edificado  num  único  momento.  A  determinação  funcional  destas  casas  continua  uma  incógnita, excepção feita ao Amb. V, cuja identificação de vestígios de um tear sugere tratar‐se  de  um  espaço  artesanal.  Os  restantes  partilham  a  homogeneidade  artefactual,  pelo  que  mesmo em termos cronológicos é complicado aferir datações mais finas que o séc. I a.C. 

No  lado  Nascente  da  Rua  1  (sector  B3)  identificaram‐se  outros  dois  edifícios  de  maiores dimensões, organizados segundo um sistema bipartido: a Norte Amb. XXII/XXXIII e a  Sul I/II, para, mais tarde, o lado setentrional ser convertido num só compartimento de feições  quadrangulares (Amb. XI). Comunicam a Oeste com a Rua 1 e possuíam um segundo piso que  resulta do alteamento da parede que os dividia, cujo acesso seria feito pela Rua 1, mas num  momento inicial não fundacional.  Contrariamente ao que se constata nas construções mais próximas do limite Oeste da  plataforma  (sector  B2),  estas  não  se  sobrepõem  a  níveis  pré‐romanos,  mas  assentam  directamente  sobre  a  rocha,  tanto  mais  que  as  soleiras  das  primeiras  casas  republicanas  do  sector B2, que permitem o acesso aos primeiros pisos da Rua 1, sobrepõem‐se aos muros da 

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Idade do Ferro, logo, a área central do povoado republicano fez‐se, muito provavelmente, num  espaço  vazio.  Deste  modo,  a  exclusividade  de  materiais  pré‐romanos  identificados  em  níveis  que  se  apoiam  à  fase  inaugural  das  construções  republicanas,  da  Rua  1,  1º,  2º  e  3º  quarteirões1,  (v.  fig.  11)  sugere  uma  continuidade  na  utilização  de  formas  e  decorações  cerâmicas,  ou,  por  outro  lado,  são  vestígios  de  um  enorme  arrasamento  decorrente  de  uma  regularização do terreno para as edificações romanas. 

  Nas  traseiras  dos  dois  edifícios  mencionados  adossavam‐se‐lhes  outras  construções  sem  haver  qualquer  comunicação  entre  si,  implicando  que  o  eixo  de  circulação  ocorria  no  sentido  Oeste  ‐  Este  em  direcção  à  2ª  Rua.  O  esquema  urbanístico  repete‐se  até  ao  3º  quarteirão.  A  arquitectura  do  2º  quarteirão  destaca‐se,  dos  demais,  pela  sucessão  dinâmica  dos  espaço  construídos,  tal  como,  pela  abundância  de  estruturas  de  combustão,  não  só  de  cariz doméstico, como industrial e de associação metalúrgica (fornos). 

Neste quarteirão, o início das importações romanas é constatado num dos seus Amb.  fundacionais  (XXIX)  mediante  a  recolha  de  um  fragmento  de  unguentário  em  vidro  azul  da  forma III de Harden. Numa posterior utilização do espaço [855], já associada ao Amb. XXXVIII,  foi  detectado  um  conjunto  cerâmico  enquadrável,  igualmente,  no  séc.  II  a.C.,  do  qual  se  destacam duas formas de campaniense A, uma cabeça feminina em terracota de cariz exótico,  fragmentos de “prato de peixe” do “tipo Kouass” e duas formas de ânforas pré‐romanas.  

O  terceiro  quarteirão  caracteriza‐se  pela  dicotomia  entre  uma  monotonia  arquitectónica  do  edifício  Nascente  (Amb.  XIII,  XIV  e  XVI)  e  a  precariedade  e  dinâmica  das  construções a Poente. Desta última, importa referir, a existência de uma estrutura tipo forno,  com antecâmara e de planta genericamente quadrangular.      2.3.1.3 Ocupação romana imperial   

