UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS – UEA CURSO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS
ECONOMIA INTERNACIONAL
AUTORES
PROF. DR. TRISTÃO SÓCRATES BAPTISTA E PROFA. DR. MICHELE LINS ARACATY E SILVA
2013
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Possibilidades de produção ... 12
Figura 2 – Indiferença da produção ... 13
Figura 3 – Curva da indiferença ... 14
Figura 4 – Curvas da indiferença ... 14
Figura 5 – Produção e consumo ... 15
Figura 6 – Comércio internacional e consumo ... 17
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Horas necessárias para produzir ... 5
Tabela 2 – Dias de trabalho necessários para produzir. ... 6
Tabela 3 – Produção comparativa de dois países ... 8
Tabela 4 – Limites de possibilidade de troca ... 9
Tabela 5 – Grau de interesse de troca ... 9
Tabela 6 – Condição de troca. ... 10
Tabela 7 – Nova condição de troca ... 10
Tabela 8 – Condição de troca ... 10
Tabela 9 – Combinações alternativas que A pode produzir de x e y... 11
SUMÁRIO
1 TEORIAS CLÁSSICAS DE COMÉRCIO ... 5
1.1 INTERNACIONAL ... 5
1.2 TEORIA DA VANTAGEM ABSOLUTA ... 5
1.3 TEORIA DA VANTAGEM COMPARATIVA ... 6
1.4 TEORIA DA DEMANDA RECÍPROCA ... 7
1.4.1 Possíveis Condições de Troca ... 8
1.4.2 Limites de Possibilidades de Troca ... 9
2 TEORIAS MODERNAS DE COMÉRCIO INTERNACIONAL ... 11
2.1 Teorias ... 11
2.2 CURVA DA POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO ... 11
2.3 CUSTO OPORTUNIDADE ... 12
2.4 CURVA DA INDIFERENÇA ... 13
2.5 PRODUÇÃO E CONSUMO ... 14
2.6 COMÉRCIO INTERNACIONAL ... 15
2.7 TEORIA SUECA ... 17
2.8 EFEITOS DO COMÉRCIO EXTERIOR ... 18
2.9 MERCADO INTERNACIONAL E VANTAGENS COMPARATIVAS ... 19
2.10 CUSTO DOS TRANSPORTES ... 19
3 TAXA DE CÂMBIO ... 20
3.1 GENERALIDADES ... 20
3.2 A TAXA E A LEI DA OFERTA E DA PROCURA ... 20
3.3 TAXA ESTÁVEL ... 20
3.4 TAXA ASCENDENTE ... 20
3.5 TAXA DESCENDENTE ... 21
3.6 PROBLEMAS DECORRENTES DA FLUTUAÇÃO DA TAXA DE CÂMBIO .. 21
3.7 A TAXA DE CAMBIO COMO INSTRUMENTO DE POLITICA ECONÔMICA 22 3.7.1 Quando a Moeda está muito Valorizada ... 22
3.7.2 Quando a Moeda está muito Desvalorizada ... 23
3.8 FUNDO DE ESTABILIZAÇÃO CAMBIAL ... 24
4 BALANÇO DE PAGAMENTOS ... 25
4.1 CONCEITO ... 25
4.2 ESTRUTURA ... 26
4.3 BALANÇA COMERCIAL ... 28
4.4 SERVIÇOS ... 28
4.5 RENDAS ... 29
4.6 TRANSFERÊNCIAS UNILATERAIS ... 29
4.7 TRANSAÇÕES CORRENTES ... 29
4.8 CONTA CAPITAL E FINANCEIRA ... 30
4.8.1 Investimentos e Reinvestimentos ... 30
4.8.2 Financiamentos ... 31
4.8.3 Amortizações ... 31
4.8.4 Empréstimos ... 31
4.8.5 Hot Money ... 31
4.8.6 Ouro Monetário ... 32
4.9 TRANSAÇÕES AUTÔNOMAS E TRANSAÇÕES COMPENSATÓRIAS ... 32
4.10 SALDOS DOS BALANÇOS DE PAGAMENTOS ... 32
4.11 SALDO NIVELADO ... 33
4.12 SALDO SUPERAVITÁRIO ... 33
4.13 SALDO DEFICITÁRIO ... 34
4.14 SOLUÇÃO PARA OS DÉFICITS ... 35
4.14.1 Solução para os Déficits Conjunturais ... 35
4.14.2 Solução para os Déficits Estruturais ... 35
4.15 RESERVAS CAMBIAIS ... 36
4.15.1 Nível Ideal de Reservas ... 36
4.16 ERROS E OMISSÕES ... 37
5 CENTROS FINANCEIROS E PARAÍSOS FISCAIS ... 38
5.1 CENTROS FINANCEIROS ... 38
5.2 LONDRES ... 38
5.3 AGÊNCIAS BANCARIAS OFFSHORE ... 39
5.4 PARAÍSOS FISCAIS ... 39
5.4.1 Características dos Paraísos Fiscais ... 39
5.4.2 Ilhas Cayman ... 40
5.4.3 Outros Paraísos Fiscais ... 40
5.4.4 Lavagem de Dinheiro ... 41
6 ECONOMIA INTERNACIONAL ... 42
6.1 SISTEMA INTERNACIONAL - SI ... 42
6.2 OS ATORES ... 44
6.3 ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS ... 44
6.3.1 Questão Ambiental ... 44
6.3.2 Terrorismo ... 45
6.3.3 Crime Organizado e Tráfico de Drogas ... 45
6.3.4 A Nova Geopolítica na Era da Globalização ... 46
6.3.5 Países Emergentes (BRICS) e a Globalização ... 48
6.3.5.1 China: maior país em desenvolvimento face à Globalização ... 50
6.3.5.2 Brasil e a Nova Ordem Geopolítica Mundial ... 55
6.3.5.3 A atuação do Brasil junto à ONU ... 64
6.3.5.4 O Brasil e a Reforma do Conselho de Segurança ... 66
6.3.5.5 Exploração de Riqueza na Camada pré-sal e o Leilão do Campo de Libra... 70
REFERÊNCIAS ... 75
1 TEORIAS CLÁSSICAS DE COMÉRCIO
1.1 INTERNACIONAL
A Economia Internacional é um conceito abrangente que engloba o comércio Internacional (importações e exportações), prestação de serviços, transferências unilaterais e movimentos de capitais. Apenas como lembrete, devemos dizer que:
• a divisão do trabalho, gerando a especialização;
• a produção em grande escala, reduzindo custos de produção;
• as condições diferentes de clima, fazendo com que a produção agrícola de um país seja diferente da de outro; e
• a qualidade de subsolos diferentes, tornando um país rico em determinados minérios e pobre em outros, obrigaram as nações a comerciar entre si.
Diante disso, alguns economistas criaram teorias sobre Comércio Internacional.
Destacamos as de Adam Smith, David Ricardo e John Stuart Mill. Vamos começar pela Teoria da Vantagem Absoluta.
1.2 TEORIA DA VANTAGEM ABSOLUTA
Adam Smith publicou em 1776 o livro Riqueza das nações, onde ele afirmava que cada país pode produzir determinada mercadoria com custos menores que os outros. Vimos, no item anterior, diversos fatos que ajudam a explicar essa afirmativa.
Consequentemente, esse país se beneficiará se exportar essa mercadoria e importar as outras. Isso proporcionará aos países vantagens recíprocas. Isto é, o benefício é desse país, que comprará produtos mais baratos, e também dos outros, que pagarão com produtos que lhes custarão menos.
A Tabela 1 ajuda a compreender melhor. Suponhamos a existência de dois países: A e B.
Tabela 1 – Horas necessárias para produzir País Horas para produzir uma
camisa Horas para produzir um sapato A
B
10 15
40 30
Essa Tabela nos mostra o seguinte:
• em A, precisamos de quatro camisas para trocar por um sapato;
• A pode comprar um sapato de B, pagando com apenas três camisas. Portanto, há uma vantagem muito grande nessa troca;
• em B, com um sapato compramos duas camisas;
• se B vender um sapato para A, receberá três camisas.
