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Trabalho infantil: um estudo a partir do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), no município de Ijuí-RS

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Academic year: 2021

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LUCAS ALCEU DE MELO LEAL

TRABALHO INFANTIL: UM ESTUDO A PARTIR DO PROGRAMA

DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI),

NO MUNICÍPIO DE IJUÍ-RS

Ijuí (RS) 2013

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LUCAS ALCEU DE MELO LEAL

TRABALHO INFANTIL: UM ESTUDO A PARTIR DO PROGRAMA

DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI),

NO MUNICÍPIO DE IJUÍ-RS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Serviço Social do Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais (DCJS) da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social.

Orientadora: Ms. Solange dos Santos Silva

Ijuí (RS), 2013

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Aos meus pais, com eterna gratidão, dedico esta conquista:

pelo apoio nos momentos de angústia vividos ao meu lado;

pelo carinho e pela força, não deixando nunca de acreditar que era possível alcançar este objetivo.

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AGRADECIMENTOS

À minha orientadora, professora. Solange, pela orientação segura, pela paciência e carinho com que sempre me acolheu.

A todos os meus professores, que estiveram presentes ao longo desta jornada acadêmica e que sempre souberam me encaminhar nos estudos.

Aos meus colegas e amigos, que sempre me apoiaram e me estimularam para que eu pudesse alcançar o meu objetivo.

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LISTA DE ABREVIATURAS

PBF – Programa Bolsa Família

BSM – Brasil Sem Miséria

CF – Constituição Federal

CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas CNAS – Conselho Nacional de Assistência Social

CONAETI – Conselho Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil CONANDA – Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente CREAS – Centro de Referência Especializado em Assistência Social

CT – Conselho Tutelar

ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente

FNPETI – Fórum Nacional para Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil GECTIPAS – Grupo Especial de Combate ao Trabalho Infantil e Proteção ao

Trabalhador Adolescente

LA – Liberdade Assistida

LOAS – Lei Orgânica de Assistência Social MDS – Ministério do Desenvolvimento Social

MJ – Ministério da Justiça

MP – Ministério Público

MPAS – Ministério Público de Assistência Social MPF – Ministério Público Federal

MPT – Ministério Público do Trabalho MTE – Ministério do Trabalho e Emprego OIT – Organização Internacional do Trabalho

ONU – Organização das Nações Unidas

PBF – Programa Bolsa família

PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PNAS – Política Nacional de Assistência Social

PNCTI – Política Nacional de Combate ao Trabalho Infantil PNETI – Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil

PNPETIPAT – Plano Nacional de Prevenção e Erradicação ao Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador

PSC – Prestação de Serviços à Comunidade SEAS – Secretária de Estado da Assistência Social SEDH – Secretária Estadual de Direitos Humanos SNAS – Secretária Nacional de Assistência Social SNDH – Secretária Nacional de Direitos Humanos SUAS – Sistema Único de Assistência Social UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 6

1 TRABALHO INFANTIL: UMA EXPRESSÃO DA QUESTÃO SOCIAL NO BRASIL ... 10

1.1 A INFÂNCIA: ASPECTOS CONCEITUAIS E HISTÓRICOS ... 10

1.2 O TRABALHO E AS EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL ... 14

1.3 O TRABALHO INFANTIL: PROCESSOS DE NATURALIZAÇÃO E REPRODUÇÃO ... 20

2 PROTEÇÃO SOCIAL: MARCO DA DESCOBERTA DA CRIANÇA-SUJEITO ... 22

2.1 ORGANIZAÇÃO HISTÓRICA DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA SOBRE O TRABALHO INFANTIL ... 22

2.2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E AS CRIANÇAS SUJEITOS DE DIREITOS ... 26

2.2.1 O ECA e a proteção do trabalho infantil ... 27

2.3 A POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA: UM PROCESSO EM CONSTRUÇÃO ... 31

2.3.1 O PETI ... 42

3 ANÁLISE DOS DADOS E RESULTADO DO ESTUDO ... 44

3.1 APRESENTAÇÃO DOS SUJEITOS PESQUISADOS ... 44

3.1.1 Perfil dos sujeitos pesquisados ... 44

3.2 CENTRALIDADE DO TRABALHO ... 48

3.3 PETI – RESULTADOS E IMPACTOS ... 62

3.3.1 Contribuições do profissional assistente social no PETI ... 64

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 70

REFERÊNCIAS ... 73

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho de conclusão de curso tem como objetivo conhecer a forma como ocorre a reprodução do trabalho infantil em famílias de classes subalternas de usuários inseridos no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), na cidade de Ijuí-RS.

As motivações para a escolha deste tema se originaram, em especial, no fato de ser um tema presente no contexto contemporâneo. Basta olhar em volta para encontrar crianças ou adolescentes trabalhando em inúmeras atividades, especialmente naquelas laborativas que desgastam sua capacidade física. Este fato, na maioria das vezes, acaba afastando-os da escola, local instituído e legitimado por lei, possibilitando-lhes condições mínimas para a construção de sua identidade social.

Já as justificativas estão relacionadas, em primeiro lugar, ao objeto de trabalho do Serviço Social, ou seja, “o objeto de trabalho, aqui considerado, é a questão social em suas múltiplas expressões” (IAMAMOTO, 2004, p. 62). Dessa forma, tomar o trabalho infantil como uma refração da questão social remete à compreensão desse fenômeno como um processo socialmente construído e individualmente manifestado.

A relevância que este estudo possui está relacionada ao contexto sócio-histórico, pois a condição de trabalho infantil está presente nos momentos históricos da formação da sociedade, e romper com esse processo vem de encontro à legitimação da garantia dos direitos existentes no contexto atual, em especial do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O tema da investigação foi “Trabalho infantil” e a sua delimitação foi “A reprodução do trabalho infantil em famílias de classes subalternas de usuários do PETI na cidade de Ijuí-RS, no período de agosto à novembro de 2012”.

Foram elaboradas três perguntas norteadoras que deram um enfoque à construção das respostas a serem encontradas, fundamentadas no objetivo geral do estudo. As questões norteadoras determinadas no estudo são:

1) Como os processos sociais, decorrentes da estrutura econômica da sociedade, impactam na reprodução do trabalho infantil?

2) Como os processos sociais se interpenetram nas relações familiares e contribuem para a naturalização e a reprodução do trabalho infantil?

3) De que maneira o trabalho do profissional assistente social contribui na superação da reprodução do trabalho infantil?

Os objetivos específicos determinados no estudo são os seguintes: a) Identificar os processos sociais decorrentes da estrutura econômica na sociedade, e a maneira como

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impactam na reprodução do trabalho infantil; b) Conhecer como os processos sociais se interpenetram nas relações familiares e contribuem para a naturalização e reprodução do trabalho infantil; c) Desvendar como o trabalho do profissional assistente social contribui na superação da reprodução do trabalho infantil.

O primeiro capítulo deste estudo apresenta o trabalho infantil como uma expressão da questão social, o qual é introduzido como um processo histórico que provém da relação de exploração do trabalho da criança. O advento da industrialização incrementou essa exploração, impulsionada pelas alterações nas relações de mercado, ampliando o capital e, ao mesmo tempo, aumentando também a pobreza.

Este capítulo traz ainda um estudo sobre a infância a partir de conceitos e aspectos históricos, como a inclusão do trabalho e as expressões da questão social ali representada. Ademais, contextualiza o trabalho infantil e seus processos de naturalização e reprodução, os quais encontram na pobreza, em especial, o espaço para sua legitimação e naturalização.

O segundo capítulo, por sua vez, consiste na proteção social como o marco na descoberta da criança, como sujeito que necessita de proteção jurídica. Apresenta a organização histórica da legislação brasileira sobre o trabalho infantil, período que abrange desde o período escravo, em 1823, até a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, considerado o grande marco histórico na proteção dos direitos da criança e do adolescente.