Ao  invés  do  que  sucede  na  plataforma  A,  na  qual  esta  cronologia  é  representada  apenas  por  materiais  descontextualizados,  na  B  detecta‐se  uma  reestruturação  do  povoado,  centrada no séc. I d.C., com reaproveitamento de estruturas antigas, reorganização de espaços  e  utilizando  um  tipo  de  construções  notoriamente  precário  e  de  menor  cuidado.  Assim,  e  a  título de exemplo, refiram‐se as alterações efectuadas no 1º quarteirão do sector B3. A Rua 1 é  desactivada, enquanto espaço de circulação, pela divisão imposta por um muro e os edifícios, a  Nascente, assumem uma divisão interna definitivamente quadripartida, mantendo a existência         1  Por quarteirão entende‐se um conjunto de casas romanas voltadas para um espaço comum de circulação do tipo rua, sendo que  a respectiva numeração é atribuída de Oeste para Este. Ver fig. 11 

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de  um  piso  aéreo  com  acesso  por  escadaria.  O  material  arqueológico  recolhido  em  nada  sugere que esta ocupação se estenda para lá dos finais do séc. I da nossa Era.      2.3.1.4 Ocupação islâmica    Por último, e após sete séculos de interregno, Mesas do Castelinho é reocupado sob a  forma  de  uma  fortificação  Omíada  e  respectivo  fosso.  Estes  localizavam‐se  na  zona  mais  elevada  do  povoado  e  articulavam‐se  com  um  hishn  instalado  na  plataforma  inferior,  cuja  ocupação terá sido de curta durabilidade (séc. IX a XI). Infelizmente, o sistema defensivo e as  estruturas  domésticas  do  tipo  silo/fossa,  que  proliferam  por  todo  o  povoado,  são  um  dos  principais agentes de destruição dos níveis arqueológicos mais antigos.     

3. A Cerâmica Campaniense 

3.1 História da investigação (breve sinopse) 

  Numa altura em que a cerâmica campaniense era referida sob a designação “etrusco‐ campana”, naquele que é considerado o primeiro olhar sobre a cerâmica ocidental de verniz  negro, da autoria de G.F.  Gamurrini, (apud Lamboglia, 1952, p. 139, nota 1), Nino Lamboglia  procedeu,  em  1952,  à  publicação  da  primeira  experiência  de  sistematização  deste  tipo  cerâmico. Aliás é assim mesmo que o autor vê o seu trabalho, na medida em que o intitulou na  separata das Atti del 1º Congresso Internazionale di Studi Liguri, como “Per una classificazione  preliminare della ceramica campana”.    O autor baseia‐se em 3 critérios base para organizar a proposta tipológica. São eles o  morfológico, ordenado segundo o tecnológico e cronológico, definindo as produções de A, B e  C, além de um conjunto, mais ou menos numeroso, de imitações com difusão local (Lamboglia,  1952,  p.  140).  Desta  forma,  agrupa  na  Campaniense  B  as  formas  1  a  162  (comuns  à  C,  com  excepção  da  forma  4  e  8  a  15,  e  das  quais  apenas  as  3  a  6  correspondiam  também  às  produções em A), 17 a 20 pertencentes à classe C e 21 a 63 típicas da Campaniense A. O autor  faz  uma  diferenciação  dentro  da  sequência  numérica  atribuída  à  Campaniense  A  com  implicações  cronológicas,  pelo  que  as  formas  21  a  29  correspondem  à  “la  transizione  tra  la  ceramica attica, la “precampana” e la campana vera e propria” (Ibidem, p. 169); as 30 a 36 são  “…peculiari  della  ceramica  campana  del  III  e  del  II  secolo,…”  (Ibidem,  p.  179)  e  as  formas        

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 oito anos após aquela publicação, e numa revisão ao seu próprio trabalho, Lamboglia faz corresponder as formas 17 a 20 à classe  B (Lamboglia, 1960, p. 295).   

