DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
A CERÂMICA CAMPANIENSE DE MESAS DO CASTELINHO
Catarina Susana Antunes Alves
Mestrado em Arqueologia
2010
Volume I
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
A CERÂMICA CAMPANIENSE DE MESAS DO CASTELINHO
Catarina Susana Antunes Alves
Mestrado em Arqueologia
Dissertação orientada pelo Prof. Doutor Carlos Fabião
À memória de Carla Matias
Agradecimentos
A concretização deste projecto não teria sido possível sem a contribuição de inúmeras pessoas que me apoiaram e incentivaram ao longo deste percurso, pelo que aqui expresso o meu mais profundo agradecimento.
Em primeiro lugar, ao Prof. Doutor Carlos Fabião que, com imensa paciência, acompanhou e orientou todas as linhas que compõem este texto, sempre com uma análise crítica que me guiou por “caminhos” mais sensatos.
À Prof. Doutora Ana Margarida Arruda pela disponibilidade e partilha de alguns critérios de classificação cerâmica.
À Prof. Doutora Catarina Viegas pela prontidão em partilhar comigo alguma da bibliografia de difícil acesso, cuja consulta se mostrou fulcral para a concretização deste projecto.
Ao Mataloto, que acompanhou, bem de perto, todo o processo, pelas conversas e questões sempre pertinentes. Por toda a ajuda e incentivo muito obrigado.
Agradeço na mesma medida à Susana Estrela pelas estimulantes conversas sobre Mesas do Castelinho que em muito beneficiaram este trabalho.
Não posso deixar de agradecer ao Carlos Pereira que disponibilizou bibliografia difícil de aceder.
À Márcia perita em “moer juízos”, à Tisha pela sua permanente boa disposição e incentivo, à Loira, ao Bocas e à Guida amigos de longa data e sempre presentes apesar da distância.
Ao Josué pela paciência e apoio essencial em momentos de desânimo.
Por último, mas nunca em último, um agradecimento muito especial à minha família, que me aturou e albergou nestes últimos meses e sem a qual nada, mas mesmo nada, seria possível.
Resumo:
O sítio arqueológico Mesas do Castelinho, Almodôvar, é de um povoado fortificado fundado nos finais do séc. V‐IV a.C. que mais tarde, já em pleno séc. II da mesma Era, pelas evidências materiais, revela, fortes e precoces, contactos com o mundo Romano, sem sinais de qualquer espécie de violência.
A ocupação Romana Republicana do povoado caracteriza‐se pela reorganização arquitectónica, que definiu um urbanismo ortogonal, já sem sistema defensivo, bem como por um acervo material de dimensões impressionantes, cujas potencialidades informativas, acompanhadas das leituras estratigráficas fornecidas por um sítio escavado de acordo com os pressupostos metodológicos avançados por Ph. Barker (Barker, 1982) e complementados pela leitura estratigráfica preconizada por E. Harris (Harris, 1991), definem o povoado como um dos mais importantes para a compreensão da evolução das comunidades indígenas face à nova realidade e poder romano.
Da imensa colecção de material arqueológico recolhido, ao longo de 20 campanhas de escavação, são aqui apresentados os dados referentes à cerâmica campaniense. O conjunto, um dos mais expressivos de todo o território actualmente português, pelo menos dos que se conhecem publicados, encerra em si diversas questões, como a existência de formas raras ou únicas, mas talvez mais importante a constatação de sequências estratigráficas que permitem abordar o tema da romanização do povoado, relações com o território envolvente e a sua integração nos circuitos comerciais de ligação com o mundo litoral e a bacia do Mediterrâneo.
Palavras‐chave: Mesas do Castelinho, Romano Republicano, Cerâmica Campaniense.
Abstract:
The archaeological site of Mesas do Castelinho, in Almodôvar, is a fortified settlement founded on the late 5th to 6th Century B.C., which subsequently, by its material evidence, on the 2nd Century B.C., reveals significant and early contacts with the Roman world with no signs of conflict.
The Roman Republican occupation of the settlement is characterized by architectural reorganization in the form of an orthogonal plan no longer having a defence system, as well as an impressive material collection, with huge amount of information, along with the stratigraphic readings that an excavated site can provide following the methodology of Ph. Barker (Barker, 1982) complemented by the stratigraphic reading recommended by E. Harris (Harris, 1991), making the site one of the most important settlements to understand the evolution of native communities facing the new Roman rule.
Here we present the data concerning campanian ware originated from the vast collection of archaeological material recovered over 19 excavation campaigns. The ensemble, one of the most significant on what is currently Portuguese territory, at least from those already published, encompasses various issues, such as the existence of rare or unique forms on the ensembles already published, but perhaps most importantly, the observation of stratigraphic sequences that allow us to establish a connection with the Romanization of the settlement, the relations with the surrounding territory and its integration on commercial circuits that were connected to the Mediterranean basin coastline.
Keywords: Mesas do Castelinho, Roman Republican, Campanian ware.
Índice
Volume I
1. O POVOADO DE MESAS DO CASTELINHO NA ANTIGUIDADE
1.1 Enquadramento natural ... ...8
1.2 Mesas do Castelinho e o território envolvente: enquadramento histórico-arqueológico...9
2. BREVE SINOPSE DOS TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS EM MESAS DO CASTELINHO 2.1 O pré 1986……….. ... ...11
2.2 A intervenção de C.J. Ferreira ...13
2.3 O projecto Mesas do Castelinho (1988 a 2008) ...13
2.3.1 Síntese dos resultados: faseamento e arquitectura ...14
2.3.1.1 Ocupação da Idade do Ferro ...15
2.3.1.2 Ocupação Romana Republicana ...15
2.3.1.3 Ocupação Romana Imperial ...18
2.3.1.4 Ocupação Islâmica ...19
3. A CERÂMICA CAMPANIENSE 3.1 História da investigação (breve sinopse) ...19
3.2 O estudo em Portugal ...22
3.3 O actual estado dos conhecimentos, seus condicionalismos e questões... 23
4. A COLECÇÃO DO SÍTIO MESAS DO CASTELINHO 4.1 Metodologia….. ...24
4.1.1 Composição, tratamento da amostra e critérios de quantificação...24
4.2 Áreas de produção ...28
4.2.1 Campânia………. ...28
4.2.1.1 cerâmica Campaniense A……….. ...28
4.2.1.2 cerâmica Campaniense B de Cales ...32
4.2.2 Etrúria…..……….. ...34
4.2.2.1 cerâmica Campaniense B de Arezzo…..……….. ...34
4.2.3 “local regional” de verniz negro…..……….. ...36
4.2.3.1 cerâmica de pasta cinzenta com verniz negro de imitação de Campaniense B ...38
4.2.3.2 cerâmica de pasta laranja com verniz negro de imitação de Campaniense A…40 4.3 Caracterização dos fabricos identificados ...41
4.3.1 Fabrico da Campânia F1 ...41
4.3.1.1 Fabrico da Campânia F2 ...41
4.3.2 Fabrico de Cales F3 ...42
4.3.2.1 Fabrico de Cales F4 ...42
4.3.3 Fabrico de Arezzo F5 ...43
4.3.3.1 Fabrico de Arezzo F6 ...43
4.3.4 Fabrico local ou regional F7...43
4.3.4.1 Fabrico local ou regional F8 ...44
4.3.5 Análise dos dados ...45
4.4 Categorias cadas 4.4.1 categoria 1000 ...50 4.4.2 categoria 2000……… ...59 4.4.3 categoria 3000………... 70 4.4.4 categoria 7000……… ...72 4.4.6 decorações……… ... 76 4.4.7 grafitos……… ...80 4.4.8 marcas de oleiro ... 81
5. CONTEXTUALIZAÇÃO ESTRATIGRÁFICA DOS MATERIAIS EM ANÁLISE (1987-2008) 5.1 Dinâmica de evolução da ocupação do grafia e cronologias)...81
5.2 Evolução económica ... 90
6. A CERÂMICA CAMPANIENSE DE MESAS DO CASTELINHO NA DINÂMICA COMERCIAL ROMANA REPUBLICANA DO SÉCULO II E I A.C. NO SUDOESTE PENINSULAR...93
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 101
8. BIBLIOGRAFIA………..……… .105
Volume II Anexo I. Figuras Anexo II. Tabelas Anexo III. Estampas Anexo IV. Listagem descri va e pológica do material estudado Anexo V. Listagem descri va das Unidades áficas contempladas 4.4.5 outras... 74
Preâmbulo
A escolha do tema desta dissertação recua aos tempos da licenciatura, ainda que nessa altura este objectivo estivesse longe dos meus horizontes. Assim, no âmbito da disciplina Arqueologia do Mundo Provincial Romano, e em conjunto com Carla Matias, estudámos uma pequena amostra da cerâmica campaniense proveniente das intervenções de Mesas do Castelinho. Nos anos que se seguiram, o Prof. Doutor Amílcar Guerra sugeriu investirmos no estudo daquele tipo cerâmico, dando início ao tratamento de uma amostra mais alargada (que incluiria todos os contextos da plataforma superior daquele sítio arqueológico), com a finalidade de publicar os dados. Infelizmente, não pudemos concretizar conjuntamente esse projecto e apenas eu pude dar‐lhe seguimento, ainda que já sob a forma de dissertação de mestrado.
