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Rev. adm. empres. vol.14 número4

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Academic year: 2018

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aumenta em uma economia (p. 52), pelo menos nesta fase do desenvolvimento brasileiro.

S. Langoni é muito mais ambíguo nas suas ex-plicações sobre a mudança da estrutura da renda: por um lado, ele argumenta que o aumento nos salários do trabalho das pessoas mais escolariza-das em relação ao trabalho dos menos escolariza-dos é o resultado do aumento relativo da produti-vidade do trabalho dos mais escolarizados. O au-mento relativo ocorreu, por sua vez, por causa de um maior aumento relativo na demanda por pes-soas mais qUalificadas, devido ao progresso tec-nológico que emprega mão-de-obra qualificada de forma intensiva que caracteriza o desenvolvimento brasileiro nos anos 60 (p. 88 e 121). Essa análise enfatiza novament,e os efeitos "natural" e "neces-sário" do crescimento econômico e da moderniza-ção sobre a distribuição da renda. Por outro lado, ele argumenta que, em períodos de rápido cresci-mento, é razoável que se espere que ocorram de-sequilíbrios no mercado de trabalho, e .que a ex-pansão de demanda por trabalho beneficie apenas aquelas categorias de trabalho altamente qualifica-do, cuja oferta é relativamente inelástica a médio prazo (p. 116). Langoni prossegue argumentando que, embora os salários temporariamente mais al-tos que o produto marginal (quase-rendas) sejam conseqüência "natural" do desenvolvimento, tais desequilíbrios podem desaparecer a longo prazo através da expansão apropriada da oferta de traba-lho qualificado.

Neste pequeno artigo pretendo rever esses pon-tos, procurando não repetir os argumentos de Fish-low, Malan e Wells, exceto onde a minha abordagem contradiga ou reforce as suas. Tentarei mostrar que Langoni interpreta mal seus próprios dados e que as contradições óbvias da sua análise podem ser resolvidas através de uma visão diferente do de-senvolvimento brasileiro na última década.

1. A DISTRIBUIÇAO DA ESCOLARIDADE NO BRASIL TORNOU-SE MAIS DESIGUAL?

Uma das chaves da análise de Langoni é a de que a distribuição da força de trabalho por educação, idade, sexo, atividade e região no Brasil tornou-se mais desigual entre 1960 e 1970, e que este au-mento na desigualdade aumenta substancialmente a desigualdade de renda (quadro 5.4). Embora ele não separe o efeito das mudanças na distribuição Quadro

Brasil:

da educação (medida através de anos de escola-ridede), a inferência que traçamos acerca das mu-danças, na distribuição da esc;olaridade torne-se cru-cial para o resto de sua análise.

Langoni mede a educação em sua regressão (quadro 5.1) por uma variável qualitativa que in-dica se um indivíduo recebeu ou não um nível par-ticular de escolaridade. A mudança na porcentagem de indivíduos na força de trabalho que se enqua-dram nas diferentes categorias de escolaridade em

1960 e 1970 determina mudanças na distribuição de escolaridade na força de trabalho. Langoni in-terpreta os coeficientes das variáveis escolaridade como a renda relativa paga para os diferentes ní-veis de escolaridade nos dois anos. Estas estimati-vas da renda relativa são, entretanto, tendenciosas, se o valor de reposição da escolaridade incorpo-rada no indivíduo se modifica com o tempo. Assim, o coeficiente que Langoni interpreta como rendas relativas é, de fato, igual à renda relativa multipli-cada pelos custos relativos de escolarização. É esta última interpretação que é coerente com a teoria do capital humano.

De fato, segundo o próprio Langoni," os custos relativos dos diferentes níveis de escolaridade modi-ficaram-se substancialmente entre 1960 e 1969, tor-nando-se relatlvamente mais iguais (ver quadro 1). Os custos relativamente mais baixos da educa-ção universitária tendem a equalizar a distribuição da escolaridade formal durante esse período de 10 anos; em verdade, essa equalização nos custos contrabalança a distribuição mais desigual em anos de escolaridade em 1970, comparada com 1960. O resultado - novamente usando os dados de Lan-goni sobre a distribuição da educação na força de trabalho (A study in ecoriomic growth. p. 83.) -é uma inalterada distribuição de investimento em escolarização no Brasil entre 1960 e 1970. Os coe-ficientes de Gini para recursos usados para esco-laridade nos dois anos, baseados nas cifras de Langoni sobre custos e distribuição da escolarida-de entre os auferidores de renda, são os seguintes:

