UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ INSTITUTO DE CULTURA E ARTE
JORNALISMO
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
ESTER CORREA COELHO
MOTO PERPÉTUO: IDAS E VINDAS LATINO-AMERICANAS
FORTALEZA 2018
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ESTER CORREA COELHO
MOTO PERPÉTUO: IDAS E VINDAS LATINO-AMERICANAS
Relatório de Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Jornalismo do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo.
Orientador: Prof. Dr. Rafael Rodrigues da Costa
Fortaleza 2018
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ESTER CORREA COELHO
MOTO PERPÉTUO: IDAS E VINDAS LATINO-AMERICANAS
Relatório de Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Jornalismo do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo.
Orientador: Prof. Dr. Rafael Rodrigues da Costa
Aprovado em: _______ / _______ / _______.
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________ Prof. Dr. Rafael Rodrigues da Costa (Orientador)
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Prof. Dr. Robson da Silva Braga
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Isabel Rocha Filgueiras
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A todos os latino-americanos que deixaram as suas casas e enfrentaram idas e vindas em busca de uma vida melhor.
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RESUMO
A América Latina tem sido palco de fluxos migratórios massivos há décadas. O México e a
Colômbia são países que historicamente migraram por questões econômicas e fuga da
violência. Na América Central, desde os anos 80, El Salvador, Honduras e Guatemala também
foram países expulsores, momento em que se formaram as gangues que são um dos fatores
determinantes em gerar a população migrante atual. Atualmente, outra migração inesperada
toma conta da América do Sul. Com a crise social, política e econômica na Venezuela,
nacionais de um dos países mais ricos do mundo se viram obrigados a deixar suas casas para
refugiar-se em outros territórios. Dentro deste contexto internacional, o livro-reportagem
“Moto Perpétuo: idas e vindas latino-americanas” apresenta histórias de migrantes inseridas em seus contextos históricos e sociais, a partir da visão da viagem feita pela autora para três países latino-americanos em busca das narrativas.
Palavras-chave: Migração; Refúgio; América Latina; Viagem. RESUMEN
América Latina ha sido territorio de flujos migratorios masivos desde hace décadas. México y
Colombia son países con migraciones históricas por cuestiones económicas y sociales, como
la huida de la violencia. En Centroamérica, desde los años 80, las circunstancias en El
Salvador, Honduras y Guatemala expulsan a su población hacia países como los Estados
Unidos de América, situación que ha generado la creación de la amenaza de las maras, que son uno de los factores determinantes en generar la población migrante actual. Otra migración inesperada ha ganado espacio en América del Sur. Por la crisis social, política y económica en Venezuela, ciudadanos de uno de los países más ricos del mundo se han visto obligados a dejar sus casas y buscar refugio en otros territorios. En este contexto internacional, el libro reportaje“Moto Perpétuo: idas e vindas latino-americanas” presenta historias de migrantes y sus contextos sociales desde la perspectiva de los viajes hechos por la autora.
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LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 – Exemplo de página de abertura de capítulo ..……….…...…………. 23
Figura 2 – Exemplo de página de dados ..……….…...………... 24
Figura 3 – Exemplo de página de frase de destaque ..……….…...……….. 24
Figura 4 – Exemplo de página com fotos ..……….…...……….. 25
Figura 5 – Exemplo de página de mapas ..……….…...………...…. 26
Figura 6 – Exemplos de página com anotações laterais ..………...……...……. 26
Figura 7 – Ilustrações do infográfico dos meios de transporte ..……….…...…. 27
6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO …….……….………..……….…....… 7 1.2 Fundamentação Teórica …...………..………...………..……..……..……..……... 10 1.3 Justificativa ..………...………..……... 13 1.4 Objetivos …..………...………..…. 15 2 SUPORTE ADOTADO ………...…………...………...………..………..…... 16 3 ESTRUTURA DO TRABALHO …..………..……....………..………….……….. 18 3.1 Elaboração da pauta ..………...………. 18 3.2 Pré-produção ………..……….…..…..………....……...….. 20 3.3 Apuração ..……….……....………...………….……….. 21 3.4 Edição ………..………..…..………...………..…....…....….. 22 3.4.1 Nome ………....………...…..…….…….………..………....………... 22 3.4.2 Projeto Gráfico …………....………...…..…….…….………..…... 23 3.4.3 Ilustrações …………....…....………..……….…….………..…... 27 4 CONCLUSÃO .……..………....………..………....………... 29 REFERÊNCIAS ………..……….…………..……..……. 30
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1. INTRODUÇÃO
Após a Segunda Guerra Mundial, diversos países do mundo se reuniram para escrever uma Constituição que protegesse populações afetadas pela violência. Estas pessoas, obrigadas a deixar seus países de origem por diversas razões, receberam o status de refugiados.
Atualmente, 68,5 milhões de pessoas se encontram forçadas a deixar suas
casas e se deslocar dentro do seu próprio país ou no estrangeiro de acordo com o United
Nations High Commissioner for Refugees (UNHCR, 2018), o Alto Comissariado das
Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Guerras civis, ditaduras, violência e1
perseguição são os principais motivos que têm constituído a população refugiada.
Desde 2011, após a Primavera Árabe, a Síria vive uma guerra civil que
permanece gerando população refugiada em outros territórios ao redor do mundo,
principalmente na Europa. De acordo com o UNHCR (2018), mais de 12 milhões de
pessoas deixaram o país, sendo 6,3 milhões destes deslocados internamente, ou seja, que fogem para outros lugares do país em busca de proteção. Geralmente, este fluxo vai do 2
campo para a cidade, sobrecarregando os sistemas sociais e econômicos dos países
receptores e propiciando o crescimento das periferias. Este fluxo migratório chamou
atenção do mundo pela gravidade da situação em que vive o país e por conta do elevado número de refugiados chegando ao continente europeu, muitas vezes em condições precárias.
Porém, apesar da grande visibilidade da temática das migrações em países da europa e oriente médio, é um país na América Latina que lidera o ranking mundial de deslocados internos: a Colômbia. O país, há 52 anos em Guerra Civil, possuía até o final de 2017 um total de 7,9 milhões de pessoas deslocadas, sendo 7,7 milhões destas deslocados internos. (UNHCR, 2018) Esta fuga tornou o território vizinho, o Equador, o 3
1 UNHCR. Global Trends 2017: Forced Displacement in 2017. 2018. Disponível em:
<http://www.unhcr.org/en-us/statistics/unhcrstats/5b27be547/unhcr-global-trends-2017.html> Acesso em 19. nov 2018
2 Ibid., 2018, p. 14 3Ibid., 2018, p. 6
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país que mais recebeu refugiados na América Latina, totalizando mais de cinquenta e sete
mil colombianos com status de refugiados no país até 2016. (ACNUR, 2016) 4
Em 2016, o governo colombiano realizou um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, guerrilha da época da guerra civil. O acordo foi feito junto à ONU, que estabeleceu uma missão de estabilização no país. Mesmo assim, o problema persiste, visto que a reintegração dos ex-combatentes na sociedade tem sido paulatina. Além disso, muitas dessas pessoas não têm encontrado espaço na volta para a vida civil e acabam se associando a novos grupos de atividades ilícitas nas cidades.