As primeiras publicações que divulgam a presença de cerâmica campaniense em Mesas do Castelinho datam dos anos ‘90 (Fabião e Guerra, 1994 e Fabião, 1998). O trabalho que aqui se desenvolve pretende continuar e aprofundar o estudo desse conjunto, pelo que alargámos a amostra, incluindo os registos de mais nove anos de intervenções arqueológicas.
A especificidade cronológica desta cerâmica, presente no actual território português entre os sécs. II e I a.C., transforma‐a num excelente indicador, a par das produções anfóricas vinárias com a mesma origem itálica, dos primeiros contactos com o mundo romano. O seu potencial informativo (tipológico e cronológico), cruzado com o dos restantes materiais com que convive nas diferentes sequências estratigráficas escavadas, permite entendê‐la como um excelente contributo para a caracterização económica de um sítio, e respectivamente, região.
A escassa informação que se tem da sua presença em território hoje português, associada à disparidade das amostras conhecidas, muitas vezes sem contextos arqueológicos, limita uma apreciação geral do panorama nacional.
É nosso objectivo congregar toda a informação que o conjunto recolhido em Mesas do Castelinho providencia, beneficiando dos contextos estratigráficos seguros, na tentativa de contribuir para uma melhor compreensão sobre ocupação republicada deste povoado do interior do Sul peninsular.
Pese embora as agressões a que o sítio foi sujeito (naturais e especialmente antrópicas), que conduziram à destruição de muitos dos seus contextos estratigráficos, grande parte do povoado, especialmente a plataforma inferior, encontrava‐se muito bem preservado. De tal forma, que proporcionou leituras estratigráficas fulcrais no contributo, que pensamos ser incontornável, para a compreensão da evolução dos núcleos indígenas nos alvores da
romanização, bem como nas dinâmicas económico‐comerciais dos povoados do interior meridional peninsular com a região envolvente e a bacia do Mediterrâneo.
A estruturação deste trabalho conta com dois volumes. O primeiro dividido em sete capítulos e o segundo em V anexos, figurativos, que auxiliam a leitura do texto.
O primeiro capítulo refere‐se à “biografia” do sítio, com uma caracterização geográfica do povoado e onde delimitamos, sumariamente, o quadro de acontecimentos histórico‐ arqueológicos, que de alguma maneira se relacionam com a “vida” daquele povoado e com a região em que se insere.
No capítulo 2 expõe‐se, de forma sintética, as escavações arqueológicas e os resultados obtidos, sob a direcção científica dos Profs. Doutores Amílcar Guerra e Carlos Fabião, ao longo de 19 campanhas, logo após as destruições de 1986 e da intervenção de emergência supervisionada pelo Dr. C.J. Ferreira.
Tentámos, no capítulo 3, dar uma perspectiva geral da história da investigação da cerâmica campaniense, seus condicionalismos e o actual estado da questão.
O capítulo 4 é dedicado ao estudo dos materiais que dão mote a este trabalho. Aqui são expostos os princípios metodológicos que regeram toda a análise qualitativa e quantitativa do material, para em seguida analisar as áreas de produção identificadas, fabricos e tipologias presentes no conjunto de Mesas do Castelinho.
Com base nos contextos mais significativos e com maior potencial informativo, o capítulo 5 serve para contextualizar a cerâmica campaniense na diacronia de ocupação do povoado, permitindo algumas considerações sobre as suas dinâmicas.
Antes das considerações finais, onde tentamos condensar as linhas fortes que resultam da análise da cerâmica campaniense de Mesas do Castelinho e o seu contributo para a compreensão do sítio (capítulo 7), tentamos traçar o quadro de dinâmicas de comércio que a região interior do Sul do actual território português, na qual se insere Mesas do Castelinho, mantém com a bacia do Mediterrâneo durante os sécs. II e I a.C. (capítulo 6).
No segundo volume pode encontrar‐se, no anexo I, um conjunto de figuras de apoio à compreensão do texto. O anexo II refere‐se a um conjunto de tabelas referentes à quantificação cerâmica e dispersão de formas no actual território português que têm paralelos em Mesas do Castelinho, bem como uma base de dados onde estão representados as contagens e os contextos estratigráficos de onde se recolheu campaniense inclassificável. Seguem‐se as estampas, no anexo III e o anexo IV com o catálogo de peças analisadas. Por último, no anexo V é possível consultar uma base de dados com a descrição das Unidades Estratigráficas contempladas neste trabalho.
1. O Povoado de Mesas do Castelinho na Antiguidade
1.1 Enquadramento natural
O povoado Mesas do Castelinho situa‐se na Herdade do Monte Novo do Castelinho, a cerca de 2 quilómetros a Sul da aldeia de Santa Clara‐a‐Nova, no concelho de Almodôvar. Este sítio pode‐se localizar nas seguintes coordenadas geográficas: Latitude = 37˚ 08’ 22’’ e Longitude = 08˚ 07’ 30’’, segundo a CMP 1:25 000, folha nº 572, Dogueno‐Almodôvar (v. fig. 1 e 2).
Implanta‐se numa área de fronteira natural, que permite a passagem entre o Baixo Alentejo e o Algarve, num ponto de transição entre as áreas mais elevadas da peneplanície alentejana e o relevo acidentado da Serra do Caldeirão. Este fenómeno orográfico ocorre desde Mértola e acompanha‐se “… ao longo do interflúvio principal, seguido em grande parte pela estrada de Almodôvar para a serra” (Oliveira et al., 1992). Esta peculiaridade geográfica esteve na origem da existência de alguns caminhos que atravessam a serra, e que aliados à proximidade do Guadiana determinam, compreensivelmente, as ocupações antigas da região.
