UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
RUBENS MASCARENHAS NETO
DA PRAÇA AOS PALCOS: TRÂNSITOS E REDES DE JOVENS DRAG QUEENS DE CAMPINAS- SP
CAMPINAS 2018
RUBENS MASCARENHAS NETO
DA PRAÇA AOS PALCOS: TRÂNSITOS E REDES DE JOVENS DRAG QUEENS DE CAMPINAS- SP
Dissertação apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Antropologia Social.
Supervisora/Orientadora: Profa. Dra. ISADORA LINS FRANÇA
ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO RUBENS MASCARENHAS NETO E ORIENTADA PELA PROFESSORA DOUTORA ISADORA LINS FRANÇA.
CAMPINAS 2018
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387
Mascarenhas Neto, Rubens,
M373d MasDa praça aos palcos : trânsitos e redes de jovens drag queens de Campinas-SP / Rubens Mascarenhas Neto. – Campinas, SP : [s.n.], 2018.
MasOrientador: Isadora Lins França.
MasDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Mas1. Redes de relações sociais. 2. Antropologia urbana. 3. Sexualidade. 4. Performance (Arte). I. França, Isadora Lins, 1978-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: From square to stages : transits and networks of young drag
queens in Campinas-SP, Brazil
Palavras-chave em inglês:
Social networks Urban anthropology Sexuality
Performance (Art)
Área de concentração: Antropologia Social Titulação: Mestre em Antropologia Social Banca examinadora:
Isadora Lins França [Orientador] Regina Facchini
Júlio Assis Simões
Data de defesa: 22-02-2018
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
A Comissão julgadora dos trabalhos de Defesa de Dissertação de Mestrado composta pelos professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 22 de fevereiro de 2018, considerou o candidato Rubens Mascarenhas Neto aprovado.
Professora Doutora Isadora Lins França (Presidente)
Professora Doutora Regina Facchini (Titular)
Professor Doutor Júlio Assis Simões (Titular)
A Ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora consta no processo de vida acadêmica do aluno.
Ao meu avô Rubens Mascarenhas (in memoriam), com quem teria sido mais divertido compartilhar o fim dessa etapa.
Agradecimentos
Esta dissertação, assim como o meu percurso para chegar até ela, são fruto do esforço e da contribuição de muitas pessoas. Os agradecimentos nunca são suficientes ou completos, mas são necessários. E se eu cheguei até essa etapa é por conta do amor, amizade, apoio, força, estímulo e inspiração de muitas pessoas queridas.
Em primeiro lugar agradeço ao Vinícius Pedro Correia Zanoli, meu companheiro de vida e de trajetória. Sem você esse caminho todo teria sido muito mais difícil e muito menos interessante. Seu amor inesgotável, sua sabedoria, seu conhecimento e seu companheirismo estão presentes em cada linha desse trabalho, e de muitos outros.
Agradeço também à minha família, que me deu e dá suporte para conseguir seguir em frente, apesar da distância física que nos separa. Agradeço a minha mãe Lílian Garcia Mascarenhas, meu exemplo maior de resiliência, coragem, determinação e sensibilidade, a quem procuro honrar todos os dias. Agradeço a minha irmã Sofia Maximiano Mascarenhas de Almeida e meu irmão Antonio Maximiano Mascarenhas de Almeida com quem dividi alguns dos momentos mais felizes de minha vida e a quem serei sempre grato pelas brincadeiras, conversas e risadas. Agradeço a Antonio Carlos de Almeida, meu padrasto que aceitou a tarefa difícil de me acolher na nossa família nuclear.
Agradeço a minha avó Maria José Garcia Mascarenhas com quem aprendi a importância de persistir, afinal “é no andar da carruagem que as abóboras se ajeitam”. Gostaria de poder agradecer pessoalmente ao meu avô Rubens Mascarenhas, com quem aprendi o valor das amizades e a amar sem nenhum julgamento, obrigado pela proteção nos momentos mais difíceis. Agradeço a minha tia Denise Garcia Mascarenhas quem despertou em mim um espírito aventureiro e que me ensinou que mudar é necessário, ainda que difícil. Agradeço a minha tia Luciana Garcia Mascarenhas por me ensinar a importância de seguir em frente na universidade sem ter medo de fazer escolhas. Agradeço aos meus primos Fabiano “Bibi” Garcia Mascarenhas Belloube e Juliano “Juju” Garcia Mascarenhas Belloube pela alegria, carinho, sensibilidade e diversão ao longo desses anos. Agradeço ao meu tio Rodrigo Belloube pelas conversas muito ricas sobre os desafios da carreira. Agradeço às minhas tias Tânia Medeiros de Almeida, Valda Antonieta e Fatinha Maximiano. Agradeço a minha madrinha Maria Teresa Loures, ao meu padrinho Antonio Gallo de Oliveira e a Catarina Loures de Oliveira.
Agradeço aos meus sogros Valdecir Zanoli e Antônia de Fátima Correia Zanoli pelo companheiro de vida que eles trouxeram ao mundo, pelo carinho e suporte que eles me deram e pelo exemplo de amor e dedicação que eles representam. Aos meus cunhados Henrique José Correia Zanoli e Cristiane Correia Zanoli, e seu esposo Mário Augusto Hotel, pela irmandade
com a qual sempre me recebem. Agradeço ao meu sobrinho Lucas Hotel Zanoli pelas nossas conversas sobre jogos de videogame e pelas risadas.
Por conta do anonimato necessário ao trabalho que desenvolvi não posso agradecer detalhadamente a minhas e meus interlocutores. No entanto, a inspiração para tudo o que está escrito neste texto vem do contato que tivemos e do privilégio que foi conviver e compartilhar momentos interessantes, inusitados, dramáticos, engraçados e curiosos que eu busquei, no melhor dos meus esforços, narrar aqui. A cada uma e cada um de vocês eu só posso senão agradecer imensamente pela amizade e por tudo, e espero que vocês tenham gostado.
Agradeço às amigas e amigos dessa e de outras jornadas com as/os quais dividi minhas alegrias, preocupações, angustias e ansiedade ao longo desses anos: Adriana Morais, Adriano Mastroléa, Aline Sulzbach, Amanda Causin Andreossi, Ana Paula Andrade, Ana Paula Araújo, André Soave, Arthur Miranda, Asher Brum, Beatriz Ferruzzi Sachetin, Bruno Puccinelli, Carlos Gutierrez, Catarina Casimiro Trindade, César Machia, Chay Ribeiro, Clara Cazarini Trotta, Cristiane Bortolato, Cynthia Migliaccio, Diego Carvalho, Edimilson Rodrigues, Erik Petschelies, Esther Lilith Groove, Felipe Bertuluci, Felipe Bugim, Fernanda Assis, Fernando Lima, Francine Cavalcante, Gaby Ramos, Guilherme Passamani, Gustavo Belisário, Gustavo Crivellari, Gustavo Durão, Gustavo Miranda, Isabela Dornelles, Ivana Gomes, Jean Lucas Macedo Fernandes, Jonathan “JJ” Jackson Sacramento, João Paulo Nasário, José Carlos Cunha Muniz Filho, Juliana Madeira, Kety Eli Carneiro, Laiz Gonçalves Rodrigues, Luciano Cardenes, Luciano “Pato” Cardoso, Lucia Castro, Luis Misiara, Luiza Terassi Hortelan, Marcelo Ceccareli, Marco Aurélio de Menezes Franco, Marwa Amy, Mauricio Gabriel dos Santos, Mauricio Oliveira, Milena de Paula Moreira, Milena Oliveira, Nathaly Soares, Nathanael Araujo, Patrik Thames Franco, Paulo Dorighello Foltran, Paulo Moreira Nélis, Raymon Griigs, Rodrigo Fessel Sega, Samantha Bonen-Clark, Sarah Rossetti Machado, Stéphanie Lima, Thais Vasconcellos, Thiago Morais. E faço um agradecimento saudoso e especial aos amigos Lucas Félix, Márcio “Sociais” e Pedro Alves que já partiram.