Consiste, também, na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CF/88), como instituidor de direitos, visando à proteção ao trabalho infantil. Este capítulo faz menção, ainda, ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que legitima a regulamentação e proteção social do trabalho infantil. Apresenta, também, a construção de um plano nacional de combate ao trabalho infantil, com o intuito de criar uma política nacional de combate ao trabalho infantil. Nesse cenário figura também o PETI, que atende crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, bem como suas famílias.

Na sequência, o terceiro capítulo trata especificamente da análise dos dados e dos resultados trazidos ao longo do estudo. A metodologia utilizada é de cunho qualitativo. Esse tipo de investigação se interessa mais em separar os aspectos qualitativos da realidade social do que quantificar o objeto de estudo. Assim sendo, “a pesquisa qualitativa é voltada aos significados, às interpretações a respeito dos sujeitos pesquisados e de suas histórias” (MARTINELLI, 1999, p. 19).

A metodologia é um caminho a ser seguido, definido por meio da construção sistemática, alicerçada em um pensamento sobre uma prática que está atrelada ao domínio do

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objeto de atuação. Na metodologia é necessário pensar a mesma como algo que está relacionado com os conteúdos, pensamentos e a realidade a ser estudada.

O ponto de partida de uma pesquisa é o levantamento de um problema, cujo conceito é reforçado por Marconi e Lakatos (1999, p. 88): “A pesquisa busca dar respostas às necessidades de compreensão de um problema ou fenômeno específico”. Reitera-se que a realização do presente estudo foi instigada pela seguinte indagação: como ocorre a reprodução do trabalho infantil em famílias de classes subalternas de usuários do PETI na cidade de Ijuí-RS, no período de agosto a novembro de 2012?

Para os autores, “O problema é uma dificuldade teórica no conhecimento de algo expressivo, para a qual se busca uma solução” (MARCONI; LAKATOS, 1999). Já no entendimento de Prates (2003), elaborar o problema é sintetizar o núcleo duro de uma investigação por meio de uma pergunta que será desdobrada em questões norteadoras, caracterizadas por problematizações auxiliares, as quais compõem a questão central e auxiliam a respondê-la.

“A finalidade real da pesquisa qualitativa não é contar opiniões ou pessoas, mas ao contrário, extrapolar o espectro de opiniões, as diferentes representações sobre o assunto em questão” (BAUER; GASKELL, 2002, p. 68). Logo, o foco deste estudo não foi quantificar, isto é, fazer mensurações, e sim entender a realidade dos entrevistados, revelando dessa forma, o entendimento que possuem a respeito do trabalho infantil, considerando o contexto em que estão inseridos. Para tanto, foi necessário mostrar os aspectos contraditórios de seus relatos.

Foram realizadas abordagens com duas genitoras e dois adolescentes inseridos no Programa PETI, do município de Ijuí, RS, os quais compuseram a amostra. Trabalhou-se com um grupo menor, buscando dessa maneira, o aprofundamento da análise de seus relatos. “A amostra é uma parcela convenientemente selecionada do universo (população); é o subconjunto do universo” (MARCONI; LAKATOS, 1999, p. 32).

O critério utilizado para a composição da amostragem é que essas genitoras deveriam ser mães de adolescentes do programa PETI. Foi investigado como os sujeitos da pesquisa compreendem o trabalho infantil e de que maneira buscam alternativas para resistir a essa realidade. As entrevistas ocorreram no período de setembro a outubro de 2012, e tiveram como local as respectivas residências das genitoras dos adolescentes. O agendamento foi feito de acordo com a disponibilidade dos participantes.

O tipo de amostra com a qual foi trabalhado, portanto, foi a não probabilística do tipo dirigida ou intencional. Segundo Gil (1994), “a amostragem não probabilística é aplicada em

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pesquisas exploratórias ou de caráter qualitativo, que não têm a preocupação com o rigor estatístico”. Optou-se por esse tipo de amostra por ser a mais conveniente em pesquisas qualitativas que não têm como objetivo generalizar, e sim aprofundar o estudo do tema escolhido a partir dos dados aos quais o pesquisador terá alcance.

Nesta pesquisa foram realizadas entrevistas semiestruturadas, sendo utilizado um roteiro que privilegiou o ponto de vista dos entrevistados acerca do objeto da pesquisa. Foram usadas perguntas abertas, “pois elas viabilizam que os pesquisados possam responder livremente, emitindo suas opiniões, utilizando linguagem própria” (MARCONI; LAKATOS, 1999). A entrevista semiestruturada oferece maior liberdade ao entrevistador de adicionar novas questões ao roteiro, se houver necessidade. “Esse tipo de entrevista parte de certas interrogativas que podem ser reformuladas com base nas respostas recebidas dos entrevistados” (TRIVIÑOS, 1987).

Na tentativa de desvendar as contradições do tema estudado, foram realizadas entrevistas em que foram captados elementos empíricos, analisados à luz da teoria. A análise dos dados foi realizada a partir da técnica de Análise de Conteúdo. Essa técnica é compatível com o método dialético e contribui para

[...] o desvelar das ideologias que podem existir nos dispositivos legais, princípios, diretrizes, etc., que à simples vista não se apresentam com a devida clareza. Por outro lado, o método de análise de conteúdo, em alguns casos, pode servir de auxiliar para instrumento de pesquisa de maior profundidade e complexidade, como, por exemplo, o método dialético. Neste caso, a análise de conteúdo forma parte de uma visão mais ampla e funde-se nas características do enfoque dialético. (TRIVIÑOS, 1987, p. 159-160).

Essa técnica, portanto, permite a análise das comunicações dos sujeitos a partir do conteúdo manifesto de suas mensagens. No presente estudo, a análise de conteúdo foi utilizada por meio da leitura das entrevistas, da descrição e da interpretação dos relatos dos entrevistados. Tudo isso leva à compreensão dos significados elaborados pelos sujeitos acerca da questão social em que se inserem.

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1 TRABALHO INFANTIL: UMA EXPRESSÃO DA QUESTÃO SOCIAL NO BRASIL

Evidencia-se na história do Brasil, desde sua descoberta, a participação de crianças nas atividades de trabalho. Inicialmente aqui chegaram nas embarcações portuguesas, os assim chamados pajens e grumetes. Os grumetes “eram crianças que realizavam as tarefas mais perigosas e penosas, sendo submetidos a diversos castigos, bem como aos abusos sexuais de marujos” (VERONESE, 2007, p. 17).

No século 19, a criança brasileira continuou sendo marcada pelo estigma da escravidão, onde “apesar de haver alguma atenção à criança burguesa, às demais era reservado o espaço de animais de estimação, ou ainda meros objetos” (MARCÍLIO 1999, p. 21). Com o início do processo de industrialização, no século 19, o discurso dignificante do trabalho ganhou força, justificando de várias formas o uso do trabalho infantil, tais como baixa remuneração e ausência de direitos.

No século 20, com o advento do capitalismo e das profundas transformações no mundo do trabalho, uma delas a mudança do sistema fabril para o tecnológico, houve o desenvolvimento nas relações de trabalho e de produção de capital. Com o desenvolvimento nas relações de trabalho, o capital das empresas aumentou, mas ao mesmo tempo, também aumentou a pobreza.

Neste contexto social, articulada à pobreza, figuram a desigualdade social e o desemprego, resultados da produção demasiada de capital, advinda das relações de trabalho. Dessa forma, crianças e adolescentes se “adultizam, assumindo precocemente, específicas ocupações, revestidas em estratégias de sobrevivência” (VERAS, 2006, p. 8). Esse quadro é apontado como uma das mais perversas manifestações da questão social existente no Brasil.

