INTERVENÇÕES CONTEMPORÂNEAS EM PATRIMÔNIO EDIFICADO:
OBRAS DO ARQUITETO NELSON DUPRÉ
EDUARDO ADALBERTO JACCOUD JUNIOR
São Paulo
2019
INTERVENÇÕES CONTEMPORÂNEAS EM PATRIMÔNIO EDIFICADO:
OBRAS DO ARQUITETO NELSON DUPRÉ
EDUARDO ADALBERTO JACCOUD JUNIOR
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito para obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Augusta Justi Pisani
São Paulo
2019
Bibliotecária Responsável: Giovanna Cardoso Brasil CRB-8/9605
P381 Jaccoud Junior, Eduardo Adalberto.
Intervenções contemporâneas em patrimônio edificado: as obras do arquiteto Nelson Dupré. / Eduardo Adalberto Jaccoud Junior.
195 f. : il. ; 30 cm
Dissertação (mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2019.
Orientadora: Maria Augusta Justi Pisani.
Bibliografia: f. 178 -184.
1. Arquitetura. 2. Intervenção. 3. Patrimônio edificado. 4.
Tecnologia. 5. Dupré, Nelson. I. Pisani, Maria Augusta Justi, orientadora. II. Título.
CDD 720.981
Dedico esse momento da minha vida aos meus pais, Maria Sílvia Guimarães e Eduardo Adalberto Jaccoud, que me incentivaram a seguir nessa árdua jornada.
AGRADECIMENTOS
Consagro este trabalho primeiramente a Deus, pois ele tem sido essencial em minha vida, autor de meu destino, meu guia, socorro presente na hora da angústia, conforto e sabedoria integral, ao me pai, Eduardo Adalberto Jaccoud e a minha mãe, Maria Sílvia Guimarães.
Agradeço aos meus antepassados, paternos e maternos, “In Memorian”, pela existência dos meus pais que acreditam e me apoiam, incentivando-me a conquistar meus objetivos.
Aos amigos e colegas que durante o curso, se mantiveram presentes nessa minha árdua caminhada.
A minha orientadora Prof.ª Dr.ª Maria Augusta Justi Pisani, pela dedicação, pelos materiais fornecidos, pela sua orientação e amizade sincera de tantos anos.
A diretora do Departamento do Patrimônio Histórico – (DPH) a Mariana de Souza Rolim pela presteza indispensável.
Ao Professor Nelson Dupré que me recebeu gentilmente em seu escritório-Dupré Arquitetura para conversarmos sobre as obras, objeto dessa pesquisa.
Aos componentes da banca examinadora a Prof.ª Dr.ª Aline Nassaralla Regino e o Prof. Dr. José Geraldo Simões Júnior.
Agradeço a Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico – (UPPH) do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo - Condephaat, o departamento do Centro de Documentação – (CEDOC) em especial a funcionária, Norma Suely Rocha, pela dedicação e empatia, nas incontáveis vezes que seu suporte foi imprescindível para a realização deste trabalho.
E por fim, agradeço Universidade Presbiteriana Mackenzie, pela oportunidade em poder
corroborar com essa renomada instituição.
"De um traço nasce a arquitetura. E quando ele é bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nível superior de uma obra de arte.
(Oscar Niemeyer)".
RESUMO
Este estudo procura examinar as intervenções contemporâneas adotadas pelo arquiteto Nelson Carlos Lauson Dupré, em patrimônio edificado na cidade de São Paulo. O objetivo desse trabalho é analisar as posturas projetuais a partir das suas seguintes obras: Cinemateca Brasileira - Antigo Matadouro da Vila Mariana (1887) e a Sala São Paulo na Estação Júlio Prestes (1938). Nos estudos de casos apresentados serão analisadas as estratégias contemporâneas adotadas pelo arquiteto no âmbito da preservação e conservação do patrimônio edificado. O método utilizado emprega levantamentos bibliográficos, análises e reflexões referentes às teorias, conceitos, recomendações aplicadas em intervenções, tais como: a preservação, conservação e restauro de patrimônio edificado demonstradas por meio das Cartas Patrimoniais e textos que contribuíram na prática de preservação do patrimônio. As demais fases do método se referem a levantamentos de campo e consulta do acervo com o autor dos projetos. Os resultados desta investigação poderão auxiliar outras pesquisas e projetos na área de intervenções em edifícios tombados.
Palavra-chave: Arquitetura, Intervenção, Patrimônio Edificado, Tecnologia, Nelson
Dupré,
This study seeks to examine the contemporary interventions adopted by architect Nelson Carlos Lauson Dupré, in built heritage in the city of São Paulo. The objective of this work is to analyze the projective postures from his following works: Brazilian Cinematheque - Old Slaughterhouse of Vila Mariana (1887) and the São Paulo Room at Júlio Prestes Station (1938). In the case studies presented will be analyzed the contemporary strategies adopted by the architect in the ambit of the preservation and conservation of the built heritage. The method used employs bibliographic surveys, analyzes and reflections regarding the theories, concepts, recommendations applied in interventions, such as: the preservation, conservation and restoration of built heritage demonstrated through the Heritage Letters and texts that contributed to the practice of heritage preservation. The other phases of the method refer to field surveys and consultation of the collection with the author of the projects. The results of this investigation may assist other research and projects in the area of interventions in overturned buildings.