Britain sadly has decided to leave EU, but the UK has brought to my life lots of adorable and amazing new friends and I hope you never vote to leave: Ahmed Hamila, Ajamu-X, Alex Syniukov, Alexander Webster, Ana Elisa Ribeiro, Attie Papas, Carolline Rodrigues, Clarice Vitkauskas, Daniel Dumoulin, Dipali Ghosh, Dirceu Pozzebon, Eduardo Calçado, Jess Glass, Kan Kikumoto, Lady Tasha Cox, Lorena Andrill, Luciana Gill Barbosa, Lukasz Szulc, Luma Monteiro, Marco Desiderio, Mariana Cogo, Marinos Sakellariou, Mateus Bernardi, Mordechai Bin Ezra, Nuzrat Bukhari, Paul Bucelis-Collins, Paula Turra, Rebecca “Becks” Tadman, Rebecca Do Espírito Santo and Sharon Bloomfield.
Agradeço especialmente a minha orientadora Professora Dra. Isadora Lins França que me guiou nessa divertida e trabalhosa etapa de minha formação, com muita generosidade, dedicação e compromisso. Com ela aprendi a enfrentar o trabalho de campo com criatividade e determinação. Seus trabalhos me inspiraram muito no investimento e na busca por uma escrita que fosse ao mesmo tempo elegante, objetiva e divertida. Agradeço também a sua companheira Natália Lago que me sempre recebeu calorosamente em sua casa para minhas reuniões com a Profa. Isadora.
Agradeço a Professora Dra. Anna Paula Vencato, Professora Dra. Carolina Branco de Castro Ferreira e ao Professor Dr. Júlio Assis Simões membros da banca de avaliação pela oportunidade de ter meu trabalho discutido e avaliado.
Faço um agradecimento especial a Professora Dra. Regina Facchini, que além de membro da banca de avaliação do meu mestrado, tem também um lugar importantíssimo em minha trajetória acadêmica como minha primeira orientadora de iniciação científica. Com ela, aprendi muito sobre a disciplina e o rigor na pesquisa, e principalmente sobre o valor do trabalho em equipe e a importância de pensar nas questões sociais. Agradeço às e aos colegas do Grupo de Estudos Diversidade Sexual Poder e Diferença pelas ricas trocas intelectuais ao longo dessa jornada.
I would like to thank Professor Matt Cook for supervising me during my stay in Britain. I am deeply inspired by his passion for the history of sexuality and his kindness and warming teaching methods alongside Professor Justin Bengry, to whom I’m also grateful for the opportunity of learning with. I also thank Professor Jeffrey Weeks for intermediating my contact with Professor Cook, Professor Yazmeen Narayan and Professor Sita Balani for accepting me in their module. I thank also to Birkbeck staff for the support during my stay. I also thank Professor David Patternote for introducing me to his lovely students.
Agradeço aos colegas da turma de 2015 do Mestrado em Antropologia Social, com quem aprendi muito sobre a pesquisa, sobre Antropologia e sobre um punhado de coisas mais. Agradeço às professoras e professores com quem tive o privilégio de ter aulas: Dra. Emília Pietrafesa de Godoi, Dra. Heloísa Pontes, Dra. Bibia Gregori, Dr. Antonio Guerreiro, Dr. Christiano Tambascia.
Agradeço às pesquisadoras e pesquisadores do Núcleo de Estudos de Gênero – PAGU, e agradeço especialmente Karina Gama Cubas da Silva, Luciana Camargo Bueno, Ana Carolina Canabarra pelo apoio e pelas risadas no corredor do PAGU. Agradeço também a Márcia Goulart, Luis Rabello, Fábio Guzzo, Cecília Maria Jorge Nicolau, pelo carinho e prontidão em me auxiliar nas questões burocráticas. Agradeço a Dona Marli e ao Luis Antonio
Benetti pelas divertidas conversas pelo IFCH. Agradeço ao Sr. Luiz, ao Benê e ao Rogério “Morcegão” (in memoriam) pelas inúmeras folhas de xerox e impressão que me trouxeram até aqui.
Agradeço também às professoras e aos professores: Dra. Nashieli Rangel Loera, Dra. Susana Durão, Dra. Ângela Araújo, Dr. Omar Ribeiro Thomaz, Dr. Gustavo Rossi, Dra. Natália Corazza Padovani, Dr. Mário Medeiros, Dr. Michel Nicolau, Dra. Karla Bessa, Dr. Renato José Pinto Ortiz. Faço um agradecimento especial à Professora Dra. Mariana Françozo pelas conversas inspiradoras e divertidas nos cafés e restaurantes ao sul e ao norte do Equador. Agradeço também ao professor Dr. John Monteiro (in memoriam) que fazia a Antropologia ser uma disciplina mais plural.
Por fim agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e ao Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo financiamento de minha pesquisa, sob o processo 2015/00640-5. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP e da CAPES.
“Ai meu Jesus Que negócio é esse daí? É mulher? Que bicho que é? Prazer, eu sou arte, meu querido Então pode me aplaudir de pé Represento esforço Tipo de talento Cultivo respeito Cultura drag é missão Um salve a todas as montadas da nossa nação Corro com vocês, eu sei que fácil não é nunca Lembra dos cara Achando que consumação paga peruca? (ahn?) Quando que vai reverter Não vou me submeter Tá difícil de dizer Vou me fazer entender...” Glória Groove, “Dona”
RESUMO
A pesquisa tem como foco a análise dos trânsitos de jovens, da periferia de Campinas, que se montam e aspiram à carreira de drag queen, apresentando-se em boates GLS, concursos, e paradas LGBT em Campinas e em outras cidades. Boa parte desses jovens vem de meios desprivilegiados e em sua maioria se consideram negros. A metodologia da pesquisa proposta é de fundamento etnográfico, contando com entrevistas em profundidade e observação participante. Dessa maneira, ao mapear as redes e trânsitos dessas drag queens, busco olhar para suas primeiras experimentações de gênero na Praça Bento Quirino, local de sociabilidade noturna LGBT jovem, passando pelas primeiras performances, com especial atenção para o concurso de novos talentos, organizado e realizado pela e na Comunidade Padre Anchieta (no distrito de Nova Aparecida em Campinas), até as performances em casas noturnas e paradas locais e regionais. Pretendo compreender, considerando a articulação entre marcadores sociais da diferença ao olhar para esses trânsitos, como as drag queens em questão compõem seus estilos e como se constituem suas carreiras.
Palavras-Chave: Redes de relações sociais; Antropologia urbana; Sexualidade; Performance (Arte).
ABSTRACT
This research is focused on the analysis of transits made by Campinas' periphery youngsters that impersonate and aspire a drag queen career, presenting in nightclubs, contests and LGBT parades in Campinas and other cities. A good number of these youngsters come from underprivileged backgrounds and the majority of them consider themselves black. The methodology here is fundamentally ethnographic, combined with in-depth interviews and participant observation. In doing so, by mapping the networks and transits of these drag queens, I intend to look to their primary gender experimentations in the Bento Quirino Square, place of young LGBT nightlife, passing through the first performances, with special attention to the Padre Anchieta's New Talents Annual Contest - organized by and placed in the Padre Anchieta Community (located in the Nova Aparecida district, in Campinas) -, and, finally, to the local and regional nightclubs and parades presentations. I seek to apprehend, by considering the articulation of social markers of difference on my approach of these transits, how the drag queens in question compose their style and how their careers are constituted.
