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A CRIANÇA, SUA "DOENÇA" E OS OUTROS

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Academic year: 2021

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M A N N O N I , M.

A CRIANÇA, SUA

"DOENÇA" E OS OUTROS

São Paulo, Via Lettera, 1999

Tradução: Monica Seincman

Marize Lucila Guglielmetti

Fazer uma resenha sobre o livrou criança, sua "doença"eos Outros consistiu e m u m desafio: existiria algo n o v o a ser dito s o b r e Mannoni? Trinta e dois a n o s a p ó s a sua primeira tradu- ç ã o publicada

1

, a psicanalista Monica S e i n c m a n

2

encarregou-se d e fazer u m a n o v a . Tal iniciativa r e m e t e u à pergunta s o b r e o sentido especial q u e haveria e m retomar e s s e texto hoje, n o fi- nal d o milênio. S e m hesitação, ocorre q u e a primeira tradução

3

deixa muito a desejar p o r sua precariedade. Infelizmente, esta parece ser a realidade q u e se p e r c e b e e m outras obras da autora.

S e g u n d o D . C h e c c h i n a t o , "é lamentável q u e a sua o b r a tenha sido mal traduzida a o português"

4

. Apenas isto, por si só, é m o - tivo mais d o q u e suficiente para justificar q u e a o b r a citada, as- sim c o m o as demais, seja traduzida dignamente. C o m isso, n o m í n i m o , estaríamos r e s g a t a n d o u m a dívida c o m a autora e o leitor d e psicanálise e m geral e, particularmente, c o m aquele in- teressado na psicanálise d e crianças.

Partindo d e u m a contextualização geral, t o m a n d o as pró- prias palavras d o livro, "a m a i o r parte d o c o n t e ú d o d e s t e foi o b j e t o d e c o n f e r ê n c i a s pronunciadas e m diversas universida- d e s n o p e r í o d o d e 1963 a 1967..."

5

. D e a c o r d o c o m a própria Mannoni

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, este livro foi escrito q u a n d o seus interlocutores "pri-

• Psicanalista. Coordenadora do atendimento do Lugar de Vida.

(2)

vilegiados" eram Lacan, Dolto, depois Winnicott e Laing. "Al- guns capítulos foram objeto de um debate no Instituto Psicana- lítico de Londres." Segundo ela, Winnicott a interroga sobre por que "curar", quando muitas vezes basta "acompanhar" um ser em seu sofrimento

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, lamentando-se de que os adolescentes psicóticos não tenham "um lugar onde delirar" sem que a quimioterapia intervenha buscando cortar este efeito.

No livro aqui em questão, Mannoni tenta esclarecer o "mal- estar" integrante da família e localiza dois tipos de discursos:

1 - o discurso fechado, em que há uma recusa à experiência analítica. Dá-se uma narração diante do analista, em vez de para o analista. Os pais buscam uma confirmação da irrecuperabilidade do quadro;

2 - o discurso de drama, em que há um pedido de ajuda. A análise é então possível, e o tratamento consistirá em encontrar, na palavra do adulto, o que marcou a criança no plano do corpo.

Por meio de exemplos, de casos clínicos, Mannoni demons- tra como o limite encontrado com um paciente consiste no pró- prio limite do analista. O analista que se deixa interpelar pela loucura aceita deixa-se questionar em algum sentido em sua pró- pria "loucura". O outro ponto é o das discussões sobre a subs- tituição da escuta de um discurso pela concepção de graus de desenvolvimento, ou seja, tratar da doença, mas não do doente.

Aos que ainda não tomaram conhecimento da obra, farei uma apresentação mais detalhada comentando o seu conteúdo.

Na frase de abertura da Introdução, encontramos a afirmação

"A psicanálise de crianças é a psicanálise". Mais que uma afir- mação, é uma declaração de princípio que traz embutida a ques- tão crucial da existência da psicanálise de crianças. A despeito de certas adaptações técnicas à abordagem de uma criança, o campo em que um analista opera é o campo da linguagem (mes- mo que a criança ainda não fale). O discurso que acontece en- globa os pais, a criança e o analista. O mal-estar de que se fala objetiva-se na criança, mas diz respeito ao adulto. Este mal-es- tar não se refere a uma realidade, mas aos desejos e fantasias.

Por meio de uma retomada histórica, Mannoni caracteriza os principais parâmetros desse campo, ou seja, partindo de Freud e passando por Abraham, Melanie Klein, Laing, Erikson, en- contra-se a oscilação entre dualidades. Assim, quanto ao campo do sintoma, por um lado, atribui-se a este o caráter de discurso, e, por outro, este fica "objetivado" nos distúrbios orgânicos ou maturacionais etc.