Essa é a Teoria da Vantagem Absoluta e mereceu as seguintes críticas:
• Adam Smith considerou que os preços eram determinados principalmente pela quantidade de horas utilizadas (mão-de-obra) durante a produção. Na verdade, o custo das mercadorias é consequência de três fatores: natureza (matéria-prima), trabalho (mão-de-obra) e capital (investimentos, inclusive know-how);
• Adam Smith partiu do princípio de que cada país tem sempre vantagem absoluta em algum produto. Como ficaria se uma nação não tivesse vantagem absoluta em nenhum produto? Quem nos tenta dar essa resposta é David Ricardo, com a Teoria da Vantagem Comparativa.
1.3 TEORIA DA VANTAGEM COMPARATIVA
David Ricardo, em 1817, apresenta sua teoria, que por meio da Tabela 2 fica mais fácil de ser compreendida.
Tabela 2 – Dias de trabalho necessários para produzir.
País 100 metros de tecido 100 barris de vinho A
B
90 dias 100 dias
80 dias 120 dias
De acordo com a Teoria da Vantagem Absoluta, não poderia haver comércio entre esses países, porque A produz vinhos e tecidos em condições melhores do que B. Ricardo, porém, parte para o seguinte raciocínio:
• A deve transferir os trabalhadores de tecidos para vinhos, onde tem maior vantagem. Com isso, deve comprar tecidos de B e vender vinho a B;
• B deve fazer o inverso, isto é, transferir os trabalhadores de vinhos para tecidos, onde tem menor desvantagem. Com isso, deve comprar vinhos de A e vender tecidos a A.
Diante disso, vejamos o que ocorre:
• A vende 100 barris de vinho (vamos abreviar: 100 by) a B pelo preço equivalente a 90 dias. Como A gasta apenas 80, tem um lucro de 10. Compra 100 metros de tecido (vamos abreviar: 100 t) pelo preço equivalente a 90 dias. Como gasta 90, não perde nem ganha, nessa operação;
• B compra 100 barris de vinho pelo preço equivalente a 90 dias. Como o custo interno é de 120, B tem um lucro de 30. Vende 100 metros de tecidos por 90.
Como o custo interno é 100, perde 10; mas ganhou 30 no vinho. Portanto, B tem um lucro final de 20.
Em resumo:
A vende 100 bv por 90: ganha 10
A compra 100 t por 90: ganha 0
lucro total 10
B compra 100 bv por 90: ganha 30 B vende 100 t por 90: perde - 10
lucro total 20
Dessa forma, essa troca torna-se um bom negócio.
Portanto, o comércio entre os dois países pode ser realizado, porque a vantagem absoluta de A em vinho supera a falta de vantagem na troca de tecidos.
Poderíamos fazer as seguintes críticas a essa teoria:
• ela é mais abrangente do que a Teoria da Vantagem Absoluta, de Adam Smith.
Ricardo abandonou a ideia dos custos absolutos e partiu para a ideia dos custos relativos;
• como Adam Smith, Ricardo considerou que os preços eram determinados principalmente pela quantidade de horas trabalhadas. Outros fatores, como custos da matéria-prima e de transportes, não foram levados em consideração;
• Ricardo e Adam Smith procuraram mostrar que a especialização da produção estimula o Comércio Internacional e beneficia o consumidor.
1.4 TEORIA DA DEMANDA RECÍPROCA
Vimos no capítulo anterior que David Ricardo formulou sua teoria comparando o
custo de produção de uma unidade de uma mesma mercadoria em dois países diferentes.
Portanto, a base de comparação é a unidade do produto. Exemplificando:
• 100 barris de vinho no país A custam 80 horas/homens;
• 100 barris de vinho no país B custam 120 horas/homens.
Posteriormente, John Stuart Mill formulou a Teoria da Demanda Recíproca de modo inverso a Ricardo: a base não é a unidade do produto, mas o que em x horas (mesmo número de horas) dois países diferentes podem produzir.
Exemplificando:
• em 10 horas o país A produz 20 toneladas de aço;
• em 10 horas o país B produz 10 toneladas de aço.
Aparentemente, não haveria muita diferença, mas pelas análises que vamos fazer distinguiremos as diferenças. John Stuart Mill procura evidenciar a eficiência comparativa.
Pela Tabela 3 acompanharemos com mais facilidade o desenvolvimento do tema.
David Ricardo, em 1817, apresenta sua teoria, que por meio da Tabela 2 fica mais fácil de ser compreendida.
Tabela 3 – Produção comparativa de dois países
Insumo de Trabalho (Homens/horas) País Produção de aço Produção de trigo 10
10
A B
20 t 10 t
20 t 15 t
A: Tem vantagem absoluta nos dois produtos (aço e trigo) . Tem maior vantagem comparativa no aço.
B: Não tem vantagem absoluta nos dois produtos. Tem menor desvantagem comparativa no trigo.
1.4.1 Possíveis Condições de Troca
Se não houver comércio entre os dois países, as trocas serão internas e nas seguintes condições:
B: 10 toneladas de aço por 15 toneladas de trigo (base: 10 homens/ horas);
A: 10 toneladas de aço por 10 toneladas de trigo (base: 5 homens/ horas) .
Vamos admitir que B ofereça vender 15 toneladas de trigo por 11 toneladas de aço. É um bom negócio, porque o custo da produção dele é 15 toneladas de trigo = 10 toneladas de aço. Vamos admitir que A aceite vender 11 toneladas de aço por 15 toneladas de trigo.
Também é um bom negócio, porque o custo da produção em A é 11 toneladas de aço = 11 toneladas de trigo.
Diante dos números acima, B exportaria trigo para A e compraria aço de A, desde que haja alguma vantagem. Ou seja:
B: consiga, pelo menos, mais de 10 toneladas de aço por 15 toneladas de trigo (ou + 10a : 15tr.);
A: consiga, pelo menos, 10 toneladas de aço por mais de 10 toneladas de trigo (ou 10a : +10tr.).
1.4.2 Limites de Possibilidades de Troca
Vimos no item anterior as condições vantajosas para A (trocar 10 toneladas de aço por mais de 10 toneladas de trigo) e para B (trocar mais de 10 toneladas de aço por 15 toneladas de trigo) . Esses números constituem os limites de possibilidades de troca e estão em destaque na Tabela 4.
Tabela 4 – Limites de possibilidade de troca
País Aço Trigo
A B
10 toneladas por + 10 toneladas por
+ 10 toneladas 15 toneladas
Portanto, poderá ser realizado o comércio entre os dois países dentro desses limites.
Há, porém, um fator novo que vai estabelecer o valor exato de troca. Esse fator é a demanda por essas mercadorias nos dois países. Daí o nome de Teoria da Demanda Recíproca.
De acordo com essa teoria, o comércio se realizará quando os preços equalizarem as demandas nos dois países. Em outras palavras, suponhamos que os preços desses produtos sejam:
Tabela 5 – Grau de interesse de troca
Valor de Troca Demanda de A Demanda de B
a = aço tr = trigo
grau de interesse grau de interesse 10a : 10tr não há interesse em comprar trigo
de B
há grande interesse em comprar aço de A
Em face da situação acima, B propõe nova condição de troca:
Tabela 6 – Condição de troca.
Valor de Troca Demanda de A Demanda de B
10a : 12tr há interesse, porém pequeno continua grande o interesse
Para que haja comércio, B melhora as condições de troca:
Tabela 7 – Nova condição de troca
Valor de Troca Demanda de A Demanda de B
10a : 14tr aumenta o interesse de A há interesse de B
Vejamos o que ocorreria se as condições de troca fossem:
Tabela 8 – Condição de troca
Valor de troca Demanda de A Demanda de B
10a : 15tr 10a : 20tr
há interesse
há interesse muito grande de A na troca
há pouco interesse
neste caso, não há interesse de B na troca
Assim, sucessivamente os preços vão alterando-se até chegar ao ponto de equilíbrio, que poderia ser 10 toneladas de aço por 14 toneladas de trigo. Entretanto, essa relação de troca (10a : 14tr) se altera de acordo com a maior ou menor demanda pelos respectivos produtos. Essa demanda sofre os efeitos dos problemas conjunturais, isto é, maior ou menor necessidade momentânea que cada país tem das mercadorias negociadas.
2 TEORIAS MODERNAS DE COMÉRCIO INTERNACIONAL
2.1 Teorias
As teorias de Adam Smith, David Ricardo e Stuart Mill foram aceitas durante muito tempo. Entretanto, precisavam ser reformuladas porque consideravam o trabalho (mão-de- obra) o único fator de produção.
