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1964 – 31 de Março

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O Movimento Revolucionário e a sua História

1964 – 31 de Março

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2

BIBLIOTHECA DO EXERCITO Casa do Barão de Loreto

— 1881 —

Fundada pelo Decreto n

o

8.336, de 17 de dezembro de 1881, por FRANKLIN AMÉRICO DE MENEZES DÓRIA, Barão de Loreto,

Ministro da Guerra, e reorganizada pelo General-de-Divisão VALENTIN BENÍCIO DA SILVA, pelo Decreto n

o

1.748, de 26 de junho de 1937.

Comandante do Exército

General-de-Exército Francisco Roberto de Albuquerque Departamento de Ensino e Pesquisa General-de-Exército Ivan de Mendonça Bastos

Diretor de Assuntos Culturais

General-de-Divisão Roberto Viana Maciel dos Santos Diretor da Biblioteca do Exército Coronel de Engenharia Luiz Eugênio Duarte Peixoto

Conselho Editorial Presidente

Coronel de Artilharia e Estado-Maior Luiz Paulo Macedo Carvalho Beneméritos

General-de-Divisão Carlos de Meira Mattos Coronel Professor Celso José Pires

Membros Efetivos

Embaixador Álvaro da Costa Franco Filho General-de-Divisão Ulisses Lisboa Perazzo Lannes

General-de-Brigada Aricildes de Moraes Motta General-de-Brigada Cesar Augusto Nicodemus de Souza Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Nilson Vieira Ferreira de Mello Coronel de Engenharia e Estado-Maior Luiz Carlos Carneiro de Paula

Professor Doutor Arno Wehling Professor Doutor Ricardo Vélez Rodríguez Professor Doutor Guilherme de Andrea Frota

Biblioteca do Exército Editora

Praça Duque de Caxias, 25 – Ala Marcílio Dias – 3

o

andar 20221-260 – Rio de Janeiro, RJ – Brasil Tel.: (55 21) 2519-5707 – Fax (55 21) 2519-5569

DDG: 0800 238 365 Endereço Telegráfico “BIBLIEX”

E-mail: [email protected]

Homepage: www.bibliex.com.br

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3

Biblioteca do Exército Editora Rio de Janeiro

2003

Coordenador Geral Aricildes de Moraes Motta

TOMO 15 Distrito Federal

O Movimento Revolucionário e a sua História

1964 – 31 de Março

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4

1964 – 31 de Março: O Movimento Revolucionário e a sua História Tomo 15 Copyright © 2003 by Biblioteca do Exército Editora

Coordenador Regional – DF Entrevistador

Leslie Antonio Alcoforado

Coordenador Assistente do Projeto de História Oral do Exército Aurelio Cordeiro da Fonseca

Capa

Murillo Machado

Revisão

Ivan Pedro César da Cunha Solange d’Almeida Telles

Impresso no Brasil Printed in Brazil M637 1964 – 31 de março : o movimento revolucionário e a

sua história / Coordenação geral de Aricildes de Moraes Motta. – Rio de Janeiro : Biblioteca do Exército Edi- tora, 2003.

XXXt. – (Biblioteca do Exército; 745)

ISBN 85-7011- - (t. 15)

1. Brasil – História – Revolução, 1964. 2. Militares – Entrevistas. I. Motta, Aricildes de Moraes.

CDD 981.06

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Sumário

Apresentação ... 9

Considerações Metodológicas ... 15

Ai dos vencidos ... 25

ENTREVISTAS General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros ... 27

Deputado Federal Bonifácio de Andrada ... 65

General-de-Divisão Sylvio Ferreira da Silva ... 117

General-de-Divisão Ulisses Lisboa Perazzo Lannes ... 125

General-de-Brigada Danilo Venturini ... 147

General-de-Brigada Fernando Cardoso ... 257

Coronel José Campedelli ... 269

Coronel Anysio Alves Negrão ... 319

Coronel Aluisio Madruga de Moura e Souza ... 351

Major João Barcelos de Souza ... 357

ANEXOS Relação dos entrevistados ... 389

Mortos pela subversão ... 397

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Nisi utili est quod facimus stulta gloria

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Apresentação

O segundo empreendimento realizado sob a égide da História Oral do Exército incide sobre o Movimento Revolucionário de 31 de Março de 1964.

Criado por uma Portaria Ministerial, em 3 de março de 1999, e implementado a partir de janeiro de 2000, assenta-se sobre as vivências de civis e militares, estes em maior número, narradas nas 250 entrevistas que estão reunidas em uma coletâ- nea de livros editados pela Biblioteca do Exército.

O primeiro projeto – Segunda Guerra Mundial –, extraordinariamente bem- sucedido, orientou, por isso mesmo, o emprego de idêntica metodologia neste outro sobre a Revolução de 1964. A propósito, os dois trabalhos, conduzidos para- lelamente, na fase das entrevistas, foram executados nas seis coordenadorias origi- nalmente organizadas: Brasília–DF, Fortaleza–CE, Recife–PE, Rio de Janeiro–RJ, Belo Horizonte–MG, Porto Alegre–RS e São Paulo–SP.

Ambos os projetos retratam, pela maioria dos entrevistados, a participação, naqueles contextos históricos, dos integrantes da Força Terrestre, das outras For- ças Armadas, bem como de civis que contribuíram com suas valiosas experiências e insopitável patriotismo.

Esta coletânea, sobre o Movimento armado de 1964, visa a tornar mais co- nhecido o processo revolucionário, especialmente pela palavra daqueles que, ago- ra, ganham a oportunidade de expor suas motivações, identificar seus propósitos e narrar suas ações.

Com suspeita insistência, desde o final do ciclo revolucionário, mormente

por parte da mídia, o que é posto à mostra está quase sempre falseado. Homens

impenitentes, sob o império de motivações ideológicas, movem insidiosa campa-

nha, por intermédio da qual praticam escancarado “revanchismo”.

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Todos são cativos da ignorância ou da má-fé, no intuito de impedir que as novas gerações possam pesquisar, estudar, ler e encontrar a verdade. Outros seto- res, como os de certos responsáveis pela educação de nossos jovens, poucos feliz- mente, mas atuantes nas salas de aula, bem como autores de compêndios escola- res, pela palavra e pela pena, indisfarçadamente, reescrevem a história, falsificada a seu talante. E destacam-se, nesse mister, posto que utilizam artifícios e técnicas hábil e sutilmente preparados. Têm a seu favor os inocentes úteis, pouco habitua- dos a refletir sobre o que lêem e escutam. É o velho e eficaz princípio: “Vale mais a versão do que o fato.”

Pois essa cantilena espúria tem circulado livremente, verdadeiro desvio da história, mesmo quando, por um descuido, ou num rasgo de sinceridade, vem a público, alguém, para dar, de forma altiva, o seu testemunho sobre o que aconte- ceu naqueles idos dos anos de 1960:

Com a coragem de um herói da Segunda Guerra Mundial, Salomão Malina, último secretário-geral do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), admitiu que setores do partidão, com o apoio de Luís Carlos Prestes, chegaram a conspirar para dar um golpe, em 1964, antes da tomada do Poder, em 31 de março, pelos milita- res... Havia uma corrente golpista no partidão, em 1964. Foi um equívoco de pes- soas que não avaliaram bem que a correlação de forças, na sociedade, não estava a nosso favor.

1

Apoiados por coniventes ocupantes de postos de mando destacados, pre- miam criminosos e desconhecem as vítimas mais humildes que apenas cumpriam suas missões e tarefas a serviço das autoridades constituídas.

Assaltantes, seqüestradores, terroristas, desertores, agora, são regiamente abonados.

Afinal, os que aqui falam, oferecem, ao livre exame de todos os brasileiros, o que há “do outro lado da colina”.

Se não viessem à tona, porque, até então, vedados os acessos e canais da livre expressão do pensamento, não se conheceriam as palavras daqueles que foram compelidos a agir em favor da sociedade ameaçada, em conjuntura tão delicada para nosso País.

Não se pretende entronizar a polêmica. Mas é forçoso reconhecer que os fatos devem ser analisados de forma justa, limpa e honesta, e que, ao menos, se

1

O Globo – Sexta-feira, 24 de maio de 2002: “O Último Secretário”. Livro lançado no Museu da República,

prefaciado pelo jornalista Elio Gaspari, em homenagem a Salomão Malina, quando completava 80

anos de idade.