Custos institucionais Custos totais

1960 0,73

1970 0,74

0,78

0,79

de cruzeiros correntes) Custos de escolarização por estudante, 1960 e 1969 (milhares

Custos totais por estudante (incluindo renda precedente) Custos institucionais por estudante

I

1960 1969 1960 1969

Cada ano do primário 4,1 192,6 4,1 192,6

Cada ano do ginásio 10,8 530,6 24,4 883,7

Cada ano do colegial 18,2 829,4 38,5 1 432,7

Cada ano da universidade 185,2 5 522,8 265,7 8 157,3

Fonte: Lanlloni, Carlos.Áotudy i•• ...,..••omit 6ro1lDeh, e1&eBra.ilian.,....,. Di•• ertaçlo de Ph. D. in6dita, Universidade de Chicago, 1970.

(3)

Assim, pele menos e componente educacienal da estrutura da força de trabalhe de Langeni não se

modificou nos anos 60. Embera nãe se possa dizer a partir dos cálculos de Langeni quanto isto reduz a distribuiçãe da mudança estrutural cem relação à mudança na renda, sabe-se cem certeza que e

efeito de incluir mudanças no custe da

escolarlza-ção como parte da variável educação realmente reduz: a contribuição de mudanças estruturais e eu-menta a contrlbulção da mudança na renda para a variaçãe na distribuiçãe da renda.

2. QUAIS FORAM OS EFEITOS DAS ALTERAÇOES RELATIVAS NA RENDA SOBRE A DISTRIBUIÇAO DA RENDA?

88

o

resultado de nessa discussão de capltulo ante-rior é e de que Langeni subestima seriamente e que ele chama de "efeito redistributivista puro" (p. 121) das alterações relativas na renda sobre a distribuição da renda. A mais impertante alteraçãe

relativa na renda que Langeni pode explicar cem seu medeie de capital humano é aquela associada cem os diferentes níveis de escolarizaçêo. Mais da metade da mudança prognosticada na distribuiçãe da renda devido à mudança no ceeficiente de re-gressãe resulta da alteraçãe nc coeficiente de edu-cação (quadre 5.6). Nós argumentames que as es-timativas de Langbni da alteraçãe dos coeficientes da renda relativa da educaçãe são muito baixas: uma vez que os custes de escelarizaçãe tenderam a se equalizar durante a década no Brasil, os coefi-cientes que Langeni denomina de valer da renda da escelarizaçãe são subestimados para os altos níveis de escolaridade em 1970 cem relação a 1960. Se ele tivesse usade e valer de lnvestirnento das diferentes quantidades de escelaridade na força de trabalhe para suas variáveis independentes, ele te-ria estimade maiores coeficientes para os graus mais altos de escelaridade em relação aos níveis mais bai-xes em 1970 que em 1960. Em outras palavras, Q

remuneraçâe para os níveis mais altos de escola-ridade aumenteu muito mais de que e indicado pe-las diferenças nos coeficientes apresentados no qua-dre 5.1 de l.anqoni. Portanto, e t.W. apresentade seria muito maier cem relação a t.X. se t.X. fosse consideredo corno a dlstrtbulçâo de investimento em escelaridade, em vez da distribuiçãe dos anos de escoleridede." .

Pede-se confrontar essa maneira de abordar e problema através da estimativa da taxa de retorno ponderada pela distribuição de investimente em es-celaridade para 1960 e 1969. Nevamente, usamos os dados sobre as taxas sociais de retorne da dis-sertaçãe de Langeni: a partir de suas taxas margi-nais sociais, aproximamos taxas médias, que medem .a taxa média de retorno para toda a escelaridade obtida até um determinado ano (ver quadre 2)"

Multiplicande essa taxa média social pele inves-timente total em escolarlzação de nesse quadre 1, e ponderando a distribuiçãe dos anos de escola-ridade da força de trabalhe per esse produto, obte-mos um coeficiente de Gini de 0,54 em 1960 e de Revista de Administração de Empresas

0,70 em 1969. Assim, podemos ver, desse exercício particular, que e aumente na desigualdade de ren-da não é, de maneira alguma, explicado pele au-mente na desigualdade de investimento em

educa-ção (não houve tal aumente), mas está relacionado

cem a alteração no retorno de investimento em di-ferentes níveis de escelarizaçãe entre 1960 e 1970 no Brasil,"

Quadro 2

Brasil: taxas sociais médias de retorno para e investimente em escolarizaçãe, 1960 e 1969

1960 1969

4 anos 48 32

8 anos 26 21

11 anos 20 21

15/16 anos 6 14

Fonte: Ver Carnoy, Martin op. cit., Quadro 10.

