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POR
GASPAR CORRE
A
PUBLICADAS DE
ORDEM DA CJ.ASSE DE SCIENCIAS MORAES, POLITICAS E BEI.LAS LETTRAS
DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
E SOB A DIHECÇÃO DE
RODHIGO JOSÉ DE LUlA FELNEH,
SOCIO EFFECTIVO DA MESMA ACADEMIA.
OBRA SUBSIDIADA PELO GOVERNO DE PORTUGAL. LIVRO PRIMEIRO.
CONTENJW AS ACÇOENS DE YASCO DA GAMA, PEDRALVARES CABRAL, .JOÃO DA NOVA, FRANCISCO DE ALBOQUERQUE, VICENTE SODRE', DUARTE PACHECO, LOPO
SOARES, MANUEL TELLES, D. FRANCISCO D'AUIEIDA.
LENDA DE 13 ANNOS, DESDE O PRIMEIRO DESCOBRIMENTO DA INDIA. ATÉ O ANNO DE 11>10.
TOMO L-PARTE li.
LISBOA.
NA TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS
1859.
VARA TOJO
HISTORIA2.
3
2
e
...______
-ARMADA
DE
LOPO SOARES.
QUÉ PASSOU Á INDIA
O
ANO DE 150i.SENDO p;rtidos de Portugal 'armada dos Alboquerques, e assy Antonio de Saldanha~ que auia de andar d'armada no Cabo de Guardafuy,
che-gou ao Reyno Dom Vasco da Gama, como já fica contado, e dando conta a EIRey do grande mal que deixaua feito a Calecut, e *de como* dei-xaua assentadas todas as cousas, com tanta perfeição, pera tamanho trato e"' carregação de pimenta no porto de Cochym , e Coulão , que erão as principaes fontes da pimenta, ElRey, com muy grande desejo de ganhar tamanha riqueza como lhe vinha em tanto crecimento, auendo seus con-selhos com Dom Vasco da Gama, que era o principal regente em todas . estas cousas , com seu conselho ElRey ordenou mandar este ano grande armada, e fazer grande carregação ; poJo que mandou varar e concertar 'todas as naos que forão com Dom Vasco da Gama, e contratou com muy-tos mercadores, que tambem cobiçarão a muyta riqueza que ganhauão em suas armações , com o que basteceo grande armada de 1 noue naos
1 Gaspar Correa, deixando para mais tarde rectificar o numero de vasos de que se compunha esta esquadra , escreveu a modo de lembrança *X vinte naos
grossas, e quatro somenos,* comu se lê no codice do Arcb. O copista da Aj.
494 LOPO SOARES, ANNO DE 150í.
grossas , e quatro somenos , nauetas pequenas pera ficarem na India se comprisse; e ordenou pera Capitão mór desta armada Lopo Soares,
fi-dalgo principal de sua casa , homem de muyta autoridade e conselho, e nobres fidalgos por Capitães, saber: Pero de Mendoça, Leonel Coutinho, Tristão da Silua, Lopo Mendes de Vascogoncellos, Lopo d'Abreu da Ilha, Felippe de Crasto, Pero Afonso d'Aguiar, Vasco da Silueira, Manuel Telles Barreto, estes todos *de* naos grossas pcra carregar ; e Pero de l\fendoça, capitão da nao capitania; e Afonso Lopes da Costa, Vasco Carualho, Christouão de Tauora, Simão d' Alcaçoua, 1 *estes de nauetas
*
mais pequenas, pera ficarem na' ln dia, se nom ouvesse carga pera todos: com muytas mercadorias , e muyta auondança de todalas cousas neces-sarias, e nesta armada até mil homens d'armas, gente limpa e bem ar-mada, com regimento que ElRey mandaua que se EIRey de Calecut con-tendesse com o de Cochym o defendessem , e fizessem a Calecut toda a guerra no mar, e na terra , destroindo a nauegação dos Mouros. A ar-mada de todo prestes, E!Hey com muytas honras a todos despedio de Re-lem dia de Nossa Senhora de l\Iarço 2
, e fizerão sua nauegação
costuma-da, e sendo na paragem do Cabo lhe deu hum temporal que os apar-tou, mas todos passarão a 1\Ioçambique, onde ao Capitão mór foy dada
a
carta que hy deixara Pero d' Atai de, que daua conta de como ficaua aJndia. ··
A nao de Lopo Mendes abrio huma grande agoa por huma cinta, e com muyto trabalho de bomba chegou a Melinde , porque escorreo Mo-çambique, onde em 1\Ielinde ouve corregimento, e recolheo Portuguezes, que hy ficarão da perdição da nao de Pero d' Ataide.