O sítio arqueológico, circunscreve‐se a uma plataforma a Norte (designada Plataforma B ou inferior) de planta genericamente rectangular, coberta por estevas e olival e que se adossa a outra (designada Plataforma A ou superior), na extremidade Sul, a uma cota superior, de menores dimensões e forma arredondada. Regista‐se ainda, a Oeste desta última plataforma, uma terceira que a circunda e que, aparentemente, não se regista em todo o seu perímetro. Num total de cerca de 4 hectares o povoado assume o seu eixo maior no sentido Norte – Sul com cerca de 250 metros, por uma média de 100 metros de largura. Hidrograficamente implanta‐se na margem Sul da ribeira de Mora, de escasso caudal, sendo circundado por dois barrancos, a Este e a Oeste, de fluxo actualmente inexistente. Integra‐se numa região xistosa e de fracas aptidões agrícolas decorrentes dos solos esqueléticos do maciço antigo, onde a cobertura vegetal é, predominantemente, constituída por azinheiras, sobreiros e estevas.
Relativamente às actividades económicas do povoado, trabalhos levados a cabo em 1992 revelaram a ausência de vestígios de redução primária de metais (Beau, 1994), o que contrasta com a proximidade da faixa piritosa Alentejana e a conhecida exploração, em grande escala, na área de Aljustrel. Essa presença na economia local foi atestada em recentes escavações arqueológicas, por sugerirem a existência, no sector 3 da Plataforma B (v. capítulo 2), de um conjunto de fornos integrados num esquema de produção industrial metalúrgica, num contraste evidente com os espaços de combustão de cariz doméstico da restante área do povoado (Fabião et al., 2007, p. 11). Apesar deste facto, a conjugação das características
naturais do local levam a supor que a principal actividade económica do povoado seria a pecuária (Fabião, 1998, p. 277).
Actualmente, o sítio possui uma aparente defensibilidade natural suportada pelos taludes bem marcados a Norte, Este e Oeste. Possui um acesso fácil a Sul e superfícies aplanadas. Estas ter‐lhe‐ão conferido o topónimo por que ficou conhecido: Mesas, e distinguem‐no numa paisagem dominada por elevações com perfis ondulados (v. fig. 3). Esta artificialidade topográfica é consequência da natural acumulação de terras, resultante das diferentes ocupações ali presentes. Abel Viana descreveu a área Sul do povoado como um “…pico vulcânico, por causa da sua forma cónica.” (Viana, Ferreira e Serralheiro, 1957), referindo‐se, no entanto, às ruínas da fortificação Omíada, que os diferentes processos de erosão cobriram (v. fig. 4). Mais tarde, em 1992, C.J. Ferreira publicou um registo gráfico que documentava 5 metros de estratigrafia ocupacional, desde o topo ao sopé da encosta Este na plataforma B, e que suportada pela muralha da Idade do Ferro contribuiu para esta noção topográfica errónea.
Atendendo à sua descrição orográfica percebe‐se que a escolha do local não se pautou por critérios de defensibilidade, já que o povoado Mesas do Castelinho em nada se destaca do que originalmente seria a topografia da paisagem envolvente. Esta estratégia de implantação deveu‐se, antes, a factores geográficos porque permite controlar um dos poucos corredores naturais (Noroeste – Sudeste) entre o Baixo Alentejo e o Algarve. O povoado terá funcionando como “posto” de controlo de via terrestre, ainda que secundária (Fabião, 1998, p. 276), já que a proximidade e navegabilidade do rio Guadiana, faziam deste a mais importante via de circulação de produtos, gentes e ideias. A preferência desta área na comunicação entre regiões, transporte e circulação de gentes assume uma perenidade até aos dias correntes e materializa‐se na construção da Estrada Nacional nº 2 e, posteriormente, na Auto‐Estrada A2, caso que se repete por todo o território.
1.2 Mesas do Castelinho e o território envolvente: enquadramento histórico‐
arqueológico
Desde o século V‐IV a.C. até à I Guerra Púnica, Cartago recorre à utilização de mercenários ibéricos, nomeadamente dos povos indo‐europeus do Norte e Centro do território (Fabião, 1997, p. 195). As fontes clássicas são omissas relativamente a este período o que deve ser entendido à luz da interpretação do segundo Tratado romano‐cartaginês, dado a conhecer por Políbio, em 348 a.C. O referido documento impõe o condicionamento da
circulação de Roma no Mediterrâneo ocidental, com limites fixados em Mastia e Tarseion (Arruda, 2004a, p. 331), o que, consequentemente, limitava a circulação daqueles que elaboravam as “fontes antigas”. Apesar de se desconhecerem os contornos das movimentações cartaginesas os actuais dados arqueológicos não suportam a existência de uma efectiva ocupação do território.
A luta entre Roma e Cartago pela hegemonia do Mediterrâneo central e o pedido de auxílio de Sagvntvm, em 220, motivada pelo descontentamento em relação à soberania de Cartago, desencadeou o retomar das hostilidades entre as duas potências.
Em 218, Aníbal Barca ataca Roma a partir da Península Ibérica e dá‐se início à II Guerra Púnica, cujo palco dos confrontos foi a área meridional da Península Ibérica, excluindo, ao que tudo indica, o actual território português (Fabião, 1997, p. 197). Roma, até então, não manifestara interesse em conquistar o território da Península ibérica, mas a necessidade em afastar a ameaça cartaginesa, fazendo‐os recuar para o Norte de África, conduz à presença física romana no território hispânico.
Desde 218, ano em que C. Cornélio Cepião desembarca em Emporion, até 202, ano do fim da II Guerra Púnica, que Roma conquista e consolida posições no vale do Ebro, assim como na área meridional da Península Ibérica. Se nos finais do século III a.C. a presença romana era essencialmente militar, com a incumbência de manter a ordem e controlo, posteriormente, e já consciente das potencialidades do extremo ocidente, inicia mecanismos de exploração e organização do território, com a implantação do primeiro ensaio administrativo (Hispânia
Ulterior e Hispânia Citerior), em 197 a.C.
As Guerras Lusitanas marcam um momento importante de forte instabilidade e transformação do ocidente peninsular. Estes avanços guerreiros, alguns bem sucedidos, têm de ser entendidos numa perspectiva de “Banditismo Social” aliado, segundo alguns autores, a um provável excesso populacional e procura de terrenos para explorar, não se tratando desta forma de puros ataques contra o poder de Roma (Fabião, 1998).
A união dos governadores romanos da península, o enfraquecimento dos Lusitanos e a impossibilidade de continuarem a sustentar a guerra, leva‐os a aceitar a paz em 139 aC. Segundo alguns investigadores, em meados deste século o domínio de Roma já abrangia o médio e baixo Vale do Ebro e toda a Andaluzia e Algarve estariam pacificados, tal como parte do Alentejo (Blázquez, 1988, p. 95) (v. fig. 5). Se a Sul o território não estivesse sob o seu domínio não faria sentido que, segundo as fontes clássicas, o novo governador da Ulterior, Décio Júnio Bruto, em 138 a.C., tivesse estabelecido o seu quartel‐general em Móron, localizado, ao que tudo indica, no vale do Tejo, e fortificado Olisipo, com o intuito de facilitar o abastecimento marítimo dos exércitos, preparando‐se para o início do que é considerado
como a primeira grande campanha militar romana, que teria seguido um trajecto análogo ao que mais tarde se tornaria a via romana Olisipo – Bracara.