1.1 A INFÂNCIA: ASPECTOS CONCEITUAIS E HISTÓRICOS

Demorou muito para que as ciências sociais e humanas reconhecessem a infância como um objeto de pesquisa, como algo que deveria ser investigado. As pesquisas relacionadas à área da infância iniciaram no século 19, quando a infância começou a ser entendida como um problema social. Mesmo assim, entretanto, não foi tornado um problema de investigação cientifica.

A inexistência de uma história da infância mais detalhada e também de registros historiográficos, são indícios determinantes da incapacidade, por parte do adulto, de ver a criança em sua perspectiva histórica. “Somente nos últimos anos, o campo historiográfico

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rompeu com as rígidas regras da investigação tradicional, institucional e política para abordar temas e problemas vinculados à história social” (ÁRIÈS, 1973, p. 279).

Assim sendo, a infância pode ser considerada um fenômeno histórico e não natural, baseada na relação de dependência e necessidade de proteção advinda do adulto. “As características da infância no ocidente moderno podem ser esquematicamente delineadas a partir da heteronomia, da dependência e da obediência ao adulto, em troca de proteção” (ÁRIÈS, 1973, p. 280), e dessa forma, a infância existente nos dias atuais, “resulta inexistente antes do século XVI” (ÁRIÈS, 1973, p. 281).

Não havia, na época, um ciclo de evolução entre as idades, ou seja, não se sabia exatamente quando o adulto se tornava adulto, ou quando a criança era criança. As crianças tinham menos poder do que têm hoje, pois “possuíam um déficit de poder sobre seus corpos, e provavelmente ficavam mais expostos à violência dos mais velhos” (ÁRIÈS, 1973, p. 282).

As crianças não tinham direitos, não tinham autonomia sobre suas vidas, sofriam muito pela inexistência de direitos que garantissem o mínimo de respeito, e eram “classificados como dependentes, eram tidos como seres inferiores” (LEVIN, 1997, p. 89).

Isso não significa, contudo, ignorar a existência das crianças, mas sim, conforme descrito por Áriès (1973), que antes do século 16 elas eram consideradas inexistentes do ponto de vista da consciência social, que não admitia a sua autonomia como categoria diferenciada dos seres humanos. A Arte registrada em retratos de família no século 13 “demonstra a existência da infância como categoria autônoma diferenciada, somente depois de um processo, que pode ser caracterizado como devolução nos sentimentos, ocorridos entre o século XI e XIII” (ÁRIÈS, 1973, p. 284).

Até esse período da História, seguindo uma organização social da família tradicional, a fase da infância era relativa tão somente ao período da fragilidade física. Assim que apresentava uma certa independência, a criança era conduzida ao convívio adulto, o que incluía os ambientes de trabalho e de lazer, sem haver a devida preparação física e psicológica.

No século 16 a infância era desconhecida pelo fato de não haver um lugar para ela na sociedade, e foi a partir das ideias de proteção, amparo e dependência que a mesma encontrou seu lugar. “As crianças vistas apenas como seres biológicos, necessitavam de grandes cuidados, e também de uma rígida disciplina, afim de transformá-las em adultos socialmente aceitos” (LEVIN, 1997, p. 92).

A criança, a partir desse movimento, passou a ser vista como um ser irracional, sendo necessário discipliná-lo por meio da cultura existente, limitando sua ação quanto ao lazer e ao

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aprendizado. “A criança, tida como irracional, não teria meios psicológicos para realizá-los, bem como deixaria de aproveitar tal momento, para aprender atitudes socialmente valorizadas” (DE MASI, 2000, p. 67).

A partir de novos estudos, “a criança começou a ser vista de maneira diferenciada do que até então existia” (ROUSSEAU, 1995, p. 85), ou seja, se propôs uma educação humanizada. A partir da Revolução Francesa, de 1789, o Estado se modificou e, com isso, a responsabilidade para com a criança e também o interesse por ela. Dessa forma, “os governos começaram a se preocupar com o bem estar e a educação das crianças” (LEVIN, 1997, p. 254).

A partir do século 16 passou a haver uma maior preocupação com os cuidados da infância, característica essa que se aproximou do tradicional sentimento para com os pequeninos, relacionada especialmente com a sua proteção. Ademais, houve um maior cuidado com a saúde dos infantes por parte dos seus familiares, e a partir desse século surgiu a prática da vacinação das crianças.

No século 17 surgiu entre as classes dominantes, a primeira identificação de infância, termo que designa a fase inicial da vida, a qual foi concebida a partir da notória dependência das crianças. Dessa forma, o adulto percebeu que a criança é um ser muito frágil, que exige proteção. Só ultrapassava essa fase da vida quem deixava de ser dependente, condição essa que perdura até os dias atuais.

Assim, a infância enquanto categoria social, dotada de representação, passou a existir apenas a partir dos séculos 17 e 18, como aponta Carvalho (2003, p. 47), em relação à datação do surgimento da infância:

A aparição da infância ocorreu em torno do século XVIII e XIX, mas os sinais de sua evolução tornaram-se claros e evidentes, no continente europeu, entre os séculos XVII e XVIII no momento em que a estrutura social vigente (Mercantilismo) provocou uma alteração nos sentimentos e nas relações frente à infância.

Em relação ao conceito de infância recorre-se ao latim, cujo significado está atrelado à “incapacidade de falar”. Acreditava-se que antes dos sete anos as crianças não teriam condições de expressar seus sentimentos e emoções. A infância teve sempre um significado de incapacidade e incompletude perante os adultos, ou seja, uma condição de subalterno, em que a criança era um ser anônimo, sem um espaço social determinado.

Até este período seguia-se uma ordem social da família tradicional, em que a criança, ao superar sua condição de fragilidade física, era inserida no convívio social dos adultos, entretanto, sem estar preparada física e psicologicamente para respectiva singularidade. Sobre

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essa passagem precoce ao contato com os adultos, Áriès (1986, p. 10) complementa o entendimento com a seguinte afirmação:

De criancinha pequena, ele se transforma imediatamente em homem jovem sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antes da Idade Média, e que se tornaram aspectos essenciais das sociedades evoluídas de hoje.

Perdura nesse período da História um sentimento de paparicação, uma imagem da criança atrelada à ingenuidade, à fragilidade, à inocência, que fazia dela um instrumento de diversão, tal qual um animal de estimação. Caso ocorresse o falecimento da criança, a mesma era substituída por outra, num deflagrado sentimento de substituição. Quanto ao alto índice de mortalidade infantil derivado das precárias condições de sobrevivência, Kramer (1992, p. 37) esclarece que:

Era extremamente alto o índice de mortalidade infantil que atingia as populações, e por isso as mortes das crianças era considerado natural. A partir do século XVI as descobertas científicas provocaram o prolongamento da vida, ao menos nas classes dominantes.

A nova ordem social do século 17 alterou a estrutura social vigente no que concerne à criança e à maneira de educá-la, dando ênfase especial à criação de escolas, um mecanismo de fornecimento inicial na construção do conhecimento que objetivava ensiná-las a ler, a escrever e a calcular. O surgimento da escola significou a substituição do fornecimento empírico de informações dos adultos para os jovens, os quais deixaram de aprender a vida diretamente dos pais.

Essa promoção da escola moderna está atrelada à substituição do sentimento de paparicação dos adultos para com as crianças, como definido anteriormente, implicando em um sentimento maior de cuidados especiais para com os mesmos. Esse processo de moralização foi destacado na atuação dos reformuladores católicos e evangélicos.

Com a propagação do Cristianismo e da força da Igreja nas relações sociais, a sociedade começou a se preocupar em proteger a infância da violência. A partir da introdução do Cristianismo como religião oficial, e do poder exercido pela Igreja no período Medieval, cuja doutrina era baseada em palavras de consolo e solidariedade, “a igreja cristã preocupou-se com as condições de vida das pessoas, fazendo opção pelos mais necessitados, passando assim a proteger as crianças” (FERRARI; VECINA, 2002, p. 98).