Keywords: Architecture, Intervention, Built Heritage, Technology, Nelson Dupré,
Figura 1 - Vista Aérea da Estação Júlio Prestes - Sala São Paulo ... 16
Figura 2 - Vista do Conjunto da Cinemateca Brasileira ... 17
Figura 3 - Santuário do Bom Jesus dos Matosinhos, exemplo de patrimônio cultural tangível - Congonhas - MG. ... 19
Figura 4 - O Frevo no Recife exemplo de patrimônio cultural imaterial Brasileiro ... 20
Figura 5 - Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Alto Paraíso de Goiás), exemplo de patrimônio natural brasileiro. ... 20
Figura 6 - Vista interna The Coal Exchange - Londres (1849) ... 22
Figura 7 - Vista externa do “The Coal Exchange” Londres (1849) ... 23
Figura 8 - Grand-Hornu (2011) ... 24
Figura 9 - Vista interna do extinto Halles Centrales, Paris (1874) ... 25
Figura 10 - Vista da cidade de Ouro Preto, por volta de 1870 ... 27
Figura 11 - As ruínas do Castelo
Chateau de Pirrefonds, danificado durante o séculoXVII, por volta de 1880. ... 41
Figura 12 - Vista do Castelo
Chateau de Pirrefounds, restaurado no final do séculoXIX, por volta de 1910. ... 42
Figura 13 - Pintura do Arco do Tito antes da intervenção... 45
Figura 14 - Arco do Tito após a intervenção no início do século XX, por volta de 1910 ... 46
Figura 15 - Anastilose realizado no Tesouro de Atenas em Delfos, Grécia, c 500 - 485 a.c ... 55
Figura 16 - Plan Voisin, Le Corbusier (1925) ... 59
Figura 17 - Vista da Capela de Santa Quitéria, zona rural de Ouro Preto, MG ... 61
Figura 18 - Vista aérea do conjunto arquitetônico da cidade de Ouro Preto – MG ... 62
Figura 19 - Antiga Estação Sorocabana, construída no final do século XIX. ... 86
Figura 20 - Projeto Inicial da Sorocabana - Nova estação – Projeto Premiado em 1927 87 Figura 21 - Projeto executado – de forma simplificada por falta de recursos - sem cúpulas e o último pavimento ... 87
Figura 22 - Vista da Estação da Estrada de Ferro Sorocabana, atualmente Estação Júlio Prestes em 1948 na cidade de São Paulo. ... 88
Figura 23 - Delimitação do bairro dos Campos Elíseos, onde está localizada a Estação Júlio Prestes (2018) ... 89
Figura 24 - Vista aérea da estação Júlio Prestes (1993), observa-se a ausência da cobertura do jardim interno que abrigará a sala de concertos - A Sala São Paulo. ... 95
Figura 25 - Antigo jardim interno da Estação Júlio Prestes - ano de 1983, local onde foi implantada a futura sala de concertos: A Sala São Paulo. ... 96
Figura 26 - A planta de situação, local onde foi implantada a sala de concertos: Sala São Paulo. ... 98
Figura 27 - A planta do pavimento térreo... 99
Figura 28 - Vista do pavimento térreo - ft.1 ... 100
Figura 29 - A planta do mezanino ... 101
Figura 32- A planta primeiro pavimento ... 104
Figura 33 - A planta do 2º pavimento ... 105
Figura 34 - Vista sobre os módulos acústicos ... 106
Figura 35 - Vista sobre os módulos acústicos e o vitral ao fundo ... 107
Figura 36 - Vista do “Concourse” Figura 37 - Vista do Acesso às plataformas ... 108
Figura 38 - Vista do isolamento acústico da plataforma do trem com o Concourse. ... 109
Figura 39 - Vista do isolamento acústico do Concourse com o hall dos arcos. ... 109
Figura 40 - Figura 40: Corte transversal ... 110
Figura 41 - Corte longitudinal ... 112
Figura 42 - Vista aérea da antiga estação Júlio Prestes - cobertura metálica isotérmica ... 112
Figura 43 - Vista aérea da cobertura da sala de concertos... 113
Figura 44 - Vista dos balcões do mezanino ... 114
Figura 45 - Vista da estrutura de aço em balanço para os futuros balcões ... 114
Figura 46 - Vista balcões com os acabamentos em madeira ... 115
Figura 47 - Vista da estrutura da laje do balcão superior e o concreto ... 115
Figura 48 - Vista do hall central ... 117
Figura 49 - Vista da estrutura da plateia e palco ... 118
Figura 50 - Vista do elevador do piano ... 118
Figura 51 - Vista das portas e painéis ... 119
Figura 52 - Planta do Pavimento Térreo do Edifício Júlio Prestes, com o programa original proposto pelo arquiteto Cristiano Stocler das Neves (1925). ... 120
Figura 53 - Antigo jardim interno da Estação Júlio Prestes - ano de 1983, local onde foi implantada a futura sala de concertos: A Sala São Paulo. ... 121
Figura 54 - Vista interna da sala de concertos – altura máxima do forro móvel – vista do vitral ... 121
Figura 55 - Corte Transversal A- B do Edifício Júlio Prestes, com o programa original proposto pelo arquiteto Cristiano Stockler das Neves (1925) ... 122
Figura 56 - Corte transversal ... 123
Figura 57 - Corte Transversal C-D do Edifício Júlio Prestes, com o programa original proposto pelo arquiteto Cristiano Stockler das Neves (1925). ... 123
Figura 58 - Corte longitudinal ... 123
Figura 59 - Planta de Cobertura do Edifício Júlio Prestes, com o programa original proposto pelo arquiteto Cristiano Stockler das Neves (1925). ... 124
Figura 60 - Vista da placa de mármore comemorativa da construção do Matadouro Municipal ... 130
Figura 61 - Vista do ramal ferroviário chegando ao matadouro... 131
Figura 62 - Antigo Matadouro Municipal da Vila Mariana\atual Cinemateca Brasileira - dec. 20 ... 132
Figura 63 - Localizada no bairro da Vila Clementino - SP, Antigo Matadouro, atual
Cinemateca Brasileira ... 134
Figura 66 - Vista aérea da Fachada Principal - descaracterizada ... 138
Figura 67 - Prancha Fachada - detalhes do restauro da fachada. ... 141
Figura 68 - Prancha Fachada - detalhes do restauro da fachada. ... 141
Figura 69 - Vista da recuperação na fachada do galpão 4 - Década de 1990 ... 144
Figura 70 - Implantação do conjunto arquitetônico da Cinemateca Brasileira ... 144
Figura 71 - Plano Diretor proposto por Dupré ... 145
Figura 72 - Tratamento urbanístico no Largo Senador Raul Cardoso - frente da Cinemateca Brasileira ... 146
Figura 73 - Vista do Largo Senador Raul Cardoso e o conjunto da Cinemateca Brasileira ... 146
Figura 74 - portão de acesso envidraçado - parte externa ... 147
Figura 75 - portão de acesso envidraçado - parte interna ... 148
Figura 76 - Vista das vedações com vidro transparente ... 148
Figura 77 - Desenhos das Portas Acústicas ... 149
Figura 78 - Vista das vedações de cobertura com vidro transparente ... 149
Figura 79 - Vista das vedações com vidro transparente ... 150
Figura 80 - Vista noturna da área de circulação entre os galpões ... 150
Figura 81 - Planta do Térreo - salão de eventos/Sala BNDES ... 151
Figura 82 - Vista interna do galpão - armazenamento de material elétrico da ILUME - década de 1980. -antes da intervenção. ... 152
Figura 83 - Vista do salão de eventos e ao fundo o trilho sob o piso de vidro - sem exposições - ... 153
Figura 84 - Vista do salão de eventos e ao fundo o trilho sob o piso de vidro - com exposições ... 153
Figura 85 - Vista interna do galpão - armazenamento de material elétrico da ILUME - década de 1980. -antes da intervenção. ... 154
Figura 86 - Vista interna do galpão - armazenamento de material elétrico da ILUME - década de 1980 -antes da intervenção. ... 154
Figura 87 - Vista do trilho sob o piso de vidro ... 155
Figura 88 - Planta do Mezanino - salão de eventos/ Sala BNDES ... 155
Figura 89 - Planta da Sala BNDES ... 156
Figura 90 - Vista interna da Sala BNDES ... 157
Figura 91 - Vista interna da Sala BNDES – iluminação externa controlada por dispositivos automatizados. ... 158
Figura 92 - Detalhamento da cortina lateral automatizada e dos degraus ... 158
Figura 93 - Corte Longitudinal - salão de eventos/ Sala BNDES ... 159
Figura 94 - Corte Transversal ... 159
Figura 95 - Detalhe do forro lanternim ... 160
