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TRANSFORMAÇÃO MILITAR

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Academic year: 2021

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Maj Art RODRIGO BRANDÃO DA MOTA

A evolução da doutrina de emprego do Exército Brasileiro proporcionada pelo processo de transformação da Força Terrestre e seus impactos para a defesa

nacional (Projeto de Pesquisa)

Rio de Janeiro 2016

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Maj Art RODRIGO BRANDÃO DA MOTA

A EVOLUÇÃO DA DOUTRINA DE EMPREGO DO EXÉRCITO BRASILEIRO PROPORCIONADA PELO PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DA FORÇA

TERRESTRE E SEUS IMPACTOS PARA A DEFESA NACIONAL (PROJETO DE PESQUISA)

Orientador: Carlos Frederico de Souza Coelho

Rio de Janeiro 2016

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, como pré- requisito para qualificação em programa de pós-graduação lato sensu em Ciências Militares.

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¾

M917e Mota, Rodrigo Brandão da

A evolução da doutrina de emprego do Exército Brasileiro proporcionada pelo processo de transformação da Força Terrestre e seus impactos para a defesa nacional. / Rodrigo Brandão da Mota. 一2016.

72 f. : il. ; 30 cm.

Orientação: Prof. Carlos Frederico de Souza Coelho

Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Ciências Militares)一Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2016.

Bibliografia: f. 68-70.

1. TRANSFORMAÇÃO MILITAR. 2. DOUTRINA MILITAR. 3.

DEFESA NACIONAL 4. EXÉRCITO BRASILEIRO. I. Título.

CDD 355.4

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Maj Art RODRIGO BRANDÃO DA MOTA

A EVOLUÇÃO DA DOUTRINA DE EMPREGO DO EXÉRCITO BRASILEIRO PROPORCIONADA PELO PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DA FORÇA

TERRESTRE E SEUS IMPACTOS PARA A DEFESA NACIONAL (PROJETO DE PESQUISA)

COMISSÃO AVALIADORA

__________________________________________________________

Prof. Dr. CARLOS FREDERICO DE SOUZA COELHO - Presidente Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

_____________________________________________________

LUCIANO CORREIA SIMÕES - Cel Inf (Ms) - Membro Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

____________________________________________________

ANSELMO DE OLIVEIRA RODRIGUES - Maj Inf - Membro Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, como pré- requisito para qualificação em programa de pós-graduação lato sensu em Ciências Militares.

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DEDICATÓRIA

A Deus o reconhecimento de sua incondicional misericórdia e amor em todas as fases de desenvolvimento do trabalho.

À minha esposa Luana e meus filhos Matheus e Rafael. Uma homenagem especial pelo carinho, incentivo e compreensão demonstrados durante a realização da presente pesquisa.

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AGRADECIMENTOS

Ao Professor Doutor Carlos Frederico de Souza Coelho, não só pela orientação firme e segura, como também, pelo incentivo e pela confiança evidenciada. Seu aconselhamento se revestiu de capital importância para que eu pudesse realizar o trabalho com tranqüilidade e eficiência.

Aos meus pais, Jailto Gomes da Mota e Telma Lúcia Brandão a educação que me proporcionaram durante toda a minha vida e que permitiu a realização deste trabalho.

(7)

RESUMO

O presente trabalho pretende identificar as contribuições que têm sido proporcionadas para a defesa nacional por intermédio da evolução da doutrina de emprego do Exército Brasileiro provocada pelo atual processo de transformação da Força Terrestre. Nesse sentido, a pesquisa foi dividida em seções, com a finalidade de proporcionar um raciocínio lógico, ordenado e coerente sobre o assunto. Dessa maneira, a primeira seção contempla o ambiente de mudanças em que se caracteriza o cenário mundial, com o propósito de justificar a necessidade da implementação das mudanças militares.

A seção seguinte apresenta uma abordagem teórica sobre o assunto pesquisado, com a finalidade de identificar os principais estudiosos relacionados às mudanças militares, bem como suas constatações acerca do tema. O trabalho empregou ainda o procedimento de estudo de casos, a fim de constatar caracterizar de forma mais concreta o advento da “transformação militar”. As seções posteriores contemplam a seleção de instrumentos metodológicos, além da coleta, a análise e a interpretação dos dados levantados com a finalidade de confirmar a hipótese apresentada. Por fim, buscar-se-á encontrar possíveis soluções ao problema de pesquisa, tudo isso com o propósito de contribuir para o aprimoramento dos estudos na área de defesa.

Palavras-chave: Transformação militar, Doutrina militar, Defesa Nacional, Exército Brasileiro.

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ABSTRACT

This study aims to identify the contributions that have been provided to national defense through the evolution of the employment doctrine of the Brazilian Army caused by the current process of transformation of the Land Force. In this sense, the research was divided into sections, with the purpose of providing a logical, orderly and coherent thinking on the subject. Thus, the first section includes the environmental changes that characterized the world scene, in order to justify the need for implementation of military changes. The following section presents a theoretical approach to the subject studied, in order to identify the leading scholars related to military changes, as well as its findings on the subject. The work also used the case study procedure, in order to determine characterize more concretely the advent of "military transformation". Subsequent sections include the selection of methodological tools, in addition to the collection, analysis and interpretation of data collected in order to confirm the hypothesis presented. Finally, will be sought possible solutions to the problem of research, all with the purpose of contributing to the improvement of studies in the area of defense.

Key words: Military Transformation, Military Doctrine, National Defense, Brazilian Army.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Vetores de Transformação do Exército……...9 Figura 2 – Cronograma da Transformação do Exército……...14

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

BID Base Industrial de Defesa

C4I Command, Control, Communications, Computers, and Intelligence

C Dout Ex Centro de Doutrina do Exército C&T Ciência e Tecnologia

CNN Cable News Network

COIN Operações de Contra-insurgência COTER Comando de Operações Terrestres

DECEx Departamento de Educação e Cultura do Exército DMT Doutrina Militar Terrestre

EB Exército Brasileiro

EMCFA Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas EME Estado-Maior do Exército

END Estratégia Nacional de Defesa ESG Escola Superior de Guerra

EUA Estados Unidos da América

IDOC Instituto de Doutrina de Operações Conjuntas ISAF International Security Assistance Force

ISR Intelligence, Surveillance and Reconnaissance

GFP Global Firepower Index

LBDN Livro Branco de Defesa Nacional

MD Ministério da Defesa

MINUSTAH Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti MTR Military Technical Revolution

ODS Órgão de Direção Setorial

ONU Organização das Nações Unidas

OTAN Organização do Tratado do Atlântico Norte

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PAED Plano de Articulação e Equipamento de Defesa PGMs Precision Guided Munition

PLA People’s Liberation Army PND Política Nacional de Defesa

PNID Política Nacional da Indústria de Defesa PROFORÇA Projeto de Força do Exército Brasileiro PRTs Provincial Reconstruction Teams RAND National Defense Research Institute RMA Revolution in Military Affairs

SARP Sistema Aéreo Remotamente Pilotado SIPLEX Sistema de Planejamento do Exército

SIPRI Stockholm International Peace Research Institute URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

