Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Stricto Sensu em Comunicação
UM OLHAR JORNALÍSTICO SOBRE O CORPO DE MICHAEL
JACKSON: A TRANSFORMAÇÃO, A PERFORMANCE E A
MORTE
Brasília - DF
2012
GISLIENE HESSE LIMA DE SOUZA
UM OLHAR JORNALÍSTICO SOBRE O CORPO DE MICHAEL JACKSON: A TRANSFORMAÇÃO, A PERFORMANCE E A MORTE
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Comunicação da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção de título de Mestre em Comunicação.
Orientador: Prof. Dr. Roberval José Marinho
12,5 cm
7,5 c
7,5cm
Ficha elaborada pela Biblioteca Pós-Graduação da UCB 28/03/2012
S729o Souza, Gisliene Hesse Lima de
Um olhar jornalístico sobre o corpo de Michael Jackson: a transformação, a performance e a morte. / Gisliene Hesse Lima de Souza –
2012.
105 f. : il.; 30 cm
Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2012. Orientação: Roberval José Marinho
1. Comunicação de massa -Influência. 2. Performance (Arte). 3. Morte. 4. Comportamento humano. I. Marinho, Roberval José, orient. II. Título.
SOUZA, Gisliene Hesse Lima de. Um olhar jornalístico sobre o corpo de Michael Jackson: a transformação, a performance e a morte. 2012. 105 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2012.
Este trabalho objetiva investigar como a mídia retratou as multifaces do corpo de Michael Jackson: o corpo transformado e performático, o corpo midiático e o corpo morto. Para este estudo, procurou-se pesquisar as múltiplas representações que o corpo do artista apresentou durante sua vida e carreira. Entre as abordagens, o destaque vai para as influências trazidas pelo período pós-moderno para o corpo do artista: a) a busca constante por transformações, operadas pelas facilidades tecnológicas e científicas da pós-modernidade, questão que o levou ao narcisismo militante; b) o apelo pela construção de diferentes identidades, demonstrando a volatilidade das mudanças; c) a utilização do corpo como sujeito e objeto do seu trabalho, uma vez que o artista lançou mão de todos os aparatos tecnológicos para impor suas ideias e transmitir suas mensagens; d) a influência das vestimentas do artista, que foram determinantes para traçar tendências da moda mundial; e e) a utilização da representação do corpo, criada pela liberdade do discurso, na qual ele retratou ousadia e sensualidade. Verificaram-se também as estratégias de poder utilizadas por Michael Jackson. O artista soube empregar as novas tecnologias e agregar valor à sua carreira e a todos os produtos confeccionados para ela, o que o ajudou a ter potência e a exercer influência sobre o comportamento de milhares de pessoas. Por último, foi possível fazer uma análise da cobertura jornalística realizada depois da morte do artista. Comprovou-se a espetacularização da mídia em relação às histórias de
vida, à carreira e à morte do cantor. O estudo retrata que o discurso da mídia contribuiu para a
construção de um grande ídolo (o “Rei do Pop”) e, depois, para a desconstrução deste artista,
retratando a sua imagem como a de um transgressor (um homem que se transformou e se tornou símbolo de excentricidade). Por último, quando Michael Jackson morre, os jornais impressos das capitais do Brasil fazem uma tentativa de reconstruir tudo aquilo que tinha destruído nos últimos anos da carreira dele.
The objective of this work is to investigate how the media portrayed the multi-aspects of
Michael Jackson’s body: the transformed and performing body, the mediatic and dead body.
For this study, we researched the multiple representations the artist’s body presented during
his life and career. Among the approaches, the influences brought about by the post-modern period to the artist’s body were highlighted: a) constant search for transformations, operated
by the technological and scientific facilities of post-modernity, which led him to a militant narcissism; b) the appeal to construct new identities, demonstrating the volatility of change; c) utilization of the body as subject and object of his work, as the artist resorted to all technological apparatuses to impose his ideas and transmit his messages; d) the influence of
the artist’s clothing, which set trends in world fashion; and e) the use of the body representation, created by the freedom of the discourse, in which he portrayed audacity and sensuality. We also analyzed the power strategies used by Michael Jackson. The artist knew how to utilize the new technologies and add value to his career and to all products associated to it. This helped him to achieve great power and influence the behavior of thousands of
people. Lastly, we analyzed the media coverage after the artist’s death. We verified the media
spectacularization of the singer’s life stories, career, and death. The study shows that the media discourse contributed to build a great idol (the “King of Pop”), but later the same media
deconstructed the artist, who was portrayed as a transgressor (a man who transformed himself and became a symbol of eccentricity). Finally, after his death the media tried to reconstruct everything it had destroyed during the last years of his career.
Figura 1 - “A Gazeta”, Vitória, ES ... 61
Figura 2 - “A Tribuna”, Vitória, ES ... 62
Figura 3 - “Correio”, Salvador, BA ... 62
Figura 4 - “Agora São Paulo”, SP ... 63
Figura 5 - “Tribuna da Bahia”, Salvador, BA ... 63
Figura 6 - “Jornal da Tarde”, São Paulo, SP ... 64
Figura 7 - “Amazônia”, Belém, PA ... 64
Figura 8 - “Diário do Pará”, Belém, PA ... 65
Figura 9 - “Diário Gaúcho”, Porto Alegre, RS ... 65
Figura 10 - “Diário Catarinense”, Florianópolis, SC... 66
Figura 11 - “Hora de Santa Catarina”, Florianópolis, SC ... 66
Figura 12 - “Jornal do Commercio”, Recife, PE ... 67
Figura 13 - “Estado do Paraná”, Curitiba, PR ... 67
Figura 14 - “Gazeta do Povo”, Curitiba, PR... 68
Figura 15 - “O Tempo”, Belo Horizonte, BH ... 68
Figura 16 - “Estado de Minas”, Belo Horizonte, BH ... 69
Figura 17 - “O Estado de S. Paulo”, SP... 69
Figura 18 - “Folha de S. Paulo”, SP ... 70
Figura 19 - “Diário do Comércio”, São Paulo, SP ... 70
Figura 20 - “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro, RJ ... 71
Figura 21 - “O Dia”, Rio de Janeiro, RJ ... 71
Figura 22 - “O Globo”, Rio de Janeiro, RJ ... 72
Figura 23 - “Correio do Povo”, Porto Alegre, RS ... 72
Figura 24 - “Zero Hora”, Porto Alegre, RS ... 73
Figura 25 - “Jornal de Santa Catarina”, Florianópolis, SC ... 73
Figura 26 - “O Povo”, Fortaleza, CE ... 74
Figura 27 - “Jornal da Paraíba”, João Pessoa, PB ... 74
Figura 28 - “Correio Braziliense”, de Brasília (DF);... 75
Figura 29 - “O Dia”, do Rio de Janeiro (RJ) ... 75
Figura 30 - “Estado de Minas”, de Belo Horizonte (BH) ... 76
Figura 31 - “Jornal da Tarde”, de São Paulo ... 76
Figura 32 - O “Extra”, do Rio de Janeiro ... 78
Figura 35 - “O Sul”, Porto Alegre, RS ... 80
Figura 36 - “Diário de Pernambuco”, Recife, PE ... 81
Figura 37 - “O Estado do Maranhão”, São Luís, MA ... 81
APRESENTAÇÃO ... 10
CAPÍTULO I... 13
1.1 INTRODUÇÃO ... 13
1.2 JUSTIFICATIVA ... 17
1.3 OBJETIVOS ... 20
1.3.1 Objetivo geral ... 20
1.3.2 Objetivos específicos ... 20
1.4 METODOLOGIA ... 20
1.4.1 Detalhamento do projeto ... 20
1.4.2. Coleta de dados ... 21
1.4.3 Tratamento e análise dos dados coletados ... 25
CAPÍTULO II ... 27
2.1. O CORPO PERFORMÁTICO E TRANSFORMÁTICO DE MICHAEL JACKSON 27 2.1.1 Um pouco da história do corpo ... 27
2.2 A PÓS-MODERNIDADE E O CORPO DE MICHAEL JACKSON ... 30
2.2.1 A busca pela beleza ... 30
2.3 O CORPO PERFORMÁTICO DE MICHAEL JACKSON ... 36
CAPÍTULO III ... 43
3.1 O CORPO MIDIÁTICO DE MICHAEL JACKSON ... 43
3.1.1 Corpo e comunicação ... 43
3.1.2 O poder do corpo de Michael Jackson ... 47
CAPÍTULO IV ... 54
4.1 O CORPO MORTO DE MICHAEL JACKSON ... 54
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 97
APRESENTAÇÃO
A época de hoje é traçada por características bem diferentes daquelas presenciadas pelos meus pais. A rapidez com que as coisas mudam nos dias atuais é algo impressionante. Experimentar o novo é experimentar, em pouco tempo, o mais novo. E assim vai acontecendo o universo das transformações tecnológicas, científicas, culturais, econômicas e ambientais. Literalmente, pode-se dizer que o mundo não para. “Viver é estar em mudança para a próxima novidade”, é o que afirma Santos (2008, p. 88) sobre o mundo pós-moderno.