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ofereçam, aos jovens estudiosos, pesquisadores e interessados pelo conhecimento desses episódios de nossa história recente, as informações provenientes de todas as partes envolvidas.

Ditadura? Regime autoritário? Revolução? Contra-revolução? Golpe militar?

Contragolpe?

As respostas estão aqui.

General Aricildes de Moraes Motta

Coordenador Geral

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Se o que fazemos não é útil, estulta é a glória

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Estas considerações destinam-se, basicamente, a abordar a Metodologia em- pregada em trabalhos de história oral temática, como no Projeto em tela, criado pelo Ministro do Exército, que visa, fundamentalmente, aos seguintes objetivos:

— registrar os relatos das personalidades que, direta ou indiretamente, par- ticiparam da Revolução de 31 de Março de 1964;

— recuperar dados e informações sobre fatos e episódios importantes para a História do Brasil, ocorridos no evento supracitado; e

— construir um acervo, adequadamente preparado, para consultas, pesqui- sas e outros misteres de fundamental interesse para a Força Terrestre.

De certo modo, a história oral carece de uma maior especificação teórica, apesar de já possuir uma apreciável literatura tratando de sua conceituação e ba- ses metodológicas. Podemos afirmar que seu estatuto está mais ligado à prática do que a um pensamento teórico estruturado.

Segundo um dos seus fundadores, Louis Starr, a história oral “é mais do que uma ferramenta e menos do que uma disciplina”. Este conceito, que permanece atual, evidencia que a história oral, mais que um campo novo de reflexão, tem servido a todas as outras disciplinas, como metodologia de obtenção de dados ou, mesmo, como técnica auxiliar.

As mutações que se observam no campo da História, abrindo espaço para o estudo do presente, do político, da educação integral, com ênfase no papel do indivíduo no processo social, vêm estimulando o uso das fontes orais e reconhecen- do a importância da história oral como método de pesquisa.

No entender de José Carlos Sebe Bom Meihy, “usar a história oral como técnica equivale a dizer que as entrevistas não se compõem como objetivo central e sim como um recurso a mais. No círculo dos usuários da história oral, mais adensado

Considerações Metodológicas

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tem sido o grupo que parte do princípio de que esta se constitui em um objetivo definido, com procedimentos claros e preestabelecidos que a justificam como um método. Nesse caso, ela encerra o fundamento da pesquisa e, na hipótese de uso de outras fontes, elas se sujeitam ao debate central decorrente das fontes orais. A vanguarda da história oral no mundo busca, contudo, fixar fundamentos episte- mológicos capazes de dar forças à proposta da história oral como disciplina”.

Pelo prisma dos historiadores da Universidade de São Paulo que se dedi- cam ao estudo do assunto, a história oral confunde-se, muitas vezes, com o fazer histórico, respondendo as indagações da história, como disciplina. A documenta- ção oral ou escrita, com a qual trabalha, está intimamente ligada à história de vida e, por via de conseqüência, à sua fonte, que é a entrevista, em suas mais variadas interfaces.

Em nossos trabalhos, dividimos a entrevista em três fases: a pré-entrevista, a entrevista propriamente dita e a pós-entrevista.

A pré-entrevista é o planejamento, o plano de entrevista, iniciando-se com os contatos que o pesquisador, no caso também entrevistador, mantém com o en- trevistado, chamado, em história oral, de colaborador.

Tais contatos visam primeiramente prestar ao colaborador informações so- bre o tema, a concepção e os escopos do projeto de história oral; a forma adotada para desenvolvê-lo; e a dimensão e importância de sua participação, sempre com a finalidade de motivá-lo e incentivá-lo a cooperar por meio de seu depoimento.

O entrevistado pode, no primeiro contato, por motivo de idade avançada, estado de saúde ou, simplesmente, por modéstia, subestimar suas experiências, julgando irrelevante a sua contribuição. A nossa postura, na posição de entrevistador, tem se voltado para o rompimento dessas barreiras. É importante encorajar o en- trevistado, através de argumentação convincente, bem como oferecer-lhe todo o apoio possível para concretizar a sua participação. Faz-se necessário criar um ambi- ente o mais descontraído possível para que o colaborador se sinta perfeitamente à vontade, sobretudo no momento e no local da entrevista.

Por meio dos contatos da pré-entrevista, visamos, ainda, fazer chegar ao

colaborador, com a devida antecedência, o questionário contendo as perguntas

básicas, preestabelecidas, do tema em pauta, de forma a orientar a sua preparação

para a entrevista. Com o questionário, remetemos modelo de curriculum vitae e a

solicitação de sua possível observância, com o objetivo de padronizar, nas seis

Coordenadorias Regionais, o “Plano de Entrevista” no que concerne à apresentação

dos colaboradores, o que avulta de importância por refletir essa homogeneização

em todas as coletâneas, independente do local onde sejam preparadas.

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Outro objetivo a destacar na fase da pré-entrevista é alcançado através da remessa pelo entrevistado de outros documentos (livros, artigos, diários, relató- rios, cartas etc.), além do seu currículo, o que possibilita ao entrevistador a complementação do questionário, ao qual já nos referimos, facultando a prepara- ção de novas perguntas, específicas para aquele colaborador, sobre episódios por ele vividos dentro do tema em estudo, enriquecendo a entrevista e os conhecimen- tos dela advindos.

Dos documentos referentes à Revolução de 31 de Março de 1964, que permi- tem a elaboração de perguntas adicionais em proveito da maior eficácia das entre- vistas, citamos os relatórios, boletins internos e históricos da organização militar do colaborador; livros e artigos da lavra do entrevistado ou de integrantes de sua Unidade; jornais e revistas da época da eclosão do Movimento de 1964 e do período dos governos revolucionários.

Ao analisar o questionário, na fase da pré-entrevista, sugerimos ao colabo- rador informar ao entrevistador se irá responder a todas as perguntas ou que ques- tões deixará de abordar, normalmente por não se referirem a fatos por ele vividos ou de seu conhecimento. Nesta ocasião, entrevistador e entrevistado podem definir o tipo de entrevista a ser adotado, que se resume a dois:

— o entrevistado faz um relato inicial sobre a sua participação no evento definidor do projeto (Revolução de 31 de Março de 1964) e responde, após sua narrativa, a perguntas selecionadas do questionário, complementando, assim, sua exposição.

— o entrevistado responde exclusivamente às indagações do questionário recebido, às quais poderão ser acrescidas outras, formuladas, como vimos, com base na documentação entregue ao entrevistador. Neste caso, antes de passar às perguntas, é de bom alvitre que o entrevistador dê a palavra ao colaborador para sua mensagem inicial, na qual faz, normalmente, breves considerações sobre o projeto e a sua participação no mesmo.

Após a decisão sobre o tipo de entrevista a ser adotado, ficamos habilitados a confeccionar o “Plano de Entrevista”, que se inicia, como mostramos, com a apresentação do entrevistado, através de seu currículo resumido.

O esclarecimento sobre o tipo de entrevista segue-se à apresentação do co- laborador, vindo, na seqüência, as perguntas, a que já nos referimos. No “Encerra- mento do Plano”, incluímos o agradecimento ao entrevistado pela participação.

A respeito das perguntas relativas à Revolução de 31 de Março de 1964,

devemos afirmar que a primeira é a que permite ao entrevistado relatar, livremente

e de forma ampla, sua participação pessoal, de seus chefes, pares e subordinados

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nos pródromos do Movimento de 1964, no seu surgimento e nas suas conseqüên- cias. As demais questões possibilitam ao entrevistado opinar sobre: antecedentes da Revolução – suas raízes, causas imediatas e preparação; panorama político bra- sileiro anterior a 31 de março de 1964; o significado das Marchas da Família com Deus pela Liberdade; desencadeamento do Movimento armado e sua evolução; a posição da “mídia” e da Igreja em relação à Revolução (na sua eclosão, durante a fase revolucionária e após 1985); o ciclo de presidentes militares e suas realiza- ções; objetivos da luta armada (urbana e rural), desencadeada por extremistas de esquerda, sua orientação e o apoio externo; a necessidade de criação dos órgãos de informações e de operações; acertos e erros da Revolução; o desengajamento dos governos revolucionários da condução política do País; o processo político rema- nescente; o “revanchismo”; a imagem do Exército Brasileiro e os seus elevados índices de aceitação junto à sociedade, conforme pesquisas de opinião; mensagem final do entrevistado para o Projeto em tela.

