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ANAIS ELETRÔNICOS ISSN

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Academic year: 2021

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Universidade Federal de Campina Grande

Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 1

OS DISCURSOS BRASILEIRO E ANGOLANO NA AULA DE LÍNGUA

PORTUGUESA POR MEIO DO CONTO ORAL

EULÁLIO, Marcela de Melo Cordeiro1 (UFCG) PINHEIRO-MARIZ, Josilene2

(UFCG) RESUMO

Todo sujeito possui a memória discursiva que constitui a sua identidade cultural. De acordo com Serrani (2005), antes mesmo de falar, os seres humanos já possuem um comportamento implícito, característico do contexto no qual ele vive, que coordena as suas ações. Esse comportamento é o que chamamos de cultura e, dentro de cada cultura, existem memórias discursivas dos sujeitos, que são, normalmente, os discursos comuns a todos. Sendo assim, se pensarmos em Brasil, existem discursos comuns a todos os brasileiros, enquanto que, se pensarmos num país africano como Angola, existem discursos comuns a todos os angolanos. Esses discursos que os povos dessas sociedades apresentam em comum podem ser retratados pela literatura oral que, conforme Freitas (2010), é uma forma de registrar a oralidade de um povo, tornando possível o estudo desse elemento cultural. Tendo em vista isso bem como o fato de a cultura e história africana serem um estudo obrigatório na sala de aula conforme a Lei 10.639/03, temos como objetivo, no presente trabalho, analisar as percepções dos alunos, na aula de Língua portuguesa, no que diz respeito à memória discursiva do povo angolano presente no conto oral O Kianda e a rapariga e a memória discursiva do povo brasileiro presente no conto oral O marido da mae d’água. Vale salientar que, ao analisarmos os contos, respeitaremos o contexto sociocultural de cada texto. Para tanto, teremos como base teórica os estudos de Serrani (2005) quem faz um discussão sobre o discurso e a cultura na aula de língua; Freitas (2010) quem faz uma discussão sobre a literarização da oralidade; Leite (2012) quem traz uma discussão sobre a oralidade nas culturas africanas, dentre outros autores. Esse estudo

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Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino, na Universidade Federal de Campina Grande, na linha de pesquisa Ensino de Línguas Estrangeiras e área temática Literatura e

Ensino. O presente trabalho faz parte da pesquisa de mestrado da autora, intitulada: oralitura: literatura

e cultura africanas em aula de língua portuguesa.

2 Professora do Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino, na Universidade Federal de

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um elemento que propicia o respeito às diferenças culturais.

Palavras-chave: Memória discursiva; Brasil x Angola; Conto oral; Aula de Língua portuguesa.

Introdução

“A memória discursiva seria aquilo que, em face de um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os ‘implícitos’ (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível.” (PÊCHEUX, 1999, p. 52)

Lendo as palavras de Pêcheux na citação acima, lembramo-nos que a memória discursiva apresenta-nos os discursos esquecidos, os discursos que já foram ditos em algum momento e que, agora, são reditos. Isso nos faz lembrar da oralidade, mas, não da oralidade que tem como função apenas a comunicação verbal. Falamos, neste momento, da oralidade como um reservatório de valores de um povo, de discursos que são ditos e reditos.

Dessa maneira, lembramos da literatura africana, na qual a tradição oral exerce forte influência. No continente africano, não existia antes da colonização, a literatura escrita que passou a existir posteriormente com a função de registrar as narrativas orais que preponderavam no continente. Tais narrativas como, por exemplo, o conto oral, eram contadas ao redor de uma fogueira pelos anciãos aos mais jovens. Ou seja, a narrativa oral, na África, é a maneira de se preservar a cultura do povo e passar para os mais jovens os valores aos quais eles devem seguir. Além disso, esses jovens aprendem por meio desses textos o que é certo e errado.

Tendo em vista esses discursos que perpassam os textos orais africanos, fazendo parte da memória discursiva de um povo, bem como o fato de a cultura e história africana serem um estudo obrigatório na sala de aula conforme a Lei

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alunos, em atividades realizadas na aula de Língua portuguesa, no que diz respeito à memória discursiva do povo angolano presente no conto oral O Kianda e a rapariga, retirado do livro Contos populares de Angola de Viale Moutinho e a memória discursiva do povo brasileiro presente no conto oral O marido da mae d’água retirado do livro Contos tradicionais do Brasil de Luís Câmara Cascudo. Realizamos, nessa aula, um diálogo cultural entre as culturas em questão, mostrando aos alunos que cada cultura tem suas peculiaridades e que é preciso respeitar e aceitar essas diferenças.