Nosso argumente mestra que, se Langeni tivesse separado (cerretamente) as alterações no retorno dos gastes em escelaridade, dos gastes prepriamen-te diprepriamen-tes, ele teria encontrado maior contribulçêo para uma distribuição mais desigual da renda nas alterações na estrutura da renda de que nas alte-rações na distribuiçãe das características da força de trabalhe.

A correção da tendenciesidade necessariamente forçaria Langeni a abandenar pele menos parte de sua lógica empírica da teeria da "inevitabilidade" de uma distribuição de renda mais desigual.

3. AUMENTOS NA DEMANDA VERSUS QUASE-RENDAS

(4)

No caso de não haver restrições na oferta, mes-mo a médio prazo, teríames-mos de concluir - nos termos de Langoni - que a menos que o modelo de mudança tecnológica e os tipos de bens produ-zidos no Brasil se alterem significativamente na pró-xima década, não há razão para se acreditar que a distribuição de renda melhorará. No caso de haver restrições na oferta de trabalho altamente quali-ficado, teremos que admitir que os aumentos na oferta relativa reduzirão significativamente a ren-da relativa dos indivíduos altamente escolarizados.

Sem acreditar necessariamente que o aumento na renda dos membros mais escolarizados da for-ça de trabalho brasileira foi devido, quer ao pa-drão de aumento na demanda, quer a um aumento na demanda associado a restrições na oferta,

exa-minemos a probabilidade de que ambos os argu-mentos possam ter levado Langoni a ser otimista acerca da equalização da distribuição da renda no Brasil na próxima década.

Em essência, Langoni está afirmando que as for-ças do mercado - associadas a um rápido cres-cimento econômico - são responsáveis pela alte-ração do padrão de renda associado a diferentes níveis de escolaridade entre 1960 e 1970. Baseando-se no argumento da "quase-renda", ele conclui que essas mesmas forças de mercado corrigirão o de-sequilíbrio temporário e produzirão uma distribui-ção mais igual da renda se o Governo investir mais em educação superior.

Os dados sobre Os quais Langoni baseia esta aná-lise estão no quadro 3.

Quadro 3

Brasil: alteração na renda média e crescimento da força de trabalho por nível de escolarização, 1960-70

Nível de esco-larização

1960

Renda m6dia 1970 Cr$/mês

I

1970

I

1970/60

o/t

1970 1970/60

%

Analfabetos Primário Ginásio Colegial Universidade

111 211 440 536 1 123

112 240 482 688 1 706

Força de trabalho (% da força de trabalho total)

I

1960

13,7 9,5 28,4 51,9

39,05 51,71 5,16 2,67 1,40

~9,75 54,47 8,03 5,24 2,51

-23,8 5,3 55,6 96,2 79,3

Fonte: Langoni, Carlos. Di.tribui!:ilo da renda é óe.envolvimento eeon"mico do Broail. Quadro 4.2.

Pode-se observar no quadro que a renda dos in-divíduos de nível universitário cresceu mais rapi-damente, mas o número desses indivíduos não au-mentou tão rapidamente quanto o número de indi-víduos de nível colegial. Quando o número de uni-versitários crescer mais rapidamente, Langoni afir-ma, o aumento relativo na renda será mais baixo. Embora nada saibamos acerca da elasticidade-preço da demanda por universitários, pode-se acreditar que no periodo 1960-1970 um maior crescimento no número de indivíduos de nível universitário po-deria ter diminuído o aumento relativo da renda desses mesmos indivíduos e portanto reduzido a concentração de rendas. Entretanto, essa afirmação somente pode ser feita na base do modelo de au-mento na demanda por indivíduos qualificados, nesse mesmo periodo. No período 1970·80 o padrão de aumento na demanda poderia ser tal que o au-mento da taxa de crescimento de graduados em universidades acima da taxa de 1960-70 não redu-ziria o crescimento relativo da sua renda. Em ver-dade, pode-se esperar que o futuro crescimento. eco-nômico no Brasil, baseado no modelo de 1964-70 poderia favorecer os indivíduos com formação uni-versitária ainda mais do que no passado, na medida em que as indústrias comecem a substituir empre-gades cem forrnação secundária per outros cem

formação universitária. Pede-se ilustrar esse

pro-cesso cem dados dos EUA.