VT Vetores de Transformação

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ... 13  

1.1 PROBLEMA DA PESQUISA  ...  19  

1.1.1 ANTECEDENTES DO PROBLEMA  ...  19  

1.1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA  ...  24  

1.1.3 FORMULAÇÃO DA HIPÓTESE  ...  25  

1.2 OBJETIVO  ...  26  

1.2.1 OBJETIVO GERAL  ...  26  

1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS  ...  26  

1.3 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA  ...  26  

1.4 CONTRIBUIÇÕES  ...  30  

2. REFERENCIAL TEÓRICO ... 33  

2.1 CONCEITOS DE TRANSFORMAÇÃO MILITAR NA ATUALIDADE  ...  33  

2.1.1 A REVOLUÇÃO TÉCNICA MILITAR  ...  33  

2.1.2 A REVOLUÇÃO NOS ASSUNTOS MILITARES  ...  35  

2.1.3 A TRANSFORMAÇÃO MILITAR  ...  39  

2.2 O CASO NORTE-AMERICANO (A TRANSFORMAÇÃO MILITAR NORTE-AMERICANA)  ...  47  

2.3 O CASO CHINÊS (A TRANSFORMAÇÃO MILITAR DA CHINA)  ...  52  

2.4 A TRANSFORMAÇÃO MILITAR DO EXÉRCITO BRASILEIRO  ...  55  

3. REFERENCIAL METODOLÓGICO ... 60  

3.1 TIPO DE PESQUISA  ...  60  

3.2 TÉCNICAS DE PESQUISA  ...  60  

3.3 COLETA DE DADOS  ...  63  

(13)

3.4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS  ...  65   4. CRONOGRAMA ... 67   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 68  

(14)

1. INTRODUÇÃO

O contexto internacional caracteriza-se pelo seu constante processo evolutivo. No período discriminado como Guerra Fria1, o mundo vivia uma realidade polarizada e extremamente bem definida, cuja caracterização se fazia pela divisão político-ideológica entre os países alinhados ao capitalismo ou ao comunismo, e ainda, aqueles pertencentes ao grupo de países não-alinhados.

Nesse sentido, o maior desafio global orbitava em torno da possibilidade de deflagração de um conflito de ordem mundial entre os líderes das correntes político-ideológicas em confronto, os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

De acordo com essa perspectiva, o “National Defense Research Institute (RAND)” – importante instituto de pesquisas militares norte-americano – caracterizou tal fenômeno, ao publicar um trabalho relacionado à visão chinesa quanto às mudanças militares em curso nos EUA, na primeira década do século XXI – constante do trabalho intitulado “Chinese Responses to U.S. Military Transformation and Implications for the Department of Defense” – tal como se segue:

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a OTAN operaram um grande número de bases tanto para lidar com o problema no front central, quanto para assegurar a disponibilidade de um número adequado de meios aéreos na possibilidade das bases serem atacadas ou quando os soviéticos atacassem com mísseis aéreos.2 (MULVENON, et al., 2006, p. 120)

Sendo assim, a percepção de ameaça pela comunidade internacional estava voltada para a defesa das convicções político-ideológicas, principalmente ao se analisar o posicionamento das potências retro-citadas, quanto as

1 Após a II Grande Mundial, abre-se o período da Guerra Fria, no qual os EUA e a URSS rivalizavam no cenário mundial. Há uma intensa disputa econômica, diplomática e tecnológica. O mundo fica dividido em dois blocos, com sistemas diferentes: o mundo capitalista, liderado pelos EUA, e o socialista, encabeçado pela URSS. (ALMANAQUE, 2013, p. 298)

2 Tradução livre do original: “During the Cold War, the United States and NATO operated a large number of hardened bases both to cope with the size of the problem on the central front and to ensure the availability of an adequate number of air assets even when the bases were attacked or when shut down by Soviet air and missile attacks.”

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expressões militar e política do poder nacional 3 . Contudo, com o desmoronamento da URSS do final da década de 1980, aliado ao intenso processo de globalização à época, a comunidade internacional passou a enfrentar uma perspectiva de segurança4 extremamente complexa e diversa daquela vivida anteriormente. Nesse contexto, verificou-se o surgimento de outros atores no sistema internacional que se mostraram capazes de desestabilizar o ambiente se segurança, tal como observa Mulvenon, et. al.

(2006, p. 150):

No século XXI, tornou-se muito difícil distinguir os inimigos dentre a população, se os soldados necessitarem lutar no meio do povo. Guerreiros, quando não identificados, podem muito facilmente chegar onde desejam e negar afiliação aos inimigos dos defensores. Terroristas têm mostrado que poucos indivíduos podem causar grandes danos, obrigando outros a investir tempo e atenção para contê-los.5

O início do século XXI foi marcado por uma série de acontecimentos de repercussão internacional, que modificaram o entendimento sobre os novos atores e as recentes ameaças apresentadas à comunidade internacional; tais como: o terrorismo internacional, os organismos internacionais multilaterais, o fundamentalismo religioso, a questão ambiental, as novas características do Estado moderno, o fortalecimento das questões econômicas, a imigração, a formação de blocos de interesses políticos e econômicos, as crises humanitárias, dentre outras. Diante desse cenário, Sloan (2008, p. 5) coloca que

“[...] o ambiente pós 11 de setembro tem enfocado desenvolver estratégias previamente eficazes com a finalidade de afastar perigos, incluindo dissuasão e

3 O Manual Básico da Escola Superior de Guerra (ESG), em seu volume 1, infere que o Poder Nacional é a capacidade que tem o conjunto de Homens e Meios que constituem a Nação para alcançar e manter os Objetivos Nacionais, em conformidade com a Vontade Nacional. (BRASIL.a, 2013, p. 31)

4 O Manual Básico da Escola Superior de Guerra (ESG), em seu volume 1, infere que a Segurança é a sensação de garantia necessária e indispensável a uma sociedade e a cada um de seus integrantes, contra ameaças de qualquer natureza. (BRASIL.a, 2013, p. 59)

5 Tradução livre do original: “In the 21st century, it may become very difficult to distinguish adversaries from the population, if soldiers prefer to fight there. War-fighters, when not identified as such, can more easily get to where they are going and credibly deny affiliation with enemies of defenders. Terrorists have shown that a few individuals can do great damage, if by nothing else forcing others to invest time and attention to counter them.” (MULVENON, et al., 2006, p. 150)

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contenção, que se mostram inadequadas para enfrentar ameaças dos atores não-estatais.”6

Nesse sentido, esses acontecimentos somados aos conflitos deflagrados a partir da década de 1990 – conflito nos Balcãs, Guerra do Iraque, Guerra do Afeganistão, dentre outros – têm apresentado características distintas dos conflitos armados ocorridos durante o século XX, tais como: os enfrentamentos dentro das cidades, a utilização de métodos não convencionais de combate, a amplitude e descentralização das ações envolvimento de não-combatentes nos combates e o aumento do número de missões humanitárias. Diante dessa realidade, potências militares do planeta, como os Estados Unidos da América (EUA), a República Popular da China, a Alemanha, a França, o Reino Unido, dentre outras, passaram a constatar a necessidade do estabelecimento de novas missões de combate, que implicavam numa forma distinta de uso da força militar àquela até então empregada, para se contrapor às recentes ameaças apresentadas no cenário internacional. Nesse contexto, Sloan (2008, p. 5) infere que:

Ao longo da década de 1990 uma série de doutrinas militares foram apresentadas como sendo parte da RMA7. O tema principal foi a necessidade de fazer a mudança a partir dos enormes e pesados exércitos da Guerra Fria que lutavam ‘no campo de batalha’, ou seja, que estavam localizados na Europa e se preparavam para lutar na Europa, com exércitos mais leves, mais móveis constituindo-se em força expedicionária que, apesar de localizados na Europa ou na América do Norte, poderiam lutar em teatros de operações ao redor do mundo.8 (SLOAN, 2008, p. 5)

6 Tradução livre do original: “[...] in the post-9/11 environment the greater concern has been that strategies previously effective in warding off dangers, including deterrence and containment, are inadequate to dealing with threats from non-state actors.” (SLOAN, 2008, p. 5)

7 The Revolution in Military Affairs (RMA) “He defined an RMA as ‘a major change in the nature of warfare brought about by the innovative application of technologies which, combined with dramatic changes in military doctrine and operational and organizational concepts, fundamentally alters the character and conduct of military operations’ […]” (SLOAN, 2008, p. 3).