A forma de entrevistar varia de acordo com o objetivo proposto no projeto.

Em determinados casos, como na primeira pergunta do Projeto de História Oral do Exército na Revolução de 31 de Março de 1964, a que já nos referimos, o entrevis- tado dispõe de integral liberdade para a sua narrativa. Nessa situação, como em outras semelhantes, em que as questões formuladas proporcionam relatos amplos, a organização cronológica fica, via de regra, a cargo do narrador.

No que concerne à seleção dos colaboradores para participar dos projetos, vale registrar alguns termos consagrados em história oral, com seus respectivos conceitos, os quais guardam uma relação direta com o universo a pesquisar:

— Colônia: formada a partir do estabelecimento de um grupo de pessoas ligadas por traços comuns. Comunidades amplas, das quais alguns com- ponentes serão entrevistados. No nosso caso, os critérios para a defini- ção da colônia vinculam-se ao tema e ao objetivo do Projeto em anda- mento. Em nosso Projeto de História Oral do Exército na Revolução de 31 de Março de 1964, a colônia é formada por militares e civis que partici- param do evento.

— Rede: parcela da Colônia selecionada para ser entrevistada. No nosso caso, tal decisão se baseia em parâmetros estabelecidos pelos Coordenadores Regionais, com base na Ordem de Serviço (OS) n

o

015-SG/3, da Secretaria Geral do Exército, de 29 de outubro de 1999, e no Plano Geral de Proje- tos, do Coordenador Geral, de 3 de janeiro de 2000.

Releva dizer que, escolhidos e contatados os futuros colaboradores, faze-

mos, também, na fase da pré-entrevista, o preenchimento da “Folha de Endereços

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dos Entrevistados” e da “Folha Registro de Entrevistas”, esta contendo o número da entrevista e o nome dos entrevistados; a data e o número de ordem da entrevista dentro do projeto, bem como da função do colaborador na época do evento (Revo- lução de 31 de Março de 1964). Este registro é concluído na pós-entrevista, com a duração e quantidade de fitas de vídeo e de áudio de cada depoimento. Trata-se, por conseguinte, de oferecer uma visão global de todo o trabalho desenvolvido.

A formação da Rede em história oral muito se beneficia das sugestões dos colaboradores. Por isso, a entrevista inicial não deve ocorrer aleatoriamente. Da- mos preferência a pessoas que possuam conhecimento sobre a história do grupo, abrangido pelo tema, e que reúnam, por conseguinte, condições de prestar assesso- ria a respeito da indicação de futuros entrevistados.

Vistos os aspectos fundamentais relacionados com a metodologia por nós empregada na pré-entrevista, volvemos nossa atenção para a entrevista propria- mente dita, que não é mais do que a execução do planejamento elaborado na pré-entrevista.

Entrevista, em história oral, é falar hoje sobre o ontem, permitindo a preser- vação da experiência histórica de uma organização, instituição ou de um povo.

Cumpre destacar que ela não se restringe à possibilidade de comprovar ou desmentir idéias ou acontecimentos. Compreende, especialmente, o registro de como alguém analisa sua vivência.

Na entrevista, é fundamental a disposição de ouvir, o interesse e o respeito pelos pontos de vista dos que se propõem a divulgar suas experiências.

No dizer de Alessandro Portelli, “deve-se compreender que, na situação de entrevistador, o oralista não se coloca diante de fontes, mas de pessoas. Não estuda o grupo de colaboradores, mas aprende com eles”. Assim, o entrevistado é o sujei- to-colaborador e não somente o objeto do conhecimento.

O estímulo ao entrevistado deve ser uma preocupação constante do entrevistador, não só nos contatos da pré-entrevista, mas durante toda a realização da entrevista.

Em história oral, há dois tipos de entrevista: entrevista única e entrevista múltipla. O nosso Projeto vem sendo executado por meio de entrevistas únicas, com duração máxima de quatro horas. Os colaboradores têm utilizado, normalmen- te, cerca de duas horas, havendo, no entanto, entrevistas mais longas, com três horas e umas poucas que se aproximam do limite estabelecido.

No que tange ao aspecto do valor das entrevistas, há duas correntes funda-

mentais, que adotam posições muito nítidas: a primeira entende que os depoimen-

tos orais preenchem as lacunas deixadas pelas fontes escritas, enquanto outros

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acham que os depoimentos orais, por si só, bastam para se conhecer a história. Nessa segunda abordagem, atribui-se um papel central às relações entre a memória, fon- tes orais e a história.

Quanto à definição de fonte, há também duas posições bem definidas entre os oralistas: os que consideram a fita, com registro de voz ou imagem e voz, o documento básico e original e os que atribuem essa prerrogativa ao trabalho escri- to resultante de algum tipo de transcrição da entrevista gravada.

Independente da posição dos estudiosos no que respeita a definição de fon- te, é mister realizar a atividade de transcrição, o que nos leva a uma defrontação com o problema permanente, configurado pela passagem do código oral para o escrito, dadas as naturais deformações da linguagem oral, que se acentuam na mudança para o documento escrito.

O primeiro passo realizado nesse sentido é o que se denomina de transcrição absoluta, com a qual chegamos ao primeiro texto escrito, onde se observam as falhas normais da linguagem coloquial e do informalismo natural da entrevista.

Nesta fase inicial da transcrição (etapa da transcrição absoluta), reproduzi- mos o que foi dito na entrevista integralmente, palavra por palavra, mantendo a gramática e a ordem dos vocábulos, exatamente como na entrevista oral.

Na segunda fase da transcrição, na chamada transcrição editada ou transcri- ção com edição, o texto da transcrição absoluta é depurado, tornando-o gramati- calmente correto, inclusive com o aperfeiçoamento da redação, eliminando vícios de linguagem, palavras repetidas, reproduzindo, todavia, fielmente a fonte oral.

Incluímos na transcrição absoluta, assim como na transcrição com edição, tudo que está gravado, perguntas e respostas, inclusive as “muletas” usadas pelo narrador, sendo as mais usuais o “você sabe” ou “veja bem”. Não transcrevemos, porém, o gaguejar, na procura de uma palavra. Como regra, tudo o mais figura na transcrição, sendo certo que, na transcrição com edição, não devem constar abusos de palavras como as acima mostradas, nem as expressões muito repetidas como

“daí em diante” e “depois disso”, que só podem ser mantidas em dose suficiente para o leitor sentir o tipo de narrativa.

De importante, cumpre assinalar que a transcrição, absoluta ou editada, nada mais é do que o nome atribuído tanto ao ato de reproduzir a entrevista oral em um texto escrito, quanto ao material resultante dessa prática.

Quando nesta síntese metodológica, bem como em qualquer outro traba-

lho de nossos projetos, falarmos somente em transcrição, trata-se da transcrição

com edição, na qual o texto passou por todas as correções necessárias à busca da

melhor redação possível, obedecidas as regras gramaticais e a boa linguagem

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escrita, observando-se, concomitantemente, os ditames estabelecidos pela história oral, já apresentados nos seus aspectos principais.

Cabe asseverar que uma entrevista de uma hora de duração exige, em mé- dia, seis horas para a sua transcrição editada, o que demonstra a complexidade desse trabalho.

O outro passo, após se obter a transcrição editada, é o que se chama, em história oral, de textualização.

Textualização é, pois, a transcrição, com edição, sem as perguntas e com a fusão das respostas.

Em outras palavras, diz-se que, quando são suprimidas as perguntas e fundi- das as respostas, estamos diante da textualização, etapa onde o texto passa a ser predominantemente do narrador.

Apresentamos a seguir a esquematização da passagem do código oral para o escrito, objetivando firmar os conceitos mencionados.

Vale ressaltar, nesta oportunidade, que a presente Coletânea compila entre- vistas transcritas, o que implica a manutenção das perguntas ou sua substituição por subtítulos contendo as idéias-força que as representem, antecedendo as res- postas dos depoimentos orais.

A decisão da Coordenadoria Geral pela transcrição levou em conta a necessi- dade do exato conhecimento pelo leitor daquilo que se perguntou, apesar de que a maioria das indagações, no Projeto de História Oral do Exército na Revolução de 31 de Março de 1964, tenha sido respondida por quase todos os entrevistados, uma vez que se deseja a opinião do maior número de colaboradores sobre as mesmas

Texto gravado da entrevista (documento oral) Transcrição absoluta (1º documento escrito)

Transcrição com edição (2º documento escrito)

Textualização (3º documento escrito)

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questões, o que possibilita covalidações das respostas e, portanto, do pensamento de uns pelos outros, do que decorrerá uma resultante muito significativa.