Dados dos Estades Unidos sobre o crescimento. da renda e de emprego. per um período de 20 anos

para indivíduos brancos do sexo masculino. cem diferentes níveis de escolarização. também indicam um aumento relativo na demanda para os mais escolarizades (quadro 4).6 Não obstante um maior aumento na oferta de indivíduos com educação se-cundária em relação àqueles cem educação primá-ria, a renda média para indivíduos brancos de sexo masculino. COm idades entre 35-44 anos cem

edu-cação secundária aumentou quase tanto. quanto pa-ra aqueles cem educação primária; de maneira se-melhante, a renda daqueles com educação univer-sitária aumenteu quase tão rapidamente quanto para aqueles com educação secundária a despeito de um aumente' rnalor no crescimento. de empre-ges. Embora esse padrão. de renda prevavelmente tenha sido. afetado. por outras variáveis, tais corno

salários mínimos, ele indica com certeza que uma razão. pela qual o crescimento da renda ocorreu dessa maneira pede ter sido. e padrão de aumentos na demanda entre 1949-69.

O medeio, porém, deixe-nos muito. menos otl-mistas de que os dados de Brasil na medida em que se usa a expansão da educação superior come um meio. para a equalização. da renda. Não. obstan-te um aumenobstan-te a longo prazo. de indivídues cem educação. superior em relação. àqueles com educa-ção. secundária, nos EUA, as rendas médias daqueles decresceram muito -pouco ou quase nada em rela-ção. àquele cem educação secundária. Há ainda mais fortes evidências nos EUA para sé refutar e oti-mismo de Langoni: as taxas sociais médias do

(5)

Quadro 4

Estados Unidos: crescimento da renda (em dólares correntes) e crescimento do emprego, brancos do sexo masculino, 1949-69; por nível de escolaridade

Anos de escolarização

Crescimento do emprego Brancos, sexo masculino

mais de 25 anos (%)

Crescimento da renda Brancos, sexo masculino

idade 34-44 anos (%)

8 12

16

271 257 237* 258***

-41

+78 +138**

Fonte: Carnoy op. cito Quadro 3.

*Renda. m6dia dos indivlduos com 16 anos de escolaridade em 1969 comparado com aqueles com mais de 16 an08 de eacolaridade em 1949.

**Aumento no emprego de indivlduos com 16 anos com mais de 17 an08 de escolaridade combinados.

- Renda m6dia dos indivlduos com mais de 16 anos de escolaridade em 1969 comparados com aqueles com mais de 16 anos de escolarida-de em 1949.

90

torno do investimento em educação secundária pa-ra as pessoas do sexo masculino (para o investi-mento de 12 anos completos requeridos para o nível secundário) decaiu de cerca de 14% em

1949 para 9% em 1969.

As taxas médias para o investimento em educa-ção universitária (num total de 16 anos de esco-larização) permaneceram quase' constantes, caindo de 11 para 10% em 20 anos, enquanto a taxa para a pós-qraduação para o ensino superior para indivíduos do sexo masculino aumentou entre 1959

e 1969 (só há dados disponíveis para esses anos)

de 6,5 para 9,0%.7

Os dados de Langoni para o Brasil indicam que a taxa social média de retorno para a educação primária decaiu bruscamente entre 1960 e 1970;

a taxa para a educação ginasial também decaiu um pouco, enquanto a taxa média para o colegial per-maneceu estável e para a educação superior su-biu significativamente (ver quadro 2). Langoni pro-põe que o padrão de mudança nas taxas pode ser devido a um desequi1íbrio temporário no mercado de trabalho,

e

que através de maior investimento em educação superior o modelo de alterações das taxas seria radicalmente alterado. Mas os dados dos EUA indicam que a estratégia de crescimento que o Brasil está seguindo pode, em verdade - como Langoni também argumentou- continuar inevita-velmente a favorecer os mais escolarizados em de-trimento dos menos escolarizados no mercado de trabalho, e dessa forma continuar a pressionar a distribuição da renda no sentido de uma maior de-sigualdade.

