ABORDAGEM SISTÊMICA EM GEOGRAFIA AGRÁRIA: BREVE
PAORAMA1
Silas Nogueira de Melo
Mestrando em Geografia pela UNESP - Rio Claro, SP. Bolsista Capes. [email protected]
Resumo
O trabalho tem como objetivo retomar as questões levantadas sobre a Geografia Agrária na perspectiva da abordagem sistêmica, com intuito de fornecer subsídios à composição de uma metodologia que busque a compreensão da realidade no campo. A princípio é feita uma análise da crise do paradigma dominante da ciência, para que se entenda a emergência da abordagem sistêmica, e depois, há um direcionamento de tal abordagem para Geografia e Geografia Agrária.
Palavras-chaves: Geografia Agrária. Abordagem Sistêmica. Metodologia. Abstract
This work has as objective to retake the questions already raised about Agrarian Geography from the perspective of systemic approach, aiming to provide some information about the composition of a methodology that seeks a better understanding of the reality in the countryside. Therefore, firstly, an analysis of the crisis of the dominant paradigm of science is made in order to understand the emergence of the systemic approach. At last there is a direction of such approach for Geography and Agrarian Geography.
Key words: Agrarian Geography. Systems Approach. Methodology. Resumé
Le travail a pour but de reprendre les questions soulevées sur la géographie agraire dans la perspective de l’approche systémique, en vue de fournir des informations pour la composition d'une méthodologie visant à la compréhension de la réalité rurale. D'abord on fait une analyse de la crise du paradigme dominant de la science, a fin de comprendre l'émergence de l'approche systémique, et puis, on dirige de cette approche vers la géographie et la Géographie agraire.
Mots-clés: Géographie Agraire. Approche Systémique. Méthodologie.
Introdução
A ciência, desde sua criação, aprofundou-se cada vez mais em especializações, fazendo com que a divisão das disciplinas abarcasse mais subdivisões e temas específicos sobre o fenômeno. O problema é que os pesquisadores que se especializaram em algum ramo da ciência não conseguem fazer ligações com as outras áreas do conhecimento. Por isso, há entre a maioria dos epistemólogos, um consenso de que a ciência está em crise por não haver uma integração de seus conhecimentos.
Esta crise incomodou todas as disciplinas, mas nas ciências ditas sociais houve um maior debate sobre a questão. Na Geografia pode-se dizer que dois caminhos
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O trabalho foi elaborado no Programa de Pós Graduação em Geografia de Rio Claro-SP, para a disciplina Meio Ambiente: Relações Homem-Natureza, ministrada pelo Prof. Dr. Archimedes Perez Filho.
emergiram como possíveis soluções. O primeiro deles, não por ordem histórica, foi à presença da crítica. O problema era que os seus defensores tinham uma grande facilidade para apontar as defasagens dos conceitos e das maneiras de produzir o conhecimento, mas não tinham a mesma facilidade para a proposição de alternativas aplicáveis. As questões levantadas nesse momento eram: A Geografia precisa ser uma
ciência de proposições? Mas a crítica pode ser considerada uma ciência?2
O segundo caminho que apareceu foi à adesão de alguns geógrafos a abordagem sistêmica. Esta propunha uma análise a partir do todo e uma inter-relação dos elementos que constituem essa totalidade. Porém seu uso ficou evidente na Geografia Física, principalmente na Geomorfologia, pois na Geografia Humana havia uma dificuldade em inserir o homem nos modelos de análise. Outro empecilho para os geógrafos, principalmente para os brasileiros, foi à necessidade de usar fórmulas e cálculos para se chegar a resultados.
Um grande debate acadêmico ocorreu no Brasil, entre as duas perspectivas, nas décadas de 70 e 80. Mas a Geografia Crítica saiu como vencedora do debate, na medida em que há quase que uma hegemonia de seu pensamento na Geografia, ou pelo menos uma predominância de seu pensamento na epistemologia e nas questões sociais (Geografia Agrária, Geografia Urbana, Geografia das Populações, Geografia Econômica e Geografia Política).
O presente artigo tem como objetivo resgatar as questões levantadas sobre a Geografia Agrária sob a ótica da abordagem sistêmica. São posições metodológicas que foram propostas na década de 70 e 80 e que não tiveram grande aceitação no contexto nacional. Mas na Geografia internacional, principalmente a anglo-saxônica, os modelos foram se aprimorando. E a pergunta que se faz é: seria a metodologia sistêmica, ainda, útil para a compreensão da realidade agrária nacional?