A partir da Revolução Industrial e das suas consequências, a visão da importância da criança na sociedade alterou-se ao longo dos séculos 18 e 19. A escola passou a ser o local

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mais importante para a formação social e integral das crianças. A “espantosa” ascensão da indústria naquele período e a falta de respeito aos direitos básicos da criança, entretanto, levaram-na ao contato com a linha de produção, ou seja, em nome dos ditames políticos a criança deixava de ir à escola para trabalhar. Sobre essa terrível fase do período histórico, Amarilha (2002, p. 128-129) contribui com as informações anteriormente elencadas:

Se a vida em comum com os adultos, antes da Revolução Industrial, tratava a criança com descaso, agora, o seu valor enquanto geração de braços para a indústria e cabeças para o comando lhe traz o exílio de seu tempo. Viver a infância passa a ser um período dominado por modelos de preparação para ser o futuro adulto. A criança como tal, com identidade específica, continua desrespeitada e desumanizada.

A Revolução Industrial foi um período marcante em relação ao trabalho infantil, pois naquela época não havia nenhum preceito jurídico que evitasse o uso da mão de obra de crianças e adolescentes. Estudos de Stephan (2002, p. 16) revelam que “até então inexistiam preceitos morais e jurídicos de impedir o empregador de admitir mão de obra feminina e infantil, por ele barbaramente explorados”.

A partir de então, com a Revolução Industrial, a criança passou a ter uma visão diferenciada pela sociedade, recebendo os primeiros preceitos jurídicos a fim de ser protegida. Mesmo assim não foi possível evitar a sua participação como mão de obra nas grandes empresas, com a justificativa de servir como viés no processo de inserção social no trabalho.

Com as referidas transformações no mundo do trabalho, houve um aumento no número de crianças atuando em diversas atividades, em especial nos países de industrialização intermediária, absorvidas em um universo desregulamentado e precarizado. Esse contexto de trabalho, e principalmente de vida, representa uma das expressões da questão social.

1.2 O TRABALHO E AS EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL

A afirmação do trabalho na constituição social dos indivíduos representa um ponto de partida, em que o trabalho é materializado como forma de resistência às expressões da questão social, a exemplo da exclusão de um processo igualitário, onde todos possuem direito de serem abastecidos das condições mínimas de sobrevivência.

O trabalho é imprescindível enquanto essência da atividade humana, e ao possuir a finalidade de produzir valores de uso é visto como atividade racional. Independente de qualquer estrutura social, o trabalho atende às necessidades da própria existência humana.

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O trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem – quaisquer que sejam as formas de sociedade –, é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana. (MARX, 1975, p. 69).

Atendendo à finalidade de produzir valor de uso, o trabalho se torna uma mercadoria, reduzida a trabalho alienado, resultado histórico da divisão social da lógica do modo de produção capitalista. Essas relações que constituem o trabalho assalariado fazem com que o trabalhador seja separado de si mesmo, de sua atividade. Isso distancia o trabalhador do resultado do seu trabalho, afastando-o das relações que o identificam como ser humano capaz de pensar e conduzir sua própria vida.

Iamamoto (2007, p. 79) afirma que com o desenvolvimento das forças produtivas, o trabalho assume um papel de alienação e distanciamento do homem de sua própria essência.

À medida que cresce a força produtiva do trabalho social, cresce a riqueza que domina o trabalhador como capital, e cresce sua pobreza, indigência e sujeição subjetiva. Resulta na reprodução das contradições de classes – e dos conflitos a ela inerentes – e da consciência alienada que viabiliza essa reprodução.

No final do século 20, a discussão sobre trabalho ganhou maiores contornos, e as transformações societárias foram determinantes para a sua discussão, em especial, a implantação de ideias neoliberais e a acumulação flexível que veio para alterar as relações de trabalho até então existentes, baseadas na acumulação em massa, advindas do processo fordista.

“A acumulação flexível implica um número excessivo de desempregados, além de ganhos modestos de salários” (HARVEY, 1992, p.17). Essas alterações apontam para um mercado de trabalho que sofre reestruturação, cujas consequências para as classes trabalhadoras se expressam pelos regimes e contratos de trabalho mais flexíveis, como o trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado, pela enorme quantidade de mão de obra excedente e pela diminuição do emprego regular.

Os novos arranjos na estrutura de mercado contribuem para o agravamento da questão social. Num cenário marcado por extrema desigualdade social, a “classe que vive do trabalho, apresenta-se cada vez mais fragmentada, heterogeneizada e complexificada” (ANTUNES, 1998, p. 145). Com o aprofundamento da exploração da força de trabalho é possível observar na realidade das classes capitalistas, que a questão social se apresenta de forma complexa.

“A competitividade no sistema capitalista, ou seja, nas empresas, impõe a exigência de qualidade dos produtos, em um contexto de globalização de produção” (IAMAMOTO, 2004,

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p. 31). As empresas tornam-se enxutas, criando-se uma empresa-mãe que reúne em torno de si pequenas empresas, responsáveis pelo fornecimento de produtos e serviços, estabelecendo a chamada terceirização. Evidencia-se, nesse processo, uma superexploração do trabalho, caracterizado também pela redução de salários e, consequentemente, pelo aumento do desemprego, elementos que contribuem para agravar a questão social.

Assim sendo, com os salários muito baixos e o custo de vida elevado, as famílias pobres adotaram uma conhecida estratégia para superar as limitações de rendimentos extremamente baixos: o ingresso no mercado de trabalho do maior número possível de membros da família. Esta iniciativa desencadeou o trabalho de crianças como última tentativa de aumentar a renda familiar.

O trabalho infantil é o reflexo da estrutura da sociedade, do resultado das desigualdades sociais trazidas com a consolidação perversa do capitalismo, resultando muitas vezes, como a única alternativa de sobrevivência da família. O capital explorou de forma extrema a força de trabalho infantil para baratear a mão de obra de adultos, diminuindo os custos das fábricas. Dessa forma, o modo de produção capitalista exibiu a sua capacidade de “articular e rearticular a inserção da criança no mundo do trabalho” (VERAS, 2006, p. 3).

É importante salientar que com as alterações realizadas pelo sistema capitalista, com notória visibilidade para a inserção acelerada de crianças e adolescentes no trabalho, aumenta o desemprego entre a população de adultos. Assim sendo, o desemprego não pode ser considerado um processo natural do desenvolvimento capitalista, culpando-se os indivíduos pela sua condição. Nesse sentido, Husson (1999, p. 161) afirma que:

O desemprego é efetivamente o produto de um sistema baseado na apropriação privada dos meios de produção que entra forçosamente em contradição com os arranjos que visam aplicar qualquer tipo de regulação social. Mas isso não significa que o pleno emprego se tornou, como tal, uma coisa ultrapassada.

“Vive-se nos tempos atuais uma terceira revolução industrial, que vem acompanhada de profundas transformações mundiais” (IAMAMOTO, 2004, p. 33). Assim como em etapas que antecederam ao atual desenvolvimento industrial, houve mudanças tecnológicas que envolveram amplas expulsões dos trabalhadores de seus postos de trabalho. Dessa forma, originaram-se segmentos desnecessários da população trabalhadora.

Criou-se dessa maneira, “a raiz de uma nova pobreza de amplos segmentos da população, cuja força de trabalho não tem preço, porque não tem mais lugar no mercado de trabalho” (IAMAMOTO, 2004, p. 33). É um excedente descartável da força de trabalho, que

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coloca em risco a possibilidade de defesa e reprodução da vida. Nesse contexto é correto evidenciar que:

Existe gente demais para as necessidades da acumulação capitalista, ao mesmo tempo em que, nas regiões mais pobres, a população tem reduzida sua esperança de vida ao nascer, mantém-se elevados índices de mortalidade infantil, e contingentes populacionais são dizimados nas guerras. (IAMAMOTO, 2004, p. 33).