A geração pós-moderna vive por conhecer caminhos diferentes e repletos de mudanças. Perceber esse movimento de grandes transformações permite que este trabalho perpetue uma grande inquietação, que é enveredar por mais um caminho diferenciado. Após dedicar-me, durante a graduação, a um estudo sobre a utilização ética da fotografia no jornal impresso, resolvi apresentá-lo como proposta de tema para o mestrado.
No entanto, no final do primeiro semestre do meu curso, uma notícia assaltou o noticiário mundial: a morte de Michael Jackson. Na noite do dia 25 de junho de 2009, o falecimento do cantor foi anunciado em todas as partes do mundo. No dia seguinte, o assunto foi capa dos principais jornais em âmbito mundial.1 Michael Jackson morria, aos 50 anos, de uma parada cardíaca. Nos dias seguintes após sua morte, centenas de pessoas pararam para saber o que havia acontecido com ele. Seu falecimento e sua história foram noticiados em diversos países.
Naquelas semanas, diferentes países puderam relembrar de Michael Jackson e de sua trajetória pessoal e profissional. Definitivamente, refletir sobre a história de Michael é refletir sobre transformações. Filho do mundo pós-moderno, este artista talvez tenha sido um dos principais exemplos de utilização de diferentes identidades entre os anos 1970 e 2009. Outro aspecto que influenciou a sua carreira foi a questão tecnológica aliada ao seu desempenho artístico.
Durante aquele período, ao ler muitas matérias sobre as suas memórias, pude ter informações completas sobre a cronologia dos fatos que construíram a carreira e a vida de Michael Jackson. Uma estrela da música que ultimamente estava apagada, mas que, em um primeiro olhar, revivia nas páginas dos veículos de comunicação após falecer.
Para a mídia, Jackson precisou morrer para renascer o cantor dos anos 1980 que apaixonou o mundo. As notícias sobre sua morte foram um divisor de águas em termos de cobertura jornalística. No Brasil, conforme trataremos mais adiante, os jornais impressos das capitais do Brasil passaram mais de dois meses abordando o assunto e seus desdobramentos. Outro fator que vale ser citado é que o primeiro anúncio de sua morte foi on-line,por meio do
site TMZ (www.tmz.com), homepage americana que reúne notícias sobre celebridades.
A notícia sobre a morte de Michael deixou o mundo surpreso, assim como acontecera com as gerações que vivenciaram a morte repentina de grandes personalidades, como, por exemplo, Elvis Presley e, mais recentemente, o falecimento da princesa Lady Di. No Brasil, não temos como esquecer de toda a repercussão da morte de Ayrton Senna, o piloto de Fórmula 1.
Então, diante daquela morte inesperada do astro do pop, resolvi fazer algo que demonstrasse o quanto o referido artista significou entre o período de 1970 e 2009. Mas eu não sabia por onde começar. Em meio à divulgação de sua morte, não pensei duas vezes e solicitei que uma empresa de clipagem separasse todos os recortes de jornais que tratassem da
morte do ídolo.
Algumas disciplinas –duas, em especial: “Comunicação, Mídia e Poder” e “Processos de Comunicação na Cultura Brasileira Contemporânea” – abriram o meu horizonte para definir o tema definitivo da minha dissertação. Depois de escrever dois artigos, que serviram como requisitos para as referidas disciplinas, decidi pesquisar sobre teorias que me remetiam aos conceitos sobre o corpo, com interesse específico pelo corpo transformado do artista e pelo corpo performático de Michael Jackson.
Para mim, bem como para toda uma geração, eram quase inexplicáveis as transformações pelas quais o “Rei do Pop” passou. A minha escolha de enveredar pelos
conceitos sobre o tratamento do corpo se deu quando percebi que, com o passar do tempo, as transformações corporais se tornaram um objetivo constante na vida das pessoas e, principalmente, de grandes artistas.
sempre declarou que a mudança da cor de sua pele se deu devido ao vitiligo, doença que causa a perda de pigmentação da pele.
Mas sobre as mudanças do corpo, não posso deixar de fazer uma intersecção sobre a influência da mídia, que começa a tratar o corpo de homens e mulheres de forma estereotipada. A imprensa ajuda a estabelecer padrões estéticos e a classificar as pessoas de acordo com sua imagem corporal.
CAPÍTULO I
1.1 INTRODUÇÃO
A história de Michael Jackson é uma sequência de fatos que envolvem capítulos de uma vida conturbada. Sua infância, por exemplo, foi marcada pela pobreza e logo se
transformou em excesso de trabalho, fama e violência. Em 1968, o grupo “The Jackson 5”,
formado por Michael Jackson e mais quatro irmãos do cantor, enfrentava uma maratona intensiva de treinamentos de canto e dança sob o comando do pai, Joseph Jackson, que batia nos filhos quando os ensaios não funcionavam.
Aos seis anos, Michael Jackson se tornaria a maior estrela do grupo e foi considerado um dos grandes ídolos da música mirim norte-americana. Dez anos mais tarde, esta criança –
que precocemente experimentou uma vida de adulto – seguiu carreira solo e se tornou um dos
maiores fenômenos da música mundial, quando Michael passou a ser conhecido como o “Rei do Pop”. Compositor, dançarino, cantor e criador de vídeos musicais que se aproximaram das
técnicas utilizadas pelo cinema, Michael chegou ao auge da fama quando lançou, em dezembro de 1982, o álbum de maior sucesso da história da discografia mundial: Thriller. Em
toda a sua carreira, ele vendeu mais de 750 milhões de discos. Além disso, influenciou o mundo da música, da moda e da dança quando popularizou o moonwalk2, entre outras
performances artísticas.
No início da década de 1990, o cantor começou a ser visto como a personificação das deformações que a fama é capaz de imprimir em uma pessoa. Michael se tornou um artista inacessível, mudou a cor da sua pele, transformou radicalmente seus traços faciais, começou a aparecer mais por causa das suas esquisitices e foi dominado pelo lado obscuramente infantilizado da sua personalidade, que o levaria, a certa altura, a se isolar em sua propriedade
– Neverland (Terra do Nunca) –, além de ter sido acusado, repetidas vezes, de abusar
sexualmente de crianças e adolescentes que frequentavam sua residência.