Na fase da pós-entrevista, se insere: a assinatura da Carta de Cessão de Direi- tos, que trata da autorização dada pelo colaborador para o uso da entrevista (do- cumentos orais e escritos) pelo Exército no caso; a conferência, que é a entrega do texto por nós ao entrevistado, para suas observações anteriores à publicação; as atividades complementares, que incluem o recebimento de novos documentos que o colaborador venha a trazer no dia da entrevista ou nos dias imediatos a ela, os quais se diferenciam daqueles que nos são encaminhados na fase da pré-entrevista, porque os remetidos inicialmente influem na entrevista, enquanto que os últimos servirão apenas como subsídio para consultas e trabalhos futuros, a cargo de histo- riadores, pesquisadores e estudiosos em geral, que também poderão se valer dessas novas fontes, sejam orais ou escritas.

Outra atividade complementar, realizada na pós-entrevista, refere-se à con- fecção da Ficha Registro de Entrevista (FRE), que reúne todos os dados e informa- ções de determinada entrevista, a saber: o número e data da entrevista; função do entrevistado na época do evento estudado pelo Projeto; número de fitas de vídeo e de áudio utilizadas; informações sobre Carta de Cessão de Direitos; degravação, transcrição e textualização da entrevista; listagem da documentação oral e escrita entregue pelo entrevistado, além do seu currículo. Há, portanto, tantas FRE quantas forem as entrevistas realizadas.

A conclusão do preenchimento da Folha Registro de Entrevista é, também, uma atividade complementar da pós-entrevista, como anteriormente mostramos.

A etapa da Consolidação da Documentação, também chamada Arquivo ou Arquivamento, engloba os procedimentos regulares de guarda e conservação de toda a documentação oral e escrita: Ficha Registro de Entrevista, Cessão de Direi- tos, Plano de Entrevista, currículos, documentação da entrevista (vídeos, fitas cas- setes, CDs, disquetes, fotografias, textos da degravação, transcrição e textualização), além da documentação oral e escrita complementar entregue pelo colaborador antes, durante ou depois do seu depoimento.

Para a consolidação, optou-se por pastas que permitem o arquivamento de toda a documentação citada nas FRE. Em todas as Coordenadorias, para efeito de padronização, as pastas de cada projeto são identificadas por determinado tipo de cor.

É importante enfatizar que as fitas Super VHS ou Betamax – mais nitidez,

legibilidade e riqueza de detalhes do que as fitas comuns – são as utilizadas nas

gravações (fita matriz ou fita bruta), bem como na edição (fita editada), a qual

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servirá para realizar toda e qualquer cópia, inclusive a da fita brinde que o Projeto oferece ao colaborador, como lembrança de sua participação.

Paralelamente, realizamos a gravação da entrevista em fitas cassetes, as quais são utilizadas no processo de degravação, poupando-se, deste modo, a fita de vídeo. Essa forma de gravação representa, portanto, um eficaz dobramento do meio audiovisual.

O fluxograma de progressão do trabalho, a seguir apresentado, resume as diversas atividades que se sucedem no desenvolvimento de um projeto de história oral temático. Impende salientar que não há história oral sem um projeto, determi- nado previamente, que oriente e organize a pesquisa.

Pelo que vimos, sobretudo pelas considerações teórico-metodológicas apre- sentadas, avulta de importância a assertiva que bem sintetiza a relevância dos trabalhos de História Oral do Exército, em desenvolvimento nas nossas seis Coordenadorias Regionais:

“A história busca produzir um conhecimento racional, uma análise crítica através de uma exposição lógica dos acontecimentos e vidas do passado. A memó- ria é também uma construção do passado, mas pautada em emoções e vivências; ela é flexível, os eventos são lembrados à luz da experiência subseqüente e das neces- sidades do presente.”

Rio de Janeiro, RJ, 16 de julho de 2002.

General Aricildes de Moraes Motta Coordenador Geral

General Geraldo Luiz Nery da Silva

Coordenador Regional RJ/MG

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE, Francisco Roberto de (Secretário-Geral Ex) Metodologia constante da OS n

o

015 – SG/3 – Projeto de História Oral, Brasília – DF, 29 de outubro de 1999.

FERREIRA, Marieta de Moraes (Coord); ABREU, Alzira Alves de; FARIAS, Ignez Cordeiro de; DIAS, José Luciano de Mattos; D’ARAÚJO, Maria Celina; MOTTA, Marly Silva da; ALBERTI, Verena. Entrevistas:

abordagens e usos da história oral. Editora da Fundação Getúlio Vargas – Rio de Janeiro – RJ, 1994.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da Fala para a Escrita, Atividades de Retextualização. 1

a

Ed., São Paulo, Cortez Editora, 2001.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. 3

a

Ed. São Paulo, Edição Loyola, abril de 2000.

MOTTA, Aricildes de Moraes – Plano Geral de Projetos, Coordenadoria Geral de História Oral do Exército.

Rio de Janeiro – RJ, 3 de janeiro de 2000.

NEVES, Eloiza; BRITO, Fábio Bezerra de; TALARICO, Fernando; LIMA, Luiz Filipe Silvério; MOURA, Ricardo e RIBEIRO, Suzam Lopes Salgado. O NEHO – Núcleo de Estudos em História Oral da Universidade de São Paulo – e a experiência de pesquisa em história oral, 1

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PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflexões sobre a ética na história oral, abril de 1997.

THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: história oral, 2

a

Ed., São Paulo, Paz e Terra, 1998.

(26)

A poderosa mídia oficial que, durante mais de 20 anos, enalteceu e justificou a contra-revolução militar de 31 de março de 1964, cospe agora, com cara de nojo, no prato que comeu. Desde muito antes até pouco depois do período em que os militares estiveram no Poder, quando ainda tentava ser independente e tinha firme liderança, sempre afirmou que a derrubada de Jango e seus pelegos era em defesa da democracia contra um golpe de estado, cujo objetivo estava na submissão do Brasil a uma ditadura do proletariado. Os mesmos que admitiram ter até participado do mo- vimento em entusiásticos editoriais enchem agora a boca para falar em retrocesso e não se cansam de maldizer as Forças Armadas.

Foi, de fato, um longo regime de exceção e, como tal, apresentou as falhas inerentes a qualquer sistema autoritário, em termos do inadmissível cerceamento de liberdades e dos muitos inocentes que se tornaram vítimas inevitáveis dos excessos cometidos. Mas não é este o motivo de nossos comunas rosnarem suas frustrações, mas sim porque eles sabem ser impraticável, hoje, concretizar suas antigas obsessões, graças àquela intervenção. Explica-se, assim, o ressentimento contra o Brasil fardado.

Quando os americanos liberaram documentos que explicam como a Casa Bran- ca acompanhou os acontecimentos há 40 anos, as esquerdas se comportaram como se o Kremlin não estivesse fazendo a mesma coisa, da forma que podia, pelos verdadei- ros golpistas. Ainda que tamanha obtusidade fosse factual, como esperavam que Washington visse o movimento militar? Evidente que era a favor, ora essa. Nem preci- sava nos entregar a papelada. Gordon contava tudo a Johnson? Claro; para isso ser- vem os embaixadores. Os Estados Unidos eram a favor? Óbvio; porque americano

Ai dos vencidos *

* Artigo publicado, em 7 de abril de 2004, no Jornal do Brasil, onde o

escritor Antonio Sepulveda escreve às quartas-feiras.

(27)

nunca fez graça para comunista. Dispostos a ajudar? Certamente; pois era assim que as coisas funcionavam na guerra fria. Lembremo-nos de que os soviéticos não hesita- ram em interferir na Hungria e na antiga Checoslováquia. Os americanos, afinal de contas, fizeram o quê? Nada, porque nada lhes foi pedido.

O fato inequívoco é que os brasileiros tratamos de tudo sozinhos num dos maiores consensos políticos da nossa história. O resto é hipocrisia de um bando de sacripantas que dizem haverem lutado contra a ditadura, quando, na verdade, foi a ditadura que lutou contra eles; e, por causa deles, cometeram-se erros deploráveis.

