Conselho Brasileiro para Superdotação
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Porto Alegre, 10 de março de 2010 Ofício Nº 002/10
EXMA PRESIDENTE
DO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO Sra. Clélia Brandão Alvarenga Craveiro
O Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD), órgão representativo das Pessoas com Altas Habilidades/Superdotação na sociedade civil, com sede atual na cidade de Porto Alegre (RS), vem por meio deste requerer a análise do abaixo exposto e a adoção das providências necessárias para o devido cumprimento dos dispositivos legais.
A Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC/SEESP, 2008) é muito clara ao afirmar que ela:
tem como objetivo o acesso, a participação e a aprendizagem dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas
habilidades/superdotação nas escolas regulares, orientando os sistemas
de ensino para promover respostas às necessidades educacionais especiais, garantindo:
• Transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior;
• Atendimento educacional especializado;
• Continuidade da escolarização nos níveis mais elevados do ensino;
• Formação de professores para o atendimento educacional
especializado e demais profissionais da educação para a inclusão escolar;
• Participação da família e da comunidade;
• Acessibilidade urbanística, arquitetônica, nos mobiliários e equipamentos, nos transportes, na comunicação e informação; e
• Articulação intersetorial na implementação das políticas
públicas. (grifos nossos)
Refere ainda que o atendimento educacional especializado:
é realizado mediante a atuação de profissionais com conhecimentos específicos [...] do desenvolvimento dos processos mentais superiores, dos programas de enriquecimento curricular, da adequação e produção de materiais didáticos e pedagógicos.
E que,
Para atuar na educação especial, o professor deve ter como base da sua formação, inicial e continuada, conhecimentos gerais para o exercício da docência e conhecimentos específicos da área.
Essa formação possibilita a sua atuação no atendimento educacional especializado, aprofunda o caráter interativo e interdisciplinar da atuação nas salas comuns do ensino regular, nas salas de recursos, nos centros de atendimento educacional especializado, nos núcleos de acessibilidade das instituições de educação superior, nas classes hospitalares e nos ambientes domiciliares, para a oferta dos serviços e recursos de educação especial.
Essas prerrogativas já estavam incluídas na Lei 9394/96 - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Especial (BRASIL, 1996) que determinava, no seu artigo 24, a possibilidade de avanço mediante verificação do aprendizado pela escola; serviços de apoio especializado e serviços especializados, na escola regular, no seu artigo 58 e, no seu artigo 59 que os sistemas de ensino assegurarão aos alunos:
I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades;
II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados;
III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns;
IV - educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora;
V - acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular.
As Diretrizes Nacionais da Educação Especial na Educação Básica (MEC/SEESP, 2001), estabelecem:
Art. 18. Cabe aos sistemas de ensino estabelecer normas para o funcionamento de suas escolas, a fim de que essas tenham as suficientes condições para elaborar seu projeto pedagógico e possam contar com professores capacitados e especializados, conforme previsto no Artigo 59 da LDBEN e com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal, e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena.
§ 1º São considerados professores capacitados para atuar em classes comuns com alunos que apresentam necessidades educacionais especiais aqueles que comprovem que, em sua formação, de nível médio ou superior, foram incluídos conteúdos sobre educação especial adequados ao desenvolvimento de competências e valores para:
I – perceber as necessidades educacionais especiais dos alunos e valorizar a educação inclusiva;
II - flexibilizar a ação pedagógica nas diferentes áreas de conhecimento de modo adequado às necessidades especiais de aprendizagem;
III - avaliar continuamente a eficácia do processo educativo para o atendimento de necessidades educacionais especiais;
IV - atuar em equipe, inclusive com professores especializados em educação especial.
§ 2º São considerados professores especializados em educação especial aqueles que desenvolveram competências para identificar as necessidades educacionais especiais para definir, implementar, liderar e apoiar a implementação de estratégias de flexibilização, adaptação curricular, procedimentos didáticos pedagógicos e práticas alternativas, adequados ao atendimentos das mesmas, bem como trabalhar em equipe, assistindo o professor de classe comum nas práticas que são necessárias para promover a inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais.
§ 3º Os professores especializados em educação especial deverão comprovar:
I - formação em cursos de licenciatura em educação especial ou em uma de suas áreas, preferencialmente de modo concomitante e associado à licenciatura para educação infantil ou para os anos iniciais do ensino fundamental;
II - complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas da educação especial, posterior à licenciatura nas diferentes áreas de conhecimento, para atuação nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio;
§ 4º Aos professores que já estão exercendo o magistério devem ser oferecidas oportunidades de formação continuada, inclusive em nível de especialização, pelas instâncias educacionais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.
A Resolução Nº 4 do Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Básica (2009), que institui Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, modalidade Educação Especial, determina, no seu Art. 12, também referenda as disposições anteriores, definindo que “para atuação no AEE, o professor deve ter formação inicial que o habilite para o exercício da docência e formação específica para a Educação Especial” (2008).