Ao lado da Colômbia, outra nacionalidade latina recorre à fuga: os venezuelanos.
Na Venezuela, Nicolás Maduro foi eleito presidente após a morte de Hugo Chávez,
governo de caráter socialista que durou mais de 15 anos. O país é um dos maiores
produtores de petróleo do mundo, mas desde 2013 enfrenta uma crise econômica. A má
gestão de empresas de bens de consumo por parte do Estado, modelo de controle estatal proposto pelo governo, e a baixa do preço do barril do petróleo em 2014 acabaram falindo
várias empresas de base. Em consequência, prateleiras de supermercados e farmácias
ficaram vazias, e a população sem acesso a comida e remédios. Além disso, a crise aumentou a inflação no país; estima-se que atingirá 1.000.000% até o fim de 2018. O desemprego aumentou e os preços começaram a subir a ponto de que a maioria da população venezuelana não conseguia comprar produtos básicos para sobrevivência com
um salário mínimo, que sofreu reajuste apenas com a implantação de uma nova moeda,
em agosto de 2018.
Em maio de 2018, uma nova eleição foi realizada na Venezuela, elegendo
Maduro mais uma vez como presidente. O processo eleitoral não foi reconhecido por
muitos países e aumentou a tensão política na região. Assim, fugindo da perseguição
política, falta de oportunidades, comida e elementos básicos de sobrevivência, estima-se que mais de dois milhões e meio de venezuelanos já deixaram o país, disparando o número de solicitações de refúgio nos países vizinhos como Brasil, Colômbia, Peru, Equador e Chile.
4 ACNUR. Hoja Normativa. ACNUR en Ecuador. Ecuador: 2016. Disponível em:
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O aumento das solicitações de refúgio de venezuelanos também cresceu no
México. O país, visto equivocadamente apenas como um país de trânsito e
historicamente um expulsor de migrantes em direção aos Estados Unidos, hoje assume
um papel chave no acolhimento de migrantes forçados do chamado Norte da América
Central, constituído por El Salvador, Guatemala e Honduras.
A América Central viveu anos de guerra civil na década de 80. Ao final dos anos 70, a migração intensa de cidadãos de El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua
e Costa Rica iniciou em direção aos Estados Unidos e ao México. Uma nacionalidade
específica, se destacou na história das migrações centro-americanas: os salvadorenhos. A
chegada destas pessoas nas grandes cidades estadunidenses, buscando condições de vida
longe da violência sofrida em seus países, levava a uma aglomeração nas periferias.
Nelas, se depararam com mexicanos também imigrantes no país, fugindo da situação
econômica e da vida de pobreza da sua origem.
Os bairros periféricos, então, passaram a concentrar diversas atividades
ilícitas, entre elas o tráfico de drogas. A presença de grupos já consolidados na periferia
de Los Angeles, como as gangues mexicanas, criou uma ‘necessidade’ de proteção e
distinção, formando grupos de salvadorenhos como a Mara Salvatrucha Stoner, que mais tarde se tornaria a gangue Mara Salvatrucha 13 (conhecida como MS-13). Nos anos 90,
com o fim das guerras e a assinatura de acordos de paz em El Salvador, os governos
mexicano e norte-americano prosseguiram com o reassentamento voluntário e/ou a
deportação dos imigrantes da América Central, inclusive filhos de migrantes nascidos nos Estados Unidos. A volta para seus países de origem não permitiu uma re-inserção correta na sociedade, uma vez mais destinando essas pessoas às periferias centro-americanas.
Nesse contexto, as conhecidas gangues, denominadas de “maras” ou
“pandillas”, ganharam dimensões internacionais, chegando em Honduras e Guatemala, principalmente a conhecida Mara Salvatrucha (MS-13), em El Salvador, e sua inimiga,
Barrio 18. Entre as práticas destes grupo estão a perseguição, assassinatos, violência física e a prática da extorsão por meio de uma espécie de ‘taxa’ para viver nos territórios em que dominam. Atualmente, estima-se que existam 40 mil membros nos Estados Unidos e 100 mil divididos entre El Salvador, Honduras, Guatemala, México e Itália. Estes grupos criminosos são a principal causa da migração atual na América Central.
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Diversos acordos internacionais e regionais já foram feitos sobre o tema,
como o Plano de Ação do México em 2010, renovado no Plano de Ação do Brasil em
2014 e a Convenção de San Pedro Sula. Todos são esforços dos países em padronizar e efetivar a resposta à demanda crescente de pedidos de refúgio, além de criar alianças entre nações. Os planos, no entanto, muitas vezes não têm sido efetivos.
1.2 Fundamentação Teórica
É essencial compreender as migrações dentro de seu complexo espectro de
possibilidade. Segundo Lobato (2017), é necessário distinguir os termos imigrante e
refugiado, apesar de ambos serem termos que se ajustam ao deslocamento de um local de origem para outro. Assim,
Imigrantes, são pessoas que saem do seu território/país para se estabelecerem em outro, só que essa decisão foi tomada por conta própria, não houve uma grande influência externa, e se existiu a motivação não fora política, racial e ideológica, podendo, em muitos casos, ser climática, pessoal, a procura de um melhor posicionamento de vida e etc. (LOBATO, 2017)
Já o termo refugiado abrange as determinações da Convenção Relativa ao
Estatuto dos Refugiados de 1951, primeiro documento que juntou a necessidade de
regulamentação de uma população migrante afetada pós-segunda guerra mundial. A
Convenção se limitou apenas a essas pessoas. De acordo com o artigo 1º da Convenção, são considerados refugiados aquela pessoa que
temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país, ou que, se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em consequência de tais acontecimentos, não pode ou, devido ao referido temor, não quer voltar a ele. (CONVENÇÃO RELATIVA AO ESTATUTO DOS REFUGIADOS, Artigo 1º)
Diante da formação de novas categorias de refugiados nos anos seguintes, em 1967 foi necessário assinar um documento que abrangesse o termo: o Protocolo de 1967,
11
encaixasse nestas definições, mesmo depois de 1951, poderia usufruir de seus direitos
como refugiado.
Na América Latina, com o fluxo intenso na década de 80 de migrantes e
refugiados de países do Norte da América Central para países como México e Panamá, as
nações latinas formularam um documento que insta a atualização das leis nacionais
perante a Convenção de 1951 e o Protocolo de 1967.
