JULIA BARTZEN ROHR
EUTANÁSIA: A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E O DIREITO À VIDA
Santa Rosa, RS 2018
JULIA BARTZEN ROHR
EUTANÁSIA: A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E O DIREITO À VIDA
Monografia do Curso de Graduação em Direito da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, como requisito parcial e final para a aprovação e colação de grau de Bacharel em Direito. Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais
Orientador: MSc. Luiz Paulo Zeifert
Santa Rosa (RS) 2018
Aos meus familiares com todo o carinho que tenho por eles que me apoiaram nesta caminhada.
AGRADECIMENTOS
A todos os meus familiares e amigos, pelo apoio, motivação e auxílio. Ao meu orientador, Professor Luiz Paulo Zeifert pela constante colaboração. Aos professores pelos ensinamentos.
Aos meus familiares, por estarem sempre me apoiando. A Deus, por ter me permitido chegar até aqui.
“Todos fecham seu olhos quando morrem, mas nem todos enxergam quando estão vivos.” Augusto Cury.
RESUMO
O presente estudo tem por objetivo tratar da temática Eutanásia, a dignidade do ser humano e o direito à vida. Considerando a polêmica que existe sobre a Eutanásia, atualmente criminalizada no Brasil, que na visão de muitos deveria ser legalizada em nosso país, e ainda considerando que o debate em torno desse assunto é gigantesco e mundial, este estudo procura responder a seguinte questão de pesquisa: A Eutanásia em conformidade com a Dignidade da Pessoa Humana e o Direito à Vida, deve continuar sendo considerada como crime ou deve ser legalizada no Brasil? Pretende conceituar e diferenciar a Eutanásia de termos semelhantes como Ortotanásia, Distanásia e Mistanásia, apresentar um breve histórico mundial e brasileiro sobre a mesma e a previsão legal no direito internacional e no direito brasileiro. Em outro momento, pretende-se conceituar e apresentar um breve histórico e a previsão legal da Dignidade da Pessoa Humana. Enfim, tem a intenção de mostrar o Direito à Vida, através dos conceitos de vida e de Direitos Humanos, trazendo a visão da Bioética e de outras áreas do conhecimento sobre o assunto. Finaliza com a conclusão de que a eutanásia como têm suficientes e equivalentes argumentos pró e contra, não pode ser definida com clareza como moralmente correta ou não, assim como não se pode ter a certeza de que deva ser legalizada ou criminalizada em nosso país. Para sua realização, utiliza o método de pesquisa bibliográfico sobre a temática, utilizando-se de pesquisas em livros, artigos, trabalhos de conclusão de curso, sites da internet.
ABSTRACT
The objective of this study is to deal with the theme Euthanasia, the dignity of the human being and the right to life. Considering the controversy that exists about Euthanasia, currently criminalized in Brazil, which in the view of many should be legalized in our country, and considering that the debate around this subject is gigantic and worldwide, this study seeks to answer the following research question : Should Euthanasia in compliance with the Dignity of the Human Person and the Right to Life continue to be considered a crime or should it be legalized in Brazil? It intends to conceptualize and differentiate Euthanasia from similar terms such as Orthopathy, Distanasia and Mistanásia, to present a brief world and Brazilian history about it and the legal prediction in international and Brazilian law. In another moment, we intend to conceptualize and present a brief history and the legal prediction of the Dignity of the Human Person. Finally, it intends to show the Right to Life, through the concepts of life and Human Rights, bringing the vision of Bioethics and other areas of knowledge on the subject. It ends with the conclusion that euthanasia, as it has sufficient and equivalent arguments for and against, can not be defined clearly as morally correct or not, just as one can not be sure that it should be legalized or criminalized in our country. For its accomplishment, it uses the method of bibliographic research on the subject, using of researches in books, articles, work of conclusion of course, websites of the internet.
SUMÁRIO INTRODUÇÃO ... 8 1 EUTANÁSIA ... 13 1.1 Conceitos ... 14 1.2 Histórico ... 16 1.3 Previsão Legal ... 18 2 DIGNIDADE HUMANA ... 20 2.1 Conceitos ... 21 2.2 Histórico ... 23 2.3 Previsão legal ... 24 3DIREITO À VIDA ... 28 3.1 Conceitos ... 29 3.2 Bioética ... 30 3.3 Outras visões ... 32 CONCLUSÃO ... 34 REFERÊNCIAS ... 36
INTRODUÇÃO
O presente estudo tem como temática principal a Eutanásia, a dignidade do ser humano e o direito à vida. Embora, aborde também outros princípios constitucionais e do direito, além da dignidade da pessoa humana e do direito à vida, o enfoque central se dá considerando a dignidade da pessoa humana e do direito à vida, sendo especialmente com eles que se busca entender a possibilidade de legalização ou criminalização da Eutanásia.
O objetivo principal deste trabalho é: Estudar o assunto sempre polêmico da Eutanásia, considerando principalmente a Dignidade da Pessoa Humana e o Direito à Vida. Como objetivos secundários têm-se:
a) Apresentar conceitos relacionados à Eutanásia, Dignidade da Pessoa Humana e Direito à Vida;
b) Estruturar um breve histórico sobre Eutanásia e Dignidade da Pessoa Humana no cenário mundial e brasileiro;
c) Verificar a previsão legal da Eutanásia e da Dignidade da Pessoa Humana no Direito Internacional e no Direito Brasileiro;
d) Demonstrar as visões de algumas áreas do conhecimento, como a Bioética, sobre a Vida Humana.
Considerando a polêmica que existe sobre a Eutanásia, atualmente criminalizada no Brasil, que na visão de muitos deveria ser legalizada em nosso país, e ainda considerando que o debate em torno desse assunto é gigantesco e mundial, este estudo procura responder a seguinte questão de pesquisa:
O estudo é um Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, na forma de monografia, conforme previsto pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, seguindo as orientações da mesma, como, por exemplo, o que consta em sua Base de Dados encontrada no endereço eletrônico <http://www.unijui.edu.br/biblioteca/sobre-a-biblioteca/base-de-dados>, e as atuais normas para trabalhos acadêmicos da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, buscando informações em fontes bibliográficas através principalmente de livros e periódicos, e por consultas em sites da internet.
Para isso adotará os seguintes procedimentos:
a) seleção da bibliografia por meio de consulta em site de busca (Google) e download de artigos, dissertações, teses e outros estudos e pesquisas disponibilizados gratuitamente em sites da internet, e através de consulta e retirada de livros em bibliotecas acessíveis;
b) leitura do material selecionado;
c) reflexão crítica sobre o material selecionado;
d) exposição dos resultados obtidos através de uma monografia.
O Trabalho de Conclusão de Curso realiza um estudo puramente qualitativo, não buscando referências quantitativas, cálculos, somatórios, estatísticas ou demais informações dessa natureza.
O TCC se restringe especialmente a buscar argumentos pró e contra a prática da eutanásia, sua legalização ou criminalização, usando para tanto diversos argumentos técnicos, políticos, filosóficos, éticos, morais, religiosos, jurídicos, acadêmicos, científicos, ou simplesmente opiniões de leigos.
A Eutanásia em conformidade com a Dignidade da Pessoa Humana e o Direito à Vida deve continuar sendo considerada como crime ou deve ser legalizada no Brasil?