Já no nível da técnica, encontra-se a nova divisão - a fala

ou a expressão lúdica. O jogo é tomado por Freud (1908 e 1920)

como um texto a decifrar. A escola americana, com a "play-

therapy", desvirtuou a contribuição freudiana, interessando-se pe-

los padrões motores do jogo. Com Erikson, dá-se o retorno a

Freud. Melanie Klein, em 1919, introduziu o jogo com a carac-

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terística rigorosa da análise d o s adultos. O p r o b l e m a é q u e , c o m a introdução de grande quantidade de brinquedos, a inter- pretação ficou comprometida, porque estes ficam reduzidos a símbolos. Quanto a isto, se ficarmos atentos às formulações de Freud, perceberemos o equívoco, pois o discurso apresentado pela criança c o n t é m significantes, e n ã o símbolos.

O u t r a s q u e s t õ e s n ã o m e n o s c r u c i a i s , relativas à s especificidades da análise d e crianças, serão desdobradas n a Parte I e m três capítulos: "Sintoma o u fala", "A transferência na psicanálise d e crianças" e "A psicoterapia d e psicoses".

N o "Sintoma o u fala", salientam-se dois p o n t o s . O pri- m e i r o poderia ser r e s u m i d o nas seguintes frases: o sintoma torna-se u m a l i n g u a g e m cifrada, e, d e a c o r d o c o m Freud, a criança enfrenta conflitos identificatórios d e s d e q u e n a s c e . O s dois e x e m p l o s q u e s e s e g u e m ilustram estas afirmações.

Assim, F r a n ç o i s e D o l t o diz q u e , n a crise das crianças d e 2 0 m e s e s q u e sofrem p e l o n a s c i m e n t o d e u m irmão, o q u e elas p e d e m é u m a palavra justa. S e esta n ã o v e m , s ó lhes resta

"denunciá-la" c o m desordens d e seu comportamento. Freud, t o m a n d o c o m o e x e m p l o o p e q u e n o Hans, demonstra c o m o o e p i s ó d i o n e u r ó t i c o d e s t e manifesta o q u e e l e n ã o p o d e significar n a linguagem.

N o s e g u n d o , c o m o diz Freud, o sintoma s e m p r e inclui o sujeito e o O u t r o . M a n n o n i t o m a c o m o e x e m p l o o c a s o S a m apresentado p o r Erikson, e m q u e a escuta dos pais per- mite à m ã e n ã o ter mais necessidade da criança para expres- sar o p r ó p r i o p r o b l e m a . A q u i a q u e s t ã o está n o l a ç o m ã e - filho, m a s a d v é m da relação fantasmática da m ã e c o m a sua ascendência judaica.

N o capítulo "A transferência na psicanálise d e crianças", a resposta à q u e s t ã o d e s e h á o u n ã o transferência e m psica- nálise d e criança d e p e n d e das diferentes c o n c e p ç õ e s dos au- tores. Alguns tomam a afetividade, o comportamento e a adap- tação c o m o elementos. Mannoni considera a questão por m e i o da neurose d e transferência. T o m a c o m o e x e m p l o o c a s o J o y (11 a n o s ) e Dottie (7 a n o s ) . N o primeiro, a n e u r o s e d e trans- ferência n ã o foi abordada p e l o analista, e p o r isso J o y perma- n e c e u paralisado. No segundo, a transferência expressa u m a defesa c o n t r a a angústia e m c a s a , n a e s c o l a e n a análise. A analista t o m o u a transferência dirigida a sua p e s s o a , o q u e impediu o surgimento d o elemento simbólico. Este c a s o m o s - tra q u e , na análise d e crianças, n o s referimos às várias trans- ferências (a dos pais, a da criança e a d o analista).

N o c a s o d a c r i a n ç a p s i c ó t i c a , é i n c l u i n d o a r e l a ç ã o

patogênica mãe-filho tal qual na transferência, e n ã o apenas a

denunciando, q u e o trabalho analítico deve ser feito. E c o m a

inclusão d o e l e m e n t o terceiro (significante) q u e a m ã e irá si-

tuar-se e m r e l a ç ã o a o seu filho. Estes e l e m e n t o s p o d e m ser

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visualizados n o s c a s o s relatados d e Christiane e S o p h i e . T a m - b é m é importante incluir a escuta da pessoa q u e substitui a mãe, pois ela r e c e b e a carga d e angústia mortífera da criança. C o n - cluindo, o s pais estão s e m p r e incluídos n o sintoma da criança.

