PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO:
UM OLHAR A PARTIR DE ESCOLAS MUNICIPAIS EM DUQUE DE CAXIAS, RJ.
MARCIO DOUGLAS FLORIANO
Rio de Janeiro, 19 de março de 2020.
MARCIO DOUGLAS FLORIANO
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para obtenção do grau de doutor em educação.
Orientador: Prof. Dr. Carlos Frederico Bernardo Loureiro
Rio de Janeiro, 19 de março de 2020.
EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO:
UM OLHAR A PARTIR DE ESCOLAS MUNICIPAIS EM DUQUE DE CAXIAS, RJ.
MARCIO DOUGLAS FLORIANO
Banca Examinadora
Prof. Dr. Carlos Frederico Bernardo Loureiro – Orientador Universidade Federal do Rio de Janeiro
Prof. Dr. Rodrigo de Azevedo Cruz Lamosa Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
______________________________________________________________
Prof. Dr. Bruno Gawryszewski Universidade Federal do Rio de Janeiro
______________________________________________________________
Profª. Drª. Cleonice Puggian Universidade do Estado do Rio de Janeiro
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Prof. Dr. Alexandre Maia do Bomfim
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro
Dedico mais essa conquista em minha vida às memórias de minha mãe, Vanda Maria dos Santos Floriano, e de minha irmã, Andréia dos Santos Floriano. A ausência de vocês ainda me causa um grande vazio, mas sei que se aqui estivessem, estariam cheias de orgulho de mim.
AGRADECIMENTOS
À Rose e Vinícius, minha família, meus companheiros, meus amores.
Ao Professor Carlos Frederico Loureiro (Fred), pessoa que aprendi a admirar para além de orientador, obrigado pela ajuda no amadurecimento teórico, pela amizade e pela compreensão a mim dispensadas nesses últimos anos.
A Rodrigo Lamosa, professor, vascaíno, companheiro e um amigo que acreditou em mim desde o início.
Aos Professores Alexandre Maia do Bomfim e Cleonice Puggiam por tão gentilmente terem aceitado participar da banca. Cada um dos dois, em momentos distintos, tiveram grande importância acadêmica e afetiva na minha trajetória.
Aos professores Vânia Motta e Celso Sanchez, por se disponibilizarem a ser suplentes em minha banca.
As companheiras do Centro de Pesquisa, Memória e História da Educação da Cidade de Duque de Caxias e Baixada Fluminense - CEPEMHEd
Aos companheiros do Laboratório de Investigação em Educação, Ambiente e Sociedade – LIEAS, com quem iniciei essa caminhada e aprendi muito. Nutro um carinho especial por todos vocês.
Aos meus companheiros e companheiras - professores e professoras – da Rede Municipal Duque de Caxias. É inexprimível a gratidão e o orgulho que sinto por merecer tanta confiança e acolhimento a minha pesquisa.
A todos do PPGE-UFRJ, professores e funcionários pelo incentivo e apoio nesses anos difíceis.
A todos os sujeitos de Duque de Caxias com quem travei contato por todos esses anos e continuarei convivendo: militantes da educação e das lutas pelas questões socioambientais.
E a todos aqueles que ousam sonhar e lutar todos os dias por uma educação que atenda aos interesses das classes populares.
LISTA DE SIGLAS
ANDE – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO
ANDES – SINDICATO NACIONAL DOS DOCENTES DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR
ANPEd – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO
APELL – ALERTA E PREPARAÇÃO PARA EMERGÊNCIA A NÍVEL LOCAL APELL-CE – APELL CAMPOS ELÍSEOS
APH - APARELHO PRIVADO DE HEGEMONIA APL – ARRANJO PRODUTIVO LOCAL
ASSECAMPA – ASSOCIAÇÃO DAS EMPRESAS DE CAMPOS ELÍSEOS
BIRD – BANCO INTERNACIONAL PARA RECONSTRUÇÃO E DESENVOLVIMENTO BM - BANCO MUNDIAL
BM – BANCO MUNDIAL BR – PETROBRAS
CCC – CONSELHO CONSULTIVO COMUNITÁRIO
CEPAL – COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE CEPE – CLUBE DOS EMPREGADOS DA PETROBRAS
CEPERJ – FUNDAÇÃO CENTRO ESTADUAL DE ESTATÍSRTICA, PESQUISA E FORMAÇÃO DE SERVIDORES PÚBLICOS DO RIO DE JANEIRO
CPB – CONFEDERAÇÃO DOS PROFESSORES DO BRASIL CUT – CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES
CUT – CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES
DEDS - DÉCADA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DIT – DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO
EA – EDUCAÇÃO AMBIENTAL
EAC – EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA
EDS - EDUCAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ERJ – ESTADO DO RIO DE JANEIRO
ESG – ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA ETP – EDUCAÇÃO PARA TODOS
FAETEC - FUNDAÇÃO ESTADUAL DE APOIO À ESCOLA TÉCNICA
FAPP-BG - FÓRUM DOS ATINGIDOS PELA INDÚSTRIA DO PETRÓLEO E PETROQUÍMICA NAS CERCANIAS DA BAIA DE GUANABARA
FFP-UERJ – FACULDADE DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES – UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
FHC – FERNANDO HENRIQUE CARDOSO FMI - FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL
FNEDP – FORÚM NACIONAL DE DEFESA DA ESCOLA PÚBLICA FUNABEM – FUNDAÇÃO NACIONAL DO BEM-ESTAR DO MENOR
FUNDEC - FUNDAÇÃO DE APOIO À ESCOLA TÉCNICA, CIÊNCIA, TECNOLOGIA, ESPORTE, LAZER, CULTURA E POLÍTICAS SOCIAIS DE DUQUE DE CAXIAS
FUSUBRA - FEDERAÇÃO DOS SINDICATOS DOS TRABALHADORES DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS
GIFE – GRUPO DE INSTITUTOS, FUNDAÇÕES E EMPRESAS IBAD – INSTITUTO BRASILEIRO DE AÇÃO DEMOCRÁTICA IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA IDEB – ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO DO ENSINO BÁSICO IL – INSTITUTO LIBERAL
INEA – INSTITUTO ESTADUAL DO AMBIENTE
IPES - INSTITUTO DE PESQUISAS E ESTUDOS SOCIAIS ISP – INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO
JK – JUSCELINO KUBTICHECK
LIEAS – LABORATÓRIO DE INVESTIGAÇÃO EM EDUCAÇÃO, AMBIENTE E SOCIEDADE
MEC – MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA MPC – MODE DE PRODUÇÃO CAPITALISTA
MST – MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRAS NPH – NOVA PEDAGOGIA DA HEGEMONIA
OCDE – ORGANIZAÇÃO PARA COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ONG – ORGANIZAÇÃO NÃO GOVERNAMENTAL
ONU - ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS OS – ORGANIZAÇÃO SOCIAL
OSCIPS – ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL DE INTERESSE PÚBLICO PAM-CE – PLANO DE AJUDA MÚTIA DE CAMPOS ELÍSEOS
PDE – PLANO DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO
PLANGAS – PLANO NACIONAL DE ANTECIPAÇÃO DA PRODUÇÃO DE GÁS PME – PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO
PMEA – POLÍTICA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL PNE – PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO
PPDC – POLO PETROQUÍMICO DE DUQUE DE CAXIAS
PPGE-UFRJ – PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
PPP – PARCERIA PÚBLICO PRIVADA
PPSA – PROGRAMA PETROBRAS SOCIOAMBIENTAL
PROFEC – PROGAMA DE FORMAÇÃO E EDUCAÇÃO COMUNITÁRIA PSDB – PARTIDO DA SOCIAL DEMOCRACIA BRASILEIRA
PT – PARTIDO DOS TRABALHADORES REDUC – REFINARIA DUQUE DE CAXIAS
RMRJ – REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO
SEBRAE – RJ – SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO AS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS – RJ
SEMIJAIRE - SEMINÁRIO JUSTIÇA AMBIENTAL, IGUALDADE RACIAL E EDUCAÇÃO
SESC – SERVIÇO SOCIAL DO COMERCIO SESI – SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA
SITICOM - SINDICATO DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL, MONTAGEM INDUSTRIAL, MOBILIÁRIO, MÁRMORE E GRANITO E DO VIME DE DUQUE DE CAXIAS, SÃO JOÃO DE MERITI, NILÓPOLIS, MAGÉ E GUAPIMIRIM
SMA – SECRETARIA MUNICIPAL DO AMBIENTE SME – SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO ST - SEGURANÇA DO TRABALHO
SVAC – SERVIDORES, VOLUNTÁRIOS E AMIGOS DA COMUNIDADE TKCSA – CIA SIDERÚRGICA DO ATLÂNTICO.