A Declaração de Cartagena, de 1984, ampliou o termo refugiado para outras categorias na América Latina, buscando abranger as situações que vivia a região naquele período. Dessa forma, foi incluído que
[...] a definição ou o conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é o que, além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967, considere também como refugiados as pessoas que tenham fugido dos seus países porque a sua vida, segurança ou liberdade tenham sido ameaçadas pela violência generalizada, a agressão estrangeira, os conflitos internos, a violação maciça dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. (DECLARAÇÃO DE CARTAGENA, Artigo 3º)
A partir destas premissas, o livro trabalha com os termos migrantes e
refugiados, e reúne histórias dos que fazem parte dos fluxos mistos de migração, termo “frequentemente usado para descrever uma situação na qual os migrantes se movem, em
geral, por diferentes motivos que são difíceis de discernir.” (NARANJO, 2015, tradução
nossa) 5
Essas características respaldam a temática como pauta de jornalismo
internacional em relação ao Brasil, pois abrange diversos territórios para além do próprio
país. De acordo com Natali (2004), o jornalismo nasceu internacional. Sua origem,
traçada até os comerciantes europeu no século XVIII, vem justamente da necessidade de comunicação entre diferentes pontos do planeta para realização de comércio entre países
na Europa. Os barcos, que passavam meses para atingir terras além-mar, precisavam de
informação para realizar as trocas de produtos e exportação.
5 [...] es frecuentemente usado para describir una situación en la cual los migrantes se mueven, en general, por diferentes motivaciones que son difíciles de discernir, porque transitan entre los mismos países de origen —tránsito y destino—, a menudo con la asistencia del mismo traficante o agente migrante, y repetidamente en el mismo avión, barco o camión.
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No entanto, o Brasil ficava de fora deste espectro. Natali (2004) defende duas
razões para a baixa existência de notícias do exterior naquela época: a demora das
notícias chegarem por meio dos navios e “o fato de as oligarquias nacionais da primeira metade do século XIX serem bilingües,” portanto tinham acesso aos jornais do exterior e
realizavam a leitura na língua de origem, sem ser necessária tradução ao português e
limitando tal conhecimento a uma elite.
Atualmente, a barreira linguística ainda é um impedimento para que os
brasileiros acessem conteúdos do exterior. Por isso, é interessante possuir materiais
produzidos na língua portuguesa sobre temas que acontecem fora do território brasileiro. Como dito por Natali (2004),
Não seria, portanto, exagerado supor que um determinado cidadão, integrante da pequena minoria alfabetizada e politizada, soubesse do noticiário internacional bem mais por meio de periódicos importados com os quais os pasquins não poderiam ou não teriam o interesse de fazer concorrência.
Considera-se América Latina todo país colonizado por povos latinos, de línguas latinas: são essas o português, o espanhol e o francês. Assim,
Se levássemos em conta apenas o processo de povoamento poderíamos considerar o Canadá francês, província de Quebec, ou alguns estados dos Estados Unidos, que foram conquistados por este país ao México, onde ainda hoje se fala largamente o espanhol - a California, o Novo México e a Flórida - como parte da América Latina. (ANDRADE, 1982)
Porém, o termo América Latina surge como uma associação à região
considerada “pobre, atrasada e com dominação estrangeira” das Américas, retirando os
Estados Unidos e o Canadá desta definição.
Por isso se considera como tal todo o território da América colonizado por espanhóis, portugueses e franceses, que não integram os países ditos anglo-saxônicos - os Estados Unidos e o Canadá. Assim, a fronteira entre os Estados Unidos e o México, simbolizada pelo rio Grande, seria o limite da América Latina. Todos os territórios situados ao sul desta fronteira formariam a América Latina, tanto a sua porção continental como as ilhas. (ANDRADE, 1982)
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Os brasileiros, no entanto, apesar de incluídos nesta definição, não assumem
tal identidade. É comumente feita a relação da América Espanhola com a Latina,
excluindo então o Brasil, país de colonização portuguesa. Por isso, alguns especialistas afirmam que a principal separação do Brasil ao resto da América Latina é a barreira linguística. Por ser o país com maior território e único que não fala o espanhol, o Brasil muitas vezes não tem identificação com os países vizinhos, os quais considera distante. Para Andrade (1982), outros fatores como a expansão brasileira para o Sul e o desejo de
associação das camadas mais elevadas em apresentar o país como europeizado, também
influenciam nesta separação.
1.3 Justificativa
Tendo isto como base, o surgimento de um incômodo pessoal proveniente da
percepção da falta de integração do Brasil com a América Latina me levou a querer
expor problemáticas desta região específica para o país por meio da apuração jornalística.
Portanto, o livro “Moto Perpétuo” conta histórias dentro de um recorte
específico sobre a região: o das migrações, problema ainda desconhecido pelos
brasileiros, mas que toma espaço em terrenos vizinhos. Assim, de acordo com as suas
respectivas definições, o livro utiliza-se dos termos refugiados e migrantes para abranger ambas classificações na narrativa.
A escolha do tema se respalda em acontecimentos recentes que justificam a
motivação para a pesquisa. Desde 2016, o processo de acordo de paz do governo
colombiano com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) tramita, tendo
sido efetivado em 2017. Em julho daquele ano, os ex-combatentes entregaram suas armas
perante a Organização das Nações Unidas (ONU). Os acordos de paz são um momento
histórico, mas que trazem consequências para as grandes cidades e para a sociedade colombiana, que agora passa pela reinserção de ex-guerrilheiros à sociedade. Além disto,
um novo governo eleito em julho de 2018 apresenta políticas que visam a revisão dos
acordos, criando tensão no cenário político colombiano. Este fato é considerado
determinante na história da Colômbia, pois por anos foi um país expulsor de sua própria população, que fugia da violência dos grupos armados principalmente no campo.
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No Brasil, dentro de um contexto em que as solicitações de nacionalidade
venezuelana aumentam desde 2015, o governo brasileiro tem fomentado políticas de
integração. Mais de 2.800 mil imigrantes já foram realocados para vários estados do
Brasil e terão oportunidades de se regularizar e buscar oportunidades de trabalho. Nesta 6
perspectiva de integração local, os sistemas econômicos e o mercado de trabalho
brasileiro terão que se adaptar à situação, fornecendo qualidade de vida conforme previsto
no documento assinado pelos países latinos denominado Plano de Ação do Brasil, de
2014. Faz-se necessário, portanto, conhecer os diferentes aspectos históricos e sociais que geram a população latina refugiada e migrante no Brasil atualmente.
As migrações na América Latina também têm sido alvo recente de discussões e investimentos promovidos pelo governo americano do presidente Trump para impedir a 7 chegada dos centro-americanos, ato que lembrou as deportações feitas na década de 90, as
quais, na época, impulsionaram o caráter internacional das gangues da região. Além
disso, a detenção de crianças na fronteira e a separação de famílias de migrantes têm sido notícias frequentes durante o ano de 2018 como crítica à política americana do governo atual.
Outro fator de importância identificado como motivação desta pesquisa foi a negligência da cobertura feita pela mídia brasileira sobre temas latinos. Através do estudo da mídia tradicional brasileira, constatou-se que, por exemplo, o refúgio latino se tornou notícia apenas em 2017 com a chegada de maior volume de venezuelanos no território nacional, apesar de o país estar recebendo números altos de solicitações desde 2016, e a crise econômica na Venezuela estar acontecendo desde 2014.