8 Tradução livre do original: “Throughout the 1990s a number of military doctrines were put forward as being part of the RMA. The overarching theme was a need to make the shift from the massive, heavy, armies of the Cold War that would fight ‘in place’, that is to say that were located in Europe and would fight in Europe, to lighter, more deployable armies that would be expeditionary in that, although located in Europe or North America, they would deploy to operational theatres around the world.” (SLOAN, 2008, p.

5)

(17)

Sendo assim, percebe-se a existência de uma tendência mundial no sentido da opção pela mudança da forma de atuação das forças militares. Nesse contexto, tal situação provoca inquietações acerca dos caminhos a serem trilhados para o desenvolvimento dessas mudanças militares. E ainda, a partir de tais percepções emergem questionamentos sobre quais aspectos do uso da força militar deveriam nortear o processo de mudanças militares pretendido.

Segundo Sloan (2008), existem três níveis de mudanças militares: a revolução técnica militar (MTR), a revolução nos assuntos militares (RMA) e a transformação militar. Do primeiro para o último, estes níveis são gradativos (progressivos). Nesse sentido, o nível mais profundo do processo de mudança militar enquadra-se conceitualmente na Transformação Militar. A retro-citada autora infere ainda, que a essência da transformação é a mudança de forma, normalmente para melhor. Sob essa perspectiva, Sloan (2008) sugere a perseguição das respostas aos seguintes questionamentos: Por que mudar?

Qual o real motivo da realização da mudança? Por que optar pela transformação? Por que não realizar os outros níveis de mudança?

Além disso, a pesquisadora supramencionada aprofunda as considerações sobre o tema “transformação militar” acrescentando que “Ao mesmo tempo, transformação é mais que modernização”9 (SLOAN, 2008, p. 8).

Coerente com tal concepção o Brigadeiro (R/1) Jaime Garcia Covarrubias10 – pesquisador em transformação militar – publicou o artigo “Os Três Pilares de uma Transformação Militar”, onde infere que as mudanças militares encontram- se inseridas num processo gradativo de transformação. No referido artigo, Covarrubias discute os níveis de mudanças adotadas por nações latino- americanas (adaptação, modernização e transformação), relacionando-as com o

9 Tradução livre do original: “At the same time, transformation is more than modernization”.

10 O Gen Covarrubias foi diretor de Ciências Políticas e Sociológicas da Universidade de Salamanca (Espanha), e possui o titulo de Mestrado em Ciências Políticas pela Universidade do Chile e o de Bacharel em Ciências Militares pela Academia de Guerra do Chile. É diplomado pelo Centro de Estudos Diplomáticos e Estratégicos de Paris (França) e da Sociedade de Estudos Internacionais de Madri. Também possui o título de Doutorado em História da Civilização do Ocidente Moderno pela Universidade de Paris

(18)

profundo processo de transformação implementado pelos EUA, iniciado durante o governo do presidente George W. Bush11, tendo como Secretário de Defesa Donald Rumsfeld12. Desta maneira, no trabalho em questão, é possível extrair a seguinte assertiva:

Numa conclusão teórica, poderíamos dizer que estão se usando três conceitos que no caso dos EUA são: adaptação, modernização e transformação. Para o caso latino-americano, me parece que as interpretações mais adequadas destes conceitos seriam: adaptação ― que consiste em adaptar as estruturas existentes para continuar cumprindo com as tarefas previstas; modernização ― otimização das capacidades para cumprir a missão de uma melhor forma e transformação ― desenvolvimento das novas capacidades para cumprir novas missões ou desempenhar novas funções em combate. Em poucas palavras a transformação implica numa mudança muito mais radical já que envolve mudanças nas missões e tem um alcance não somente técnico, mas também político. (COVARRUBIAS, 2007, p. 3, grifo nosso)

A partir da compreensão dos conceitos supracitados, Sloan (2008) coloca que para o desenvolvimento do processo de transformação se faz necessário entender o contexto em que se vive, identificar as ameaças e verificar as capacidades das forças militares existentes; com a finalidade de identificar quais as necessidades de mudanças (níveis) devem ser realizadas (o mais simples ou o mais profundo?).

Seguindo essa linha de raciocínio, Covarrubias, infere que os EUA implementaram o processo de transformação militar, em virtude do mesmo ser

“[...] coerente em relação aos desafios estratégicos [...] com ênfase especial na guerra assimétrica e na Guerra Global Contra o Terrorismo” (COVARRUBIAS, 2007, p. 3). Dessa maneira, percebe-se a intenção da profundidade desejada para a respectiva transformação militar empreendida pelos EUA.

Nesta mesma direção, é possível constatar que outras potências globais orientam seus processos de mudanças militares de acordo com suas

Sorbonne. Foi professor do Instituto de Ciências Políticas da Universidade do Chile, Universidade Central e Universidade Central Andrés Bello.

11 George W. Bush was America's 43rd President (2001-2009). Disponível em:

https://www.whitehouse.gov/1600/presidents/georgewbush. Acessado em 14 de setembro de 2015.

12 Donald Henry Rumsfeld is an American politician and businessman. Rumsfeld served as the 13th Secretary of Defense from 1975 to 1977 under President Gerald Ford, and as the 21st Secretary of Defense

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percepções de ameaças. Sendo assim, Mulvenon et.al. (2006) apresentam em seu estudo considerações acerca dos fatores motivadores da implementação da transformação militar na China. Esse fenômeno pode ser constatado, por intermédio da seguinte afirmação:

A modernização militar chinesa não pode ser entendida isoladamente. Fatores contextuais influenciaram, como restrições, condições e facilitadores da estratégia militar chinesa. Por um lado, a surpreendente modernização econômica e tecnológica da China desde o final da década de 1970 tem sido um crítico facilitador de opções da estratégia de modernização do PLA13. [...]. Por outro lado, Pequim exerce forte controle partidário civil sobre o PLA, e as decisões de alocação de recursos para as forças armadas têm de competir com a lista assustadora chinesa de problemas internos [...]14. (MULVENON, et al., 2006, p. 2)

Diante do acima exposto, verifica-se que existe um alinhamento conceitual referente à reflexão sobre transformações militares, proporcionando um entendimento sintético do assunto. Ademais, nota-se a manifestação de características peculiares relacionadas à progressividade das ações, cuja definição se apresenta por intermédio do nível de profundidade a ser adotado.

Além disso, é possível depreender que existem fatores distintos que motivam uma nação a empreender um processo de transformação militar, condicionando as ações específicas a serem adotadas à sua realidade.