Figura 96 - Corte – anexo do salão de eventos / Sala BNDES e Elevação Frontal ... 161
Figura 97 - Vista da área externa anexa ao salão de eventos – caixa de vidro / Sala BNDES ... 162
Figura 98 - Vista do pátio - antes da intervenção ... 162
Cardoso) ... 164
Figura 101 - Vista interna do Salão Petrobrás ... 164
Figura 102 - Vista interna Centro de Documentação - Biblioteca ... 164
Figura 103 - Vista do acesso do Salão de Eventos e BNDES para o Jardim externo .. 164
Figura 104 - Vista do acesso do Salão de Eventos e BNDES para o Jardim externo .. 165
Figura 105 - Vista do acesso do Salão de Eventos e BNDES - lado - Jardim externo . 166
Figura 106 - Vemos o processo de “obturação” garantindo a diferenciação dos materiais
(esquerda) ... 166
Figura 107 - Detalhe do material e argamassa de assentamento (direita) ... 167
Figura 108 - Processo de “obturação” garantindo a diferenciação dos materiais
(esquerda) ... 167
Figura 109 - Detalhe do material e argamassa de assentamento na parte superior
(direita) ... 167
Figura 110 - Processo de “obturação” garantindo a diferenciação dos materiais
(esquerda) ... 168
Figura 111 - Detalhe do material e argamassa de assentamento na parte superior
(direita) ... 168
Figura 112 - Vemos no salão de eventos o fechamento das aberturas de janelas e portas
e outras reintegrações. ... 169
Figura 113 - O arquiteto Nelson Dupré em seu escritório - Dupré Arquitetura - SP ... 193
Tabela 1 - Legislação Brasileira sobre o Patrimônio ... 33
Tabela 2 - Tipos de Intervenção em Patrimônio Edificado ... 37
Tabela 3 - Etapas de um Projeto de Intervenção ... 39
ARTEC Empresa de Design de Acústica e Planejamento de Teatro BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Social
CONDEPHAAT Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico
CONPRESP Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo
CPTM Companhia Paulista de Trens Metropolitanos DOE Diário Oficial do Estado
DOPS Departamento de Ordem Política e Social DPH Departamento do Patrimônio Histórico
EMTU Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
IMH Inspetoria dos Monumentos Históricos OSESP Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
SPHAN Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional
TICCIH The Internacional Committe for the Conservation of the Industrial Heritage
UNESCO Organização das Nações Unidas para a educação, a Ciência e a
Cultura
INTRODUÇÃO ... 14
1.1 Patrimônio ... 18
1.2 Patrimônio Industrial ... 22
1.3 A Preservação do Patrimônio Brasileiro ... 27
1.4 Legislação Brasileira e Tombamento ... 30
1.5 Intervenção em Patrimônio Edificado ... 34
CAPÍTULO 2 - AS CARTAS PATRIMONIAIS ... 54
2.1 Carta de Restauro de Atenas 1931 e 1933 ... 54
2.2 Carta de Veneza de 1964 ... 60
2.3 Carta do Restauro Italiana de 1972 ... 65
2.4 Carta de Burra de 1980 ... 69
2.5 Carta de Nara de 1994 ... 73
2.6 Carta de Brasília de 1995 ... 75
2.7 Carta de Nizhny Tagil 2003 ... 78
CAPÍTULO 3 - ESTUDOS DE CASO ... 85
3.1 A ESTAÇÃO JÚLIO PRESTES ... 85
3.1.1 Histórico da Estação Sorocabana a Estação Júlio Prestes e o seu entorno ... 85
3.1.2 Processo de tombamento da Estação Júlio Prestes... 90
3.1.3 A Intervenção - A Sala São Paulo ... 92
3.2 O MATADOURO MUNICIPAL DA VILA MARIANA ... 129
3.2.1 Histórico do Matadouro Municipal da Vila Mariana e o seu entorno ... 129
3.2.2 O Processo de Tombamento do Matadouro da Vila Mariana ... 136
3.2.3 A Intervenção - Cinemateca Brasileira ... 140
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 175
REFERÊNCIAS ... 179
APÊNDICES ... 186
APÊNDICE A - Síntese das Cartas Patrimoniais ... 186
ANEXOS ... 193
ANEXO A - O arquiteto Nelson Carlos Lauson Dupré ... 193
1. INTRODUÇÃO
No Brasil as primeiras manifestações voltadas para a preservação do patrimônio nacional surgiram na década de 1930 com a criação da Inspetoria de Monumentos Nacionais - (IMN), cujo objetivo era impedir ou evitar que algumas obras de arte antigas fossem retiradas do país, devido ao comércio de antiguidades e a destruição de monumentos em virtude das reformas urbanas em prol do progresso e modernização das cidades (MAGALHÃES, 2015).
A cidade de Ouro Preto na região das Minas Gerais foi considerada pelos modernistas da metade do século XX, como uma manifestação artística singular, - barroco, como um dos principais exemplos do patrimônio nacional e posteriormente como patrimônio mundial, perante a Organização das Nações Unidas para Educação, e Ciência e a Cultura - (UNESCO).
A partir desse reconhecimento houve a necessidade de criar mecanismos institucionais no país, como o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – (SPHAN), o atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – (IPHAN), abrangendo outras esferas, como: conselhos em defesa da preservação do patrimônio histórico e artístico do país e legislações (REZENDE; TEIXEIRA; THOMPSON, 2015).
No Estado de São Paulo o advento de uma das maiores economias do país, o Café, proporcionou o surgimento de alguns patrimônios presentes em todo território, contribuindo para as transformações no cenário urbano, arquitetônico e nos transportes, como por exemplo: a chegada das ferrovias e suas estações. A história econômica cafeeira produziu importantes testemunhos históricos na cidade de São Paulo, observamos a arquitetura, como as elegantes mansões dos barões do café, as construções majestosas urbanas, a difusão das artes, a importação da cultura europeia, os teatros, a chegada das ferrovias e a expansão territorial no interior paulista.
Em meados do século XX, num momento em que a indústria aparece em um
processo de modernização e com investimento em maquinários e equipamentos,
consideramos que na década de 1950, a malha ferroviária diminuiu devido aos
incentivos na implantação do transporte rodoviário, o uso dos automóveis, os
transportes coletivos - os ônibus e posteriormente com o surgimento da primeira Estação Rodoviária de São Paulo, fundada em 1961 no bairro da Luz.
A presente pesquisa fará uma abordagem sobre a intervenção contemporânea em patrimônio edificado realizado pelo arquiteto Nelson Carlos Lauson Dupré nos seguintes estudos de casos: o Antigo Matadouro da Vila Mariana (1887), o exemplar da arquitetura fabril de tijolos aparentes - hoje nossa atual Cinemateca Brasileira - e o jardim interno da Estação Ferroviária de Júlio Prestes (1938) - A sala São Paulo, ambos, localizadas na capital de São Paulo.
Os objetivos dessa pesquisa são:
O objetivo geral: compreender os processos de intervenções contemporâneas realizadas em patrimônio edificado;
O objetivo específico: analisar as diretrizes adotadas pelo arquiteto nas intervenções e os parâmetros baseados nas premissas conceituais de preservação de patrimônio histórico, conhecidas pelas Cartas Patrimoniais.
A metodologia utilizada para a sua construção será da seguinte forma: revisão bibliográfica, levantamento de dados e iconográficos, visita em campo das obras, consultas ao Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico - (CONDEPHAAT), análises da intervenção realizada pelo arquiteto Nelson Dupré por intermédio da iconografia e vistas aos dados do seu acervo e por fim, obter os resultados conforme a interpretação da estratégia aplicada nas intervenções atuais adotadas por ele nestas duas obras compreender a aliança entre tecnologia e preservação.
A estrutura organizacional deste trabalho conterá:
INTRODUÇÃO: apresenta uma introdução, justificativa, objetivo geral e específico desta pesquisa.