Portanto, a formação inicial e continuada do profissional que atenda os alunos com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), deverá, necessariamente, incluir conhecimentos específicos sobre esta área, ministrados em cursos de formação continuada e inclusive de especialização por todas as instâncias educacionais do País.
É de conhecimento de todos que os cursos de Pedagogia e as demais licenciaturas raramente incluem em seus conteúdos o tema das Altas Habilidades/Superdotação e que os cursos de especialização em Educação Inclusiva ou Educação Especial destinam uma carga horária geralmente muito limitada que não permite formar profissionais preparados para oferecer o atendimento educacional especializado. O mesmo acontece nos programas de pós-graduação de Mestrado e Doutorado, que não incluem a área de Altas Habilidades/Superdotação nas suas linhas de pesquisa.
Isso coloca a responsabilidade de oferecer formação continuada e especializada nas mãos das Secretarias de Educação (federal, estaduais e municipais).
A Secretaria de Educação Especial do MEC tem feito um trabalho de sensibilização para a área nos Cursos de Gestores e Educadores em Educação Inclusiva, que geralmente oferecem alguns espaços de discussão do tema.
Também mostrou sua preocupação ao implantar os Núcleos de Atividades em Altas Habilidades/Superdotação em todas as capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, a partir de 2005.
Entretanto, temos constatado alguns impasses muito sérios que prejudicam o cumprimento dos dispositivos legais, sendo que alguns deles, inclusive, têm chegado ao nosso conhecimento através de sócios deste Conselho e membros da sociedade civil e que a seguir relatamos:
A Secretaria de Educação Especial e a Secretaria de Educação a Distância estão oferecendo um curso de Formação Continuada a distância de Professores para o Atendimento Educacional Especializado, ministrado pela Universidade Federal do Ceará a 10 professores de cada um dos 144 municípios-pólo do Programa de Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, com carga horária de 180 horas.
No livro Atendimento Educacional Especializado - Orientações Gerais e
Educação a Distância (2007), disponibilizado no site da SEESP, estabelecem-se como
objetivos:
• Oferecer fundamentos básicos para professores-alunos em AEE dos municípios pólos do Programa de Educação Inclusiva: Direito à Diversidade da SEESP/MEC.
• Transformar o atendimento da educação especial oferecido em escolas comuns e especiais aos alunos com deficiência, visando a complementação da formação desses alunos e não mais a substituição do ensino regular.
• Garantir a continuidade das ações do Programa de Educação Inclusiva: Direito à Diversidade da SEESP/MEC, dentro dos objetivos a que se propõe (grifos nossos) (p. 16).
Na apresentação da estrutura do curso são apresentados os módulos nos quais serão desenvolvidos os componentes curriculares específicos que são: “Deficiência Auditiva
(DA), Deficiência Mental (DM), Deficiência Física (DF) e Deficiência Visual (DV)” (p. 18), sendo o último módulo destinado à elaboração do trabalho final (grifos
nossos).
Embora existam, na lista de publicações do site da SEESP, quatro elaboradas para a área de AH/SD, especificamente em relação ao Atendimento Educacional Especializado, constatamos que somente existem as seguintes: “AEE - Pessoa com Surdez, AEE - Deficiência Física, AEE – Deficiência Mental; AEE Deficiência Visual e AEE – Orientações Gerais e Educação a Distância”, que é o livro acima mencionado (2007).
A nossa preocupação, então, é: quem vai preparar e como vai ser preparado o
professor para o atendimento educacional especializado para os alunos com Altas Habilidades/Superdotação?
2) Identificação dos alunos com Altas Habilidades/Superdotação e declaração destes alunos no Censo Escolar, para efeitos da adjudicação de matrícula adicional do FUNDEB, conforme estabelece o Decreto 6571/08.
O Decreto acima estabelece que para adjudicação da matrícula adicional, os alunos deverão ser declarados no Censo Escolar do ano anterior. Temos constatado que no Censo Escolar de Educação Especial apenas 29 alunos com Altas Habilidades/Superdotação foram declarados no ano de 2008. Certamente, esse número está infinitamente aquém do número de alunos com AH/SD efetivamente atendidos, embora sejam, também, muito poucos, sendo que as estimativas mais conservadoras (OMS) nos permitem dizer que, de acordo com o Censo Escolar de 2009, em média, mais de 1.859.000 alunos com AH/SD estão matriculados somente nas escolas públicas de ensino básico do Brasil.
Há vários meses atrás enviamos uma consulta ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira solicitando esclarecimentos quanto à declaração no Censo dos alunos com AH/SD que, infelizmente, ainda não foi respondida, visto que, no documento Orientações sobre o Censo Escolar - Educação Especial disponibilizado no site da SEESP, no Bloco - Cadastro da Escola, especifica-se:
A escola que tem matrícula de alunos com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento, com altas habilidades/superdotação em classe comum do ensino regular e na sala de recursos multifuncional da própria escola deve marcar, no
item 37, a opção sala de recursos multifuncional, bem como, no item 44, a opção Não exclusivamente.