Inserido nesse contexto, de acordo com o documento intitulado Projeto de Força do Exército – PROFORÇA15 (2011), nota-se que a Força Terrestre brasileira percebeu a necessidade de implementar mudanças e se adequar aos novos desafios a partir das experiências vividas com a mobilização de tropas para o cumprimento da missão humanitária de estabilização no Haiti

from 2001 to 2006 under President George W. Bush. Disponível em: http://rumsfeld.com/bio/. Acessado em 14 de setembro de 2015.

13 PLA (People’s Liberation Army) – Exército de libertação Popular.

14 Tradução livre do original: “Chinese military modernization cannot be understood in isolation.

Contextual factors act as constraints, conditions, and facilitators of Chinese military strategy. On the one hand, China’s astonishing economic and technological modernization since the late 1970s has been a critical facilitator of PLA modernization and strategy options. […]. On the other hand, Beijing exercises strong civilian party control over the PLA, and resource allocation decisions for the military must compete with China’s daunting list of domestic problems […]”. (MULVENON, et al., 2006, p. 2)

15 O Projeto de Força do Exército Brasileiro (PROFORÇA), fiel à metodologia de planejamento, programação e orçamentação, apresenta as diretrizes para a concepção e a evolução da Força para 2031, com marcos temporais em 2015 e 2022.

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(MINUSTAH), no ano de 2010. Naquela ocasião o EB encontrou dificuldades em mobilizar e preparar tropas para fazer face a uma necessidade emergente. Esse fato se caracterizou como uma oportunidade para aprimoramento tecnológico, doutrinário e estrutural da Força, ao projetar necessidade semelhante para um eventual situação de combate.

1.1 PROBLEMA DA PESQUISA

1.1.1 ANTECEDENTES DO PROBLEMA

O Exército tem buscado modernizar seus equipamentos e armamentos, bem como a proficiência de seus integrantes. Para atender às demandas estratégicas, constatou-se a necessidade de que o Exército não apenas se adapte e modernize, mas adote o conceito de transformação. Transformação significa desenvolver capacidades diferenciadas para cumprir novas funções, sejam elas decorrentes do atual ambiente operacional, ou funções ainda não identificadas. (BRASIL, 2012, p. 125)

Em que pese o Exército Brasileiro ter vivenciado processo de transformação em seu passado recente (entre os anos de 1964 e 1984), como reflexo da “[...] Reforma Administrativa do Estado Brasileiro, iniciada no País a partir da Revolução de 31 de Março de 1964, com a expedição do Decreto-Lei nº 200 [...]” (BRASIL, 2010, p. 11); atualmente, a Força Terrestre encontra-se em pleno desenvolvimento de uma nova transformação militar, a fim de se adaptar aos novos desafios apresentados no século XXI.

Após a criação do Ministério da Defesa (MD), no ano de 1999, o Estado Brasileiro adotou uma série de medidas, que proporcionaram a caracterização de uma nova postura relacionada aos assuntos de defesa nacional. Nesse sentido, importantes documentos de defesa foram elaborados, tais como a Política Nacional de Defesa (PND)16, a Política Nacional da Indústria de Defesa

16 A Política Nacional de Defesa (PND) teve sua primeira edição em 1996, intitulada “Política de Defesa Nacional”. Posteriormente, foi reeditada em 2005; e finalmente em 2012 foi atualizada sob a designação atual.

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(PNID) e a Estratégia Nacional de Defesa (END)17, além do Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN). Tais eventos propiciaram um ambiente favorável à implementação de mudanças, no sentido de aprimorar as Forças Armadas brasileiras.

A END (2008) colocou que cada Força Armada concebesse planejamento próprio, no sentido de reestruturar suas organizações e reequipar suas Unidades. Em consequência, a Força Terrestre apresentou a “Estratégia Braço Forte” ao MD, no mês de junho de 2009. Ademais, cabe destacar que tal Estratégia possuía em sua estrutura principal “[...] 823 projetos organizados em quatro grandes programas, a serem desdobrados em curto, médio e longo prazos (2014 – 2022 – 2030).” (BRASIL, 2010, p. 21).

Diante dessa perspectiva, o Estado-Maior do Exército (EME) apresentou a publicação do documento intitulado “Manual de Transformação do Exército Brasileiro”, no ano de 2010, cujo conteúdo delineava os caminhos a serem adotados para o atendimento das demandas militares da Defesa Nacional, particulares à Força Terrestre. Neste mesmo documento consta a identificação das capacidades necessárias à Força Terrestre em 2030, caracterizando o planejamento de longo prazo para a implementação da transformação militar.

O fenômeno da transformação militar do Exército Brasileiro teve como um dos fatores motivadores as dificuldades apresentadas na mobilização de um batalhão para atuar como força de paz no Haiti, no ano de 2010.

A crise vivida no Haiti colocou em evidência a restrita capacidade de a Força Terrestre projetar força e de fazer face a situações de contingência, o que poderia ter colocado em risco nossa capacidade de manter o protagonismo entre os demais países ali presentes. Para desdobrar um segundo contingente foram necessárias três semanas e a participação de 84 organizações militares.” (BRASIL, 2010, p. 11; grifo nosso)

Nesse sentido, questionamentos como “[...] que poder de combate poderemos empregar, no caso de um conflito entre países vizinhos que venha a

17 A Estratégia Nacional de Defesa (END) teve sua primeira edição em 2008. Posteriormente, foi reeditada em 2012.

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exigir uma imposição da paz?” (BRASIL, 2010, p. 11) passaram a inquietar a comunidade de defesa nacional. Dessa maneira, constatou-se que se fosse materializada a necessidade de projeção de poder militar, naquela oportunidade, as deficiências das forças militares seriam manifestadas em diversos aspectos, tais como “[...] capacitação do pessoal, à desatualização doutrinária, à ineficiência dos sistemas operacionais e à situação de obsolescência, sucateamento e insuficiência de equipamentos e suprimentos.” (BRASIL, 2010, p. 11).

Outra questão igualmente séria foram as restrições orçamentárias do período anterior à transformação, cujos reflexos “[...] levou o Exército a uma situação de déficit crônico, deixando-o hoje sem folga em termos de recursos de qualquer natureza, capazes de assegurar a liberdade de ação e ou a flexibilidade para investir, ampliar, modernizar, adaptar ou modificar suas estruturas.” (BRASIL, 2010, p. 20). Desta maneira, houve a percepção de que as limitações da Força Terrestre estavam reduzindo seu alcance e, em consequência, provocando a diminuição da capacidade da defesa nacional.

O citado Manual coloca que o “Processo de Transformação do Exército”

foi concebido por intermédio da identificação de fatores críticos, que representavam deficiências estruturais, concentradas nas áreas de doutrina, recursos humanos e gestão (Fig 1); as quais se constituíam em barreiras ao aprimoramento da Força. Tal fato proporcionou o desenvolvimento de respostas, caracterizadas por meio de estudos, diagnósticos, concepções, planejamentos, processos, recursos humanos, capacitações, ferramentas enquadrados no conceito de Vetores de Transformação (VT). Os VT foram organizados nas seguintes áreas: Doutrina, Preparo e Emprego, Educação e Cultura, Gestão de Recursos Humanos, Gestão Corrente e Estratégica, C&T e Modernização do Material e Logística.