Michael Jackson era figura constante nos veículos de comunicação e era identificado como o ídolo pop, mas, a certa altura de sua trajetória, as notícias eram sobre sua excentricidade, o que ofuscou, durante os últimos anos de sua vida, os feitos conseguidos na
2
Moonwalk é um estilo de dança que foi popularizada pelo cantor Michael Jackson, que se tornou sua marca
sua carreira de artista. É como se Michael Jackson tivesse que morrer para renascer o cantor dos anos 1980 que apaixonou o mundo.
As notícias sobre sua morte foram um divisor de águas em termos de cobertura jornalística. No Brasil, os jornais impressos publicados principais capitais do país passaram mais de dois meses abordando o assunto e seus desdobramentos. O TMZ (www.tmz.com), site americano de notícias sobre celebridades, foi o primeiro a divulgar a notícia sobre a morte do cantor, passando à frente de tantos outros veículos tradicionais.
Na curta e intensa trajetória de vida, Michael foi um ícone da mídia em diferentes momentos, entre eles: a) sua história na infância; b) seu sucesso como cantor; c) seus desequilíbrios emocionais; d) suas transformações corporais; e) as denúncias de abuso sexual; f) sua ambígua personalidade; g) o mistério de sua morte; e h) seu renascimento como artista. De maneira diferente como aconteceu com outros artistas, parte da sociedade mundial acompanhou passo a passo a evolução performática de Jackson por meio dos veículos de comunicação, em especial pela televisão, pela internet. Além do artista estar presente nas
emissoras através dos seus videoclipes. A “era da informação” trouxe facilidades para que ele
se tornasse o fenômeno que foi. O fato de Michael ter se transformado em um produto que movimentava o mercado econômico ajudou a incentivar a mídia a investir na produção de espetáculos – baseados nas histórias da vida privada de Jackson – constantes do artista nos veículos de comunicação. O que ele comia, fazia, com quem saía, para onde ia, o que comprava, tudo isso passou a se transformar em histórias para vender jornais e revistas e para atingir picos de audiência em todo o mundo.
São inúmeras as possibilidades de desenvolvimento de estudos que se pode realizar sobre Michael Jackson; no entanto, o recorte dado neste trabalho fica por conta do corpo: o corpo transformado, performático e morto do astro. O que mais nos interessa é mostrar como estas versões do corpo do Rei do Pop foram tratadas pelos jornais impressos das capitais do Brasil.
Neste capítulo também tratamos das influências pós-modernas sobre o corpo e, em específico, sobre o corpo de Michael Jackson. Segundo Jair Ferreira do Santos, em sua obra
“O que é pós-moderno”, esse período é entendido como uma época que enfrenta várias rupturas que irão modificar os padrões estéticos e conferir novos perfis de aparência, de comportamento, de formas de agir na sociedade e de tecnologias.
Esta parte do estudo demonstra que o fato de Michael Jackson ter sido criado a partir dos anos de 1970 fez dele um transmissor das tendências estipuladas a partir dessa época. Michael buscou realizar mudanças constantes em seu corpo com o intuito de criar identidades diferenciadas. Assim, inovou ao aliar a tecnologia à performance, utilizando diversas linguagens comunicativas para demonstrar seu desempenho corporal. Com isso, influenciou o mundo da moda, da música e do consumo.
No segundo capítulo, o que nos interessa é abordar o corpo midiático de Michael Jackson, ou seja, a forma como os jornais impressos noticiavam informações sobre o corpo do artista e a maneira como o astro utilizava seu corpo para demonstrá-lo na mídia. Para esta parte do estudo foi realizada uma pesquisa sobre a inter-relação entre o corpo e a comunicação.
Em seguida, foram apresentadas as estratégias de poder utilizadas pelo artista e pela mídia. Neste momento, são apresentadas duas vertentes de fonte de poder: por um lado, o poder de um grande ídolo para influenciar a sociedade e a mídia; e, por outro lado, o poder da mídia para divulgar os temas que lhe são pertinentes, dando relevância ou não para determinados assuntos.
No último capítulo, o estudo trata do corpo morto de Michael Jackson. O que interessa nesta abordagem é retratar como os jornais enfocaram a história do ídolo e como o corpo dele foi destacado após a sua morte. Neste momento são tratados assuntos como: o fato de que a primeira notícia sobre a morte do cantor tenha sido gerada pela internet e o que isso contribuiu e/ou influenciou para a cobertura jornalística da morte do cantor; a revisão os jornais impressos das capitais do Brasil fizeram da história do corpo do artista, revisitando suas transformações corporais e seu corpo performático; e a importância que estes veículos deram à notícia da morte de Michael Jackson, transformando um fato negativo em um grande espetáculo.
1.2 JUSTIFICATIVA
Entre os inúmeros estudos sobre o corpo, cujos enfoques são tratados por diversos autores e compreendidos de diferentes formas, de acordo com a época em que são pesquisados. O corpo é abordado neste estudo como forma de tratar de algumas características do corpo humano e, no nosso caso, por meio das influências sofridas pelo corpo de Michael Jackson.
Este estudo sobre o corpo transformado, performático e morto de Michael Jackson vai ao encontro de uma abordagem sobre as influências que a pós-modernidade atribuiu à nova concepção do corpo: o corpo refeito em busca de uma imagem perfeita de beleza e à procura de diferentes identidades; o corpo em movimento guiado pela tecnologia; o corpo retratado pelos veículos de comunicação (que, aqui neste estudo, são especialmente representados pelos jornais impressos); e a importância dada ao corpo morto, também abordado pelos jornais analisados.
O tema é uma abordagem contemporânea que está presente no cotidiano dos indivíduos atingidos por todos os tipos de apelos que incitam a transformação da identidade corporal das pessoas, entre eles os tecnológicos, os científicos e os midiáticos. Por este motivo, o trabalho propaga uma importância social, a partir do momento em que se preocupa em desvendar as influências culturais e sociais das diversas representações que um corpo pode trazer para a sociedade.
Um olhar jornalístico sobre o corpo de Michael Jackson: a transformação, a
performance e a morte auxiliarão na formação de futuros profissionais, contribuindo com uma
análise científica sobre os diversos significados do corpo pós-moderno e da leitura que os jornais impressos podem dar a este corpo.
Cientificamente, o trabalho soma-se aos estudos que têm relação com a comunicação, a pós-modernidade, a sociologia, a psicologia, a antropologia, a biotecnologia, a tecnologia, a arte cênica, a cultura, a indústria fonográfica, a música e a dança, a publicidade, o cinema e as artes visuais, entre outras áreas de conhecimento.
O estudo também abarca a área científica que investiga a arte performática – forma de arte que combina elementos do teatro, das artes visuais, da música, da dança e do cinema. É importante ressaltar a inter-relação do estudo com a arte pop – corrente inspirada na sociedade de consumo e na cultura de massas. Os representantes da arte pop tentam produzir algo que exprima a época atual – que tem como características principais a conquista de um poder aquisitivo maior pelos jovens, a valorização do consumismo, um cenário de tecnologias de comunicação e o surgimento de novas formas de entretenimento. De maneira intrínseca a este contexto existe a relação com a canção pop, gênero musical adotado por Michael Jackson. Este tipo de canção surgiu nos anos 1950 e é identificado como uma versão mais suave do
rock and roll.
Além disso, a proposta do estudo é contemporânea, não por investigar a questão do corpo humano, pois se constatou em uma investigação em trabalhos de mestrado e doutorados brasileiros diferentes formas de abordagem deste tema. A novidade aqui é dada pelo tratamento do tema mediante o estudo do caso de Michael Jackson, um dos maiores ídolos da contemporaneidade, e pelo estudo de como este ídolo aparece nos jornais impressos das capitais brasileiras.