I:: important,e que se entenda como esse processo acontece. Langoni deixa-nos a impressão de que o crescimento econômico deve ocorrer de maneira que favoreça os mais qualificados em detrimento dos menos qualificados no mercado de trabalho. Entretanto deveria ser evidente que existe muita flexibilidade nos tipos de bens produzidos por uma economia em processo de crescimento e no tipo de tecnologia usado na sua produção. Bens produ-zidos e tecnologia usada afetam a demanda por di-ferentes níveis de qualificação. O Brasil poderia ter produzido um crescimento econômico que usasse

Revista de Administração de Empresas

uma tecnologia de menos qualificação-intensiva e poderia ter produzido bens que requeressem, como média, menos mão-de-obra qualificada produzida em escolas. Tudo isso implica, é evidente, que há até mesmo uma conexão entre produtividade e

es-colarização, uma suposição que Langoni toma

co-mo verdade sem discutir a literatura que refuta esse ponto de vista,"

Se há, de fato, padrões de demanda no modelo brasileiro de crescimento econômico capitalista que favorecem os trabalhadores mais escolarizados em relação aos menos escolarizados, isso tenderá a de-sigualar a, renda mesmo com um aumento mais rápido no número de pessoas com nível superior do que o que ocorreu na década .passada. Langoni parece esquecer que trabalhadores com nível su-perior podem substituir outros com menor escola-ridade na medida em que o número de indivíduos mais escolarizados aumenta em relação aos menos escolarizados. Em verdade foi isso que ocorreu nos EUA: pessoas de nível universitário hoje executam trabalhos anteriormente feitos por indivíduos com formação colegial apenas. Enquanto isso tenderia a reduzir os aumentos nos salários daqueles com for-mação universitária, reduziria ainda mais os salá-rios daqueles com formação colegial, na medida em que estes teriam menos opções. Como vimos, este processo ocorreu nos EUA (e aparentemente no Brasil também) de maneira a aumentar as taxas de retorno para os níveis mais altos de educação em relação aos níveis mais baixos.

(6)

relação entre salário e produtividade tenha-se

alte-rado nos últimos 20 anos (1949-69). Os

sindica-tos cresceram pouco, e as porcentagens de

traba-lhadores em diferentes setores não se alterou

sig-nificat.ivamente. Mas no Brasil, onde o direito de

greve foi abolido desde 1964, há toda razão para

se acreditar que a relação entre salários e produto

marginal realmente se alterou entre 1960 e 1970.

Presumimos que os salários dos trabalhadores

ur-banos de renda mais baixa caíram muito abaixo do

produto, enquanto que os salários daquelas

ocupa-ções profissionais, politicamente mais favorecidas,

permaneceram iguais ou cresceram em relação ao

produto.

Concluímos, então, que pode ter havido padrões

de aumento na demanda que favoreceram, no

Bra-sil, os mais escolarizados em detrimento dos

me-nos escolarizados, mas esses padrões não são

ne-cessariamente parte do processo de crescimento

econômico, nem são eles, necessariamente, a razão

básica da alteração na estrutura da renda. Eles

es-tão, entretanto, geralmente associados com a

pro-dução de bens por e para os indivíduos mais

es-colarizados, de maior renda, e particularmente os

proprietários e diretores do capital físico, tudo

ope-rando com o apoio do aparato estatal que

clara-mente fávorece o setor capital-intensivo em

detri-mento do trabalho-intensivo e apoia a produção de

certos tipos de bens em detrimento de outros."

De maneira alguma estamos convencidos que,

com o aumento da oferta de pessoal com nível

universitário no futuro, a renda relativa dos

gru-pos de renda mais altos declinará. Ao contrário, o

aumento da oferta de pessoal mais qualificado 'e

absorvido às custas daqueles menos qualificados,

reduz a taxa de retorno para níveis mais

bai-xos de escolarização enquanto permite que a t,axa

de retorno para os níveis mais altos se mantenha

constante ou até mesmo aumente. A renda relativa

dos mais qualificados nos EUA não declinou, não

obstante um rápido aumento relativo, a longo

pra-zo, no número de universitários na força de

tra-balho.