Autoproclamavam-se idealistas, e o ideal que acalentavam era transformar o Brasil numa Cuba.

Acontece que havia gente de bem, que era contra aquela sublimidade toda e lutou para impedi-la. Reagiram com determinação. Nada mais. Quem acredita nessa lorota de que os meninos estavam a estudar postos em sossego, e os ‘’marighellas’’ a cismar altas políticas, mas, de repente, descobriram que havia uma ditadura no Brasil e pegaram em armas? Negativo. Aquela gente tinha um propósito sinistro muito bem definido. E hoje sabemos que estavam errados.

Os militares agiram na hora certa e evitaram um cenário muito pior, dominado por um regime odioso que só causou o mal por onde passou. Assim fez o General Franco na Espanha, Pinochet no Chile, e assim fizeram os coronéis na Grécia. Agora, os marxistas tupiniquins podem dizer e escrever o que quiserem, porque, atualmen- te, são, todos eles, muito democratas. Mas o tempo não volta atrás. Perderam a única chance tangível que tiveram. Foram vencidos.

Antonio Sepulveda

(28)

Natural da Cidade do Rio de Janeiro.

Graduou-se Aspirante-a-Oficial de Artilharia, em 1

o

de março de 1943, última turma totalmente formada na antiga Escola Militar de Realengo que foi, mais tarde, transferida para a cidade de Resende-RJ. A declaração de aspirantes, em 1

o

de março, deveu-se à compressão do curso, uma decorrência da Segun- da Guerra Mundial.

Principais funções militares: Instrutor-Chefe do Curso de Artilharia da Acade- mia Militar das Agulhas Negras (AMAN), de 1959 a 1961; Chefe da 2

a

Seção do IV Exército; Instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME);

Comandante do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) de Belo Horizonte-MG. Após sua promoção a General, em julho de 1975, dirigiu a Escola Nacional de Informações (EsNI) e chefiou o Serviço Nacional de Informações (SNI), durante vários anos. No posto de General-de-Exército, esteve à frente do Comando Militar da Amazônia (CMA) e do Departamento Geral de Pessoal (DGP), quando foi transferido para a reserva.

Possui todos os cursos regulares do Exército, inclusive o de Técnica de Ensino.

No exterior, ocupou o cargo de Adido Militar junto à embaixada do Brasil em Israel, nos anos 1973/1974, quando se deu a guerra do Yon Kippur.

Ao eclodir o Movimento Revolucionário de 1964, o General Medeiros era Te- nente-Coronel e encontrava-se na ECEME.

General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros

Entrevista realizada nos dias 5 e 19 de agosto e 2 e 14 de setembro de 2004. Texto revisado pelo Coronel

Carlos Leger Sherman Palmer.

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General Medeiros, antes das perguntas sobre a Revolução, gostaria que o senhor comen- tasse sua passagem por Israel. Este é um país que mantém boas relações com o Brasil, tem ligações sólidas com os Estados Unidos, a Inglaterra e com o Canadá; disseram-me que os adidos militares desses três países recebiam um tratamento um pouco diferenciado em relação aos demais, e que o senhor mudou isso. Como ocorreu a sua passagem por Israel?

Com bastante trabalho. Em Israel, desde o início de 1973, integrei-me muito bem com o pessoal militar. Era bem-visto pelos oficiais daquele país. Atribuo essa facilidade de aproximação à identidade de pensamento sobre diversos assuntos, tanto militares quanto aos ligados à nacionalidade. Foi muito fácil fazer amigos.

Durante o tempo em que lá permaneci, ocorreu a guerra do Yon Kippur, uma tragé- dia para eles. Dada a intimidade que tinha adquirido com oficiais de algum desta- que no Exército, recebi a deferência de ser levado, sem a presença dos companhei- ros dos outros países, a visitar os campos de guerra do Egito e da Síria, onde assisti, de perto, a tragédia da guerra; inclusive alguns cadáveres dos combatentes ainda se encontravam no terreno, insepultos. Por isso, mostraram-me, realisticamente, o que havia acontecido por ali.

Foi uma deferência, porque os demais Adidos Militares não foram juntos.

Normalmente, só visitam a área depois da guerra, depois que a paz é assina- da. Mas eu tinha amigos, um deles, homem muito importante, embora eu fosse Coronel. Era o Chefe do Serviço de Informações do Exército de Israel. Talvez até tenha sido um ponto de aproximação, saber que eu era ligado à atividade de infor- mações; ninguém contou, mas eles se informam sobre tudo. Dessa forma, tornou-se muito fácil para mim. A formação militar, o nível de educação e estrutura familiar pareciam com a minha. Não enfrentei, pois, nenhuma dificuldade.

Tratou-se de uma deferência especial ao Exército Brasileiro, ao Brasil e ao senhor, evidentemente. Uma deferência especial ao então Coronel Medeiros.

Sempre manifestavam muito interesse, pois desejavam fortalecer os laços de amizade com o Exército Brasileiro, com os oficiais brasileiros. Perguntavam tudo, queriam saber de tudo, e eram muito cordiais.

General, o que o senhor gostaria de comentar sobre a eclosão do Movimento Revolucioná- rio de 31 de Março de 1964? Seria também interessante uma abordagem sobre as dificuldades enfrentadas.

Antes de fazer meus comentários sobre fatos relacionados ao Movimento de

1964, seria oportuno lembrar que, na segunda guerra travada por Israel, ainda me

encontrava lá. Talvez tenha sido mais cruel do que a do Yon Kippur. Até já terminara

meu tempo como Adido Militar, e aguardava a chegada do meu substituto que,

(30)

afinal, demorou mais de seis meses. Entretanto, fui beneficiado porque aprendi muito, vivendo no meio do povo, atuando profissionalmente junto a uma força armada envolvida num conflito bélico. Alguma coisa de singular experiência para o espírito e para a mente. É muito importante. Penso que se houvesse uma maneira de empregar mais oficiais do Exército em situações semelhantes àquelas que vivenciei, certamente iriam adquirir uma noção bem mais significativa da realidade castrense em ambiente de guerra.

O senhor percebeu, no povo de Israel, uma mudança de comportamento? A guerra fez com que voltassem às tradições, renovassem os suportes de sua cultura?

É verdade. Nunca vi um povo fortalecer tanto a união, organizar-se com o pensamento voltado unicamente para a Pátria, encarando realisticamente a situação do país, tudo com um decidido acento de devoção religiosa. Foi uma experiência muito emocionante para mim. Foi um presente ter participado de tudo aquilo.

Na época em que foi desencadeada a Revolução, eu servia na Escola de Co- mando e Estado-Maior (ECEME). O meu Comandante era um homem notável, o Gene- ral Mamede (Jurandir de Bizarria Mamede), e seu Subcomandante, o então Coronel João Bina Machado, também um oficial de plana.

Um dos homens de grande cultura e bastante influente em todos os campos de ação da Escola, certamente um militar brilhante, infelizmente já falecido, era o General Figueiredo (João Baptista de Oliveira Figueiredo). Além de ser meu primo em segundo grau, tornou-se quase um irmão para mim, tal o crescimento de nossa amizade.

Na Escola, chocavam-nos os desregramentos e o descalabro das ações de gover- no do Sr. Goulart, Presidente da República. Acentuou-se o seu relacionamento quase promíscuo, em desfavor da hierarquia e da disciplina, com marinheiros e graduados.

Víamos aquilo tudo com preocupação e mesmo atemorizados.

João Figueiredo, ainda Coronel, de ânimo forte, foi, muitas vezes, procurar o Sr. João Goulart para mostrar-lhe a inconveniência de sua conduta em relação, prin- cipalmente, às Forças Armadas. Figueiredo era intimorato. Talvez até demais. Nós, como amigos, trocávamos idéias, inclusive com outros oficiais, principalmente os mais chegados a ele e a mim. Até que um dia, era um sábado, próximo do dia 31 de março, encontrava-me na casa do meu pai, quando tocou o telefone; a ligação era para mim. Fiquei curioso porque nunca me ligaram para lá. Era ele, o General Figueiredo.

Vou fazer um pequeno parêntese aqui. Em virtude de nossa amizade, tudo aquilo que era muito difícil ou perigoso o João gostava de compartilhar comigo. Eu gostava disso, pois era uma prova de confiança.