É importante salientar que toda essa tensão vivida pela sociedade capitalista no mundo contemporâneo está sendo marcada por profundas alterações na estrutura econômica, política e social da população brasileira. Evidenciam-se, atualmente, resultados negativos que recaem sobre a classe subalterna, em que muitos segmentos são submetidos a precárias condições de vida e de trabalho.

Na sociedade contemporânea, por mais que as relações sociais sejam determinadas pela lógica capitalista, prevalecendo a produção de riquezas para o capital, à custa da redução do emprego e da pobreza generalizada das classes subalternas, é preciso ter a nítida clareza que o trabalho não se reduz à mera ocupação. Não se pode desconsiderar que o trabalho implica resultado consciente da ação do homem sobre a sociedade.

O trabalho é um veículo para a autoprodução do homem como homem. Como um ser biológico, o homem é um produto do desenvolvimento natural. Com sua autorrealização, que nesse caso significa apenas um recuo da fronteira natural e nunca seu desaparecimento, sua conquista completa, ele se torna um ser novo e autofundado, um ser social. (LUKÁCS, 1979, p. 39).

Na contradição entre o capital e suas mais variadas formas de acumulação de riqueza, que advém da relação da exploração do trabalho e do aumento do desemprego, surge a questão social, tendo sua especificidade no modo capitalista de produção, definida como “a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa exigir outros tipos de intervenção, mais de além de caridade e repressão” (IAMAMOTO; CARVALHO, 1995, p. 77).

A expressão questão social surgiu no século 19 para dar conta da pobreza acentuada que era visível, ou seja, o pauperismo. Pela primeira vez “a pobreza crescia na razão direta que aumentava a capacidade social de produzir riqueza” (NETTO, 2001, p. 45). Quanto mais a sociedade tinha a capacidade de produzir bens e serviços, maior era o contingente de pessoas que não possuíam condições de obter os produtos e serviços ofertados.

São destacáveis as manifestações das expressões da questão social. Entende-se, nesse sentido, que sua apreensão precisa ser tratada no marco do social, erguido pelo capital, com

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atenção para as mais variadas expressões, entre elas, a pobreza, a desigualdade social, o desemprego, o trabalho infantil. A questão social “deve ser trabalhada em suas manifestações conhecidas e suas expressões novas, considerando as particularidades históricas e culturais” (NETTO, 2001, p. 45).

O capital se expressa sob a forma de mercadorias, meios de produção e meios de vida. As mercadorias são objetos úteis que atendem a necessidades sociais, ou seja, são os valores de uso. “O valor de uso é a própria materialidade da mercadoria e se realiza no consumo dos objetos úteis” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2011, p. 39).

As mercadorias são grandezas que se caracterizam como o produto do trabalho humano em geral. Elas são medidas pelo tempo de trabalho necessário para produzi-lo, que é incorporado na produção. O valor das mercadorias se expressa apenas pela respectiva relação de troca. Os produtos se caracterizam como mercadoria porque são produtos de trabalho que necessitam serem trocados. “São valores de uso para outros, enquanto para seu possuidor não têm outra utilidade que a de ser valor de troca e, portanto, meio de troca” (MARX, 1975, p. 84).

Com relação ao caráter social das relações que os homens estabelecem na respectiva troca de seus trabalhos, que são materializados em objetos, Iamamoto e Carvalho (2011, p. 40) explicam que, “sendo produtos de um trabalho útil, têm que satisfazer uma determinada necessidade social e, portanto, integrar-se no trabalho coletivo da sociedade, dentro da divisão social do trabalho”. Dessa forma, a relação entre os produtos de seus trabalhos independe de quem os produz.

Nessas relações de trabalho, o valor capital, ou seja, o que é investido para produzir o produto, e o que é necessário para que seja viabilizado o uso da força de trabalho, se expressa em mercadorias. O capital possui o respectivo monopólio dos meios de produção e também da subsistência por um extrato da sociedade, ou seja, é a classe capitalista em constante confronto com os trabalhadores, que não possuem as condições necessárias à materialização de seu trabalho.

O produto dessa produção capitalista não possui apenas valor de uso, tampouco valor de troca, pois “seu produto é a mais valia, seu produto são mercadorias que possuem mais valor de troca, isto é, representam mais trabalho que o que foi adiantado para sua produção sob a forma de mercadoria ou de dinheiro” (MARX, 1975, p. 3). A função primordial do capital é a produção de um sobrevalor, ou seja, de um valor maior que aquele que foi colocado no início do ciclo de produção, cujo valor é a mais-valia.

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Para sobreviver em meio à exploração que o sistema capitalista impõe, o homem precisa produzir os seus meios de subsistência, tendo que dispor dos meios necessários à sua produção. Quando o trabalhador não possui os meios de produção está também desprovido dos meios de subsistência. À medida que estes se contrapõem ao trabalhador, como propriedade pertencente de uma parte da sociedade, ou seja, a classe capitalista, não resta outra alternativa “senão vender parte de si mesmo em troca do valor equivalente aos meios necessários para sua subsistência e de sua família, expressos através do salário” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2011, p. 45).

Na esfera de circulação de mercadorias é estabelecida uma relação de contrato, ou seja, uma relação de compra e venda. Assim sendo, o possuidor de capital compra a força de trabalho do trabalhador e, em contrapartida, vende sua força de trabalho para o patrão em troca de um salário que lhe garanta o mínimo das suas necessidades básicas.

Essa força de trabalho exterioriza-se em contato com os meios de produção, e só é consumida se lhe for acrescido valor. O consumo da força de trabalho e dos meios de produção pertence ao capitalista, detentor do capital, que “recebe também, gratuitamente, a força produtiva do trabalho social derivada da cooperação, que se apresenta como força produtiva do capital” (MARX, 1975, p. 268).

Analisar o processo de produção capitalista como processo de trabalho acaba por esclarecer o que se fundamenta no universo mistificado, que considera o capital como coisa. Ela decorre de meios de produção que o valor capital tem que assumir no processo de trabalho. O processo de produção capitalista não é tão somente processo de trabalho, é um processo de criação e conservação de valor, sendo o valor de troca de capital o que realmente interessa analisar.

Esse valor de troca de capital se diferencia do valor de troca das mercadorias, sendo importante verificar o que ocorre com a parte variável do capital, ou seja, aquela que é substituída pela força de trabalho.

Esse valor de troca de mercadoria é determinado antes mesmo da inserção do trabalhador na empresa, definindo-se também antes mesmo da circulação de qualquer mercadoria a ser fabricada. Assim sendo, o valor de troca da mercadoria se expressa no seu preço, ou seja, no salário. “O salário é o preço da força de trabalho, em que se traduz o capital variável do capitalista” (MARX, 1975, p. 449).

É nesse processo de relação de trabalho e do seu uso indiscriminado com a finalidade de produzir capital, de maneira exacerbada, que se insere o trabalho infantil, mediante o uso indevido e exploratório por parte do sistema capitalista, que se utiliza da mão de obra de

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crianças e adolescentes para aumentar seus lucros e reduzir as despesas. Trabalho infantil que se encontra no processo de naturalização, e também reprodução, fruto das relações e das mazelas sociais existentes em seu meio.

1.3 O TRABALHO INFANTIL: PROCESSOS DE NATURALIZAÇÃO E REPRODUÇÃO

Inserido no contexto de reprodução do trabalho infantil figura a existência de uma realidade social que protagoniza o contexto de violência, definida por Yasbek (2003, p. 61), como “a violência da pobreza constitui parte de nossa experiência diária na sociedade brasileira contemporânea”. É com essa realidade que se depara o trabalho infantil, em especial a sua reprodução que encontra na pobreza uma realidade de violência, que se reproduz de forma assustadora.