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO...15
Convenções textuais e outras informações ...19
INTRODUÇÃO: “Hora de morfar” ...20
Um ponto de partida ...28
“Quem é você na noite?”: as interlocutoras da pesquisa, suas redes mais extensas e a praça ...31
CAPÍTULO I: “É tudo uma máfia”: trânsitos e transações na busca de um lugar no palco ...36
“Para subir no palco tem que participar das reuniões”: disputas políticas e pessoais por um lugar de destaque ...39
Sentando na mesa dos jurados do Concurso de Novos Talentos da Comunidade Padre Anchieta ...43
“Aqui a gente é livre para fazer o que quiser”: liberdades e constrangimentos na relação com o movimento LGBT ...50
CAPÍTULO II: “Mas ela faz show?”: os concursos nas boates e as excursões ...54
Dos palcos de Campinas para o mundo? Ou dos palcos do mundo para Campinas? ..56
“Garanta seu lugar por apenas vinte reais”: viajando com as drags ...58
“Jundiaí é logo ali”: outros caminhos para além de Campinas ...60
“Em uma hora e meia a gente tá lá”: cenas do “maior concurso de Drag do Brasil”69 “Obrigado aos meus filhos e ao meu público que sempre me acompanham” ...74
CAPÍTULO III: “As rainhas-mães” ...76
Entre mães e madrinhas ...81
A rainha do Sucão ...82
Amigas, amigas... negócios à parte? ...85
Nas casas das mães ...88
“E ela acaba virando drag e vai dela manter isso” ...95
CAPÍTULO IV: “Umas coisinhas aqui, outras ali”: objetos, redes e personagens que se (co)produzem ...97
“Hoje eu vou bem patrícia”: usos e abusos de estilos e categorias ...99
Primeiros passos e primeiras posses ... 103
“Vou te dar o meu sobrenome” ... 106
Perucas vem e vão ... 110
Sapatos, nomes e perucas: raça e classe da cabeça aos pés... 114
CONSIDERAÇÕES FINAIS: “É o que tem para hoje” ... 119
REFERÊNCIAS ... 122
ANEXO 1: Lista de Siglas e Abreviações ... 130
ANEXO 2: Informações básicas das interlocutoras de pesquisa ... 132
ANEXO 3: Roteiro de Entrevista ... 133
APRESENTAÇÃO
A atividade artística de drag queen alcançou nos últimos anos maior visibilidade social, com drags participando em quadros fixos da televisão aberta no Brasil e ocupando as principais páginas dos jornais na época das Paradas LGBT entre diferentes camadas da sociedade brasileira. Na década de 1990 as drag queens chamavam muita atenção e capitaneavam a nascente cena GLS. Após o início dos anos 2000, com o surgimento de uma cena eletrônica, muitas delas perderam espaço.
Mais recentemente, a popularização do reality show norte-americano RuPaul’s
Drag Race1 tem trazido novo fôlego à presença das drags no universo artístico, enfatizando
justamente as dimensões artística e política do “montar-se”. Drag queens nacionais têm sido foco de atenção do mercado musical, através do lançamento de músicas, discos e videoclipes, tendência que já era observada nos mercados estrangeiros. Outro fluxo interessante tem sido a circulação de drags que participaram do reality show estrangeiro no circuito de boates e casas noturnas GLS nacionais. O formato de reality show de drags foi retrabalhado nas versões brasileiras como o cômico quadro “Glitter: em busca de um sonho” na TV Diário de Fortaleza, Ceará; e no reality show distribuído online “Academia de Drags”, gravado em São Paulo.
Alavancadas pelos aplicativos de reprodução de músicas (como Spotify e Apple Music), além do já conhecido YouTube (site que hospeda vídeos e permite sua exibição), drags nacionais como Pabllo Vittar, Glória Groove e Lia Clarck e a travesti Mulher Pepita, despontam
nas estatísticas de reprodução de suas músicas e álbuns2. Nas redes sociais, drags nacionais tem
aparecido com força no cenário global e despertado a atenção dos estrangeiros.
Pabllo Vittar talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos desse recente sucesso estrondoso das drag queens. Natural de São Luís, capital do Maranhão, Phabullo Rodrigues da Silva se mudou com a família para o sudeste do país, passando por São Paulo, Campinas e por fim se estabelecendo em Uberlândia, no estado de Minas Gerais. Em 2015, Vittar publicou um videoclipe no YouTube parodiando a música “Lean On”, do grupo de pop eletrônico inglês
1 RuPaul’s Drag Race é um reality show da produtora norte-americana World of Wonder, e distribuído pelo canal
Logo TV. O programa é capitaneado pela drag queen RuPaul Charles, que se tornou famosa nos anos 1980 por desfilar para alguns estilistas. Conhecida na cena musical gay de Nova York e depois de Los Angeles, além de composições próprias, RuPaul gravou clipes com Elton John, The B52’s e Martha Wash, e também participou de filmes como “Para Wong Foo: Obrigada por Tudo” e séries de TV. Na competição, um conjunto de 9 a 14 drag queens competem em uma série de desafios para atingirem o título de “America’s Next Drag Superstar” e um prêmio em dinheiro. Atualmente muitas das drags mais aclamadas pelo público gravam músicas, participam de programas e comerciais de TV, e fazem tours internacionais para suas apresentações, nas quais o Brasil é um destino privilegiado.
2 ANGELO, Lu. “Pabllo Vittar e o movimento das drag queens que estão com tudo!”, Marie Claire, 21 de junho
Major Lazer em parceria com a cantora dinamarquesa MØ. “Open Bar”, a versão parodiada, atingiu a marca de um milhão de visualizações na plataforma virtual. Pabllo já havia participado em 2014 de um programa de televisão da filial da Rede Globo no Triangulo Mineiro, no qual interpretou a música “I Have Nothing” de Whitney Houston. A novidade com “Open Bar” é que a drag Pabllo Vittar tornara-se o centro das atenções no vídeo, não apenas dançando, mas também cantando.
“Open Bar” rendeu a Pabllo Vittar não apenas um conjunto enorme de fãs no Brasil, mas também chamou a atenção do grupo Major Lazer, que republicou o vídeo e alavancou as visualizações no exterior. Em 2016, Vittar foi convidada a fazer parte do elenco do programa “Amor e Sexo” da Rede Globo, apresentado por Fernanda Lima. Paralelamente, a cantora e artista drag investiu na carreira musical e começou a produzir o seu primeiro álbum, “Vai Passar Mal”. Hoje é a drag com maior número de sucessos musicais, inclusive chegando a lançar junto com a cantora carioca Anitta e o grupo Major Lazer o sucesso “Sua cara”.
Na rede social de compartilhamento de imagens e vídeos Instagram, Vittar atingiu em junho de 2017 uma marca inusitada. O número de seguidores que acompanham seu perfil
superou os 1,3 milhões de seguidores da conhecidíssima drag queen norte-americana RuPaul3.
Vittar conta hoje com cerca de 5,3 milhões de seguidores no Instagram. Pabllo Vittar
recentemente foi incluída na Billboard4, revista que elabora um ranking de artistas e músicas
mais tocadas, como uma revelação artística brasileira e também está incluída em um verbete no
Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira5.
O quadro observado nas elaboradas fotos publicadas em redes sociais e na mídia exala um glamour e um luxo quase inebriantes. Há nessa narrativa de sucesso meteórico de drag queens, como Pabllo Vittar, a abertura de um espaço de possibilidades de carreira e expressão artística significativo. As drags de sucesso, curiosamente todas muito jovens, se tornaram referencias artísticas e estéticas interessantes para as demais. Em resumo, é visível o sucesso das drag queens, ou pelo menos de algumas delas. O caminho trilhado por Vittar e por outras drags conhecidas é talvez muito parecido com as demais jovens artistas que se lançam nesse campo artístico aberto e indefinido, repleto de expectativas e sonhos, mas nem sempre tão abundante em possibilidades.
3 FOLHA DE SÃO PAULO. “Pabllo Vittar passa RuPaul, a drag queen mais famosa do mundo, em rede social”,
28 de junho de 2017.
4 BILLBOARD. “Meet Pabllo Vittar: Major Lazer's Favorite Brazilian Drag Queen”, 30 de junho de 2017. 5 DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DE MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Verbete Pabllo Vittar.
Desde Campinas, a terceira maior cidade do estado de São Paulo, com mais de um milhão de habitantes, tenho observado a partir do contato com um grupo de drag queens os desafios da construção da carreira artística. Nas páginas a seguir conheceremos um grupo de jovens artistas que ainda não atingiram o sucesso de Vittar. Mais importante que pensar o que separaria Pabllo Vittar desse grupo de jovens e criativas artistas campineiras, é pensar o que as une. Uma de minhas interlocutoras disse recentemente que chegou a conhecer Pabllo Vittar na passagem dela por Campinas antes do sucesso. Outras se reconhecem nas dificuldades vividas por Pabllo antes e depois da fama. São histórias como as dessas artistas, que até já se cruzaram no vai-e-vem da vida com outras e outros artistas conhecidos, que pretendo apresentar aqui.