Os conflitos decorrentes da disputa pelo poder de Roma entre a aristocracia romana intensificam‐se nos inícios do século I a.C. e ocorrem em parte na Hispânia. É neste contexto que Sertório, partidário de Mário, regressa à Península Ibérica para combater Sula por o considerar usurpador do poder de Roma. A estratégia de combate incluía a criação de pactos de hospitalidade e clientela com as populações indígenas que serviam, simultaneamente, para vencer Sula e consolidar o seu poder na Hispânia, favorecendo a romanização (Fabião, 1997, p. 207‐211).
No actual território português conhecemos várias instalações com diferentes soluções arquitectónicas e funcionais adoptadas durante o período romano republicano. Contudo, a área geográfica a que nos reportamos, Baixo Alentejo, carece de muito trabalho de escavação e investigação para melhor compreender a malha deste povoamento. Certo será que o sítio Mesas de Castelinho não estaria isolado. Cerca de 50 quilómetros a Nordeste implanta‐se o povoado pré‐romano de Myrtilis, um importante entreposto comercial entre o Mediterrâneo e o Alentejo que terá servido de pólo aglutinador de toda a região e que manteve contactos com Mesas do Castelinho, como sugere o espólio numismático ali recolhido.
Não será este o local indicado para analisar o tema, pelo que nos limitamos a uma simples menção aos designados castella enquanto produto de um modelo (os) de instalação já expressivo, diga‐se em número de presenças, no Baixo Alentejo. Cronologicamente, surgem entre a segunda metade do séc. I a.C. e a primeira da centúria seguinte e deverão corresponder a estruturas de fundação romana, não necessariamente itálica (Fabião, 1997, 2004b), cuja funcionalidade e enquadramentos continuam sob acesso debate científico.
O sítio Mesas do Castelinho insere‐se num grande grupo de ocupações de fundação pré‐romana que continua a funcionar em período romano. Esta diacronia de ocupação torna‐o fulcral na compreensão das transformações do espaço, hábitos e cultura material que acompanham a instalação do poder e influência romana nas populações indígenas.
2. Breve sinopse dos trabalhos arqueológicos em Mesas do Castelinho
2.1 O pré 1986
O sítio arqueológico Mesas do Castelinho é referido, pela primeira vez, em finais do séc. XIX, por J.L. Vasconcelos, numa das suas visitas ao Baixo Alentejo (apud, Fabião, 1998, p.
278). No entanto, é em meados e 3º quartel do século seguinte que o local é amplamente mencionado nas publicações portuguesas.
Em 1948, João Almeida integra o povoado no Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, sugerindo tratar‐se de uma “…almenara do tempo dos Mouros.” (Almeida, 1948, p. 298). Passados dez anos, Abel Viana, Octávio da V. Ferreira e o pároco local António Serralheiro voltam a mencioná‐lo, bem mais pormenorizadamente, no que é considerada como a 1ª notícia de carácter científico. Os autores, ainda que ludibriados pelo efeito das terraplanagens agrícolas, pequenos saques ilícitos e pela degradação natural das plataformas, tecem comentários topográficos e cronológicos, integrando o povoado no panorama arqueológico regional. Importa salientar, que o seu mais importante legado reside nas duas e únicas fotos publicadas (Viana et al., 1957, p. 471) que registam o sítio antes das grandes destruições dos anos ’80. Simultaneamente, alertam para a necessidade da sua escavação “…enquanto a moderna maquinaria agrícola não entrar ali e destruir tudo.” (Viana et al., 1957, p. 464), tal como viria a suceder, ainda que não com o propósito de cultivar o terreno.
Relativamente ao material cerâmico publicado, também aqui Viana e seus colegas são pioneiros, referindo uma pequena taça hemisférica de cerâmica ática da forma 2770/80, da tipologia de Morel (Lamboglia 21‐24) e apresentando, na estampa I, uma tigela inteira em cerâmica campaniense (F2300/Lamb. 1) (Viana et al., 1957, p. 470). Mais tarde, em 1971, Manuela Delgado retoma a referência daquela peça grega (F2786/Lamb. 24A), datada do séc. IV‐III a.C. (Delgado, 1971, p. 419) que, curiosamente, pertencia à colecção pessoal do pároco Serralheiro. Três anos depois, Teresa Gamito e José Arnaud referem a presença de cerâmica estampilhada inserindo o sítio, definitivamente, no contexto da II Idade do Ferro (Arnaud e Gamito, 1974‐77, p. 195) Em suma, o povoado foi desde muito cedo conhecido e divulgado entre a comunidade científica, integrando, desde 1960, as representações cartográficas do Bronze Final (Schubart, 1975, p. 287) e Idade do Ferro. Porém, isso não impediu os atrozes actos de vandalismo, uns conscientes, outros talvez não, mas que danificaram, irremediavelmente, alguns contextos do povoado. A par da transposição de terras da cota mais elevada do povoado para a mais baixa, e nesta de Oeste para Este, a propósito do plantio de olival, torna‐se impossível não remontarmos ao ano de 1986. Nesta data, o então proprietário arrasou cerca de 1/3 do povoado, utilizando um bulldozer, sob o pretexto não assumido de descobrir um tesouro. Assim, a plataforma A encontrava‐se bastante revolvida, o que resultou da abertura de uma imensa vala Este ‐ Oeste junto à face interna da muralha e que danificou, irremediavelmente, toda a área Sul. A Este da periferia do sítio, registou‐se outro corte de tal forma profundo que
na plataforma B se detectou um perfil de 5 m de altura (v. fig. 6). Os dados que permitiriam a compreensão entre ambos os espaços (plataforma A e B) foram, igualmente, comprometidos pela abertura de uma terceira vala no sentido Este ‐ Oeste que afectou o talude e a própria muralha. Felizmente, a restante área da plataforma B ficou a salvo pelo simples facto de não ser pertença daquele proprietário.
Só após este triste episódio se reuniram esforços para estudar e salvar o sítio, começando por dar seguimento à sua classificação como imóvel de Interesse Público, o que ocorreu em 1989 (DL 29/90 de 89.07.17).
2.2 A intervenção de C.J. Ferreira
As primeiras intervenções arqueológicas no sítio devem‐se ao Dr. Carlos Jorge Alves Ferreira, técnico superior do Departamento de Arqueologia do antigo Instituto Português do Património Cultural (IPPC), que numa acção de emergência dá início aos trabalhos de limpeza dos cortes resultantes da acção mecânica de 1986, com registo gráfico dos mesmos, recolha de materiais à superfície e levantamento topográfico do povoado (Ferreira, 1992).
A constatação do elevado índice de destruição do sítio não impediu a percepção da existência de uma diacronia de ocupação longa, que se estenderia desde a II Idade do Ferro ao período Islâmico, com uma ocupação intermédia com datação romana republicana. Não terá sido possível a identificação da presença romana em momento Imperial, dado que os pontos abordados no terreno não seriam, como as escavações futuras viriam a demonstrar, as áreas onde essa ocupação se registava/conservava.