E: muito mais provável que a tecnologia e os

produtos associados ao crescimento brasileiro não

se alterem durante a pr6xima década; portanto,

continuarão as pressões da demanda do mercado

de trabalho que mantém a estrutura salarial

desi-gual, ou fazem com que esta fique mais desigual.

4. ANALISES CONTRARIAS QUE LANGONI NAO DISCUTE

Até agora temos abordado apenas problemas

in-ternos à análise de Langoni. Já argumentamos que ele atenua o papel da alteração da estrutura da ren-da em relação à alteração da estrutura do trabalho

e que, embora ele possa estar correto quanto ao

fato de que o desenvolvimento brasileiro gera

pa-drões de aumento de renda que favoreçam os

tra-balhadores altamente qualificados, há pouca

evi-dência de que o aumento no número de

universi-tários na força de trabalho reduzirá a renda

rela-tiva dos indivíduos com esse nível de

escolariza-ção, nem mesmo que o padrão de crescimento

da demanda tenha muita relação com a alteração

na renda relativa.

Langoni ignora modelos mais recentes de

com-petição do trabalho que enfatizam menos a oferta

de trabalho na determinação do salário. Por

exem-plo, Thurow e Lucas12 propõem hipóteses de que a.

produtividade marginal é um atributo dos cargos,

e não dos ocupantes.

Cargos onde os trabalhadores operam com muito

capital moderno são de alta produtividade marginal.

Os trabalhadores procuram avidamente tais

oportu-nidades. Uma vez empregado, a capacidade cognitiva para aumentar sua produtividade até a produtividade marginal do trabalho é alcançada através de

progra-mas de treinamento formal e informal. O critério

principal, pois, que os empregadores usam ná

sele-ção dos trabalhadores é a "treinabilidade". Os tra-balhadores que tenham características específicas

que os empregadores percebem que reduzirão os

custos de treinamento serão selecionados e receberão os "melhores" trabalhos. Uma vez que um

trabalha-dor conseguiu um bom emprego e recebeu o

treina-mento necessário para igualar a sua produtividade à do trabalho, o critério de treinabilidade significa

que ele está numa posição favorável para ser

sele-cionado para cargos mais altos.

Se, de fato, a formulação de Thurow e Lucas= for

um modelo preciso no que diz respeito pelo menos

à parte "moderna" do mercado de trabalho no

Brasil, muitos dos argumentos de Langoni acerca

da natureza temporária das rendas altas para os

mais escolarizados vão por água abaixo. A análise

de Thurow-Lucas concluiu que programas para

al-terar as características de treinabilidade dos

tra-balhadores terão pouco efeito na distribuição da

renda: a estrutura salarial é determinada por

fato-res ex6genos à oferta e demanda de trabalho. Isso

explica a constância dos salários face ao

exces-so de oferta de trabalho, a existência de

merca-dos de trabalho internos altamente estruturados e

o aumento secular e onipresente das exigências

edu-cacionais para o trabalho. O modelo nos leva a

prestar atenção aos. efeitos ex6genos da estrutura

da renda em lugar das alterações da renda devidas

à oferta e demanda de trabalho.

Wells e Fishlow sustentam que o modelo de

aumentos na demanda pouco ou nada teve a ver

com as alterações na distribuição da renda. Ao

con-trário, eles argumentam que o aumento na renda

das pessoas mais escolarizadas era o resultado de

uma política de rendas particula-r e que esta polí-tica é a principal explicação para a distribuição

mais desigual da renda durante a década. A

polí-tica de rendas nenhuma relação tinha com os tipos

de bens produzidos, ou mesmo. com a tecnologia

ou com a maneira pela qual os bens eram

produ-zidos. Wells mostra que o maior aumento na

desi-gualdade da renda urbana ocorreu em 1965-66

du-rante a recessão econÔmica e o programa de

esta-bilização do Governo, enquanto a renda industrial

(7)

se equalizou durante o período de rápido desen-volvimento nos fins dos anos 60 e começo da dé-cada de 70.

O argumento de Wells é o de que a poUtica de rendas do governo era o fator básico da distribui-ção mais desigual da renda, e não alterações es-truturais na qualificação, locação da força de tra-balho, ou as alterações no pagamento de diferentes qualificações devidas a algum padrão "natural" de crescimento.