Não tenho a intenção de fazer uma história definitiva das drag queens em Campinas. Tampouco consegui reunir um compêndio das histórias de todas as drag queens e artistas transformistas que viveram e vivem na cidade. Neste texto a leitora ou o leitor encontrarão algumas pistas, alguns relatos, histórias e tentativas de explorar esse grupo fascinante, determinado e criativo de artistas.
Esta pesquisa teve como objetivo compreender algumas das dinâmicas que envolvem os deslocamentos realizados por jovens de Campinas que se montam artisticamente (eventualmente aspirando a uma carreira profissional de drag queen). Como objetivos específicos me dediquei: a) explorar como, nos trânsitos realizados pelas interlocutoras da pesquisa se produzem diferenças e desigualdades; b) investigar a constituição de performances, carreiras e trajetórias pessoais e profissionais das interlocutoras, com especial atenção às possibilidades de agência envolvidas; c) mapear as redes por meio das quais circulam pessoas, objetos e informações, compreendendo como se constituem e que tipos de relações mobilizam; d) contribuir para a literatura antropológica sobre trânsitos e deslocamentos a partir de uma perspectiva que compreende a articulação de gênero e sexualidade com raça, classe social, geração, entre outras categorias.
Os deslocamentos aqui investigados se dão nos espaços na cidade de Campinas, entre regiões da periferia e lugares na região central, associados ao público LGBT. Também dizem respeito aos deslocamentos entre cidades, como nos casos de ônibus e vans organizados em forma de excursão para acompanhar os shows. No decorrer da pesquisa tive a oportunidade de perceber a complexidade e riqueza desses fluxos e circulações entre as jovens drag queens, muitas vezes propulsionados pelas famílias drag e pelas redes em torno delas, que funcionam a um só tempo como suporte e como correia de transmissão. Isso porque os fluxos não se restringem apenas às pessoas, mas também incluem informações, objetos e aspirações, de modo a fazer circular significados a respeito de diferentes lugares e a respeito da carreira artística de
drag queen como possibilidade profissional, que oscila entre a informalidade dos primeiros shows e a formalidade das performances regulares em casas noturnas.
Convenções textuais e outras informações
Nesta dissertação, adotei algumas convenções textuais a fim de melhorar a compreensão do texto. Utilizo pseudônimos para me referir às interlocutoras e interlocutores a fim de resguardar suas identidades. Ao mencionar as drag queens utilizo o feminino conforme o uso que minhas interlocutoras e interlocutores fazem no dia a dia. Emprego, em alguns momentos, o masculino, como forma de me referir às drags desmontadas, além de outros interlocutores que se concebem enquanto masculinos.
Na reprodução de excertos publicados no Facebook, em seus perfis públicos registrados com o nome da personagem drag, alterei nomes no caso de menção de interlocutoras ou interlocutores. Não optei pelo uso do termo sic quando as citações não seguem a norma culta da língua portuguesa, haja vista que tais diferenças em relação à norma culta não possuem relevância para a compreensão do texto. Ademais, não pretendo aqui reproduzir preconceitos linguísticos. As categorias êmicas e estrangeirismos serão grafados em itálico. Utilizo aspas para me referir a trechos de falas de interlocutoras e interlocutores.
Os mapas apresentados ao longo do texto foram produzidos no software ArcGis, em sua versão online e gratuita. As imagens presentes no texto são filipetas de divulgação de casas noturnas, sendo todas de domínio público.
INTRODUÇÃO: “Hora de morfar”
Foi em um fim de tarde frio, do dia 15 de maio de 2015 que vi a expressão que uso como título desta seção. Estava me preparando para o que seria a minha primeira ida a campo como pesquisador. Preocupado em analisar os trânsitos realizados por jovens aspirantes a drag
queens6 da periferia de Campinas, eu não podia senão acompanhá-las também nas redes
sociais7. Assim, tomo emprestada a expressão acima de uma atualização publicada por uma
jovem drag queen campineira no Facebook8, Teresa Bravo Sierra, uma das interlocutoras desta
pesquisa. Teresa tem em torno de 21 anos, se considera negra, mora em um bairro da periferia9
e tem cerca de três anos de carreira.
No painel da rede social constava um breve texto que atualizava seus amigos e seguidores sobre o que ela estava fazendo naquele momento. A drag estava chegando em sua casa após o trabalho e iniciando os preparativos para se montar, expressão mais corrente no
meio drag10 (e também no meio GLS11). Se montar é um processo de modificação corporal
analisado em diferentes estudos que vão desde os trabalhos com travestis e transexuais (BENEDETTI, 2006, BARBOSA, 2010, DUQUE, 2009) até drag queens e crossdressers (VENCATO, 2002, 2013). O ato de se montar pode ser entendido como uma exploração de possibilidades corporais distintas, ao adotar um conjunto de elementos relacionados a ideais de feminilidade e masculinidade. Neste estudo, o processo de se montar, como veremos adiante é tomado como a construção de uma personagem drag que vai além da produção de figuras femininas, ensejando possibilidades de produzir também deslocamentos de raça e classe.
6 Concordando com as ponderações de Anna Paula Vencato (2002), utilizo aqui o termo drag queen sem qualquer
diferenciação, posto que seu uso já é bastante corrente na língua portuguesa. Ressalto, porém, que este não é o único termo mobilizado pelas pessoas que contribuíram com esta pesquisa, como desenvolverei ao longo do texto.
7 O uso recorrente e intenso das redes sociais digitais é facilmente verificado no contexto em que desenvolvo a
pesquisa. Assim, as relações online e off-line se coproduzem, e neste trabalho são pensadas em conjunto (Falcão, 2017).
8 O Facebook é uma rede social na qual é possível criar um perfil pessoal e interagir com outros perfis, trocar
mensagens, divulgar textos, imagens e vídeos. É possível também acompanhar e criar páginas, com funcionalidades idênticas às dos perfis.
9 A categoria periferia é utilizada aqui tão somente para me referir a bairros afastados da região central de Campinas
e dos equipamentos públicos e oportunidades que ali se concentram.
10 Utilizarei a categoria êmica meio drag para me referir ao conjunto mais amplo de drag queens.
11 O uso da sigla GLS aqui não se refere apenas ao mercado, como se convenciona na literatura sobre o tema, mas
também como uma categoria que emergiu em campo na fala de minhas interlocutoras. No decorrer do texto, a sigla será empregada como meio de referência ao mercado, salvo quando na reprodução de falas de interlocutoras e interlocutores.
Para um aprofundamento nas reflexões sobre mercado GLS, sociabilidade, categorias identitárias e marcadores sociais da diferença, os trabalhos de França (2006, 2012), Facchini (2008), França, Facchini e Braz (2014) se constituem como referencial obrigatório. As reflexões de França (2006, 2012) instigam a pensar como o mercado, e me refiro a casas noturnas que contratam jovens drag queens, nos termos da autora, “contribui para a produção mesma de sujeitos, categorias de identidade, e estilos” (2012: 19).
Na ocasião, se montar e morfar se constituíram enquanto sinônimos. O termo
morfar tem certo tom de nostalgia. Afinal, a coorte de pessoas que contribuíram para essa
pesquisa (de idade entre os 18 e 25 anos, da qual também faço parte) em algum momento da
infância certamente ouviu/repetiu a clássica expressão usada pelos Power Rangers12, popular
série infantil inspirada num gênero televisivo japonês que combina artes marciais e ficção científica. Na série, em certo momento da batalha é chegada a “hora de morfar”, uma espécie de turning point no qual os heróis acionam dispositivos variados que os modificam corporalmente, metamorfoseando-as/os em guerreiros e guerreiras que usam um collant colorido, um capacete e uma arma especial e única. Suas novas formas corporais têm uma aparência futurista/ciborgue; as distinções entre homens e mulheres se mantém apenas pelas diferenças de cores e as vozes na dublagem (e eventualmente na presença de seios), visto que todos e todas eram interpretadas (os) por dublês masculinos até pouco tempo. A partir desse momento os golpes, cortes e quedas são acompanhados de faíscas, piruetas no ar e pequenas explosões. Tudo se torna espetacular, grandioso e fantástico.