O aviltamento do trabalho, o desemprego, a debilidade da saúde, o desconforto, a moradia precária e insalubre, a alimentação insuficiente, a ignorância, a fadiga, a resignação, são alguns dos sinais que anunciam os limites da condição de vida dos excluídos e subalternizados da sociedade. (YASBEK, 2003, p. 61).

A reprodução do trabalho infantil está atrelada, em especial, a um ambiente natural, em que as condições para que a mesma se efetive encontrem um espaço em que haja uma natural sensibilidade em relação à sua introdução, e respectiva permanência nesse espaço social. O trabalho precoce encontra um espaço fértil aonde há um entendimento de que o mesmo possui uma naturalidade, e que a sua continuidade faz parte de um processo histórico em que outros indivíduos se tornaram vítimas desse contexto. A respectiva continuidade desse processo é algo que está presente num contexto maior.

Esse espaço fértil em que o trabalho infantil se naturaliza é o ambiente familiar, que no contexto de pobreza, onde os mesmos são vítimas de um processo degradante do sistema capitalista que produz riqueza em demasia e, consequentemente, pobreza, a estratégia de resistência maior quanto a esse sistema excludente é o trabalho infantil, dando assim condições materiais para o enfrentamento da situação existente no contexto familiar.

Essa inclusão permitida pelo trabalho infantil, pelo viés da mão de obra de crianças e adolescentes, está presente de uma forma marcante em meio a famílias que possuem uma baixa origem econômica, não sendo via de regra, mas sim, um agravante que condiciona no processo de reprodução do trabalho infantil.

A situação do trabalho, em especial no Brasil, apresenta as seguintes características: “No Brasil, a população sempre começou a trabalhar muito cedo, principalmente

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impulsionada pela pobreza, pois quanto mais baixa a origem socioeconômica, maior a possibilidade de ingresso precoce no mundo do trabalho” (VERONESE, 2007, p. 87). Em outras palavras, a condição de pobreza é um agravante, adicionado à origem sócio-histórica, que condiciona à naturalização e reprodução do trabalho infantil.

A pobreza possui uma relação intrínseca com a reprodução do trabalho infantil, e isto não é uma condição esporádica, ou seja, independente da economia, ou do grau social de uma nação. O acréscimo de pessoas desempregadas em consonância com a pobreza é uma variante determinante na reprodução do ciclo viciante do trabalho infantil.

A pobreza é expressão direta das relações sociais vigentes na sociedade e certamente não se reduz às privações materiais. Alcança o plano espiritual, moral e político dos indivíduos submetidos aos problemas da sobrevivência. (YASBEK, 2003, p. 63).

A pobreza como um processo de naturalização e caracterização da escassez de recursos e condições mínimas para prover, em especial, a subsistência de crianças e adolescentes, é vista pela sociedade como algo natural. Esse processo é coexistente com um sistema, em que a distribuição de riqueza e de recursos acaba por não ser igualitária, consequentemente, não provém condições mínimas de subsistência para a maioria da população.

O sistema vigente, que mantém seu pilar de sustentação baseado num processo de acréscimo ininterrupto de lucros absurdos, considera que “o capital, para obter o máximo de lucro, vê cada vez mais atrativos na exploração do trabalho infantil” (BICUDO, 1995, p. 95). Dessa forma, é possível caracterizar a importância que a manutenção do trabalho infantil possui para o sistema capitalista no intuito de fortalecer o sistema.

Após discorrer brevemente sobre aspectos do trabalho infantil, o capítulo que segue apresenta uma análise da proteção social, caracterizada como um marco da descoberta da criança-sujeito.

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2 PROTEÇÃO SOCIAL: MARCO DA DESCOBERTA DA CRIANÇA-SUJEITO

Historicamente houve uma imensa demora para que a criança fosse protegida juridicamente contra toda e qualquer forma que impedisse seu desenvolvimento físico e intelectual. Essa proteção está relacionada a todas as práticas de trabalho que enfatizam a cultura dominante da necessidade de a criança trabalhar, evitando assim que seu tempo fosse utilizado em outras práticas que nada acrescentariam no exercício da cidadania em prol da sua emancipação.

Os desafios para a construção da proteção social exigem diversos esforços que devem partir de diferentes campos de atuação da sociedade, considerando a influência de fatores que escapam a uma ação simplesmente centralizada e individualizada em torno do tema. Trata-se, dessa forma, de um projeto de ruptura social e histórica em busca da emancipação humana. Nesse sentido, Di Giovanni (1998, p. 10) entende por proteção social

as formas institucionalizadas que as sociedades constituem para proteger parte ou o conjunto de seus membros. Tais sistemas decorrem de certas vicissitudes da vida natural ou social, tais como a velhice, a doença, o infortúnio, as privações. [...] Neste conceito, também, tanto as formas seletivas de distribuição e redistribuição de bens materiais (como a comida e o dinheiro), quanto os bens culturais (como os saberes), que permitirão a sobrevivência e a integração, sob várias formas na vida social. Ainda, os princípios reguladores e as normas que, com intuito de proteção, fazem parte da vida das coletividades.

A proteção social é respaldada por um complexo conjunto de leis e estatutos, bem como pela implementação de um plano nacional que possui o intuito de implantar a política nacional de combate ao trabalho infantil. Essa política é necessária pelo fato de o Brasil ser um país signatário das políticas de combate a qualquer tipo de trabalho abusivo às crianças e adolescentes, em nível internacional, por meio de outras legislações que vieram para nortear a constituição de normas protetivas contra o trabalho infantil no Brasil.

2.1 ORGANIZAÇÃO HISTÓRICA DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA SOBRE O TRABALHO INFANTIL

Para compreender o tema é importante fazer um levantamento histórico da problemática situação do trabalho infantil no Brasil. A evolução histórica de proteção do trabalho infantil no Brasil não segue a evolução histórica ocorrida na Europa, pois “o país não assimilou todos os movimentos políticos e sociais ocorridos internacionalmente” (STEPHAN, 2002, p. 29).

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No período da escravatura, no início do século 19, os grandes proprietários tinham o absoluto poder sobre as crianças e adolescentes de seus escravos, tendo inclusive o direito até de vida e de morte. A inserção de crianças e adolescentes no trabalho era estabelecida sem nenhum julgamento, sem qualquer prejuízo ao seu desenvolvimento.

O interesse pela criança escrava estava no seu valor econômico, na medida em que a mesma já exercia funções básicas, como lavar, passar, cozinhar, além de outras tarefas, como consertar, trabalhar na lavoura, aumentando assim, o seu valor de mercado. Assim sendo, a criança aprendia a ter um ofício, além de ser escrava.

Nesse período começaram a surgir alguns movimentos que objetivavam a proteção da infância como, por exemplo, o projeto de José Bonifácio apresentado à Assembleia Constituinte de 1823, que visava proteger os filhos das mães escravas, dispondo assim que “a escrava durante a prenhez, e passado o terceiro mês, não será ocupada em casa, depois do parto terá um mês de convalescença, e passado esse durante o ano, não trabalhará longe da cria” (BONIFÁCIO apud STEPHAN, 2002, p. 18).

Com a elaboração e posterior aprovação da Lei n° 2.040, em 28 de setembro de 1871, a chamada “Lei do Ventre Livre”, foi concedida a liberdade para as crianças nascidas de mães escravas.