A única produção audiovisual existente sobre o assunto no Brasil é o
documentário “Refugiados na América Latina: a saída é a fuga”, produzido em 2014 pela TV Brasil Internacional, com o apoio do Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O
documentário foi filmado em quatro países latinos — Brasil, Equador, México e
6 Em nova modalidade de interiorização, 30 venezuelanos são levados para Bahia. ONUBR, out. 2018. Disponível em:
<https://nacoesunidas.org/em-nova-modalidade-de-interiorizacao-30-venezuelanos-serao-levados-para-bahia/> Acesso em 19 nov. 2018
7 MIROFF, Nick. 200,000 Salvadorans may be forced to leave the U.S. as Trump ends immigration protection. The Washington Post, jan 2018. Disponível em:
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Nicarágua — e retrata a vida tanto de refugiados de nacionalidade latino-americana, quanto de outras nacionalidades que vivem na América Latina, como os refugiados africanos. Assim, possui um foco diferente da proposta deste livro-reportagem.
No Brasil, notícias sobre migrações centro-americanas ou deslocamento forçado foram apenas relacionadas ao governo Trump e sua política de migração. Fora do país, a Deutsche Welle, da Alemanha, e a Univision, dos Estados Unidos, já produziram documentários sobre a história e o processo de formação das maras. A BBC também tem realizado cobertura da migração atual rumo aos Estados Unidos, noticiando com frequência e acompanhado a trajetória de migrantes dos países da América Central, tanto no formato audiovisual quanto digital.
1.3 Objetivos
Geral
● Visibilizar para o público brasileiro os fluxos atuais de migrações forçadas por causas políticas e socioeconômicas no âmbito da América Latina.
Específicos
● Fomentar a discussão acerca de ações para recepção massiva de migrantes
● Contar histórias de refugiados, solicitantes de refúgio e migrantes venezuelanos no Brasil e na Colômbia
● Contar histórias de migrantes salvadorenhos
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2. SUPORTE ADOTADO
Em tempos de discussão das crises e transformações do jornalismo impresso e da
necessidade de interseção com outros meios, o livro-reportagem surge como uma
alternativa à produção de profundidade.
Os “livros de repórteres”, como vimos, traçam uma linha diferente. Eles irradiam um novo discurso sobre o que está cristalizado nas práticas jornalísticas e poderiam ser situados às margens das teorias, à medida que se reconhece que os comentários são feitos à sombra de um texto normativo, que já havia sido dito, quer seja em teorias jornalísticas, quer seja em “manuais de redação”. (MAROCCO, p. 127, 2011)
Neste raciocínio, Lima (1995, apud Rocha, Xavier, 2013) considera que um livro-reportagem trata de forma extensiva e intensiva o objeto em questão. O autor considera que o livro-reportagem é uma alternativa ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística periódicos, pois permite maior profundidade.
Para permitir essa ampla abordagem do tema escolhido, além de utilizar “procedimentos metodológicos inerentes ao campo do jornalismo, sem, contudo,
descartar certas nuances literárias” (ROCHA, XAVIER, 2013), o formato de
livro-reportagem foi o ideal para contar histórias e relatos das personagens selecionadas para formar a narrativa tendo como gancho acontecimentos atuais. Além disso,
De antemão pode-se apontar o acontecimento e a atualidade como aspectos facilmente identificáveis para a produção do livro-reportagem. Nota-se que o acontecimento encontra observação e estudos tanto no jornalismo quanto nos conceitos da história. (ROCHA, XAVIER, 2013)
Assim, mediante as atualidades e os ganchos que justificam a temática escolhida para o trabalho, a utilização do livro-reportagem constituiu em escolha mais apropriada para abordagem do tema. Para Sodré (1986, p. 11 apud Caputo, 2006, p.13) “a narrativa é
todo e qualquer discurso capaz de evocar um mundo concebido como real, material e
espiritual, situado em um espaço determinado".
17 reportagem como um dos gêneros jornalísticos e como a forma-narrativa do veículo impresso. E é essa forma narrativa do veículo impresso que nos desafia cotidianamente. (CAPUTO, 2006)
Portanto, a partir da utilização de técnicas narrativas e típicas da escrita
jornalística, além das técnicas do jornalismo de dados, o livro-reportagem possui um
gênero narrativo e informativo, entrelaçando histórias e dados. Além disso, mistura o relato da experiência pessoal da repórter com a criação de um panorama e uma visão
sobre os países e cidades por onde a narrativa passa. Isto acontece porque segundo
Kotscho (2000), “nas coberturas no Exterior, não basta relatar o que aconteceu: é preciso ajudar o leitor a entender por que tais fatos estão ocorrendo, situando-os dentro de um contexto histórico e lembrando as características de cada país.”
Juntando estes aspectos às características do livro-reportagem, percebemos que
A grande reportagem rompe todos os organogramas, todas as regras sagradas da burocracia - e, por isso mesmo, é o mais fascinante reduto do Jornalismo, aquele em que sobrevive o espírito de aventura, de romantismo, de entrega, de amor pelo ofício. (KOSTCHO, 2000)
Por isto a escolha de utilizar a primeira pessoa da autora, que relata ao leitor a sua própria aventura como guia narrativo. Essa decisão se reflete no nome e na ordem dos
capítulos, que seguem a ordem da viagem realizada para a pesquisa de campo. Além
disso, o livro prioriza a narrativa das histórias dos personagens que cruzaram caminho com a autora, procurando estabelecer um contato direto do contador da história com o leitor e fortalecer o sentimento de pertencimento e imersão no texto.
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3. ESTRUTURA DO TRABALHO
Daniel Samper (1991, apud Pereira Júnior, 2006, p.77), jornalista colombiano
e ex-correspondente do jornal bogotano El Tiempo na Europa, destaca quatro etapas
essenciais para a produção de um trabalho jornalístico: a elaboração da pauta, a
pré-produção, a produção e a pós-produção. Desta forma, destacam-se a seguir as quatro etapas de produção do livro-reportagem baseadas na classificação de Samper.
3.1 Elaboração da pauta
De acordo com Pereira Júnior (2006), a elaboração da pauta consiste na
“apuração preliminar, exploração das fontes, documentos e publicações, numa pesquisa
prévia à formulação da pauta.” Assim, para dar início a este trabalho, utilizou-se da metodologia bibliográfica com pesquisa histórica e estatística por meio de relatório de
organizações governamentais e não-governamentais de cada país, recortes de jornais
nacionais e estrangeiros que abordavam notícias de acontecimentos marcantes para a
narrativa, além da sondagem das fontes primárias. Entre elas estão especialistas, representantes de organismos internacionais, coordenadores de ONGs e reconhecimento dos locais em que se encontram a população migrante.
Entendeu-se que apesar de atualmente ter um perfil caracterizado pela fuga da violência e de crises sociais, a migração latina possui diferentes motivos. Os chamados fluxos mistos constituem-se de grupos de migrantes fugindo por diversas razões, seja da violência ou perseguição política, assim como pessoas que migram por motivos econômicos. Estes dois panoramas são completamente diferentes.