Na atual legislação brasileira, a eutanásia não está diretamente descrita, porém é considerada crime com o uso do artigo 121, do Código Penal, isto é, homicídio, podendo ter o atenuante do §1° do mesmo artigo, que se dá quando o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima.
Nesse sentido surgem as seguintes hipóteses:
a) A Eutanásia deve continuar sendo considerada como crime no Brasil;
b) A Eutanásia deve ser legalizada no Brasil.
Pretende-se já no primeiro capítulo, conceituar e diferenciar a Eutanásia de termos semelhantes como Ortotanásia, Distanásia e Mistanásia, evitando com isso possíveis confusões sobre os termos, apresentar um breve histórico mundial e brasileiro sobre a mesma e a previsão legal no direito internacional e no direito brasileiro. Em um segundo capítulo, pretende-se conceituar e apresentar um breve histórico e a previsão legal da Dignidade da Pessoa Humana. Enfim no último capítulo, a intenção é mostrar o Direito à Vida, através dos conceitos de vida e de Direitos Humanos, trazendo a visão da Bioética e de outras áreas do conhecimento sobre o assunto.
Finaliza com a conclusão de que a eutanásia como têm suficientes e equivalentes argumentos pró e contra, não pode ser definida com clareza como moralmente correta ou não, assim como não se pode ter a certeza de que deva ser legalizada ou criminalizada em nosso país. Para sua realização, utiliza o método de pesquisa bibliográfico sobre a temática, utilizando-se de pesquisas em livros, artigos, trabalhos de conclusão de curso, sites da internet.
O estudo justifica-se pela gigantesca polêmica que há sobre esse tema, que tem originado ao longo dos anos vários debates e pesquisas, porém mesmo assim tem sido ignorado pela atual legislação brasileira, que não aceita nem discrimina a Eutanásia, apenas usa o artigo 121 do Código Penal como se ela fosse um simples homicídio.
Também no contexto mundial, ela é polemizada, tendo casos na Holanda e nos EUA, por exemplo, que servem de referência para os demais países. Sendo assim, este estudo serve para contribuir no desenvolvimento desse tema, com informações obtidas na pesquisa bibliográfica, e quem sabe em um futuro próximo, ter uma legislação brasileira que considere o termo Eutanásia em seu texto.
Durante alguns séculos, tinha-se um entendimento em que a morte era considerada como um carma para as pessoas, e que a única coisa que devia ser feita a seu respeito era enfrentá-la com coragem, mesmo que isso viesse acompanhado de muito sofrimento. Quando a mesma chegava, não havia o que se fazer, apenas aguardar o momento para partir. A morte dos entes da sociedade era realizada e tratada como sendo uma cerimônia pública, e como se pode perceber, isso ainda persiste até os dias de hoje, quando ocorre o sepultamento do corpo em cerimonia pública.
É de conhecimento comum, que a morte faz parte da natureza humana, que todos aqueles que um dia vieram à vida, em determinado momento partirão dela. Alguns de forma mais simples, fácil, indolor, outros, no entanto, sem a mesma sorte. Algumas pessoas penam muito em seu leito de morte, clamando por alguma saída menos sofrida, que muitas vezes não encontram. Essa saída poderia ser encontrada na Eutanásia, termo de origem grega que quer dizer boa morte ou morte piedosa.
Alguns defendem a ideia que para casos específicos, como doenças incuráveis e que provocam dores agudas, a melhor saída seria poder obter um descanso, conseguir morrer dignamente, sem sofrimento, tanto para o enfermo quanto para aquele que perde um ente querido. No andar da situação, o que se sabe é que a morte chega para todos, deixando em alguns uma sensação de paz e, em outros, muita inquietação. Por alguns ela é desejada, por outros ela é temida.
Pode esta ser considerada como um castigo para muitos, e para outros, apenas o seguimento da vida em outra dimensão, tido como um presente, algo a que se tem que ser grato. Muitas pessoas só de pensar nesse assunto se sentem aterrorizadas, amedrontadas e desprotegidas, pois todo ser humano já nasce logo aprende que um dia morrerá, e a incerteza de quando esse dia chegará, causa uma polêmica para muitos.
Esse acontecimento é tratado, às vezes, como uma etapa natural no ciclo da vida, outras vezes, causa revolta nos familiares e amigos, que não a querem aceitar. Algo tão importante que certamente deve merecer mais estudos e pesquisas, que muitas vezes podem salvar ou melhorar a vida das pessoas.
A metodologia utilizada para o presente estudo, explicando a natureza da pesquisa, o tipo de estudo, os métodos empregados e as orientações que o regraram, e logo após essa segue o desenvolvimento da pesquisa com a conclusão e as referências que embasaram o referencial teórico.
1 EUTANÁSIA
A eutanásia é conhecida atualmente, por fornecer aos enfermos terminais, ou seja, aquelas pessoas que se encontram em estado clínico terminal, uma morte menos dolorida, seja através de uma ação ou de uma omissão deliberada. Muitos têm o entendimento de que essa seria uma morte por compaixão. Não é a ocorrência de um acontecimento natural da vida, e sim, de um acontecimento voluntário, no qual a pessoa adoentada opta por poder descansar em paz, sem mais sofrer, ou, quando a mesma não pode expressar sua vontade, essa é realizada por algum terceiro (EUTHANATOS, 2016).
Esse assunto, nem de longe é considerado um tema pacífico de se dialogar, pois envolve várias opiniões diversas e contrárias, sendo assim na realidade um dos temas mais polêmicos no campo da ética e do direito, envolvendo questões como a dignidade da pessoa humana e o direito à vida. É um assunto que envolve a vida, que é o bem mais precioso de todos os seres humanos, além de chamar para a discussão motivos de ordem cultural, religiosa, social, ética e legal, dentre outros (CONCEITO..., 2016).
É também conhecida, por muitos, como sendo a boa morte, morte correta ou morte adequada. É chamada assim, por ser um caso posto em prática em situações em que o adoentado incurável, não possui mais esperanças e chances de conseguir uma cura ou recuperação para sua doença ou, quando este, encontra-se em grave estado de saúde ocasionado por algum determinado motivo, do qual veio a lhe deixar beirando a morte (RODRIGUES, 2016).
Quando casos assim ocorrem, as pessoas já cansadas de lutarem e sofrerem em busca de uma recuperação quase milagrosa, acabam por desistirem de suas vidas, preferindo pararem de agonizar e causar angustia a seus entes queridos, e assim, poderem ter uma morte mais digna e mais indolor. Para que isso ocorra, muitas vezes, necessitam da ajuda de outra pessoa, que lhes ajude a poder morrer, ou em outras palavras, descansar (ALMEIDA, 2016).
Essa prática consiste na ação de se reduzir a vida de uma pessoa que se encontra em estado de saúde terminal, ou, que por determinado motivo, ficou sujeito a dores intoleráveis, das quais não se tem cura, nem remédio forte o suficiente para amenizar, das quais podem se considerar tanto as dores físicas ou psíquicas (RODRIGUES, 2016).
1.1 Conceitos
Para desenvolver um estudo sobre eutanásia é importante entender bem primeiro o conceito desse termo grego, que se origina na junção dos vocábulos gregos “eu” que quer dizer bom e “thanatos” que significa morte, originando “euthanatos”, na forma aportuguesada “eutanásia”, boa morte ou morte piedosa, morte calma, morte humanitária, segundo Oliveira, 2009, p. 8 “... seu conceito nos traz o significado de que é o ato de provocar a morte, por compaixão, em um doente incurável e/ou em estado terminal, pondo fim ao sofrimento.”.