H á diferenças q u a n t o a o s pais n a n e u r o s e e na p s i c o s e . C o m o exemplos de análise do neurótico, vide casos J o y e Dottie.

Na n e u r o s e , a q u e s t ã o n ã o c o n s i s t e n o fato d e h a v e r o u n ã o transferência c o m o analista. Trata-se d e q u e esta se dá entre a criança, o s pais e o analista. A criança n ã o é uma entidade e m si, ela é abordada a princípio pela representação q u e o adulto tem dela. J á na psicose, há u m investimento m a c i ç o de confiança o u desconfiança dos pais sobre o analista. A questão é se ele p o d e - rá suportar o u n ã o tal carga.

"A psicoterapia das psicoses", o terceiro capítulo atravessa o difícil c a m p o das p s i c o s e s infantis. E m parte d a d i s c u s s ã o quanto aos fatores orgânicos ou psicogênicos, por e x e m p l o , s ã o citados o s casos d e Sophie, Emile, Christiane e Leon, n o s quais a princípio a hipótese d e lesão neonatal foi levantada e o fator orgânico parecia estreitamente ligado a o fator psicogênico. Pos- teriormente, para L e o n e S o p h i e a h i p ó t e s e d o fator o r g â n i c o foi afastada.

O prognóstico d e melhora desses casos n ã o d e p e n d e tan- to da é p o c a e m q u e o tratamento foi iniciado, m a s d o tipo d e discurso parental e n c o n t r a d o . À luz d e vários c a s o s clínicos, são retomados o s conceitos d e discurso fechado - discurso fixo q u e evoca a c o n d e n a ç ã o - , n o s e x e m p l o s da m ã e de Christiane, d e D e n i s e Veronique

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, e o d e discurso d e drama - e m q u e há u m a p e l o a u m a ajuda. Nos dois casos existe o desejo mortífero inconsciente d e q u e a criança p e r m a n e ç a doente, e e m a m b o s n ã o há lugar para o sujeito na fala materna. O s pais dirigem-se a o analista para falar d e si próprios.

C o m o já foi dito anteriormente, o discurso f e c h a d o é u m relato diante d o analista m a i s q u e para o analista. A m ã e d e Christiane traz u m a a n a m n e s e detalhada, p r o d u t o d o s fatos - sua visão é apresentada c o m o objetiva - "e a estrita realidade", diz ela. O passado da criança é reordenado n ã o para fazer dele surgir u m sujeito, m a s para fixá-lo. O analista é situado n o lugar d e cúmplice d e sua mentira. Não há lugar para o terceiro. Nes- tes casos se nota c o m o o genitor patogênico constitui o seu pró- prio ideal d o eu. As intervenções aqui p o d e m provocar a para- lisação d o tratamento.

N o discurso d e drama, o analista é atingido p e l o s desejos

mortíferos d o genitor e m face d o filho. O drama aqui n ã o é a

d o e n ç a , m a s a existência d o s pais. Este desejo mortífero s ó s e

desfaz n o plano simbólico através da fala. C o m e ç a r o tratamen-

to d e u m a criança psicótica é entrar e m u m drama através da

interação d o s discursos d o s pais e da criança. N ã o é a análise

dos genitores q u e é necessária, m a s a referência d o que, na fala

(5)

d o adulto, m a r c o u o c o r p o da criança.

Para Rosenfeld, n a fase aguda da doença, todas as técnicas psicoterapêu- ticas, sejam quais forem as referências teóricas, a l c a n ç a m s u c e s s o . É n a fase crônica silenciosa q u e o sucesso depen- d e d e c o m o ela é manejada.

A escola kleiniana p r o p õ e u m tra- b a l h o estrito c o m e s s a fase a g u d a . O sucesso da análise depende da compre- e n s ã o d o s m e c a n i s m o s psicóticos e m situação transferenciai. A contratrans- ferência d o analista leva-o, muitas v e - zes, a abandonar a técnica clássica. É a sua própria angústia que o impele a pro- curar m é t o d o s d e reasseguramento. O psicótico é visto c o m o a q u e l e trauma- tizado a q u e m a felicidade faltou. Pro- cura-se suprir o q u e faltou c o m gratifi- cações. Deixa-se d e investigar s e o q u e l h e falta é d a o r d e m da frustração d e objeto n o real, implicando o d a n o ima- ginário, o u s e d a o r d e m s i m b ó l i c a , e e n t ã o a privação produziu-se, p r o v o - c a n d o n a criança u m a ruptura c o m o real. A criança, a o d e m a n d a r a satisfa- ç ã o d e u m a n e c e s s i d a d e , d e m a n d a o amor. O objeto d a d o o u recusado pela m ã e é sempre investido c o m o u m sinal d e a m o r o u desamor etc.