CAPÍTULO 1 - CONCEITUAÇÃO: trata a compreensão sobre os conceitos e definições como Patrimônio, Patrimônio Industrial, a Preservação do Patrimônio Brasileiro, Legislação Brasileira e Tombamento e Intervenção em Patrimônio Edificado.
CAPÍTULO 2 - AS CARTAS PATRIMONIAIS: Definição e conceito
sobre as Cartas Patrimoniais, Carta do Restauro de Atenas 1931, Carta do Restauro de
Atenas 1933, Carta do Restauro de Veneza 1964, Carta do Restauro Italiana 1972, Carta
de Burra de 1980, Carta de Nara de 1994, Carta de Brasília de 1995 e a Carta de Nizhny Tagil - Rússia 2003.
CAPÍTULO 3 - ESTUDOS DE CASOS: no primeiro estudo de caso, veremos do Histórico da Estação Sorocabana a Estação Ferroviária Júlio Prestes (1938), Processo de tombamento da estação e a sua intervenção no antigo jardim interno - A Sala São Paulo, conforme (Figura 1).
Figura 1 - Vista Aérea da Estação Júlio Prestes - Sala São Paulo
Fonte: VIEIRA (2013).
No segundo estudo de caso, traz o histórico do matadouro da Vila Clementino
(1887), Processo de tombamento do matadouro, e a sua intervenção - a atual
Cinemateca Brasileira, conforme (Figura 2).
Figura 2 - Vista do Conjunto da Cinemateca Brasileira
Fonte: Autor (2019).
CONSIDERAÇÕES FINAIS: traz as conclusões da pesquisa e as perspectivas do trabalho.
APÊNDICE A: Apresenta uma síntese sobre as Cartas Patrimoniais estudadas nesta pesquisa.
ANEXO A: O arquiteto Nelson Carlos Lauson Dupré.
CAPÍTULO 1 - CONCEITUAÇÃO
1.1 Patrimônio
O significado da palavra patrimônio origina ao termo grego - pater, ou seja, pai ou paterno, portanto, patrimônio é tudo que é deixado e transmitido pela figura do pai aos seus herdeiros - filhos, contudo, essa noção com o passar do tempo ficou compreendida a conjunto de bens materiais relacionados com a identidade cultural do passado de uma sociedade.
A noção de patrimônio começou a ganhar força no século XIX com a Revolução Francesa, focando a necessidade de eleger monumentos que pudessem refutar o passado (SOUSA, 2019).
O patrimônio é tudo que criamos, valorizamos e queremos preservar a partir de uma memória histórica e da concentração de todos os bens materiais, imateriais e naturais que uma determinada civilização pode reunir, com o objetivo de formar a sua identidade transmitindo-as futuras gerações (FARIA; GHIRARDELLO; SPISSO, 2008).
Segundo Kühl (1998) o patrimônio engloba as dimensões, não apenas quanto aos grandes monumentos, qualidade excepcional, mas também aos monumentos isolados, dando-lhes a mesma importância destes na malha urbana, rural - arquitetura vernacular, reconhecendo também as construções do patrimônio industrial e o legado do movimento moderno.
No século XX, a conceituação de patrimônio estabeleceu a existência de duas categorias sobre ela mesma: o patrimônio material e imaterial, superando as regras impostas pela cultura erudita que era vinculada aos monumentos e as esculturas.
Para compreendermos a abrangência da palavra patrimônio, observamos as suas seguintes variantes como: patrimônio cultural, patrimônio tangível, patrimônio intangível e patrimônio edificado.
Falando sobre a definição do termo patrimônio cultural brasileiro, amadurecido
com a Constituição Federal de 1988, incorporado pela ideia de que os bens de natureza
imaterial deveriam fazer parte da constituição cultural do patrimônio artístico da nação.
Sendo assim, o patrimônio cultural passa a englobar os conjuntos de bens de natureza material e imaterial.
O conjunto de bens de natureza material e imaterial preserva a identidade e a memória de uma sociedade e:
[...] proporciona junto com a sua participação o desenvolvimento do seu bem estar definindo o patrimônio cultural e são divididas como formas de expressão: a literatura, música, danças, modos de criar, fazer, viver - culinária, artesanato, as criações tecnológicas e científicas [...] (CREA- SP, 2008, p.13).
O patrimônio cultural está dividido em tangível e intangível. O tangível é formado por bens materiais como bens móveis, mobiliários, obras de arte, documentos, bens imóveis, como: monumentos, edifícios e sítios arqueológicos que possuem um significado cultural, conforme a (Figura 3).
Figura 3 - Santuário do Bom Jesus dos Matosinhos, exemplo de patrimônio cultural tangível - Congonhas - MG.
Fonte:Prefeitura de Congonhas/ Elaine Gouveia (2019).
A classe intangível é formada por bens imateriais, como por exemplo: a
literatura, teorias cientificas e filosóficas, os ritos e as músicas, assim como os padrões
de comportamento e culturais, que se expressam nas técnicas, na história oral, na música
e na dança, vejamos o exemplo da dança do Frevo, conforme (Figura 4).
Figura 4 - O Frevo no Recife exemplo de patrimônio cultural imaterial Brasileiro
Fonte: EXAME (2012)
Na Figura 5 exibe um exemplo de patrimônio natural Brasileiro é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Alto Paraíso de Goiás). A definição de patrimônio natural consiste por bens na qual não tenham sofrido nenhuma interferência humana, nesse caso citamos os elementos da natureza, montanhas, cachoeiras, jazidas e animais silvestres.
Figura 5 - Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Alto Paraíso de Goiás), exemplo de patrimônio natural brasileiro.
Fonte: Gerência TripAdvisor (2015).
Segundo Faria; Ghirardello; Spisso (2008) patrimônio edificado é definido
como:
Edificações isoladas ou conjunto de edificações, que poderão ter tipologias distintas e não necessariamente antigas, mas que possuam peculiaridades culturais. Ex.: arquitetura rural, as fábricas, as casas comuns (Arquitetura Vernacular), as cidades, os monumentos, etc (FARIA; GHIRARDELLO; SPISSO, 2008, p.14).
No primeiro momento da nossa arquitetura, a mesma era construída de palhas, que destas nada restaram. As construções mais encorpadas surgiram a partir da criação das capitanias hereditárias, de Martin Afonso depois de 1530, restando pouco testemunho arqueológico.
Segundo Campello (1999) o patrimônio edificado no Brasil começou com a chegada dos portugueses no início do século XVI nos impondo sua influência, na política, na cultura e na arquitetura o que caracterizou a formação do povo brasileiro, que depois agregou outras formas de cultura, desenhando nossa atual identidade.
O perfil do patrimônio edificado colonial constituiu-se formando outras tipologias, entre elas: as fortificações, os edifícios oficiais, os engenhos militares, as casas grandes dos senhores de engenhos e suas fazendas configuradas por plantações, casa grande, senzala e capela ao longo dos séculos XVI e XVII, o tal chamado barroco luso-brasileiro. As construções mais antigas que chegaram até nós foram às obras dos padres missionários, que predominaram o período colonial, como: os conventos, as igrejas, as capelas e colégios jesuítas (CAMPELLO, 1999).
Já no século XIX com a vinda da Família Real para o Brasil, a abertura da
influência artística francesa na segunda metade do século, outros povos como: os
judeus, os árabes, buscaram aqui as novas terras e riquezas. Como dito anteriormente,
essa miscigenação cultural construiu a formação do futuro patrimônio cultural
brasileiro.