No mais, vale salientar que, ao analisarmos os contos, respeitamos o contexto sociocultural de cada texto. Para tanto, temos como base teórica os estudos de Serrani (2005) quem faz uma discussão sobre o discurso e a cultura na aula de língua; Freitas (2010) quem faz uma discussão sobre a literarização da oralidade; Leite (2012) quem traz uma discussão sobre a oralidade nas culturas africanas, Terra (2014) quem aborda conceitos de literariedade, dentre outros autores.

Finalmente, em termos de organização do trabalho, é importante ressaltar que, por ser um texto curto, apresentaremos apenas um tópico intitulado Literatura oral africana: a memória discursiva do povo que produz e reproduz os contos orais. Apresentaremos, nesse tópico, inicialmente, um pouco sobre a teoria base, exemplificando, posteriormente, com o corpus do trabalho que é constituído pelos dois contos citados, bem como pelas atividades coletadas em sala de aula.

1. Literatura oral africana: a memória discursiva do povo que produz e reproduz os contos orais

Antes de falarmos sobre a literatura africana, julgamos necessário, discutir, primeiramente, sobre o conceito de literariedade de acordo Terra (2014). Esse autor traz-nos dois conceitos que determinam se a condição para o texto ser ou não literário. Para a primeira concepção, é literatura o texto considerado parte dos cânones literários. Nesse caso, podemos destacar, por exemplo, textos de Carlos Drumond de

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institucionalmente, ou seja, textos textos que trazem, implicitamente, fatores sociais, socioculturais, dentre outros. Assim, textos de Monteiro Lobato, como a crônica Negrinha, pode ser considerado literário.

Pensando nessa questão da literariedade, é possível lembrar também dos textos orais que, na maioria das vezes são discriminados. Isso nos recorda a literatura oral que resgata esses textos, reconhecendo o valor cultural que eles possuem. Entendemos a oralidade, aqui, não como uma característica da literatura, mas sim, como um reservatório dos valores culturais de uma sociedade. Por isso, alguns autores criaram termos como oratura e oralitura que retratam esse poder de retratação da cultural da oralidade. ´

Dando continuidade à discussão, é importante ressaltar que, em termos de África, temos uma tradição oral muito forte, assim como, temos diversas oralidades. Em outras palavras, cada nação possui a sua história particular que é, na maioria das vezes, narrada oralmente. Logo, no continente africano é comum usar o termo oralidade no plural, como afirma Leite (2012),

o fato de usarmos no plural a palavra ‘oralidade’ visa exatamente demonstrar que, por um lado, as tradições orais são diferentes de país para país, embora com um registro linguístico-cultural bantu comum, e dentro de cada país, de cultura para cultura, apesar de ser possível encontrar elementos unificadores na caracterização dos gêneros e dos mitos, por exemplo (LEITE, 2012, p.35).

Ou seja, como já havia sido discutido, cada nação possui sua peculiaridade, o que nos faz lembrar, por exemplo, da literatura africana de expressão portuguesa constituída por cinco países (Cabo-verde, guiné Bissau, São Tomé e príncipe, Moçambique e Angola) que possui suas características restritas, da mesma forma que possuem características também em comum. Sobre essas literaturas africanas, podemos declarar que elas “encontraram maneiras próprias de dialogar com “as tradições”, intertextualizando-as, obtusamente, no corpo linguístico” (LEITE, 2012, p.34).

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discursivo que os contos orais possuem. Tais textos são apresentados como se o ancião estivesse contando uma história para um jovem. Há, nesses textos, uma situação inicial, na qual o velho3 prepara o jovem para ouvir a história, assim como uma situação final, em que ele comenta a história narrada, narrativa essa que, serve, na maioria das vezes, para mostrar ao cidadão em formação o que é certo e errado.

No mais é importante lembrar que, nas literaturas africanas, o conto é considerado uma narrativa africana por excelência, já que nos lembra da tradição oral do lugar, no qual ele é produzido e reproduzido, embora Leite (2012) nos afirme que, na verdade, esse gênero seja universal por representar todas as culturas.

Ora, talvez mais do que qualquer outro gênero, o conto oral é universal e comum a todas as culturas e continentes. O fato de uma parte das sociedades africanas continuar a ser fundamentalmente camponesa e agrícola, e manter as tradições orais como forma de preservação da sua bagagem cultural, não significa que o conto, a forma mais popular de transmissão de conhecimento e de cultura, seja necessariamente a forma “natural” ou “essencial” de reconhecimento da africanidade literária (LEITE, 2012, p. 26).