Na verdade, a produção é consequência de três fatores:
• natureza (matéria-prima);
• trabalho (mão-de-obra); e
• investimentos (hards e softs) . Os hards são os equipamentos e os softs são os métodos de trabalho, tais como a racionalização, patentes, sistemas administrativos etc.
Assim, a relação de troca entre as nações deve ser estabelecida de forma diferente à determinada pela teoria do valor-trabalho, base fundamental das teorias clássicas.
2.2 CURVA DA POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO
Para facilitar a compreensão dessa teoria, vamos fazer as seguintes hipóteses:
• imaginemos o país A. Ele produz apenas duas mercadorias: x e y;
• suponhamos que uma tonelada de x custe o mesmo que uma tonelada de y;
• ele pode produzir 100 toneladas de mercadorias, sendo 50 de x e 50 de Y.
Para produzir 51 toneladas de x, passaria a produzir 49 de y. Em resumo, para cada aumento de x haveria uma diminuição igual de y, porque ele não tem condições de aumentar seu parque produtivo. O país A vive um regime de plena produção. Isto é, teria de desviar fontes produtoras de y para x.
Diante das hipóteses apontadas, poderíamos montar a seguinte Tabela:
Tabela 9 – Combinações alternativas que A pode produzir de x e y
x 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0
Y 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Os dados da Tabela 9 permitem elaborar a Figura 1:
Figura 1 – Possibilidades de produção 2.3 CUSTO OPORTUNIDADE
Na Figura 1, a reta AB representa as possibilidades de produção. Qualquer ponto nessa linha indica as combinações alternativas de produção. Tomemos três pontos como exemplo:
• A: 100 de x e 0 de y;
• B: 0 de x e 100 de y;
• P: 60 de x e 40 de y.
Como o país A está usando 100% de sua capacidade produtiva, não há ociosidade dos fatores de produção. Em outras palavras, não há mão-de-obra disponível e as empresas estão produzindo o máximo que seus equipamentos permitem. Assim, a linha AB representa o limite máximo que a produção desse país pode alcançar.
Veremos o que significaria a existência de outros dois pontos: C (além de 100) e D (aquém de 100):
• C: para atingir esse ponto, seria necessário um aumento do parque produtivo.
Mais investimentos (capital), mais mão-de-obra disponível e mais matérias-primas (natureza), também disponíveis no mercado;
• D: esse ponto indicaria uma queda de produção, onde haveria investimentos ociosos, desemprego e sobra de matéria-prima.
A substituição de x por y, ou vice-versa, depende das conveniências de mercado. Isto é, o que é mais oportuno; daí a denominação Custo Oportunidade.
2.4 CURVA DA INDIFERENÇA
Para facilitar a compreensão, vamos considerar um indivíduo em vez de uma nação.
Ele precisa das mercadorias x e y nas quantidades designadas no ponto P, isto é, 60x e 40y (veja Figura 2). Agora, vamos admitir que, por qualquer circunstância, ele só possa ter 50x e 40y (Ponto Q da Figura 2). Isso, evidentemente, prejudicará seu padrão de vida. Admitindo-se que y poderia substituir x, caberia a pergunta: para restabelecer seu padrão de vida quantas unidades de y seriam necessárias?
Vamos procurar explicar pela Figura 2:
O ponto Q, na Figura 2, mostra as quantidades de que esse indivíduo agora dispõe, isto é, 50x e 40y. Ocorre que ele consegue mais y, atingindo, o ponto R.
Portanto, o padrão de vida dele em P e R é igual em conforto. Em outras palavras, para ele, qualquer ponto na reta AB é indiferente.
Figura 2 – Indiferença da produção
Para maior facilidade, representamos a linha AB nas Figuras 1 e 2 como retas.
Entretanto, ela é convexa, conforme nos mostra a Figura 3. Isso porque é muito pouco provável a hipótese de o indivíduo querer 100x e Oy ou Ox e 100y. Em outras palavras, a utilidade marginal é decrescente em relação aos pontos de origens.
Essa curva (AB, na Figura 3) é chamada de Curva da Indiferença.
Figura 3 – Curva da indiferença
Todo o nosso raciocínio baseou-se numa só curva. Vamos agora supor que daríamos a essa pessoa mais mercadorias: em vez de 100 unidades (60x e 40y) passa a 150 (90x e 60y) e essa nova situação seria representada pela curva Al B1 (Figura 4). Evidentemente, isso melhoraria seu padrão de vida. Assim, o ponto R, da reta AB, seria substituído por S, da reta Al B1 (Figura 4). Ainda poderíamos dar mais mercadorias; em vez de 150, daríamos 200 (curva A2 B2). Assim, novas curvas iriam formando-se.
Pelo mercado, ficamos sabendo as preferências dos consumidores e, portanto, o ponto ideal nas curvas AB, Al B1 e A2 B2.
Figura 4 – Curvas da indiferença 2.5 PRODUÇÃO E CONSUMO
Pela Figura 1, analisamos a oferta, por meio da Curva da Possibilidade de Produção, e chegamos ao conceito de Custo Oportunidade. Pelas Figuras 2, 3 e 4, analisamos a
demanda, por meio da Curva da Indiferença.
Por enquanto, estamos considerando a existência de um país A, de economia fechada; portanto, sem comércio exterior.
Para facilidade de raciocínio, elaboramos a Figura 5. Ela é uma superposição da Figura 1 (produção) na Figura 3 (consumo). No ponto P, a Curva da Indiferença (consumo) torna-se tangente à Curva da Possibilidade de Produção.
O ponto P significa que, para determinado nível de produção, aí se localiza a melhor forma de consumo (melhor padrão de vida) . O ponto U tem o mesmo significado de P.
Entretanto, em U haveria maior disponibilidade de mercadorias y. Caso haja interesse maior dos consumidores por x, a curva da indiferença seria Al BI e a produção de x aumentaria em detrimento de y. Portanto, vamos admitir que as curvas fiquem tangentes em P.
Figura 5 – Produção e consumo
2.6 COMÉRCIO INTERNACIONAL
Agora vamos admitir o seguinte:
• o país que estamos estudando (país A) inicia-se no comércio internacional;
• no exterior, o preço é 2x = ly. Em A, o preço é lx = 1y;
• a produção e as vendas de A no comércio internacional são r,.
• que nas que não afetam os preços internacionais;
• diante do exposto, A tem vantagem comparativa em y. Isso porque, internamente,
com ly ele consegue apenas lx. Externamente, com ly, consegue 2x. Portanto, deixa de produzir x e aumenta a produção de y. É um bom negócio porque, para cada ly exportado, recebe 2x importados.
Na realidade, agora deixamos de lado todos os argumentos das teorias clássicas (mão-de-obra como fator único de produção e eficiência produtiva) e partimos apenas para o argumento “preço”.
Assim, a Figura 5 será substituída pela 6, cuja interpretação é a seguinte:
• a reta VZ se transforma na reta V1Z;
• o ponto P se desloca para C.
A importação de x não gerou desemprego nem ociosidade de produção porque todos os fatores que produziam x foram desviados para produzir y. O nível de vida melhorou, porque o consumo que estava fixado em P foi para C, o que significa que há mais x para cada cidadão.
Enfim, houve um benefício generalizado.
Até aqui analisávamos os efeitos em um só país (A). Agora, vamos estudar os efeitos simultâneos em dois países (A e B) que negociam entre si.
Antes de haver comércio internacional, os valores de trocas eram:
• em A, lx = ly; (A produz y);
• em B, 3x = ly; (B produz x).
Com o comércio internacional:
• A se beneficiará se conseguir trocar ly por mais de lx;
• B se beneficiará se conseguir trocar 3x por mais de ly.
Diante desses fatos, A propõe ly por 2x, o que é muito bom, tanto para A como para B.
Figura 6 – Comércio internacional e consumo
Aparentemente, as teorias modernas e clássicas são muito parecidas. Entretanto, existem as seguintes diferenças:
• as teorias modernas consideram, simultaneamente, todos os fatores de produção:
natureza (como condições climáticas e fornecedora da matéria-prima), trabalho (mão-de-obra) e capital (investimentos em equipamentos e em tecnologia);
• consequentemente, fica abandonada a ideia de Valor Trabalho. Assim, em vez de custo trabalho, temos custo oportunidade, isto é, o custo comparativo de trabalho é substituído pelo custo comparativo de oportunidades;
• pelo estudo da Curva de Possibilidade de Produção, Custo Oportunidade e Curva da Indiferença, podemos quantificar melhor as condições de comércio internacional;
• portanto, é mais abrangente que as teorias clássicas.