O Capitão mór em Moçambique deu auiamento no que compria 1
mou tudo, e lançou aos mares não menos de trinta naus grossas. Nós as reduzi-mos a nove, afóra as quatro navetas, porque o mesmo Gaspar Correa declara lo-.so adiante os nomes dos capitães das nove naus, e das quatro navetas, e são treze, ao todo, as embarcações, que segundo Goes, C!tron. de D. JJ!an., P. I, Cap. XCVI, e Osorio, De rebus Emmanuelis gestis, Liv. III, commandava Lopo Soares; em-bora Castanheda. llist. da Ind. l.iv. I, Cap. XC, diga que eram doze as naus d'es-ta armada, a qual elle, e Barros, Dec. I, Li v. VII, Cap. IX, dão sahida de Lisboa a 22 de Abril de 1504.
1 Nas cópias do Arch. e Aj. vem: •estas nauetas- etc. a Veja-se a nota da
LOPO SOARES, ANNO DE iõOL
495
*nas* cousas de Çofala, que estaua contrato bem assentado e pacifico ,e
'armada fez agoada, e tomando do que auia na terra se partio caminho de .Melinde, onde chegando sobre o porto amainou a Capitania sem sor-gir, o que assy fez toda 'armada, louçã de bandeiras, com salua de muyta artelharia e trombetas ; e nom sorgio porque os pilotos o requererão ao Capitão mór, porque era já vinte e hum d' Agosto. Então o Capitão mór mandou no seu esquife Pero de 1\Iendoça visitar E!Rey, e lhe leuar car-tas e peças que lhe ElRey, e Dom Vasco mandaua; e lhe mandou muy-tas desculpas por nom entrar no porto, por nom fazer detença, por nom ter tempo, pedindolhe por isso muytos perdões. EIRey estaua já prestes com cousas pera 'armada que sabia que vinha, e como vio o recado do Capitão mór, com que se muyto contentou, logo ápressa mandou a cada nao hum barco grande carregado de carneiros , e verduras , cousas de · refresco, e á nao do Capitão mór duas barcas assy carregadas de cousas de refresco , e lhe mandou dizer que fosse muyto embora seu caminho , que para elle erão escusados comprimento,, pois já tanto tinha 1 *vistas*as verdades e bondades d'E!Rey de Portugal. Então 'armada. tornou a dar as velas , e Lopo ~llendes de Vascogoncellos sayo do porto, e forãÔ .seu caminho pera a India, e Lopo l\Iendes mandou ao Capitão mór dou~
homens no seu esquife , que lhe· forão dando conta de tudo o que era passado na lndia; e porque acharão tempo bonança andarão pouco, que em fim de Setembro ouverão vista da costa em Dábul, e sem tomar ·a terra correo de longo, e sendo á vista d' Angediua, Antonio .de Saldanha, e Ruy Lourenço Rauasco, que hy estauão, ouverão muy grande medo, cuidan-do que era armada de Rumes que vinha de Meca, porque os Mouros , que tomauão de preza as naos , todos lhe dizião e certificauão que os Mouros que hião da Jndia fazião grandes cramores dos males que os nes-sos lhe fazião, e tolhião a nauegação e carregação da pimenta e drogas, de que o Grão Turquo recebia muyta perda em suas rendas dos portos do Estreito, de que era arrecadador o Rey de Misey; que dizia que auia de -mandar á lndia armada que destroisse os Portuguezes, e os deitasse fóra · da lndia. O que todos os Mouros isto muyto lhe certificauão , p.olo q~e
vendo nossa armada tamanha, cuidarão que serião Rumes, quando a li-rão ao longe; mas vindo mais perto, que vili-rão bem, conheceli-rão
'arma-1