A relevância do trabalho se dá também por se basear em estudos como a hipótese de agenda ou agenda-setting ou agendamento. Neste estudo se defende a tese de que a sociedade modifica sua concepção de mundo por causa da influência dos veículos de comunicação. “A
asserção fundamental da agenda-setting é que a compreensão das pessoas em relação a grande parte da realidade social é modificada pelos meios de comunicação de massa” (SHAW, 1979
apud WOLF, 2008, p. 101).
Os Estudos Culturais, campo acadêmico de pesquisa sobre comunicação e cultura, também estão presentes na abordagem. Um dos motivos que se levou em consideração para a
escolha dos Estudos Culturais foi o fato de que a referida escola atua “com uma concepção
interdisciplinar que utiliza teoria social, economia, política, história, comunicação, teoria
literária e cultural, filosofia e outros discursos teóricos” (KELLNER, 2001, p. 42).
Com base na citada linha teórica, uma das obras sobre a qual o estudo se debruçará
será “A Identidade Cultural na Pós-Modernidade”, escrita por Stuart Hall em 1996. O livro aborda diversas questões que atingem o sujeito contemporâneo e o modo como ele se comunica e produz cultura.
Para este estudo também serão utilizadas obras de Lúcia Santaella, como, por
exemplo, “Culturas e Artes do Pós-Humano: da Cultura das Mídias à Cibercultura” no ano de
sujeito a objeto de sua arte. O livro “Corpo e Comunicação: Sintoma da Cultura”, publicado
em 2004 pela mesma autora, é outra obra determinante para a pesquisa.
“A Edição do Corpo: Tecnociência, Artes e Moda”, publicado em 2007 por Nízia
Villaça, também serviu de referência para a dissertação. Ainda sobre abordagens que tratam do corpo, vale ressaltar a contribuição de Wilton Garcia, em 2005, com seus diferentes olhares sobre o corpo, como, por exemplo, o corpo utilizado para a arte performática, o corpo esteticamente transformado e o corpo como produto de mídia.
O pensamento de Friedrich Nietzsche também foi salientado pela pesquisa, em especial a questão da verdade, em cujo enfoque o autor avalia que as verdades construídas
pelo homem são limitadoras. Roberto Machado, em 1999, em sua obra “Nietzsche e a verdade”, demonstra que a possibilidade que os indivíduos têm de construir verdades cria a prerrogativa de que possam destruí-las e defende que a verdade não existe.
A obra de Michel Foucault auxiliará com os conceitos de poder e verdade, defendidos
pelo autor. Para ele, “há efeitos de verdade que uma sociedade como a sociedade ocidental, e
hoje se pode dizer a sociedade mundial, produz a cada instante” (FOUCAULT, 2006, p. 226).
Neste contexto de poder, Gérard Lebrun, 2004, também traz sua contribuição.
O conteúdo sobre a vida de Michael Jackson estará baseado em três livros: “Michael Jackson: a Magia e a Loucura”, de J. Randy Taraborrelli, 2005, uma das abordagens mais conceituadas sobre o artista; “Revelados: os Últimos Anos de Michael Jackson”, de Ian
Halperin, livro escrito em 2009 depois da morte do cantor, que trata da influência da mídia
sobre a carreira do Rei do Pop; e “Para Entender Michael Jackson”, de Margo Jefferson,
2005, obra que analisa a cultura de massa e os meandros da indústria do espetáculo para responder a muitas perguntas relacionadas ao astro.
Por último, vale citar que uma coletânea de artigos que tratam de coberturas jornalísticas sobre a morte de celebridades também ajudará a desvendar a atuação da mídia
em relação à cobertura da morte de Michael Jackson. Os artigos “Morro, Logo Existo: a
Morte como Acontecimento Jornalístico”, de Milena de Oliveira-Cruz; “A Morte Imaginada”,
de Marinalva Barbosa; e “Quando a Morte é Festa”, de José Carlos Rodrigues, deram grande
1.3 OBJETIVOS
1.3.1 Objetivo geral
Estudar a abordagem dos jornais impressos brasileiros sobre corpo de Michael Jackson, trazendo olhares para o corpo transformado e performático do artista, bem como analisar a cobertura jornalística do falecimento do cantor realizada por esses veículos.
1.3.2 Objetivos específicos
a) Realizar uma pesquisa sobre o corpo transformado e performático de Michael Jackson e suas inter-relações com o pós-modernismo;
b) Estudar o corpo midiático de Michael Jackson;
c) Analisar a cobertura jornalística sobre o corpo morto de Michael Jackson.
1.4 METODOLOGIA
1.4.1 Detalhamento do projeto
O método para o desenvolvimento deste estudo aponta para uma pesquisa bibliográfica e documental. A abordagem do tema foi feita por meio de uma revisão de literatura específica, com base em teorias ligadas aos estudos sobre a história do corpo humano, bem como em conhecimentos sobre a pós-modernidade e nas teorias da área de comunicação.
A pesquisa bibliográfica abrangeu a leitura, a análise e a interpretação de livros, recortes de jornais, dissertações, teses e informações retiradas da internet. Durante todo o estudo foi realizada uma triangulação entre os conceitos desenvolvidos pelos autores estudados, a análise dos documentos e a intersecção deste universo com o objeto de estudo: o corpo de Michael Jackson retratado pela mídia.
1.4.2. Coleta de dados
Para a abordagem do tema do trabalho foi realizado um levantamento bibliográfico mediante a análise do banco de teses disponibilizado no portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no seguinte endereço
http://capes.gov.br/servicos/banco-de-teses. O levantamento foi feito no mês de junho de 2011 e a busca da pesquisa foi dividida pelas seguintes palavras-chave: transformações corporais; corpo midiático; corpo performático; performance, representação corporal; corpo e arte; e
Michael Jackson.
Paralelamente, realizou-se uma pesquisa para investigar os autores que abordam questões relacionadas ao tema do estudo. Além disso, no ano de 2009, logo após a morte de Michael Jackson, foram coletadas matérias jornalísticas por meio da contratação de uma empresa de clipagem, a Leitor. A empresa ficou responsável por recolher matérias sobre a
morte de Michael Jackson que foram publicadas nos principais jornais impressos brasileiros. O material escolhido para este estudo compreende as datas situadas entre 26 de junho (um dia após o falecimento do cantor) e 8 de julho de 2009 (um dia depois do velório e enterro do artista).
Entre os veículos pesquisados estão os seguintes:
Dia 26 de junho
Dia 27 de junho
Folha de S. Paulo, SP; Diário do Comércio, SP;Gazeta do Povo, PR;Jornal da Tarde, SP; Jornal da Cidade, SE; Diário do Pará, Belém; Correio da Paraíba, PB;Extra, RJ; O Estado de S.Paulo, SP;Gazeta de Alagoas, AL;Correio Braziliense, DF;Estado de Minas, BH;Zero Hora, RS; Agora São Paulo, SP; O Globo, RJ; O Popular, GO;Diário de Pernambuco, PE; A Crítica, AM; A Tarde, BA; Folha de Pernambuco, PE; Diário da Manhã, GO; A Tribuna, ES; Correio do Estado, MT; A Tribuna, Santos.
Dia 28 de junho
Diário da Manhã, GO; O Globo, RJ; Extra, RJ; Folha de Pernambuco, PE; Zero Hora, RS; O Estado de S. Paulo, SP; A Tribuna, Santos; Diário do Pará, PA; Gazeta de Alagoas, AL; Agora São Paulo, SP; Folha de São Paulo, SP; Jornal da Tarde, SP; Correio da Paraíba, PB; O Popular, GO; A Tarde, BA; Estado de Minas, BH; A Tribuna, ES; Correio Braziliense, DF.