(23)

Quanto ao vetor Preparo e Emprego o citado documento coloca que o mesmo tem-se mostrado inadequado às expectativas do Exército quanto a necessidade de capacidades a serem desenvolvidas, tomando como base as responsabilidades de um país como o Brasil. Sendo assim, apontou-se a demanda do aprimoramento do sistema de serviço militar e do ciclo de preparo da Força Terrestre como forma de superar este óbice.

O vetor Educação e Cultura emergiu da constatação da deficiência no gerenciamento de seus recursos humanos qualificados, assim como a percepção da baixa mentalidade de inovação de seus quadros. Dessa maneira, alguns caminhos são apontados como possibilidade de correção desses problemas, como a correta utilização de ferramentas de gestão do conhecimento; a busca de interações, intercâmbios e visitas a estabelecimentos civis e militares no Brasil e no Exterior; a incorporação de civis ao Exército;

dentre outros.

A Gestão de Recursos Humanos apresentava-se como outro vetor a ser desenvolvido. Dessa maneira o EB estabeleceu como meta para o aprimoramento desta área a realização de ajustes na composição de efetivos,

Figura 1: Os vetores de transformação do Exército

Fonte: O Processo de Transformação da Força Terrestre – 3ª Ed, 2010.

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bem como o aperfeiçoamento da gestão de pessoal, o que possibilitará maior fluidez na transformação.

A Gestão Corrente e Estratégica caracterizou-se como outra deficiência identificada pela Força Terrestre. Nese sentido, o EB constatou a necessidade de aperfeiçoar seus métodos de gestão, entendendo que tal aspecto possibilita a viabilização e consolidação da transformação militar.

O vetor C&T e Modernização do Material foi levantado em virtude da percepção da obsolescência e insuficiência do material de emprego militar (MEM) em uso no EB. Além disso, notou-se a dificuldade de adaptação das empresas civis à demanda por estes itens. Contudo, a Força Terrestre apontou algumas direções para a solução dessa questão, tais como a necessidade de modificações sistêmicas e a adoção de simuladores militares.

O EB entendeu que a Logística era o vetor de maior necessidade de transformação, uma vez que o hiato entre a Logística Militar Terrestre e a Logística praticada por empresas civis apresentavam grandes diferenças. Dessa maneira a Força Terrestre estabeleceu a adoção de práticas modernas acompanhadas da inovação doutrinaria deste aspecto.

Quanto a Doutrina Militar, primeiro vetor de transformação, após a identificação do uso de concepções ultrapassadas, o EB entendeu que esse vetor apresenta-se como motor dos demais vetores apresentados.

Outrossim, o Sistema de Planejamento do Exército18 (BRASIL.a, 2011, p.

2), cujo objetivo síntese se caracteriza pela transformação da Força Terrestre num Exército da Era do Conhecimento, elencou como um dos objetivos da Política Militar Terrestre o aperfeiçoamento da doutrina militar terrestre, determinando o estabelecimento de um processo permanente de atualização; a reorganização do sistema de doutrina militar terrestre; o aperfeiçoamento da

18 SIPLEX 3 (2011) é decorrente: dos objetivos e das diretrizes estabelecidos na Política Militar de Defesa, Estratégia Militar de Defesa e Doutrina Militar de Defesa; da missão, do conceito, da visão de futuro e da

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pesquisa no âmbito da Força Terrestre; a criação de um sistema de prospecção doutrinária; e a definição de forma clara, realista e objetiva, a organização, o adestramento e o equipamento que servirão de base para a formulação da doutrina da Força.

Além disso, o Exército Brasileiro determinou através da “Estratégia Braço Forte” a implantação de um novo e efetivo sistema de doutrina militar terrestre.

Ademais, constata-se no documento intitulado “O Processo de Transformação do Exército” a seguinte assertiva: “Para provocar a transformação de que o Exército necessita, a implementação deverá ser acompanhada de alterações nas concepções política, estratégica, doutrinária, administrativa e tecnológica, hoje vigentes” (BRASIL.b, 2010, p. 25; grifo nosso).

Diante do exposto, ao identificar a Doutrina Militar Terrestre como um dos fatores críticos à implementação da transformação militar proposta, o Exército Brasileiro percebeu a necessidade de modificá-la a fim de assegurar o desenvolvimento das mudanças militares.

Dessa maneira, em que pese a existência dos demais vetores da transformação acima citados, assim como suas reconhecidas importâncias, a presente pesquisa se debruçará sobre a Doutrina Militar Terrestre, a fim de melhor aprofundar o alcance da profundidade pretendida.

1.1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA

Assim sendo, a partir da identificação da necessidade de mudar a forma de empregar a força militar, emerge-se o seguinte questionamento: quais as contribuições têm sido proporcionadas à defesa nacional por intermédio da evolução da doutrina de emprego do Exército Brasileiro, provocada pelo atual processo de transformação da Força Terrestre?

síntese dos valores do Exército; e, também, das indicações levantadas no Diagnóstico Estratégico do Exército e nos Cenários Prospectivos EB-2030, que são a Avaliação da Força.

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1.1.3 FORMULAÇÃO DA HIPÓTESE

A formulação de hipóteses impõe a necessidade do atendimento de critérios pré-estabelecidos, com o propósito de justificar o seu emprego. Nesse sentido, Bunge (BUNGE, 1976, APUD MARCONI & LAKATOS, 2005) coloca a importância do atendimento de três requisitos para a elaboração de hipóteses: a necessidade da mesma não se apresentar vazia (com conteúdo irrelevante); a necessidade da hipótese ser baseada em conhecimento anteriormente identificado; e a possibilidade da mesma ser empiricamente contrastável, por intermédio de procedimentos objetivos da ciência.

Conforme constatado anteriormente, a transformação militar caracteriza- se pelo nível mais profundo de mudança militar, o qual implica no desenvolvimento das novas capacidades para cumprir novas missões ou desempenhar novas funções em combate (COVARRUBIAS, 2007, p. 3). Nesse sentido, entende-se que para o desempenho de novas capacidades torna-se necessário mudar a forma de empregar as técnicas, táticas e procedimentos no campo de batalha; ou seja, mudar a doutrina de emprego da força militar.

Sendo assim, para responder ao questionamento em tela a pesquisa se valerá do pressuposto que para a ocorrência da transformação militar (variável dependente) é necessário que ocorra, dentre outros fatores, a evolução da doutrina militar vigente (variável independente). Além disso, toda mudança militar influencia diretamente a expressão militar da defesa nacional (variável dependente). Logo, a pesquisa tomará como hipótese o fato de que a evolução da doutrina de emprego do Exército Brasileiro, provocada pelo atual processo de transformação da Força Terrestre, apresenta contribuições à expressão militar da defesa nacional.

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1.2 OBJETIVO

1.2.1 OBJETIVO GERAL

Identificar as contribuições que têm sido proporcionadas para a defesa nacional por intermédio da evolução da doutrina de emprego do Exército Brasileiro provocada pelo atual processo de transformação da Força Terrestre.

1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

A fim de viabilizar a consecução do objetivo geral de estudo, foram formulados objetivos específicos, de forma a encadear logicamente o raciocínio histórico apresentado neste estudo.

- Apresentar as premissas do processo de transformação do Exército Brasileiro (EB).

- Identificar quais as interconexões entre a transformação do Exército Brasileiro (EB) e a defesa nacional.