UBRAPA - UNIÃO DOS BRIGADISTAS E RESGATISTAS AMBIENTAIS DO PROCESSO APELL DE DUQUE DE CAXIAS
UERJ – UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
UNESCO - ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA
UNICIRCO – UNIVERSIDADE LIVRE DO CIRCO UNIGRANRIO - UNIVERSIDADE DO GRANDE RIO
LISTA DE FIGURAS DE FIGURAS
Figura 1: Região Metropolitana do Rio de Janeiro ... 80
Figura 2: Antigos Municípios da Baixada Fluminense ... 81
Figura 3: Distritos de Duque de Caxias ... 82
Figura 4: Zoneamento Urbano de Duque de Caxias ... 83
Figura 5: REDUC_Visão Panorâmica ... 86
Figura 6: REDUC_Localização Estratégica. ... 87
Figura 7: Localização das empresas em Campos Elíseos ... 88
Figura 8: Comunidades do Entorno do PPDC ... 100
Figura 9: localização da unidades escolares estudadas ... 145
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Participação de municípios no PIB Estadual - 2016 ... 84
Quadro 2: Participação comparada dos municípios no PIB Estadual entre 2015-2016 ... 84
Quadro 3: Programa Petrobras Desenvolvimento e Cidadania ... 114
Quadro 4: Integração Petrobras Comunidades ... 115
Quadro 5: Programa Petrobras Ambiental ... 115-114 Quadro 6: Programa Petrobrás Esporte e Cidadania / Esporte Educacional ... 115
Quadro 7: Programa Petrobras Socioambiental ... 115
Quadro 8: Programa Integração Petrobras Comunidade, Duque de Caxias, 2014-2015 ... 116
Quadro 9: Concepções de educação ambiental ... 136-135 Quadro 10: Projetos desenvolvidos nas escolas investigadas ... 143
RESUMO
FLORIANO, Marcio Douglas. Educação, Educação Ambiental e Investimento Social Privado: Um olhar a partir de escolas municipais de Duque de Caxias, RJ. Rio de Janeiro, 2020. 280 p. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.
A tese apresenta uma investigação sobre a entrada dos projetos de educação e educação ambiental das empresas do polo petroquímico de Campos Elíseos – capitaneadas pela Refinaria Duque de Caxias (REDUC) -, Duque de Caxias, RJ, em escolas municipais do entorno. A crise estrutural que assola o capitalismo desde o final da década de 1960 engendra um movimento de reação das classes dominantes em busca da recomposição do seu padrão de acumulação. Sob hegemonia da fração financeira do capital, as classes dominantes operam uma contrarreforma, que reconfigura as funções do Estado, redefine as relações capital- trabalho e busca educar um consenso, no seio das classes trabalhadoras, em torno dessas novas sociabilidades. É nesse contexto que as empresas vêm buscando “humanizar” sua relação com a população de seu entorno, a partir do Investimento Social Privado (ISP). A pesquisa buscou averiguar como as ações de ISP de três empresas do polo, desenvolvidas em sete escolas municipais da região de Campos Elíseos, colaboram para a criação de um consenso em torno das atividades do polo petroquímico. A partir de um referencial teórico que se baseia no materialismo histórico, nas formulações de Gramsci e na educação ambiental crítica, utilizamos uma metodologia qualitativa, com a triangulação entre a análise documental, a observação participante e as entrevistas semiestruturadas com professores das escolas. Concluímos que o ISP das empresas em Campos Elíseos tem uma dupla determinação: a) projetos de educação e educação ambiental desenvolvidos nas escolas que consolidam uma “pedagogia do mercado”, que se consubstancia na precarização do trabalho docente e na construção de uma educação utilitarista que promove a formação de mão de obra para o trabalho simples e a conformação dos alunos com suas condições subalternas, compondo um “exército industrial da reserva” e b) tais projetos não atendem as demandas geradoras de conflitos socioambientais na região, uma vez que, objetivam produzir uma pedagogia que permita que as relações das empresas com as comunidades excedam a esfera da coerção (explicitada na chantagem do desemprego e da falta do salário) e se ancorem na conformação engendrada nas novas sociabilidades do capital.
Palavras-Chave: Educação, Educação Ambiental, ISP, pedagogia do mercado, consenso.
ABSTRACT
FLORIANO, Marcio Douglas. Education, Environmental Education and Private Social Investment: A look from municipal schools in Duque de Caxias, RJ. Rio de Janeiro, 2020.
280 p. Thesis (PhD in Education). Federal University of Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.
The thesis presents an investigation on the entry of education and environmental education projects of the companies of the petrochemical pole of Campos Elíseos - led by the Duque de Caxias Refinery (REDUC) -, Duque de Caxias, RJ, in surrounding municipal schools. The structural crisis that has plagued capitalism since the late 1960s engenders a reaction movement by the dominant classes in search of the recomposition of their accumulation pattern. Under the hegemony of the financial fraction of capital, the dominant classes operate a counter-reform, which reconfigures the functions of the State, redefines capital-labor relations and seeks to educate a consensus, within the working classes, around these new sociability. It is in this context that companies have been seeking to “humanize” their relationship with the surrounding population, based on Private Social Investment (ISP). The research sought to find out how the ISP actions of three polo companies, developed in seven municipal schools in the Campos Elíseos region, collaborate to create a consensus around the activities of the petrochemical complex. Based on a theoretical framework that is based on historical materialism, on Gramsci's formulations and on critical environmental education, we use a qualitative methodology, with the triangulation between document analysis, participant observation and semi-structured interviews with school teachers. We conclude that the ISP of the companies in Campos Elíseos has a double determination: a) education and environmental education projects developed in schools that consolidate a “market pedagogy”, which constitutes the precariousness of teaching work and the construction of utilitarian education that promotes the training of manpower for simple work and the conformation of students with their subordinate conditions, composing an “industrial reserve army” and b) such projects do not meet the demands that generate socio-environmental conflicts in the region, since they aim to produce a pedagogy that allows business relations with communities to go beyond the sphere of coercion (spelled out in the blackmail of unemployment and lack of wages) and anchor in the conformation engendered in the new sociability of capital.