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  decoradas 40 a 63 “…più direttamente derivate da prototipi greci, si estinguono precocemente  nella prima metà dell III secolo…” (Ibidem, p. 184).  Existe um intervalo, nº 37 a 39, para o qual  não há referência alguma.  Existe um conjunto de publicações dispersas e anteriores a esta que, na opinião de J.P.  Morel, contribuíram para o arranque da investigação da cerâmica campaniense. Destaque‐se o  trabalho  que  C.L.  Wolley  sobre  a  cerâmica  calena,  o  de  A.K.  Lake  sobre  a  campaniense  de  Minturno ou mesmo o de N. Lamboglia sobre o conjunto de Albintimilium (Morel, 1981, p. 39‐ 40).  Estes,  ainda  que  bastante  imprecisos,  baseiam‐se  em  dados  arqueológicos  e  dão,  pela  primeira  vez,  atenção  a  determinados  detalhes  que  se  vieram  a  revelar  fundamentais  no  estudo  da  cerâmica  campaniense.  Mas  é,  sem  dúvida,  o  trabalho  de  1952,  da  autoria  de  Lamboglia,  que  confere  a  verdadeira  caminhada  para  a  consolidação  do  estudo  deste  tipo  cerâmico.  Nos  anos  que  se  seguem  esta  cerâmica  antiga,  diga‐se  “não  artística”,  começa  a  ganhar mais atenção nos conjuntos publicados como os dos vasos de verniz negro de Cápua,  da autoria de Mingazzini, ou os de Cosa, publicados por Taylor.  

Se  por  um  lado  a  sistematização  de  N.  Lamboglia  conferiu  uma  maior  importância  a  nível científico a este tipo cerâmico, por outro, as novidades, em quantidade e diversidade, do  material arqueológico recuperado nas escavações que se seguiram, a par das publicações de  outras já antigas, colocava sérias dúvidas quanto à aplicabilidade daquela seriação tipológica. A  título  de  exemplo,  refira‐se  o  estudo  dos  materiais  do  Museu  Guarnacci,  elaborado  por  M.  Pasquinucci,  na  medida  em  que  surgem  150  formas  para  as  quais  raramente  foi  possível  estabelecer  correspondência  com  a  Classificazione  (Taborelli,  2005,  p.  60).  Na  sequência  destas  dificuldades  assiste‐se  à  complexificação  da  proposta  de  Lamboglia  passando  pela  adição  de  formas  novas  (ignorando  os  pressupostos  de  criação  daquela  tipologia,  numa  simples adição que se fazia por ordem de publicação), pela assimilação de formas já existentes  (pelo  facto  das  novas  combinarem  aspectos  das  de  base,  o  que  se  traduz,  por  exemplo,  na  criação da Lamb. 5/7) e pela criação de variantes. É certo que estes aspectos não podem ser  imputáveis ao autor italiano, mas demonstram a impermeabilidade da Classificazione. Outros  aspectos  que  limitavam  esta  tipologia  referem‐se  ao  facto  do  autor  não  contemplar  áreas  importantes como o Norte de África, não fazer menção às produções regionais e, por exemplo,  misturar formas áticas numa tipologia de cerâmica romana (Morel, 1981, p. 19).  

É neste cenário, de urgência em criar uma nova base de trabalho para dar resposta à  acumulação  da  cerâmica  de  verniz  negro  do  ocidente,  com  uma  nova  organização  caracterizada  pelo  seu  carácter  “aberto”  à  introdução  de  novas  formas  e  com  inclusão  de  todas  as  informações  referentes  às  diferentes  regiões  de  onde  se  conhecia  produção 

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campaniense,  que  surge,  em  1981,  Céramique  Campanienne:  Les  Formes,  da  autoria  de  Jean  Paul Morel. 

A relativização de alguns aspectos tecnológicos, na hora de definir grupos de fabrico,  como  a  intensidade  do  brilho,  aderência  do  verniz  e  coloração  das  pastas,  bem  como  a  importância  concedida  a  alguns  detalhes  formais,  nomeadamente  à  forma  dos  pés,  com  implicações  tipológicas  e  cronológicas,  foram  alguns  aspectos  que  já  haviam  sido  tidos  em  conta na Classificazione e que ganham consistência na tipologia de Morel. Relativamente aos  aspectos técnicos importa referir que, em 1971, M. Picon, M. Vicky e G. Chapotat publicam um  artigo intitulado Note sur la composition des céramiques campaniennes de type A et B, onde  explicam os processos químicos e técnicos que conduzem às oscilações na coloração da pasta  das  peças,  demonstrando  que  isso  não  significa,  taxativamente,  tratarem‐se  de  produções  diferentes  (Picon  et  al.,  1971).  Por  outro  lado,  e  no  que  respeita  aos  aspectos  morfológicos,  diga‐se que a sistematização de alguns pormenores (como a forma dos pés) foi um assunto a  que  outros  investigadores  prestaram  especial  atenção,  por  também  lhe  reconhecerem  validade  tipológica  e  cronológica.  Como  exemplo,  refira‐se  Sanmartí  Greco,  na  sua  obra  de  1978,  sobre  Emporion  e  Rhode  (Sanmartí,  1978,  p.  595‐602)  antes  mesmo  da  sistematização  detalhada de Morel, em 1981. 