- Identificar as interconexões entre a doutrina militar terrestre (DMT) e a defesa nacional.

- Analisar a doutrina militar terrestre (DMT) antes da implementação do processo de transformação do Exército Brasileiro.

- Analisar a doutrina militar terrestre (DMT) após à implementação do processo de transformação do Exército Brasileiro.

- Comparar a doutrina militar terrestre (DMT) antes e após à implementação do processo de transformação do Exército Brasileiro.

1.3 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA

A pesquisa científica se desenvolverá de maneira gradativa, com o propósito de promover um raciocínio lógico e ordenado. Nesse sentido, serão enfocadas as mudanças militares relacionadas à transformação militar,

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particularmente àquelas que guardam interconexões com a doutrina militar terrestre, e afetem a efetividade do emprego militar na defesa nacional.

Diante dessa perspectiva, necessário se faz responder aos questionamentos discriminados a seguir:

Por que enfocar o atual processo de transformação do EB?

Em que pese o EB ter vivido outros processos de mudança militar, o presente trabalho limitou-se ao processo de transformação corrente devido a constatação de uma tendência mundial no que tange ao tema, possibilitando relacioná-lo com as experiências internacionais; tais como os Estados Unidos, a China, a Alemanha, a França, a Grã-Bretanha, dentre outros países.

Além disso, o processo de transformação do EB tem-se desenvolvido num ambiente de incentivo do Estado, em virtude da ocorrência de fatos que estimulam o estabelecimento de mudanças, como o lançamento de documentos institucionais do Ministério da Defesa direcionados à transformação militar (PND, END e LBDN); o estabelecimento de projetos estratégicos e o amadurecimento do Ministério da Defesa. Ademais, cabe ressaltar ainda, que a presente pesquisa terá seu desenvolvimento no período de implantação do processo de transformação, uma vez que em seu planejamento geral constam as seguintes etapas: preparação (2010-2011), experimentação/implantação (2011/2014) e transformação (a partir de 2015). Esse fato possibilitará o acompanhamento do amadurecimento do processo.

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Por que escolher a Doutrina como delimitação de pesquisa? Por que excluir os demais Vetores de Transformação (VT)?

Assim como descrito por Covarrubias (2007), a transformação militar é o mais profundo nível de mudança militar, cuja caracterização se dá por intermédio do desenvolvimento das novas capacidades para cumprir novas missões ou desempenhar novas funções em combate. Além disso, Sloan (2008) coloca que a transformação militar se constitui numa mudança de forma. Sendo assim, o conjunto de procedimentos da nova forma de ser empregada a força militar devem ser reunidos num arcabouço doutrinário transformado.

Coerente com tal perspectiva, o Manual de Fundamentos Doutrina Militar Terrestre (2014, p. 1-2) apresenta a doutrina como fator determinante de capacidades. Soma-se a isso, a seguinte assertiva do Manual de Transformação do EB (2010, p. 14): “[...] a doutrina é o motor da transformação do Exército”.

Desta feita, verifica-se que tais considerações reforçam a importância basilar da doutrina no processo de transformação da Força Terrestre.

Conforme citado anteriormente, a transformação militar foi concebida a partir da verificação da existência de fatores críticos, que se constituíam em

Figura 2: Cronograma geral da Transformação do Exército

Fonte: O Processo de Transformação da Força Terrestre – 3ª Ed, 2010.

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óbices a serem vencidos pela Força Terrestre para a implantação de novas concepções. Nesse contexto, a doutrina estava inserida como um dos principais aspectos de deficiência no EB. Sendo assim, a Força Terrestre estabeleceu os chamados vetores de transformação (VT), cuja finalidade se constitui na suplementação dos óbices retro-mencionados.

Diante das considerações acima, o presente trabalho buscará enfocar a doutrina como aspecto a ser estudado, devido ao entendimento de que esta represente o principal vetor de transformação militar com a responsabilidade de conduzir a Força Terrestre da Era Industrial para a Era da Informação.

Por que apresentar as contribuições para a Defesa Nacional?

No prefácio do Manual de Fundamentos “O Exército Brasileiro” (2014) consta a seguinte assertiva: “O EXÉRCITO BRASILEIRO é uma instituição em constante evolução; preserva os mais fortes sentimentos de orgulho por seu País e de amor por sua gente; e existe para defender a Pátria!” (BRASIL, 2014, grifo nosso). Nesse contexto, percebe-se que a finalidade da existência da força militar se deve à necessidade de defesa do Estado. Orientado com tal pensamento, constata-se que a força armada é organizada a partir de uma doutrina de emprego, cujo propósito é a reunião de procedimentos militares padronizados para tornar eficiente a defesa da nação.

Conforme se verifica na obra de Farrell, Rynning, & Terriff “Transforming Military Power”, lideranças militares da França julgaram que sua Força Terrestre estava despreparada para participar da campanha do Golfo (1991) ao lado das forças ocidentais. Sendo assim, esse evento motivou a implementação de uma transformação militar no citado País. Contudo, inicialmente, tal transformação se caracterizou pela ineficiência em virtude da doutrina e da tecnologia não caminharem simultaneamente. A partir dessa percepção as lideranças do País corrigiram tal distorção, permitindo que o Exército Francês alcançasse o nível de eficiência necessário à habilitação ao combate moderno, tal como se verificou no Afeganistão, na Costa do Marfim, em Gana e no Líbano. Sendo assim, torna-se

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possível constatar a influência da doutrina militar na eficiência da capacidade de defesa de uma nação.

Nesse contexto, o presente trabalho se propõe a apresentar as contribuições da evolução da doutrina militar para a defesa nacional, diante do atual processo de transformação militar experimentado pelo EB. Tal fato se deve ao entendimento de que mudança militar, cuja caracterização se deve por intermédio do estabelecimento de novas capacidades, sinaliza a necessidade do desenvolvimento de nova doutrina, implicando em consequências para a Defesa Nacional.

1.4 CONTRIBUIÇÕES

A partir da década de 1970, o mundo iniciou uma nova fase denominada

“Era da Informação”19, em virtude da particular celeridade no que se refere as mudanças favorecidas pelo intenso fluxo de informações disponíveis. Ademais, percebe-se que o século XXI encontra-se completamente inserido nesse contexto de atualizações dinâmicas e contínuas do mundo atual. Sendo assim, nesse ambiente significativamente mutável, as questões de segurança têm evoluído progressivamente, implicando em continuados estudos sobre as formas de neutralização das ameaças surgidas.

Tal como descrito anteriormente, após os ataques terroristas de setembro de 2001, estudiosos em defesa constataram o surgimento de debates relacionados aos novos desafios à segurança internacional, devido as ameaças não-convencionais apresentadas. Nesse sentido, verifica-se um movimento mundial no sentido da implementação de alterações na forma de empregar as forças de defesa dos países, seja pelo emprego de novas tecnologias, seja pelo desenvolvimento de novas doutrinas militares; com a finalidade de atuar em

19 Humbert, M. Technology and Workforce: Comparison between the Information Revolution and the Industrial Revolution. University of California, Berkeley, 2007.