Naquela altura eu possuía certa familiaridade com algumas de minhas interlocutoras de pesquisa. Em ocasiões anteriores, já havíamos sido apresentados em decorrência de minha participação na Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas. No encontramos tanto em eventos do Mês da Diversidade, quanto em outros encontros organizados pela militância LGBT da cidade, possuíamos amizades em comum, e eu já havia assistido alguns de seus shows.
Logo, nosso contato prévio me possibilitava acessar Teresa via rede social. Tínhamos marcado de nos encontrar naquela noite de sexta para conversar. A etapa final de um concurso de melhor show aconteceria na noite em questão em uma boate não muito distante, o Club Subway, motivo pelo qual a praça estava bem cheia. Teresa estava se preparando para ir ao concurso apoiar uma de suas colegas, Norma, que havia chegado na final. Norma se considera branca, tem por volta de 24 anos e mora no mesmo bairro que Teresa. Nessas ocasiões há uma norma que deve ser respeitada, a de que uma drag não deve brilhar mais que aquela que está competindo no palco.
12 Os Power Rangers são uma versão americanizada de um gênero televisivo de origem japonesa chamado
Tokusatsu que mistura elementos de artes marciais variadas com ficção cientifica e mitologia, e utiliza efeitos especiais. Os Power Rangers são um grupo de 5 ou 6 jovens de ambos os sexos e de diferentes origens (sociais, raciais e étnicas) que dominam artes marciais orientais e são incumbidas/os de proteger o planeta de monstros/alienígenas/espíritos malignos que aparecem em bizarros núcleos urbanos que misturam Japão e Estados Unidos. Quando os monstros aparecem, os Power Rangers são alertados e se deslocam imediatamente para confrontar o invasor e o exército de lacaios que geralmente o acompanha.
Nosso local de encontro era a Praça Bento Quirino, popularmente conhecida e doravante denominada como Praça do Sucão, ou simplesmente Sucão, localizada na região central da cidade.
Mapa 1 - Região Central de Campinas delimitada pelo Projeto Rótula13, representado em linhas tracejadas nos
seus dois sentidos, com alguns pontos de referência
A praça é um dos poucos locais públicos de sociabilidade para jovens lésbicas, gays, travestis e transexuais, fervilhando nas noites de sexta-feira. O público mais jovem, com idades entre 16 e 26 anos, vem das periferias da cidade e se reúne em alguns pontos da praça como o túmulo do maestro Carlos Gomes e a estátua de Bento Quirino, importantes figuras históricas campineiras. Em uma de suas extremidades estão localizados bares, sendo um deles um ponto
de interesse para esta pesquisa, o Ki-Sucão14, onde funcionava o antigo Bar do Sucão, palco de
um episódio de violência homofóbica que resultou na ocupação da praça por jovens que
pudessem ser reconhecidos amplamente pela categoria LGBT15. É também na praça que muitas
jovens drag queens aparecem montadas pela primeira vez.
13 O Projeto Rótula é uma iniciativa urbana de Campinas com o intuito de reduzir o fluxo de veículos na região
central, através da abertura de grandes avenidas. Utilizo-o como uma referência comum de delimitação da região central.
14 O Ki-Sucão encerrou suas atividades entre o final de 2016 e o começo de 2017. Mantenho aqui o nome como
um pequeno registro histórico daquele bar que ousou a ostentar um banner nas cores da bandeira do Orgulho LGBT.
15 Como discutem Simões e Carrara (2014) o campo de estudos de sexualidade renova o seu arsenal de categorias
de maneira bastante rica e dinâmica, de modo que as siglas não conseguem dar conta da totalidade de identidades possíveis que emergem em campo. Assim, tomo LGBT e GLS como categorias que servem como referência, uma vez que não conseguem acomodar as inúmeras possibilidades identitárias.
Mapa 2 - Praça do Sucão com alguns pontos de referência
Estava acompanhado por meu companheiro e duas amigas (todos antropólogos em formação) naquele dia. Chegamos por volta das 22:30 na praça, e já havia uma quantidade boa de pessoas. Assim que descemos do ônibus, nos deparamos com uma drag que usava um vestido longo, saltos altos, uma maquiagem forte com linhas bem definidas e um aplique loiro na cabeça raspada. Ela estava acompanhada por um rapaz que a assistia com o vestido longo e uma bolsa, e me pareceu impaciente quando passou por nós. Fui saber mais tarde que ela era uma das finalistas do concurso.
Dei uma pequena volta para ver se minha (futura) interlocutora já havia chegado. Não a encontrei. Nos sentamos em uma das mesas do Sucão e ficamos observando as pessoas. Notei que se tratava de uma prática comum ali, afinal, nas mesas ao lado, pessoas mais velhas conversavam entre si e olhavam os e as jovens que perambulavam pela praça. Tomei um refrigerante e dividi um sanduiche com meu companheiro. Resolvemos andar mais.
A segunda volta foi mais promissora, começamos a encontrar rostos conhecidos e pude cumprimentar algumas pessoas. Eis que surgem, na extremidade oposta da qual estávamos, Teresa, acompanhada de outra drag que eu também conhecia, Helena. Havia nas duas uma elegância comedida. A primeira usava uma peruca loira, uma blusinha de alças, um jeans e botas de camurça. A segunda vestia um sobretudo preto, um vestido tubinho, um sapato de salto alto aberto e uma peruca escura lisa. Helena se considera negra, tem cerca de 25 anos, mora no mesmo bairro que Teresa e tem mais de 6 anos de carreira.
Muitos jovens vieram ao encontro delas para abraçá-las e beijá-las. Ouvi por alto alguns deles se referirem a elas como “mãe” e “vó”. Achei curioso, afinal ambas tinham menos de 25 anos, e mal sabia que aquelas formas de tratamento significavam muito. Fui ao encontro delas para entrar na “fila” dos cumprimentos. As duas se dividiram naquele momento. Helena continuou andando na praça na direção dos bares. Teresa, com quem eu havia conversado tinha parado para conversar com outra drag, Jane, que usava um sobretudo creme, sandálias de salto, uma peruca escura de cabelos longos e um boné, sua maquiagem estava feita e soube que ela também era uma das finalistas. Ao lado dela estava seu namorado.
Teresa saiu e foi cumprimentar mais gente. Conversei com Jane e me apresentei como pesquisador. Ela se interessou pela pesquisa, e veio a se tornar uma das interlocutoras. Jane tem em torno de 25 anos, se concebe como negra e mora em um bairro da periferia da cidade com seu namorado. Tem cerca de 7 anos de carreira. Quando perguntei sobre sua carreira, ela contou um pouco sobre seu trabalho e, assim que uma das minhas amigas comentou que eu já tinha sido maquiado de drag em uma oficina, ela retrucou me perguntando se eu me
montava de drag. Senti que a conversa ficou levemente desconfortável, afinal, eu já suspeitava
que a competição no meio drag era acirrada. Tempos depois desenvolvi uma grande amizade com esta drag e ela foi a primeira drag a me conceder uma entrevista.
Reencontrei Teresa por volta das 23:30. Ela estava conversando com algumas pessoas e me disse que logo mais desceria para a boate do concurso. Perguntei se poderíamos acompanha-la e ela disse que não havia problemas. Helena ainda estava conversando e cumprimentando as pessoas, o que a deixava impaciente. E Jane já tinha ido para a boate. Por volta da meia-noite, saímos da praça, eu, meu companheiro, minhas amigas, Teresa e mais dois jovens.
O trajeto é curto, algo como 15 ou 20 minutos de caminhada. Conversei com Teresa
sobre seu emprego como maquiador16 em uma loja de cosméticos no centro da cidade. Ela me
falou da demora em se montar, quando comparado com as mapôs17, pois esconder a barba e
preparar o rosto para as camadas de sombra leva tempo. Eu estava com uma jaqueta e perguntei a ela se não estava sentindo frio, a resposta foi negativa porque a peruca, que estava presa na cabeça com fitas e grampos, esquentava demais.
16 A não concordância de gênero na frase é proposital e se refere à distinção entre a carreira, tratada no feminino,
e o emprego que tem quando não está montado.