Dia 29 de junho
O Globo, RJ; Tribuna da Bahia, BA; A Tribuna de Vitória, ES; Jornal Cinform, SE; Jornal Destak, RJ; Jornal Destak, SP; Expresso da Informação, RJ; Extra, RJ; Correio da Paraíba, PB; Diário do Pará, PA; Diário de Pernambuco, PE; A Tribuna, ES; Agora São Paulo, SP; Correio Braziliense, DF; Jornal da Tarde, SP; Folha de Pernambuco, PE; Diário da Manhã, GO; Zero Hora, RS; O Globo, RJ; Estado de Minas, BH; O Popular, GO; O Estado de S. Paulo, SP.
Dia 30 de junho
Correio Braziliense, DF; Zero Hora, RS; Tribuna da Bahia, BA; Folha de S. Paulo, SP; O Globo, RJ; O Estado de S. Paulo, SP; O Dia, PI; O Popular, GO; Diário de Cuiabá, MT; Agora São Paulo, SP; Gazeta de Alagoas, AL; Povo, RJ; Diário de Pernambuco, PE; Diário do Pará, PA;Correio da Paraíba, PB; Gazeta de Alagoas, AL; Jornal da Tarde, SP; Diário da Manhã, GO; Folha de Pernambuco, PE; Extra, RJ; Diário de S. Paulo, SP; Estado do Paraná, PR; Jornal Destak, RJ; A Tarde, BA; A Crítica, AM; Diário do Comércio, SP; A Tribuna, ES
Dia 01 de julho
Pernambuco, PE; Metro News, SP; Diário de Pernambuco, PE; Diário Catarinense, PR; Jornal Destak, SP; Zero Hora, RS;
Dia 02 de julho
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Dia 03 de julho
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Por último, foi realizada uma pesquisa na internet com o objetivo de conseguir as imagens das primeiras capas dos jornais. Foi quando encontramos um site que disponibiliza capas dos principais jornais de todo o mundo3.
1.4.3 Tratamento e análise dos dados coletados
Em relação aos livros, foi feita uma revisão bibliográfica que teve o objetivo de selecionar obras que nortearam este estudo. Entre os livros selecionados foram realizados
fichamentos de 15 (quinze) títulos, a saber: “A Imagem do Corpo”, “A Arte da Performance”, “A Edição do Corpo”, “Identidade Cultural na Pós-Modernidade”, “Corpo e Comunicação”, “Corpo, Mídia e Representação”, “Performance como Linguagem”, “O Homem Máquina”, “A Cultura da Mídia”, “Teorias da Comunicação de Massa”, “O Que é Pós-Moderno?”, “O Que é Poder?”, “Estratégia, Poder, Saber”, “Para Entender Michael Jackson” e “Michael Jackson: os últimos anos”.
Além dos citados fichamentos, o estudo também compreendeu todos os títulos que compõem a referência bibliográfica desta pesquisa. Em relação à pesquisa sobre dissertações de mestrado e teses de doutorado, a análise compreendeu 231 (duzentos e trinta e um) trabalhos. Depois disso, foi realizada uma triagem por meio da seleção dos títulos dos trabalhos. Em seguida, foi feita mais uma varredura por meio da leitura dos resumos das referidas dissertações e teses.
Por último, restaram 30 (trinta) pesquisas, que foram lidas por completo. Destas 30, dez foram selecionadas para se fazer uma leitura mais atenta e sistemática, por meio de
anotações. Ao final, 4 (quatro) foram escolhidas para servir de base teórica para o estudo. São elas: “O Corpo Tecnológico: Intersecções entre Performer e Mídias”; “Mídia e Produção do Sentido Corporal”; “Com que Corpo Eu Vou? A Beleza e a Performance na Construção do Corpo Midiático”; e “Madonna e os Meios Massivos de Comunicação: Pactos para a Construção de uma Persona”.
Sobre o tratamento dado às edições dos jornais das capitais dos 13 (treze) dias que compreendem o universo desta pesquisa, os periódicos foram, em um primeiro momento, separados por data. Logo depois foi a vez de retirar todas as matérias de jornais do interior do país. Em um segundo momento, foram retiradas todas as matérias opinativas com o intuito de deixar para a análise somente as matérias jornalísticas.
Tais matérias foram lidas com atenção e, quando necessário, foi dado um destaque no próprio jornal. A finalidade da leitura foi analisar quais foram os principais temas tratados pela mídia depois da morte de Michael Jackson. Para isso, foi feita uma lista, por data, que aponta as indicações dos principais assuntos abordados naquele dia.
Sobre a pesquisa referente às capas dos jornais, ela foi realizada com a intenção de se ter a possibilidade de ilustrar o trabalho e, ao mesmo tempo, analisar as manchetes das capas das edições dos principais jornais do Brasil que foram publicadas entre o dia 26 de junho e 8 de julho. Para a análise das capas, foram selecionados os seguintes jornais: “A Gazeta”, Vitória, ES; “A Tribuna”, Vitória, ES; “Correio”, Salvador, BA; “Agora São Paulo”, São Paulo, SP; “Tribuna da Bahia”, Salvador, BA; “Jornal da Tarde”, São Paulo, SP; “Amazônia”, Belém, PA; “Diário do Pará”, Belém, PA; “Diário Gaúcho”, Porto Alegre, RS; “Diário Catarinense”, Florianópolis, SC; “O Tempo”, Belo Horizonte, BH; “Hora de Santa Catarina”, Florianópolis, SC; “Jornal do Commercio”, Recife, PE; “Estado do Paraná”, Curitiba, PR; “Gazeta do Povo”, Curitiba, PR; “Estado de Minas”, Belo Horizonte, BH; “O Estado de S. Paulo”, São Paulo, SP; “Folha de S. Paulo”, São Paulo, SP; “Diário do Comércio”, São Paulo, SP; “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro, RJ; “O Dia”, Rio de Janeiro, RJ; “Correio do Povo”,
Porto Alegre, RS; “O Globo”, Rio de Janeiro, RJ; “Zero Hora”, Porto Alegre, RS; “Jornal de
Santa Catarina”, Florianópolis, SC; “O Povo”, Fortaleza, CE; “Jornal da Paraíba”, João Pessoa, PB; “Correio Braziliense”, Brasília, DF; “Extra”, Rio de Janeiro, RJ; “Diário de S.
CAPÍTULO II
2.1. O CORPO PERFORMÁTICO E TRANSFORMÁTICO DE MICHAEL JACKSON
2.1.1 Um pouco da história do corpo
Para se enveredar pelo universo do corpo de uma das maiores personalidades artísticas dos últimos tempos, faz-se necessário analisar o corpo sob vários olhares. Neste estudo serão desvendadas algumas características sobre o corpo humano com o objetivo de se fazer uma leitura de como o corpo de Michael Jackson foi tratado pelos veículos de comunicação impressos. Para isso, será feito um recorte que se divide em três categorias de análise midiática: a) o corpo transformático e performático de Michael Jackson; b) o corpo midiático de Michael Jackson; e c) o corpo morto de Michael Jackson.
Neste capítulo, a abordagem se dará em torno da história do corpo em diferentes períodos e as inter-relações deste contexto com a trajetória corporal de Michael Jackson.
Por meio da pesquisa bibliográfica que foi visitada para a realização deste estudo, foi descoberto que o corpo é um objeto complexo não só por receber reflexões de diferentes áreas de conhecimento, mas também pela sua divisão conceitual. Ele é ao mesmo tempo corpo físico, que possui fragmentações (olhos, boca, pés, etc.), e corpo simbólico, que simula múltiplas representações.