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guerras irregulares. Tal fato pode ser percebido por meio da seguinte assertiva de Elinor Sloan (2008):

Um aspecto do debate envolve a confiança em tecnologias avançadas e novas doutrinas na condução da guerra convencional para as quais a Revolução em Assuntos Militares (RMA) foi concebida. Um segundo, desde o 11/9, mais centralizado na área de preocupação que concerne sobre a aplicabilidade das origens RMA para guerra irregular não convencional.20 (SLOAN, 2008, p. 123)

Nesse contexto, nações ocidentais passaram a desenvolver caminhos para adaptar suas Forças de Defesa ao enfrentamento das novas ameaças surgidas. Orientado nessa direção, constata-se que “Conduzidos pelas experiências do Iraque e Afeganistão, o mundo ocidental está focando sua atenção nas transformações [...]” (SLOAN, 2008, p. 126)21. Além disso, (FARREL, RYNNING, & TERRIFF, 2013, p. 194) colocam que a França norteou a implementação de sua transformação militar a partir da reedição do Livro Branco de Defesa Francês, em 1994, em virtude da verificação do despreparo de suas Forças Terrestres ante as ameaças modernas.

Já a OTAN atentou para a necessidade de proceder alterações no emprego de suas forças de defesa a partir da percepção da distância tecnológica entre as forças de segurança europeias e as Forças Armadas dos Estados Unidos da América (EUA), ao final da década de 1990. De acordo com Sloan (2008), o conflito no Kosovo serviu de alerta para a OTAN quanto a defasagem das capacidades militares de suas forças. Na oportunidade, a entidade verificou a necessidade de aprimoramento nas seguintes áreas:

mobilidade estratégica; logística; sobrevivência; engajamento efetivo; e comando e controle e informações.

Outrossim, constata-se ainda, que potências militares, não-ocidentais, como Rússia e China têm adotado similar postura no que se refere às mudanças

20 Tradução livre do original: “One aspect of the debate involves the reliance on advanced technologies and new doctrines in the conduct of the conventional wars for which the Revolution in Military Affairs (RMA) was arguably designed A second, much more prevalent area of concern since 9/11 centers on the applicability of transformation’s RMA origins to nonconventional, irregular warfare”.

21 Tradução livre do original: “Driven by the Iraq and Afghanistan experiences, theWestern world is focusing its attention on transformation’s middle layer”.

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militares. Alinhado nesta direção, na obra “The Chinese Army Today”, Blasko (2006), coloca que a transformação militar implementada na China teve início em 1999, por intermédio de um programa de modernização da Força Terrestre, cujo desenvolvimento se prolongaria ao longo de 20 anos. Verifica-se ainda, que tais mudanças permitiriam a transformação das características militares chinesas, capacitando o Exército a operar na Guerra da Informação.

Em que pese ter sido a primeira nação a identificar a implementação de transformações militares por parte das nações ocidentais, a Rússia iniciou o processo de mudanças militares a partir de 2003, norteada pelo lançamento de seu Livro Branco de Defesa, cujo conteúdo previa a necessidade de mudanças urgentes nas tarefas a serem executadas pelos militares russos. De acordo com Sloan (2008, p. 110), esse foi o primeiro documento relacionado a mudança da doutrina militar desde a administração de Yeltsin.

Desta maneira, a partir dos primeiros anos do século XXI, nota-se o surgimento de um movimento global relacionado às mudanças militares, em virtude da percepção da necessidade de adaptação às novas características do combate moderno. Sendo assim, constata-se a contemporaneidade do assunto;

bem como, a sua vigência até o presente, uma vez que a transformação militar é elaborada e planejada para ser implementada de forma gradual e progressiva.

Por sua vez, o Exército Brasileiro iniciou o desenvolvimento de seu processo de transformação a partir de 2010, encontrando-se atualmente em fase de implementação. Nesse sentido, nota-se a ocorrência, ainda incipiente, de produção de literatura nacional referente ao tema, sinalizando a existência de lacunas no conhecimento das transformações militares no Brasil. Esse fato possibilita o enriquecimento teórico do tema através de trabalhos científicos, tal como o presente estudo.

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2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 CONCEITOS DE TRANSFORMAÇÃO MILITAR NA ATUALIDADE 2.1.1 A REVOLUÇÃO TÉCNICA MILITAR

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a comunidade de defesa internacional passou a empregar com frequência o termo "revolução" ao se referir às mudanças militares que estavam sendo desenvolvidas pelos soviéticos. Esta revolução envolvia novas formas de empregar as forças militares, as quais faziam uso de armamentos com novas tecnologias. Nesse contexto, Mary C. FitzGerald (1987, p. 1) coloca que o General Nicolai V.

Ogarkov destacou-se por suas pesquisas e análises acerca do assunto. Ogarkov acreditava na obsolescência da doutrina Sokolovsky22 e no surgimento de novas ameaças. Para o citado estudioso militar o conflito nuclear tornara-se improvável.

Ao longo da década de 1980, Ogarkov publicou artigo e livros, além de conceder entrevistas afirmando que o conflito nuclear infligia danos inaceitáveis a todas as nações envolvidas no confronto. Afirmava ainda, sobre a impossibilidade de destruir adversários nucleares apenas com um disparo, inviabilizando o discurso empregado à época de desenvolvimento de uma guerra limitada (FITZGERALD, 1987, p. 2). Sendo assim, todas as nações envolvidas num confronto nuclear sofreriam danos irreparáveis em suas pátrias.

Ogarkov apontou ainda para os avanços tecnológicos dos armamentos apresentados ao mundo, os quais possibilitariam novos desdobramentos aos combates a serem desenvolvidos no futuro. Essas constatações baseavam-se no surgimento de armamentos não-nucleares com grandes possibilidades de destruição, assim como, o aparecimento de munições de maior precisão. Além disso, vislumbrou a possibilidade do desenvolvimento simultâneo de diferentes

22 “Em janeiro de 1960 Krutchev anuncia a doutrina Sokolovski, nome do marechal que lhe dera forma.

No campo nuclear assentava na ideia de que todo conflito entre as duas superpotências, a ocorrer, seria necessariamente nuclear desde o início.” (CORREIA, 2010, grifo nosso)

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operações em múltiplos campos de batalha, na Europa. Ademais, o acompanhamento do desenvolvimento de estratégias não-nuclear por parte dos EUA e das tropas da OTAN reforçavam suas convicções. (FITZGERALD, 1987, p. 4)

Ogarkov afirmava que os EUA e seus aliados da OTAN estavam desenvolvendo moderna estratégia não-nuclear para enfrentamentos futuros, baseada em avanços tecnológicos e novos conceitos - sistemas de armamentos com possibilidades de lançamento de munições de precisão, sistemas de observação e reconhecimento, sistemas de comando e controle, dentre outros.

Tudo isso, com a finalidade de "[…] liquidar o socialismo em um ou mais países do Pacto de Varsóvia e enfraquecer significativamente a União Soviética"23. (FITZGERALD, 1987, p. 9)

Essa nova estratégia implicava na necessidade do aprimoramento da estratégia militar soviética, em meios e doutrinas militares. Contudo, para isso seria necessário o abandono de posicionamentos antigos e adoção de novas posturas frente às ameaças da época.