496 LOPO SOARES, ANNO DE 150L ·
da, com que perdido seu medo, se fizerão á vela, e sayrão ao mar, e fo-rão saluar o Capitão mór com muytos prazeres, que todos ouvefo-rão; e forão seu caminho, e chegarão a Cananor, onde toda a armada fez gran-de salva, o que assy o feitor Gil Fernangran-des Barbosa, com artelharia que tinha em terra, que logo foy ao Capitão mór a lhe dar conta de todo o como estauão as cousas
da
terra; onde logo veo visitação d'EIRey per hum Regedor, e dizer ao Capitão mór que compria muyto que ambos fa-lassem. O Capitão mór era muylo grandioso de sua condição, e mandou o feitor com o Regedor a visitar ElRey, e dizer que elle faria o que lhe mandasse, 1 *e o veria o dia que elle mandasse ;*
e logo mandoudes-embarcar muytas mercadorias pera a compra do gengiure, e cousas no-cessarias pera viagem. EIRey com muyto grande vontade logo mandou fazer casa junto da porta da povoação, pera nella se ver com o Capitão mór , 2 *que ao outro dia foy acabada , e o mandou dizer ao Capitão
mór,* que logo desembarcou em ·terra com todos os Capitães nos bateis e nos esquifes, e em muytos barcos da terra, que tudo vinha carregado de gente muy louçã, e os Capitães riquamente vestidos, e os bateis com muytas bandeiras, e o Capitão mór no seu batel grande *com* toldo de damasco branco e vermelho , e sua bandeira real na proa ; e a armada embandeh'ada lhe fez grande salua, e chegado a terra, a pouoação cm-bandeirada e com muytos ramos, se forão á Igreja ouvir missa.
E!Rey , vendo desembarcar o Capitão mór , logo se metteo em seu andor com seu aparato de riqueza , e estado de muyta gente , com suas esgrimas e tangeres, segundo já tenho contado nestas Lendas ; e se met-teo na casa, e assentou em seu estrado , aguardando o Capitão mór , o qual acabada a missa foy á casa, acompanhado de toda a gente e Capitães, e elle vestido de sedas, e riquo colar de esmaltes : onde o Rey o sayo a receber fóra da casa, com grandes honras , e assy o Capitão mór e Ca-pitães, e ambos assentados no estrado, o Capitão mór lhe deu as cartas d'EIRey, e hum riquo leito e cama de todo concertada, que se armou fóra em 'quanto falauão. Então o apre~ntarão a EIRey, que era cousa de gran-de riqueza, e tres panos gran-de riquas figuras, que se auião d'arma..r gran-derre-· · dor do leito. O que todo mostrado a EIRey, ouve tanto prazer que se foy deitar na cama, e se tornou assentar no estrado, e mandou leuar o leito
LOPO SOARES, ANNO DE 1õ0i.
assy armado, de que a gente estaua muy espantada, e estiuerão falando, e ElRey muyto lhe encomendando as cousas d'EIRey de Cochym , e se muyto encarregando do gengiure pera as naos. Com que se despedirão, e EIRey lhe deu riquo colar de pedraria, e duas manilhas, e hum fio de perolas pera a Raynha, que tudo valia muyto preço, e assy despedidos, o Capitão mór logo se tornou a jantar ás naos, e neste dia o feitor des-pachou de todo o que compria, e ao outro dia se parti o pera Cochym.
CAPITULO II.
COl\1.0 0 ÇAl\fORil\1, POR CO:NSEQUENCIA DOS !\'lOUROS, SE TORNOU A SA.YR DO PA-GODE EM QUE ESTAVA 1\IETTIDO, E SE TORNOU A REYNAR SEU REYNO, E
MA.NUOU PEDIR PAZ AO CAPITÃO MÓR, E O QUE NISSO PASSOU.