Nisso difere de termos similares como “ortotanásia – que significa a morte na hora certa – e à distanásia – que significa a procrastinação da morte”, conforme explica Oliveira, 2009, p. 11. Já Silva, et. al, 2008, p. 2 expressa que “Sem dúvida, a chamada para a morte deve ser distinguida do simples pedido de ajuda, de atenção, de anestesia mais eficaz, e não deve ser confundida.”
Para Silva et. al (2008, p. 2) “Cumpre ressaltar que o atual Código Penal, não especifica a eutanásia como crime.”, porém, quem acelera a morte de alguém alegando compaixão “comete crime de homicídio simples, tipificado no art. 121, § 1º, com pena de 06 a 20 anos de reclusão.” Assim explica também Santos, et. al, 2014, p. 368, citando o caso de uma médica em Curitiba no Paraná que foi acusada de desligar aparelhos de pacientes na UTI em que trabalhava.
Sobre esse tema, alguns autores defendem a prática de eutanásia, outros são radicalmente contra, como é o caso de Roberto, 2003, p. 04, em que cita o “Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, aprovado pela XXI sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas” o qual versa sobre o direito à vida humana, assim como o artigo 5º da Constituição Federal Brasileira (BRASIL, 1988).
Assim, é possível afirmar que existem muitos autores e argumentos a favor e contra a prática de eutanásia, levantando em conta questões sobre a Vida Humana, como o Direito à Vida, a Dignidade da Vida, a Bioética, o Direito à Morte Digna, sendo o tema bastante polêmico, tão polêmico quanto questões sobre legalização do aborto e do uso da maconha, por exemplo, assemelhando-se principalmente com a polêmica sobre aborto por envolver a vida de outrem (CABRERA, 2010; CANALLES, 2011).
Como já falado nos parágrafos anteriores, a Eutanásia seria uma forma de fazer uma pessoa que agoniza em seu leito de morte, poder optar me ter uma morte mais digna, sem sofrimentos, sem dores físicas, sem a angústia de esperar ela chegar e como ela vai chegar. Podendo tomar suas próprias decisões a respeito de sua vida e, quando não for possível ela escolher, ter o direito de optar por isso, um familiar, quando ocorrer um em casos extremos, constatando-se que a pessoa não terá mais chances de recuperação.
A ortotanásia é conhecida também por ser uma eutanásia passiva. Tem por objetivo aliviar o sofrimento do paciente terminal por meio de tratamentos que podem de variadas formas anteciparem a chegada da morte. Este método não consiste em curar nem em acabar com a dor, apenas em uma tentativa de antecipar o óbito. A palavra ortotanásia provém das palavras gregas orto (certo) e thanatos (morte) que juntas entendemos como “morte correta”. O objetivo geral dessa prática é fazer com que a morte do indivíduo se desenvolva da maneira mais natural possível. Esse acontecimento, apenas é permitido que se realize por uma equipe médica.
Ao contrário do que se falou até agora, temos também a distanásia, que seria o inverso da eutanásia. A distanásia é originada da palavra grega dis (afastamento) e thanatos (morte). Consiste no prolongamento artificial da vida, através de tratamentos que tem por objetivo o prorrogar o tempo de vida do enfermo. Não é a cura em si para alguma doença, mas sim o prolongamento máximo da duração da vida. Por muitos é também conhecida como um adiantamento da morte. Considera-se, também, diverso da ortotanásia por ser considerado prolongamento artificial da ordem natural da morte que traz angústia ao paciente em situações nas quais a medicina não oferece expectativa de resultados promissores a uma melhora, ou cura.
A mistanásia, também conhecida como eutanásia social, seria considerada como uma morte miserável, a qual ocorre, por exemplo, em casos coletivos, muitas vezes por se tratar de uma doença ou vírus letal que atinge grande massa de pessoas, e o estado acaba não tendo verbas ou tratamento suficiente para todas as pessoas, então, muitas acabam falecendo por não terem a oportunidade de ter acesso ao medicamento ou forma de tratamento adequado para o caso. Também ocorre quando os pacientes são vítimas de erros médicos, e acabam por falecer em virtude de um erro e não de uma doença.
Além de diferenciar a eutanásia da ortotanásia e da mistanásia, alguns autores diferenciam a eutanásia passiva destas últimas, discordando de outros a consideram sinônimo de ortotanásia, sendo que esta última na visão de quem a diferencia da eutanásia passiva, seria apenas não agir para retardar a morte, mas, também não agindo para antecipá-lo, o que não constituiria um crime, pois, dessa forma a morte chega de forma natural, nem antecipada, nem postergada (GUIMARÃES, 2009).
1.2 Histórico
A prática da eutanásia é algo muito antigo, embora não se saiba exatamente qual seria o seu ponto de origem, ou seja, quando começou, porém, sabe-se que sua aplicação é realizada há muito tempo, tendo início nos povos primitivos, provavelmente com seus primórdios no povo grego, uma vez que a palavra eutanásia tem etimologia grega (MAGALHÃES, 2014).
Durante alguns séculos, tinha-se um entendimento em que a morte era considerada como um carma para as pessoas, e que a única coisa que devia ser feita a seu respeito era enfrentá-la. Esse é um assunto discutido em todas as partes do mundo, mesmo que em sua grande maioria não seja admitida legalmente e, por ser esse motivo, enfrenta vários limites para que possa ser posta em ação (MELO, 2013).
Em seu contexto histórico, essa é considerada uma prática bastante antiga, do período histórico da antiguidade clássica ou até da era da pedra. Nos povos mais antigos, vários tinham por costume de os filhos tirarem a vida de seus genitores quando esses estivessem velhos, assim como os pais tiravam a vida de seus filhos quando estes nascerem com alguma anomalia ou deformidade (CABRERA, 2010).
Tinha-se uso frequente dessa prática nos povos Espartanos, estado-província ou pólis da Grécia, os quais tinham até como forma de lei o seu uso. Todo recém-nascido mal formado, que não tivesse condições de possuir uma vida digna e saudável era lançado do Monte Talgeto, para que assim, pudesse ter a chance de voltar à vida em um corpo sadio (CANALLES, 2011).
No oriente, cito o continente asiático, os povos birmaneses ou bramás, de nacionalidade da Birmânia, por sua vez, tinham como costume, para atenuar o sofrimento de seus enfermos que beiravam a morte, enterrá-los vivos, junto a seus entes queridos que já partiram ou ao mais velhos, ou, em alguns casos, poderiam optar por ser enforcados. Na Índia, os enfermos a beira da morte, tinham as bocas e narinas cobertas e trancadas com lama sagrada, após isso, os corpos eram lançados nos Ganges (SANTOS et al, 2014).
Já no ocidente, especialmente no continente europeu, os germanos, para acabar com a agonia de seus enfermos incuráveis, optavam por matá-los, sem ter nenhuma cerimônia especial para isso. Para o povo celta, era permitido aos filhos que os mesmos preparassem como seria a morte de seus genitores que beiravam uma morte sem cura (SANTOS et. al, 2014).