Nesse dia, então, ele procedeu exatamente assim. Disse-me ao telefone: “Medeiros,

estão realizando uma reunião num apartamento do bloco de alunos da ECEME, dirigida

(31)

por fulano de tal, e lá se encontram vários oficiais. Já estão até preparando seus unifor- mes de instrução. Há um caminhão do Exército, no Largo do Machado, esperando por eles. Pretendem invadir a Base Aérea de Santa Cruz.”

A Base era comandada pelo Coronel-Aviador Rui Moreira Lima, sujeito extra- ordinário, meu amigo e que, como tenente, se destacou pelos atos de heroísmo como piloto do 1

o

Grupo de Caça da Força Aérea Brasileira, na Campanha da Itália/

2

a

Guerra Mundial (Grupo “Senta a Pua”). Um dado curioso: o Rui me ajudou no aprendizado das técnicas da corrida de 100 metros. Mas preferiu voltar-se para o comunismo, aliás em alta no Governo João Goulart. Por isso havia receio de que a Base Aérea pudesse representar um sério problema na mão deles. Era um foco a partir do qual seria possível concretizar algum tipo de ameaça aérea na área do Rio de Janeiro.

Figueiredo me disse: “Eles estão lá, estão querendo sair e invadir a Base Aérea; entre 20 e 30 oficiais.” Respondi: “Está bem, você quer que eu veja isso; quer que eu desmanche tudo ou siga com eles?” A resposta veio rápida: “Não, eu conheço você, siga para lá, com o seu jeito, e desmanche tudo. Mas desmanche bem para que não se tornem nossos inimigos.” Concordei: “Tudo bem, deixe comigo, vou tentar”.

Peguei meu carro e fui para a ECEME. Era um sábado, a Escola vazia, fui ao tal prédio onde estava reunido o pessoal. Procurei o apartamento, entrei, ficaram muito ad- mirados: “Mas o senhor aqui, Coronel Medeiros!” Disse: “Ouvi uns boatos e vim para cá. O que vocês estão pretendendo fazer? Invadir a Base Aérea de Santa Cruz!?” Eles concordaram: “É isso mesmo! É isso mesmo! O Moreira está fazendo besteira lá, fechando a Base, dizendo que ninguém entra lá, que vai revoltar a Base, tal e coisa.”

Alertei-os: “O Rui Moreira Lima sempre foi um homem muito decente, meu amigo e ele não pode estar fazendo uma coisa dessas. Deve estar faltando um amigo perto para tirar essas coisas da cabeça dele.” O pessoal começou a ficar inquieto, e eu perguntei: “O que vocês estão planejando fazer?” Disseram que já tinham um caminhão pronto, aguardando. Os oficiais estavam com o uniforme de instrução debaixo do braço, para levar e trocar na viagem: “Vamos descer e invadir a Base, prender o Comandante.”

Brincadeira! Entrar numa Base Aérea enorme, cheia de militares, e prender o

Comandante! Disse: “Não, isso não é tão fácil quanto estão pensando. Vou pedir a

vocês que raciocinem comigo sobre o que pode acontecer.” Apresentei uma série de

argumentos. Eles foram “amolecendo” e, dali a pouco, disse para mim mesmo: “Agora

posso sair, porque eles não vão mais.” Continuei a conversar, especialmente com um

que se intitulava o chefe, e insisti na pergunta: “Mas o que é que você e seus

companheiros vão fazer?” Foi quando respondeu: “Não vamos fazer mais nada; foi

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muito bom o senhor ter argumentado, comentado sobre prós e contras... Vamos deixar isso para outro dia. Depois a gente pensa melhor.”

Saí, telefonei para o Figueiredo e informei: “Caso resolvido, mas estou com medo, porque essa coisa está se espalhando e o lado de lá está se preparando. Na Marinha já existe um movimento muito grande de marinheiros. Acho bom a gente tomar qualquer providência”. Ele me disse: “Você fica na Escola e vê o armamento existente, o que o pessoal pode fazer, o que vai ser possível aproveitar desse mate- rial”. Respondi: “Está bem, depois me comunico com você. Mas saiba, vou dormir aqui, qualquer coisa, a qualquer hora que você queira falar comigo, me telefone.”

Permaneci na Escola; na sala de material bélico tinha, apenas, uma metralhadora INA e alguma munição 7mm.

Fiquei sabendo que já havia um grupo de 15 a 20 oficiais no alto do Morro da Urca, escondidos, esperando a coisa acontecer. Então, uma das primeiras providên- cias que tomei, depois da ida à sala de armamento, foi proibir o bondinho do Pão de Açúcar subir o Morro da Urca. Eles só conseguiram descer depois de três dias. A seguir, fui verificar as providências tomadas e disparar telefonemas. No dia seguin- te, o João Figueiredo chegou cedinho à Escola, queria saber de tudo. A situação piorava; em Minas Gerais, o General Mourão (Olympio Mourão Filho) iniciava o deslocamento para o Rio.

Tropas de São Paulo, do General Kruel, deslocaram-se também em direção ao Rio.

Exatamente. Permaneci na ECEME, recebendo os oficiais que chegavam. Al- guns eu chamava, colocava a par do que estava acontecendo, conversava com ou- tros, separadamente, por considerá-los importantes para a solução de qualquer problema que surgisse, como veio a acontecer no episódio do Forte de Copacabana, aliás, muito curioso.

Seguiram-se muitos fatos, que se torna um pouco difícil precisar quais e quando, agora. Por exemplo, quais os que aconteceram no primeiro dia. O João chegou à Escola, chegaram, também, o Mamede, o Bina Machado e outros oficiais, ainda atônitos. Queriam saber o que estava acontecendo. Alguém, não me lembro, possivelmente o Bina Machado, disse: “Olha, é preciso avisar o Coronel...” Não me lembro do nome. Era um coronel baixo, magrinho, brabo que só ele, muito irritadiço, até um bom profissional, fazia tudo certinho. Foi Chefe da Casa Militar do Costa e Silva; passou, também, pelo Conselho de Segurança Nacional. (O General Medeiros refere-se ao Coronel Jayme Portella de Mello, mais tarde General.)

Bem, quando as tropas de Minas e São Paulo começaram a deslocar-se em

direção ao Rio de Janeiro, começou a grande fuga, não é? Brizola, João Goulart,

este fugiu em um avião da FAB! Castello Branco era o Chefe do Estado-Maior do

(33)

Exército (EME) e se mantinha discreto. Já tinha sido contatado por nós, a fim de convencê-lo a tomar parte na Revolução, de forma que acabou aceitando.

Mas, enfim...

O senhor entende que houve precipitação dos Comandos de Minas e de São Paulo?

Tudo aconteceu por duas razões: um impulso, desejo de participar de um Movimento que já estava em ebulição e, também, um pouco de precipitação. Mas, tudo terminou bem.

Havia o apoio do Rio de Janeiro, da parte do Governador Carlos Lacerda?

Lacerda estava “meio assim”. Não estava gostando muito. Talvez suspeitasse que não iria levar vantagem, o que veio a confirmar-se.

O senhor acha que Lacerda não conseguiu o que desejava porque não seria o caso de atender às suas ambições políticas, ou teria sido ele mais uma vítima da evolução dos acontecimentos?

O sujeito quando começa a projetar-se demais, aparecer em tudo e chamar para si uma série de feitos que na verdade não foram realizados por ele, gera uma desconfiança muito grande sobre seus propósitos. Agindo dessa forma, não foi bem visto no Exército. A situação era muito delicada e complexa para cair nas mãos de um político como Carlos Lacerda. Mesmo admirando muitas de suas qualidades, reconhecia que se mostrava muito atirado, muito afoito e um pouco falso.

Voltando ao meio militar, a ECEME portou-se muito bem. Quase todos os alu- nos, excetos cinco ou seis, participaram do Movimento. Houve o episódio, a que já me referi, do Morro Pão de Açúcar.

O que foram fazer aqueles oficiais no Pão de Açúcar?

Era um tipo de destacamento precursor para invadir a Escola.

Mas eles não estariam do lado da Revolução!?

Não, tratava-se de gente do João Goulart, militares da tropa; não eram alu- nos da ECEME.

Por isso o senhor suspendeu o bondinho?

Suspendi o tráfego do bondinho, senão poderiam descer e pegar a gente de surpresa.

A situação foi se acalmando; montamos uma segurança avançada perto do Instituto Benjamin Constant, com um bom número de oficiais armados, bem arma- dos, comunicações eficazes e ficamos aguardando o desenrolar dos acontecimentos.