1.2 Patrimônio Industrial
O interesse pelo patrimônio industrial surgiu em vários países, mas foi na Inglaterra que começou a tomar forma a partir do final da década de 1950, após a demolição de alguns testemunhos históricos, entre eles se destaca a Estação “Euston”
em Londres, levantando um grande alerta sobre essa causa, autoridades perceberam que tal perda produziria um desgaste histórico-cultural, berço da 1ª Revolução Industrial, surgiram movimentos preocupados numa luta contra a demolição.
O interesse da sociedade pelos artefatos, arquitetura industrial ia além das questões históricas, mas abrangia a estética. Em 1962 no mesmo ano da demolição da Estação Euston em Londres, foi iniciada a demolição do Coal Exchange Bunning para o progresso do alargamento de uma avenida. Muitos protestos conseguiram paralisar a demolição, porém não conseguiram impedir a sua conclusão, fazendo com que perdessem um grande testemunho industrial.
Na Figura 6 observamos a ilustração da vista interna do edifício onde se observava a cúpula do
The Coal Exchange que foi desmontada na tentativa de serremontada em um outro local, mas por falta de acordo local esse testemunho histórico da arquitetura do ferro foi destruído.
Figura 6 - Vista interna The Coal Exchange - Londres (1849)
Fonte: VICTORIAN WEB (2016).
Na Figura 7 podemos observar a vista externa do extinto The Coal Exchange de Londres em 1849, um testemunho histórico da arquitetura do ferro que após a sua demolição sensibilizou a sociedade em prol da preservação.
Figura 7 - Vista externa do “The Coal Exchange” Londres (1849)
Fonte:VICTORIAN WEB (2016).
Segundo Kühl (1998), a Inglaterra teve uma maior conscientização referente à sua história industrial, pois foi vista como parte de sua herança cultural.
As transformações urbanas, sociais, econômicas provocaram mudanças significativas nos desaparecimentos dos testemunhos históricos industriais. Estes testemunhos geralmente ocupavam grandes áreas nos centros urbanos e pela sua falta de uso ou obsolescência gerou o seu acelerado desaparecimento.
Kühl (1998) não apenas desaparece a arquitetura industrial, mas também desaparecem os vestígios da produção fabricada, os métodos de produção, as condições de trabalho, a moradia do operariado e as relações sociais com esse espaço.
Devido a esse argumento, despertou-se o desejo de manter essa parte da história, e a Inspetoria dos Monumentos Antigos do Ministério de Obras na Inglaterra definiu que:
Um monumento industrial é qualquer edificação, ou outra estrutura permanente especialmente do período da revolução Industrial que, sozinha ou associada à outra instalação primária para equipamento, ilustra o começo e o desenvolvimento dos processos industriais e técnicos, incluindo os meios de comunicação (KÜHL, 1998 a, p. 222).
Esse interesse pela preservação do patrimônio industrial fez com que na década de 1960 surgissem movimentos interessados na preservação, porém, foi necessário saber o que preservar e como preservar.
A definição de patrimônio industrial pode ser compreendida como:
Os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas, minas, e locais de processamento e de refinação, entrepostos e armazéns, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as estruturas e infraestruturas, assim como os locais em que se desenvolveram atividades sociais relacionadas com a indústria, tais como habitações, locais de culto ou de educação (AZEVEDO, 2010, p. 18).
Na Áustria e Alemanha a administração do patrimônio industrial ocorria de acordo com a estrutura administrativa de cada governo, mas foi na Alemanha que o interesse na preservação da história da indústria e da técnica tradicional se desenvolvesse a partir das universidades e dos meios institucionais. Na Figura 8 observamos a fachada do Grand-Hornu, o antigo complexo industrial de mineração de carvão, foi construído por Henri De George entre 1810 e 1830.
Figura 8 - Grand-Hornu (2011)
Fonte: DISCOVERING Belgium (2011).
Nos Estados Unidos o interesse em preservar, ou melhor, a arqueologia
industrial teve início na metade da década de 1960, mesmo sendo uma novidade entre
os assuntos da preservação, em 1970, foi fundada a Society for Industrial Archaeology e
em 1975 vários projetos de preservação do patrimônio industrial foram desenvolvidos no país.
A arqueologia industrial é definida como:
[...] uma metodologia interdisciplinar que estuda todos os vestígios, materiais e imateriais, os documentos, os artefatos, a estratigrafia, e as estruturas, as implantações humanas, e as paisagens naturais urbanas, criadas para ou por processos industriais. A arqueologia industrial aplica os métodos de investigação mais adequados para aumentar a compreensão do passado e do presente industrial (AZEVEDO, 2010, p.18-19)
Na Bélgica e na Suécia, iniciou-se nesse mesmo período estudos referentes a conservação dos seus bens industriais levou a restauração do Conjunto de Grad Hornu.
A manifestação pelo interesse na arquitetura industrial na França surgiu mais tarde, já com uma expressão denominada de arqueologia industrial. Segundo o autor Maurice Daumas em seu livro “L´Archéologie Industrielle en France”, diz que:
[...] A arqueologia Industrial não deve ignorar nada do que ensina a história tradicional, tem por objetivo principal a pesquisa e o estudo dos sítios onde se desenrolavam esse tipo de atividade, e os testemunhos artificiais, os artefatos, que aí permanecem.
Mas trata-se do primeiro passo da nossa nova disciplina. A pesquisa e a observação permitem identificar o que não foi ainda destruído, determinar a sua historicidade, apreciar o seu interesse, provocar a sua salvaguarda. Pois é nisso sem dúvida que convêm reconhecer o objetivo primordial da arqueologia industrial (KÜHL, 1998, p. 224, apud DAUMAS, 1980, p.428, tradução da autora).
A vista interna do extinto Halles Centrales de Paris (1874), o famoso mercado central que existiu até a década de 1970 quando foi demolido (Figura 9).
Figura 9 - Vista interna do extinto Halles Centrales, Paris (1874)
Fonte:MARVILLE (1874).
Segundo Khül (1998), a destruição dos Halles Centrales de Baltard, em Paris em 1971 foi totalmente demolido gerando um grande trauma que resultou na conscientização em relação à importância da preservação do patrimônio industrial.
Na Itália desde o final da década de 1970 vem se desenvolvendo o interesse nesta área de preservação da arquitetura industrial. No final da década de 1980, Portugal cria a Associação de Arqueologia Industrial de Lisboa e a Espanha promoveu desde o final desta mesma década encontros de especialistas sobre o tema.
No Brasil o interesse pela preservação da arquitetura industrial começou a surgir na década de 1970.
De acordo com Azevedo (2010), as pesquisas, metodologias e as práticas preservacionistas voltadas ao patrimônio industrial no Brasil ainda estão dispersos, isolados e pouco difundido.
A falta de interesse, de conhecimento e de investimento nesta área levou a perda de inúmeros patrimônios industriais no país, dando espaços aos concorridos negócios imobiliários.
Outras questões como: a expansão das cidades e o fim dos seus usos levaram muitos deles se encontrarem abandonados. Desativados e em estado de deterioração perdemos não apenas o seu testemunho histórico, mas também a sua história.