2.7 TEORIA SUECA
Vimos em itens anteriores que o custo comparativo é o ponto onde se assentam as teorias de comércio internacional. As teorias clássicas se apoiam no custo comparativo- trabalho; as teorias modernas, no custo comparativo-oportunidades.
Os economistas suecos Eli Hecksher e Bertil Ohlin procuraram explicar por que o custo comparativo-oportunidade é diferente de um país para outro.
Segundo eles, as diferenças de custos de uma nação para outra são consequência de várias circunstâncias, tais como:
a )custos dos insumos. As matérias-primas não se encontram distribuídas de forma igual em todos os países do mundo. Ela será mais barata no país onde for mais abundante;
b )a proporção dos fatores de produção (natureza, trabalho e capital) é diferente de uma mercadoria para outra. Exemplificando, a produção agrícola exige uma proporção maior de terras (natureza). A produção industrial exige uma proporção maior de capitais (equipa- mentos, maquinário etc.). O Brasil, por exemplo, pode produzir combustível da cana, o que não ocorre com a Suíça. Isso porque o fator natureza (extensão territorial) é maior no Brasil do que na Suíça;
c )outro fator da produção, a mão-de-obra, praticamente não se move de um país para outro. Em outras palavras: é possível o trabalhador mudar-se de uma região para outra, dentro do mesmo país, mas é difícil deslocar-se para outro país devido às leis de imigração.
Isso provoca diferenças salariais entre as nações, o que não existiria se houvesse mobilidade de locomoção;
d )muitas vezes, as empresas não transferem tecnologia (capital soft) do país de origem para outras nações nem mesmo equipamentos (capital hard), temerosas de confiscos.
Portanto, existem dificuldades na transferência dos fatores de produção de um país para outro, mas existem menos dificuldades, por meio da importação, em se transferir um produto de um país para outro. Exemplificando: é fácil importar milhares de automóveis japoneses (transferência de produto); entretanto, é difícil importar, do Japão, uma fábrica de automóveis (transferência de fator da produção).
Assim, a imobilidade dos fatores e a mobilidade dos produtos estimulam o comércio internacional.
2.8 EFEITOS DO COMÉRCIO EXTERIOR
Vejamos os principais efeitos do comércio exterior:
• realocação dos recursos produtivos: transfere recursos destinados à produção de bens com desvantagem comparativa para a produção de bens que têm vantagem comparativa;
• equalização dos preços no mercado internacional: em outras palavras, os preços da mercadoria x nos países A e B tornam-se iguais. Cabe esclarecer que essa equalização ocorre no preço FOB. Evidentemente, em cada país haverá diferenças no valor do frete, seguro e principalmente na carga tributária;
• melhora do nível de vida da população. Pela realocação dos recursos produtivos, haverá redução de custos e, por conseguinte, ampliação do poder aquisitivo dos consumidores.
2.9 MERCADO INTERNACIONAL E VANTAGENS COMPARATIVAS
Para facilidade de compreensão, raciocinamos como se existissem apenas dois países, A e B. Pelo mesmo motivo, trabalhamos como se existissem apenas duas mercadorias, x e y. Entretanto, o mercado internacional é composto de muitos países e inúmeras mercadorias. Isso, entretanto, apenas torna o problema mais complexo, mas não afeta os princípios das teorias apresentadas.
2.10 CUSTO DOS TRANSPORTES
Também não cogitamos dos custos de transportes. Isso poderia reduzir a vantagem comparativa ou torná-la inexistente. Em alguns casos, o custo dos transportes pesa bastante na formação do custo total.
Costuma-se dizer que o frete é proporcional à distância. Entretanto sempre isso ocorre. A título de exemplo, O Estado de S. Paulo publicou em 17-5-1992 o seguinte: “Na grande reunião ministerial que se realizou em Brasília, o ministro Eliezer Batista lembrou que o frete marítimo entre Fortaleza e Recife é mais caro do que entre Fortaleza e Tóquio”.
As despesas portuárias, que são agregadas ao custo do frete, podem também reduzir a vantagem comparativa. O Estado de S. Paulo publicou, em 25-5-1992, o seguinte: “O custo médio de embarque de uma tonelada de soja nos Estados Unidos é de US$ 20; no Brasil vai a US$ 65.” Diz ainda esse jornal: “A atual estrutura de funcionamento dos nossos portos está provocando perdas anuais de exportações de US$ 5 bilhões.” Como podemos ver, essa ineficiência dos portos anula vantagens comparativas.
Outro fator importante com relação ao custo do transporte é a possibilidade do frete de retorno. O país que dispuser desse benefício terá aumento da vantagem comparativa.
Entretanto, com o desenvolvimento técnico, dia a dia o custo do transporte torna-se menor.
3 TAXA DE CÂMBIO
3.1 GENERALIDADES
A taxa cambial nada mais é do que o preço, em moeda nacional, de uma unidade de moeda estrangeira. Assim, quando dizemos que um dólar vale R$ 3,00, estamos dando à moeda americana seu preço em moeda nacional. Ratti diz também que a taxa cambial mede o valor externo da moeda nacional. Isso significa que um americano sabe que o valor externo de sua moeda, no Brasil, é R$ 3,00.
3.2 A TAXA E A LEI DA OFERTA E DA PROCURA
“Em nome da lei da oferta e da procura, os mercados são manipulados, não raro e quando conveniente, pela lei do enfarte e da loucura.”
Portanto, a taxa é um produto do mercado e serve para corrigir as distorções do momento.
As mesmas forças que, no mercado, alteram o preço das mercadorias também afetam a taxa cambial. Por exemplo:
especulação: especular com moedas é mais fácil do que especular com mercadorias;
as mercadorias são de estocagem mais difícil e têm menor liquidez;
governos: eles interferem com maior frequência no mercado cambial.
taxas de juros: elas provocam migrações de capitais, que se movimentam de um país para outro à procura de lucro maior.
A taxa pode ser estável, ascendente ou descendente. Vejamos:
3.3 TAXA ESTÁVEL
A taxa será estável nas seguintes hipóteses:
• oferta e procura permanecem invariáveis;
• oferta e procura aumentam nas mesmas proporções; e
• oferta e procura diminuem nas mesmas proporções.
3.4 TAXA ASCENDENTE
A taxa será ascendente nas seguintes hipóteses:
• procura maior que oferta;
• procura permanece estável e oferta diminui;
• procura e oferta crescem; entretanto, o crescimento da procura é maior que o da oferta; e
• procura e oferta diminuem; entretanto, a diminuição da oferta é menor que a da procura.
3.5 TAXA DESCENDENTE
A taxa será descendente nas seguintes hipóteses:
• oferta aumenta e procura permanece estável;
• oferta aumenta e procura diminui;
• oferta e procura aumentam; entretanto, o aumento da oferta é maior do que o da procura;
• procura diminui e oferta permanece estável; e
• oferta e procura diminuem; entretanto, a diminuição da procura é maior do que a da oferta.
3.6 PROBLEMAS DECORRENTES DA FLUTUAÇÃO DA TAXA DE CÂMBIO
Vimos que, mesmo na vigência do padrão-ouro, as taxas flutuam. Hoje em dia, esse problema é maior porque nenhuma moeda é conversível em ouro.
Quando a moeda nacional fica muito valorizada prejudica a exportação.
Exemplificando:
• o preço externo de um par de sapatos é US$ 50,00;
• o custo total (custo de produção, impostos etc.) é R$ 40,00;
• a taxa do dólar é R$ 0,90;
• o lucro da exportação é R$ 5,00, isto é, R$ 45,00 (US$ 50 x R$ 0,90) menos R$
40,00 (custo total).
Devido à inflação, o custo total passa de R$ 40,00 para R$ 60,00. Se a moeda nacional não for desvalorizada, cessa essa exportação, porque daria prejuízo, isto é, ficaria gravosa. Portanto, a moeda nacional está artificialmente valorizada.