Por outro lado, o corpo também pode ser compreendido pelas suas diversas possibilidades de performance, entendida – para efeitos deste trabalho – como fenômeno
peculiar da vida e, portanto, por suas características, os seres humanos têm uma performance continuada. Ao se falar do corpo também é necessário percebê-lo como um dueto: simultaneamente, ele é sujeito e objeto. Além disso, vale ressaltar que a compreensão do corpo também passa pela forma de representação de gêneros.
Como foi dito, o corpo já foi objeto de estudo de muitos filósofos e pesquisado por várias áreas do conhecimento. Segundo Santaella (2004, p. 11), “a problematização do corpo, nos seus aspectos psíquicos, comunicacionais, culturais, sociais, antropológicos e fisiológicos,
De Platão a Bergson, passando por Descartes, Espinosa, Merleau-Ponty, Freud, Marx, a definição de corpo sempre pareceu um problema: para alguns, ele é ao mesmo tempo enigma e parte da realidade objetiva, isto é, coisa substância; para outros, signo, representação, imagem. Ele é também estrutura libidinal, que faz dele um modo de desejo, corpo natural que passa a outra dimensão ao se tornar corpo libidinal para outro, ‘uma elevação em direção a outrem’: o Eu do desejo é
evidentemente o corpo, diz a psicanálise (NOVAES, 2003, p. 9).
Na contemporaneidade, o corpo foi revisitado por diversos estudos e de diferentes formas. Vale citar como exemplos os estudos culturais que tratam do corpo com foco na identidade e no gênero. Também vale lembrar das pesquisas que se debruçam em conhecimentos sobre a representação social do corpo, além daqueles trabalhos que aliam os avanços tecnológicos da ciência para manipular o corpo.
Diante das diversas leituras que o corpo humano pode produzir, o nosso estudo vai ao encontro de um corpo entendido como lugar que abriga diversas representações, conforme a época em que ele é revelado ou estudado e de acordo com a cultura pela qual ele perpassa, entendendo-se que o corpo presencia as mudanças socioculturais. No entanto, pode-se dizer que o corpo está sujeito a várias leituras, dependendo da época na qual está inserido.
Conforme afirma Soares (2001, p. 110), “os corpos são educados por toda realidade, por todas as coisas com as quais convivem, pelas relações que se estabelecem em espaços
definidos e delimitados por atos de conhecimento”. Schilder (1980, p. 110) também traz uma
contribuição quando faz uma comparação entre o corpo e o mundo e diz que “o corpo e o
mundo são experiências interconectadas. Uma não é possível sem a outra”. Para completar o pensamento, Villaça (2007, p. 56) afirma que “o corpo constitui um subsistema cultural por
meio do qual o indivíduo cria valores, coesão e interage com o mundo e com o outro”.
O nosso estudo está interessado no corpo que se interconecta com o mundo, valendo-se do corpo de uma grande personalidade: Michael Jackson. Por isso, para que possamos entender como o corpo perpassa pelo tempo no qual está inserido, vamos fazer uma breve leitura histórica. Tal leitura nos foi possível por meio de uma pesquisa realizada sobre os
meandros do corpo no livro “Corpo e História”, de Carmem Soares, 2001, e por intermédio da
visitação da dissertação de mestrado da autora Dione Sardinha “Mídia e Produção do Sentido Corporal”, 2004, na qual a autora também trata do histórico do corpo.
Já em Roma, o significado do corpo está associado à “[...] marca do domínio, do poder
do Império e de seus representantes” (SARDINHA, 2004, p. 18). Por outro lado, a relação dos romanos com o corpo também se deu pela experiência do Cristianismo, que atribui “a
concepção de que o corpo deveria ser anulado por conta dos valores religiosos estabelecidos
pela fé nas palavras de um único Deus” (SARDINHA, 2004, p. 20).
Neste sentido, os conceitos sobre o corpo, segundo o Cristianismo, são compreendidos por intermédio da concepção de que ele deve ser anulado por causa dos valores religiosos estabelecidos pela fé. Esta tentativa de anular os desejos e prazeres dos homens ganha uma dimensão enorme na Idade Média. No século IV, com a introdução do feudalismo, caracterizado como um novo modo de organização social, econômica e política, o corpo vivencia um novo valor, o valor de produção, o que o transforma, assim, em mercadoria.
Ao se chegar à Idade Moderna, ao final do século XV e início do século XVI, principalmente a partir de eventos como as grandes navegações e a colonização da América, a concepção de capitalismo, embora sem menção ao termo, começa a se introduzir nas obras de pensadores do período. O termo só seria formulado a partir de obras de Marx, Engels, Proudhon e Sombart, entre outros, no final do século XIX e início do século XX. Naquela época, principalmente após a Revolução Burguesa (ou Revolução Francesa) e o início da Revolução Industrial, já no século XVIII, na era contemporânea, o homem começa a vender sua força de trabalho para sobreviver, mesmo que tenha de trabalhar em atividades que não o satisfazem.
É na modernidade também que os indivíduos “vivenciam no corpo a transição entre a opressão da obediência aos dogmas religiosos e a volta ao prazer” (SARDINHA, 2004, p. 23 -24). Se, por um lado, a modernidade dá ao homem a possibilidade de abrir mão dos valores religiosos, por outro ela abre o caminho para um indivíduo diferenciado, este, por sua vez, mais racional, individual, soberano, produtivo e social.
As evoluções industriais, tecnológicas e científicas ocorridas naquele período influenciaram o corpo, de forma que este passará por uma transformação significativa. Os avanços científicos e tecnológicos, por exemplo, possibilitaram ao homem a produção de um maquinário poderoso para ser utilizado em guerras. Foi naquele período que surgiram os corpos mutilados por armas contemporâneas, confeccionadas pela recém-criada indústria
bélica. Por conseguinte, os avanços da medicina – o uso de próteses (inclusive de silicone),
Segundo Sardinha, a época moderna também será a responsável pela inauguração da psicanálise. Alguns dos principais representantes desta corrente científica foram Freud, Jung e Lacan, que tentam desvendar um outro lado do indivíduo e estudar como o inconsciente interfere nas ações do homem. O período também inaugurou as ideias de Peirce, que foi quem deu início à ciência dos signos, que vai contribuir de forma expressiva para desvendar vários significados do corpo.
2.2 A PÓS-MODERNIDADE E O CORPO DE MICHAEL JACKSON
2.2.1 A busca pela beleza
Logo depois da modernidade, surge a era pós-moderna (segundo Santos essa época é iniciada em 1950), período que atravessou e atravessa diversas mudanças e rupturas, que também atingiram e atingem não só as concepções relativas ao corpo humano, mas também o corpo propriamente dito. Ocorrem transformações que irão modificar os padrões estéticos, conferindo novos perfis de aparência e de comportamento e novas formas de agir na sociedade. É por esta era que perpassa o corpo de Michael Jackson.
O mundo pós-moderno é conceituado por Santos (2008, p. 7-8) da seguinte forma:
Pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se encerra o modernismo (1900-1950). Ele nasce com a arquitetura e computação nos anos 50. Toma corpo como arte pop nos anos 60. Cresce ao entrar pela filosofia, durante os anos 70, como crítica da cultura ocidental. E amadurece hoje, alastrando-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecnociência (ciência + tecnologia invadindo o cotidiano com desde alimentos processados até microcomputadores), sem que ninguém saiba se é decadência ou renascimento cultural.