Ü
ÇAl\IORYM, com deses;eração de seu gmnde nojo e deshonra de nom tomar Cochym, com tanta perda de sua gente e grande gasto, depois de se lhe passar sua paixão , ome grande arrependimento de se metter na casa do pagode, como atrás contey, e teu e modos secretos com os Mou-ros mercadores, que fossem ao pagode fazer grandes requerimentos e era-mores que se tornasse a sayr , e regesse o Reyno ; com que os Mouros muyto folgarão, porque e rã o muy desfavorecidos do irmão d'E!Rey, que era muyto contra elles, e com poderes de Rey, que tinha, os muylo lira-nizaua, poJo odio que lhes tinha de mal aconselharem o Çamorym seu ir-mão contra os nossos, polo que tantos males lhe tinhão cauzado: assy que por estas causas, e por lho mandar secretamente o Çamorym, se ajunta-rão todos, e hião onde o Çamorym estaua, e lhe fizeajunta-rão tantos cramores, que elle, mostrando que por isso forçado, se sayo, e veo a Calecut, e por estrouar que seu irmão nom contendesse com os Mouros o mandou a Cranganor com gente, que estiuesse em companha do Rey de Cranganor pera o que comprisse. Então sabendo que a Cananor era chegado oCa-Pitão mór d'armada, quis prouar se lhe podia fazer algum engano' e
mandou em huma almadia hum moco O'romete que tinha com sete Por-tuguezes, que catiuarão quando mat;rã; Ayres Correa feitor, em tempo de Pedraluares Cabral ; dizendo ao moço que elle o mandaua ao Capitão
&.98 LOPO SOARES, ANNO DE 150!.
mór com recado pera com elle assentar paz, 1 *e que se assentasse a paz*
que a todos os soltaria. E lhe deu sua carta pera o Capitão mór, e man-dou com elle h~m mouro em h uma almadia polo mar, que che~ou a Ca-nanor querendo o Capitão mór fazerse á vela, e lhe deu a carJa do Ça-:-rnorym , e outra dos Portuguezes catiuos , que lhe pedião mis ricordia , que fizessem esta paz , porque elles fossem Iiures do catiueiro de ferros em que auia tantos tempos estauão ; com muy piadosas palauras , por":' que depois que fogira Aluaro Rafael feitor, tinhâo grande tormento de férros, e tronquos em que jazião de dia e de noite. O Capitão mór nom tomou sobrisso conselho , sómente respondeo que elle sorgiria no porto , e que então aly faria tudo o que fosse razão, e que lhe pedisse com ver-dade. Esta reposta deu ao mouro, e disse em segredo ao moço que quan-do estiuesse no porto trabalhasse muyto por fogirem os outros que esta-uão prezos, que por este só respeito o deixaua hir, que se isto nom fora nom o deixara lá tomar; e com isto se tornou a almadia, que deu 0 recado ao Çamorym antes que o Capitão' mór ehegasse , que logo se fez
á vela 2 *após* 'almadia que primeyro chegou. O Capitão mór
chegan-d-o a Calecut sorgio o mais perto da terra que pôde, o que assy fez toda
a outra armada per seu mandado, ao que logo veo da terra huma alma-dia com hum moço, com hum mouro criado de Cojebequi, com grande presente de refresco , que lcuarão ao Capitão mór , que lhe mandaua o Regedor, dizendo que E\Rey nom estaua na cidade, mas que pola menhã auia de vir; mas o moço deu a entender que ElRey estaua na cidade.