Keywords: Education, Environmental Education, ISP, market pedagogy, consensus.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 13
APRESENTAÇÃO E TRAJETÓRIA ... 13
Objeto, Objetivos, Hipótese e Quadro Teórico da Pesquisa ... 18
Aspectos Epistêmicos e Ontológicos da Educação e da Educação Ambiental ... 27
Relevância da Pesquisa ... 30
Procedimentos Metodológicos ... 31
Organização Geral da Tese... 37
1 DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA, CRISE E RECOMPOSIÇÃO DA SOCIABILIDADE BURGUESA ... 39
1.1 Discutindo o modelo de desenvolvimento a partir da perspectiva ambiental ... 40
1.2 A crise estrutural do modo de produção capitalista e a tentativa de recomposição burguesa ... 48
1.2.1 A lógica neoliberal e a recomposição burguesa no Brasil ... 57
1.2.2 O Social-Liberalismo e a “humanização do capitalismo” ... 61
1.3 O Investimento Social Privado: a face mais “humana” do capital no Brasil ... 68
2 INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO EM DUQUE DE CAXIAS: A CONSTRUÇÃO DO CONSENSO ... 78
2.1 Duque de Caxias, um município eivado de contradições e desigualdades ... 78
2.1.1 A Reduc ... 85
2.2 O Investimento Social Privado (ISP): educando o consenso em Campos Elíseos ... 93
2.2.1 A Assecampe ... 96
2.2.2 O Apell-Ce ... 100
2.2.3 Braskem e Arlanxeo ... 106
2.2.4 O Programa Petrobras Socioambiental (PPSA) ... 112
CAPÍTULO 3 - EDUCAÇÃO EM DUQUE DE CAXIAS: A CONSTANTE DISPUTA PELA ESCOLA ... 124
3.1 Documentos da Educação ambiental em Duque de Caxias ... 133
3.1.1 A Política Municipal de Educação Ambiental... 136 3.1.2 O Plano Municipal de Educação... 137 3.2 A chegada as unidades escolares... 140
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 178 REFERÊNCIAS ... 189 APÊNDICE - PROJETOS SELECIONADOS PELOS EDITAIS DO PPSA EM 2018 NO RIO DE JANEIRO... 196
INTRODUÇÃO
APRESENTAÇÃO E TRAJETÓRIA
A tese que apresento é o momento de convergência de minhas atividades docentes em dois importantes municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro: São Gonçalo e Duque de Caxias. Entre 1992 e 1995 obtive minha graduação de licenciado em geografia na Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP- UERJ). Oriundo de comunidade na zona norte do Rio de Janeiro, bairro de Cordovil, bem próximo a um dos limites do Rio de Janeiro com o município de Duque de Caxias, travava contato com toda a precariedade que uma região periférica de um grande centro urbano como o Rio de Janeiro pode suportar. Havia enorme dificuldade de transporte público, acesso a água, educação pública e acesso a saúde básica, que buscávamos em outros bairros da cidade.
Ao ingressar na FFP-UERJ, me surpreendi com a falta de estrutura de uma unidade que havia sido encampada pela UERJ havia apenas dois anos e que passava por período de transição, uma vez que, abrigara um centro de formação de professores com licenciaturas curtas. Porém, a competência e dedicação da maioria dos professores amenizava tal situação, que foi melhorando aos poucos. Outro aspecto surpreendente para mim, embora estivesse habituado com a rotina de viver em um bairro periférico, foi a debilidade das condições de existência da maioria da população que vivia no entorno da faculdade. Só então me dei conta que estava estudando em um município com todas as características de uma periferia de grande centro urbano. Além disso, São Gonçalo abriga a segunda maior população do estado e todos os problemas estruturais advindos de uma ocupação acelerada e desordenada, que atendeu a interesses das classes dominantes sobre o espaço do Rio de Janeiro. Com minha iniciação nos estudos da geografia, sobretudo a geografia urbana, fiquei bastante impactado com a perversa ocupação do espaço no município.
Antes mesmo de me formar, em 1994, iniciei minhas atividades no magistério em uma escola particular de São Gonçalo, Porto da Pedra, bairro que na época abrigava uma população bastante carente. Tratava-se de uma pequena escola, com poucas turmas, formadas por alunos cujas famílias tinham dificuldades para mantê-los na escola particular e eu lecionava geografia para as (então) 6ª e 7ª séries. Nessa primeira experiência me chamou muito atenção o fato de a maioria daquelas famílias não encontrarem vagas na rede pública municipal, ou quando encontraram, ser muito longe de suas casas. Outro aspecto intrigante, era o fato de haver regiões do bairro e do município como um todo, onde simplesmente não
existia escola pública municipal. Ou seja, havia uma predominância de oferta privada de educação. Esse aspecto em particular me fez refletir sobre a natureza da educação pública e, principalmente, sobre os interesses que estão inseridos nas políticas de educação pública no Brasil.
Em 1996, já formado, ingressei no magistério público, no Centro de Educação Integral (CEI), um conjunto de escolas que até então pertenciam ao Governo Federal (antiga Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor [FUNABEM]), situado no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro. A instituição foi encampada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e em 1997 se transformou na sede da Fundação Estadual de Apoio à Escola Técnica (FAETEC), a qual estou vinculado até hoje, mas na unidade de Santa Cruz. Nas escolas da FAETEC tive contato com uma outra vertente da educação, que permeia a tese em vários momentos, que é Trabalho e Educação. Minha experiência como professor nesse âmbito me fez atentar para a dualidade da escola brasileira. As escolas técnicas e a FAETEC, de forma geral, são parte de um projeto neoliberal que visa (e tem conseguido) colocar a educação pública a serviço do mercado, com formação sistemática de uma mão de obra cada vez menos crítica e mais flexível, além de um estímulo explícito a uma "pedagogia do mercado", que em vários momentos a presente tese explora criticamente. Essa experiência, sem dúvida, tem sido importante para minha prática como professor, tanto no ensino médio, quanto no fundamental, já que me impele a atuar criticamente contra a alienação e a instrumentalização do trabalho do professor.
Em 1999 ingressei no magistério municipal de São Gonçalo, o que me levou a deixar o magistério particular no município. Iniciei em fevereiro daquele ano e trabalhei até maio de 2000. Já com alguma vivência no magistério e com uma visão mais crítica da educação, fui lotado em uma escola noturna, bem próxima do centro do município e ao lado da Secretaria Municipal de Educação, onde lecionava para, em sua maioria, jovens trabalhadores e trabalhadores mais maduros que estavam retomando os estudos. Foi uma experiência muito importante na minha formação como educador. Pude conhecer efetivamente as questões da classe trabalhadora do município e entender como uma educação crítica e emancipadora pode fazer a diferença na vida das classes consideradas subalternas. Muito da minha formação de educador crítico devo a essa passagem pela escola pública em São Gonçalo. Mas, a aprovação em outro concurso me levou para Duque de Caxias, onde tomei posse em junho de 2000 e estou até os dias atuais.
Ao ingressar nos quadros da Secretaria Municipal de Educação daquele município, em julho do ano 2000, passei a vivenciar as dificuldades e angústias diárias de meus alunos e suas famílias na luta pela existência em um espaço de profundas desigualdades. Inicialmente
lecionei em uma escola no distrito central do município (primeiro distrito), no bairro Parque Lafaiete. A escola tinha um perfil bastante diferente da escola na qual lecionava em São Gonçalo. Trabalhava no primeiro turno, com alunos em idade normal de escolaridade. O centro de Duque de Caxias tem características bastante semelhantes aos bairros do Rio de Janeiro (até mesmo devido à proximidade). Com uma ocupação desordenada e caótica, o espaço central do município abriga diversas comunidades dominadas por facções criminosas (naquela época, hoje há também a presença de milícias) e isso, de certa forma, impactava a rotina da escola. A escola também ostenta uma posição de certa importância política na rede municipal, o que era percebido na boa estrutura física e no fato de a escola sediar reuniões da SME e cursos de formação continuada para profissionais da rede. Ali tive meu primeiro contato com os colegas do município e pude perceber, e me incomodar sobremaneira, com as precárias condições de existência dos alunos atendidos pelo município.