Atualmente, no México, o maior número de solicitações de refúgio que são
rejeitadas pela Comissão Mexicana de Ajuda a Refugiados (Comar) é referente a
solicitantes que migraram por razões econômicas. Estas pessoas não possuem necessariamente algum tipo de perseguição ou temor de voltar ao seu país de origem, mas
vão embora em busca de uma melhora financeira ou de emprego e, portanto, não
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De acordo com o relatório mais recente do ACNUR (2018), o número de
refugiados e solicitantes de asilo do Norte da América Central no mundo totaliza 215 mil.
Em Honduras, de 2004 a 2014, 174 mil pessoas estavam deslocadas internamente. 62% 8
alegam fuga para outros países por medo da insegurança (Comisión, 2015). Nos Estados 9
Unidos, as solicitações de asilo de centro-americanos aumentaram 44% até dezembro de 2017, fazendo com que estes pedidos representem 43% do total de solicitações no país. Destas, são 49.500 pedidos de asilo de salvadorenhos, nacionalidade que ficou em
primeiro lugar no número de solicitações. Guatemaltecos e hondurenhos vêm logo em
seguida, com 35.300 mil e 28.800 mil solicitações, respectivamente. Segundo o UNHCR
(2018), este aumento representa níveis jamais vistos desde os anos 80. 10
Na América do Sul, o ACNUR estima que mais de dois milhões e meio de venezuelanos já deixaram o país. Fronteiriços com o Brasil, desde 2016 as solicitações de
venezuelanos aumentaram no território nacional. Naquele ano, de acordo com o
Ministério da Justiça e Segurança Pública, os pedidos de venezuelanos totalizavam 3.375 mil, o que já representava um aumento de 307% em relação ao ano anterior. Em 2017, os pedidos de asilo de venezuelanos aumentou para pouco mais de 17.860 mil (Secretaria
Nacional de Justiça, 2017). De acordo com a revista Exame (2018), em 2018 este11
número já subiu para 37 mil pedidos apenas dessa nacionalidade, representando 77% do
total das solicitações de refúgio no Brasil. A maioria dos pedidos foi registrado em12
Roraima, estado brasileiro que faz fronteira com a Venezuela.
Os dados, portanto, respaldaram a escolha dos três pontos de migração a
serem recorridos pela autora: El Salvador, Colômbia e Brasil. Diante do reconhecimento
8 UNHCR. Global Appeal 2018-2019. Regional Summaries: The Americas. 2018. Disponível em:
<http://www.unhcr.org/publications/fundraising/5a0bfff07/unhcr-global-appeal-2018-2019-americas.html> Acesso em 14 jun. 2018
9 Comisión Interinstitucional para la Protección de las Personas Desplazadas por la Violencia. Caracterización del desplazamiento interno en Honduras. Tegucigalpa: 2015. Disponível em:
<https://reliefweb.int/report/honduras/caracterizaci-n-del-desplazamiento-interno-en-honduras> Acesso em 13 jun. 2018
10 UNHCR. Global Trends 2017: Forced Displacement in 2017. 2018. Disponível em:
<http://www.unhcr.org/en-us/statistics/unhcrstats/5b27be547/unhcr-global-trends-2017.html> Acesso em: 19 nov.2018
11 Secretaria Nacional de Justiça. Refúgio em números - 3ª edição. Brasília: 2017. Disponível em:
<http://justica.gov.br/news/de-10-1-mil-refugiados-apenas-5-1-mil-continuam-no-brasil/refugio-em-numeros_11 04.pdf> Acesso em 19 nov. 2018
12 SERRANO, Felipe. 37 mil venezuelanos já pediram refúgio ao Brasil em 2018. Exame, ago. 2018. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/mundo/37-mil-venezuelanos-ja-pediram-refugio-ao-brasil-em-2018/> Acesso em 19 nov. 2018
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do tema como pauta atual e da respectiva necessidade de cobertura, a autora encontrou a problemática e partiu para a próxima etapa do processo, que envolve o contato das fontes primárias e preparação da pesquisa de campo necessária.
3.2 Pré-produção
Ainda segundo Pereira Júnior (2006), a pré-produção é parte do “processo de avaliação estratégica das fontes”, considerando a classificação de Nelson Traquina para levar em conta a origem da informação, a produtividade e a credibilidade da fonte. De acordo com Samper (1991, apud Pereira Júnior, 2006, p.85), as fontes se dividem em três esferas, as quais sugere como ordem para contato.
Em primeiro lugar está o círculo dos informadores, que consiste na
sondagem inicial, a pré-investigação em que o repórter procura fontes de menor importância, com as quais se mantém relação de confiança para entender um conceito técnico de base ou ‘laços privilegaidos’ entre um e outro personagem do assunto em causa. (PEREIRA JÚNIOR, 2006, p.85)
Portanto, para garantir este processo que precede a apuração jornalística,
consideram-se como fontes de base os relatórios de fontes institucionais de organismos
internacionais, governamentais e não-governamentais envolvidas na temática - que,
segundo Traquina, fornecem material que consolidam informações e que segundo Samper
estariam incluídas no círculo dos informadores.
O segundo ciclo, que abarca as fontes de média importância, foi caracterizado neste trabalho por meio do contato direto com funcionários do ACNUR no México e na
América Central, diretores de albergues, de ONGs e especialistas no México, em El
Salvador, na Colômbia e no Brasil. As entrevistas foram feitas em sua maioria à distância por meio de aplicativos como Skype. A tentativa de contato com fontes governamentais de El Salvador, México e Brasil também foi realizada, porém não houve resposta até o momento de fechamento do livro.
As informações coletadas nesta etapa foram necessárias tanto para esclarecer e obter informações de base para a pesquisa, quanto informações específicas dos órgãos.
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completo da informação por parte do jornalista e permite evitar o jornalismo declaratório, que fica refém da fonte.
Por último, Pereira Júnior (2006) destaca o ciclo dos personagens de real
importância. Para a produção deste livro, estas fontes seriam o ponto focal da narrativa e poderiam apenas ser acessadas e identificadas os personagens fundamentais por meio da pesquisa em campo: os migrantes.
3.3 Apuração
Ana Estela Pinto (2009) afirma que a apuração jornalística possui cinco
elementos básicos, sendo estes a pesquisa, a observação, a entrevista, a documentação e a checagem. Portanto, após período de pesquisa bibliográfica, a autora passa para o período de observação, entrevista e documentação.
Para isto, o livro inspirou-se na metodologia etnográfica, caracterizados por Gerhardt et al (2009) como sendo o estudo de um grupo ou povo que se utiliza da
“observação participante, entrevista intensiva e análise de documentos”, bem como a
interação do pesquisador com o objeto pesquisado e a ênfase na “visão dos sujeitos pesquisados sobre as suas experiências.”