Esse caráter universal do conto faz-nos recordar do que Barthes (2011) afirma sobre a universalidade da narrativa. Todos nós, de alguma forma, narramos algo, seja contando uma novela que assistimos, seja contando como foi nosso dia, seja inventando uma história de ficção. Existem as narrativas escritas, assim como as orais que são o objeto de estudo do trabalho em processo. Veremos, então, as palavras do autor abaixo.

Inumeráveis são as narrativas do mundo. Há em primeiro lugar uma variedade prodigiosa de gêneros, distribuídos entre substâncias diferentes, como se toda matéria fosse boa para que o homem lhe confiasse suas narrativas: a narrativa pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas essas substâncias; está

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epopéia, na história, na tragédia, no drama, na comédia, na pantomina, na pintura, no vital, no cinema, nas histórias em quadrinhos, no fait divers, na conversação. Além disso, sob essas formas quase infinitas, a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades... internacional, trans-histórica, transcultural, a narrativa está aí, como a vida (BARTHES, 2011, p.19-20).

Além disso, a narrativa apresenta discursos que fazem parte da formação discursiva da sociedade, na qual ela é produzida e reproduzida. Assim, precisamos conhecer o conceito de discurso que, para Foucault (1986, p. 135-136), é “um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva; ele é constituído de um número limitado de enunciados, para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência”, assim como formação discursiva que, para Foucault (1972 apud INDURSKY, 1998, p. 16) “se estabelece a partir de determinadas regularidades que definem as condições de existência, coexistência, transformação e desaparecimento de certos enunciados discursivos”. Em outras palavras, entendemos que os discursos circunscrevem-se nas suas formações discursivas. Sendo assim, veremos que os discursos presentes no conto oral brasileiro apresentam-se de acordo com a formação discursiva presente na cultura brasileira, enquanto que os discursos presentes no conto angolano apresentam-se conforme a formação discursiva da cultura angolana.

Tendo em vista isso, partindo para análise dos contos O marido da mãe d’água (conto brasileiro) e O Kianda e a rapariga (conto africano), vemos que ambos trazem elementos do folclore, sendo que o conto brasileiro traz elementos do folclore brasileiro, enquanto o conto angolano traz elementos do folclore quimbundo. No primeiro conto, a história é narrada em torno do relacionamento da mãe d´água, conhecida deusa dos rios do folclore brasileiro, e de um pescador. Já no conto angolano, a história é narrada em torno do relacionamento do gênio da água que preside o mundo dos peixes chamado Kianda e uma moça comum. Sendo assim, vemos que as histórias narradas nos dois contos giram em torno dos seres

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semelhança cultural, embora os deuses sejam diferentes.

Além do fato de os contos trazerem os deuses da água casados com seres humanos comuns, temos outra semelhança: tanto no conto brasileiro quanto no conto angolano, os cônjuges dos “deuses” descumprem com sua palavra. No conto brasileiro, para poder casar com o rapaz pescador, a mãe d’água deu uma condição que seria: o rapaz nunca arrenegar da sereia nem dos outros animais que vivem no mar. Contudo, o rapaz descumpriu com sua palavra arrenegando a sua esposa, o que ocasionou uma consequência: além de sumir da vida do pescador, a mãe d’água elevou o nível do mar até cobrir a casa onde eles moravam, como podemos ver nos dois excertos abaixo, dentre os quais o excerto 1 traz a promessa do rapaz e o excerto 2 traz a desobediência e a consequência.

Excerto 1.:

− Quer casar comigo? – disse a Mãe-d’Água. O rapaz nem titubeou:

− Quero muito!

A Mãe-d’Água deu uma risada e continuou:

− Então vamos casar. Na noite da quinta para sexta-feira, na outra lua, venha me buscar. Traga roupa para mim. Só traga roupa de cor branca, azul, ou verde. Veja que não venha alfinete, agulha ou cousa alguma que seja de ferro. Só tenho uma condição para fazer. Nunca arrenegue de mim nem dos entes que vivem no mar. Promete?

O rapaz, que estava enamorado por demais, prometeu tudo e deixou a Mãe-d’Água, que desapareceu nas ondas e cantou até sumir-se.

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O mal-agradecido, sentando numa cadeira, de cara franzida, não tendo o que dizer, começou a resmungar.