Ocorre que, desvalorizando a moeda, surgem outros problemas, tais como a elevação
dos custos dos insumos importados. No caso brasileiro, afetaria o preço do petróleo, com reflexos no aumento dos preços internos. Portanto, alimenta o processo inflacionário.
Em face disso, os governos passaram a intervir no mercado cambial, muitas vezes com reflexos nocivos ao nosso comércio com o exterior.
3.7 A TAXA DE CAMBIO COMO INSTRUMENTO DE POLITICA ECONÔMICA
A taxa cambial passou a ser um instrumento de política econômica tal como a taxa de juros.
P. T. Ellsworth, em seu livro Economia internacional, diz o seguinte:
“As taxas de câmbio desempenham um papel de importância crucial no Comércio Internacional, uma vez que suas variações alteram a escala de preços entre os países.”
3.7.1 Quando a Moeda está muito Valorizada
Em determinado momento, a moeda nacional pode estar muito valorizada. O que se deve fazer é verificar se a causa é conjuntural (passageira) ou estrutural (permanente).
Quando for conjuntural, o país não deve desvalorizar a moeda, porque a causa é transitória e logo desaparecerá. Uma desvalorização, nesse caso, traria outras consequências que tumultuariam a vida econômica da nação, tais como:
• problemas financeiros para as empresas que levantaram empréstimos em moedas estrangeiras; e
• aumento do custo dos insumos importados, particularmente o do petróleo, e, consequentemente, risco de incremento da inflação. Quando começou a crise asiática, o governo brasileiro enfrentou o problema das saídas maciças de divisas aumentando a taxa de juros e mantendo a taxa de câmbio constante. Isso porque acreditava que se tratava de uma situação momentânea, portanto, conjuntural.
Quando a causa é estrutural, a solução é o ajuste da taxa de câmbio, porque a causa é permanente; se a nação não o fizer hoje, terá de fazê-lo posteriormente. O atraso dessa decisão proporcionará uma série de problemas, tais como:
• prejudica a exportação e o turismo do exterior para o país; isso por- que, para o estrangeiro, nossos produtos tornam-se muito caros;
• estimula a importação e o turismo do país para o exterior, porque, para o cidadão, lá fora tudo é barato;
• cria um processo recessivo, porque desestimula a criação de empregos, tanto no setor industrial como no de turismo.
Entretanto, temendo repercussões políticas, os governos, muitas vezes, demoram para desvalorizar a moeda nacional e tomam as seguinte medidas:
• queimam suas reservas externas, vendendo divisas para cobrir os déficits no Balanço de Pagamento. Lembramos que as reservas são finitas, havendo um momento em que essa providência já não é possível; e
• elevam as taxas de juros internos para atrair capitais externos. Essa medida, a longo prazo, encarece a produção, aumentando o custo de vida.
3.7.2 Quando a Moeda está muito Desvalorizada
Também nesse caso devemos analisar se a causa é conjuntural ou estrutural.
Quando é conjuntural, não é necessário tomar nenhuma medida, porque o ajuste ocorrerá quando cessar a causa. Lembramos que ela é temporária.
Quando é estrutural, tem efeito a curto prazo e a longo prazo. A curto prazo repercute da seguinte forma:
• estimula a exportação e o turismo do exterior para o país, porque, para o estrangeiro, nossos produtos tornam-se muito baratos;
• desestimula as importações e o turismo do país para o exterior porque, para o cidadão, tudo lá fora é caro;
• há criação de novos empregos, decorrentes do aumento da produção (maior exportação e menor importação) e aumento do fluxo de turistas do exterior. Esses fatos tornam-se de maior importância quando o país atravessa um processo recessivo.
A longo prazo, a moeda desvalorizada provoca o seguinte:
• o parque produtivo nacional fica protegido da competição externa. Isso traz um processo de acomodação, o que o torna obsoleto, produzindo com altos custos e baixa qualidade. Há perda das exportações porque as mercadorias nacionais já não são mais aceitas no exterior;
• a moeda nacional desvalorizada encarece a importação de matéria-prima. Assim, toda exportação que dependa de algum componente importado fica bastante
onerada e, consequentemente, haverá perda de mercados externos;
• vimos que a taxa desvalorizada estimula as exportações e desestimula as importações. Esse desequilíbrio gera o crescimento das reservas cambiais. Ocorre que as divisas relativas a essas reservas são compradas com moeda nacional.
Quem compra (governo ou bancos particulares) precisa usar a própria caixa ou captar recursos na praça, que são onerados com juros. Esses juros ficam sufocantes quando as reservas cambiais são elevadas.
3.8 FUNDO DE ESTABILIZAÇÃO CAMBIAL
Vários países de economia livre passaram a intervir no mercado comprando ou vendendo divisas, de forma a manter a taxa cambial em nível que julgavam adequado.
Para vender, precisavam dispor de divisas que eram adquiridas com recursos de um fundo, chamado Fundo de Estabilização Cambial. Para a constituição desse fundo, os governos precisavam, muitas vezes, recorrer a emissões, o que gerava a inflação. Por esse motivo, muitos países foram abolindo esse fundo e partindo para outras soluções.
4 BALANÇO DE PAGAMENTOS
À medida que o Comércio Internacional começou a crescer, os países começaram a sentir a necessidade de medi-lo, para avaliar a importância de seu comportamento. Assim, nasceu um registro que foi a semente do Balanço de Pagamentos.
O professor Sebastião Garcia de Freitas, em seu livro Comércio internacional, diz o seguinte: “O primeiro país a inventariar seu comércio internacional, segundo se diz, foi a Inglaterra, e o primeiro registro deste saldo remonta ao ano de 1355”.
Com o crescimento do Comércio Internacional e com as dificuldades geradas pelos problemas econômicos (tais como inflação, escassez de divisas, contingenciamento de importações), o registro das transações com o exterior se tornou muito importante.
Portanto, havia necessidade de uma peça contábil que registrasse, classificasse e interpretasse as transações internacionais.
O assunto tornou-se de interesse geral, motivo por que o FMI criou uma padronização internacional das contas e passou a divulgar os Balanços de Pagamentos dos países-membros.
Portanto, as finalidades primordiais dos Balanços de Pagamentos são:
• informar como o país se comporta em suas transações com o exterior;
• tornar-se um instrumento para o governo tomar decisões necessárias para corrigir problemas relativos às transações com o exterior; e
• servir para medir os efeitos das medidas tomadas.
4.1 CONCEITO
Os primeiros conceitos de Balanço de Pagamentos diziam que era um registro de pagamentos e recebimentos feitos com o exterior. Posteriormente, verificou-se que o Balanço de Pagamentos deveria:
• referir-se a um período determinado, geralmente o ano civil;
• abranger também operações que não eram pagamentos, tais como os donativos.
Diante disso, passou-se a adotar a definição do FMI: “ Balanço de Pagamentos é o registro sistemático de todas as transações econômicas realizadas entre os residentes em determinado país e os residentes no resto do mundo, durante certo período, geralmente de um ano.”
Essa definição substitui “pagamentos e recebimentos” por “transações” , o que é muito mais amplo. Assim, incorpora os donativos. Também inclui o conceito de “ residente” , que é a pessoa física ou jurídica domiciliada no país. Portanto, o turista é residente no país de origem; o imigrante é residente no país onde se fixou. A filial de uma multinacional é residente onde está instalada; por exemplo, a Philips do Brasil é residente em nosso país.
O economista P. T. Ellsworth, em seu livro Economia internacional, dá a seguinte definição:
“O balanço de pagamentos internacionais de um país é um balancete resumido, ou conta corrente, de todas as transações de seus residentes com os residentes do resto do mundo”.