2.3 O projecto Mesas do Castelinho (1988‐2008)
Dois anos após o grande atentado patrimonial e a convite do IPPC o Dr. Carlos Fabião e o Dr. Amílcar Guerra assumem a direcção dos trabalhos, que se mantêm até aos dias de hoje, com interregno no ano de 2004.O projecto de investigação que contemplava a salvaguarda e valorização daquele património contou com inúmeros apoios, nomeadamente UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa), Câmara Municipal de Almodôvar, Junta de Freguesia de Santa‐Clara‐ a‐Nova e seus moradores, Somincor, Instituto Português da Juventude, Exército, entre outros, sem os quais seria impossível ter levado a cabo este projecto.
O primeiro ano de intervenções consistiu na limpeza das áreas revolvidas decorrentes das interfaces negativas abertas em 1986 (v. supra).
A escavação da fortificação Omíada iniciou‐se no ano seguinte, com a delimitação do sector A1 (v. fig. 7), e estendeu‐se a 1992, ano em que se iniciam as escavações de um conjunto de construções romanas republicanas subjacentes ao castelo. Seguiram‐se diferentes alargamentos a Noroeste, no ano 1990, e a Sul e Este em 1994. Este último ano marca o fim da escavação dos níveis republicanos e início dos contextos da II Idade o Ferro.
A escavação do sector A2, localizado a Sudoeste do A1, iniciou‐se em 1992, tendo sido retomada apenas em 1995, devido a questões orçamentais. Uma das valas de destruição, já referidas, cortava a estratigrafia presente entre A1 e A2, pelo que na tentativa de articular os dados provenientes de ambos os sectores, definiu‐se, a Oeste da plataforma, um novo sector: A3.
Se nos primeiros anos os trabalhos na plataforma B se circunscreveram à colmatação das crateras infligidas pelo bulldozer, em 1996 os investigadores implantaram uma pequena sondagem (B1) no topo da secção 3, do Corte C‐B desenhado por C.J. Ferreira, em 1987 (v. fig. 8 e 9).
Em 1997, iniciaram‐se os trabalhos no quadrante Sudoeste desta plataforma (sector B2) que à partida se esperava melhor preservado. A finalização das escavações neste sector e a consequente necessidade em perceber como se comportava o interior do povoado impôs um natural alargamento a Este, naquilo que seria identificado com o sector B3. Estávamos no ano de 2002.
Seguidamente, faremos a síntese dos principais aspectos caracterizadores das diferentes ocupações que o sítio conheceu, ainda que com especial incidência no período que aqui nos importa. Este exercício teve como base os relatórios de escavação do sítio, entre os anos 1988 e 2008, pelo que correndo o risco de nos tornarmos repetitivos, abstemo‐nos de multiplicar as indicações de referências bibliográficas ao longo deste sub‐capítulo (2.3.1). 2.3.1 Síntese dos resultados: faseamento e arquitectura No decorrer das escavações foi possível identificar materiais arqueológicos de datação Calcolítica e da Idade do Bronze. No entanto, são apenas o resultado de recolhas de superfície e material residual presente em níveis de cronologias mais recentes, o que invalida considerações peremptórias quanto à natureza da ocupação do local nestes momentos mais remotos.
2.3.1.1 Ocupação da Idade do Ferro
A presença de um fragmento de uma taça Cástulo na [376], do ambiente (Amb.) VIII, do sector B2, sobreposto a um nível com cerâmicas com decorações estampilhadas, (que lhes confere, definitivamente, uma antiguidade no contexto da área do actual território português), sugere uma primeira ocupação do povoado em meados do século V a.C. Isto é, inserível na designada II Idade do Ferro do Sudoeste peninsular, e em estreita proximidade cronológica com os núcleos das áreas de Neves Corvo (Almodôvar/Castro verde) e Fernão Vaz (Ourique).
Arquitectonicamente, tanto no sector A2 e A3, como no B1, verifica‐se a construção de casas adossadas à linha de muralha, situação que não ocorre no extremo Sudoeste da plataforma inferior, onde se localiza o sector B2. Aqui, e ao que tudo indica, a área habitacional de dois edifícios, sem comunicação entre si e com portas voltadas a Este, articula‐ se mediante a construção de paredes justapostas à muralha. Estratigraficamente esta relação de justaposição poderá representar a posterioridade da edificação da estrutura defensiva ou relacionar‐se com técnicas de construção que dão essa ilusão. Esta estrutura terá adquirido maior robustez dado que o espaço que a mediava do paramento exterior das construções pré‐ existentes foi preenchido com entulho pétreo e sedimentar. Na plataforma superior, na área anexa ao “complexo de construções do século I a.C.” (v. infra), sob o qual se identificaram, igualmente, construções pétreas de cantos arredondados, muito danificadas ou reutilizadas pela ocupação posterior, detectou‐se uma sequência estratigráfica com associação de estruturas precárias (buracos de poste, lareira e pavimentos). Esta situação sugere uma ocupação sob a forma de cabanas aquando da construção do sistema defensivo, mais do que um espaço aberto do tipo pátio. A localização topográfica do sítio, sobranceiro a linhas de água e vertentes marcadas a Norte, Este e Oeste, coloca o povoado antigo (da II Idade do Ferro) no tipo III de aglomerados fortificados desta cronologia, segundo a tipologia de implantação definida por L. Berrocal para a área céltica do Sudoeste peninsular (Berrocal‐Rangel, 1992, p. 205).
A propósito, existe em curso uma dissertação de mestrado acerca da fundação do povoado que irá trazer à discussão novos dados, pelo que aguardamos os resultados.
2.3.1.2 Ocupação romana republicana
Numa área central da plataforma A, também escolhida para a edificação do Castelo Omíada e respectivo fosso, foi edificado um “complexo de construções do século I a.C.”.
Compunha‐se de quatro compartimentos domésticos (Amb. VII, VIII, X e XI) bem conservados, dois parcialmente destruídos (Amb. VI e IX) e um último (Amb. XII), que não foi intervencionado na íntegra (v. fig. 10). As destruições a que a área foi sujeita impedem perceber se se trata de um conjunto único ou se parte deste pertence a outros blocos de construção. Numa fase, diga‐se, fundacional e estruturante da construção do complexo terá sido erguida uma parede mestra com duplo paramento [74] e [78], que delimitando a Sul o Amb. VIII se apoia a uma sequência estratigráfica da Idade do Ferro. Este conjunto arquitectónico sugere que a ocupação romana se estenderia para Sul, mas a uma cota superior, tendo os seus vestígios sido removidos pelas destruições Islâmicas e Contemporâneas, e reflecte, igualmente, a grande remoção de terras dos níveis pré‐romanos, aquando da construção do complexo.
A circulação dentro do complexo faz‐se no eixo Sul ‐ Norte, rodando 180˚ relativamente à ocupação pré‐romana, da qual reutiliza estruturas e destrói a maioria. Já numa segunda fase a organização muda radicalmente e o eixo de circulação passa a ser Este ‐ Oeste, excepção feita ao Amb. IX que poderia ter funcionado com corredor. Tecnicamente, as paredes que criavam os diferentes ambientes foram construídas por pedra e adobe ou taipa, e os pisos foram criados, maioritariamente, em terra batida. Já as portas possuíam molduras de pedra e as coberturas, à falta de provas em contrário, utilizariam materiais perecíveis. Funcionalmente é de difícil interpretação, não se vislumbrando nada que distinguisse nenhuma das divisões. O conjunto artefactual é homogéneo e semelhante àquele associado às construções da plataforma B.
A construção do complexo data de finais do séc. II, inícios do I a.C., e o seu abandono não ultrapassará o 3º quartel da última centúria, dadas as ausências de fragmentos de terra
sigillata e ânforas Dressel 7‐11.