A  tipologia  preconizada  por  Morel  assenta  numa  estrutura  que  privilegia  o  perfil  das  peças, e ainda que atribua valor aos aspectos tecnológicos, funcionais e cronológicos estes não  são  determinantes  em  toda  a  concepção  e  organização  do  trabalho.  Trata‐se  de  uma  classificação  em  cadeia,  baseada  nos  pressupostos  taxonómicos  das  ciências  naturais,  colocando  o  indivíduo,  ou  seja,  o  tipo  numa  série,  espécie,  género  e  por  último  categoria  (o  termo mais genérico que abrange um padrão de recipientes com atributos morfológicos que  os  torna  muito  semelhantes  entre  si).  Desta  forma,  utiliza  um  sistema  numérico  para  determinar  a  inserção  em  cada  um  destes  estádios  como,  por  exemplo,  F1122a  1,  ou  seja, 

categoria  1000,  género  1100,  espécie  1120,  série  1122  e  tipo  1122a  1.  Esta  tabela  é  um 

trabalho  que,  ao  contrário  do  seu  precursor,  proporciona  a  inclusão  de  novas  variantes,  ou  formas,  sem  que  dissolva  a  concepção  inicial,  pelo  que  esta  organização,  puramente  formal,  não  se  esgotará  nas  possibilidades  de  inclusão  e  não  correrá  os  mesmos  riscos  da  anterior.  Este é talvez o grande contributo de Morel, a par da exaustiva sistematização, já mencionada,  que  concedeu  aos  perfis  dos  pés  e  à  importância  que  atribuiu  às  produções  de  difusão  dita  “não  universal”,  que  dizem  respeito  a  diferentes  centros  produtores,  cuja  localização,  na  maioria  dos  casos,  é  desconhecida3.  Para  além  disso  lança  uma  nova  visão  sobre  o  que  se        

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 Algumas destas oficinas foram identificadas como, seja o caso, do “atelier das pequenas estampilhas”, “Nikia‐Ion” ou o das “três  palmetas radiais” (Morel, 1981, p. 48). 

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entende por “imitação”, caracterizando não aqueles modelos que apresentam parecenças com  o  protótipo,  mas  aquelas  peças  que  foram  voluntariamente  copiadas  num  momento  obrigatoriamente posterior (Morel, 1981).  

A investigação continuou na tentativa de determinar os inúmeros centros produtores  espalhados  pelo  Mediterrâneo  ocidental,  bem  como  com  o  intuito  em  caracterizar  as  diferentes facies das diversas produções e sua distribuição no mundo romano. A possibilidade  de efectuar algumas análises petrográficas e químicas a alguns conjuntos, permitiu a definição  de  centros  produtores,  reestruturando  a  concepção  que  se  tinha  das  áreas  de  produção  e  relações económicas entre regiões. 

 

   

3.2 O estudo em Portugal 

 

A  primeira  notícia,  plausível  de  se  relacionar  com  a  presença  deste  tipo  cerâmico  em  território nacional, data de 1910 e refere‐se a Chibanes (Setúbal). O autor, A.I. Marques Costa  apresenta descrições e material fotográfico que parece conferir credibilidade à sua classificação 

(apud, Luís, 2008, p. 21). Certamente existiram outras referências ao que hoje conhecemos pela 

designação de cerâmica campaniense mas a dificuldade à altura de a identificar, complexifica,  actualmente  e  na  impossibilidade  de  analisar  o  material,  a  sua  associação.  Mais  uma  vez  confirmando  o  impulso  dado  pela  Classificazione  verifica‐se  que  em  Portugal  as  referências  àquele tipo cerâmico se reproduzem a partir de 1950.  