Solicitei ao EME, não lembro quantas, umas 11 ou 12 metralhadoras, e munição.

Distribuímos o armamento pelos postos principais, à espera de algo que pudesse

suceder, embora, no fundo, desconfiasse que não iria acontecer nada. Elementos da

(34)

Marinha que estavam se juntando numa praia de Niterói possuíam embarcações, para assaltar a Escola, pelo mar.

Quanto tempo durou esse clima, na Escola?

Passei uma semana sem me deitar, sem descanso.

Então, conclui-se que a ECEME teve uma atuação importante na Revolução?

Creio que foi o único setor que trabalhou unido, junto com o Comando do Exército, com força e inteligência. Foi uma atuação, penso, muito bonita. As aulas, a própria Escola, passados 15 dias, voltaram à atividade normal.

Depois de mais de uma semana, tomando providências, pedi ao João: “Tenho licença para fechar os olhos um ‘bocado’?” Ele riu: “Vai-te embora.” Fui para casa, cansado de verdade, deitei, dormi, e acordei com um telefonema do Coronel Araripe (Luís de Alencar Araripe), meu amigo. Tinha sido chamado pelo Coronel Portella, junto com outros dois oficiais, para ocupar as dependências da Secretaria-Geral do Conselho de Segurança Nacional, no centro do Rio de Janeiro, que haviam sido abandonadas completamente.

Não ficou ninguém lá, não restou um papel. No telefonema, Araripe falou:

“Medeiros, você está sendo chamado para fazer parte da Secretaria do Conselho. Estamos precisando muito de você.” Aceitei, com uma condição: “Preciso que você me ajude a obter a permissão do Comandante para deixar a ECEME.” Respondeu: “Não se preocupe;

vou à Escola pedir ao Comandante a sua liberação.”

Quando cheguei, o Mamede disse: “Nem precisas falar, te apresenta lá para assumir os teus encargos.”. Desse jeito, fui para o Conselho de Segurança Nacional.

O Conselho foi a semente do Serviço Nacional de Informações (SNI)?

Nascedouro do SNI, localizava-se na esquina da Avenida Presidente Vargas com a Rua Uruguaiana, 11

o

andar.

1

O senhor permaneceu longo tempo na área de informações. Talvez seja o oficial do Exército que mais tempo trabalhou com informações, só se afastando como general de

1

A Constituição de 1937 mudou a denominação de Conselho Superior de Segurança Nacional para Conselho de

Segurança Nacional (CSN), – ainda, voltado para questões relativas à defesa da Pátria. Depois da II Guerra

Mundial, em 1946, houve uma ampla reestruturação da Política de Segurança Nacional, entre as quais, o

fracionamento da Secretaria-Geral do CSN em três seções encarregadas de “organizar os Planos Industrial

e Comercial, Político Interno e Econômico, relativos ao Plano de Guerra”. Os decretos de reorganização

atribuíram à 2

a

Seção a responsabilidade de organizar e dirigir o Serviço Federal de Infomaçôes e Contra-

Informaçôes (SFICI), organismo integrante da estrutura do CSN, que passou a ter o encargo de tratar das

Informações no Brasil. O General Medeiros serviu no SFICI/Secretaria-Geral do CSN, que foi extinto com a

criação do SNI. Chegou no SFICI em 4 de abril de 1964, deixando a função de instrutor da ECEME.

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quatro estrelas, quando foi comandar a Amazônia. Como se deu seu ingresso no setor das informações? Como foi esse início?

Foi no período anterior à Revolução. Devo dizer que já tinha servido como oficial de informações, em Recife, no IV Exército, após o término do curso de Estado-Maior. Fui Chefe da 2

a

Seção. Praticamente aí começou a minha vivência nessa área de importância vital. Os fatos foram se juntando. A ECEME considerou-me possuidor de pendores para o trato com informações. Então, quando cheguei ao IV Exército, colocaram-me nessa área específica. No exercício de minhas atividades, conheci todo o Nordeste.

Depois me aprimorei, quando passei a exercer a função de instrutor de tática e estratégia, na ECEME, ocupando-me dos temas nos quais cabiam os assuntos ligados às informações. Como disse, o General Mamede mandou que eu me apresentasse no anti- go Conselho de Segurança Nacional. Em uma pequena sala, que organizei, começou a minha verdadeira vida nas informações. Também me deram um assessor.

Trabalhando, mudando de sala, ampliando o ambiente, ganhando auxiliares.

Ligava-me, com freqüência, ao antigo DOPS que, praticamente, funcionava comigo.

Foi uma época marcante na minha vida profissional, porque aprendi muito. Dediquei- me, decididamente, ao exercício da informação. Realizava meu trabalho e gostava dele, apesar de preocupar-me bastante, enfrentando, não poucas vezes, momentos dramáticos de dúvida, até certificar-me de que era aquilo mesmo que estava queren- do. Permaneci no Conselho muito tempo.

Aí, criaram o SNI, no edifício do Ministério da Fazenda, no Rio de Janeiro, onde chefiei a Seção Política, tendo à minha disposição um salão enorme, vários assessores e sargentos. Nessa época, o Venturini (General Danilo Venturini) veio traba- lhar comigo.

Já era o Serviço Nacional de Informações?

Sim, já era o Serviço. Foi criado ali.

O Senhor participou dos primeiros dias do Serviço Nacional de Informações?

Fui pioneiro. O João (General João Baptista de Oliveira Figueiredo) foi che- fiar o Serviço. O Golbery (General Golbery do Couto e Silva) assumiu a chefia do SNI, com um gabinete no Palácio Laranjeiras, onde elaborou um trabalho de análise da conjuntura política do País, e contou com a colaboração do Venturini para redigi- lo. De lá foram para Brasília, onde montaram a sede central. Tratávamos de muitos assuntos, pelo telefone, o dia inteiro.

2

2

O então Major Venturini continuou na AC/SNI com o então Coronel João Figueiredo, não acompanhando o General

Golbery para o Palácio Laranjeiras. Apenas lá esteve para colaborar no trabalho acima citado. Mais tarde, aí

sim, o General Golbery convocou o Major Venturini para Brasília, para lá organizar o SNI, a partir de sua sede.

(36)

O senhor permaneceu no Rio?

Sim. Aquele local, no Rio, depois, passou a ser a Agência Regional do SNI. A Central ficava em Brasília. Mas a vida do Serviço acontecia intensamente no Rio. Em Brasília, era uma assessoria do Presidente.

E a Escola, General? A Escola Nacional de Informações (EsNI), quando começou? No Centro de Estudos de Pessoal (CEP) funcionou um curso de Informações. Teria sido ele a origem da EsNI?

3

Quando a ESNI começou a funcionar, eu não me encontrava lá, já seguira para Israel. O chefe do SNI era o General Carlos Alberto Fontoura, mais tarde Embaixador em Portugal, e quem montou toda a estrutura física foi o assistente dele, General Enio Pinheiro. O General Enio foi o responsável pelo planejamento e construção da EsNI. Muito competente. Seu filho foi ferido na guerrilha do Araguaia.

A criação da Escola Nacional de Informações e do Serviço Nacional de Informações dava a medida da importância da área de Informações. Quem o senhor colocaria como mentor principal desse processo, ao atribuir tal importância às Informações e trabalhar com elas?

Foram vários, cada um ao seu tempo e com a sua contribuição específica:

General Golbery, General Emílio Médici, General Fontoura e o João Figueiredo.

Exatamente na época em que fui para Israel, onde, tendo permanecido 2 anos e meio, liguei-me bastante ao pessoal de informações, até porque logo desco- briram de onde eu viera. Mas sempre lamentei não ter participado dos primeiros anos da EsNI. Os que lá estiveram saíram-se maravilhosamente bem. A Escola sempre foi um primor. Recordo-me de que me correspondia muito com o João que sempre repetia: “Vai aprendendo aí que estou guardando a Escola para você.”

Agora, fiquei curioso. Israel, até hoje, é citado como possuindo um Serviço de Informa- ções, talvez um dos melhores, senão o melhor do mundo. O MOSSAD é tido como um Serviço de Informações até superior ao dos Estados Unidos, Inglaterra e outros. A desig- nação para Adido, evidentemente, obedece a vários critérios. No seu caso, o senhor acredita que o mandaram para Israel com a idéia de buscar mais conhecimento, a fim de implantar algo semelhante no Brasil?