Cabe diferenciar a intenção de cada um desses povos ao praticar a eutanásia, em Esparta, a intenção era não ter pessoas que não pudessem ser soldados, participar da guerra, na Birmânia e na Germânia, o objetivo era acabar com o sofrimento da pessoa, na Índia envolvia uma questão religiosa, sagrada, para os Celtas, era uma questão de escolha, liberdade, dignidade delegada aos filhos (GUIMARÃES, 2009).
Na América, algumas tribos indígenas dos ameríndios, tinham atitudes similares as dos espartanos, ou seja, todo recém-nascido mal formado ou com deficiência, que não tivesse condições de possuir uma vida digna e saudável era morto. A intenção nesse caso era impedir a existência de pessoas não aptas para trabalhos como caçar e pescar, essenciais para a comunidade indígena (GUIMARÃES, 2009).
Até hoje, persiste esse tipo de prática, em comunidades diversas ao redor do mundo, inclusive sendo denunciados casos no Brasil, onde algumas vezes, a mãe com o filho que apresenta má formação ou deficiência foge e denúncia a tribo que não quer permitir que seu filho continue vivo (MAGALHÃES, 2014).
1.3 Previsão Legal
Normalmente, compete a uma equipe médica pôr o ato da eutanásia em prática, com a autorização dos familiares do adoentado, quando o mesmo não puder expor sua decisão por encontrar-se em estado muito debilitado, em coma, ou algo assim (BATISTA e SCHRAMM, 2003).
Por muitos, essa prática é vista como o evento de “maldade humana”, por ocorrer vários casos de perdas de paciente por simples erro médico e maus atendimentos hospitalares. Leva-se em conta, que a maioria das pessoas que passam por essa situação, são pessoas de baixa renda, que necessitam de atendimento público, por não possuírem planos de saúde e condições de pagar uma consulta ou tratamento particular (GAMA, 2010).
Quando o paciente puder posicionar-se acerca disso, poderá o mesmo, então, expressar sua decisão, solicitando que seja realizada com sua concessão, sem necessitar nesses casos, da autorização de familiares, quando este for considerado capaz sobre suas ações, ou seja, quando não se enquadrar no § 1º do artigo 447 do Novo Código de Processo Civil, que define as condições para o enquadramento como incapazes (BRASIL, 2015):
§ 1º São incapazes:
I - o interdito por enfermidade ou deficiência mental;
II - o que, acometido por enfermidade ou retardamento mental, ao tempo em que ocorreram os fatos, não podia discerni-los, ou, ao tempo em que deve depor, não está habilitado a transmitir as percepções;
III - o que tiver menos de 16 (dezesseis) anos;
IV - o cego e o surdo, quando a ciência do fato depender dos sentidos que lhes faltam.
Na atual legislação brasileira, a eutanásia não está diretamente descrita, porém é considerada, ou subentendida para fins de enquadramento como crime, com o uso do artigo 121, do Código Penal, isto é, homicídio, podendo ter o atenuante do § 1° do mesmo artigo, que se dá quando o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima (BRASIL, 1940).
É ilegal no Brasil, porém, não há previsão legal específica, nem sequer foi mencionada diretamente em nosso Código Penal ou na Constituição Federal até os dias de hoje (BRASIL, 1940; BRASIL, 1988). Chegou a ter um projeto parlamentar (projeto de lei nº125/96) a favor da mesma, mas após ser sujeitada à avaliação das comissões parlamentares no ano de 1996, a proposta não progrediu e, três anos mais tarde, veio a ser arquivada (BORGES, 1996).
No ano de 2005, um novo projeto de lei (projeto de lei 5058/2005) foi trazido aos parlamentares, mas também foi arquivado (PEREIRA, 2005). Contudo, pode-se entender que no Brasil, não se tem o termo “eutanásia” como algo corriqueiro, e quando a mesma é posta em prática, recebe a nomenclatura de homicídio ou suicídio. Além de tudo a mesma é enquadrada no art. 121, do Código Penal, considerada como crime de homicídio, além de ser crime hediondo (BRASIL, 1940).
A seguir será abordada a questão da dignidade humana, seus conceitos, histórico, previsão legal, onde pretende-se conceituar e apresentar um breve histórico e a previsão legal da Dignidade da Pessoa Humana
2 DIGNIDADE HUMANA
A morte faz naturalmente parte da natureza humana, consistindo no fato da certeza que todos aqueles que um dia vieram à vida, em determinado momento partirão dela, mas, mesmo sendo assim, a maioria dos seres humanos continua a temer o momento de sua chegada, ou pelo menos, em qual ocasião e como ela ocorrerá (MARINHO, 2011).
Algumas pessoas fiam-se ao pensamento de ser a prática da eutanásia algo bom para quem está sofrendo, e busca por se libertar do sofrimento, uma vez que a morte seria mais recebida pelo enfermo do que uma vida em que a dor fosse algo constante. Entende-se que todo ser humano tem direito à vida, da mesma forma que tem direito a morte, sendo assim, podemos interpretar que todo tem o direito de escolher não mais viver, quando isso significar sofrimento (MAGALHÃES, 2014).
Muitos religiosos entendem que existe vida após a morte, fazendo com que a morte do corpo humano não seja o fim da vida, mas o início de uma nova existência, podendo, segundo suas crenças, a alma recomeçar uma vida melhor. Quando um paciente opta pelo uso da eutanásia, deve-se entender isso, como um direito que todos nós temos de decidir sobre nossos corpos e decidir partir para essa próxima vida (MELO, 2013).
Por outro lado, muitos levam essa realização para um lado não muito positivo, pois consideram essa, uma omissão em salvar a vida de um terceiro, acelerando, assim, sua partida. A vida, no ponto de vista médico, é considerada algo sagrado, fazendo parte de sua ética a luta para salvar a vida de todo e qualquer ser humano que deles precisem. Em seu juramento médico, a morte é considerada como homicídio, fazendo, com que dessa forma, todos tenham o dever de lutar ao máximo e até o fim pela vida de seus pacientes, dando-lhes todos os meios possíveis para que haja sobrevivência (MELO, 2013).
Do ponto de vista ético e moral, não é possível identificar claramente a existência de grandes diferenças entre a eutanásia e o suicídio assistido. A eutanásia, desde 1987, é considerada pela Associação Mundial de Medicina através da Declaração de Madrid, como um procedimento eticamente inadequado, consequentemente, pode-se dizer o mesmo do suicídio assistido (GOLDIM, 2004).
A eutanásia viola as normas básicas da medicina, e com isso, tem-se o entendimento de que a missão dos médicos é de salvar vidas e não de tirá-las. Quando se tem o caso de pessoas com doenças incuráveis ou pacientes que beiram a morte, o entendimento médico, é de que não sendo possível a cura, deve ser proporcionado ao acamado máximo alívio ao seu sofrimento, até que a morte venha espontaneamente. Além disso, têm-se os argumentos religiosos, éticos e políticos (OLIVEIRA, 2009).
Muitos temem que caso ocorra à legalização da eutanásia, essa poderia ser aplicada de maneirar equivocadas ou intencionalmente exercida sem que houvesse o consentimento da pessoa adoentada, ocasionando assim, de forma abusiva, uma morte não permitida e desejada (RODRIGUES, 2016; ALMEIDA, 2016).