Em 1971, Veiga Ferreira publica um conjunto de materiais de diferentes pontos do país  passíveis de se interpretarem como campaniense, mas ainda muito envolto em confusão pela  presença de  outros tipos de cerâmica  e muito vago em informação, o mesmo já não se pode  dizer da síntese elaborada por Manuela Delgado nesse mesmo ano.  

M.  Delgado  toma  por  base  a  tipologia  de  Lamboglia,  fazendo  acompanhar  as  descrições,  mais  ou  menos  pormenorizadas  da  pasta,  verniz  e  decoração,  do  respectivo  desenho. Simultaneamente, já refere os primeiros trabalhos de Morel, pelo que podemos dizer  ter‐se  tratado  de  um  marco  bibliográfico  na  história  da  evolução  do  estudo  das  cerâmicas  campanienses  em  Portugal.  Assim,  a  autora  detectou  produções  de  A,  B,  outras  produções  “locais/regionais”,  que  designa  de  imitações  e  a  que  atribuiu  as  letras  de  D  a  I  (ainda  que  as  imitações  D  e  E  se  devam,  como  aconselha  Morel  na  Table  ronde  de  Conimbriga,  incluir  nas  produções da B (Delgado, 1976a, p. 92)), para além de imitações de cerâmica comum, e por fim  escassas  C.  A  sua  amostra  reportou‐se  ao  material  de  Vaiamonte,  Alcácer  do  Sal,  Algarve  e  Setúbal, existentes no Museu Nacional de Arqueologia e no Municipal de Santiago do Cacém, a 

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par  do  do  Castelo  da  Lousa  (Mourão)  e  Conímbriga,  num  total  de  98  exemplares.  Dando  seguimento ao seu trabalho, em 1976, publica um conjunto de 86 fragmentos de campaniense  e produções “locais/regionais”, dos tipos F, G e H, de Conimbriga (Delgado, 1976b, p. 21‐26). 

Dois  anos  depois,  Joaquina  Soares  publica,  sob  a  forma  de  nótula,  o  segundo  artigo  português, acerca exclusivamente da cerâmica campaniense, tomando por base os materiais do  interior do Castelo de Alcácer do Sal. Aqui já se notam preocupações relativas à distinção entre  as  diferentes  produções  de  B  e  imitações,  bem  como  a  referência  às  obras  mais  recentes  e  importantes sobre o assunto. 

Existe  um  sem  número  de  publicações  que  não  sendo,  especificamente,  dedicadas  ao  estudo  de  cerâmica  campaniense  têm‐lhe  feito  menção  e  das  quais  destacamos:  Santarém  (Diogo,  1984);  Castelo  Velho  de  Veiros  (Arnaud,  1970);  Pedrão,  em  Setúbal  (Soares  e  Silva,  1973); necrópole de Torre de Ares (Nolen, 1994); Mesas do Castelinho (Fabião e Guerra, 1994);  Forte de São Sebastião, em Castro Marim (Arruda e Pereira, 2008); Monte Molião (Elisa e Serra,  2006); algum material referente aos castella do Baixo Alentejo (Maia, 1987), entre outras. 

Existem  outras  que,  parcialmente  ou  integralmente,  são  dedicadas  ao  estudo  de  conjuntos  de  cerâmica  campaniense:  Lomba  do  Canho,  com  uma  síntese  da  história  das  investigações  e  apresentação  do  panorama  bibliográfico  conhecido  até  então,  tipologias  e  cronologias  (Fabião  e  Guerra,  1996b); material  depositado  no  Museu  de  Sintra  (Sousa,  1996);  Mesas  do  Castelinho  (Fabião,  1998);  Cabeça  de  Vaiamonte  (Fabião,  1998);  Santarém  (Bargão,  2006); Faro, Balsa e Castro Marim (Viegas, 2009); Mértola (Luís, 2008); Castelo da Lousa (Luís,  2010), entre outras.     