17 Mapô ou amapô é um termo utilizado no Bajubá (ou Pajubá), que significa mulher. O Bajubá é um dialeto
Mapa 3 - Deslocamento na companhia de Teresa em maio de 2015
No percurso ela me contou que andava bastante a pé, tanto de boy quanto montada. Também me disse que as botas que ela usava foram um presente de uma travesti que se apresentava na boate, e que tinha se mudado para a Espanha recentemente. Naquelas botas, me dizia, ela já tinha andado do Campinas Shopping até o Jardim Itatinga18 montada. Sobre o
trajeto, a drag me relatou que já sofreu perseguição de skinheads19, que em geral circulam pela
região do Centro de Convivência na Praça Imprensa Fluminense, e teve que se esconder embaixo de uma camionete para escapar da ameaça de violência.
Assim que chegamos na boate, a drag se adiantou e ficamos esperando na fila para entrar. Uma vez dentro da boate tornou-se difícil localizá-la. Esperamos na pista de dança que ficava cada vez mais cheia. Por volta de umas 2:00 da madrugada saímos da pista e nos sentamos em algumas das mesas próximas ao bar da boate. Nunca fui um habitué das casas noturnas, e já suspeitava que a pesquisa com drag queens demandaria certa capacidade de ficar acordado por muito tempo. Cochilei encostado na parede, enquanto meu companheiro e minhas
18 O Jardim Itatinga é um conhecido bairro de prostituição em Campinas. Fica localizado nas proximidades do
Aeroporto Internacional de Viracopos.
19 Os skinheads a que Teresa se refere são grupos de jovens agressores em potencial que vagueiam pelo centro da
cidade com algumas vestimentas características (botas pretas, calças jeans e jaquetas de couro ou jeans), e que no pós-1980 se tornaram símbolo de intolerância e extremismo. Hebidge (1979) observa em sua análise dos skinheads ingleses uma forma de produção de sua identidade a partir da agressão a outros grupos, como os LGBT. Os skinheads ingleses têm em sua composição identitária um processo paradoxal de apropriação de signos da cultura caribenha unidos a signos de uma classe trabalhadora branca empobrecida. No Brasil, se tornaram conhecidos a partir dos casos de agressão a negros e negras na região metropolitana de São Paulo.
Na entrevista que realizei com Teresa em fevereiro de 2016, ao mencionar o episódio, ela sentiu que a hostilidade demonstrada pelo grupo se deu mais em função de sua cor de pele do que em função de sua sexualidade.
amigas conversavam. Em diálogos posteriores, algumas drags me contaram que conseguiam ir trabalhar após uma noite de show, e presenciei algumas delas, assim como os espectadores dos shows, saindo da boate em direção aos seus empregos diurnos.
Fui acordado por Teresa, que riu de meu cochilo improvisado. Já era perto das 2:45 e o concurso começaria logo mais. Descemos novamente para a pista de dança e havia uma aglomeração na frente do palco. Vi Helena rodeada por jovens gays também próxima ao palco. Teresa estava próxima da área que dava acesso ao palco conversando com outras pessoas.
Por volta das 3:00 surgiu um aviso projetado no fundo do palco pedindo que as fotos fossem tiradas sem flash para não atrapalhar as artistas e que o show estava prestes a começar. Logo surgiu a apresentadora do concurso, uma drag campineira muito conhecida, com mais de duas décadas de carreira. Ela apresentou os jurados do concurso que estavam no camarote da boate, um mezanino logo acima da pista de dança, onde havia empresários do mercado GLS, artistas locais e costureiros. Após seu show, as drags começaram a se apresentar individualmente.
Estilos diversos competiam naquela noite. A primeira foi uma caricata. As
caricatas são drags humoristas e que fazem apresentações jocosas, uma das mais típicas
representações do camp20. Em seguida foi a vez de uma lenta que dublava uma música
romântica. As lentas são drags que fazem apresentações mais comedidas, sem movimentos bruscos e geralmente dublam músicas de divas21. Depois foi a vez de uma andrógina que apresentou um heavy metal vestida de noiva. As drags andróginas são conhecidas pelas
montarias extravagantes e espetaculares, e como o nome já diz, se montam de maneira ambígua,
misturando elementos tidos como masculinos e femininos.
Logo em seguida, Sara Echo, uma top, entrou no palco. As tops são drags que fazem
shows com música pop ou eletrônica e, eventualmente, bate cabelo22. Sara era a drag com a
qual esbarramos ao descer do ônibus. Ela usava uma peruca escura longa ao invés do aplique
20 O camp é uma expressão norte-americana que se refere a uma espécie de “humor gay” característico. Sontag
(1964) em suas notas, observa um conjunto de aspectos que poderiam caracterizar e sinalizar uma possível definição do que seria camp. Uma atitude camp é permeada de um conjunto de elementos que reúnem gosto, conhecimentos diversos e um senso de humor peculiar.
21 Diva é um termo originado na ópera italiana, que designa a cantora principal. Algumas cantoras se notabilizaram
ao longo de suas carreiras artísticas pela presença de palco, potência vocal e o destaque que alcançaram, como é o caso de Aretha Franklin e Whitney Houston. No caso brasileiro cantoras como Elza Soares e Alcione são exemplos de divas. O termo foi reinterpretado a partir da nomeação de algumas divas do pop music, como por exemplo Madonna e Beyoncé, que se tornaram ícones de adoração. Nas boates ainda, é possível observar uma atitude diva que geralmente estaria associada ao exagero nos modos e na elegância.
22 O bate-cabelo é uma forma de apresentação com movimentos circulares da cabeça em que as drags agitam a
peruca ao som de uma música específica, com a adição de efeitos sonoros como chicotes sincronizados com a coreografia. Suas origens remontam à década de 1990, a partir das performances da drag paulistana Márcia Pantera.
loiro, uma cartola, tinha trocado o vestido rosa longo por um maiô e contracenava com dois dançarinos.
Em seguida entrou Jane, a drag com a qual conversamos na praça, com seu estilo
brasileira. As brasileiras dublam músicas nacionais e sambam. Ela estava acompanhada por
seu namorado encenando um “samba de botequim”, de Elza Soares.
Por fim entrou uma andrógina novamente, mas com uma proposta diferente: estava de branco como uma mãe de santo e estava acompanhada também por seu namorado, a certa altura do show, uma espécie de pausa dramática ela se dirigiu ao fundo do palco e ressurgiu vestindo uma roupa vermelha e dourada e uma coroa em estilo “africano”, interpretando Clara Nunes. Era Norma Delta. Ela foi ovacionada e em meio aos gritos e aplausos das duas drags (Helena e Teresa) com quem me encontrei na praça, pude distinguir um “arrasou filha!”.
Ao término dos shows, todas as drags voltaram ao palco e dançaram em conjunto com a drag apresentadora uma música de Liza Minelli. Finalizada a última apresentação era hora de os jurados entregarem suas notas para que os resultados fossem anunciados. Uma pequena confusão começou na porta de um dos banheiros, que dava para a pista de dança. Perto do alvoroço estava uma das top drags campineiras e a apresentadora fez uma piada dizendo que ela deveria se afastar pois “só seu rosto valia um apartamento em um bairro nobre da cidade”. A briga foi logo resolvida pelos seguranças e felizmente o valioso rosto da top foi preservado. O suspense aumentava com as provocações da apresentadora e por fim o resultado foi anunciado.
A vencedora foi Norma, sendo que o segundo e o terceiro lugar ficaram com a
caricata, e Jane, a brasileira. O prêmio foi um cheque no valor de mil e duzentos reais, mais
um contrato com a casa noturna. As outras vencedoras também receberam presentes e ofertas
de show na casa. Ao receber o prêmio, Norma arrancou a peruca23 de sua própria cabeça e disse
que era assim que ela deveria ser coroada, pois “foi assim que ela havia começado a se apresentar no concurso”. Em seguida agradeceu emocionada as duas drags, aquelas com as quais conversei na praça, pelo apoio e pela preparação do show.
Já passava das 4:30 quando o show acabou e decidimos ir embora. Eu estava exausto, mas pude ver que as drags que se apresentaram ainda tinham pique para dançar em
23 Arrancar a peruca é um gesto desafiador e cheio de significados. Quando realizado por uma terceira pessoa,
pode ser visto como uma ofensa grave. Quando arrancado por si mesma, em função de uma briga, pode intensificar a agressividade dirigida a outra pessoa, às vezes associada à figura masculina do criador da drag. Também pode representar certa humildade e ainda um gesto de se “revelar’ para o público. Como no caso visto aqui, no qual Norma ao receber o prêmio resgatava o seu início de carreira, no qual não possuía nenhuma peruca.
meio ao público. Tempos depois ouvi relatos de que também é necessário se misturar com o público nessas ocasiões para que a drag se torne mais conhecida.