Sobre esse mesmo assunto, Marinho, 2011, pp. 14-15, expressa uma opinião bem diferente, defendendo a prática da eutanásia, diz à autora que “... tais direitos não são absolutos. E, principalmente, não são deveres. O artigo 5º não estabelece deveres de vida...” segue a autora “Assim, é assegurado o direito (não o dever) à vida, e não se admite que o paciente seja obrigado a se submeter a tratamento.”
Em seguida a autora exemplifica citando o grupo religioso das Testemunhas de Jeová que mantém restrições sobre alguns tratamentos médicos considerados por seus adeptos como condenados por Deus (MARINHO, 2011).
2.1 Conceitos
Sucintamente, a eutanásia nada mais é do que uma forma que as pessoas encontraram para que se possa ter uma morte mais humana, ou seja, mais digna, em vez de se prolongar um sofrimento, considerado por alguns insuportável, como no caso de doenças terminais e estado vegetativo, porém, nem todos entendem dessa forma, pois, alguns a consideram uma violação a vida e até mesmo a dignidade humana que seria ferida com a opção pela morte, assim alguns consideram a eutanásia uma saída covarde para um problema, uma solução que não soluciona, pois, acabando com o sofrimento, acaba com a vida, a esperança e a dignidade de ter resistido até o fim e feito todo o possível pela vida (SILVA, et al, 2008).
A dignidade humana ou dignidade da pessoa humana, como é contumaz constar na legislação, é um direito fundamental previsto constitucionalmente, juntamente com os direitos a vida, a liberdade e a igualdade. É considerado ainda um superprincípio, existente já em constituições federais anteriores e que tem prevalecido até hoje nas constituições contemporâneas, e se encontra “em consonância com os anseios dos pacientes terminais, ou daqueles que, privados do gozo de uma vida digna são impedidos - sob o argumento da prevalência da vida a qualquer custo - de permanecerem na indignidade e sofrimento” (SANTO, 2009, p. 2).
Como visto, é tarefa difícil e não pacífica conciliar o direito e princípio da dignidade humana com o direito a vida, existem as opiniões ou conceitos de médicos e demais profissionais da saúde, de juristas, doutrinadores, acadêmicos em direito e outras áreas do saber como filosofia, sociologia, teologia, de religiosos, ideólogos, políticos, além das pessoas comuns da sociedade em geral e cada opinião ou conceito pende a considerar ou mais para a dignidade de viver uma vida considerada boa e morrer igualmente bem, antecipando a morte caso se encontre em uma situação terminal ou mais para o direito de viver independente das condições e morrer o mais tardar possível (URBAN, 2010).
Alguns entendem a dignidade humana como um princípio, outros até mesmo como um superprincípio, e outros vão ainda mais longe afirmando ser um conjunto de princípios e valores, intencionando que os cidadãos tenham a totalidade dos seus direitos respeitados pelo Estado, garantindo assim, o bem-estar destes, sem desprezar entretanto, os deveres de cada um deles, envolvendo portanto, ao mesmo tempo o respeito aos direitos e o zelo aos deveres (SILVA et. al, 2008; SANTO, 2009; GUIMARÃES, 2009).
Não há dessa forma conceitos pacificamente universalmente aceitos sobre a dignidade humana, nem sobre o que é dignidade, nem sobre o que é humanidade, ou seja, não se sabe com exatidão se é mais digno ou mais humano viver de forma sofrida e sem esperança de melhora, como no caso de uma doença terminal que causa dor e outros sintomas, ou se é mais digno ou mais humano optar pela morte, pondo fim ao sofrimento, mas também pondo fim a vida (SILVA et. al, 2008).
2.2 Histórico
No cenário internacional é possível citar, entre outros, o caso do Death with Dignity Act (Ato de Morte com Dignidade), nos Estados Unidos da América (EUA), surgido no estado norte-americano de Oregon, no ano de 1994, sendo inicialmente impedido de atuar pelos movimentos a favor da vida e, entretanto, obtendo aprovação em dois referendos populares, o último deles ocorrido em 1997 contando com 60% de aprovação popular (URBAN, 2010).
Assim, com a aprovação popular, a Suprema Corte americana em 2006 acabou por confirmar a legitimidade da eutanásia no estado de Oregon. Similarmente existem muitas propostas de lei em outros estados dos Estados Unidos da América, entre eles: Califórnia, Washington e Wisconsin. Cabe lembrar, porém, que os EUA são formados por 48 estados mais o seu distrito federal ou capital Washington D.C., sendo os estados com propostas de lei a favor da eutanásia, portanto, uma minoria que não chega a representar nem dez por cento do quantitativo de estados daquele país (URBAN, 2010).
Já no cenário brasileiro, conforme Santo (2009), a vida, a liberdade, e a dignidade, são direitos fundamentais previstos na Constituição Federal (BRASIL, 1988), porém, sem oferecer respostas claras ao real significado destes conceitos ou princípios, e sem adequação a novas realidades da ciência, tecnologia, medicina e sociedade. Desse modo, temas como aborto, pesquisas com células-tronco, clonagem humana, eutanásia e ortotanásia estão na pauta de discussões acaloradas incluindo desde pessoas comuns da sociedade e acadêmicos, até ministros de Tribunais Superiores, inclusive do Supremo Tribunal Federal (MIMISEVEN, 2010).
Um exemplo disso é a posição do ministro Marco Aurélio Mello do Supremo Tribunal Federal (STF) que em entrevista à Revista Veja, além de afirmar que não pode existir dignidade numa vida vegetativa por exemplo, também afirmou o seguinte “Reduzir esse sofrimento seria então um ato de solidariedade e compaixão. Os casos em que o paciente pudesse decidir por sua morte seriam ainda concretizações do princípio da autodeterminação da pessoa” (MIMISEVEN, 2010).
Em um estudo realizado pela Sociedade Americana de Oncologia, com 3.299 oncologistas, apenas 22,5% dos pesquisados afirmaram serem a favor da prática de eutanásia e suicídio assistido, na contramão dos 77,5% que são contra essas práticas, o Professor Umberto Veronesi em Milão, talvez o mais importante oncologista vivo, afirma que “o sofrimento foi considerado durante muitos séculos como uma força purificadora, mas o mal induz ao doente a se esquecer da busca da divindade… A dor nos afasta de Deus”, defende ele a liberdade como um valor supremo e a autonomia do paciente e de seus familiares para tomarem decisões (URBAN, 2010, p. 89).
2.3 Previsão Legal
Com sede na Constituição Federal Brasileira e como valor legitimador do nosso ordenamento jurídico brasileiro, a dignidade humana deve ser preservada, por ser um pressuposto do direito à vida e servindo de pressuposto para os demais direitos. A preservação desse princípio fundamental encontra barreiras na sua interpretação, uma vez que é praticamente impossível preservar integralmente um princípio que sequer se tem certeza do que significa e como deve ser aplicado (NOBREGA FILHO, 2010).
Já, visualizando o contexto internacional, a dignidade humana, com certeza envolve muito mais do que simplesmente um conceito jurídico e uma previsão legal, ela é vista de forma diferente nas diferentes sociedades, para os japoneses, por exemplo, é comum o suicídio chamado de haraquiri quando a pessoa perde a honra, se ela tem uma missão ou objetivo de vida e esgotou as possibilidades de conseguir alcançar aquilo que se propôs, isso é suficiente para a pessoa se tornar indigna e não querer mais viver com a dor da vergonha de ter fracassado na vida, fazendo do Japão o país com a mais elevada taxa de suicídios no mundo (CABRERA, 2010).