A escola que tem matrícula de alunos com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento, com altas habilidades/superdotação em classe comum do ensino regular e estes alunos freqüentam a sala de recursos multifuncional de outra escola, não deve marcar, no item 37, a opção sala de recursos
multifuncional; e deve marcar, no item 44, a opção Não oferece.
A escola ou instituição especializada, pública ou privada sem fins lucrativos, que oferece atendimento educacional especializado complementar aos alunos com deficiência e com transtornos
globais do desenvolvimento, com matrícula em classe comum
do ensino regular, deve marcar o item 44. (grifos nossos)
A nossa preocupação é: quando o aluno com AH/SD é atendido nos NAAH/S
ou em salas de recursos específicas para as AH/SD - que não constituem Salas de Recursos Multifuncionais – como serão declarados, visto que na opção que seria a mais apropriada para o cadastro dos NAAH/S e das salas de recursos específicas para as AH/SD (a terceira), estes alunos não aparecem relacionados?
3) Atendimento educacional
Diariamente, recebemos dezenas de e-mails de famílias e professores de todos os estados do País, solicitando informações sobre o atendimento educacional aos alunos com AH/SD.
Teoricamente, os NAAH/S devem cumprir essa função, seja atendendo diretamente a esses alunos, promovendo sua identificação ou articulando o atendimento com as escolas dos sistemas de ensino.
Conforme o Documento Orientador dos NAAH/S (MEC/SEESP, 2006), os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação:
[...] devem atender aos alunos com altas habilidades/superdotação; promover a formação e capacitação dos professores e profissionais da educação para identificar e atender a esses alunos; oferecer acompanhamento aos pais dessas crianças e à comunidade escolar em geral, no sentido de produzir conhecimentos sobre o tema e; disseminar informações e colaborar para a construção de uma educação inclusiva e de qualidade (p. 11).
No mesmo documento, especificava-se que o objetivo do MEC/SEESP era “investir no atendimento aos alunos com altas habilidades/superdotação, prestando assistência técnica e apoio por dois anos a partir da implantação do projeto” (p. 19) (grifos nossos).
Esses dois anos já se passaram e as informações que temos recebido dos próprios profissionais que trabalham nos NAAH/S é que a maioria deles não tem condições de trabalhar por falta de apoio das Secretarias estaduais de Educação, e/ou por falta de orientações e/ou apoio por parte do MEC/SEESP.
Outro problema muito sério que os NAAH/S enfrentam é a dificuldade de atender famílias carentes que não residam nas capitais ou que, mesmo residindo nas capitais, não têm recursos econômicos para o transporte para deslocar-se até os NAAH/S. Isso requereria a Articulação intersetorial na implementação das políticas públicas, prevista pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o que não ocorre no caso das Pessoas com AH/SD, que ao contrário das pessoas com deficiência, não recebem Benefício de Prestação Continuada, passe livre ou outros benefícios que facilitam o acesso ao atendimento educacional especializado.
Sabemos que, em alguns estados, os NAAH/S estão literalmente inoperantes por essa falta de apoio que coloca em risco a continuidade do desenvolvimento da Política Educacional de atendimento às AH/SD iniciada pelo MEC/SEESP em 2005.
Aliás, chama a nossa atenção que, no site da SEESP, não se encontrem quaisquer referências aos NAAH/S em parte alguma, quando uma das metas propostas no Documento Orientador era que:
O atendimento dos alunos identificados e o apoio aos pais, realizado pelas unidades dos núcleos, devem produzir efeitos no desenvolvimento da política, à medida que as informações vão sendo repassadas e o conhecimento difundido (p. 19).
Isso faz que a demanda de informações e o encaminhamento aos NAAH/S seja feito por este Conselho que procura, mesmo com dados atualizados pela boa vontade dos profissionais dos NAAH/S ainda operantes, informar a sociedade civil os endereços e telefones desses Núcleos.
Perante a falta de professores adequadamente formados, as nossas preocupações são:
a- Como os alunos com altas habilidades/superdotação serão atendidos em atendimento educacional especializado?;
b- Como estes alunos poderão ter o direito a aceleração de estudos realizado? e
ainda
c- como os NAAH/S implantados pelo MEC/SEESP poderão continuar funcionando sem a necessária “supervisão, acompanhamento, orientação e avaliação do funcionamento dos programas e serviços do NAAH/S” previstos como competência da SEESP/MEC no Documento Orientador (p. 17)?
Visto o acima exposto, aguardamos o pronunciamento desse Conselho quanto aos questionamentos realizados para que possamos dar um retorno satisfatório para os milhões de famílias de alunos com AH/SD deste País e, em especial, para aqueles que têm consultado este Conselho na esperança de terem uma resposta que ainda não obtiveram dos órgãos educacionais competentes.
Atenciosamente,
Susana Graciela Pérez Barrera Pérez Presidente
C/C: EXMO Presidente da Câmara de Educação Básica Sr. Antonio Cesar Russi Callegari