Nesse sentido, o trabalho não propõe nenhum modelo novo para a agropecuária ou as questões sociais do campo brasileiro. Mas tenta novamente trazer para a discussão o campo visto de uma perspectiva sistêmica, utilizando-se de autores que já se preocuparam com isso, como José Felizola Diniz (1984).
Tirando esta parte introdutória, o texto, de cunho teórico, está dividido em quatro partes. Na primeira é explicado com mais profundidade a crise do paradigma
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Outro problema da crítica é que ela não sanava uma das principais questões que era a de integração dos conhecimentos. E uma análise crítica de um fenômeno físico torna-se quase impossível sem a utilização de análises laboratoriais e cálculos, coisas que os críticos da geografia tinham aversão.
dominante da ciência, para que se entenda a segunda parte, que é a emergência da abordagem sistêmica. Na terceira etapa direciona-se para uma análise geográfica dos sistemas, afunilando ao retomar a aplicação de uma metodologia sistêmica na Geografia Agrária. Por fim, são feitas algumas considerações finais.
A crise do paradigma dominante na ciência
Em pleno século XXI, mediante a uma realidade complexa tem-se produzido uma ciência cartesiana, constituída a partir da revolução científica do século XVI no domínio das ciências naturais. Somente no século XIX que este modelo de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes (SANTOS, 1987). Mas, o pensamento cartesiano (entendendo-se as partes poderá compreender o funcionamento do todo) não consegue explicar a realidade como um todo. Isto porque esta se apresenta “complexa, integrada e por vezes caótica” (VICENTE e PEREZ FILHO, 2003, p. 329).
“Os Conceitos dos quais nós nos servimos para conceber a nossa sociedade são mutilados e resultam em ações inevitavelmente mutilantes (...). A dissociação dos termos indivíduo/sociedade/espécie rompe com a sua relação permanente e simultânea (...). Nós sabemos há mais de meio século que nem a observação microfísica nem a observação cosmofísica podem ser dissociadas de seu observador (...), não há corpo não pensado. Todo saber, mesmo o mais físico, submete-se a uma determinação sociológica” (MORIN, 1986, p. 22 e 23).
É, assim, necessária uma reorientação da ciência, desde a física-subatômica até a história, pois apesar de seus sucessos, o modelo do organismo como máquina (criação do “Relojoeiro Divino”) tem suas dificuldades e limitações (BERTALANFFY, 1973, p. 192). Como conseqüência as disciplinas das ciências (física, química, biologia, sociologia, geografia, etc.) aprofundam-se em si mesmas não havendo uma junção: condenando as ciências humanas à inconsistência extra-física e esta condenando as ciências naturais á inconsciência de sua realidade social (MORIN, 1986).
Quanto mais se desenvolvem as disciplinas do conhecimento mais elas perdem o contato com a realidade humana. Nesse sentido, podemos falar de uma alienação do humano, prisioneiro de um discurso tanto mais rigoroso quanto mais bem separado da realidade global, “pronunciando-se num esplêndido isolamento relativamente à ordem
das realidades humanas” (JAPIASSU, 1976, p. 14). E ainda no contexto dos discursos, segundo Morin (1986, p. 30), é no seio da instituição científica que reina a mais anticientífica das ilusões: “considerar absolutos e eternos os traços da ciência que são mais dependentes da organização técnico-burocráticas da sociedade”.
Segundo Capra (1997, p. 260), “o mundo atravessa uma crise paradigmática”. Boa parte dos atuais métodos ocidentais, sobretudo, os que se propõem a explicar e a intervir na realidade não dão mais conta de conter a onda de catástrofes que assolam o mundo, enquanto a mesma crise seja percebida de forma diferente por outros povos, cientes da profunda conexão existente entre crise e mudança (RIBEIRO e SOUSA, 2007).
Abordagem sistêmica
Ao pesquisar realidades cada vez mais dinâmicas e complexas se faz necessário aplicar instrumentos de análises que permitam abordar uma gama de aspectos, informações e suas inter-relações. Neste sentido, aparece a abordagem sistêmica como alternativa ou complemento ao pensamento cartesiano. Diz-se que é alternativa ou complemento porque esta nova abordagem não veio com o intuito de destituir tudo o que existia a respeito de métodos de investigação da ciência, mas para agrupá-los e deles buscar uma compreensão maior da realidade (ALVES e SILVEIRA, 2008; LIMBERGER, 2006).