4.2 ESTRUTURA
Comumente, a estrutura dos balanços de pagamentos era:
1. TRANSAÇÕES CORRENTES 1.1 Balança Comercial
• Exportação
• Importação 1.2 Serviços
• Viagens internacionais
• Transportes
• Seguros
• Rendas (Juros, Lucros, Dividendos, Royalties e Salários e Ordenado)
• Serviços Diversos 1.3 Transferências Unilaterais
• Donativos
• Manutenção de residentes no país 2. MOVIMENTO DE CAPITAIS
2.1 Investimentos 2.2 Financiamentos 2.3 Amortizações 2.4 Empréstimos
• Curto Prazo
• Longo Prazo 2.5 Ouro Monetário 3. ERROS E OMISSÕES 4. SALDO (superávit ou déficit)
No mercado, as transações relativas a mercadorias (balança comercial) são também conhecidas por operações visíveis, e as demais, por invisíveis
Entretanto, o Banco Central do Brasil, em seu Relatório de 2002 relativo ao ano de 2001, adotou a seguinte estrutura:
1. TRANSAÇÕES CORRENTES 1 1 Balança comercial
• Exportação
• Importação 1.2 Serviços
• Transportes
• Viagens
• Seguros
• Financeiros
• Computação e Informações
• Royalties e Licenças
• Aluguel de Equipamentos
• Serviços Governamentais
• Outros Serviços 1.3 Rendas
• Salários e Ordenados
• Rendas de Investimentos (inclui Juros e Lucros/Dividendos) 1.4 Transferências unilaterais correntes
2. CONTA CAPITAL E FINANCEIRA 2.1 Investimento Direto
2.2 Investimento em Carteira 2.3 Derivativos
2.4 Outros Investimentos
3. ERROS E OMISSÕES 4. SALDO (superávit ou déficit)
Nessa nova estrutura as receitas e despesas relativas a Juros, Lucros e Dividendos passaram do item Serviços para o item Rendas. Isso nos parece mais lógico
4.3 BALANÇA COMERCIAL
A Balança Comercial registra as exportações e as importações. As exportações são contabilizadas como receitas e as importações como despesas. O critério mais usual é registrá- las (tanto a exportação como a importação) pelo valor FOB.
Não é considerado exportação o envio de mercadorias pelos governos para consumo em suas embaixadas e consulados no exterior. Também não é considerado exportação o envio de materiais pelos exércitos para suas forças sediadas no exterior.
As mercadorias são classificadas na Balança Comercial por códigos numéricos. Hoje em dia, a maioria dos países usa o código NAB (Nomenclatura Aduaneira de Bruxelas), criado inicialmente para ser usado pela CEE (Comunidade Econômica Europeia).
Tomando-se por base o ano 2001, relacionamos a natureza de nossas exportações e importações:
4.4 SERVIÇOS
O item Serviços, pelo novo padrão utilizado pelo Banco Central em 2002, compõe-se de:
• transportes;
• viagens;
• seguros;
• financeiros;
• computação e informações;
• royalties e licenças;
• aluguel de equipamentos;
• serviços governamentais;
• outros serviços.
4.5 RENDAS
Este item é composto de:
• salários e ordenados; e
• rendas de investimentos. Nesta alínea são contabilizados Juros, Lucros e Dividendos.
Na estrutura de Balanço de Pagamentos anterior à atual, não havia esse item.
Consequentemente, as rendas de investimentos eram registradas em Serviços. Essa mudança nos parece mais lógica.
4.6 TRANSFERÊNCIAS UNILATERAIS
Essa conta registra operações que não criam, em contrapartida, obrigações. Isto é, o país que recebe a moeda não precisa dar nada de volta, o que não ocorre com a importação e a exportação. Assim, são considerados transferências unilaterais os donativos, remessas para manutenção de residentes no país, heranças, reparações de guerra, auxílios a instituições beneficentes ou religiosas.
O professor Sebastião Garcia Freitas denomina-as gratuitas, sendo que algumas são gratuitas e também compulsórias. E o caso das remessas relativas a reparações de guerra.
FMI classifica essas operações como unrequited transfers, ou seja, transferências não retribuídas. As ajudas dos países do Primeiro Mundo para os do Terceiro Mundo são registradas nessa rubrica.
4.7 TRANSAÇÕES CORRENTES
Transações Correntes é a soma algébrica dos saldos contabilizados na Balança Comercial, nos Serviços, nas Rendas e nas Transferências Unilaterais
O saldo de Transações Correntes é muito importante por que:
• quando positivo, impede a eclosão das crises cambiais, por que:
− inspira confiança nos investidores estrangeiros que aplicam em portfólios (Bolsas e Fundos de Investimentos);
− também inspira confiança nos banqueiros internacionais que concedem créditos; e
− obtém dos organismos de análise de crédito internacional notas positivas ao país, o que reforça a confiança dos investidores e dos banqueiros (veja no Capítulo 1, Classificação dos países pelas empresas de rating);
• quando negativo, deixa o país em condições vulneráveis a crises cambiais. Isso porque, de forma inversa ao que falamos nos saldos positivos, inspira desconfiança dos investidores e dos banqueiros e leva os organismos de crédito internacional a darem notas negativas.
4.8 CONTA CAPITAL E FINANCEIRA
A Conta Capital e Financeira, na antiga estrutura de Balanço de Pagamentos, era denominada Movimento de Capitais.
Nos mercados onde há segurança e liberdade, os capitais se movimentam em busca de lucros. Esses movimentos são registrados no Balanço de Pagamentos como:
• créditos: quando se referem a entradas de capitais; ou
• débitos: quando se referem a saídas de capitais.
Tanto as entradas como saídas são:
• investimentos e reinvestimentos;
• financiamentos;
• amortizações;
• empréstimos (curto prazo e longo prazo); e
• ouro monetário.
4.8.1 Investimentos e Reinvestimentos
Investimento e reinvestimento é o capital de risco. Eles são parte integrante do patrimônio da empresa e correm o risco de ter lucro ou prejuízo. As entradas (créditos) correspondem a ingressos de capitais estrangeiros ou retorno de capitais nacionais que estavam aplicados no exterior. As saídas (débitos) significam o inverso, isto é, retorno de capitais estrangeiros ou remessas de capitais nacionais para o exterior, onde serão aplicados.
A importância desse item no Balanço de Pagamentos é muito grande.
4.8.2 Financiamentos
Nesse item são enquadradas as importações financiadas. Portanto, é um empréstimo em mercadorias e não em moedas.
4.8.3 Amortizações
São os pagamentos parciais de dívidas que, a exemplo dos investimentos, podem ser entradas (quando a nação emprestou) ou saídas de capitais (quando a nação pediu emprestado).
4.8.4 Empréstimos
Enquanto o investimento é não exigível, o empréstimo é exigível. Deve retornar ao exterior em seu vencimento.
Os capitais que entram no país para permanecer mais de 360 dias são denominados de Longo Prazo. Os de prazo menor a 360 dias são chamados de Curto Prazo.
Entre os créditos comerciais de curto prazo, destacamos o pre-export, que, no Brasil, fornece recursos para financiar nossas exportações, e o hot money (dinheiro quente). Os bônus da dívida externa brasileira são empréstimos a longo prazo.
4.8.5 Hot Money
O hot money é um capital que ingressou no país com o intuito de não criar raízes.
Isto é, permanece temporariamente enquanto for conveniente; foge quando ocorre o primeiro sintoma de alguma anomalia no país. A palavra hot (quente) faz lembrar o dito popular
“batata quente” , isto é, aquela matéria que ninguém quer ter em suas mãos porque ela as queima.
Exemplos de hot money:
1. aplicações em bolsa no exterior, com fins especulativos;
2. especulação cambial, isto é, compra de moeda estrangeira na baixa para vender na alta. Operação de grande risco, porque poderá não haver alta esperada;
3. outras aplicações no mercado financeiro, tais como investimentos em fundos de renda fixa, particularmente quando a taxa de juros no país é maior do que as do mercado internacional. Quando os juros caem, o hot money procura outras praças;
4. empréstimos a prazos curtos, renováveis de acordo com a situação presente do país. Também neste caso, ele foge quando as taxas caem.
Como vemos, o hot money pode ingressar sob a forma de investimento ou de empréstimos.
4.8.6 Ouro Monetário
Saldo negativo do Balanço de Pagamentos pode ser pago em ouro. O país que assim procede registra a saída desse metal a crédito de seu Balanço; a nação recebedora registra a débito. Nesse caso, a movimentação do ouro é considerada uma transação financeira, denominada Ouro Monetário.
Quando um país compra ouro (importação) ou vende (exportação) como matéria- prima para a indústria, essa movimentação é contabilizada na Balança Comercial e classificada como Ouro não Monetário.
4.9 TRANSAÇÕES AUTÔNOMAS E TRANSAÇÕES COMPENSATÓRIAS
O Balanço de Pagamentos registra transações autônomas e, eventualmente, compensatórias.