Em 2006, devido a uma reformulação na oferta de vagas pela escola (aumentou o 1º segmento em detrimento do 2º), transferi-me para uma escola no segundo distrito (Campos Elíseos), que tem como peculiaridade e existência do Polo Petroquímico de Duque de Caxias (PPDC), zona industrial, ligada ao setor petroquímico cuja implantação remonta ao início da década de 1960. A partir de então, minha formação de professor de geografia me levou a observar e analisar de forma mais aprofundada a dinâmica espacial daquele local e, principalmente, as condições de existência (por vezes de sobrevivência) dos alunos e suas famílias. Impossível não me mobilizar para conhecer melhor a realidade desses alunos, pois acredito numa educação mediada pela realidade e que colabore para transformá-la.
Impulsionado pelo desejo de entender a complexa realidade socioambiental de Campos Elíseos e motivado a construir uma práxis educativa que dotasse os alunos de uma postura questionadora e de uma vontade coletiva de transformação, ingressei no Mestrado em Ensino de Ciências do Instituto Federal do Rio de Janeiro, em 2009, voltado para a educação ambiental. Tal instituição fica situada no município de Nilópolis, também na Baixada Fluminense, e me pareceu ideal para desenvolver estudos sobre a região e sobre Duque de Caxias. No mestrado pude travar meus primeiros contatos com a, até então desconhecida para mim, educação ambiental crítica1. Nesse momento conheci, de forma entusiasmada, as formulações de autores como Carlos Frederico Loureiro e Philippe P. Layrargues, dentre outros, que me trouxeram outra forma de ver a educação e a educação ambiental, com uma perspectiva crítico-transformadora que veio ao encontro dos meus objetivos e das minhas
1 Filiado à linha de pesquisa Educação Ambiental, conhecei o Prof. Dr. Alexandre Maia do Bomfim, que viria a ser meu orientador, e atuei no Grupo de Pesquisa Trabalho, Educação e Educação Ambiental (GPTEEA).
ansiedades para atuar como um educador ambiental junto aos meus alunos.
Como objeto de pesquisa elegi a escola em que trabalhava, em Campos Elíseos, sobretudo, o aspecto socioambiental. Desenvolvi, com uma metodologia participativa, baseada em entrevistas, questionários e pesquisas de campo, que me colocava junto aos alunos e seus familiares na construção de conhecimentos críticos sobre sua realidade socioambiental. A pesquisa produziu a dissertação “Educação e Meio Ambiente na Baixada Fluminense: Uma Proposta De Educação Ambiental Crítica Numa Escola Municipal Em Duque De Caxias – RJ”, que defendi em outubro de 2011. Foi no processo de pesquisa para a dissertação que surgiram os primeiros indícios daquilo que viria a ser minha proposta de pesquisa no doutorado. Pude perceber na ocasião, que havia em todo entorno do PPDC, toda uma “aura” de conformidade e consenso, tanto com os efeitos da atividade industrial sobre o ambiente (corpos hídricos, bacia aérea e outros), quanto com as condições socioeconômicas da maioria da população. As entrevistas junto aos familiares dos alunos evidenciaram o quanto, ao longo da história, as condições de vida das famílias foram se deteriorando simultaneamente à degradação ambiental. Outro aspecto importante da pesquisa foi a percepção de vários projetos ligados às empresas, sob a rubrica de “responsabilidade social” e
“educação ambiental”, que eram desenvolvidos nas escolas e nas comunidades com a participação de pais e alunos. Assim, no final da pesquisa, algumas questões foram suscitadas e apontaram para o trabalho no doutorado: a) como os projetos das empresas estavam se inserindo nas escolas públicas da região?; b) quais os reais interesses das empresas com tais projetos? e c) como os professores veem esses projetos do ponto de vista da autonomia das escolas e da precarização do trabalho docente?
Entre os anos de 2012 e 2015, impulsionado e motivado por tais questionamentos, procurei me aprofundar nas questões relativas à educação ambiental, ao mesmo tempo em que fazia uma aproximação (ainda que não de forma institucional) com os trabalhos do Laboratório de Investigação em Educação, Ambiente e Sociedade (LIEAS/PPGE/UFRJ), importante e histórico grupo de pesquisas coordenado pelo Professor Carlos Frederico Bernardo Loureiro, que inclusive participou de minha banca de mestrado, quando me incentivou a acompanhar os trabalhos do LIEAS. Os trabalhos publicados por diversos membros do LIEAS em revistas, anais de eventos acadêmicos, encontros, simpósios e outros, foram fundamentais para meu amadurecimento teórico e meu encontro definitivo com o campo da educação ambiental crítica
Destaco também, nos anos de 2013 e 2014, minha participação no Programa Elos de Cidadania: Educação Ambiental para a gestão participativa e integrada de águas e florestas da
mata atlântica. Tal programa foi desenvolvido a partir de parceria da Secretaria de Estado e Ambiente (Superintendência de Educação Ambiental) com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, executora das ações. Recebi convite para participar do Elos da Cidadania pelo Professor Carlos Frederico B. Loureiro, um dos coordenadores. O programa tinha como objetivo contribuir no desenvolvimento e fortalecimento de processos coletivos nas escolas, visando munir a comunidade para a participação da gestão ambiental no entorno das unidades escolares, sobretudo para o enfrentamento de vulnerabilidades socioambientais. Minha participação como “orientador de elo” me trouxe bastante amadurecimento como educador ambiental, na medida em que possibilitou-me estabelecer contatos com comunidades com graves questões socioambientais, no bairro de Santa Cruz, Rio de Janeiro, além de desenvolver e coordenar várias atividades nas escolas que envolveram seus diversos atores.
Esse momento foi importante na construção daquilo que viria a ser meu objeto no doutorado, já que me possibilitou trabalhar com comunidades afetadas sobremaneira pelas atividades de uma grande empresa, nesse caso a Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA).
Finalizando esse breve relato de minha trajetória como educador e educador ambiental, que me conduziu ao objeto da tese aqui apresentada, destaco que o período compreendido entre 2012 e 2015 configurou-se para mim como de “imersão” no cenário socioambiental na Baixada Fluminense e, mormente, em Duque de Caxias. Embora tenha sido morador da região por um breve período de minha infância, já que minha mãe passou longo período de sua vida em Nova Iguaçu, hoje não resido da região. Porém, habitante de um bairro da zona norte do Rio de Janeiro, que compõe a franja da cidade fronteiriça com a Baixada – Cordovil – fui criado às margens da Avenida Brasil, de onde saí apenas em 2007.
Assim, minha infância, adolescência e até boa parte de minha vida adulta se passaram com uma ligação muito forte com Duque de Caxias. Na década de 1970, alguns acidentes na REDUC fizeram tremer nossas paredes como um “terremoto” durante a madrugada, além do número substancial de moscas e do mau cheiro suscitados pelo “lixão de Gramacho”, que se configurava como uma montanha de lixo em frente à janela de nossa casa. Enfim, toda essa ligação me motivou a ingressar no magistério do município onde estou até hoje.
No período citado, participei, juntamente com moradores da região, professores da rede municipal, militantes dos movimentos sociais, pescadores, professores universitários, associações de moradores e outros, das primeiras reuniões do Fórum dos atingidos pela indústria do petróleo e petroquímica nas cercanias da Baia de Guanabara – FAPP-GB. O objetivo inicial (aos quais se incorporaram outros ao longo do tempo) do FAPP-BG era construir, a partir da organização coletiva dos atingidos, processos que desembocassem no
controle social das atividades industriais e na promoção da justiça ambiental. A vivência com tão rica gama de atores, me proporcionou um conhecimento mais aprofundado das questões socioambientais do município como um todo, e da região de Campos Elíseos, onde estão a escola que leciono e as escolas que compõem a pesquisa. Desvelaram-se para mim as relações sociais de produção que estão na origem das injustiças e dos conflitos socioambientais que tanto atingem meus alunos. Ali pude vivenciar o real significado da ecologia política, a partir da perspectiva das comunidades atingidas pelo modelo de desenvolvimento vigente. O Fórum continua a existir e se converte em um espaço de militância, denúncia e práxis cidadã diante da hegemonia do capital petroleiro que se impõe na região.