A partir daí, a liberdade concedida aos nascituros era acompanhada de uma série de cláusulas restritivas. Até os oito anos estaria sob a autoridade da mãe e do senhor proprietário de escravos. Atingida essa idade, era facultado ao proprietário da mãe escrava optar por receber uma indenização do Estado, de 600 mil réis, pagos em títulos, a 6%, no prazo de 30 anos. Caso fosse escolhida a indenização, o menor era separado da mãe e colocado numa instituição de caridade, onde trabalharia até completar vinte e um anos de idade. Quase sempre, o “senhor” preferia ficar com a criança, até que ela completasse a maioridade. (STEPHAN, 2002, p. 19).

Embora a lei tenha sido uma forma de tentar erradicar a prática do trabalho infantil, a mesma não conseguiu garantir ao filho da escrava uma vida diferente da dela. O debate sobre o trabalho infantil só foi desencadeado com a Abolição da Escravatura, em 1888, com o início da primeira experiência de industrialização no Brasil, com o respectivo crescimento industrial e também do êxodo rural, ocorrendo aumento no processo de urbanização.

Posterior à abolição houve a criação de muitas leis com o objetivo de proteger as crianças e adolescentes do trabalho infantil, mas a sua vigência não ocorreu, muito menos a implementação de qualquer uma delas.

A primeira lei que protegeu a infância no Brasil foi editada pelo Decreto n° 1.313, de 17 de janeiro de 1891, ou seja, apenas após a Abolição da Escravatura. Pelo respectivo

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decreto o Brasil buscava um ajustamento das suas políticas de proteção com as de países estrangeiros no que se referia ao trabalho infantil.

O decreto n° 1313 consagrava aos menores os seguintes direitos: a) proibia o emprego de menores de 12 anos no trabalho; b) limitava a duração da jornada de trabalho; c) autorizava a contratação de menores aprendizes a partir dos oito anos; d) proibia o menor de exercer determinados tipos de trabalho, considerados perigosos a saúde. (NASCIMENTO, 2003, p. 54).

Com o aumento do número de fábricas e o processo de industrialização em constante crescimento, houve no Brasil um aumento considerável da atuação de crianças e adolescentes nas fábricas, nas mais variadas linhas de produção, em condições de trabalho desumanas, com um número elevado de horas de trabalho, o que, por muitas vezes, abreviava a própria vida, por serem, na maioria das vezes, ambientes insalubres e perigosos.

A primeira tentativa para proibir o trabalho infantil ocorreu em contexto internacional, na Conferência de Berna, por meio da elaboração de duas convenções que tiveram como objetivo a proibição do trabalho infantil. Essas, porém, foram reprovadas, sendo reformuladas e aprovadas no ano de 1919, quando foi regulamentada a “idade mínima para o trabalho em indústrias, e a proibição do trabalho noturno aos menores de 18 anos” (PIRES, 1997, p. 67).

Com o intuito de criar um organismo que pudesse fiscalizar o trabalho de crianças e adolescentes nas empresas, nasceu em 1924, o Juizado de Menores no Brasil, por meio da instituição do Decreto n° 12.672, que para alguns “foi mais um erro do que um acerto, porque lhe faltava uma organização técnica-administrativa que lhe desse a credibilidade necessária” (VERONESE, 1999, p. 24).

Em 1927, pelo Decreto n° 17.943-A, de 12 de outubro, foi criado o primeiro Código de Proteção e Assistência a Menores da República, “definindo a idade mínima de 12 anos para o trabalho de menores, além da proibição do trabalho noturno aos menores de 18 anos e na praça pública aos menores de 14 anos” (STEPHAN, 2002, p. 18).

Já em 1934, o Brasil adotou uma nova Constituição, cujo texto foi o primeiro a fazer referência à proteção dos direitos das crianças, determinando “a proibição do trabalho à menores de 14 anos; de trabalho noturno à menores de 16 anos, e em indústrias insalubres, à menores de 18 anos” (STEPHAN, 2002, p. 32).

Em 12 de maio de 1943, de acordo com o Decreto-Lei n° 5.452, que entrou em vigor em 10 de novembro de 1943, foi aprovada a CLT, que além de aprovar toda a legislação trabalhista até então existente, tratou em seu capítulo IV, arts. 402 ao 441, do trabalho do menor, regulando: a) a duração do trabalho; b) a admissão em emprego e da carteira de

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trabalho e previdência social; c) os deveres dos responsáveis legais e dos empregadores da aprendizagem; d) os trabalhos proibidos; e) as penalidades; f) a aprendizagem, entre outras disposições (NASCIMENTO, 2003).

De acordo com a CLT, no seu art.402, cap. IV, da proteção do trabalho do menor, considera-se menor para os efeitos dessa consolidação o trabalhador de quatorze a dezoito anos, já a redação n° 10.097 de 10/12/2000, altera dispositivos da CLT, proibindo qualquer trabalho a menores de dezesseis anos de idade, salvo na condição de aprendiz, a partir dos quatorze anos. (BRASIL, CLT, 2013).

É importante ressaltar que embora o termo menor 1 já não seja mais utilizado em razão de ser discriminatório, a expressão é utilizada em razão de seu uso na CLT. O termo menor era utilizado como “sinônimo de criança abandonada, carente, com desvio de conduta, vítima de maus tratos, ou mesmo infratora de algum tipo penal” (VERONESE, 1999, p. 48). Nas legislações posteriores, o termo menor é extinto, sendo substituído pela denominação criança e adolescente.

Já a Constituição de 1946 expõe a condição de trabalho do menor nas mesmas especificações que a Constituição de 1934. A Constituição de 1967, criado em meio ao Golpe Militar “proíbe o trabalho aos menores de doze anos, e passa a encarar o trabalho de adolescente como trabalho de aprendiz” (STEPHAN, 2002, p. 85).

O grande marco dos direitos universais é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, criada em 1948, pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Este se constitui no marco histórico, na proteção da criança e do adolescente, exibindo em seu art. XXV, capítulo 2, que “a maternidade e a infância têm direitos a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas, dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social” (ONU, 2006, p. 96). Nesse contexto,

De fato as citadas convenções pertencem à Organização Internacional do Trabalho, que surgiu como resultado do Tratado de Versalhes, de 1919, que por sua vez, no art. 427, suprimiu o trabalho das crianças e obrigou a fixação de limitações necessárias para o trabalho de adolescentes, permitindo-lhes continuar sua instrução e lhes assegurou seu desenvolvimento físico. (STEPHAN, 2002, p. 16).

Já o Pacto Internacional sobre os Direitos Políticos e Civis e o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, criados nos anos de 1966, amparados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, reafirmaram os princípios da Declaração Universal dos

1

Para a CLT é considerado menor o trabalhador de 14 a 18 anos, uma vez que “o conceito de menor alcança o menor aprendiz, e o trabalho menor dos dezesseis aos dezoito anos de idade” (STEPHAN, 2002, p. 77).

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Direitos Humanos, principalmente no que se refere à proteção da infância contra a abusiva exploração econômica.

2.2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E AS CRIANÇAS SUJEITOS DE DIREITOS

Toda a mobilização constituída pelos vários segmentos da população brasileira resultou na criação da Constituição Federal no ano de 1988 (CF88). Seu objetivo era garantir os direitos da criança e do adolescente, instituindo direitos e protegendo contra o trabalho infantil, tanto na órbita internacional, por meio da legitimação de tratados e convenções, como no ambiente nacional, pelas mais variadas manifestações sociais, situando-a como sujeito de direitos.

Na CF/88, em seu capítulo II, art. 7°, inciso XXXIII, no que se refere aos direitos sociais, alterado por meio da emenda n° 20, de 15 de dezembro de 1998, é estabelecido o seguinte: “proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre, a menores de 18 anos, e a qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos” (BRASIL, CF/88, 2013).

A partir da promulgação da nova Carta Magna, as crianças e os adolescentes passaram a dispor de um conjunto de normas protetivas que asseguram a sua condição peculiar de pessoas em desenvolvimento. No art. 227 são resguardados todos os direitos, devendo ser garantidos por lei o desenvolvimento moral, intelectual, físico e social, além da liberdade e dignidade humanas.