Estas características se expressam na pesquisa de campo realizada para escrita do livro, que constituiu em três viagens para pontos de importância temática. A primeira, para El Salvador, permitiu a descrição e conhecimento geral do país, além do contato com a realidade local e fontes especialistas. A segunda viagem foi para Bogotá, capital da Colômbia, país da América Latina que mais tem recebido migrantes venezuelanos. Na terceira e última etapa de pesquisa etnográfica, a autora foi até Boa Vista e Pacaraima,
portas de entrada de venezuelanos para o Brasil. No local, foram visitados abrigos,
ONGs, estabelecimentos e praças públicas que abrigam esta população. Todas as
entrevistas foram feitas pessoalmente.
Destas entrevistas em profundidade presenciais resultaram depoimentos chave para a construção narrativa dos capítulos, que busca entrelaçar história de vida a fatos
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conseguirá distinguir o modo como percebe a realidade: entre olhá-la simplesmente — e, portanto, apenas recebê-la — e vê-la ativamente — e, portanto, buscá-la.”
Assim, a partir das viagens foi possível recolher depoimentos, observar pelos próprios olhos de repórter tanto o ambiente em que se inserem os contextos das migrações abordadas quanto conviver com a realidade dos personagens. Em seguida, a seleção de histórias e a forma de contá-las consiste na última etapa da apuração jornalística: a pós-produção do conteúdo.
3.4 Edição
O livro apresenta seis grandes temas: fronteira, imigração, histórias de vida, história e política, viagens e abrigo. Estes temas se entrelaçam durante os três capítulos.
Pensando na ideia do roteiro de viagem realizado pela autora, o livro nomeia seus
capítulos a partir do bilhete de avião utilizado para realizar a pesquisa de campo e de acordo com os temas que serão tocados naquele capítulo. Por exemplo, o capítulo 1 é
nomeado “Fortaleza - San Salvador”, em referência à primeira parada para escrita do
capítulo. Além disso, cada capítulo possui pelo menos três intertítulos, que determinam a divisão de temas e abordagem dentro dele.
3.4.1 Nome
Após a realização da pesquisa de campo, um conceito se sobressaltou como forma de conectar todos os pontos da pesquisa. A migração na América Latina têm sido cíclica há anos. Primeiro, mexicanos e centro-americanos deixavam seus países rumo aos
Estados Unidos. Hoje, centro-americanos continuam seguindo para os Estados Unidos,
mas muitos decidem solicitar asilo no México. Os próprios mexicanos também diminuíram significamente o seu fluxo migratório para o norte. Tanto mexicanos quanto
centro-americanos, porém, foram deportados de volta para seus países nas últimas duas
décadas.
23
migram atualmente para território colombiano. São ciclos de repetição migratórios que
aconteceram e continuam acontecendo ao contrário, alimentados pela própria força das migrações anteriores.
Esta percepção faz alusão à uma idealização científica: a máquina
denominadamoto perpétuo ou moto-contínuo — a máquina que nunca para de funcionar, pois tem a capacidade de reutilizar a energia gerada pelo seu próprio movimento para seguir infinitamente. Esta máquina é considerada impossível de ser construída, já que rompe as leis da física. No entanto, esta é exatamente a ideia dos ciclos migratórios na América Latina: um ciclo contínuo.
3.4.2 Projeto gráfico
O projeto gráfico do livro foi inteiramente desenvolvido pelo jornalista Paulo Cardoso e se baseia na jornada pessoal da autora realizada para a escrita do produto, bem como a jornada pessoal de seus personagens, os migrantes. Por isso, foram escolhidos elementos que perpassam o cotidiano de ambos: papéis, documentos, carimbos, mapas e passagens aéreas.
Figura 1 - Exemplo de página de abertura de capítulo
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A abertura de cada capítulo simula um bilhete de avião, constando o nome do local de origem e de destino de acordo com a rota realizada pela autora, o número do capítulo e dados fictícios que respaldam o design. A ideia é que o leitor fique imerso no tema também por meio do design do livro, que cria um ambiente de estrada, sujeira e longos caminhos percorridos.
Figura 2 - Exemplo de página de dados
Fonte: dados da pesquisa
Figura 3 - Exemplo de página de frase de destaque
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Além disso, as páginas de texto dão destaque a dados e frases marcantes ao lado da jornada, além de contarem com uma seção de notas de canto de página, que ficam expostas por meio de uma textura de papel rasgado.
Figura 4 - Exemplo de página com fotos
Fonte: Ester Coelho
Entre os capítulos também encontram-se objetos de imersão, como
infográficos, mapas e fotos da viagem da autora, funcionando como uma espécie de
álbum de recordações compartilhado com o leitor. O primeiro infográfico, localizado no
capítulo 1, aborda a estrutura das maras: quem são, como atuam, suas principais
consequências sociais e significado das tatuagens. O segundo infográfico utiliza
ilustrações para explicar os diferentes meios de transporte utilizados durante os movimentos migratórios, ou seja, as diferentes formas de ir de um país para outro.
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Figura 5 - Exemplo de página de mapas
Fonte: dados da pesquisa
Três mapas também compõem o objetivo de inserção geográfica do leitor. O primeiro, no capítulo um, apresenta as rotas migratórias terrestres e marítimas seguidas pelos centro-americanos no território mexicano. Já no segundo capítulo, o mapa traça o caminho de cada migrante venezuelano realizou para chegar até um mesmo ponto: Bogotá, capital da Colômbia. O terceiro mapa, no capítulo três, amplia a perspectiva da recepção de venezuelanos para além do Brasil e mostra um panorama de dados numéricos desta recepção na América do Sul.
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As anotações laterais de página trazem curiosidades, dados a mais, detalhes e fatores que não entraram no texto ou que ajudam o leitor a melhor compreender um termo ou história citada durante a leitura. Desta forma também optou-se pelo destaque de dados importantes do livro, como porcentagens, valores e estatísticas, e frases de entrevistados que fornecem contextualização do tema e buscam despertar a empatia do leitor.
3.4.3 Ilustrações
Figura 7 - Ilustrações do infográfico dos meios de transporte
Fonte: Mayara de Araújo
As ilustrações inspiradas em fotos reais, artes da jornalista e ilustradora Mayara de Araújo, conversam com o design do livro e funcionam como apoio visual para o leitor. São todas feitas à mão, digitalmente, e possuem aspecto de traços de caneta feitos na folha de papel. As ilustrações complementam o projeto gráfico do livro e se diferenciam das fotografias utilizadas.
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Figura 8 - Ilustrações do infográfico sobre as gangues centro-americanas
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4. CONCLUSÃO
O livro “Moto Perpétuo: idas e vindas latino-americanas” busca introduzir o leitor à temática das migrações na América Latina, além de apresentá-lo à cultura e aspectos históricos dos países abordados. Apesar da identificação de uma deficiência de
notícias do contexto latino-americano na mídia brasileira e do objetivo de criar um
produto que suprisse este vácuo, nota-se que foi apenas utilizado um recorte introdutório sobre os temas das migrações como tema principal do livro.
Para cumprir com este fim, o livro utiliza-se de uma jornada pessoal de
viagens da autora, realizando um recorrido por diferentes “pontos quentes” de migração do continente, e atestando a visão de repórter in loco. Ele também ambienta o leitor dentro do espaço sobre o qual lê com fotografias e outros materiais de apoio visual, como infográficos e mapas, incentivando o conhecimento global e geopolítico. A leitura busca instigar a curiosidade para além do texto em si por meio das informações adicionais dadas
nas notas de canto de página, que auxiliam na promoção da cultura latina e
contextualizam a escrita.