A partir do FAPP-BG também pude conhecer o trabalho de líderes comunitários, militantes históricos pela vida com dignidade na Baixada e até de professores que, mesmo diante das limitações que a institucionalidade impõe, colaboram dando visibilidade aos movimentos que as comunidades fazem no enfrentamento das injustiças socioambientais.
Nessa perspectiva, participei em algumas edições do Seminário Justiça Ambiental, Igualdade Racial e Educação (SEMIJAIRE), esse evento, promovido pela Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO), sediada em Duque de Caxias, foi (e tem sido) de suma importância para o conhecimento das questões socioambientais e de educação no município. Sua abertura à apresentação de trabalhos oriundos dos diversos atores socioambientais (movimentos sociais, pesquisadores acadêmicos, professores do ensino básico, alunos de graduação e pós- graduação, estado stricto, ONGs e outros), o torna referência incontestável para conhecer o cenário socioambiental da Região Metropolitana, da Baixada Fluminense e, principalmente, de Duque de Caxias.
Assim, seguindo a trajetória descrita até aqui, ingressei no doutorado do PPGE-UFRJ no primeiro semestre de 2016, com a proposta de investigar as relações entre educação e ambiente em um contexto de injustiças ambientais suscitado pelas atividades de um polo industrial, em Duque de Caxias. Meus estudos preliminares demostravam que as empresas do PPDC desenvolviam uma gama considerável de atividades nas (ou com as) escolas da região.
Então, tentando responder às questões expostas no início desta apresentação, prossegui com o trabalho que agora exibo.
Objeto, Objetivos, Hipótese e Quadro Teórico da Pesquisa
A presente tese teve como objeto a atuação das empresarial no projeto de conformação social praticado pelas classes dominantes nas primeiras décadas do século XXI.
No âmbito empírico analisamos os projetos de educação ambiental de empresas que formam o PPDC, principalmente aqueles desenvolvidos em escolas públicas municipais do distrito de Campos Elíseos, Duque de Caxias, RJ.
Com relação ao objetivo geral, a pesquisa visou analisar o processo de inserção dos projetos de investimento social privado e educação ambiental em escolas públicas do entorno do PPDC.
Como objetivos específicos adotamos:
a) Investigar os programas de Investimento Social Privado e Educação Ambiental das empresas do polo petroquímico;
b) Verificar se a inserção de projetos empresariais colabora na precarização da escola e do trabalho docente.
c) Apurar se a prática da educação ambiental no interior de escolas municipais do entorno do PPDC colabora no enfrentamento das questões socioambientais da região
A pesquisa partiu da hipótese de que existe um arranjo de consenso no entorno do PPDC, onde as empresas (a despeito de toda a precariedade das condições de existência da maioria da população de seu entorno) operando nas comunidades e, principalmente, dentro das escolas com seus projetos de Investimento Social Privado, forjaram uma postura de consentimento entre a maior parte da população.
O quadro teórico pelo qual orientamos a pesquisa ancorou-se no materialismo histórico-dialético. A materialidade atual das relações de produção capitalista, consubstanciada por uma miríade de políticas de cunho neoliberal em diversos aspectos da sociedade como a educação, reafirma a relevância desse instrumental teórico para a leitura e transformação da realidade. Perpassam todo o horizonte teórico da pesquisa as formulações do marxista italiano Antônio Gramsci. Suas concepções a respeito do Estado Integral ou Estado Ampliado, que abarca uma relação dialética, indissociável e inequívoca entre Estado restrito e sociedade civil (BUCI-GLUCKSMANN, 1980), tornaram-se centrais em nossa análise, uma vez que auxiliam no entendimento das relações sociais de produção que redundam na vulnerabilização socioambiental das classes consideradas subalternas em Duque de Caxias. Embora tenhamos exposto aqui as linhas gerais de nosso horizonte teórico, optamos por apresentar no início de cada capítulo a fundamentação teórica que o balizará.
Avançando nas formulações de Marx2 Gramsci afirma que o Estado não era impermeável às lutas de classes, mas era perpassado por elas. O autor percebe que o Estado
2 Importante lembrar que Marx formulava sobre um Estado “oitocentista”, quando as chamadas classes subalternas viviam sob o pesado julgo do aparelho de coerção do Estado stricto senso (LIGUORI, 2007).
ampliou sua ação em questões relativas à manutenção do poder, abarcando a sociedade civil, aqui entendida como um conjunto de organizações privadas. Gramsci utilizava o termo
“Estado Integral” para se referir a essa relação dialética, orgânica e indissociável entre o Estado no sentido literal, stricto e as “organizações privadas” da sociedade civil.
O Estado integral pressupõe a tomada em consideração do conjunto dos meios de direção intelectual e moral de uma classe sobre a sociedade, a maneira como ela poderá realizar sua “hegemonia”, ainda que a preço de “equilíbrio de compromisso”, para salvaguardar seu próprio poder político, particularmente ameaçado em períodos de crise (BUCI-GLUKSMANN, 1980, p. 128-129).
Gramsci, assim, enriquece os pressupostos sobre o Estado de Marx, Engels e Lênin, acrescentando novos elementos. Para o autor, a superestrutura é composta por sociedade civil e sociedade política, e conhecer as relações entre essas duas esferas – sem considerá-las de forma estanque – é o caminho para a transformação do Estado em favor das classes subalternas. Transformação essa que é alcançada, indiscutivelmente, pela revolução comanda pelas classes subalternas, as quais tomariam o controle do Estado e dos meios de produção. É fundamental, nesse sentido, considerar que a sociedade civil é um espaço de disputa e não de harmonia.
(...) Em outros termos, a sociedade civil compreende o conjunto das relações sociais que engloba o devir concreto da vida cotidiana, da vida em sociedade, o emaranhado de instituições, ideologias, projetos e interesses de classe distintos e, portanto, espaços de disputa pela hegemonia (SIMIONATTO, 2011 p. 71).
É na sociedade civil que se conquista a hegemonia. Para Gramsci, as classes subalternas têm que disputar o domínio intelectual e moral da sociedade dentro da sociedade civil, num processo de luta pela conquista do domínio político-ideológico e do consenso de grande parte do grupo social (BUCI-GLUKSMANN, 1980). Assim, conquistar a hegemonia significa provocar uma crise de domínio na classe oponente. Significa que a classe ou fração da classe perdeu a capacidade de manter o consenso sobre toda a sociedade.
É nesse sentido que o projeto de construção do consenso analisado no decorrer da pesquisa, baseia-se em um arranjo que rejeita o conflito e se apega a um falso consenso. Tal consenso, alardeado pelo discurso das classes dominantes, é artificial e escamoteador, uma vez que, o conflito é estrutural em uma sociedade de classes, na qual os interesses de um grupo sempre se locupletarão em detrimento da deterioração das condições de existência de outros grupos.