Na área a Noroeste do complexo, já amplamente descrita noutro lugar (Fabião e Guerra, 1994), não se vislumbram rupturas, sendo que o material exumado é muito homogéneo e, genericamente, datado dos três primeiros quartéis do séc. I a.C. Portanto, trata‐ se de segmentos de um mesmo urbanismo, anexos a áreas de construção menos precária.
Refira‐se, ainda, o sector A3 por corroborar a análise efectuada nas restantes áreas intervencionadas na plataforma superior. Arquitectonicamente verifica‐se a construção de um espaço doméstico sobre os escombros da antiga muralha e dos derrubes das casas a ela adossadas, sendo que o material mais recente se trata de um asse de Cneio Pompeio, datado do ano 45 a.C., pelo que a ocupação não deverá ter ultrapassado o 3º quartel desse século. Excepção feita a este compartimento, de curta duração e erguido após a regularização do
terreno, os restantes vestígios romano republicanos resumem‐se, mais uma vez, a estruturas precárias.
A plataforma inferior encontra‐se muito melhor preservada, pelo que foi possível conhecer o plano urbanístico implementado em período romano republicano.
Assim, ao contrário do que sucede noutros pontos do povoado, na área mais a Oeste ‐ sector B2 – assiste‐se à edificação de um conjunto de paredes justapostas que delimitam a área residencial sem recurso à muralha, que já se encontrava desactivada. Não sendo fortificado assume‐se como um “povoado cego”, ou seja, fechado ao exterior já que todas as aberturas deste núcleo periférico do povoado estão viradas a Este.
Genericamente, o esquema urbanístico romano republicano de Mesas do Castelinho (sector B2 e B3) caracteriza‐se pela justaposição de blocos de cariz habitacional virados para um espaço comum de circulação – Ruas. Até ao momento não existem provas categóricas, mas é expectável que existam outros eixos Este ‐ Oeste de ligação entre arruamentos.
Importa referir, que mesmo que nalguns pontos as construções republicanas se sobreponham a outras, pré‐romanas (como no sector A1 e B2), a reestruturação do espaço é marca deste novo urbanismo. Assim, os dois grandes edifícios pré‐romanos localizados no sector B2 são substituídos por quatro compartimentos alongados com orientação Oeste ‐ Este (Amb. I a VI), cujas portas estão voltadas a Este e dão acesso à Rua 1.
Os arranjos são uma constante e vão desde a escolha diferenciada do tipo de pavimentos (argila ou pedra) até à alternância entre paredes de pedra ou taipa, tal como do fecho e abertura de novos acessos, por vezes, ligando compartimentos, num conjunto que terá sido edificado num único momento. A determinação funcional destas casas continua uma incógnita, excepção feita ao Amb. V, cuja identificação de vestígios de um tear sugere tratar‐se de um espaço artesanal. Os restantes partilham a homogeneidade artefactual, pelo que mesmo em termos cronológicos é complicado aferir datações mais finas que o séc. I a.C.
No lado Nascente da Rua 1 (sector B3) identificaram‐se outros dois edifícios de maiores dimensões, organizados segundo um sistema bipartido: a Norte Amb. XXII/XXXIII e a Sul I/II, para, mais tarde, o lado setentrional ser convertido num só compartimento de feições quadrangulares (Amb. XI). Comunicam a Oeste com a Rua 1 e possuíam um segundo piso que resulta do alteamento da parede que os dividia, cujo acesso seria feito pela Rua 1, mas num momento inicial não fundacional. Contrariamente ao que se constata nas construções mais próximas do limite Oeste da plataforma (sector B2), estas não se sobrepõem a níveis pré‐romanos, mas assentam directamente sobre a rocha, tanto mais que as soleiras das primeiras casas republicanas do sector B2, que permitem o acesso aos primeiros pisos da Rua 1, sobrepõem‐se aos muros da
Idade do Ferro, logo, a área central do povoado republicano fez‐se, muito provavelmente, num espaço vazio. Deste modo, a exclusividade de materiais pré‐romanos identificados em níveis que se apoiam à fase inaugural das construções republicanas, da Rua 1, 1º, 2º e 3º quarteirões1, (v. fig. 11) sugere uma continuidade na utilização de formas e decorações cerâmicas, ou, por outro lado, são vestígios de um enorme arrasamento decorrente de uma regularização do terreno para as edificações romanas.
Nas traseiras dos dois edifícios mencionados adossavam‐se‐lhes outras construções sem haver qualquer comunicação entre si, implicando que o eixo de circulação ocorria no sentido Oeste ‐ Este em direcção à 2ª Rua. O esquema urbanístico repete‐se até ao 3º quarteirão. A arquitectura do 2º quarteirão destaca‐se, dos demais, pela sucessão dinâmica dos espaço construídos, tal como, pela abundância de estruturas de combustão, não só de cariz doméstico, como industrial e de associação metalúrgica (fornos).
Neste quarteirão, o início das importações romanas é constatado num dos seus Amb. fundacionais (XXIX) mediante a recolha de um fragmento de unguentário em vidro azul da forma III de Harden. Numa posterior utilização do espaço [855], já associada ao Amb. XXXVIII, foi detectado um conjunto cerâmico enquadrável, igualmente, no séc. II a.C., do qual se destacam duas formas de campaniense A, uma cabeça feminina em terracota de cariz exótico, fragmentos de “prato de peixe” do “tipo Kouass” e duas formas de ânforas pré‐romanas.
O terceiro quarteirão caracteriza‐se pela dicotomia entre uma monotonia arquitectónica do edifício Nascente (Amb. XIII, XIV e XVI) e a precariedade e dinâmica das construções a Poente. Desta última, importa referir, a existência de uma estrutura tipo forno, com antecâmara e de planta genericamente quadrangular. 2.3.1.3 Ocupação romana imperial
Ao invés do que sucede na plataforma A, na qual esta cronologia é representada apenas por materiais descontextualizados, na B detecta‐se uma reestruturação do povoado, centrada no séc. I d.C., com reaproveitamento de estruturas antigas, reorganização de espaços e utilizando um tipo de construções notoriamente precário e de menor cuidado. Assim, e a título de exemplo, refiram‐se as alterações efectuadas no 1º quarteirão do sector B3. A Rua 1 é desactivada, enquanto espaço de circulação, pela divisão imposta por um muro e os edifícios, a Nascente, assumem uma divisão interna definitivamente quadripartida, mantendo a existência 1 Por quarteirão entende‐se um conjunto de casas romanas voltadas para um espaço comum de circulação do tipo rua, sendo que a respectiva numeração é atribuída de Oeste para Este. Ver fig. 11
de um piso aéreo com acesso por escadaria. O material arqueológico recolhido em nada sugere que esta ocupação se estenda para lá dos finais do séc. I da nossa Era. 2.3.1.4 Ocupação islâmica Por último, e após sete séculos de interregno, Mesas do Castelinho é reocupado sob a forma de uma fortificação Omíada e respectivo fosso. Estes localizavam‐se na zona mais elevada do povoado e articulavam‐se com um hishn instalado na plataforma inferior, cuja ocupação terá sido de curta durabilidade (séc. IX a XI). Infelizmente, o sistema defensivo e as estruturas domésticas do tipo silo/fossa, que proliferam por todo o povoado, são um dos principais agentes de destruição dos níveis arqueológicos mais antigos.