Ainda citando ainda o Japão, foi lá que aconteceu um dos maiores precedentes legais sobre eutanásia, no caso conhecido como a “Decisão da Corte Suprema de Nagoya, de 1962”, onde no julgamento de um filho que atendendo ao pedido do seu pai, convenceu sua mãe a dar leite envenenado ao seu marido, sem, contudo, saber que o leite continha veneno, a Corte permitiu legalmente a prática da eutanásia sobre as seguintes condições (CABRERA, 2010, p. 71):
1) a enfermidade deve ser considerada terminal e incurável pela medicina atual e a morte, iminente;
2) o paciente deve estar sofrendo de uma dor intolerável, que não pode ser aliviada; 3) o ato de matar deve ser executado com o objetivo de aliviar a dor do paciente; 4) ato deve ser executado somente se o próprio paciente fez um pedido explícito; 5) cabe ao médico realizar a eutanásia;
6) caso isso não seja possível, em situações especiais será permitido receber assistência de outra pessoa; a eutanásia deve ser realizada utilizando-se métodos eticamente aceitáveis.
Outro exemplo é o que costuma acontecer com descendentes de alemães, que consideram uma vergonha insuportável estar endividado financeiramente e não conseguir pagar aquilo que deve, ficando com a má fama de não pagadores, tornando comum casos de suicídio quando essas pessoas contraem dívidas e por algum motivo não as conseguem quitar, sendo as cidades brasileiras com descendentes de alemães as que costumam ter os maiores índices de suicídio no país (SANTOS, et. al, 2014).
Não é de se espantar que quando ocorrem crises financeiras, desempregos em massa, fenômenos meteorológicos que devastam plantações, e outras situações adversas na economia, muitos descendentes de alemães cometem o suicídio para não precisar viver na miséria, endividados, como não pagadores dos débitos que contraíram (SANTOS et al, 2014).
Na Alemanha, porém, diferentemente do Japão, essa questão cultural não impactou de forma mais forte na legislação nacional no que tange a prática da eutanásia, sendo que atualmente lá ela é considerada como crime de homicídio, embora, da mesma maneira que ocorre na França, há muitos atenuantes apontados na legislação, sendo não punível o suicídio e a eutanásia por incitamento do paciente (CABRERA, 2010).
Esse imenso contraste entre o Japão e a Alemanha, que por um lado se assemelham em serem países recordes em taxas de suicídio, e por outro se diferenciam pela previsão legal no tratamento aos casos de eutanásia, e outras questões envolvendo a vida, como o aborto, por exemplo, pode ser reflexo da repercussão mundial negativa que a Alemanha Nazista obteve durante o período de 1939 a 1941, onde mais de cem mil abortos e mortes provocadas de crianças até 3 anos de idade ocorreram por estas terem deficiências e doenças que no entendimento dos autores fria com que “possuíssem uma vida que não merecia ser vivida” (CABRERA, 2010, p. 83).
Dessa maneira, no contexto internacional, as opiniões e legislações sobre a eutanásia e a dignidade humana, também se dividem e se controvertem, levando em consideração muito mais do que questões meramente jurídicas, pois, além do âmbito jurídico, existe influência de questões morais, sociais, culturais, históricas, o que varia de um país para outro, e também de uma época para outra, refletindo em diferentes pontos de vista sobre este assunto (GUIMARÃES, 2009).
No Brasil, isso não é diferente, o que não é de se estranhar, tendo em vista que é um país de tamanho continental, uma nação que sofreu forte miscigenação, tendo contribuições de diversos povos em sua formação, e com isso diferentes visões de mundo, o que é vantajoso para debater assuntos como este de forma mais ampla e detalhada, porém, prejudicial quando conceitos e princípios fundamentais começam a ser desrespeitados, deturpados e combatidos em virtude de uma diferente interpretação do seu verdadeiro significado (NOBREGA FILHO, 2010).
Cabe citar, como exemplo, que do ponto de vista constitucional, alguns consideram a eutanásia e práticas similares como o suicídio assistido, algo permitido e garantido pela máxima lei, estando previsto no princípio da liberdade, o direito de escolha, a vida digna e humana sendo uma vida com bem-estar, sem sofrimento excessivo (CABRERA, 2010).
Já outros entendem que a prática da eutanásia pode ser considerada uma ofensa à dignidade humana, e um crime contra a vida e ainda um atentado contra a humanidade (BRASIL, 1988; SALES, SILVA e MELO, 2013), assim consideram alguns autores, como Sales, Silva e Melo (2013, p. 4):
Visto que a eutanásia apresenta-se inapropriada e distante da realidade cultural pátria, visto isso não há como se estabelecer fundamento de qualquer natureza que legitime e autorize a terminação voluntária e dolosa da vida de alguém, praticada por outrem, sem esbarrar na regra constitucional.
Nessa perspectiva concluímos em nosso artigo, que a prática da eutanásia é notadamente uma violação ao excelso direito à vida. Não passa de um artifício homicida, um expediente desprovido de razões lógicas e violador da Constituição Federal. Assim a vida tem prioridade sobre todas as coisas, e o direito a ela prevalecerá sobre qualquer outro. Dessarte, havendo conflito entre dois direitos, incidirá o princípio do primado mais relevante, no caso o direito à vida. Tutelar a vida é zelar por todas as relações humanas e evitar o caos social.
Uma vez que a vida configura como um bem jurídico indisponível, o Código Penal parece corroborar com o pensamento acima exposto, de que seguindo a Constituição Federal, a eutanásia pode configurar crime de homicídio, previsto no artigo 121 do Código Penal, embora com atenuantes que podem reduzir a pena de um sexto a um terço (BRASIL, 1940, 1988).
3 DIREITO À VIDA
A eutanásia envolve diretamente o direito à vida, consagrado constitucionalmente, sendo sua violação duramente punida penalmente em nossa atual legislação. Em contrapartida à vida há a morte, que de acordo com o ordenamento jurídico brasileiro não poderá ser antecipada, configurando-se como um ato ilícito e inconstitucional a sua antecipação (BRASIL, 1940; BRASIL, 1988).
Essa situação atual da legislação brasileira, pode em breve mudar, uma vez que o atual Código Penal está para ser reformado, e em sua redação essa inviolabilidade à vida está sendo ameaçada, prevendo a exclusão de ilicitude para quem praticar a eutanásia, atualmente enquadrada como homicídio privilegiado, aplicando-se até então o artigo 121 do Código Penal (SALES, SILVA e MELO, 2013).
Essa possível alteração no Código Penal, é inconstitucional na visão de alguns autores “Porém, é sabido que a Constituição Federal de 1988 consagrou no título "Dos Direitos e Garantias Fundamentais", o direito à vida como sendo o mais fundamental dos direitos, que deve ser resguardado de todas as formas de ameaça ou lesão, de forma irrenunciável” (SALES, SILVA e MELO, 2013, p. 3).
Embasando-se na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em seu artigo 3° cita que: “todo homem tem direito à vida [...]”, autores contrários a eutanásia, aborto e outras formas de antecipação da morte, entendem que o direito à vida se dá em todas as suas potencialidades, não sendo passível de restrição, e pela sua essencialidade, condiciona os demais direitos, o que sendo assim não abre brechas para a possibilidade legal da eutanásia (ALMEIDA, 2016).