Tal concepção se ancora na responsabilização individual pelos danos ambientais, na ineficiência do Estado, enquanto mediador das relações socioeconômicas e na
supervalorização da sociedade civil, enquanto espaço neutro e harmônico, único capaz de promover inclusão social e sustentabilidade ambiental. É o que Serrão e Loureiro (2011) denominam “A nova sociabilidade da terceira via”, nesse aspecto também se mostraram importantes as contribuições de Lamosa (2010) e Neves (2005). A materialização de políticas neoliberais em diversos países entre a década de 1970 e o início da década de 1990, além de não surtir plenamente os efeitos desejados, alimentou uma série de tensões e enfrentamentos a partir das classes subalternas e até mesmo em frações das classes dominantes. Diante desse quadro caótico, suscitado pela incapacidade das políticas neoliberais de resgatar seu nível de acumulação, as classes dominantes estabeleceram e operam atualmente aquilo que Castelo (2013) nomeia de Social liberalismo. Embora suscetível a algumas variações, de forma geral, o social liberalismo foi pensado para “corrigir” os rumos do chamado neoliberalismo puro3.
Esse novo arranjo implementou um controle da força de trabalho, bem como um controle social, evitando os “focos de tensão” gerados pelo neoliberalismo puro. O Estado, nesse modelo, não seria desidratado, mas sim operaria nos marcos do neoliberalismo ao mesmo tempo em que legitimaria o bloco histórico vigente e conservaria a sua hegemonia.
Contudo, tal processo de refuncionalização da sociedade civil é marcado por contradições internas, com intelectuais liberais teorizando sobre a “importância do assistencialismo”
praticado pelo capital e estimulando a ação filantrópica e a responsabilidade social do capital e com ex-marxistas formulando sobre a importância do “terceiro setor” ou da economia solidária, num evidente processo de transformismo (CASTELO, 2013).
Essas novas sociabilidades lançam mão da chamada Nova Pedagogia da Hegemonia, isto é, uma reorientação da política, orquestrada pelo capital nacional e internacional a partir dos anos de 1990. Vários movimentos caracterizam tal metamorfose, dentre eles a formação de “novos cidadãos”, lastreados pelo individualismo, empreendedorismo, voluntarismo e a cooptação dos movimentos sociais. Em Campos Elíseos, tal aspecto está relacionado às atividades de responsabilidade social e educação ambiental das empresas no interior das escolas ou em atividades que envolvem diretamente a comunidade escolar, mesmo quando utilizam outros espaços. Portanto, autores como Neves (2005, 2010); Lamosa (2014); Martins (2007; 2009) e Leher (2010; 2015), foram fundamentais na análise das ações das empresas ligadas à REDUC na ou com a escola, já que ajudaram a desvelar os reais objetivos das empresas com esse movimento de entrada nas escolas.
3 O neoliberalismo puro, mais alinhado as formulações de Mont Pélerin, argumentava que as desigualdades sociais eram saudáveis e necessárias para a boa dinâmica do capitalismo. Já o social-liberalismo advogava (com um verniz “humanista”) que a acumulação dos ricos forma uma poupança e essa “gotejaria” sobre as classes subalternas na forma de investimentos, assistencialismos e atenção à “questão social” (CASTELO, 2013).
O referencial teórico relativo à Educação Ambiental Crítica (EAC) que pensa o entorno da escola como campo de construção de uma atuação questionadora e participativa dos alunos na gestão ambiental de seu território e que ajuíza a educação enquanto dimensão radical na busca por uma outra hegemonia, configurou-se em parte determinante de nosso trabalho. Nesse sentido, o texto de Loureiro (2008) foi fundamental. Superar abordagens ingênuas4 e apropriadas por interesses das classes dominantes (ou frações dessa classe), não é tarefa trivial. Nas entrevistas realizadas com profissionais da educação para a confecção do presente trabalho, constatamos que a imersão dos professores em um cotidiano de precarização da escola e do trabalho docente os expõe diariamente a propostas de educação ambiental exóticas, sobretudo as formuladas por empresas, institutos, ONGs e órgãos do Estado restrito. Essa redução da educação ambiental a aspectos “gestionário e comportamentais” (LOUREIRO, 2008, p.13), atende a uma tentativa de escamotear as relações de produção vigentes. Para tanto, apela a uma despolitização da educação ambiental, uma epistemologia superficialista e que, ainda segundo Loureiro, não se relaciona com a teoria social crítica (LOUREIRO, 2008).
Sabe-se, contudo, que a EAC não é hegemônica. Atualmente as concepções de educação ambiental de cunho conservacionista e ecoeficiente (LOUREIRO; BARBOSA;
ZBOROWSKI, 2009) se mostram alinhadas com o modelo de produção vigente, posto que, tais abordagens não considerarem as contradições de tal modelo. A alienação do trabalhador, a expropriação de parte da população e a apropriação privada da riqueza não constam como pressupostos nessas visões de mundo, o que as torna extremamente convenientes ao modo capitalista de produção.
Há uma “lógica casada” entre essa concepção de educação ambiental e o conceito de sustentabilidade, este, cunhado a partir de formulações de organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM). Ambos se coadunam na mistificação das relações sociedade-natureza. A natureza sob a visão do capital configura-se como uma fonte “inesgotável” de recursos, destinados ao crescimento exponencial e ininterrupto da acumulação. Além disso, é inegável que essas e outras organizações internacionais, com destaque para a Organização das Nações
4 O adjetivo “ingênuas” aqui foi empregado no sentido de abordagens que não questionam a estrutura do modo de produção capitalista. Marx afirma que a riqueza na sociedade capitalista é representada por uma infinidade de mercadorias produzidas. Nesse sentido, à medida que o objetivo maior nesse modelo é a busca incessante do mais valor, acreditamos que ele só se impõe com esquemas de exploração e expropriação, além de uma alienação das classes subalternas. Tudo isso tem como consequência a destruição da natureza. Assim, denominamos ingênuas as abordagens que se esquivam da crítica radical da sociedade capitalista, preferindo depositar
“esperança” na ciência como canal de mitigação da degradação ambiental e no mercado como instância de regulação das relações sociedade-natureza.
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) configuraram-se, desde o início dos anos de 1990, como educadores coletivos das classes dominantes e subalternas, sob liderança das classes dominantes (MELO; SOUZA; MELO, 2015). A mundialização da educação básica está na base da construção de um cidadão de novo5 tipo, isso porque as
“novas” bases do capitalismo precisavam agora não só de uma periferia exportadora de produtos primários, mas também que os trabalhadores dessa periferia possuíssem uma escolarização mínima que lhes propiciasse, minimamente, uma adaptação às novas tecnologias. É importante observar que o tipo de educação básica instituída pelo novo bloco histórico em cada país ou conjunto de países, muito se relaciona à forma de inserção desses na Divisão Internacional do Trabalho. Assim, parte significativa da população mundial está fadada a receber uma educação instrumentalizada, no limite das competências diminutas, suficientes para que, ao mesmo tempo, possam acessar funções subalternas dentro da cadeia produtiva e para que tenham uma postura conformista. Nos termos de Motta:
Enfim, a saída encontrada pelos intelectuais orgânicos do capital é: construir uma sociedade solidária e harmoniosa com ´Estado inteligente´ e ´ativo´ - ´eficiente e competente´ nas tarefas de impulsionar um modelo de desenvolvimento e harmonia com o mercado e as organizações sociais da sociedade civil, administrar os riscos e aliviar a condição de pobreza (não só em programas de renda mínima, mas também desenvolvendo a capacidade produtiva dos pobres). Operam-se assim mecanismos de despolitização e conformação com as condições impostas pelo grande capital, indo além de educar para a sobrevivência, educando para a conformação [grifos da autora] (MOTTA, 2009, p. 563).