Autônomas são todas as operações usuais relativas à economia internacional. Isto é, importações, exportações, serviços, transferências unilaterais e movimento de capitais.
Compensatórias são as operações especiais realizadas eventualmente pelos governos com a finalidade de saldar déficits do Balanço de Pagamentos.
4.10 SALDOS DOS BALANÇOS DE PAGAMENTOS
O saldo das operações autônomas pode ser:
• nivelado; ou
• superavitário; ou
• deficitário.
Caberia a pergunta: qual o saldo ideal? Vejamos:
4.11 SALDO NIVELADO
O saldo é nivelado quando o total dos débitos e dos créditos de transações autônomas é igual. Em situações normais, esse é o saldo ideal porque, nessas condições, o Balanço de Pagamentos não afeta o Ml* nem o nível de reservas cambiais.
Vejamos por que não afeta o M1; quando o Balanço de Pagamentos for nivelado, a moeda nacional recebida dos compradores de divisas é entregue aos vendedores (são compradores: importadores, emitentes de ordens para o exterior; são vendedores:
exportadores, beneficiários de ordens do exterior etc.).
Portanto, os pagamentos e os recebimentos, em moeda nacional, são iguais, o que não afeta o M1. Nesse caso, a rede bancária apenas repassa toda moeda nacional recebida dos compradores de divisas para os vendedores de divisas.
Vejamos por que não afeta o Nível de Reservas Cambiais: o mesmo fato ocorre com a moeda estrangeira. A rede bancária também transfere as divisas recebidas dos vendedores para os compradores. Dessa forma, não altera o saldo de moeda estrangeira que o país possui no exterior.
Para facilitar nosso raciocínio, imaginemos um país em que o Balanço de Pagamentos seja composto apenas pela balança comercial. Teríamos:
Importador moeda nacional Exportador Importador F moeda estrangeira Exportador
Evidentemente, entre o importador e o exportador existe a rede bancária.
4.12 SALDO SUPERAVITÁRIO
O saldo é superavitário quando o total de créditos das transações autônomas (entradas de divisas) for superior ao total dos débitos dessas transações (saídas de divisas). O superávit pode ser de natureza conjuntural ou estrutural.
O superávit conjuntural é aquele que ocorre eventualmente em determinado período e depois não se repete. A título de exemplo, citamos o aumento das exportações brasileiras durante a Segunda Guerra. As indústrias dos países em conflito tiveram sua produção prejudicada pelos bombardeios e também dirigida para o esforço de guerra. Por isso, não puderam exportar. Entretanto, terminado o conflito, elas voltaram a produzir e, como não pudemos competir, caíram nossas exportações, desaparecendo nosso superávit.
O superávit estrutural é aquele que se torna constante, não decorrente de fato
acidental, mas de condições de qualidade dos produtos ou dos preços bastante competitivos.
Ambos (qualidade e preços) são devidos a técnicas de produção muito avançadas. É o que ocorre hoje com o Japão.
Os saldos superavitários têm aspectos positivos e negativos.
Como aspecto positivo, diríamos que aumentam as reservas cambiais do país.
Lembramos que as reservas permitem à nação enfrentar, com mais segurança, as ocasiões de turbulência cambial.
Entretanto, essas reservas têm um custo. Para manter a taxa estável, o governo compra as divisas com moeda nacional (no caso brasileiro, com reais), obtida por meio de impostos ou de empréstimos (lançamentos de títulos da dívida pública) ou de emissões. Esse seria o aspecto negativo do saldo superavitário.
Esse fato negativo desapareceria se o Governo permitisse que os bancos ou os proprietários de moeda estrangeira mantivessem essas divisas em nome deles em bancos do exterior. É o que ocorre em vários países do mundo. Portanto, o Governo não precisaria criar recursos em moda nacional para pagar aos vendedores de moeda estrangeira.
4.13 SALDO DEFICITÁRIO
O saldo é deficitário quando o total de débitos das transações autônomas (saídas de divisas) for superior ao total de créditos dessas transações (entradas de divisas). O déficit também pode ser de natureza conjuntural ou estrutural.
O déficit conjuntural é aquele que ocorre em determinado período e depois não se repete. É, portanto, consequência de uma causa fortuita. Como exemplo, citamos um país cuja exportação se assenta, num percentual muito grande, em produtos agrícolas. Num ano de má colheita, em decorrência de um fenômeno meteorológico (seca, enchente, tufão etc.), o Balanço de Pagamentos torna-se deficitário. Como se trata de problema transitório, no ano seguinte dificilmente esse fato se repetirá e o Balanço de Pagamentos se regularizará.
Entretanto, se a causa se torna repetitiva, o déficit deixa de ser conjuntural e passa a ser déficit estrutural. Ele não é consequência de uma causa fortuita, mas efeito de uma causa constante. Quando a Opep aumentou exageradamente o preço do petróleo, vários países, inclusive o Brasil, passaram a ter déficits seguidos nos Balanços de Pagamentos. Como não havia perspectiva de queda nos preços, esse déficit tornou-se estrutural.
4.14 SOLUÇÃO PARA OS DÉFICITS
A solução para o desequilíbrio do Balanço de Pagamentos é, obviamente, remover a causa. Ellsworth, em seu livro Economia internacional, diz que o déficit é um sintoma e não um problema básico. Complementando, diríamos que ele é o efeito e não a causa. Portanto, o déficit é um alerta de que alguma coisa precisa ser modificada na política econômica do país.
4.14.1 Solução para os Déficits Conjunturais
Nos casos de déficits conjunturais, a causa desaparece automaticamente no exercício seguinte. Portanto, a solução é fácil e pode ser obtida por meio de uma das seguintes formas:
• o país possui reservas cambiais depositadas em bancos do exterior.
Nesse caso, paga o déficit com as divisas disponíveis em suas contas;
• o país não dispõe de saldos bancários no exterior, mas possui ouro. Nesse caso, troca o metal por divisas ou entrega o ouro diretamente aos credores;
• o país não dispõe de reservas cambiais nem de ouro. Nesse caso, solicita um empréstimo a um banqueiro no exterior e paga o déficit. Esse empréstimo é denominado “empréstimo compensatório”. Quando voltar à normalidade, paga o empréstimo.
4.14.2 Solução para os Déficits Estruturais
A solução para os estruturais é bem mais difícil porque a remoção das causas exige mudanças nas estruturas econômicas e até sociais do país. Se, por exemplo, parte do déficit decorre da importação de trigo, há necessidade de se criar um pão alternativo, o que colide com os hábitos do povo.
Se a causa do déficit estrutural for a inflação, o governo deverá reajustar a taxa cambial, porque a exportação fica gravosa e a importação muito conveniente. O mesmo acontece com o turismo: bom viajar para o exterior e ruim para o turista do exterior. Ocorre que os governos, temendo consequências políticas, muitas vezes, não ajustam a taxa cambial.
Portanto, a moeda nacional fica supervalorizada, o que ocasiona déficit nos Balanços de Pagamentos.
Enquanto o país tiver reservas cambiais ou reservas em ouro ou gozar da confiança para obter créditos compensatórios, o governo poderá liquidar os déficits do Balanço de Pagamento. No momento em que ele não mais dispuser desses recursos, ocorrerá o seguinte:
• o país desvalorizará a moeda nacional com o intuito de gerar divisas; ou
• deixará de pagar os compromissos externos, declarando uma moratória unilateral, com desastrosas consequências para o país. Os pagamentos não realizados passam a constituir os atrasados comerciais.
4.15 RESERVAS CAMBIAIS
O balanço de pagamentos superavitário cria reservas no exterior, que permitem enfrentar dificuldades. Quando a Opep aumentou drasticamente os preços do petróleo, os países com reservas cambiais puderam enfrentar melhor a crise energética e, enquanto utilizavam suas Reservas Cambiais, tiveram tempo para criar medidas adequadas.
Da mesma forma que as empresas necessitam de um fundo de reservas, os países precisam de um saldo de divisas para enfrentar dificuldades cambiais. O efeito negativo da crise mexicana, ocorrida em fins de 1994, foi bem menor para o Brasil do que para a Argentina, porque nossas reservas cambiais eram bem maiores do que as daquele país.
Com o progresso dos meios de comunicações e a popularização do uso dos computadores, os mercados financeiros podem sofrer saques diários de valores elevadíssimos;
por essa razão, os países tiveram de aumentar suas reservas cambiais.