É na época pós-moderna que o significado do corpo toma dimensão global, deixando de ter espaço regional e estando em todos os lugares, como ser onipresente. Segundo
Santaella (2004, p. 140), “[...] o corpo está obsessivamente onipresente porque ele se tornou
Foi essa onipresença do corpo que me levou a desconfiar que se trata aí, muito provavelmente, do fato de que o corpo, ele mesmo, se tornou um sintoma da cultura, isto é, o corpo virou uma ancoragem entre o gozo e os imperativos da vida em sociedade (SANTAELLA, 2004, p. 141).
Representado nas emissoras de televisão e nas rádios, nos jornais impressos, nas revistas, nos periódicos, na internet e nas redes sociais, o corpo pós-moderno recebe influência de todos os cantos. Garcia (2005) afirma que “o corpo se torna sistema de articulação discursiva”:
O corpo veiculado nos meios de comunicação de massa não é o corpo de natureza, nem exatamente de cultura na sua dimensão de expressão de corpo humano: é imagem, texto não verbal que representa um ideal. É o que denominamos corpo-mídia: construído na mídia para significar e ganhar significado nas relações midiáticas (CAMARGO; HOFF, 2002 apud GARCIA, 2005, p. 32).
O ideal buscado constantemente pela mídia é um corpo padronizado, belo, magro, jovem e cheio de saúde. Este é o perfil de corpo que as linguagens da mídia e do mundo científico disseminam pela sociedade pós-moderna. Segundo Baudrillard (1995), tal fator
contribui para que o corpo seja visto sob a ótica capitalista como um “objeto de consumo”,
submetido às exigências mercadológicas.
Michael viveu intensamente as transformações culturais, econômicas e sociais da era pós-moderna, que serviram de espelho para o seu desempenho artístico. Podemos inferir que o corpo de Jackson produz diferentes momentos dessas (res)significações, como, por exemplo: o corpo utilizado para a arte performática, o corpo esteticamente transformado e o corpo como
produto de mídia. Por isso, consideraremos o corpo de Michael “como sistema de articulação
discursiva em evidente recorrência na mídia contemporânea” (GARCIA, 2005, p. xvi).
Entre as características dessa era que se refletiram no corpo do artista, podemos citar a busca constante por transformações e mudanças de imagem. Conforme explica Santos (2008, p. 87):
A paixão por si mesmo, a glamourização da sua autoimagem pelo cuidado com a aparência e a informação pessoal o entregam a um narcisismo militante. É o neoindividualismo decorado pelo narcisismo.
Segundo o sociólogo britânico Chris Rojek, autor de uma pesquisa sobre celebridades,
“o narcisista é uma pessoa que acredita ser a razão da existência do mundo” (ROJEK apud
SOALHEIRO; FINOTTI, 2004). Michael buscou constantemente ser o centro das atenções do mundo, independentemente de que maneira isso poderia acontecer. A falta de limites em busca de mudanças constantes para acumular fama fez de Jackson um dos grandes ídolos do movimento pós-moderno.
apelo tem uma inter-relação muito forte com características grotescas. Conforme afirma
Santos (2008, p. 88), “viver é estar de mudança para a próxima novidade”.
Jefferson (2006), afirma que o artista chegou a dizer que sua carreira seria “o maior espetáculo da Terra” e ressalta:
Ele afirmou várias vezes em entrevistas que é obcecado pela perfeição. [...] Sua aparência, no entanto, está sempre em um fluxo perigoso. Constantemente vemos nos videoclipes Michael Jackson passar por transformações monstruosas. De um jovem doce para um espírito maléfico (Thriller), de astro elegante da música pop
para um gato preto (Billie Jean), de um xamã dançarino vestido de branco para um
desordeiro quebrando janelas, que depois segura e acaricia o pênis (Black or White).
Ele adora gêneros que enfatizam identidades mutáveis, desenhos animados alegres e histórias de horror (JEFFERSON, 2006, p. 77).
A procura por se fazer diferente e se mostrar diferente não limitou fronteiras para a carreira de Michael Jackson. É como se o artista tivesse uma necessidade constante de se transformar. A mudança para Michael Jackson era algo volúvel que poderia acontecer a qualquer momento. Algo imposto, por um lado, pelas próprias mudanças que ocorreram na sociedade pós-moderna, um ambiente que impõe mudanças de comportamentos, relacionamentos, estéticas e culturais.
Por outro lado, existia o fato de que Michael Jackson era uma pessoa pública – e celebridades se tornam espelhos para toda uma sociedade. É interessante perceber que o papel deste artista – que se identificou com o período pós-moderno – contribuiu para disseminar características como a padronização de corpos perfeitos, a busca por cirurgias plásticas e o consumo exacerbado de produtos. Michael Jackson se identificava com a pós-modernidade e ajudava a reforçar os conceitos trazidos por ela.
Na busca incansável pelo novo, que é uma das características da pós-modernidade, percebe-se que Michael criava diversas histórias e representava diferentes personagens em seu cotidiano artístico. Em relação à sua vida real, suas excentricidades também foram responsáveis por criar várias figuras dramáticas. Basta lembrar de Michael Jackson dormindo em uma câmara hiperbárica, do artista obcecado pelo Homem Elefante e das suas aparições públicas usando máscaras cirúrgicas.
Aliado a tudo isso, Jackson utilizou suas transformações corporais como um dos principais artifícios para modificar sua identidade. Transformações no corpo, a criação de personagens e atitudes esquisitas, estes três elementos juntos fizeram do astro um grande colecionador de identidades.
diferentes em diferentes momentos, dando ênfase à descontinuidade, à fragmentação, à ruptura e ao deslocamento.
[...] A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada
continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (HALL, 1987 apud HALL, 2006, p. 13).
Em relação às transformações corporais, podemos citar as cirurgias plásticas pelas quais o rosto do astro passou e a modificação da cor da sua pele. Sobre o assunto, a biografia escrita por Taraborrelli (2005),4 diz que os dois motivos que levaram o ídolo a fazer tantas plásticas foram: a perseguição por um ideal de perfeição física e a necessidade pessoal de deixar de ter uma semelhança física com o pai, Joseph Jackson. Michael chegou a afirmar para seu ex-empresário, Frank Dileo, que só queria melhorar a aparência. No entanto, Frank
perguntou ao artista quando ele pretendia parar, e ele respondeu: “‘Sou uma obra inacabada’,
disse, com um leve sorriso” (TARABORRELLI, 2005, p. 343).
Sobre a mudança da cor da pele, na década de 1980, Jackson foi diagnosticado com
vitiligo, uma doença de pele. “Alguns médicos especularam que o vitiligo pode ser tanto
hereditário quanto [pode] decorrer de danos causados por substâncias químicas branqueadoras
ao longo dos anos. O vitiligo deixa a vítima sensível ao sol” (TARABORRELLI, 2005, p.
420). No final daquela mesma década, também foi detectado que o artista tinha lúpus discoide
– uma doença que provoca o clareamento ou escurecimento da pele no couro cabeludo. Em entrevista televisiva cedida para Oprah Winfrey em 1993, Michael negou que fazia algum tipo de tratamento para clarear a pele. Quando Oprah perguntou se ele não estava tomando nada para mudar a cor da pele, ele respondeu:
Oh, Deus, não! A gente tenta controlar e usar maquiagem para compensar isso, porque deixa manchas em minha pele. Tenho de igualar minha pele. Mas sabe o que é engraçado? Por que isso é tão importante? Não é importante para mim. Sou um grande admirador da arte. Amo Michelângelo; se eu tivesse a chance de conversar com ele ou ler sobre ele, eu gostaria de saber o que o inspirou a se tornar quem é, a anatomia de sua habilidade artesanal, não sobre com quem ele saiu a noite passada... O que há de errado com... Quero dizer, isso é o que é importante para mim (HALPERIN, 2009, p. 65).