O a p e l o d e a m o r c o n s e r v a e m si sempre u m a dimensão d e insatisfação.

I s t o faz c o m q u e a c r i a n ç a , a l é m d e suas necessidades, relance a d e m a n d a d e amor. S e a m ã e n ã o p o d e suportar e s s a falta, e s s e v a z i o , e l a o i m p e d i r á d e articular o q u e q u e r q u e seja a l é m d e u m a d e m a n d a e para a l é m da m ã e . A saída simbólica será b l o q u e a d a pela m ã e , q u e r e s p o n d e r á n o real e n o ní- vel da necessidade.

É na situação analítica q u e a crian- ça psicótica p õ e e m j o g o algo essencial d o desejo q u e tenta manter-se n o nível d e u m a demanda n o plano enganador d o real. Cabe a o analista fazer surgir u m terceiro. Ele será o juiz da verdade q u e e m e r g e d o d i s c u r s o m a n t i d o p a r a o

analista. N o c a s o d e psicose, para q u e 0 terceiro advenha, é necessário q u e o analista e n c a r e o s e u p r ó p r i o d e s e j o encurralado e d e s n u d a d o p e l o sujeito.

A a ç ã o d o analista situa-se n u m plano diferente d o da pura técnica relacionai.

Na Parte II, Mannoni mergulha na clínica, atravessando quatro casos e ar- ticulando o s pontos teóricos desenvol- v i d o s n a P a r t e I. Enfatiza n o s títulos d e cada caso, apresentando a questão da marca produzida por uma fala ou por u m silêncio, pelas questões embutidas numa pergunta ou num fato, como, por exemplo, a morte de u m pai. Desta for- m a , e n c o n t r a m o s u m a r e t o m a d a d o s principais p o n t o s levantados n a Parte 1 c o m a sua reafirmação.

A l é m d e s s e c o r p o d o livro p r o - priamente dito, encontramos ainda u m Apêndice c o m três textos:

"A d e b i l i d a d e m e n t a l e m q u e s - tão"

9

, e m q u e , n u m a r e t o m a d a histó- rica, M a n n o n i parte d o p e r í o d o ante- rior a Freud, q u a n d o a loucura e a de- bilidade restringiam-se à a b o r d a g e m r e l i g i o s a o u j u r í d i c a c l a s s i f i c a t ó r i a . C o m F r e u d , i n a u g u r a - s e a é p o c a d e escutar o sofrimento q u e fala n o doen- te. C o m isto e s t a b e l e c e - s e a valoriza- ç ã o da fala d o d o e n t e mais q u e a sua d o e n ç a . A e x p e r i ê n c i a d e Itard ilus- tra o q u e a c o n t e c e c o m a d e b i l i d a d e mental. Trata-se d e u m a tentativa fra- cassada d e e d u c a ç ã o por m e i o d e u m a relação d e sujeição a o Outro via ades- tramento.

Na é p o c a , a alternativa das inter-

v e n ç õ e s resumia-se à escola ou a o hos-

pital. E m o p o s i ç ã o a isto, Mannoni de-

fende a posição d e dar a palavra a o su-

jeito, q u e n ã o é n e m o sujeito da neces-

sidade, n e m o da conduta, n e m m e s m o

o d o c o n h e c i m e n t o . É u m sujeito q u e

p o r sua fala dirige u m a p e l o , procura

f a z e r - s e o u v i r ( m e s m o n a r e c u s a ) ,

constitui-se, e m sua relação c o m o O u -

tro. E m s u a " d o e n ç a " é p r e c i s o c o n -

(6)

siderar o lugar d a a n g ú s t i a m a t e r n a . Qual o valor q u e essa d o e n ç a tem para a m ã e

1 0

.

Há linguagem m e s m o que não haja fala. Este j o g o inicia-se entre a m ã e e o s e u b e b ê d e s d e o p r i m e i r o grito, e é através d e l e q u e o d e s e j o d e t o m a r a palavra vai surgir. Q u a n d o esta troca n ã o ocorre, por causa dos fantasmas d e m o r t e da m ã e , a c r i a n ç a n ã o s e r e c o - n h e c e c o m o h u m a n a e p e r m a n e c e muda. Pode, também, desenvolver uma forma de alienação ou retardamento in- telectual. O tratamento s e dá p o r m e i o d e u m a reconstrução da história da fa- mília, e m q u e a criança é inscrita numa linhagem. Este é o c a m i n h o d o a c e s s o a o simbólico.