As reservas geralmente são compostas por divisas, ouro e DES.1 Reali Junior, em artigo publicado em O Estado de S. Paulo, de 11-4-1995, diz o seguinte: “ Há 10 anos, 80%
das reservas em divisas eram mantidas pelos Bancos Centrais do mundo em dólares. Hoje, essa proporção caiu para 60%. 0 iene, o marco, ou o ECU (unidade monetária europeia, substituída pelo euro) começam a substituir a moeda americana.”
4.15.1 Nível Ideal de Reservas
De acordo com o FMI, os países precisam ter reservas de segurança para:
• cobrir, no mínimo, três meses de importação; ou
• pelo menos, dois terços do déficit dos pagamentos externos em conta corrente (Joelmir Beting, O Estado de S. Paulo, de 19-8-1997).
Achamos que houve um ponto omisso: os países necessitam também de reserva de segurança para o hot money (capital volátil) . Essa reserva deverá ser um percentual sobre o montante desse capital, que deverá variar de acordo com a situação do momento. Como
exemplo semelhante, citamos o encaixe bancário para enfrentar os saques diários nos guichês dos bancos; ele se altera conforme for o comportamento do mercado, isto é, quando o mercado está mais calmo, é baixo; mais intranquilo, é alto.
Achamos que, no caso brasileiro, deveria ser maior do que o proposto pelo FMI porque:
• para corrigir um desequilíbrio cambial, o governo necessita tomar algumas medidas cujo efeito nem sempre é instantâneo;
• uma parte de nossas reservas foi formada por capitais estrangeiros aplicados a curto prazo que poderão retornar ao exterior a qualquer momento. A propósito, Antônio Ermírio de Moraes declarou que o governo deveria providenciar a separação, nas reservas cambiais, dos valores decorrentes de capital especulativo;
reserva especulativa só é reserva enquanto as taxas de juros forem elevadas.
4.16 ERROS E OMISSÕES
É comum encontrarmos nos Balanços de Pagamentos a conta “Erros e Omissões”.
Sobre o assunto, colhemos as seguintes informações:
• “Tradicionalmente, entende-se que os erros e omissões escondem essencialmente créditos de curto prazo não contabilizados” (Conjuntura Econômica, jul. 1997);
• o balanço de pagamentos registra as transações pelo processo contábil de partidas dobradas. Em outras palavras, exportação (fato 1) gera um aumento de divisas (fato 2); portanto, há dois fatos distintos. Ocorre que pode haver hiato nas informações. Isto é, temos o registro de um fato, mas ainda não temos o registro do outro. Essa discrepância gera um valor no item “Erros e Omissões” (Economia internacional, de Peter B. Kenen).
5 CENTROS FINANCEIROS E PARAÍSOS FISCAIS
5.1 CENTROS FINANCEIROS
A distribuição geográfica dos grandes centros financeiros faz com que o mercado financeiro internacional funcione 24 horas por dia. Assim, quando os grandes centros da Ásia estão fechando (Tóquio, Cingapura, Hong Kong e outros), os da Europa estão abrindo (Frankfurt, Milão, Paris, Londres e outros). Quando estes estão fechando, os da América estão abrindo (New York, Chicago, São Francisco e outros). Quando São Francisco está fechando, os da Ásia estão abrindo.
Para que um centro financeiro se torne importante é necessário que:
• inspire a confiança dos investidores, particularmente, segurança;
• tenha uma legislação conveniente, que permita uma liberdade cambial;
• o sistema bancário seja eficiente;
• possua excelente sistema de telecomunicações;
• tenha estabilidade política e econômica;
• ofereça rentabilidade conveniente;
• mantenha sigilo bancário;
• tenha o mínimo de burocracia, o que reduz custos operacionais; e
• disponha de facilidades administrativas (local conveniente para instalações e mão- de-obra qualificada).
Essas condições constituem as causas dos capitais migrarem de um centro financeiro para outro. Elas, portanto, ligam os mercados equalizando taxas. Em outras palavras, se as taxas de Londres forem inferiores às de Cayman, Londres terá duas opções:
• perder as aplicações; ou
• oferecer taxas iguais às de Cayman (equalização de taxas) .
5.2 LONDRES
Londres é o maior centro financeiro da Europa e, segundo alguns operadores, o maior do mundo. Em 1994, o setor financeiro de Londres empregava 10% da força de trabalho da cidade e contribuía com 15% do PIB.
Na década de 70, houve um ingresso muito grande de bancos estrangeiros, o que gerou maior desenvolvimento desse centro.
Em 1986, por meio de uma desregulamentação conhecida como Big Bang, foram eliminadas muitas barreiras restritivas.
Em 1999, Londres era o maior mercado mundial de câmbio. Operava, por dia, US$
620 bilhões, o que correspondia a um terço do mercado global.
Inegavelmente, Londres goza de uma posição geográfica excelente; ela fica bem no meio dos grandes centros mundiais, situados na Ásia e na América.
5.3 AGÊNCIAS BANCARIAS OFFSHORE
A tradução ao pé da letra de offshore seria "fora da praia", ou melhor, "além- mar";
portanto, fora do território doméstico. Em outras palavras, embora esses centros fiquem fisicamente localizados no país, sob o aspecto fiscal e jurídico, estão fora da nação e, consequentemente, não sujeitos às leis nacionais, o que os torna imune às interferências governamentais.
Existem agências offshore de bancos instaladas em New York, mas fora do alcance das leis americanas.
5.4 PARAÍSOS FISCAIS
Existem praças que, praticamente, não tributam as operações financeiras. Elas são conhecidas por "paraísos fiscais". Há cerca de 40 que não cobram impostos e, curiosamente, 95% são possessões britânicas ou ex-colônias inglesas.
Além da isenção de impostos, a burocracia é mínima. Em alguns centros financeiros, como a ilha de Anguila, é possível criar e regularizar uma empresa em apenas 24 horas.
5.4.1 Características dos Paraísos Fiscais
Os paraísos fiscais precisam ter todas as qualidades dos grandes centros financeiros.
Ocorre que, além daquelas características, há necessidade de possuírem:
• isenção fiscal para as operações;
• liberdade cambial plena;
• praticamente nenhuma interferência do governo.
Há condições que podem ser importadas de outros mercados, como mão- de-obra qualificada. Entretanto, as demais devem ser criadas pelo próprio país.
Os dois pontos fundamentais são inexistência de impostos e sigilo bancário.
Algumas praças permitem a quebra do sigilo, com muita cautela, quando se trata de clientes envolvidos em processos de narcotráfico.
5.4.2 Ilhas Cayman
Um dos paraísos fiscais mais conhecidos são as Ilhas Cayman. Num minúsculo território, no ano de 2000, havia 595 instituições financeiras, sendo 45 brasileiras. Ocorre que apenas 110 estabelecimentos têm presença física na região. Isso significa que os demais têm apenas um endereço para formalidades, e a maioria mantém a administração em New York.
Por isso, diziam as más línguas, que se todos os gerentes de agências bancárias fossem para Cayman, as ilhas afundariam.
Elas constituem o quinto maior centro financeiro do mundo, atrás apenas de New York, Tóquio, Londres e Frankfurt. Em Cayman, o número de empresas isentas de imposto (cerca de 45 mil) é maior do que o de habitantes (cerca de 36 mil)
5.4.3 Outros Paraísos Fiscais
Mônaco: em Mônaco há cerca de 340 mil contas, sendo que 60% delas são de pessoas que não residem nesse principado. Há dez vezes mais contas que moradores e 64%
dos fundos administrados em Mônaco pertencem a agentes que lá não moram
Liechtenstein: em Liechtenstein, os bancos lá instalados administram o montante de US$ 70 bilhões, que equivalem a 100 vezes o PIB do país. Esse principado tem 31 mil habitantes e é sede de 80 mil empresas. Quase todas as empresas lá sediadas mantêm apenas uma caixa postal e um registro na Junta Comercial local
Ilhas Jersey, Guernesey e Man: Elas devem obediência à rainha da Inglaterra, mas não estão sujeitas às leis e impostos britânicos. Em consequência, o total de depósitos bancários, dividido pelo número de habitantes, dá uma média aproximada de US$ 13 milhões para cada ilhéu.