Para Christofoletti (1999), a abordagem sistêmica é uma concepção de mundo, em contraposição a visão mecanicista, que funciona de modo similar aos organismos.
“A imagem da natureza e da sociedade como sendo máquina, que dominou a partir do século XVIII, foi substituída pela imagem de um sistema orgânico onde a analogia fundamental era fornecida pela dinâmica biológica. Cada sistema orgânico possui diversos elementos componentes, com suas características e funções. Todavia, o conjunto não é apenas resultado da somatória dessas partes, mas surge como sendo algo individualizado e distinto, com propriedades e características que só o todo possui” (CHRISTOFOLETTI, 1999, p. 2).
A abordagem sistêmica foi preconizada por Ludwig Von Bertalanffy e R. Defay por volta dos anos de 1930, com aplicações na biologia e na termodinâmica. Estes autores são considerados pela literatura corrente os “pais” da teoria dos sistemas, apesar de existirem, anteriormente a eles, os trabalhos de Bogdanov e Leduc, que praticamente não são citados ou lembrados (CAPRA, 1996).
Bertalanffy (1901-1972) propunha, com este novo conceito, uma epistéme complexa; buscava uma linguagem científica única, capaz de englobar todos os campos do conhecimento (BERTALANFFY, 1973; VICENTE e PEREZ FILHO, 2003). Para uma compreensão mais detalhada da abordagem sistêmica e da não-sistêmica (paradigma dominante) de análise, a Figura 1 e a Figura 2 apresentam um esquema
juntamente com suas principais características3:
Figura 1 – Abordagem não-sistêmica de análise. Fonte: Alves e Silveira (2008).
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Os dois quadros apresentam modelos que contém o homem, mas vale lembrar que foram extraídos de um trabalho de Geografia - Alves e Silveira (2008) – porém, nos modelos geossistêmicos em geografia nem sempre possuem o fator humano. Ver: REIS JÚNIOR, Dante Flávio da Costa. História de um pensamento geográfico: Georges Bertrand. In: Geografia, Vol. 32, No 2, 2007.
Figura 2 – Abordagem sistêmica ou enfoque sistêmico de análise. Fonte: Alves e Silveira (2008).
Bertalanffy (1973) relaciona alguns motivos que o levaram a formular a Teoria Geral dos Sistemas, que seriam: a) necessidade de generalização dos conceitos científicos e modelos; b) introdução de novas categorias no pensamento e na pesquisa científicas; c) os problemas da complexidade organizada, que são agora notados na ciência, exigem novos instrumentos conceituais; d) pelo fato de não existirem instrumentos conceituais apropriados que sirvam para a explicação e a previsão na
biologia; e) introdução de novos modelos conceituais na ciência; f)
interdisciplinaridade: daí resulta o isomorfismo dos modelos, dos princípios gerais e mesmo das leis especiais que aparecem em vários campos.
A abordagem sistêmica só veio a expandir no final do século XX, tendo expoentes significativos das mais diversas áreas conhecimento, como o próprio Bertalanffy na biologia, Capra na física, Bertrand na geografia, Vasconcellos na psicologia, entre outros. Porém em alguns países, como o Brasil, esta abordagem ganhou conotação negativa (principalmente nas ciências ditas sociais), sendo alvo de grandes críticas, como é o caso da própria geografia.
No próximo tópico discute-se a metodologia sistêmica na Geografia Agrária, debate esse que foi abandonado no Brasil nos últimos anos.
APLICAÇÃO DA METODOLOGIA SISTÊMICA EM GEOGRAFIA AGRÁRIA
Na Geografia, a abordagem sistêmica dinamizou o desenvolvimento da chamada “Nova Geografia”. Serviu, nesta ciência, para uma melhor focalização das suas pesquisas e para delinear com maior exatidão o seu setor de estudo, permitindo também reconsiderações de seus conceitos e uma revitalização de vários setores, com destaque para a Geomorfologia (LIMBERGER, 2006, p. 100 e 101). Foi introduzida por Strahler, em 1950, onde o autor trabalhou com sistemas de drenagem, considerando-o como um sistema aberto. Após Strahler figuram também Culling (1957), Hack (1960), Chorley (1962), Howard (1965), Chorley e Kennedy (1971), trabalhos estes voltados para a área de Geomorfologia, sendo que o último, figura como a contribuição de maior interesse para a Geografia Física (CHRISTOFOLETTI, 1979).