O
Capitão mór nom consentio que desembarcasse o refresco , e mandou que o tornassem pera terra, que elle nom tomaua nada senão da mão de bons amigos; que depois que elle assentasse paz então faria como ami-go. Então o mouro pedio seguro pera Cojebequi lhe vir falar. Disse que seguramente podia hir, e se tornaria se quisesse. O qual recado chegadoa terra logo veo Cojebequi, ·e trouxe ao Capitão mór dous Portuguezes
d~·presente, dos catiuos que lhe mandaua o Regedor, e muylo rogar que
aguardasse tres dias , porque o Çamoryro adoecera de hum accid.ente , mas que entanto fizesse o assento de paz como quisesse, *e* entanto vi-ria ElRey, que tudo aflirmavi-ria como elle pedisse.
O
Capitão mór recebeot Supprimido no codice da Aj. 2
*
espola*
é o que se acha nas duas có·'
.LOPO SOARES, ANNO DE tãOi. 499
os catiuos. 1 *Com Cojebequi veo outro mouro, que sabia falar
portu-guez,
*
com que Cojebequi nom pôde falar nada. Com o Capitão mór es-• tauão todos os Capitães , e praticarão sobre o easo , que todos disserãoque nom deuia deixar tornar a terra os catiuos, pois lhos mandarão , mas o Capitão mór foy em contrario de todos, e os tornou a mandar a terra, dizendo os Capitães, que a elle lhe mandarão os dous catiuos de presente cuidando que por isso lhe faria pazes, mas quando vissem que lhas nom fazia lhe creceria a paixão, e mataria os que ficassem em terra. Então mandou f:ojebequi que se tornasse, e dissesse ao Regedor que delle nom auia de tomar nada senão sendo a paz assentada, a qual por nenhu-ma cousa deste mundo nom faria se lhe nom dessem os Italianos; e nom os pedia pera lhe fazer nenhum mal, sómente pera os leuar pera Portu-gal, e que a ysso daria toda a segurança que quisesse, e se isto nom qui-gesse, nom lhe auia d'assentar a paz; que por tanto guardasse bem os catiuos que tinhão , que em algum tempo lhe pezaria ao Çamorym dos males que tinha 2 *feitos:* Com a qual reposta metterão os catiuos em
prisão , e os puserão a bom recado que nom poderão fogir , e os tinha assy o Çamorym, esperando que viria algum Capitão mór que por elles .lhe fizesse alguma paz á sua vontade; e os teue assy em prisão até que
huns morrerão, e outros fogirão.
O Capitão mór, vendo que nom tornaua reposta, mandou tirar hum berço, ao que da cidade lhe responderão com dous. Então o Capi-tão mór mandou descarregar todos os tiros na cidade , com que lhe fez muyto dano, e se fez
á
vela caminho de Cochym.1
' I
oOO
LOPO SOARES, ANNO DE 1504.CAPITULO III.
GOl\IO 'ARMADA CHEGOU A COCHY!\1, E O CAPITÃO MÓR SE VIO COM ELREY, A QUE DEU GRANDE PRESJlNTE DE BIQUAS PEÇAS, E VINTE MIL CRUZADOS El\1 OURO, E OUTRAS COUSAS QUE LHE ELREY 1\IANDOU, E SE FEZ O PEZO DA l'll\lENTA JUNTO DA POUOAÇÃO, E DO GRANDE PRESENTE QUE O REY DA 1\IENTA MANDOU A ELREY DE COCHYM, DE CEM TONES CARREGADOS DE PI-1\lENTA.