Segundo Azevedo (2010), conservação do patrimônio industrial:
Os exemplos mais antigos, ou pioneiros, apresentam um valor especial. A conservação do patrimônio industrial depende da preservação de sua integridade funcional, e as intervenções realizadas em um sítio industrial devem, tanto quanto possível, visar à manutenção desta integridade. O valor e a autenticidade de um sítio industrial podem ser fortemente reduzidos se a maquinaria ou componentes essenciais dele forem retirados, ou se os elementos secundários que fazem parte do conjunto forem destruídos (AZEVEDO, 2010, p. 19).
A conservação do patrimônio industrial depende da preservação da sua
integridade funcional, e as intervenções que forem realizadas devem se deter a isto e ao
seu valor de autenticidade para preservá-los.
1.3 A Preservação do Patrimônio Brasileiro
O despertar do interesse na preservação do patrimônio brasileiro iniciou em 1916 quando Alceu Amoroso Lima e Rodrigo Melo Franco de Andrade, em suas viagens as Minas Gerais, onde apreciaram o estilo barroco, impressionados pela beleza arquitetônica viram a necessidade de criar mecanismos para a sua preservação.
Justificaram que a possibilidade de perda destes monumentos causaria um dano irreparável à nação, nesse momento esses modernistas comprometeram-se a atualizar a linguagem artística em relação às vanguardas europeias, instituindo a tradicional cultura brasileira e seus bens culturais de grande valor histórico e artístico (LIMA, 1916, p. 1).
A vista aérea da cidade de Ouro Preto, no final do século XIX (Figura 10), por volta do ano de 1870, o estilo barroco que impressionou mediante a sua beleza arquitetônica ao Alceu Amoroso Lima e Rodrigo Melo Franco de Andrade despertou o interesse em iniciar o processo na prática da preservação do patrimônio no país.
Figura 10 - Vista da cidade de Ouro Preto, por volta de 1870
Fonte: Museu da Inconfidência (2008).
Segundo Fonseca (2005) a produção arquitetônica e artística do período colonial era pouco conhecida e não valorizada, uma arquitetura caracteristicamente barroca, foi ignorada pelas autoridades por ser considerada irrelevante.
No início do século XX os brasileiros ainda sofriam influências europeias da
colonização com seus padrões e mentalidade, seus costumes nas artes, observando o
estilo eclético da arquitetura, presentes nos principais centros do país, como por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro.
De acordo com Fonseca (2001) Alceu Amoroso Lima em seu artigo, Pelo Passado Nacional na Revista Brasil, descreveu a impressão que teve ao avistar em particular arquitetura e seu estado de conservação nas cidades de Diamantina e Ouro Preto. O autor retrata que as viagens feitas às terras mineiras despertaram aos integrantes modernistas e alertaram ao estado, que este último possuía edificações e obras de arte coloniais.
Os intelectuais e modernistas, foram despertados com a intenção de se mobilizarem em defesa sobre a questão do estilo barroco, considerando-o o estilo único, puro e brasileiro. Na década de 1920 e 1930 o Brasil iniciou uma posição quanto a preservação de seus bens cultuais.
Contudo, as dificuldades em compreender a arquitetura colaboraram com a ideologia sob a estética modernista, fazendo optar por algumas escolhas, mediante a uma meticulosa análise, pois os monumentos que foram registrados no passado, apresentavam documentos mal conservados, sem base real histórica da nossa arquitetura com alusão a tradição luso-brasileira tão importante à nossa sociedade.
O deputado Luiz Cedro em 1923 promoveu o projeto de Lei nº 350/1923, tinha como objetivo propor ao Congresso Nacional a criação da Inspetoria dos Monumentos Históricos - (IMH), que serviria para organizar a defesa dos monumentos históricos brasileiros.
Lúcio Costa em 1924 viajou para as cidades de Diamantina, Mariana, Ouro Preto e Sabará, percebeu então que sobre os registros referente a arquitetura colonial brasileira, havia também outro projeto apresentando pelo Deputado Augusto de Lima, projeto de lei nº 181/1924, cujo o teor do mesmo era proibir a saída de obras de artes tradicional brasileira sem a permissão do governo federal (FONSECA, 2001).
Mais tarde na década de 1930 os ícones responsáveis pela futura criação do
Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional - (SPHAN) como: Lúcio Costa,
Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade, propuseram abrir um caminho,
despertando o sentido do patrimônio na população, através da conscientização e
educação.
Segundo Fonseca (2001) a respeito da cidade de Ouro Preto antes mesmo da criação do SPHAN foi elevada a Monumento Nacional pelo decreto 22.928 de 12 de junho de 1933, considerada berço da nação brasileira pelos modernistas.
Sob a direção do Rodrigo Melo Franco de Andrade em 18 de abril de 1936, foi criado em caráter provisório o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – (SPHAN).
Aos meados de 1937 foi constituída a Lei Brasileira de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural dada o Decreto-lei nº 25 de 30 de novembro de 1937 que criou o mecanismo do tombamento.
Segundo Kühl (1998) Mário de Andrade em 1937 foi responsável pelo anteprojeto do Diretor do Departamento da Cultura, cujo decreto-lei n º 25 de proteção ao patrimônio histórico definiu no primeiro capítulo os seguintes artigos:
Art. 1. Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país cuja preservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da historia do Brasil, quer por seu valor excepcional arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico.
§ 1º Os bens a que se referem o presente artigo só serão considerados parte integrante do patrimônio histórico e artístico nacional, depois de inscritos separada ou agrupadamente num dos quatros livros do Tombo, de que trata o art. 4 desta lei.
§ 2º Equiparam-se aos bens a que se refere o presente artigo e são também sujeitos a tombamento os monumentos naturais, bem como os sítios e paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados pela indústria humana (KÜHL, 1998 p. 201).
No decreto-lei acima observamos a constituição referindo a definição do patrimônio histórico artístico nacional e os tipos de bens materiais existentes e ou naturais, suscetíveis ao tombamento e proteção contra ação humana.
No artigo 18 deste decreto - lei há uma referência quanto a responsabilidade de atuação sobre proteção da visibilidade do monumento tombado, constituindo-se em conjunto ou isoladamente:
Art. 18. Sem prévia autorização do Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional não se poderá na vizinhança da coisa tombada, fazer construção que lhe impeça ou reduza a visibilidade, nem nela colocar anúncios, ou cartazes, sob pena de ser mandada destruir a obra ou retirar o objeto, impondo-se nesse caso multa de cinquenta por cento do valor do mesmo objeto (KÜHL, 1998, p. 201).
Para Kühl (1998), a participação na luta da preservação do patrimônio histórico, deu-se através de manifestações dos arquitetos modernistas da época, contrariada em relação das recomendações dos encontros internacionais.
Todavia, em 1937, o Ministério da Educação e Saúde Pública, na gestão de Gustavo Capanema, durante governo do Estado Novo do Presidente Getúlio Vargas, incorporou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – (SPHAN) a primeira instituição governamental voltada para a preservação do patrimônio cultural do país, gerando a Lei 378/1937.
Ainda nesse mesmo ano foi constituída a Lei Brasileira de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural dada o Decreto-lei nº 25 de 30 de novembro de 1937 criada como mecanismo para o tombamento, com o objetivo de preservar, através da aplicação da lei, impedindo que os bens de valores históricos fossem destruídos ou descaracterizados.