3. A Cerâmica Campaniense
3.1 História da investigação (breve sinopse)
Numa altura em que a cerâmica campaniense era referida sob a designação “etrusco‐ campana”, naquele que é considerado o primeiro olhar sobre a cerâmica ocidental de verniz negro, da autoria de G.F. Gamurrini, (apud Lamboglia, 1952, p. 139, nota 1), Nino Lamboglia procedeu, em 1952, à publicação da primeira experiência de sistematização deste tipo cerâmico. Aliás é assim mesmo que o autor vê o seu trabalho, na medida em que o intitulou na separata das Atti del 1º Congresso Internazionale di Studi Liguri, como “Per una classificazione preliminare della ceramica campana”. O autor baseia‐se em 3 critérios base para organizar a proposta tipológica. São eles o morfológico, ordenado segundo o tecnológico e cronológico, definindo as produções de A, B e C, além de um conjunto, mais ou menos numeroso, de imitações com difusão local (Lamboglia, 1952, p. 140). Desta forma, agrupa na Campaniense B as formas 1 a 162 (comuns à C, com excepção da forma 4 e 8 a 15, e das quais apenas as 3 a 6 correspondiam também às produções em A), 17 a 20 pertencentes à classe C e 21 a 63 típicas da Campaniense A. O autor faz uma diferenciação dentro da sequência numérica atribuída à Campaniense A com implicações cronológicas, pelo que as formas 21 a 29 correspondem à “la transizione tra la ceramica attica, la “precampana” e la campana vera e propria” (Ibidem, p. 169); as 30 a 36 são “…peculiari della ceramica campana del III e del II secolo,…” (Ibidem, p. 179) e as formas2
oito anos após aquela publicação, e numa revisão ao seu próprio trabalho, Lamboglia faz corresponder as formas 17 a 20 à classe B (Lamboglia, 1960, p. 295).
decoradas 40 a 63 “…più direttamente derivate da prototipi greci, si estinguono precocemente nella prima metà dell III secolo…” (Ibidem, p. 184). Existe um intervalo, nº 37 a 39, para o qual não há referência alguma. Existe um conjunto de publicações dispersas e anteriores a esta que, na opinião de J.P. Morel, contribuíram para o arranque da investigação da cerâmica campaniense. Destaque‐se o trabalho que C.L. Wolley sobre a cerâmica calena, o de A.K. Lake sobre a campaniense de Minturno ou mesmo o de N. Lamboglia sobre o conjunto de Albintimilium (Morel, 1981, p. 39‐ 40). Estes, ainda que bastante imprecisos, baseiam‐se em dados arqueológicos e dão, pela primeira vez, atenção a determinados detalhes que se vieram a revelar fundamentais no estudo da cerâmica campaniense. Mas é, sem dúvida, o trabalho de 1952, da autoria de Lamboglia, que confere a verdadeira caminhada para a consolidação do estudo deste tipo cerâmico. Nos anos que se seguem esta cerâmica antiga, diga‐se “não artística”, começa a ganhar mais atenção nos conjuntos publicados como os dos vasos de verniz negro de Cápua, da autoria de Mingazzini, ou os de Cosa, publicados por Taylor.
Se por um lado a sistematização de N. Lamboglia conferiu uma maior importância a nível científico a este tipo cerâmico, por outro, as novidades, em quantidade e diversidade, do material arqueológico recuperado nas escavações que se seguiram, a par das publicações de outras já antigas, colocava sérias dúvidas quanto à aplicabilidade daquela seriação tipológica. A título de exemplo, refira‐se o estudo dos materiais do Museu Guarnacci, elaborado por M. Pasquinucci, na medida em que surgem 150 formas para as quais raramente foi possível estabelecer correspondência com a Classificazione (Taborelli, 2005, p. 60). Na sequência destas dificuldades assiste‐se à complexificação da proposta de Lamboglia passando pela adição de formas novas (ignorando os pressupostos de criação daquela tipologia, numa simples adição que se fazia por ordem de publicação), pela assimilação de formas já existentes (pelo facto das novas combinarem aspectos das de base, o que se traduz, por exemplo, na criação da Lamb. 5/7) e pela criação de variantes. É certo que estes aspectos não podem ser imputáveis ao autor italiano, mas demonstram a impermeabilidade da Classificazione. Outros aspectos que limitavam esta tipologia referem‐se ao facto do autor não contemplar áreas importantes como o Norte de África, não fazer menção às produções regionais e, por exemplo, misturar formas áticas numa tipologia de cerâmica romana (Morel, 1981, p. 19).
É neste cenário, de urgência em criar uma nova base de trabalho para dar resposta à acumulação da cerâmica de verniz negro do ocidente, com uma nova organização caracterizada pelo seu carácter “aberto” à introdução de novas formas e com inclusão de todas as informações referentes às diferentes regiões de onde se conhecia produção
campaniense, que surge, em 1981, Céramique Campanienne: Les Formes, da autoria de Jean Paul Morel.
A relativização de alguns aspectos tecnológicos, na hora de definir grupos de fabrico, como a intensidade do brilho, aderência do verniz e coloração das pastas, bem como a importância concedida a alguns detalhes formais, nomeadamente à forma dos pés, com implicações tipológicas e cronológicas, foram alguns aspectos que já haviam sido tidos em conta na Classificazione e que ganham consistência na tipologia de Morel. Relativamente aos aspectos técnicos importa referir que, em 1971, M. Picon, M. Vicky e G. Chapotat publicam um artigo intitulado Note sur la composition des céramiques campaniennes de type A et B, onde explicam os processos químicos e técnicos que conduzem às oscilações na coloração da pasta das peças, demonstrando que isso não significa, taxativamente, tratarem‐se de produções diferentes (Picon et al., 1971). Por outro lado, e no que respeita aos aspectos morfológicos, diga‐se que a sistematização de alguns pormenores (como a forma dos pés) foi um assunto a que outros investigadores prestaram especial atenção, por também lhe reconhecerem validade tipológica e cronológica. Como exemplo, refira‐se Sanmartí Greco, na sua obra de 1978, sobre Emporion e Rhode (Sanmartí, 1978, p. 595‐602) antes mesmo da sistematização detalhada de Morel, em 1981.
A tipologia preconizada por Morel assenta numa estrutura que privilegia o perfil das peças, e ainda que atribua valor aos aspectos tecnológicos, funcionais e cronológicos estes não são determinantes em toda a concepção e organização do trabalho. Trata‐se de uma classificação em cadeia, baseada nos pressupostos taxonómicos das ciências naturais, colocando o indivíduo, ou seja, o tipo numa série, espécie, género e por último categoria (o termo mais genérico que abrange um padrão de recipientes com atributos morfológicos que os torna muito semelhantes entre si). Desta forma, utiliza um sistema numérico para determinar a inserção em cada um destes estádios como, por exemplo, F1122a 1, ou seja,
categoria 1000, género 1100, espécie 1120, série 1122 e tipo 1122a 1. Esta tabela é um
trabalho que, ao contrário do seu precursor, proporciona a inclusão de novas variantes, ou formas, sem que dissolva a concepção inicial, pelo que esta organização, puramente formal, não se esgotará nas possibilidades de inclusão e não correrá os mesmos riscos da anterior. Este é talvez o grande contributo de Morel, a par da exaustiva sistematização, já mencionada, que concedeu aos perfis dos pés e à importância que atribuiu às produções de difusão dita “não universal”, que dizem respeito a diferentes centros produtores, cuja localização, na maioria dos casos, é desconhecida3. Para além disso lança uma nova visão sobre o que se
3
Algumas destas oficinas foram identificadas como, seja o caso, do “atelier das pequenas estampilhas”, “Nikia‐Ion” ou o das “três palmetas radiais” (Morel, 1981, p. 48).
entende por “imitação”, caracterizando não aqueles modelos que apresentam parecenças com o protótipo, mas aquelas peças que foram voluntariamente copiadas num momento obrigatoriamente posterior (Morel, 1981).