3.3 O actual estado dos conhecimentos, seus condicionalismos e questões 

 

Em  Portugal  tem  havido  alguma  resistência  quanto  à  utilização  da  tipologia  preconizada  por  Morel,  prevalecendo,  na  maioria  dos  casos,  o  recurso  às  formas  antigas  de  Lamboglia.  Percebemos  que  tal  suceda  devido  ao  facto  de  trabalharmos  com  fragmentos  muito reduzidos, mas consideramos que se deverá fazer o esforço pela atribuição morfológica  com base em Les Formes, ainda que sempre acompanhada da respectiva forma de Lamboglia  (já que as referências mais antigas baseiam‐se naquela tipologia), de modo a uniformizarmos a  linguagem.  A Mesa Redonda Internacional de Ampúrias, realizada no ano 1998, sobre as cerâmicas  de verniz negro dos sécs. II e I a.C., conferiu algumas directrizes e conclusões importantes no 

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avanço das investigações4. Em primeiro lugar, e devido ao uso abusivo que se tem vindo a dar  à aplicação do termo b‐óide, convencionou‐se a sua anulação e substituição pela designação  de cerâmica calena média ou tardia.  

Decidiu‐se,  igualmente,  considerar  a  Campaniense  B  etrusca  como  “não  universal”,  tendo  em  conta  a  sua  escassa  representatividade  no  Mediterrâneo  ocidental,  pelo  que  esta  constatação talvez se possa alargar à cerâmica Campaniense C.  

Uma  das  questões  centrais  deste  debate  residiu  na  terminologia.  Para  alguns  investigadores a designação de campaniense é ambígua, dado que, remete para uma realidade  geográfica  muito  concreta  e  é  utilizada  para  designar  produções  com  origens  geográficas  muito díspares. Daí que prefiram a designação de verniz negro. Seguindo os pressupostos da  Mesa  Redonda,  optámos  por  designar  cerâmica  Campaniense  B  ou  produções  da  B,  sempre  que  nos  referirmos  àquelas  peças  cuja  origem  se  desconhece.  Utilizamos  a  designação  “local/regional” para as campanienses que imitam os reportórios formais da A e B, em pastas  laranjas e cinzentas (com verniz negro), sendo que a campaniense “verdadeira” será designada  de  Campaniense  B  etrusca  e  as  restantes,  sempre  que  se  conheçam  os  centros  produtores,  anexamos‐lhes a sua origem geográfica. Ou seja, acrescentar, sempre que possível, a origem à  classe. As restantes (campaniense A e C) não encerram este tipo de problemas. 

Esta  Mesa  Redonda  serviu  para  a  divulgação  compilada  da  caracterização  de  produções “locais/regionais” de vários pontos da Península Ibérica; para a sintetização de um  quadro  de  distribuição  da  Campaniense  A,  conhecida  até  ao  momento,  suas  cronologias  e  discussão  acerca  da  substituição  desta  pela  Campaniense  B.  Os  autores  expuseram  os  seus  dados, igualmente, quanto ao âmbito cronológico que consideram ser o do fim da importação  da campaniense no ocidente peninsular.     

4. A colecção do sítio Mesas do Castelinho 

4.1 Metodologia 

4.1.1 Composição, tratamento da amostra e critérios de quantificação    Os materiais que deram origem a este trabalho provêm de 19 anos de campanhas de  escavação no sítio Mesas do Castelinho, da responsabilidade científica do Dr. Amílcar Guerra e  Dr. Carlos Fabião, bem como do espólio recolhido por C.J. Ferreira aquando da sua intervenção  de emergência, após as grandes destruições de 1986.          4  Os dados que se seguem referem‐se ao capítulo de conclusões daquela Mesa Redonda (Aquilué Abadias, et al., 2000). 

Imagem

Gráfico  1.  Contabilização  do  número  de  fragmentos  classificáveis 9   (barra  azul)  e  inclassificáveis 10   (bojos  sem  classificação tipológica) (barra vermelha) por área de proveniência  
Gráfico 2. Distribuição do conjunto total de cerâmica campaniense de Mesas do Castelinho por grupos de fabricos  
Gráfico 3.  Distribuição em percentagem dos tipos de decoração presente no sítio.  

Referências

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