"O balanço de uma experiência e m externato m é d i c o - p e d a g ó g i c o "

1 1

abor- da o trabalho institucional, o s seus ins- trumentos d e intervenção, o s seus ins- trumentos terapêuticos, a função de u m psicanalista, relatando a experiência de u m a p e q u e n a instituição. Ressalta-se aqui a importância da p r e s e r v a ç ã o da dimensão simbólica c o m o estratégia d e tratamento.

"As dificuldades d e c o l a b o r a ç ã o entre psicanalistas e educadores e m ins- tituição" parte da questão quanto às pos- síveis relações entre psicanálise e edu- c a ç ã o n o s c a s o s das crianças q u e n ã o acompanham a escolarização normal. A c o n c e p ç ã o tradicional baseia-se e m cri- térios d e a d a p t a ç ã o . A o contrário, n a instituição dedicada à escolarização d e crianças deficientes, o lugar da psicaná- lise n ã o se limita a o tratamento das mes- m a s , m a s t a m b é m da e s c u t a analítica dedicada aos educadores que são o s su- portes da angústia desta. E neste p o n t o q u e assistimos à transformação q u e vai sofrer a pedagogia. Pedagogos e psica- nalistas n ã o t ê m d e s e instituir c o m o

"operários" colaborando c o m o m e s m o objeto, mas c o m o guardiães d o funcio- namento correto da instituição.

A título d e c o m e n t á r i o final, des- t a c a r í a m o s dois p o n t o s : e m p r i m e i r o lugar, o livro c o m o u m t o d o é impor- tante e atual ainda h o j e , 3 0 a n o s a p ó s ter sido produzido. S e m dúvida, dá re- ferências e instrumentos aos q u e estão envolvidos n a clínica. Principalmente, aos q u e se dedicam à clínica da psicose infantil e m instituição. Eis aqui as qua- tro dimensões que são contempladas n o livro: a clínica das p s i c o s e s e deficiên- cias infantis, a intervenção institucional, a teoria e a pesquisa e m psicanálise.

Detectamos a maior densidade nas partes I e II, certamente p o r causa d o s aportes teóricos ali apresentados, arti- culados à intervenção clínica.

Quanto aos apêndices, ali são per- corridas d e forma mais rápida algumas q u e s t õ e s e m r e l a ç ã o à i n t e r v e n ç ã o institucional e à pesquisa. A grande ri- q u e z a está localizada n a fluidez e visi- bilidade das articulações teóricas rela- cionadas aos vários casos clínicos apre- sentados.

U m o u t r o a s p e c t o q u e gostaría- m o s de ressaltar é que, d o ponto de vis- ta da teoria, r e c o n h e c e m o s o Lacan d o s i m b ó l i c o

1 2

n o s principais e i x o s teóri- c o s apresentados, o u seja, o pressupos- t o d o i n c o n s c i e n t e estruturado c o m o linguagem, a ênfase na questão da fala relativa a o significante. T r a n s p a r e c e m a doutrina d o significante e o analista na posição d o Outro

1 3

. Aliás, neste sen- tido o p r ó p r i o título d o livro já a n u n - cia a i m p o r t â n c i a q u e s e r á d a d a a o O u t r o . Estes e i x o s p e r m e i a m t a n t o a e l a b o r a ç ã o da teoria q u a n t o a d o s c a - sos clínicos.

Finalmente, r e c o m e n d a m o s o tex-

to aos q u e já c o n h e c i a m a obra através

da tradução anterior, p o r q u e agora esta

está b e m feita. Aos que o desconhecem,

fica a r e c o m e n d a ç ã o d e e m p r e e n d e r

essa leitura s e m demora. •

(7)

NOTAS

1

Em 1967 pela Zahar.

2

Pela Via Lettera.

3

Vide nota 1.

4

Revista Estilos da Clínica, 4, p.103.

5

A criança, sua "doença "eos Outros, p.8.

6

Revista Estilos da Clínica, 4, p.8.

7

Idem, p.9.

8

A criança, sua "doença" eos Outros, p.l03e p . l l l .

9

Idem, p.215, publicado no número espe- cial de Esprit, L'Enfance Handicapée, em novembro de 1965.

10

Ibidem, p.205.

11

Ibidem, p.232, a ser publicado em número especial óeNmropsychiatnelnfantile.

1 2

Refiro-me aqui às três doutrinas da cura em Lacan-.

1 - a do imaginário, ligada ao Estado do Espelho, período de 1936 a 1954;

2 - a do simbólico, período de 1958 a 1964;

3 - a do real, período de 1964 a 1967.

1 3

Conforme o texto "A direção da cura e

os princípios do seu poder", que consta dos

Escritos de J. Lacan.

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