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado, assegurar à criança e ao adolescente com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, além de coloca-los à salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL, CF/88, 2013).

No referido art. 227, em seu parágrafo § 3°, a CF/88 promove o direito à proteção especial, que abrange os seguintes aspectos: “I) idade mínima de 14 anos para admissão no trabalho; II) garantia de direitos previdenciários e trabalhistas; III) garantia de acesso do trabalhador adolescente à escola” (BRASIL, CF/88, 2013).

Denomina-se trabalho infantil, portanto, aquele proibido e combatido pela CF/88, segundo expressa Stephan (2002, p. 25):

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[...] o trabalho realizado abaixo, abaixo do limite de idade inferior a dezesseis anos, seguindo as orientações da OIT em suas convenções e recomendações. Desse modo o trabalho do adolescente é exatamente o trabalho do menor, na faixa etária de trabalho tutelada com regras espaciais pelo ordenamento jurídico.

A Convenção sobre os Direitos da Criança – Decreto n° 99.710, adotada pela ONU, em 1989, definiu a todos os países que seguiram essa determinação, a adoção de novos parâmetros com relação ao tratamento dado à criança e ao adolescente.

A doutrina de proteção integral à criança e ao adolescente foi a principal contribuição dada pela respectiva convenção, sendo sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento amparada juridicamente. “Também essa doutrina é o pilar para a lógica principiológica voltada para a prevalência e a primazia superior do direito da criança e do adolescente” (PIOVESAN, 2003, p. 275).

Pela respectiva convenção, a criança é definida como “todo ser humano, com menos de 18 anos de idade, a não ser que, pela legislação aplicável, a maioridade seja atingida mais cedo” (PIOVESAN, 2003, p. 279).

Entre os direitos previstos na Convenção sobre os Direitos da Criança estão: o direito a um nível adequado de vida e de segurança social; o direito à educação, devendo os Estados oferecerem educação primária e compulsória gratuita; a proteção contra a exploração econômica, com a fixação de idade mínima para admissão ao emprego; a proteção contra a exploração e o abuso sexual (PIOVESAN, 2003).

A respectiva convenção é muito abrangente, pois resulta na absorção de todas as áreas tradicionalmente conhecidas como direitos humanos, tais como políticos, civis, econômicos, culturais e sociais. Dentre eles, é reconhecida a proteção do trabalho infantil.

2.2.1 O ECA e a proteção do trabalho infantil

É importante ressaltar, antes de tudo, que toda a legislação brasileira sobre o trabalho infantil se orienta pelos princípios estabelecidos na Constituição Federal. A garantia desse complexo conjunto de direitos alavancados pela Carta Magna foi regulamentada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que criou mecanismos eficazes para a implementação de políticas públicas necessárias para efetivar os direitos das crianças e dos adolescentes. Estes recebem, então, um tratamento diferenciado, pois dispõem da prioridade, na efetivação das políticas públicas, em relação a outras políticas.

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O ECA, criado pela Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990, é uma reivindicação de movimentos populares, advindos da Constituição Federal de 1988, que buscavam de todas as formas garantir os direitos a todos que pertencem à sociedade, em especial às crianças. Dessa forma, “o novo instrumento legal volta-se para o desenvolvimento da população jovem do país, garantindo proteção especial àquele segmento considerado pessoal e socialmente mais sensível” (LIBERATI, 2006, p. 16). O ECA legitima a regulamentação e proteção social para o trabalho infantil.

Em seu art. 60 especifica que “É proibido qualquer trabalho a menores de 14 anos de idade, salvo na condição de aprendiz” (BRASIL, 1990). O estatuto traz não apenas a determinação da proibição do trabalho infantil, mas principalmente a proteção integral de todas as crianças e adolescentes.

Assim como na CF/88, o ECA possui como fundamento teórico a proteção integral, no qual Estado e família devem garantir o pleno desenvolvimento da criança e do adolescente. Assim sendo:

A proteção integral tem como fundamento a concepção de que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos, frente à família, sociedade e Estado. Rompe com a ideia de que sejam simples objetos de intervenção no mundo adulto, colocando-os como titulares de direitos comuns a toda e qualquer pessoa, bem como de direitos especiais decorrentes da condição peculiar de pessoas em processo de desenvolvimento. (CURY; PAULA; MARÇURA, 2002, p. 21).

Dando maior articulação e fortalecimento para a doutrina da proteção integral, o art. 3° do ECA se fundamenta no ideal de que pessoa em desenvolvimento é sujeito de direito:

Art. 3. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. (BRASIL, 1990).

É necessária a construção de alternativas que viabilizem a promoção social de todas as crianças e adolescentes por meio de uma educação qualitativa. Nesse contexto, é importante salientar a necessidade de promover uma aprendizagem que permita às crianças e adolescentes uma formação plena e de qualidade. Com base nisso, o art. 62 destaca que “considera-se aprendizagem a formação técnico-profissional ministrada conforme as diretrizes e bases da legislação da educação em vigor” (BRASIL, 1990).

Além da aprendizagem é definido um conjunto de medidas que dão suporte à legitimação do ECA, constituindo-se numa ferramenta de defesa na proteção do trabalho

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infantil. Como exemplo pode-se citar a necessidade de a criança e o adolescente estarem matriculados em escola de ensino regular, além de outras atividades que sejam compatíveis, bem como de horário especial para o exercício dessas atividades. Em relação a essas especificidades o art. 63 define:

Art. 63. A formação técnica profissional obedecerá aos seguintes princípios: I-Garantia de acesso e frequência obrigatória ao ensino regular; II- Atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente; III- Horário especial para o exercício das atividades. (BRASIL, 1990).

Quanto ao adolescente empregado, o ECA estabelece em seu art. 64: “Ao adolescente até quatorze anos de idade, é assegurada bolsa de aprendizagem” (BRASIL, 1990). Em relação ao trabalho de adolescentes com idade superior a quatorze anos, o ECA define no seu art. 65: “Ao adolescente aprendiz, maior de quatorze anos, são assegurados os direitos trabalhistas e previdenciários” (BRASIL, 1990).

Quanto às condições circunstanciais de trabalho, o ECA, no seu art. 67, proíbe o trabalho em locais que prejudiquem a formação e o desenvolvimento físico, psíquico, social e moral de crianças e adolescentes. Nesse sentido também proíbe o trabalho em locais e horários que não permitem a frequência na escola.

Art. 67. Ao adolescente empregado, aprendiz, em regime familiar de trabalho, aluno de escola técnica, assistido em entidade governamental ou não governamental, é vedado trabalho: I- noturno, realizado entre as 22 horas de um dia, e as cinco horas do dia seguinte; II- perigoso, insalubre ou penoso; III- realizado em locais prejudiciais à sua formação e ao seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social; IV- realizado em horários e locais que não permitam a frequência à escola. (BRASIL, 1990).

O trabalho educativo preconizado no art. 68 do ECA possui relevância na contextualização do papel que o mesmo desempenha no desenvolvimento pessoal e social. Assim sendo, o art. 68, define:

Art. 68. O programa social que tenha por base o trabalho educativo sob responsabilidade de entidade governamental ou não governamental sem fins lucrativos, deverá assegurar ao adolescente que dele participe condições de capacitação para o exercício de atividade regular remunerada.

§ 1°. Entende-se por trabalho educativo a atividade laboral em que as exigências pedagógicas relativas ao desenvolvimento pessoal e social do educando prevalecem sobre o aspecto produtivo.

§ 2°. A remuneração que o adolescente recebe pelo trabalho efetuado ou a participação na venda de produtos de seu trabalho não desfigura o caráter educativo. (BRASIL, 1990).

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