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Rev. Saúde Pública vol.24 número2

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Academic year: 2018

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EDITORIAL

"LIMITAÇÕES" DA TEORIA ECOLÓGICA DA SAÚDE E DOENÇA

Encontra-se em andamento, e logrando bastante aceitação por parte de determinada corrente de pensamento, a tentativa um tanto maniqueísta, de combater a teoria que parte do conceito ecológico de saúde. Como se sabe, este a concebe como sendo o estado de perfeita e contínua adaptação do ho-mem ao seu ambiente (Wylie, 1970). As "baterias" que se assentam contra essa concepção partem da premissa de que "o ecológico está limitado ao com-ponente físico-biológico do ambiente no qual vive o homem" (Barbosa, 1985). Com isso, pretende-se a-cusar os estudos epidemiológicos até agora prati-cados de, em sua maioria, terem cometido a imper-doável falta de ignorarem, em boa medida, os de-terminantes sociais da doença. É possível que esse fato tenha ocorrido. No entanto, nem por isso é de se admitir que a teoria ecológica seja encarada como intrinsecamente limitada.

O sentido que atribui significado ecológico ao processo de saúde e doença, embora cientifica-mente bem alicerçado, de maneira involuntária tem contribuído para a crença errônea de que o es-tado de sanidade individual e o coletivo consti-tuem objetos de estudo a serem tratados separada-mente. Em outras palavras, a saúde da pessoa poderia ser encarada independentemente do esta-do de saúde da população. Para esse tipo de inter-pretação teria contribuído a ênfase dada aos fa-tores biológicos na gênese da doença. Na atualidade, tem crescido a tendência de encarar este fenômeno, não apenas incluindo a partici-pação individual, mas também, e necessaria-mente, a social. Entre outras conceituações, focali-za-se o "papel de doente" que o indivíduo assume na sociedade, ou seja, a correspondente disfunção social afetando o seu relacionamento com os de-mais indivíduos norde-mais (Susser, 1973). Assim pois, o processo saúde e doença é visto como sendo de natureza precipuamente social. O conceito de saúde deve ultrapassar os estreitos limites da au-sência da doença pois, caso contrário, não se pode-rá pretender a melhoria da qualidade da vida, mas sim tão somente a mera sobrevivência a qual-quer preço (Viniegra, 1985). Com tal orientação, ao invés de na "História Natural da Doença", os es-tudos tendem a se concentrar em uma suposta "História Social da Doença", cujo objeto principal "deverá ser a distribuição desigual da doença en-tre os diferentes grupos da sociedade" (Almeida Filho, 1989).

Face a tal situação, cabem comentários. Antes de tudo, é de se admitir que o que disso resulta é as-pecto apenas aparentemente discordante. E até

porque, os estudos sobre a saúde populacional hu-mana devem obrigatoriamente levar em conta as-pectos e fatores tanto biológicos como sociais. Não há motivo plausível para confinar aos primeiros a concepção ecológica de saúde, ou de qualquer rela-cionamento antrópico. A ecologia humana nunca poderá ignorar a existência da sociedade, como se o organismo do homem fosse simples participante de população destituída de estruturas sociais al-tamente complexas. E, como está longe de ser ape-nas geneticamente determinada, à semelhança das de formiga e de abelhas, a sociedade humana, em seus aspectos estruturais e de desenvolvimento cul-tural, é fator determinante do seu próprio estado de saúde, tanto individual como coletiva.

Isso, porém, deve ser cientificamente encarado mediante o estudo ecológico da população humana em sua própria sociedade, e dos conseqüentes de-terminantes que daí se originam para o seu estado de saúde. É lícito que o estudo ecológico implique, também e necessariamente, a focalização do com-portamento intra-específico na população huma-na, e de onde se originam os fatores da natureza sócio-econômica e cultural. Assim sendo, a palavra "ambiente" deve ser entendida em seu significado por inteiro, que inclui obrigatoriamente o meio so-cial. Com esse entendimento, o estudo ecológico da dinâmica da saúde e da doença abrange toda a problemática populacional nesse campo. Poder-se-ia falar em teorPoder-se-ia sociológica desse processo. Isso, contudo, levará a limitação do conhecimento para outro extremo, porém em tudo análoga à que supos-tamente se tem atribuído à teoria ecológica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA FILHO, N. de Epidemiologia sem números. Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1989.

BARBOSA, F. S. A epidemiologia como instrumento de transformação. Cad. Saúde públ., Rio de Janeiro, 1: 137-9, 1985.

SUSSER, M. Causal thinking in the health sciences. New York, Oxford University Press, 1973.

VINIEGRA, V. L. Hacia un concepto de salud coletiva. Sa-lud publ. México, 27: 410-8, 1985.

WYLIE, C. M. The definition and measurement of health and disease. Publ. Hlth, Rep., 85:100-4, 1970.

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