O direito à vida é regido, entre outros, pelos princípios constitucionais da inalienabilidade, isto é, não pode ser transferido, da irrenunciabilidade, ou seja, não pode ser renunciado, da inviolabilidade, que não pode ser violado, então há a impossibilidade de se abrir mão do direito à vida, consistindo em dever do Poder Público garantir a efetivação desse direito, sob pena de responsabilização criminal o descumprimento desse direito e desses princípios constitucionais (CANALLES, 2011).
3.1 Conceitos
O direito à vida, e o próprio termo “vida”, são difíceis de conceituar, matéria não pacífica, que corriqueiramente provoca discussões. No cerne das discussões estão a eutanásia; a ortotanásia; a mistánasia; o suicídio, inclusive o assistido; o aborto, especialmente em casos de estupro, má formação genética, bebês com síndromes, doenças, como casos de microcefalias provocados por zikavírus que recentemente se tornaram comum no Brasil; células-tronco embrionárias; clonagem, principalmente a humana; fertilização in vitro (SANTO, 2009).
A discussão começa logo no início da vida, ou seja, quando inicia a vida, se no nascimento ou em algum momento da gravidez, ou antes, mesmo antes disso, prossegue as discussões alcançando o clímax na temática morte, isto é, quando termina a vida, se é que ela termina, seria ao parar o coração de bater, ou ao parar a mente de funcionar. Com certeza as diversas ciências, religiões e filosofias enxergam isso de forma bastante diferente umas das outras (MIMISEVEN, 2010).
Mesmo assim, uma conceituação mínima comum pode ser estabelecida, vida é um momento de animação orgânica, seja ela em maior ou menor grau, ou seja, está vivo quem se move ou pelo menos suas células realizam movimentos, como o movimento da respiração, em que o ar circula nosso corpo, ou o movimento sanguíneo que oxigena e nutre as demais células do corpo, assim vida seria movimento, e movimento produz mudança, uma vez que aquilo que se move se modifica. Essa explicação biológica e filosófica da vida, talvez seja o que se pode tomar como mais usualmente comum entre tantos pensamentos sobre o que é estar vivo (BATISTA, 2013).
Embora, largamente empregado pelos contrários à eutanásia, o termo “direito à vida” é largamente usado também pelos favoráveis à eutanásia, no sentido de ele ser um direito e não um dever, e, portanto é alvo da escolha ou autonomia do indivíduo fazer uso dele ou não, não constituindo uma obrigação, tendo a liberdade como o princípio norteador desse direito à vida. Ignoram assim os princípios constitucionais da inalienabilidade, da irrenunciabilidade, e da inviolabilidade como válidos ou aplicáveis no pertinente ao direito à vida (MARINHO, 2011).
3.2 Bioética
A Bioética no Brasil é muito recente, surgida na metade dos anos 1980, tardiamente se comparada com o contexto mundial, isso não a tem impedido, porém, de alçar grande importância, especialmente dentro das ciências médicas e das ciências jurídicas. “Isto devido ao fato de que a mesma se envolve, ao mesmo tempo, com os dilemas individuais dos profissionais de saúde frente a situações polêmicas, e com as complexas decisões sociais enfrentadas em conjunto com legisladores e cidadãos” (URBAN, 2010, p. 87).
Entre outras coisas, a Bioética se preocupa com o atendimento médico, e com a humanização desse atendimento, que os profissionais da saúde entendam que estão atendendo seres humanos, que além do corpo físico, e seus tecidos, órgãos, células, também possuem caráter, personalidade, pensamentos e sentimentos, e por isso, necessitam agir de forma muito mais complexa e sensível, diferente de um mecânico consertando um veículo por exemplo (SILVA et. al, 2008).
Assim, atender um ser humano pode envolver problemas éticos e questões morais, que consertar um aparelho doméstico ou fabricar um produto muitas vezes não envolve, deixando o profissional com dilemas para serem sanados, às vezes a decisão tem que ser tomada às pressas, outras vezes, o profissional conta com um tempo maior para pensar, às vezes tem que deliberar sozinho, às vezes a decisão depende mais dos outros, sejam dos pacientes, dos familiares, da administração do hospital, do que dele (SANTOS et. al, 2014).
No entender da Bioética, considerando o juramento de Hipócrates, normalmente realizado pelos profissionais da saúde no ato de formatura da colação de grau acadêmico, se entende a vida como um dom sagrado, não podendo o profissional atuar como juiz sobre ela, não decidindo quem vive e quem morre, mesmo entendimento do Código de Ética Médica Resolução CFM n° 1.931/09, que não permite a prática da eutanásia ao dispor o seguinte:
É vedado ao médico:
Artigo 41 - Abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu representante legal:
Parágrafo Único.
Nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal. (CANALLES, 2011, p. 34).
Cabe então, ao profissional da saúde, cumprindo o juramento hipocrático, o artigo 41 do Código de Ética Médica, o artigo 121 do Código Penal, os direitos fundamentais e os princípios constitucionais, ter a eutanásia como equivalente ao homicídio, assistindo o paciente no fornecimento de todo e qualquer meio necessário à sua subsistência (CANALLES, 2011).
Discordando completamente disso, há autores que são favoráveis a alteração do Código Penal, com a legalização da eutanásia, entendendo não ser esse o sentido ou significado dos direitos fundamentais e princípios constitucionais, e não ser antiético e imoral a eutanásia, mas sim o pensamento ultrapassado da medicina que idolatra a vida em detrimento da liberdade e autonomia do ser humano, que ignora o sofrimento do paciente e supervaloriza a ciência e suas tecnologias (MARINHO, 2016)
Já Urban (2010), numa leitura mais fria e objetiva, entende a eutanásia como uma tendência da medicina pós-moderna, onde imperava na década de 1970 o paternalismo, que tinha por centro o médico e a doença, já na década de 1980 imperou a autonomia com parceria médico-paciente e certa liberdade de decisão, e a partir da década de 1990 o foco mudou para a relação com a indústria farmacêutica, com preocupações financeiras sobre lucros, custos, recursos, honorários médicos.
No entendimento desse autor, a decisão que será tomada nos próximos anos, sobre a eutanásia, terá relação muito maior com o que é economicamente mais favorável ao governo que com o que é correto do ponto de vista da Bioética, e ainda o “debate sobre a eutanásia deve ser substituído no Brasil pelo do redirecionamento da formação médica”, e conclui “Desta forma, a eutanásia pode perder grande parte do seu atrativo na sociedade brasileira” (URBAN, 2010, p. 91).
Cabe citar, por fim, a teoria utilitarista, que em contraposição a corrente majoritária da Bioética, remove a sacralidade da vida humana e centra-se na qualidade de vida acima da quantidade de vida, ou seja, nessa visão vale mais a pena viver melhor do que viver mais. Nesse paradigma da maximização da qualidade de vida que se alicerçam muitos dos defensores da eutanásia, que faz com que seus contrários os acusem de hedonismo, ou seja, viver em busca do prazer e preferir morrer caso esse faltar (MARINHO, 2016).