− Benfeito! Quem me mandou casar com mulher do mar em vez de gente da terra? Benfeito. É tudo mistérios, cheio de histórias. Coisas do mar ... hi... eu te arrenego!

Logo que disse essas palavras, a Mãe-d’Água deu um gemido comprido e ficou da cor da cal da parede. Levantou as duas mãos e as águas do mar avançaram como um castigo, numa onda grande, coberta de espuma, roncando como um bicho feroz. O rapaz, morrendo de medo, deu uma carreira de veado; subindo um monte perto da casa. Lá de cima se virou para ver. Casa, varanda, cercado, animais, tudo desaparecera. No lugar estava uma lagoa muito calma, pegada a um braço de mar. Ao longe ouviu uma cantiga triste, triste como quem está se despedindo do mundo.

Nunca mais viu a Mãe-d’Água. (CASCUDO, 2004, p.74)

Já no conto angolano, o filho do Kianda e de sua mulher morreu, então, ele disse a ela que não permitisse que a sogra dele fosse ao enterro, contudo, a esposa não o obedeceu, o que também gerou uma consequência: o Kianda fez com que a aldeia do povo da sua mulher desaparecesse, deixando mato onde haviam casas, como podemos ver nos excertos abaixo, dentre os quais o excerto 1 traz a ordem do Kianda e o excerto 2 traz a desobediência e a consequência.

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Dentro em breve, a esposa ia ser mãe. A criança, porém, morreu logo depois de nascer.

O marido falou:

− O meu filho morreu e não consintas que a minha sogra apareça ao funeral.

Excerto 2: Aconteceu, no entanto, o contrário, pois a sogra chegou quando ele estava a dançar.

Ao vê-la, Kianda disse à esposa:

− Eu não tinha recomendado para não deixar vir a tua mãe ao funeral?

A seguir apanhou o kalunbungu4 e deitou-o no chão. As casas todas entraram na caixa mágica, e onde havia uma aldeia ficou apenas mato.

(COUTINHO, 26)

Finalmente, após observar as semelhanças entre os contos que são propagados nas culturas brasileira e angolana acima, veremos, abaixo, as imagens das respostas dadas aos alunos para a primeira questão da atividade de comparação entre esses contos, isto é: após ter realizado as atividades de interpretação dos contos em questão, percebemos que há algumas semelhanças entre eles. Que semelhanças são essas? Justifique sua resposta com trechos das narrativas.

4 “Kalunbungu é uma caixa mágica, donde se poderá retirar desde casas a vestidos, de jóias a

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IMAGEM 1: resposta do sujeito 13 para a primeira questão da atividade de comparação entre

os contos O marido da mãe d’água e O kianda e a rapariga.

Após observarmos a primeira imagem acima, percebemos que o sujeito 13 identifica as semelhanças entre os contos brasileiro e angolano, explicando que os dois contos apresentam personagens folclóricos, contudo, no conto brasileiro esse personagem é representado pela mãe d’água, já no conto angolano, é representado pelo Kianda. Além disso, o aluno percebe que os dois textos em questão também trazem o castigo como uma punição para a desobediência. Isso nos faz lembrar de uma das características mais presentes nos contos africanos: o código de moral (NUNES, 2009). Normalmente, alguns contos apresentam temáticas que representam o código de moral da sociedade, mostrando, desse modo, aos ouvintes dessas narrativas o que é certo e errado, de acordo com o código de moral da cultura, na qual essas narrativas são produzidas e reproduzidas. Vemos, então, que os discursos presentes nesses contos são regidos pela formação discursiva das sociedades angolana e brasileira. Nessas sociedades, a desobediência traz uma consequência que é apresentada nas narrativas.

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IMAGEM 2: resposta do sujeito 14 para a primeira questão da atividade de comparação entre

os contos O marido da mãe d‘água e O Kianda e a rapariga.

Observando a segunda imagem acima, percebemos que o sujeito 14 identifica somente o código de moral em torno do qual o desfecho das narrativas acontece. Esse sujeito percebe que, no conto brasileiro, a mãe d’água casa com o pescador na condição de ele nunca arrenegar dela nem dos animais marinhos, como podemos observar no discurso dela, reproduzido pelo sujeito 14 em sua resposta: nunca arrenegue de mim nem dos entes que vivem no mar. Mas, o pescador não a obedece e, como castigo, perde tudo, uma vez que a deusa dos rios eleva o nível do mar fazendo com que a casa do pescador sumisse encoberta pelas águas. Já no conto africano, o Kianda tem um filho com a sua mulher, entretanto, esse filho morre e ele pede a ela que não deixe que a sua sogra compareça ao funeral, como podemos observar, por exemplo, na resposta do sujeito 14 quem transcreve o discurso do Kianda “Não consintas que a sogra apareça ao funeral...”. Vemos que embora tenha recebido uma ordem, a mulher desobedece, o que gerou uma consequência, pois, onde havia uma aldeia ficou só mato.