Lidar com deslocamentos não é uma tarefa fácil, especialmente quando se pretende realizar uma etnografia com base em observação participante. Há uma exigência física que consome os menos notívagos, como eu. Assim a noite de 15 de maio, e a madrugada do dia seguinte, tem um significado especial para mim. Foi minha primeira experiência de campo e também minha hora de morfar, ou de me montar de pesquisador.
Um ponto de partida
Esta pesquisa me colocou diante de desafios, que ainda não tinha enfrentado. Perguntava-me sobre como deveria estabelecer contato com novas pessoas. De que maneira poderia viabilizar minha inserção em campo? Eu sabia que não poderia acessá-las unicamente através do computador ou dos livros e nem sempre ao me deslocar ao campo teria certeza absoluta de quem exatamente eu encontraria, caso encontrasse alguém.
Assim, nesta seção, busco apresentar alguns percursos metodológicos pelos quais a
pesquisa tem me levado. Tomo como inspiração as reflexões de Max Gluckman24 sobre a
rentabilidade de uma análise voltada para as situações sociais, adotando algumas estratégias analíticas sugeridas por Isadora Lins França (2013). Desse modo, elegi um conjunto de eventos, tanto dentro de Campinas, como aqueles organizados por grupos e coletivos militantes e shows em boates locais, quanto fora da cidade, como no caso das excursões para shows e concursos. A organização de excursões para os shows em outras cidades emergiu como um tipo de evento importante para pensar os deslocamentos de natureza espacial e social. Nessas ocasiões pude observar um conjunto de negociações que não apenas viabilizaram o transito de minhas interlocutoras, mas que mobilizaram redes familiares que conformaram esses trânsitos. Algumas pesquisas com drag queens no Brasil se dedicaram a uma minuciosa e rica exploração dos aspectos relacionados a performance. Um conjunto de trabalhos (SANTOS
2008, CORRÊA 2009, LOPES 2011)25 desenvolvidos em programas de pós-graduação em
Psicologia e Artes Plásticas, evidencia uma multiplicidade de abordagens possíveis para os estudos, atravessando os limites das Ciências Sociais.
24 As situações sociais constituem uma grande parte da matéria prima do antropólogo, pois são os eventos que
observa. A partir das situações sociais e de suas inter-relações em uma sociedade particular, podem ser abstrair a estrutura social, as relações sociais, as instituições etc. daquela sociedade. Por meio dessas e de novas situações, o antropólogo deve verificar a validade de suas generalizações. (GLUCKMAN, 2010 [1958], p. 239).
“Fervendo com as drags” (2002), de Anna Paula Vencato, é um trabalho central nos estudos sobre drag queens no Brasil, sendo uma referência fundamental para as pesquisas que o sucederam. Nele, Vencato analisa cena drag de Santa Catarina e dialoga com uma literatura de inspiração butleriana que se tornou consagrada em parte dos estudos de Gênero e Sexualidade. Vencato observa de forma bastante atenta o processo de construção de uma imagem drag, tendo como contexto o carnaval florianopolitano, momento em que as drags catarinenses aumentam a quantidade de shows.
Na esteira das discussões, outros trabalhos se dedicaram à exploração da composição da performance e as discussões sobre corporalidade. Como em “Femininos de montar: Uma etnografia sobre experiências de gênero entre drag queens” (2012), de Joselyson Fagner dos Santos, trabalho que apresenta de forma cuidadosamente detalhada o processo de produção dos corpos de algumas drag queens em Natal, no Rio Grande do Norte.
Nos dois trabalhos há um investimento teórico e etnográfico valioso nas performances das drag queens. A descrição minuciosa dos processos de produção dos corpos e das personagens evidencia o borramento dos limites de gênero e sexualidade. Em minha pesquisa, as performances das drag queens também ganham lugar central, no diálogo com os trabalhos que a precedem. Ao mesmo tempo, procuro também dar ênfase às redes das quais participam as drags e à circulação não apenas das pessoas, mas também de informações e objetos fundamentais para a montação. Os deslocamentos, espaciais e sociais, ganham importância na medida em que são marcados não apenas por sexualidade e gênero, mas também por outras dimensões sociais como raça e classe.
Cabe ressaltar que, pautado na formulação de Anne McClintock (2010), entendo gênero, sexualidade e demais marcadores de diferença social como constituindo-se em e através uns dos outros. Se “vidas reais são forjadas a partir de articulações complexas dessas dimensões”, expressão de Avtar Brah (2006: 341), utilizarei, portanto, perspectivas insterseccionais (BRAH, 2006; MCCLINTOCK, 2010), em sua vertente denominada
construcionista por Piscitelli (2008), para refletir sobre tais articulações.
Além disso, busquei incorporar o debate antropológico atual acerca das relações entre esses diversos marcadores sociais de diferença produzido no âmbito dos estudos de gênero e sexualidade no Brasil. Esses estudos são marcados pela combinação entre contribuições hoje já clássicas da antropologia brasileira sobre gênero e sexualidade com perspectivas
contemporâneas sobre interseccionalidades (FACCHINI, 2008; FRANÇA, 2012; FACCHINI,
FRANÇA, BRAZ, 2014; MOUTINHO, 2014)26.
Para os objetivos desta dissertação, as teorias mencionadas oferecem reflexões contundentes em torno da diferença, da desigualdade e da não-hierarquização entre distintos marcadores sociais da diferença. Desse modo, nessas teorias, a diferença não implicaria apenas em desigualdade: em determinados contextos, a diferença pode gerar desigualdade, em outros, pode produzir diversidade. Levando ainda em consideração o arranjo mais geral desta proposta, a ideia é também pensar como os trânsitos e deslocamentos espaciais das drag queens podem se configurar também como deslocamentos sociais nesse cenário.
Considero que, ao transitar por diferentes espaços – e ao se apresentar neles como drag queens a partir de performances que ressignificam sua posição como pretas e pobres – as jovens drag queens encontram novos contextos, que oferecem constrangimentos, mas também possibilidades de manejo de sua posição como sujeitos. Acompanho, aqui, a discussão proposta pela geógrafa britânica Doreen Massey, que sublinha a importância de pensar mobilidades, deslocamentos e fluxos contemporâneos a partir da produção de diferenças e desigualdades, numa leitura em que a mobilidade espacial também expressa e produz essas diferenças (MASSEY, 2000).
Ainda, é preciso lembrar que parte importante da produção brasileira sobre interseccionalidades tem acompanhado trânsitos no espaço da cidade como modo de refletir sobre processos de diferenciação e relações de poder (FRANÇA, FACCHINI, GREGORI, 2016). Néstor Perlongher (1987), de forma precursora, observou como os michês e clientes sobre os quais constrói sua dissertação deslocam-se no espaço urbano constantemente, numa “deriva” em que lidam com diferentes códigos-território, manejando suas posições de sujeito de forma contextual27.
Compondo esses trânsitos, há a constituição de redes que facilitam, possibilitam ou estimulam esses deslocamentos. Inicialmente, o foco desta dissertação estava mais concentrado em como as redes possibilitavam os deslocamentos das drag queens. Com o decorrer do trabalho, ficou claro que circulam por essas redes não apenas pessoas, mas também informações, estilos, padrões estéticos, objetos, coreografias, performances e músicas, que foram também ganhando mais relevância.
26É importante mencionar ao menos as contribuições de Perlongher (1987) e Fry (1982). Tais autores não
dispunham das discussões acerca das teorias das interseccionalidades no momento em que produziram, todavia, enfrentaram em seus trabalhos problemas parecidos com os aqui abordados.