3.3 Outras Visões
Muitos religiosos são extremamente contrários à eutanásia, acreditando que somente Deus pode decidir quem vive e quem morre entre os quais é possível citar Santo Agostinho que em uma de suas cartas disse “Nunca é lícito matar o outro: ainda que ele o quisesse, mesmo se ele o pedisse (…) nem é lícito sequer quando o doente já não estivesse em condições de sobreviver" (SANTOS et. al, 2014).
Dessa feita, religiões cristãs em geral, normalmente são completamente contrárias a práticas terminativas da vida como eutanásia e outras, considerando mesmo uma quebra de um dos 10 principais mandamentos bíblicos, que versa “Não matarás”. Abrem-se exceções geralmente em casos de guerra e legítima defesa, mas não para suicídios, eutanásia, aborto e similares (SANTOS et. al, 2014).
Já religiões reencarnacionistas, enxergam na morte a porta de entrada para a próxima vida, sendo assim, se a vida presente estiver dolorosa, sofrível, é possível abreviá-la e partir para a próxima, onde ela poderá ser bem melhor, ressalta-se, porém, que no caso de suicídio, a pessoa passará por momentos de transtornos antes de poder reencarnar, então, segundo essa visão é preferível evitar ao máximo o suicídio, pois, embora abrevie o sofrimento agora nesta vida, acaba causando sofrimento antes da próxima reencarnação (URBAN, 2010).
Por vezes, políticos se aproveitam da polêmica para tentar conseguir votos, seja sendo a favor ou sendo contra algo polêmico, como a eutanásia, embora possam também realmente por ideologia política, sua ou de seu partido político, defender ou condenar esse ato. Isso pode, inclusive, fazer parte da agenda política, das metas do governo, e/ou das estratégias da campanha eleitoral (URBAN, 2010).
Já no viés filosófico, há, pelo menos, três visões diferentes sobre a eutanásia, a saber, o libertarismo, o kantismo e o utilitarismo. Enquanto o libertarismo ou libertarianismo concorda com práticas como a de aborto, eutanásia, suicídio e outras semelhantes, o Kantismo ou liberalismo, principalmente representado por John Locke e Immanuel Kant, é contrário a essas práticas, “rejeitaram a ideia de que nossas vidas são bens para dispor como nos agradar” (CUNHA, 2016, p. 71).
No libertarismo, Michael Sandel seu defensor, afirma que “os libertários são contra as leis que protegem as pessoas contra si mesmas”, entendendo que a lei não deve regrar questões morais, permitindo assim que a pessoa tenha liberdade sobre sua vida, saúde e possa assumir diversos riscos, cometendo práticas como a automutilação, o suicídio, a eutanásia, sem ter uma força coercitiva para tentar impedi-los (CUNHA, 2016, p. 72).
Contrário a isso, Ingo Sarlet associa-se ao pensamento do ideário clássico cristão, e defende a dignidade da pessoa humana, partindo de outro ponto de vista, o racional, Kant fundamentado na razão e na ciência, também defende a moral da dignidade humana como preceito universal, entendida como a defesa da vida, sendo moralmente mais correto, na visão destes pensadores, defender a vida do que defender a livre vontade da liberdade humana (apud CUNHA, 2016, p. 72-73).
Para John Stuart Mill, filósofo utilitarista, a moral é favorável a permissibilidade da eutanásia ativa voluntária, tendo como primados a utilidade e a liberdade, também conhecido como princípio da maior felicidade, segundo ele esse princípio é o fundamento da ação moral. Nessa visão as ações moralmente corretas são as ações que promovem a felicidade, sendo esta relacionada ao prazer de viver, ao passo que a infelicidade é a ausência do prazer em viver (SANTOS et al, 2014).
CONCLUSÃO
Após a realização do estudo concluiu-se que a eutanásia é um dos temas mais polêmicos da atualidade, especialmente na área jurídica e legislativa, não só no Brasil, mas no mundo, e não só na atualidade, mas desde a antiguidade, existindo argumentos plausíveis tanto dos que são favoráveis, como dos que são contrários. Os argumentos são de origens muito variadas, podendo ser técnicos, políticos, filosóficos, éticos, morais, religiosos, jurídicos, acadêmicos, científicos, ou simplesmente opiniões de leigos, sendo difícil definir quais desses argumentos são mais plausíveis.
A dignidade da pessoa humana e o direito a vida, são princípios ou supraprincípios, que servem de pressupostos para vários outros princípios, que são usados e interpretados tanto a favor como contra a eutanásia. Assim, não é possível definir com exatidão se esses princípios favorecem ou prejudicam a defesa da prática de eutanásia, uma vez que seus conceitos não estão bem delimitados, o mesmo valendo para a defesa de casos assemelhados como ortotanásia, suicídio assistido, aborto. Outros princípios como o da liberdade, moralidade, eticidade, são tratados de semelhante forma, ou seja, com uma ampla gama de interpretações variadas.
Uma outra forma de ver e tentar entender essa temática, já que notadamente do ponto de vista conceitual, principiológico e axiomático, no âmbito do ordenamento jurídico brasileiro, as interpretações são controversas, é sobre o prisma da eutanásia ser benéfica ou prejudicial a sociedade, especialmente ao paciente e seus familiares, nesse quesito é possível destacar que existem benefícios e riscos apontados para a prática da eutanásia e similares, sendo os principais benefícios e riscos, que foram apontados por Urban (2010, p. 91), o que segue:
BENEFÍCIOS
Diminuição do número de pacientes em fase terminal ocupando os disputados leitos das unidades de terapia intensiva brasileiras.
Diminuição do sofrimento prolongado de pacientes com patologias crônicas incuráveis.
Exercício pleno da autonomia da pessoa.
Diminuição de custos com pacientes terminais e redirecionamento de recursos para outras áreas emergentes.
RISCOS
Eutanásia indicada em casos que não receberam cuidados paliativos de maneira ideal, que estejam trazendo custos elevados para a família ou para o sistema único de saúde.
O Brasil com suas dimensões continentais e grandes diferenças regionais poderia encontrar dificuldades de controle governamental efetivo sobre os casos de eutanásia.
Prejuízo ao relacionamento médico-paciente: o paciente não sabe se vai ao médico para ser curado ou para morrer.
Falta de preparo dos médicos brasileiros para enfrentar as dimensões antropológicas, sociais e culturais envolvidas nas decisões sobre terminalidade e eutanásia.
Sendo assim, o equilíbrio entre argumentos prós e contras, a existência de benefícios e riscos, praticamente na mesma proporção, e a dupla interpretação, ora a favor, ora contra, dos princípios constitucionais e demais princípios do direito, não permitem concluir com clareza se a eutanásia e outras práticas similares devem ser legalizadas ou criminalizadas no Brasil, embora, atualmente mesmo que indiretamente, pelo Código Penal, essa prática é assemelhada a um homicídio e considerada crime, assim o mais provável é que deva ser entendida como um crime, e os princípios à vida, liberdade, dignidade humana e outros devam ser entendidas sobre o viés de considerar a eutanásia uma conduta homicida e, portanto criminosa.
Finalmente, conclui-se que a hipótese da eutanásia continuar sendo crime, parece ser a mais razoável no Brasil na atualidade, não quer disser que é a melhor hipótese sem sombras de dúvidas, ou que é o melhor em qualquer época e em qualquer lugar, mas apenas que no momento em nosso país, parece pelos indícios e argumentos levantados que essa seria a melhor opção por enquanto.
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