Entretanto, além das semelhanças, os contos também diferenciam-se, o que nos faz analisar as diferenças entre as culturas brasileira e angolana por meio dessas

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tragam as lendas folclóricas, essas lendas apresentam diferenças que concordam com a realidade presente em cada cultura, isto é, os discursos identificados nas narrativas são regidos pela formação discursiva da cultura de origem da narrativa. No conto brasileiro, há a presença da mãe d’água que é a deusa da água, dos peixes e do pescador, que é ajudado pela mãe d’água que com seus poderes faz com que o rapaz pesque muitos peixes. Então, vemos que há a presença de dois elementos da natureza: mãe d’água e peixes. No que diz respeito aos poderes da sereia, vemos que além de ter feito aparecer muitos peixes para o rapaz pescar, ela também vingou-se dele quando foi arrenegada, elevando o nível do mar até cobrir a casa, como vimos no excerto 2 do conto brasileiro no tópico anterior.

No conto angolano, também há a presença do Kianda que, para o folclore quimbundo, é o deus da água que preside o mundo dos peixes como já foi dito. Contudo, além do Kianda, há outros elementos do folclore quimbundo que constituem o conto e o mundo da narrativa em questão, como o Kalunbungu que é uma caixa mágica utilizada pelo Kianda; Di-kishi que é um monstro antropófago que tem duas cabeças e é animado pela crueldade e, por fim, Ma-kishi que é o povo dos Di-kishi, isto é, dos monstros. Vimos no excerto 2 do conto em análise quando o Kianda usou o Kalunbungu. Agora, veremos no excerto abaixo a presença dos elementos restantes: Di-kishi e Ma-kishi.

Excerto 3:

Kianda foi dar a um sítio onde havia uma grande rocha com uma porta.

Entrou pela rocha dentro e a mulher, não o tornando a ver, voltou para a casa de sua mãe.

A mãe veio a falecer assim como toda a gente, com a exceção da mulher do Kianda.

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isto é, de uma só cabeça.

Tempos depois a mulher ia ter outro filho. O Di-kishi ameaçou-a:

− Se tiveres outro filho com uma cabeça, eu reunirei a minha gente para te comer!

A segunda criança nasceu com duas cabeças.

A mulher tomou nos braços o seu primogênito e fugiu.

Procurou abrigo nas casas que encontrou, mas logo Di-kishi que sentia a presença de seres humanos, entrando na casa encontrou a mulher adormecida e devorou-a assim como ao filho.

A casa transformou-se numa casa de Ma-kishi. (MOUTINHO, 2000, p.26)

Finalmente, após ter analisado os dois contos, vimos que, embora os dois tragam elementos do folclore de suas respectivas realidades, o conto angolano traz mais elementos do folclore enriquecendo o conto com mais elementos ficcionais enquanto o conto brasileiro prende-se a mãe d’água que é o elemento folclórico abordado no conto. A forte presença dos elementos do folclore quimbundo no conto angolano dá-se devido ao fato de, na literatura oral africana, haver sempre esse apego aos elementos da natureza que aqui aparecem por meio do folclore. Em Angola, a religião influenciadora é o Bantu que considera esses elementos da natureza sagrados, o que justifica a forte presença de tais elementos na tradição oral.

Com base nisso, vejamos, abaixo, se os sujeitos 13 e 14 reconheceram as diferenças entre as culturas brasileira e angolana na atividade de comparação desses textos ao responderem a questão: após termos interpretado os contos, percebemos também uma diferença justificada pelas respectivas culturas. Que diferença é essa? Justifique sua resposta com trechos das narrativas.

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IMAGEM 3: resposta do sujeito 13 para a segunda questão da atividade de comparação entre

os contos O marido da mãe d’água e O Kianda e a rapariga.