Pessoalmente, o Moto Perpétuo trouxe vivências de campo e uma apuração extensa inéditas durante o período de universidade. Além disso, representou um grande
crescimento pessoal, permitindo conhecer novos lugares, pessoas e o contato com
realidades diferentes. Estas experiências despertaram um senso de adaptabilidade, multiculturalismo e multilinguismo, características essenciais para um repórter da área de jornalismo internacional, como um correspondente.
Estas também são características indispensáveis para formar pessoas tolerantes, que possuem empatia e compreendem a situação do outro. Este é o objetivo final do livro: quebrar preconceitos sobre a população migrante. Para isto, o produto busca contar histórias que coloca rostos nas notícias diárias sobre migrações e mostra o que há por trás destes movimentos, explicando o contexto histórico de sua existência, além de fornecer conhecimento necessário sobre as diferentes situações dos migrantes e romper com a generalização.
Em todas as suas formas, Moto Perpétuo representa a realização de um sonho e apenas o começo das primeiras portas abertas para o futuro profissional.
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APÊNDICE A - LISTA DE ENTREVISTADOS
1. Angela Florez - Associada de Informação Pública da Representação Regional do Alto
Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) para México, Cuba e
América Central
2. Antonio Rodrigues - morador de Pacaraima;
3. César Ríos - diretor do Instituto Salvadoreño del Migrante (Insami) em El Salvador 4. Cristian Salazar - migrante venezuelano em Fortaleza;
5. Crismal Rondon - migrante venezuelana em Boa Vista; 6. David Camero - migrante venezuelano em Pacaraima;
7. Eduardo Milanez - porta-voz da Operação Acolhida em Boa Vista;
8. Edimar Barros - taxista na fronteira do Brasil com a Venezuela em Pacaraima;
9. Gabriel Godoy - chefe da Unidade de Proteção do Alto Comissariado das Nações
Unidas para Refugiados (ACNUR) no México;
10. Hugo Castro - migrante salvadorenho retornado dos Estados Unidos em San Salvador; 11. Hector Paruta - migrante venezuelano em Boa Vista;
12. Ismayre Rondon - migrante venezuelana em Boa Vista;
13. Johanna Corrales - professora da Universidade de Medellin, mestre em ciências
políticas pela Unicamp com o tema “Refugiados colombianos no Brasil”; 14. José Contrera - migrante venezuelano em Boa Vista;
15. José Aguilera - migrante venezuelano recém-chegado em Pacaraima; 16. Karina Pérez - migrante venezuelana em Bogotá;
17. Mario Echerenzo - migrante venezuelano em Bogotá; 18. Mary Contrera - migrante venezuelana em Boa Vista; 19. Napoleón Rivero - migrante venezuelano em Bogotá; 20. Nathalie Torrellas - migrante venezuelana em Fortaleza; 21. Osmary Gonzalez - migrante venezuelana em Boa Vista; 22. Roberto Carlos Córdoba - migrante venezuelano em Bogotá; 23. Roseldyis Medena - migrante venezuelana em Boa Vista;
24.Vanessa Epifânio - coordenadora do centro de acolhimento para venezuelanos da
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25. Xionyx Oliveros - migrante venezuelana em Bogotá; 26. Yulia Torres - migrante venezuelana em Bogotá;
Fortaleza, 2018
MOTO PERPÉTUO:
Expediente
Texto e fotos: Ester Coelho
A todos os latino-americanos que deixaram as suas casas e enfrentaram idas e vindas em busca de uma vida melhor.
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Sumário
Agradecimentos Prefácio
Capítulo 1. Fortaleza - San Salvador La Salvación
Filhos da migração Rutas de las libertades Capítulo 2. San Salvador - Bogotá
Los parceros Los panas
Capítulo 3. Bogotá - Boa Vista Av. Brasil com Av. Venezuela Um coração que acolhe Quase Venezuela Mi casa, su casa Referências 8 9 11 12 23 42 59 60 74 95 98 105 125 139 147
Escrever um livro-reportagem certamente foi o maior desafio da mi-nha graduação. Talvez pelo tema escolhido, talvez pelo intenso trabalho exigido; não sei. Somente sei que coloco meu coração e minhas expe-riências de quatro anos nestas páginas. Mas o mérito não é apenas meu: este livro foi escrito a várias mãos. Agradeço a Deus pela benção de cumprir esta missão e pela oportunidade de realizar este trabalho.
Essa viagem começou há muito tempo atrás com o grande investi-mento dos meus pais no meu futuro, me proporcionando viver experiên-cias para além das minhas próprias fronteiras e sempre incentivando meu crescimento profissional, assim como toda a minha família, que sempre acreditou no meu potencial. Pai e mãe, muito obrigada! Eu amo vocês.
Agradeço aos meus amigos de graduação, com quem vivi junto estes quatro anos de universidade. Trabalhar e compartilhar com vocês foi o que fez a minha experiência na UFC valer a pena! Ao professor Rafael, que acompanhou esta jornada e aderiu à ideia ambiciosa desde que ela estava somente no papel, eu agradeço infinitamente. Este livro não seria o mesmo sem a sua orientação. Obrigada, professor!
O meu muito obrigada também ao terceiro contingente da Operação Acolhida nas figuras do Coronel Kanaan, Coronel Moura Filho, Coronel Alei e Sargento Penalva. Obrigada pela recepção e o apoio logístico ofer-tado pelo Exército Brasileiro durante esta jornada. Selva! Ao Leonardo, Liliane e Larissa, que me receberam em sua casa em Boa Vista, agradeço infinitamente a hospitalidade, fundamental para a minha experiência.
E ao meu explorador preferido, que me levou e me mostrou o seu país de coração aberto, me apoiou e ouviu as minhas reclamações e dile-mas durante todo o processo de escrita, ¡gracias! Você é grande parte da minha conquista, Miguel.
Finalmente, a todos os migrantes que compartilharam suas his-tórias comigo e enfrentaram preconceito, cruzaram fronteiras, migração e adaptação em busca de uma vida melhor. Este livro não é somente sobre vocês; é para vocês.
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“Como a história mostra, tudo é cíclico, tudo se reinicia. Há muitos países que passaram por isso e recomeçaram. É o momento que temos que viver agora” - Napoleón Rivero, migrante venezuelano na Colômbia
Estas foram as palavras de Napoleón Rivero, venezuelano que co-nheci durante a viagem para Bogotá. Foi a sua visão que me fez conectar os pontos de toda esta pesquisa: tudo é cíclico. E nestas páginas você descobrirá que as migrações também. Elas são justamente a máquina perfeita que permanece sempre em atividade, e que gera movimento por meio do próprio movimento: o mesmo conceito que Moto-Perpétuo, a máquina idealizada pela física que jamais deixaria de funcionar, mas que também jamais foi possível de ser construída. Mas eu descobri que ela realmente existe, e atende pelo nome de fluxos migratórios.