Diante do exposto, constata-se que os conceitos sobre a transformação militar, tal como se apresenta na atualidade, desenrolaram-se no período da Guerra Fria, com os estudos do chefe do Chefe do Estado-Maior russo – Nikolai Ogarkov – ao analisar o aprimoramento tecnológico dos Estados Unidos da América (EUA) e das nações aliadas integrantes da OTAN naquele período, além de constatar a obsolescência da teoria da guerra nuclear defendida à época. Elinor Sloan (2008, p. 2) coloca que o General Ogarkov estava convencido de que os EUA e seus aliados da OTAN implementavam a Revolução Técnica Militar (MTR)24 – primeiro estágio da transformação militar – em seu sistema de defesa. Ainda nesse contexto, Chapman (2003, p. 2) afirma que os militares russos sentiam-se profundamente ameaçados com a evolução

23 Tradução livre do original: "[…] liquidating socialism in one or more Warsaw Pact countries and significantly weakening the Soviet Union." (FitzGerald, 1987, p. 9)

24 Tradução livre do original: “Military Technical Revolution (MTR)”.

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da tecnologia militar dos norte-americanos; e ainda, infere que Ogarkov alertou aos líderes políticos à época sobre essas observações.

A literatura russa sobre tais constatações circulou entre a comunidade de defesa norte-americana ficando sob os cuidados de Andrew W. Marshall25, que segundo Sloan (2008, p. 3), aprofundou os estudos constantes destas análises, proporcionando o aprimoramento das mudanças militares nos EUA para a segunda etapa da transformação militar, denominada de Revolução nos Assuntos Militares (RMA)26. A RMA apresentava características mais profundas que a MTR. Naquela etapa aspectos organizacionais e doutrinários acompanhavam as mudanças tecnológicas apresentadas, demonstrando maior profundidade nas alterações implementadas; tal como foi possível observar durante as campanhas no Golfo Pérsico, em 1991 e 2003.

2.1.2 A REVOLUÇÃO NOS ASSUNTOS MILITARES

O citado aprofundamento no processo de mudança militar foi favorecido pela materialização de uma série de aspectos que caracterizaram a década de 1990 e os primeiros anos do século XXI. No período observou-se “Grandes avanços do poder computacional, diminuição do tamanho dos componentes dos computadores e menores custos, possibilitando um dramático progresso nas tecnologias militares”27 (CHAPMAN, 2003, p. 3). Dessa forma, os armamentos e equipamentos militares tornaram-se mais eficientes e mais baratos, proporcionando significante incremento do arsenal militar.

Além disso, o trabalho conjunto e o compartilhamento de dados entre as forças militares da coalisão contribuíram para proporcionar maior eficiência ao poder militar no enfrentamento das forças iraquianas, na segunda campanha do Golfo. Nesse contexto, Chapman (2003, p. 4) assinala que tais interações

25 Andrew W. Marshall foi diretor do Escritório de Avaliação de Redes do Departamento de Defesa norte- americano entre os anos de 1973 e 2015. (PERRY, 2008)

26 Tradução livre do original: “Revolution in Military Affairs (RMA)”.

27 Tradução livre do original: “Great advances in computational power, decreases in the physical size of computer components, and lower costs lead to dramatic progress in military technologies.” Chapman (2003, p. 4)

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apresentam-se de maneira intensa no contexto contemporâneo28. Outrossim, o mesmo autor atenta para o fato de que na Segunda Guerra do Golfo houve a maior demonstração do sucesso do trabalho conjunto do comando das forças militares da coalisão, contribuindo para a vitória das mesmas.

Do mesmo modo, a importância do trabalho conjunto também foi assinalada por outros estudiosos em defesa, Farrel, Rynning, & Terriff (2013, p.

3) colocam que a Força Aérea sozinha foi incapaz de prover a seguranca dos civis na Bósnia (1992-1995) e no Kosovo (1999), obrigando a OTAN a enviar grande força de estabilização para garantir a segurança dos mesmos (civis e militares). Já Elinor Sloan (2008, p. 6) aponta que “Um dos mais importantes dogmas doutrinários da RMA foi o aprimoramento do trabalho conjunto, ou a habilidade da Marinha, Exército e Força aérea (e Fuzileiros Navais, no caso dos EUA) de operar em conjunto”29. Dessa maneira, constata-se que a integração das ações das forças militares configurou-se como uma dos aspectos que caracterizaram o aprofundamento das transformações realizadas pelas nações do ocidente, inserindo-as na RMA.

Além disso, Chapman (2003, p. xxxx) aponta que o aprofundamento das mudanças militares permitiu o desenvolvimento de tecnologias que ajudaram a minimizar os efeitos das incertezas do combate. Nesse contexto, sensores, radares, plataformas aéreas e outros dispositivos de busca e observação possibilitaram melhor monitoramento dos meios militares das forças oponentes, com a consequente diminuição das vulnerabilidades das forças amigas, caracterizando a superioridade das informações.

De acordo com Elinor Sloan (2008, p. 21) na segunda Guerra do Golfo, a tecnologia permitiu surpreender o inimigo iraquiano por intermédio dos avanços

28 Tradução livre do original: “In the past each branch has pursued its own internal goals and developed its own traditions, doctrines and strategies, cooperating with other branches as needed. Inter-service rivalries, redundancies and conflicts have been common.” (CHAPMAN, 2003, p. 4)

29 Tradução livre do original: “One of the most important doctrinal tenets of the RMA was the emphasis on increased jointness, or the ability of the navy, army, and air force (and Marine Corps in the U.S. case) to operate together.” (SLOAN, 2008, p. 6)

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na área do C4I. A produção de veículos e plataformas dotadas de capacidades de C4I no campo de batalha, por intermédio de tecnologia satelital; assim como, a ampliação da velocidade do sistema de transmissão de mensagens, proporcionaram maior suporte à tomada de decisão das tropas da coalizão na campanha do Iraque.

A versatilidade dos armamentos, o baixo custo e a larga produção das munições de precisão apresentaram os novos rumos das mudanças militares no mundo. Chapman (2003, p. 6) atenta para o aumento do emprego das chamadas “smart bombs”, apontando que na primeira Guerra do Golfo, em 1991, “cerca de 20% das munições eram inteligentes, do total de 265 mil bombas lançadas. Já na segunda Guerra do Golfo, quase todas as bombas lançadas eram de precisão, e somente foram empregadas cerca de 27 mil”30. Tal fato permite constatar significativa redução do uso de munições, caracterizando o aprimoramento do emprego da força militar.

A RMA apontou ainda para a necessidade de reestruturação das forças militares, no sentido de as tornarem mais versáteis e eficientes. Esse aspecto favoreceu a elevação da preparação de unidades especiais. Sloan (2007, p. 2) coloca que estruturas militares pequenas e bem treinadas apresentavam maior eficiência no enfrentamento das ameaças contemporâneas quando comparadas às unidades pesadas e grandes (adotadas no passado recente – Era Guerra Fria). Tal constatação provocou reformas estruturais nos exército em várias partes do mundo, implicando em reflexos na conscrição militar, cuja necessidade apontava para a captação de soldados profissionais (dotados de capacidades específicas), além do aumento do emprego de Unidades de Forças Especiais.

Segundo Chapman (2003, p. 7), no Afeganistão as Forças Especiais do Exército norte-americano obtinham resultados surpreendentes em virtude de

30 Tradução livre do original: "In the 1991 Gulf War in Iraq, for example, about 20 percent of bomb munitions were "smart" weapons, out of a total of about 265,000 bombs dropped. In Iraq in 2003, however, nearly all the bombs used were precision-guided, and only 27,000 were used, or a little more than ten percent of the figure of 12 years earlier)." (CHILDS, 2003 APUD CHAPMAN, 2003)

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