Segundo Taraborrelli (2005, p. 420), alguns especialistas afirmaram que a obsessão de Michael por cirurgias e pela mudança da cor da pele os levou a acreditar que Jackson sofria de
“transtorno dismórfico corporal, um problema psicológico no qual as pessoas ficam tão
obcecadas com sua aparência que a modificam constantemente e não têm um conceito
formado de como são percebidas pelos outros”.
A psicóloga Coward, que escreve uma coluna semanal no jornal inglês The Guardian,
em entrevista para a revista Super Interessante, afirmou que
entender a trajetória de Michael Jackson é fundamental para entendermos o mundo
em que vivemos. ‘Suas transformações corporais são apenas uma manifestação extrema dos comportamentos que se tornam cada vez mais generalizados em nossa cultura. Há cada vez mais jovens determinados a mudar aspectos físicos por meio de
cirurgias plásticas’ (COWARD apud SOALHEIRO; FINOTTI, 2004).
O fator que mais impressionou as pessoas em toda a história de transformações de Michael Jackson foi a cronologia do caso. A cada nova aparição pública, o artista se apresentava diferente. Havia uma evolução gradativa nas suas transformações. O que mais chocou nas mudanças de Jackson foi a transformação da pele, seja ela causada ou não por alguma doença. A imagem que as pessoas tinham de Michael Jackson era de um menino negro e, de repente, esta criança se transformava em um homem cada vez mais branco.
A imagem de Michael Jackson como um homem de pele negra não havia sido apagada pela sociedade. Por isso, foi este imaginário que problematizou todo o processo de modificação da cor da pele do artista. As pessoas não se cansaram de perguntar como um jovem negro poderia ter se tornado um homem branco. O mistério criado em torno da mudança da cor de sua pele rodeou todo o percurso pessoal e profissional de Michael Jackson. Independentemente dos motivos que levaram Michael Jackson a ficar com a pele clara, ele ficou marcado como a primeira celebridade que mudou a cor da própria pele.
Juntamente com as mudanças da cor da pele ocorreram transformações que tornaram o rosto de Michael Jackson mais magro, o nariz mais fino, de modo que os traços da afrodescendência já não faziam parte da aparência do ídolo. É como se o corpo daquele menino do passado tivesse adquirido uma nova roupagem com o passar dos anos.
Podemos lembrar um dos momentos em que o artista já apresentava transformações em seu corpo e mudanças na cor da sua pele. Foi no especial da Motown Records de 1983, do
qual Taraborrelli (2005) destaca:
[...] [Michael Jackson estava] mais magro, quase frágil. Seu nariz estava mais afilado e esculpido [...]. Seu novo rosto tinha sido habilidosamente melhorado: os olhos amendoados eram acentuados com um contorno de lápis preto e uma discreta aplicação de sombra nas pálpebras. As maçãs do rosto salientes tinham sido coloridas com uma levíssima camada de blush, e os lábios estavam cobertos com
uma mínima camada de gloss. Seu antigo cabelo afro tinha sido substituído por
ondas mais macias que adornavam seu rosto; na testa, duas mechas pequenas (TARABORRELLI, 2005, p. 236).
[...] O grego cria um mundo de beleza que, ao invés de expressar a verdade do mundo, é uma estratégia para que ela não ecloda. Produzir a beleza significa se enganar na aparência e ocultar a verdadeira realidade (MACHADO, 1999, p. 19).
Vale ressaltar que o artista se identificava com outra forma de utilização do corpo, não imposta até então. A busca pela perfeição fez que as mudanças de Jackson fossem ao encontro de uma nova fase de transformações, defendida da seguinte forma por Santaella (2003):
[...] A transformação na relação do artista com o corpo, não apenas o seu próprio corpo, mas o corpo em geral, começou a se insinuar com o advento das tecnologias computacionais, da engenharia molecular, da explosão das telerredes de informação e comunicação e das nanotecnologias. Essa transformação está sendo, e será provavelmente, muitíssimo mais impactante do que foi, no século XX, a autoapropriação pelo artista do seu corpo como sujeito e objeto da experiência estética (SANTAELLA, 2003, p. 272).
Rifkin (1999) também sustenta que as novas ferramentas da biologia estão abrindo
oportunidades para remodelar a vida sobre a Terra. Rifkin (1999, p. 231) diz que “a natureza não é mais vista como um conjunto de restrições, e sim como um processo de ‘avanço’ criativo”. Segundo ele:
A vida, há muito tida como um trabalho manual de Deus, mais recentemente vista
como um processo aleatório guiado pela ‘mão invisível’ da seleção natural, agora
está sendo reimaginada como um instrumento artístico de incontáveis possibilidades (RIFKIN, 1999, p. 235).
Não se sabe, ao certo, a quantos processos cirúrgicos Michael Jackson se submeteu; no entanto, aos poucos, o rosto e o corpo do artista foram se transformando. A cada aparição de Jackson, ele apresentava alguma mudança no rosto ou nos cabelos. De tempos em tempos, o artista passava por uma remodelagem estética na superfície do corpo.
As transformações do corpo do artista podem ser vistas como modificação do corpo em objeto. É um objetivo sustentado pelo homem pós-moderno: “Essas corridas por padrões
cada vez mais distantes e inatingíveis geram um imenso vazio, que potencializa a eterna
insatisfação do homem moderno” (WILTON, 2005, p. 75).
De tanto buscar por modificações, o homem contemporâneo se perde na procura pela perfeição, esquecendo que as transformações externas não mudarão o sujeito interiormente.
“O pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida e de filosofia nos quais viceja uma ideia tida como arquissinistra: o niilismo, o nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido
para a vida” (SANTOS, 2008, p. 10).
Schilder (1980) diz que:
Nos últimos anos de vida do cantor, foram tantas e tantas as transformações que, antes de falecer, Jackson – além da pele muito branca e pálida – tinha o rosto todo desfigurado e os cabelos muito lisos.
Suas transformações às vezes drásticas em matéria de imagem e estilo indicavam que a identidade é um construto, algo que, produzido por nós, pode ser modificado à vontade (KELLNER, 2001, p. 341).
Talvez uma das perdições de Michael Jackson tenha sido mesmo a busca constante pela mudança estética. O desequilíbrio emocional demonstrado em muitos episódios pelo ídolo pode ter relação com esta procura por um outro Michael Jackson, que se transformava por fora, mas que mantinha suas origens por dentro. Quem sabe os ideais da pós-modernidade sufocaram Michael Jackson e o trouxeram para um mundo sem limites, do qual ele foi um dos grandes representantes?
A trajetória de criação de vários personagens para a vida artística e de outros tantos para a vida pessoal fez de Michael Jackson um grande construtor de identidades. As mudanças contribuíram para que o artista se tornasse uma figura constantemente explorada pelos meios de comunicação. Estes, por sua vez, retrataram esta formação de personas que o
ídolo desenvolveu durante toda a sua vida. Mais adiante vamos demonstrar que o corpo multifacetado de Michael Jackson foi um dos fatores que mais somaram para que ele adquirisse poder.
2.3 O CORPO PERFORMÁTICO DE MICHAEL JACKSON
Se o mundo pós-moderno funciona em uma velocidade tremenda em relação às mudanças de comportamento e às transformações de estilo e corpo, por outro lado ele acompanha o que há de mais atual no mundo tecnológico. Os avanços tecnológicos desta época vão contribuir, e muito, para a carreira de Michael Jackson.
Michael utilizou os meios tecnológicos de comunicação para apresentar suas performances. Para este trabalho, entenderemos como performance5 o desempenho artístico