A respeito do papel desempenhado pelas Organizações Internacionais nesse rearranjo da sociabilidade capitalista pós-era dourada, é muito ilustrativa a análise que Costa (2019) faz em relação ao protagonismo da UNESCO na operacionalização da Década para o Desenvolvimento Sustentável (DEDS) da ONU. O autor sustenta, a partir da dissecação de atas de reuniões e documentos oficiais da agência, que a liderança e implementação da DEDS, foi conferida à UNESCO desde uma disputa no interior da ONU, onde a UNESCO conseguiu, politicamente, se legitimar frente a outras Organizações como o Banco Mundial. A investigação dos documentos trazidos pelo autor se mostra bastante importante, à medida em que traz materialidade às formulações que trazemos em nossa tese, sobre a atuação de organismos internacionais na formatação das novas sociabilidades do capitalismo.
Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura Conselho Executivo Centésima trigésima quarta sessão 134 EX/15 PARIS, 6 de abril de 1990
5 O conceito de Cidadão de Novo Tipo, está ligado ao que Gramsci (2011) definiu como adaptação psicofísica do trabalhador. No capítulo 2, procederemos a uma análise mais aprofundada deste e de outros (as) conceitos/categorias, apoiados nas formulações de Neves (2005) e Martins (2009) sobre o neoliberalismo de terceira via e nas contribuições de Castelo (2013) sobre o Social-Liberalismo.
Idioma Original: Inglês/Francês [...]
9. Desenvolvimento e cooperação econômica internacional (a) Desenvolvimento de recursos humanos
61. Acreditando que os programas de ajuste estrutural apoiados internacionalmente devem ser concebidos e formulados para ter, entre outras coisas, um impacto positivo no desenvolvimento de recursos humanos nos países em desenvolvimento, a Assembleia Geral, na resolução 44/213, solicitou ao Secretário-Geral que lhe submetesse, em sua quadragésima quinta sessão, um relatório sobre desenvolvimento de recursos humanos, incluindo uma avaliação do impacto negativo da situação econômica atual enfrentada pelos países em desenvolvimento em seus esforços para o desenvolvimento de recursos humanos, recomendações para medidas políticas para promover o desenvolvimento de recursos humanos em países em desenvolvimento e formas e meios de aumentar o apoio da comunidade internacional, em particular dos países desenvolvidos, para o desenvolvimento de recursos humanos nos países em desenvolvimento, levando em conta, entre outros, o relatório solicitado pelo Conselho Econômico e Social na resolução 1989/120 e os resultados de a Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em Bangkok em março 1990 [grifos nossos] (COSTA, 2019, Caderno de Anexos, p. 81).
O trecho acima citado é parte de uma ata de reunião do conselho executivo da UNESCO. O texto deixa evidente que, já na década de 1990, ela demonstrava a deliberada intenção de influenciar na formação da mão de obra (recursos humanos) em países em desenvolvimento, bem como avulta uma articulação entre várias organizações em torno do projeto de recomposição burguesa. A esse respeito
David Harvey (2008) apresenta como tese que somente nos anos de 1990 com o chamado Consenso de Washington, a série que chamou de experimentos caóticos e desencontrados em diversos países se transforma num projeto político de fato. A partir daí, comparadas às intervenções e recomendações dos anos de 1990 com as da década anterior, fica claro que houve uma mudança de qualidade na intervenção burguesa. O caráter não elaborado ficou para trás mediante a implementação de programas de refo4ma de Estado em diversos países (MELO; SOUZA; MELO, 2015. p. 49).
Costa (2019) sustenta ainda que mesmo antes da proposição da DEDS, a ONU já mostrava a intencionalidade de articulação entre a Educação para o Desenvolvimento Sustentável (EDS), as premissas do programa Educação Para Todos (EPT), ligado ao Banco Mundial e os programas de alfabetização, em uma profunda e orgânica intenção de comandar o processo de reformulação das sociabilidades burguesas nos países periféricos, a partir de uma visão profundamente ligada à formação do capital humano e que se configurou em um movimento de contrarreforma que sufocou as parcas conquistas sociais auferidas em alguns países da periferia do sistemas capitalista.
Situar um movimento de modificação de rumo, no âmbito dos organismos internacionais, não implica localizar a pedra filosofal desse processo. Mais do que isso, significa traçar alguns aspectos determinantes em que seja possível mostrar a presença maciça de elementos como o redimensionamento do papel do Estado tanto no que se refere as políticas sociais como em seus papel econômicos mais direto.; a
articulação entre organismos na sociedade civil e aparelho de Estado por meio das chamadas “parcerias “, a colaboração entre classes no enfrentamento de problemas coletivos , i plicando um compromisso que envolveria tanto o cancelamento de qualquer perspectiva antissistêmica da classe trabalhadora como um envolvimento mais expressivo do conjunto da burguesia no (suposto) enfrentamento de problemas sociais diversos (MELO; SOUZA; MELO, 2015, p. 50).
Finalmente Costa salienta a estratégia da UNESCO de aproveitar os “60 milhões” de professores como agentes disseminadores da educação para o desenvolvimento sustentável e das novas sociabilidades da educação. Enfim, o texto de Costa robustece sobremaneira o discurso crítico, que coloca os organismos internacionais na vanguarda de um processo de reconfiguração burguesa. Embora as formulações da UNESCO sobre a educação para o desenvolvimento sustentável apontem para um espectro mais amplo que uma nova “educação ambiental”, Costa (2019) destaca que no Brasil, os movimentos em torno da EDS se firmaram na direção das questões ambientais e na educação ambiental, sobretudo no que concerne à sustentabilidade.
As entrevistas com professores de escolas municipais em Duque de Caxias apontam para a importância dada à sustentabilidade no cotidiano escolar. Entretanto, também deixam transparecer uma instrumentalização da educação e da educação ambiental, na medida em que resumem o processo educacional à transmissão de conhecimentos válidos para a inserção desses alunos no mercado de trabalho e a dimensão ambiental a um “adestramento”
comportamental, sem discutir criticamente esses conhecimentos e comportamentos.
Loureiro (2015) argumenta que sustentabilidade é uma ideia-força, amálgama inquestionável, um discurso de algo em condições de juntar todas as pessoas e classes sociais em um projeto de salvação do planeta. Não obstante, o autor cita uma classificação de sustentabilidade forte e fraca. A sustentabilidade fraca seria aquela mais adequada ao modelo capitalista de sociedade, ou seja, aquela que suporta uma quantidade de degradação natural em nome do bem-estar do conjunto da população. Tal sustentabilidade se apoiaria na sobreposição da sociedade à natureza e, ainda, na crença inabalável da ciência como solução para os problemas ambientais.
Já a sustentabilidade forte estaria ligada àqueles que questionam o modo de produção capitalista e advogam sua superação, uma vez que a desigualdade e a expropriação das populações e a exploração da natureza lhe são estruturais, não admitindo nenhum tipo de reforma, só a suplantação do capitalismo. Assim, o ideal seriam mudanças radicais na sociedade vigente e manutenção da integridade natural, com justiça ambiental. Desse modo, o professor quando atua na práxis da EA, tem a missão inicial de considerar a qual tipo de sustentabilidade se filia, isto é, o primeiro movimento é o de perceber o caráter
eminentemente político da EA.