Me apaixonei pelas migrações sendo eu mesma uma migrante. Ainda que minha história seja muito diferente daquelas dos meus personagens, vivi a mudança, a adaptação e também o prazer de viver em novos luga-res. Mas foi uma destas experiências que me fez ser quem eu sou hoje: virei latina. Foi na minha mudança para o Equador que me reconheci assim e me conectei a este pedaço do mundo, que percebi ser tão negli-genciado pelo Brasil. E foi assim que as migrações se uniram à América Latina, dando origem a este projeto.
Não poderia ser diferente. Ele reúne quatro elementos muito for-tes da minha identidade pessoal e agora, profissional: o Brasil, a língua espanhola, a América Latina e o jornalismo internacional. Foi saindo da minha zona de conforto que percebi o que o planeta tem a oferecer, e que me fez amar o jornalismo internacional. E foi pela mesma razão que decidi me aventurar a escrever sobre um tema tão novo e tão desco-nhecido ainda pelos brasileiros, que são as migrações dentro do nosso continente. Me joguei no mundo.
Dentro de um contexto mundial em que o Brasil tem dado maior prioridade a temas expostos na Europa ou na América do Norte, per-cebi a falta de conhecimento sobre os países vizinhos, que passam por
Prefácio A ideia do cíclico
tantos problemas parecidos aos quais nos compadecemos no continente europeu. Nosso país apenas abriu seus olhos após a intensa chegada de venezuelanos, que tiveram que vir em milhares até que começássemos a olhar para eles e recebê-los como nação. Mas e o que tem acontecido na Colômbia nos últimos 50 anos? E porque tantas pessoas fogem da América Central? Quem são os venezuelanos que chegam ao Brasil? São estas e tantas outras perguntas que busco responder nestas páginas.
Em El Salvador, descobri que a violência que retrato em minhas escritas e que motivam a saída de tantos é apenas uma das realidades deste lindo país. Não é a única verdade, mas também não é uma mentira para ser ignorada. É uma realidade que existe, que vem da guerra civil nacional e persiste até hoje, em outros formatos. As gangues existem, dominam territórios, matam pessoas. A violência está aí. Mas não deve ser a única coisa exaltada. Talvez o problema seja isso: ela é a única coi-sa que vira notícia no resto do mundo sobre o menor país da América Central. Sinto até injusto destacar o mesmo aspecto outra vez nessas páginas, mas faço questão de indicar que esta é apenas uma das histórias que escolhi contar em meio a tantas.
Na Colômbia, em Boa Vista e em Fortaleza, tive a honra de co-nhecer tantos venezuelanos em busca de uma vida melhor e que querem oferecer o melhor possível do seu país. Querem contar a sua história, ser ouvidos e, principalmente, agradecer aqueles que os recebem. É um momento de sua história que, como me disse Napoléon, eles tem que viver agora para poder reiniciar o seu ciclo; e nós somos parte dele.
Este livro é a melhor forma que encontrei de introduzir ao leitor brasileiro o funcionamento desta máquina migratória que é a América Latina. Ele representa também o fim de um ciclo pessoal que percorri durante os meus quatro anos de graduação, mas é apenas o começo para a maioria dos personagens que você encontrará nestas páginas. América Latina tem muitos problemas, mas tem mais vidas.
A mídia construiu um retrato da América Central. El Salvador, com seus pouco mais de 21 mil km², é conhecido como o “pequeno
pole-gar da América”, por ser o menor país da região. Mas essa também é a menor das suas famas. É só digitar o nome do país no Google para encontrar manchetes como “o país mais perigoso do mundo” ou “o país com maior número de homicídios fora de zo-nas de guerra.”
E é verdade. El Salvador é considera-do um considera-dos países mais perigosos considera-do mun-do, ficando em terceiro lugar no relatório
Travel and Tourism Competitiveness Report 2017 do Fórum Econômico Mundial. A
capital, San Salvador, recebeu o título de “capital mundial do assassinato” por con-ta da alcon-ta con-taxa de homicídios no país, que
atingiu 60,07 para cada 100 mil habitan-tes de acordo com o Escritório de Se-gurança Diplomática dos Estados
dos (OSAC). Esse número já demonstrava uma diminuição significativa em relação ao ano anterior, que registrou 80.97 de assassinatos para cada 100 mil habitantes. No total, o país possui pouco mais de 6 milhões de habitantes.
Seus vizinhos, Honduras e Guatemala, dividem o pódio ocupando a nona e a décima sexta posição entre os países mais perigosos, respectivamente. E qual a principal razão para tamanha violência? Certamente o Google também te condu-zirá à resposta: as maras. As gangues centro-americanas são o principal motivo de fama internacional do país, fator que mui-tas vezes afasta viajantes e cria uma bolha de medo na região central do mapa mundi.
Porém, este capítulo é contraditório. El Salvador não é retrato das maras, nem da violência. É completamente mais complexo do que qualquer notícia sobre segurança poderia tentar explicar. Estar no meio da América Central me mostrou a diferença do viver e do ouvir falar: El Salvador tem vida, não morte.
O primeiro medo para o viajante aventureiro começa na orientação emitida pelo Ministério de Relações Exteriores brasileiro. O site classifica o país com um “alerta de grande urgência” e recomenda “viajar com alto grau de cautela”. Ape-sar de não impedir a viagem, essa informação já é suficiente para afastar os planos de muitas pessoas em conhecer o país e a América Central. Talvez isso explique o número de pessoas que se contavam nos dedos para passar pela fila da imigração comigo quando saí do avião, e o número reduzido de cabines de atendimento: apenas duas.
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Mas a minha primeira sensação ao colocar o pé para fora do Aeroporto Internacional de El Salvador foi apenas de ca-lor. Sem vento, o sol batia direto em todos os que esperavam os passageiros que iam saindo. Era um domingo, de manhã cedo, e as ruas não estavam movimentadas. No longo caminho de pouco mais de 40 minutos do aeroporto para a capital, somente via-se verde - a estrada entre os dois destinos é de ár-vores que tomam conta da vista (assim como todas as estradas do país, como eu descobriria mais tarde).
No caminho, o povoado de Olocuilta funciona a todo vapor. Conhecido como o lugar onde se podem encontrar as pupusas tradicionais, homens e mulheres chamam os carros para suas pequenas lanchonetes.
— ¡Véngase, véngase, caballero!
Ali, na rua mesmo, tendas abrigam as chapas quentes cheias das deliciosas mas-sas de milho e de arroz - é o meu primeiro contato com a cultura salvadorenha.
Este cenário é totalmente diferente do
que encontraria logo na entrada de San Salvador. Depois de parar para comprar e provar algumas pupusas pela primei-ra vez, de repente uma placa da rede de fast food americana Wendy’s surge. Ao lado está um Papa John’s, tradicional ca-deia de fast-food de pizzas estadounidense. Em apenas alguns quarteirões, perco a conta do número de lojas da cafeteria