1.4 Legislação Brasileira e Tombamento
O conceito de tombamento é um ato de um processo administrativo o qual atribui um determinado bem móvel ou imóvel a ser inscrito no livro do tombo, que pode ser: arqueológico, etnográfico e paisagístico, no caso de bens imóveis deve constituir-se ao livro do tombo arqueológico. Dessa forma, é garantida a proteção legal o qual impede que o mesmo sofra qualquer tipo de destruição ou mutilação.
(PESTANA, 2015, nº 6, p. 1049).
No Brasil surgiu em meados de novembro de 1937, no qual foi criado Decreto- Lei nº 25 para o Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional – (SPHAN) contou com a participação de intelectuais e artistas importantes da época, entre eles podemos citar: Mário de Andrade, Lúcio Costa, Gustavo Capanema e Rodrigo Melo de Andrade, empenhados em proteger os bens patrimoniais materiais, como: cidades, monumentos, conjuntos ou bens isolados de qualquer tipo de destruição, mutilação ou especulação imobiliária.
A Constituição Federal Brasileira determina que o Estado garanta a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes de da cultura nacional, apoiando, difundindo e incentivando a valorização das manifestações culturais.
(PESTANA, apud art. 215 CF, 2015, p.1045).
Pestana (2015) menciona no art. 216 da Constituição Federal, define que o patrimônio cultural brasileiro são bens de natureza material e imaterial, portadores de referência a identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
Segundo Pestana (2015) a Constituição Federal também inclui:
(i) as formas de expressão; (II) os modos de criar, fazer e viver; (III) as criações científicas, artísticas e tecnológicas; (IV) as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artísticas-culturais; (V) os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico (PESTANA, 2015, nº 6, p.1046).
O termo tombamento tem origem portuguesa, referindo-se a Torre do Tombo, ou do Arquivo (uma das torres do Castelo de São Jorge), onde eram guardados documentos importantes que faziam parte do arquivo Central do Estado Português (GHIRARDELLO; MENDES; SPISSO, 2008, p.15).
Além das determinações da Constituição Federal compete ao Poder Público com a colaboração da sociedade a promoção e a proteção do patrimônio cultural brasileiro a partir dos seguintes procedimentos como:
Inventariar, registrar e arquivar fatos, elementos específicos como regiões, localização no tempo a fim de assegurar a proteção garantindo sua existência. Essas ações são realizadas pelo poder público, calçado por uma legislação específica, cujo objetivo é preservar o bem de valor cultural histórico, arquitetônico, afetivo contra destruição ou danificação (GHIRARDELLO; MENDES;
SPISSO, 2008, p.15).
As leis que amparam o tombamento estão previstos no artigo 216 da Constituição Federal, o Poder Público em parceria com a sociedade promovem a proteção do patrimônio cultural brasileiro, por meios de documentos, tais como:
inventários, registros, vigilância, tombamento, desapropriação e de outras formas de preservação.
A competência no Brasil para legislar o tombamento destas leis é concorrente entre a União, Estados e o Distrito Federal, sendo que:
[...] as normas gerais que regem a matéria no plano nacional , alojam- se fundamentalmente, no Decreto-Lei 25/1937, complementado pelo Decreto-lei 2.890/1940, pelo Decreto-Lei 3.866/1941 e pela Lei
3.924/1961 cujos dispositivos, em predomínio foram recepcionados pela Constituição Federal de 1988 (PESTANA, 2015, nº 6, p. 1046).
Na esfera nacional em 1937, a Lei Federal (Decreto-Lei 25/1937) viu a necessidade de conduzir o Serviço de Preservação do Patrimônio Histórico Artístico Nacional - (SPHAN), hoje o Instituto do Patrimônio Artístico Histórico Nacional - IPHAN.
Com relação aos bens de interesse estadual no ano de 1968, a Lei Estadual (Decreto-Lei 10.247/1968/SP) deu origem ao Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo - (CONDEPHAAT).
Quanto às reponsabilidades do CONDEPHAAT, ressaltamos suas obrigações em proteger, valorizar e divulgar o patrimônio Cultural do Estado de São Paulo,
representados na história e cultura do Estado mais precisamente entre os séculos XIX e XX, essa reflexão espacial compõe móveis, imóveis, edificações, monumentos, bairros, núcleos históricos, áreas naturais e bens imateriais.
Com relação aos bens de interesse local - São Paulo, em 1985, a (Lei Nº 10.032/1985) criaram o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico – (CONPRESP), vinculado a Secretaria da Cultura é apoiado pelo corpo técnico do Departamento do Patrimônio Histórico – (DPH), mencionado acima. O CONPRESP é um órgão responsável pelo tombamento e bens culturais, naturais e históricos na cidade de São Paulo, visa a preservação de acordo com os valores culturais, históricos, artísticos, arquitetônicos e urbanísticos. O CONPRESP e o Departamento do Patrimônio Histórico-(DPH) são interligados e interagem entre si cabendo a eles a responsabilidade na deliberação e preservação cultural e ambiental do município de São Paulo, conforme a Lei nº 14.516 de 11 de outubro de 2007, cuja atribuição corresponde ao órgão, liberações sobre tombamentos de bens móveis, imóveis e definições das áreas envoltórias.
As primeiras ferramentas legais para a preservação do patrimônio brasileiro
começaram a surgir após a década de 1930 com a criação do Serviço do Patrimônio
Artístico Nacional - (SPHAN) e continuou nas seguintes décadas:
Tabela 1 - Legislação Brasileira sobre o Patrimônio
Legislação Brasileira sobre Patrimônio - Séc. XX (1930 - 2000) 1930
A Constituição de 1937, Art.134, amplia a defesa do patrimônio cultural;
Decreto-Lei 25/1937, Promove a reorganização do Ministério da Educação e Saúde Pública que inclui a criação do Patrimônio Histórico Artístico Nacional – SPHAN, como primeira instituição governamental, de âmbito nacional voltada para a proteção do patrimônio cultural do país (Lei 378/1937);
Decreto-lei 25/1937 regulamenta o instituto do Tombamento no Brasil;
1940
Decreto-Lei nº 2.848/1940 qualifica como crime o dano causado a qualquer bem tombado de valor artístico, arqueológico, ou histórico com prevenção de pena (Código Penal);
Decreto-Lei nº 3.365/1941 dispõe sobre desapropriações;
Criação do Conselho Nacional de Cultura (Decreto-Lei nº 526/1938);
Decreto-Lei nº 3.866/1941 dispõe do cancelamento do tombamento de bens do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
O Art. 178 da nova Constituição do Brasil em seu Capítulo II passa a estabelecer sobre as normas da Educação e da Cultura que os monumentos e documentos de valor históricos e artísticos, bem como os monumentos naturais, as paisagens e os locais dotados em particular beleza ficam sobre a proteção do poder público;
Decreto nº 20.303 aprova o regimento da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Ministério da Educação e Saúde.
1970
Decreto nº 66.967/1970 dispõe sobre a organização administrativa do Ministério da Educação e Cultura e, em seu Art.14, transforma a Diretoria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional em Instituto - IPHAN
Decreto nº 80.978/1977 ratifica a Convenção da Unesco relativa à proteção do Patrimônio Mundial , Cultural e Natural , de 1972;
1980
A constituição Federal de 1988, em seu artigo 216, amplia o conceito de patrimônio estabelecido pelo Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, substituindo a denominação de Patrimônio Histórico e Artístico por Patrimônio Cultural Brasileiro, reconhecendo como referência cultural bens passíveis de caráter imaterial.