3

Para a elaboração dos currículos dos cursos da EsNI, os responsáveis utilizaram o que havia disponível, como os currículos dos cursos de informações do CEP, da ESG, e também de serviços de informações de outros países.

Procurou-se fazer o melhor possível, do mais alto nível, conforme definido no Decreto de sua criação.

(37)

Pode ser até que tenha ocorrido essa idéia ao Médici, e ao próprio João Figueiredo, mas o meu destino era a “aditância” de Paris. Minha mulher ficou muito triste quando soube que não iríamos mais para a “cidade luz” e sim para Israel.

E havia guerra por lá. Bem, Israel está sempre em guerra.

Essa troca de Paris para Israel, já foi influenciada por isso. Em conversa com o Presidente Médici, comentei: “Mas, General, é um país distante, no Oriente Médio, será que tenho condições de absorver todo o conhecimento desejável?” Médici re- trucou: “Ô, Medeiros, pára de besteira, você vai ser dono daquilo lá, você fala inglês muito bem, não fala?” Respondi: “Sim.” Continuou: “Fala francês e espanhol?” Res- pondi: “Também.” Então, Médici completou seu pensamento: “Você não vai ter ne- nhum problema lá, porque o idioma que mais se fala na área, desde pequenininho, é o inglês, e secundariamente, o francês e o espanhol. O espanhol, principalmente, para o pessoal de serviço de hotel, as arrumadeiras, todos falam espanhol.”

Em fevereiro de 1973, chegava a Israel. Fui feliz, pois Deus me ajudou muito naquela fase de minha carreira. De certa forma eu era um ilustre desconhecido. Não sabiam quem era o Coronel Medeiros. Com o correr do tempo, passaram a me conhe- cer, e aí, viviam lá em casa, pois sentiam-se à vontade. Algumas senhoras, com os maridos na campanha do Yon Kippur, estavam sofrendo por seus companheiros al- guns até, feridos. Iam conversar com minha mulher, Olga, e receber algum consolo.

Olga era muito boa para isso, muito afável.

O senhor acabou de dizer que foi para Israel falando francês, inglês e espa- nhol. Onde fez seu aprendizado?

Meu pai passou a infância na Alemanha. No Brasil, desde que começou a namorar a minha mãe, fez questão que ela aprendesse inglês e alemão. Minha mãe lia, escrevia, falava bem: inglês, francês, espanhol e alemão. Como era fluente, lia romances para distrair-se e me ensinava todo o dia, principalmente nas férias. Ver- dadeira professora, sentávamos à mesa, o livro correspondente à aula, para eu tra- duzir com o auxílio dela. Assim, fui praticando aquelas línguas, principalmente com minha mãe. Isso foi decisivo e permitiu-me viajar pelo mundo e, em Israel, comunicar-me com facilidade. Ainda ensinei inglês para o meu sargento auxiliar.

Bastante incomum falar quatro idiomas, numa época em que comunicar-se num segun- do idioma era raro. Vamos retomar ao campo das Informações, após o senhor ter retornado de Israel.

Em Israel, permaneci como Adido durante toda a segunda guerra. Os oficiais,

principalmente os do Serviço de Informações de Israel, me queriam bem. Fui o

único oficial estrangeiro que, ao término da missão, ganhou um fuzil de fabricação

(38)

israelense. Voltei convencido da importância de minha missão, tendo adquirido conhecimentos valiosos, que apreciaria por em prática no meu País. Infelizmente, ao retornar fui para o Estado-Maior do Exército e não tive qualquer oportunidade de transmitir os valiosos ensinamentos auferidos em Israel.

Não souberam aproveitar os ensinamentos que o senhor adquiriu.

Sem dúvida. A 2

a

Seção era muito complexa, mas o seu efetivo contava com gente muito boa. Entretanto, não obtínhamos respostas às nossas indagações. Os subordinados viviam, de certa forma, acabrunhados, porque faziam relatórios, ex- punham problemas, mas, em geral, não davam seguimento aos estudos elaborados.

Bem, fui promovido a general e o Ministro do Exército, General Frota (Sylvio Couto Coelho da Frota) grande sujeito, sabe, uma pessoa adorável, que se compor- tava com muita decência, designou-me para a EsNI. Na verdade, a Escola já estava reservada para mim. Portanto, fui promovido e assumi o comando, em seguida, em agosto de 1975.

O Senhor gostou da designação?

Acostumei-me com a possibilidade, porque o João costumeiramente dizia:

“Estou guardando a Escola de Informações para você!” Habituei-me com a perspec- tiva. Quando cheguei, já estava preparado. A Escola se encontrava em atividade há mais de 2 anos.

O Senhor ficou pouco tempo no Estado-Maior do Exército?

Muito pouco.

Quem comandava a EsNI, antes de sua chegada?

Era o Coronel Lery (Josio Lery dos Santos), interinamente. O primeiro gene- ral a comandar a Escola foi o Enio Pinheiro, que a construiu e a tocou inicialmen- te; o segundo fui eu. Quando ele saiu, permaneceu o Coronel Lery, aguardando que eu chegasse.

É pena que a Escola não exista mais hoje, a não ser o local físico. Mas não sei se permanece a galeria de ex-alunos.

Existe, existe.

Como o senhor avalia esse período de seu comando na EsNI?

Foi uma das fases mais gratificantes da minha vida. A Escola era uma mara-

vilha. Foi estruturada muito solidamente. O General Carlos Alberto Fontoura, Che-

fe do SNI, era uma pessoa de toda confiança e de quem se poderia esperar só coisa

boa. Com seus auxiliares mais próximos e total cooperação dos demais oficiais, rea-

lizou o planejamento adequado para a construção e funcionamento do importante

estabelecimento de ensino de informações.

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Quanto aos cursos da EsNI, sendo o Diretor, como o senhor atuava, como era preparado o currículo? Baseava-se em outra Escola congênere? Ou partiram de uma concepção original? Foi a época da guerra fria. Havia algum tipo de influência externa? Como, afinal, o senhor conduzia a Escola?

Como disse, a Escola já estava adequadamente estruturada, inclusive em rela- ção aos currículos, como dito anteriormente, por isso foi relativamente facilitado o meu trabalho. É verdade que faltavam muitas coisas, inclusive, não havia, como seria esperado, um guia, um manual, um paradigma a seguir. Os oficiais que foram mandados à África do Sul e Inglaterra, em visita às escolas daqueles países, trouxe- ram novos modelos e conhecimentos. Dispondo de uma turma boa, consegui melho- rar e atualizar os programas de ensino.

Os alunos eram militares e civis ou só militares?

Militares e civis, mais civis que militares.

O Senhor se lembra qual era a origem desses civis?

Vinham dos Ministérios, de Empresas Públicas, de Autarquias. Vinham de órgãos federais, estaduais e até municipais.

Nessa época, o senhor achava importante o País contar com um bom Serviço de Informações, fundamental inclusive para a Revolução?

Pensava e penso ser fundamental para o País. Entendo que sem um Serviço de Informações bem montado, bem estruturado, em todos os sentidos, no que toca a seu pessoal e objetivos, o País mergulha na escuridão. Hoje, somos um país cego, não sabemos nada do que ocorre na imensa máquina governamental.

Os civis matriculados como alunos, tendo saído de ministérios, dedicavam-se aos cursos ou manifestavam desagrado por terem deixado seus cargos para trabalhar com Informações?

Pediam para ir. Adoravam a Escola, consideravam-na magnífica. Havia 2 cur- sos para civis e militares: curso “A” e curso “B”. O curso “A” tinha maior destaque;

formava analistas de informações de alto nível,

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por exemplo, destinava-se a chefes de 2

a

Seção, chefes de DSI, a Divisão de Segurança, e funcionários públicos gradua- dos dos Ministérios. O curso “B” era de nível médio. Praticamente, para ambos os cursos, só iam voluntários. Terminado o ano, liberava-se uma turma; para o ano escolar seguinte, já havia muitos candidatos aguardando matrícula.

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EsNI – Existiam 2 cursos para Analistas de Informações: Curso “A” – Analista de Alto Nível – 1 ano; Curso

“B” – Analista de Nível médio – 2 anos.

– Um curso de operações – Curso “C” – Operações.

– Vários Estágios (para nacionais e estrangeiros) de duração variável (1 semana, quinze dias, 1 mês etc.).

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