Fishlow argumenta, além disso, que há um nú.• mero de padrões alternativos de investimento no capital humano que podem produzir a mesma taxa de crescimento econôrnlco e que também acarretarão uma distribuição mais igual da renda do que aquela obtida pelo maior investimento em educação universitária. Os resultados desse mode-lo de simulação são uma refutação importante da implicação contida no livro de Langoni, de que um aumento na desigualdade da renda é um mal ne-cessário para se atingir uma taxa rápida de cres-cimento econômico.

Embora o argumento de Fishlow seja bastante claro, ele abstém-se de levá-lo um passo à frente: se existem várias maneiras de aumentar o cresci-mento econômico, por que o Brasil escolheu, na segunda metade da década de 60, uma maneira que desloca os recursos dos grupos de baixa renda para os de alta renda? Os argumentos de Fishlow admi-tem intencionalmente que -as razões são mais ou menos tecnocráticas. Seu modelo tem por objetivo mostrar a um órgão de planejamento com orien-tação tecnocrática que se poderia atingir a mesma taxa de crescimento de modo mais equitativo. Mas seria a política governamental brasileira no passado e as soluções futuras de Langoni para o problema crescimento/distribuição da renda baseadas em de-cisões técnicas ou primordialmente poHticas?

Os argumentos de Langoni são fundamentados em um modelo irhplfcito - e eu afirmaria ideoló-gico - de desenvolvimento: para se obter o cres-cimento econômlco é necessário (não apenas sufi-ciente) deslocar recursos para a moderna burgue-sia. Estes são - está implícito - os empresários dinâmicos numa economia que reinvestirão uma alta porcent.agem do rendimento. E supostamente também farão investimentos com o mais alto re-92 torno.

Mais importante, entretanto, este deslocamento de recursos beneficia convenientemente os grupos de rendas mais altas. A intervenção do Estado para garantir esta transferência - no caso brasileiro através do enforçamento de controle salarial e in-flação - tem óbvias implicações políticas. Aque-les que controlam o aparato estatal devem crer que suá continuação no poder é favorecida e promovida não apenas pelo crescimento econômico (como Fishlow assume) mas também pelo padrão da dis-tribuição desse crescimento. Se o deslocamento do produto para Os grupos de renda mais alta ocor-reu através de política de rendas em meados dos anos 60, como quer Wells, então a sugestão de

Revista de Administração de Empresas

Fishlow para se investir maciçamente nos níveis mais baixos de escolarização somente seria levada a efeito pelo aparato estatal brasileiro, se seus in-t.eresses políticos fossem favorecidos e promovidos por tal padrão de investimento. Em outras pala-vras, assegurar ao Estado de que o crescimento econômico não seria impedido pelo investimento nos níveis mais baixos de escolarização ao invés de nos níveis mais altos provavelmente é muito menos importante do que saber quem ficará com a nova produção.

Se Wells está correto, o argumento de Langoni faz pouco sentido. Mostramos que as alterações na remuneração daqueles com diferentes níveis de es-colaridade são muito mais importantes para' ex-plicar as alterações na distribuição da renda entre

1960 e 1970 do que as aIterações na força de tra-balho. Como Malan e Wells indicam, a escolariza-ção não é distribuída aleatoriamente pela popula-ção: os que conseguem obter maior escolarização provêm de famílias de maior renda do que aque-. les que obtêm pouca escolarização. Assim, o au-mentoda renda relativa daqueles com maior esco-laridade significa melhor remuneração para as fa-mílias com melhor posição e claramente forta-lece o poder econômico dos ricos e poderosos. Já mostramos que o argumento de Langoni da nature-za temporária da "quase-renda" surgindo da neces-sidade temporária de trabalhadores mais escolari-zados é, no mínimo, fraco. Seu exemplo de que

O desenvolvimento capitalista é caracterizado por

um tipo de produção cuja expansão favorece os mais escolarizados em detrimento dos menos esco-larizados tem muito mais suporte empírico. Não podemos, porém, concordar com Langoni quando afirma que os mais escolarizados devem ser favo-recidos no processo de crescimento, especialmente da maneira extrema como pode ter ocorrido no Brasil.