1990
Lei nº 8.313/1991, Lei Rouanet, institui o Programa de Apoio à Cultura Nacional (Pronac), com o objetivo de promover a captação de recursos para fomentar projetos de preservação do patrimônio cultural.
2000
Lei nº 3.551/2000, instituiu o Registro de bens Culturais de Natureza Imaterial, o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dividiu os registros dos bens em quatro livros: Saberes, celebrações, Formas de Expressão e Livro dos Lugares.
Fonte: IPHAN (2019). Elaborado pelo autor
A importância da preservação do patrimônio permite que a sociedade
possa compreender a sua história por intermédio dos produtos criados,
construídos e das intervenções realizadas a estes na passagem do tempo, fazendo
com que sirvam de testemunho para as gerações futuras. Enfim, não preservação
gera a destruição desta herança constituída através do tempo histórico, que deveriam servir como base histórica-social para gerações futuras. Entretanto, cabe ressaltar que autoridades não estão muito preocupadas em multiplicar o conhecimento quanto a necessidade da sociedade sobre preservação cultural de forma geral, quanto a memorização da identidade construída e o que ela remete.
Segundo Faria (2008), sobre a conscientização da preservação nos
tempos atuais, ganhou um novo olhar, focado em diminuir impactos na produção de bens sobre o ambiente. O que com certeza reduziria o consumo de energia, e matérias primas na construção de novos edifícios, beneficiando a sociedade com a intenção de preservar a história.1.5 Intervenção em Patrimônio Edificado
O significado da palavra intervenção na arquitetura é vasto e atinge as mais variadas dimensões, desde um projeto arquitetônico até as questões urbanísticas podendo ser definida como:
[...]sf. 1. Ato de intervir; interferência. 2. Operação (2) Bras.
Interferência do poder de qualquer unidade da federação [...]
[PI.: -ções] (FERREIRA, 2000, p.398).
Na prática, o ato de intervir junto ao um patrimônio edificado, surgiu a partir da necessidade de impedir que monumentos históricos fossem vandalizados, ou destruídos quando ocorreu a Revolução na França, no século XVIII.
Durante esse processo, no ano de 1792, na segunda fase da Revolução no qual os jacobinos puderam assumir o controle da mesma, uma a Convenção Nacional, foi realizada para conter as práticas de vandalismo decorrentes aos monumentos históricos, a partir deste momento foram exigidas providencias do Estado em instituir uma legislação sobre a preservação dos monumentos a fim de inibir os atos de
“vandalismos”, na qual uma Convenção Nacional constituiu que fosse:
[...] solicitado o ressoar em toda França o brado de sua indignação, e clamar a vigilância dos bons cidadãos sobre os bons monumentos das artes para os conservar e sobre os autores e os instigadores contra - revolucionários desses delitos, para os colocar sobre o julgo da lei. [...]
(KÜHL, 1998, p. 186)
Khül (1998) concorda que as práticas de vandalismos impulsionaram motivos mais que suficientes, para pensarem em projetos de lei, que estabelecesse a conservação dos monumentos, onde a Convenção Nacional decretou que:
1° As bibliotecas e todos os outros monumentos das ciências e das artes pertencentes à Nação são recomendadas vigilância de todos os bons cidadãos; eles são convidados a denunciar às autoridades constituídas os provocadores e os autores de delapidações e degradações de tais bibliotecas e monumentos.
2° Aqueles que forem culpados de ter, por malevolência, destruído ou degradado monumentos das ciências ou das artes, receberão a pena de dois anos de detenção, conforme o decreto de 13 de abril de 1793. [...]
(KÜHL, 1998, p. 186 apud MARCONI, 1993, p.20, tradução da autora).
Portanto tentaram deter as barbáries contra os patrimônios históricos, impedindo sua destruição. Iniciando assim projetos e propostas com o intuito de preservar os bens de interesse público patrimonial. Processo esse chamado de Intervenção.
Importante dizer que as intervenções em patrimônio edificado vêm sendo nas últimas décadas uma área de muito interesse aos profissionais ligados construções, bem como urbanistas e paisagistas com o objetivo de salvaguardar o seu testemunho histórico para as gerações futuras (AZEVEDO, 2003).
O patrimônio edificado é um conjunto de edifícios, que possuem peculiaridades culturais abrangendo desde a arquitetura mais simples como: as rurais, vernaculares, grandes monumentos e cidades.
As intervenções em patrimônio edificado tiveram início a partir do momento em que ocorreram reflexões sobre as construções da antiguidade, surgindo noções referentes às intervenções calçadas a partir do pensamento filosófico Renascentista:
[...] a partir do renascimento, em que era notável o crescente o interesse pelas construções da antiguidade, as noções ligadas ao restauro foram definindo-se e esse movimento acentuou-se com as grandes transformações que ocorreram na Europa no século XVIII- tais como o advento da chamada Revolução Industrial e as profundas mudanças por ela acarretadas, o despertar do Iluminismo, a Revolução francesa- que alteraram de forma dramática o modo como uma dada cultura se relacionava como seu passado, provocando o despertar da noção ruptura entre o passado e o presente e produzindo um sentimento de proteção a edifícios e ambientes históricos em vários estados europeus (VIOLLET-LE-DUC, 2007, p.10).
Segundo Nóbrega e Ribeiro (2016) para compreendermos um projeto de intervenção, é necessário determinar o valor intrínseco presente na edificação, estudar os princípios e critérios que o norteiam para:
[...] o ato de intervir em bens culturais – o restauro – tem metodologia, princípios teóricos e procedimentos técnico- operacionais que lhes são próprios e resultam da reflexão sobre os motivos de preservar e de experimentações plurisseculares; os meios postos em prática, porém, são variadíssimos quando se entra na fase operacional (NÓBREGA;
RIBEIRO, 2016; v. 1, p.21).
Conforme citado acima qualquer intervenção realizada em bens culturais, emprega-se metodologias e técnicas multidisciplinares, que não podem ser baseadas ao gosto pessoal dos profissionais envolvidos, mas mediante uma discussão pertinente as diretrizes de intervenção.
Uma intervenção em patrimônio edificado pode gerar controvérsias, visto que pressupõe uma nova interpretação no objeto, sendo uma postura que cause alguma alteração no pré-existente (NÓBREGA; RIBEIRO, 2016).
Na arquitetura, qualquer intervenção realizada em um meio ambiente, que crie novos espaços, atenda novas necessidades e expectativas, é denominado como “partido”
(LEMOS, 1989). Essa definição simples se traduz em criar ou transformar espaço atendendo a necessidade dos usuários.
Silva (1998) identifica como problema básico do projeto de arquitetura é estabelecer para um determinado contexto insatisfatório, uma reversão das ideias que atenda e se ajuste a proposta.
Vamos ver o que diz Nóbrega e Ribeiro (2016), sobre a arquitetura de um projeto que necessite de uma intervenção em patrimônio edificado;
[...] toda a mudança ou adaptação, incluindo alterações e adaptações. Ora quando atuamos sobre uma edificação, podemos dizer que na totalidade dos casos o projeto prevê alguma alteração física muitas vezes visando uma adequação de uso, quer seja mantendo ou alterando o existente [...] (NÓBREGA; RIBEIRO, 2016, p.14 - grifo do autor).