27 Na esteira das discussões de Perlongher, Moutinho (2006), Facchini (2008) e França (2012) avançaram nas
O conceito de “rede” na esteira das discussões feitas por Strathern (1996) parece apresentar rentabilidade teórica e empírica para a compreensão das diferentes circulações relacionadas às drag queens, haja vista que, como aponta a autora, oferece a possibilidade de referir-se a uma interconectividade na qual os pontos conectados podem variar do ponto de vista material ou formal. Para a autora britânica, “uma rede é uma imagem apta a descrever a maneira pela qual se pode ligar ou enumerar entidades díspares sem presumir nível ou hierarquia” (STRATHERN, 1996: 522). Tal noção nos abre a possibilidade de olhar para “entidades díspares” como pessoas, informações e objetos como pontos na rede.
“Quem é você na noite?”: as interlocutoras da pesquisa, suas redes mais extensas e a praça
Para esta pesquisa três drag queens foram interlocutoras28 centrais, de idade entre
21 e 25 anos, autodeclaradas negras, residentes em bairros da periferia de Campinas e que compartilham o sonho e o desejo de constituírem uma carreira artística de drag. Duas delas me concederam entrevistas gravadas. Entretanto, durante a realização da pesquisa de campo tive contato com redes mais amplas que envolvem outras jovens drag queens (de idades entre 18 e 25 anos), drag queens com mais de 30 anos, filhos e filhas de drag, ativistas do movimento LGBT local, atores das iniciativas de mercado, gestores públicos e ativistas culturais da cidade.
Realizei entrevistas semiestruturadas29 como forma de complementar as
observações de campo. As entrevistas foram importantes para acessar trajetórias pessoais e
relatos do início de suas montarias. Ainda, tomá-las como uma situação a ser observada30, ajuda
a enriquecer o conjunto de dados disponíveis para a pesquisa.
Diferente de outros campos de pesquisa, as drag queens possuem algumas particularidades que por vezes requerem do pesquisador um uso menos aprofundado das entrevistas. Suas várias jornadas de trabalho impedem que as entrevistas sejam marcadas com facilidade, e nem sempre permitem que sua duração seja extensa, de modo que realizei
28 Um quadro contendo as informações básicas das interlocutoras drag mencionadas no texto está disponível no
Anexo 2.
29 Elaborei um conjunto de perguntas, disponíveis em anexo, que servem como um roteiro de questões durante a
entrevista. Agrupei as perguntas em eixos temáticos, que servem como guia para os assuntos mais gerais. Optei por realizá-la no formato de uma conversa, na qual utilizo algumas das perguntas para estimular que a interlocutora fale sobre determinado assunto, sendo que no decorrer da entrevista, algumas perguntas acabam sendo respondidas. Caso a interlocutora não deseje que uma resposta seja registrada, ou que uma pergunta não seja respondida conforme as recomendações éticas da pesquisa e o termo de concessão de entrevista, as interlocutoras têm suas solicitações acatadas de imediato.
30 Seguindo as contribuições de Márcio Zamboni (2014) em seu trabalho sobre a homossexualidade em camadas
altas na cidade de São Paulo. As entrevistas concedidas a essa pesquisa foram dadas nas casas das drags ou nos camarins de boate.
entrevistas com duração entre 30 minutos e uma hora. Em uma das ocasiões a fiz dentro de um camarim enquanto a drag se preparava para o show.
Não obstante, foi na interação mais duradoura, nas excursões e ocasiões de show que pude estabelecer um contato mais interessante em termos de informações e dados etnográficos. As conversas informais me possibilitaram compreender o modo como as relações eram tecidas e como as tensões se instauravam, eram manejadas e solucionadas. Assim, utilizarei ao longo dos capítulos alguns trechos de conversas informais de campo registrados em diário, observando a necessidade de resguardar a intimidade e a privacidade das interlocutoras.
Muitas conversas informais ocorreram durante os deslocamentos das drags pelas boates, paradas e eventos. Ao longo da pesquisa, acompanhei minhas interlocutoras em excursões para a participação em concursos e nos espaços de sociabilidade públicos e privados.
Apesar de possuir mais de um milhão de habitantes31, e uma boa quantidade de
estabelecimentos de entretenimento, Campinas possui poucos espaços “reconhecidos” como de frequência do público LGBT. Sem muito esforço é possível perceber na fala de interlocutoras a relação forte com o mercado GLS paulistano, uma vez que a distância relativamente “pequena”, possibilita visitas curtas a São Paulo. Assim, boa parte das interações em campo se deram ou tiveram início num mesmo local no centro da cidade de Campinas, a praça Bento Quirino.
Localizada no coração da cidade, a Praça Bento Quirino, conhecida popularmente como Sucão, é um importante espaço de sociabilidade LGBT campineiro. Gays e lésbicas, travestis, homens e mulheres trans e, claro, drag queens, que poderiam ser considerados negros, e na faixa etária dos 16 a 26 anos, perambulam nas agitadas noites de sexta-feira quando os seus cinco bares estão cheios. O local também tem presença de público com idade superior aos 30 anos, de mesmo perfil dos frequentadores mais jovens, diferenciando-se apenas pelo fato de se sentarem nas mesas dos bares, ou eventualmente perambularem pela praça procurando pela companhia de mais jovens.
Os frequentadores do Sucão são, em sua maioria, oriundos de famílias de baixa renda, sendo muito frequente ouvir que alguns deles vão para a praça com “pouco mais que o dinheiro do transporte”. Entretanto, boa parte dos jovens se reúne em pequenos grupos onde compartilham bebidas e cigarros. Ao observar a praça, é comum ouvir o estilhaçar de garrafas o que causa certo incômodo em todos, dado o perigo de agressões por parte dos motoristas de
31 Segundo o IBGE a cidade possuía, em 2015, 1.164.098 habitantes e compõe a Região Metropolitana de
carros que passam e pelo episódio em que um casal foi vítima de agressão física por parte de um garçom dentro de um dos bares da praça, com a conivência de seu gerente. Vale mencionar que a praça enquanto um espaço de sociabilidade LGBT surgiu a partir de um caso de agressão que desencadeou um protesto e a presença constante de LGBT.
A praça é, portanto, um laboratório a céu aberto para “sexualidades não-normativas” e “expressões de gênero”, como mostram Larissa Pelúcio e Tiago Duque (2013). Os autores, em sua pesquisa com jovens travestis, sinalizaram para um aspecto interessante da noite no Sucão, o que chamaram de efeito Cinderela. Logo depois das 23:00 é possível notar que o público da praça começa a se reconfigurar, visto que os últimos ônibus das linhas que servem as regiões mais periféricas de Campinas (de onde vem a maior parte dos jovens ali presentes) começam a passar pela última vez. Alguns jovens montados, antes de tomarem seus ônibus para casa, limpam suas maquiagens do rosto, tiram acessórios e roupas ousadas e voltam a fazer a linha boy32 antes de voltarem para casa. Outros, com idade superior aos 18 anos,
continuam na praça, visto que se deslocam para outros espaços de lazer, em especial casas noturnas.
Na praça também são realizados eventos do Mês da Diversidade Sexual de Campinas, como a Manifestação Sáfica (voltada para mulheres lésbicas e bissexuais) e o Big Juice, que foi concebido como um evento voltado para a juventude. Ambos são compostos por um conjunto de shows solo em um palco montado em uma das extremidades da praça, sendo que no Big Juice a maioria das apresentações (quando não a totalidade) são feitas por jovens drags, muitas delas que, por serem menores de idade, em teoria, não têm acesso aos shows e concursos realizados nas casas noturnas. As últimas edições têm recebido um bom número de espectadores, que são em sua maioria também frequentadores da praça. Além disso, o fato do evento anteceder a Parada, e ser apresentado por drags mais experientes e conhecidas, aumenta as possibilidades de divulgação dos shows das drag queens mais jovens.
Até pouco tempo era do Sucão que partiam os ônibus e vans para as excursões dos shows. Sendo um local movimentado à noite, é sempre mais fácil de encontrar pessoas que queiram ir para as boates quando o número de passageiros não consegue superar os custos de contratação do transporte. O órgão municipal responsável pelo controle de tráfego na cidade proibiu a parada de veículos de transporte coletivo na praça. Por esse motivo, o local de saída foi transferido para o Largo do Pará, que fica a 6 quadras dali. Contudo, parte dos e das jovens que participam das viagens, quando não se reúnem nos pontos de ônibus próximos ao Largo do
32 A expressão êmica diz respeito a uma atitude ou postura associada a uma ideia de masculinidade heterossexual