Analisando a imagem acima, percebemos que o sujeito 13 destacou que a diferença entre os contos em questão caracteriza-se pelo fato de, no conto brasileiro, ter menos elementos da natureza do que no conto angolano. Vimos, anteriormente, que isso ocorre porque uma das características da cultura angolana é sacralizar os elementos da natureza. Uma das principais diferenças existentes entre esses contos é que os personagens folclóricos, por mais que possuam a mesma função, isto é, são seres que protegem os rios, apresentam nomes diferentes. Isso acontece porque cada conto tem uma influência cultural diferente e, consequentemente, discursos diferentes. Ou seja, por mais que hajam semelhanças, tratem do folclore e trazem uma mesma temática, os seres são outros, porque as crenças, os costumes e os hábitos são outros.

IMAGEM 4: resposta do sujeito 14 para a segunda questão da atividade de

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Na quarta imagem acima, vemos que o sujeito 14, assim como o sujeito 13, entende que o conto brasileiro possui menos elementos da natureza do que o conto africano. Entretanto, também assemelhando-se ao outro sujeito, ele não discute o porquê de, embora possuírem as mesmas funções, os seres folclóricos possuírem nomes diferentes como já foi discutido anteriormente.

Após observarmos os discursos presentes nos contos brasileiro e angolano, é importante enfatizar que o ser humano é constituído pela linguagem, bem como seu meio social. Cada área de conhecimento possui seu domínio atrelado a outro domínio. A exemplo disso, temos a literatura como um campo que se relaciona com a área de domínio da história. A história traz um discurso que narra um fato real que passou ou que está se passando, ao mesmo tempo que, apresenta um discurso baseando-se no domínio do fato real do historiador que, através de suas seleções mais relevantes, apresenta uma versão particular para expressar esse acontecimento histórico, como mostra-nos Baccega (2013, p.120):

[...] o sujeito do discurso literário não fabrica o material com que trabalha. Esse material existe independentemente dele e dele receberá uma dada ordenação. Essa ordenação tem implícita uma rede de relações que possibilitará que os fatos, ordenados, tem um outro significado: o significado que lhe foi atribuído pelo artista na obra literária. (BACCEGA, 2013, p. 128)

É exatamente isso que ocorre com os dois contos que analisamos nesse tópico. Os textos, angolano e brasileiro, ativam a memória discursiva, a temática construída (desobediência) e partilhada pelo contexto social. O fato real (no caso, a desobediência) é apresentado pelos povos angolano e brasileiro através da literatura que transforma esse fato real em narrativa ficcional sem “fabricar o material que trabalha”.

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Com base no objetivo do presente trabalho, ou seja, analisar as percepções dos alunos, em atividades realizadas na aula de Língua portuguesa, no que diz respeito à memória discursiva do povo angolano presente no conto oral O Kianda e a rapariga e a memória discursiva do povo brasileiro presente no conto oral O marido da mae d’água, consideramos o objetivo concretizado, uma vez que aliando a teoria à análise, investigamos as percepções dos alunos no que se refere as diferenças e semelhanças entre os contos em questão, por meio dos discursos apresentados.

Percebemos que os discursos apresentados nos contos são regidos pelas formações discursivas dos contextos de origem das narrativas orais. Contudo, em termos de temática, percebemos que esses discursos se aproximam, o que gera uma semelhança cultural, já que ambas as culturas trazem como código de moral, em seus contos, a desobediência como algo errado que induz o personagem a uma consequência.

Além disso, é necessário ressaltar a importância desse trabalho intercultural na sala de aula como uma forma de mostrar aos alunos que se deve respeitar as diferenças culturas, aceitando-as. Precisamos mostrar que cada nação possui sua particularidade e podemos aprender com outras culturas também.

Referências

BACCEGA, Maria Aparecida. A construção do “real” e do “ficcional”. In.: FIGARO, Roseli (Org.) Comunicação e análise de discurso. São Paulo: Cortez, 2013. p. 119-139;

BARTHES, Roland. Introdução à análise estrutural da narrativa. In.: Roland Barthes et al. Análise estrutural da narrativa. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 19-62.

CASCUDO, Luís Câmara. Contos Tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004. INDURSKY, Freda. A análise do discurso e sua inserção no campo das ciências da linguagem. In: Cadernos do IL -UFRGS, nº20/dezembro,1998.

LEITE, Ana Mafalda. Oralidades e Escritas pós-coloniais: estudos sobre literaturas africanas. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.

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2000.

NUNES, Susana Dolores Machado. A milenar arte da oratura angolana e moçambicana: aspectos estruturais e receptividade dos alunos portugueses ao conto africano. Lisboa: CEAUP, 2009.

PÊCHEUX, M. Papel da Memória. In: ACHARD, Pierre [et al.]. Papel da Memória. Campinas, São Paulo: Pontes, 1999, p. 49-57.

Referências

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