A investigação continuou na tentativa de determinar os inúmeros centros produtores espalhados pelo Mediterrâneo ocidental, bem como com o intuito em caracterizar as diferentes facies das diversas produções e sua distribuição no mundo romano. A possibilidade de efectuar algumas análises petrográficas e químicas a alguns conjuntos, permitiu a definição de centros produtores, reestruturando a concepção que se tinha das áreas de produção e relações económicas entre regiões.
3.2 O estudo em Portugal
A primeira notícia, plausível de se relacionar com a presença deste tipo cerâmico em território nacional, data de 1910 e refere‐se a Chibanes (Setúbal). O autor, A.I. Marques Costa apresenta descrições e material fotográfico que parece conferir credibilidade à sua classificação
(apud, Luís, 2008, p. 21). Certamente existiram outras referências ao que hoje conhecemos pela
designação de cerâmica campaniense mas a dificuldade à altura de a identificar, complexifica, actualmente e na impossibilidade de analisar o material, a sua associação. Mais uma vez confirmando o impulso dado pela Classificazione verifica‐se que em Portugal as referências àquele tipo cerâmico se reproduzem a partir de 1950.
Em 1971, Veiga Ferreira publica um conjunto de materiais de diferentes pontos do país passíveis de se interpretarem como campaniense, mas ainda muito envolto em confusão pela presença de outros tipos de cerâmica e muito vago em informação, o mesmo já não se pode dizer da síntese elaborada por Manuela Delgado nesse mesmo ano.
M. Delgado toma por base a tipologia de Lamboglia, fazendo acompanhar as descrições, mais ou menos pormenorizadas da pasta, verniz e decoração, do respectivo desenho. Simultaneamente, já refere os primeiros trabalhos de Morel, pelo que podemos dizer ter‐se tratado de um marco bibliográfico na história da evolução do estudo das cerâmicas campanienses em Portugal. Assim, a autora detectou produções de A, B, outras produções “locais/regionais”, que designa de imitações e a que atribuiu as letras de D a I (ainda que as imitações D e E se devam, como aconselha Morel na Table ronde de Conimbriga, incluir nas produções da B (Delgado, 1976a, p. 92)), para além de imitações de cerâmica comum, e por fim escassas C. A sua amostra reportou‐se ao material de Vaiamonte, Alcácer do Sal, Algarve e Setúbal, existentes no Museu Nacional de Arqueologia e no Municipal de Santiago do Cacém, a
par do do Castelo da Lousa (Mourão) e Conímbriga, num total de 98 exemplares. Dando seguimento ao seu trabalho, em 1976, publica um conjunto de 86 fragmentos de campaniense e produções “locais/regionais”, dos tipos F, G e H, de Conimbriga (Delgado, 1976b, p. 21‐26).
Dois anos depois, Joaquina Soares publica, sob a forma de nótula, o segundo artigo português, acerca exclusivamente da cerâmica campaniense, tomando por base os materiais do interior do Castelo de Alcácer do Sal. Aqui já se notam preocupações relativas à distinção entre as diferentes produções de B e imitações, bem como a referência às obras mais recentes e importantes sobre o assunto.
Existe um sem número de publicações que não sendo, especificamente, dedicadas ao estudo de cerâmica campaniense têm‐lhe feito menção e das quais destacamos: Santarém (Diogo, 1984); Castelo Velho de Veiros (Arnaud, 1970); Pedrão, em Setúbal (Soares e Silva, 1973); necrópole de Torre de Ares (Nolen, 1994); Mesas do Castelinho (Fabião e Guerra, 1994); Forte de São Sebastião, em Castro Marim (Arruda e Pereira, 2008); Monte Molião (Elisa e Serra, 2006); algum material referente aos castella do Baixo Alentejo (Maia, 1987), entre outras.
Existem outras que, parcialmente ou integralmente, são dedicadas ao estudo de conjuntos de cerâmica campaniense: Lomba do Canho, com uma síntese da história das investigações e apresentação do panorama bibliográfico conhecido até então, tipologias e cronologias (Fabião e Guerra, 1996b); material depositado no Museu de Sintra (Sousa, 1996); Mesas do Castelinho (Fabião, 1998); Cabeça de Vaiamonte (Fabião, 1998); Santarém (Bargão, 2006); Faro, Balsa e Castro Marim (Viegas, 2009); Mértola (Luís, 2008); Castelo da Lousa (Luís, 2010), entre outras.
3.3 O actual estado dos conhecimentos, seus condicionalismos e questões
Em Portugal tem havido alguma resistência quanto à utilização da tipologia preconizada por Morel, prevalecendo, na maioria dos casos, o recurso às formas antigas de Lamboglia. Percebemos que tal suceda devido ao facto de trabalharmos com fragmentos muito reduzidos, mas consideramos que se deverá fazer o esforço pela atribuição morfológica com base em Les Formes, ainda que sempre acompanhada da respectiva forma de Lamboglia (já que as referências mais antigas baseiam‐se naquela tipologia), de modo a uniformizarmos a linguagem. A Mesa Redonda Internacional de Ampúrias, realizada no ano 1998, sobre as cerâmicas de verniz negro dos sécs. II e I a.C., conferiu algumas directrizes e conclusões importantes no
avanço das investigações4. Em primeiro lugar, e devido ao uso abusivo que se tem vindo a dar à aplicação do termo b‐óide, convencionou‐se a sua anulação e substituição pela designação de cerâmica calena média ou tardia.
Decidiu‐se, igualmente, considerar a Campaniense B etrusca como “não universal”, tendo em conta a sua escassa representatividade no Mediterrâneo ocidental, pelo que esta constatação talvez se possa alargar à cerâmica Campaniense C.
Uma das questões centrais deste debate residiu na terminologia. Para alguns investigadores a designação de campaniense é ambígua, dado que, remete para uma realidade geográfica muito concreta e é utilizada para designar produções com origens geográficas muito díspares. Daí que prefiram a designação de verniz negro. Seguindo os pressupostos da Mesa Redonda, optámos por designar cerâmica Campaniense B ou produções da B, sempre que nos referirmos àquelas peças cuja origem se desconhece. Utilizamos a designação “local/regional” para as campanienses que imitam os reportórios formais da A e B, em pastas laranjas e cinzentas (com verniz negro), sendo que a campaniense “verdadeira” será designada de Campaniense B etrusca e as restantes, sempre que se conheçam os centros produtores, anexamos‐lhes a sua origem geográfica. Ou seja, acrescentar, sempre que possível, a origem à classe. As restantes (campaniense A e C) não encerram este tipo de problemas.
Esta Mesa Redonda serviu para a divulgação compilada da caracterização de produções “locais/regionais” de vários pontos da Península Ibérica; para a sintetização de um quadro de distribuição da Campaniense A, conhecida até ao momento, suas cronologias e discussão acerca da substituição desta pela Campaniense B. Os autores expuseram os seus dados, igualmente, quanto ao âmbito cronológico que consideram ser o do fim da importação da campaniense no ocidente peninsular.