E
o .Capitão mór se fez~
vela de Calecut, e chegou a Cochym ao ou-tro dia á noite, onde logo veo visitação d'EIRey , e muytos Portuguezes que vierão em almadias com grandes prazeres, onde ao outro dia o Ca-pitão mór desembarcou com todos os Capitães , e gente muy louçã de -vestidos, com muytas bandeiras e trombetas, e toda a armada fez grande salua, e foy desembarcar na fortaleza da tranqueira, que fez grande salua d'artelharia, e assi as carauellas,. que esLauão com ramos e bandeiras;. onde na casa da feitoria EIRey já estaua, que sayo fóra a receber o Ca-pitão mór, e todos os Capitães, com suas cortesias e muyto amor, como se forão naturaes, e EIRey se foy assentar em seu estrado , que linha ásua usança, onde o Capitão mór se nom quis assentar , senão em huma cadeira d'espaldas, o que lhe foy muyto tachado por pouco acatamento que teue a ElRey, que o bem entendeo, e esteue falando hum pouco,
e
se despedio, e se sayo, jj embarcou em seu tone ·em que viera, e oCa-pitão mór sayo até a praya e se tornou pera dentro, do que tudo ElRéy se queixou ao feitor , que lho desfez polas melhores palauras que pôde , com que EIRey ficou satisfeito das boas razões que lhe o feitor deu , c falarão na carga , de que EIRey tomou muyto cuidado ; e estando prati-cando, ouvirão tanger as trombetas que hião com o presente, que o Ca-pitão mór mandou por terra para que fosse visto da gente, que erão dez bacios de prata d'agoa ás mãos, que Portuguezes leuauão nas cabeças, cm que hião vinte mil cruzados em ouro ; e outro homem , com huma toalha nas mãos, leuaua uma espada, c adarga preta bordada e chapeada no meo de chapas d'ouro esmaltadas, e a espada guarnecida d'ouro de esmalte, tudo muy rico, que a espada e adarga mandara EIRey de Por-tugal lcuar de qua pera lhe mandar assy guarnecida; e assy leuauão dez
- I
LOPO SOARES, ANNO DE 1504. 50f.
peças de veludo e cetym de cores , e huma peça de borcado , que cada huma destas peças leuaua hum homem portuguez nos braços abertos , pera que as vissem. E mandou Antonio de Saldanha, e Pero Afonso de Aguiar, e Afonso Lopes da Costa, e Christouão de Tauora, acompanha-dos com suas gentes , que fossem apresentar a EIRey o presente; e lhe mandou dizer que EIRey seu irmão lhe mandaua aquelle dinheiro pera ajuda de seus gastos, e a espada, e adarga, e peças de seda pera o Prín-cipe, que era homem mancebo , dar vestido aos seus fidalgos , e a peça de borcado pera almofadas em que se assentasse. Correo muyta gente a ver o presente , que sendo apresentado a EIRey, assy com os bacios de prata , que tudo lhe derão, o recebeo com grande prazer, e ouvindo o recado que lhe os Capitães derão, disse rindo, que elle queria antes a es-pada e adarga , que inda tinha força como homem mancebo , e o tomou na mão, e esteue olhando, e todos seus Caimaes e Senhores que com elle estauão. Então deu a espada e adarga ao Príncipe, dizendo que nom que-ria que ouvesse menencoque-ria ; e todo o mais mandou guardar, e mandou dizer ao Capitão mór que nom tinha com que pagar a EIRey seu irmão tamanhas a~zades, senão com lhe carregar bem suas naos, que logo as mandasse concertar, porque lhe queria dar sua carga muy prestesmente; porque EIRey da Pimenta, por auer muyto prazer Yendo seu Reyno sal-uo do Çamorym polo trabalho dos Portuguezes, se lhe mandara offerecer com muyta pimenta : polo que logo ElRey lhe mandou algumas peças -do presente, ao que o feitor aju-dou com duzentos barretes de grã que 1he mandou mais , e cem duzias de bainhas de facas, que são as cousas do Reyno com que elles mais folgão , do que o Rey da Pimenta om'e grande contentamento, e reteue os tones da pimenta que estauão carrega-dos, até que acabou de carregar cem tones que mandou juntos, que trou-xerão mais 1 *vinte mil quintaes, * e chegarão daly a dez dias, que
es--!iuerão aguardando que se fazia entretanto hum caez de madeira , que EIRey mandou ao feitor que fizesse n'agoa, onde estauão as primeiras suas casas, porque os donos dos tones, que. são barqueiros que andão a carregar esta pimenta, ás vezes perderão alguns tones carregados, coro a corrente da maré que era grande, hindo abaxo á tranqueira pera a
des-_ ~ *vinte quintaes
*
se lê no Ms. da Aj. E' erro manifesto, resultante daomissao d'um signal numerico.