Finalmente, Langoni tem de se confrontar com o argumento de que as alterações reais na distri-buição da renda ocorreram através de política go-vernamental em meados dos anos 60. Neste caso, as "quase-rendas" são remunerações poHticas, que somente podem ser eliminadas se o Estado acredi-tar que nesta década outros devem recebê-Ias. Se o Governo brasileiro continuar a ver seus interes-ses ligados com os grupos de mais alta renda e pu-der continuar mantendo a ordem na classe traba-Ihadora, sem grandes aumentos na renda, não há razão para se acreditar que a distribuição da renda na próxima década tenderá a ficar mais equilibrada.

Há muitas indicações de que, nos países onde a distribuição da renda tem-se tornado mais equili-brada (como a Holanda ou a Noruega), a maior igualdade tem sido resultado de atividades

(8)

ques-tões mais interessantes que Langoni deixa de lado ao invés de estudá-Ias; ternos esperança de que pes-quisas futuras questionarão a relação entre distri-buição e desenvolvimento de uma forma mais

pro-fu~. O

1 Fihlow, Albert. Bralll.n Income ••• cIIltrlbutlllll -

.-t!ler laok. Berkeley, Universidade da Califórnia, 1973. mlemogr.;

Wells, John. The dlltrlbutlon 01 •• rnl... In Irall. Cambrldge,

1973. mimeogr.; Malari, Pedro & Wells, John. Distribuição da

renda e desenvolvimento econ&nlco do Brasil. PHqul.. e P1.

naJ.mento Econllmlco, v. 3, n. 4, dez. 1973.

2 Langoni, Carlos. A ltudy In economlc growth: the Bralll.n

c.... Dissertação de Ph. D. inédita, Universidade de Chicago,

1970.

3 Ver Carnoy, Martin. Schoollng, Income, the cIIltrlbutlon 01

Income, .nd unamployment: • crltlc.1 .ppr.lol. Stanford

Uni-versity, 1973. mlmeogr. Quadro 10.

4 A fórmula usada para aproximar as taxas sociais médias

é a seguinte:

tI t2 (CI

+

C2)

C2tI

+

CIt2

fi Mas esta não é a história toda. Usando sua estimativa

de regressão, Langoni prevI um coeficiente de Glni em 1970

que é 23% mais baixo do que o observado (0,43 vs. 0,57).

Perguntarlamos: qual é o coeficiente previsto ••••• Ul o

observa-do em 19601 Se o intervalo entre o previsto e o observado

aumentou, nio se poderia argumentar que o aumento residual

inexplicado pudesse ser um efeito "distributivo puro" adicional

nas aIterações da renda 1

6 Admitimos, no momento, que embora a renda não

neces-sariamente iguale o produto marginal, a •••••çio entre renda e

produto marginal para aqueles com diferentes nlveis de

esco-laridade, nos EUA, nio se alterou significativamente entre 1959

e 1969.

7 Ver Carnoy, Martin. op. cito Quadro 8.

8 Ver, por exemplo, Berg, Ivar. Educ.tlon anel )oba: the •.•• t

tr.lnlng robbary. New York, Praeger, 1970.

9 Thurow, Lester. In_tment In hum.n caplt.1. Belmont,

Ca-lifornia, Wadsworth Publishing, 1970.

10 Ver Gordon, David. TlMor_ 01 povwty .nd unampJorment.

Lexington, Massachusetts, D. C. Heath, 1972.

1.1 Furtado, Celso. An'" •• cio ·modeIo· brullelro. Rio de

Ja-neiro, 1972.

12 Thurow, Lester & Lucas, Robert. The Amerlcan

dlltrlbu-tlon of Income: • Itructur.1 prob... Washington, D. C., Joint

Economic Committee, U. S. Government Printlng Offlce, 1972.

18 Não concordo necessariamente com o modelo de

Thurow-Lucas. Ele traz alguns elementos importantes para a

compreen-são do mercado de trabalho, mas também nio trata das razões

pelas quais existem grandes diferenças de pagamentos para

diferentes tipos de trabalho, nem das partes do mercado de

trabalho onde não ocorre nenhum treinamento. Para análise

deste último ponto, o leitor deve consultar Gordon, David. op.

cito

14 Malan e Wells também apontam esse fato. Ver op. cito

p. 1 119.

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