A sustentabilidade fraca, hegemônica no contexto atual, tem mobilizado a atenção e o esforço das classes dominantes na empreitada – exitosa do ponto de vista mercantil – de sedimentar a ideia de que quanto mais excedentes produzido, maior o crescimento econômico e, consequentemente, maior o “desenvolvimento social”. Marques (2015) argumenta que tal discurso, falacioso e escamoteador, é bem aceito por mais de 90% da população adulta do mundo, visto que estes detêm apenas 16,7% da riqueza global e enxergam, equivocadamente, o crescimento econômico nos moldes capitalistas como a solução para os seus problemas de sobrevivência. Nos termos do autor:
A riqueza da humanidade adulta (cerca de 4,7 bilhões de pessoas) é de 240, 8 trilhões de dólares (2013). Mais de dois terços (68,7%) dos indivíduos adultos, situados na base da pirâmide da riqueza possuem 3% (7,3 trilhões de dólares) da riqueza global, com ativos no máximo de 10 mil dólares. No topo da pirâmide, 0,7%
de adultos possuem 41% da riqueza mundial (98,7 trilhões de dólares). Somados, os dois estratos superiores da pirâmide – 393 milhões de indivíduos ou 8,4% da população adulta – detêm 83,3% da riqueza mundial (MARQUES, 2015, p. 25).
Baseando-se nesse raciocínio, pode-se inferir que o mecanismo de acumulação de capital contido em tal processo, é artificialmente reproduzido, levando as classes subalternas à concepção de que tal artifício é natural e necessário e ocultando da maioria a eminência de um colapso socioambiental, do qual, inclusive, sofrerão as maiores consequências.
Essa estrutura da riqueza e da renda e essa tendência à concentração de ambas confirma um mecanismo ínsito no coração do sistema econômico, que impulsiona uma parcela diminuta da humanidade a acumular de modo irracional, isto é, como fim em si. Tal mecanismo, que não é senão o da acumulação de capital, é autorreprodutivo, inclusive ideologicamente. A crença de que de sua manutenção dependem a segurança e a prosperidade das sociedades constitui, como dito acima, o grande obstáculo cognitivo a impedir a percepção de que esse mecanismo acumulativo está, ao contrário, os impelindo em direção a um colapso socioambiental (MARQUES, 2015, p. 26).
Tal constatação remete à importância de uma educação ambiental articulada às elaborações da ecologia política, uma vez que suas formulações, sobretudo na categoria justiça ambiental6, podem contribuir para a construção de uma práxis educativa questionadora das relações sociais de produção e que aponte em direção a edificação de uma outra hegemonia. Segundo Loureiro,
6 Sobre o conceito de Justiça Ambiental aqui adotado, vale ressaltar que parte da premissa de que nenhum grupo social deveria arcar com o ônus socioambiental da escolha do modelo de desenvolvimento. A degradação ambiental e vulnerabilização de povos tradicionais ou moradores do entorno de grandes empreendimentos industriais, constituem exemplos dessa assimetria e da desigual exposição dessas parcelas da população ao que Acselrad (2004) denominou de sociedade de risco. Em momento oportuno no escopo desse trabalho, o referido conceito será aprofundado.
A ecologia política refere-se, nada mais nada menos, do que ao estudo e o reconhecimento de que agentes sociais com diferentes níveis de poder e interesses diversos demandam, na produção de suas existências, recursos naturais e um determinado contexto ecológico, disputando-os e compartilhando-os com outros agentes. E é nesse movimento dinâmico, contraditório e conflituoso, que uma organização social se estrutura e é estruturante das práticas cotidianas e é ou pode ser superada (LOUREIRO, 2012, p. 14).
Destaca-se, nesse ponto, que parte significativa da população de Duque de Caxias, onde se desenvolveu nosso estudo, é submetida a um processo de vulnerabilização, implementado por grupos econômicos hegemônicos que se fazem representar em várias instâncias da sociedade política. Duque de Caxias tem sido palco, nas últimas décadas, de uma série de injustiças ambientais atingindo vários grupos como pescadores artesanais, moradores da localidade “Cidade dos Meninos” (atingidos pela contaminação de rios e solos oriunda de descarte de rejeitos industriais), moradores vizinhos ao “antigo” aterro sanitário do Gramacho e população circunvizinha do PPCD, dentre outros. Esses grupos vulnerabilizados suportam de forma perversa e injusta as contraindicações do modelo de desenvolvimento adotado na região.
Tomando a educação como um campo de disputa da hegemonia de diversos grupos da sociedade (FREIRE, 2002), temos como aspecto estratégico (e fundamental para crítica e transformação da realidade da população mais carente) a educação ambiental. A região da pesquisa abriga conflitos oriundos do modelo de desenvolvimento imposto ao município de Duque de Caxias. Área periférica à capital, a região historicamente vem materializando interesses de diversas frações das classes dominantes regionais e nacionais, sempre coadunados com uma posição de dependência (comum a toda a América Latina) dessas classes dominantes em relação ao grande capital transnacional. Dessa forma, o município transitou de "área de segurança nacional" na década de 1960, sob a ditadura militar- empresarial, à região estratégica com relação à logística (com diversos galpões instalados as margens da rodovia Washington Luiz) para grupos de diversos ramos da economia. Todo esse movimento sempre à revelia dos interesses das classes subalternas, que é quem efetivamente convive com as "contra indicações" desse modelo. No decorrer de nossa pesquisa, ficou evidente que essa hegemonia das classes dominantes direciona inclusive os rumos da educação no município, tornando mais árdua a tarefa daqueles que buscam uma educação mais crítica e emancipadora.
Aspectos Epistêmicos e Ontológicos da Educação e da Educação Ambiental
O contexto histórico atual, onde o capitalismo promove uma ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, as formas de proteção do meio ambiente e promove uma reprimarização de economias de países periféricos (baseada na superexploração, na expropriação e na dependência externa) torna inconteste a necessidade de considerarmos os pressupostos marxianos na práxis educativa e na educação ambiental. Loureiro (2015) é enfático ao afirmar que para uma prática educativa das classes subalternas, que seja emancipadora, é imprescindível conhecer a “dimensão epistemológica e a condição de produção do conhecimento enquanto exigência do processo educativo (p. 161)”.
Epistemologicamente, a educação ambiental crítica está baseada no pensamento crítico, isto é, se inicia na refutação de toda forma de epistemologia que dissocie sociedade e natureza.
Nesse sentido, também deve-se combater a mitificação da ciência e da técnica como
"redentores" de todas as mazelas socioambientais, sobretudo em uma sociedade que se afiança na produção de mercadorias (LOUREIRO, 2015). O pensamento crítico é fundamentado na historicidade, embora não só isso, já que a crença em uma outra hegemonia também o norteia, exigindo (daqueles que pautam sua prática educativa por essa vertente) uma postura militante e comprometida com as lutas das classes subalternizadas. Em última análise, para o pensamento crítico, justiça social não é distribuição igualitária de mercadorias, mas sim cancelamento das relações alienadas de produção.
É nesse sentido que pensamos a educação como um aspecto constituinte da sociedade e do próprio ser humano. Como tal, ela pode ser libertadora ou conservadora de valores hegemônicos. Contudo, o que se pretende aqui é dar contornos à sua relação com o trabalho humano. Não o trabalho como emprego, mas atividade mediadora das relações homem- natureza. Ao realizar um trabalho (intencional, planejado, premeditado) teleologicamente determinado, sobre a base natural, o ser humano o faz a partir de relações sociais e assim se transforma em ser social. Assim sendo, o trabalho é elemento distinguidor da humanidade em relação às outras espécies da natureza. O trabalho eleva a humanidade a patamares sempre superiores de sociabilidades, visto que, a busca da satisfação de suas necessidades, traz sempre inovações na relação da humanidade com a natureza (MARX, 2013). A transformação da natureza causa inevitavelmente uma transformação humana. Isto é, o sujeito que inicia o processo de modificação da natureza, adquire novos conhecimentos e habilidade transformando-se a si mesmo. Assim, é essencial conceber o trabalho como categoria fundamental na constituição do ser social (LUKÁCS, 2012) e entender a existência humana como historicamente construída em suas relações com a natureza mediadas pelo trabalho. Do ponto de vista teleológico, o ser humano rompe com as formas de trabalho geneticamente