Na Geografia Humana e Econômica também há o uso dos conceitos da Teoria Geral dos Sistemas, e destaca-se a obra organizada por Chorley e Haggett, traduzidas para o português como Modelos Integrados em Geografia (1974) e Modelos Socio-economicos em Geografia (1975).
Nesse sentido, dentro da Geografia Humana tem-se a Geografia Agrária, a qual (assim como a totalidade dos trabalhos de cunho sistêmico) trabalha com modelos que representam partes simplificadas do sistema, ou melhor, da realidade. Alguns modelos são normativos em seu enfoque (descrevendo o que devia ser sob certas premissas), ao passo que outros são descritivos (descrevendo o que existe realmente). Metodologicamente, na prática, os modelos econômicos tendem a ser normativos, embora os modelos de comportamento tendam a ser descritivos (HENSHALL, 1975).
Henshall (1975), ao falar sobre a Geografia da Agricultura, a qual se podem
fazer algumas relações com a Geografia Agrária4, exemplifica cinco tipos de modelos.
1) Modelos Experimentais, na prática vista como as fazendas-modelo, em que a fazenda individual é o ponto focal e a base da compreensão de uma região agropecuária; 2)
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“Esta concepção geográfica da agricultura está ligada à tradicional dicotomia entre Geografia Econômica e Geografia Humana. Assim, enquanto a Geografia Humana da Agricultura desenvolveu-se sob o nome de Geografia Agrária, a Geografia Econômica da Agricultura passou a ser conhecida, sobretudo entre os franceses, por Geografia Agrícola.” (DINIZ, 1984, p.42).
Modelos Conceituais, como o tipos de agricultura (plantation ou campesinato), modelos ambientais e modelos históricos; 3) Modelos Taxionômicos, com análise dos fatores e de proporções e índices; 4) Modelos de Localização da Atividade Agrícola, representados pelo modelo de von Thünen e modelos de tomada de decisão; 5) Modelos Segundo o Potencial da Terra, com diferenciações e potencialidades de um sistema agrícola.
Até aqui há uma predominância de termos vistos a partir de uma bibliografia anglo-saxônica. Na realidade brasileira, muitas vezes é necessário transportar ou re-adaptar alguns desses conceitos, como por exemplo, o plantation. Porém, dentro da literatura nacional há alguns expoentes que souberam propor uma metodologia sistêmica, e usando conceitos coerentes com a realidade brasileira. Na Geografia Agrária nacional, Diniz (1984) trabalhou com o enfoque sistêmico para diagnosticar a temática agrícola e compreender as dinâmicas no espaço agrário através de tipologias e regionalizações (Figura 3). O uso dessa metodologia auxilia na compreensão das diversas interações entre os elementos que compõem os sistemas estudados (ALVES e SILVEIRA, 2008).
Figura 3 – Sistema da Agricultura: subsistemas internos e externos, conforme a
Comissão de Tipologia Agrícola. Fonte: Diniz (1984).
Concebe-se a agricultura como um sistema formado por três subsistemas: social, funcional e de produção; onde o primeiro permite a caracterização do agricultor, o segundo engloba os mecanismos de transformação, e o terceiro é, essencialmente, o
objetivo do sistema. Em torno da agricultura estão quatro subsistemas externos, ou do meio: o econômico (o desenvolvimento dos mercados e a busca da especialização conduzem as zonas rurais a uma dependência cada vez maior dos centros urbanos, dos transportes, da infra-estrutura industrial e do capital), o ecológico (relatividade e rigor das condições naturais, a distribuição do tempo de trabalho aplicado na elaboração de uma produção agrícola subordina-se a ciclos climáticos e biológicos, e as condições naturais impõem limites geográficos às diversas categorias de produção agrícola), o demográfico-cultural (englobam as tradições e os padrões de cultura das populações agrícolas, e indicadores demográficos puramente – taxa de masculinidade, composição etária, potencial migratório) e o político (este tipo de atuação procura disciplinar e corrigir as distorções de certos setores – política de controle e proteção dessa atividade), que fornecem as condições em que se desenvolvem os tipos de agricultura (DINIZ, 1984).
Segundo o próprio Diniz (1984), esse esquema é preliminar, e obtido com o objetivo tipológico. Coloca que embora pareça estranho que os elementos ecológicos
sejam considerados extrínsecos5, essa perspectiva não deixa de ter sua razão na medida
em que a terra (entendida em seu sentido mais amplo de condições naturais) não gera nenhum tipo de agricultura, mesmo sendo um elemento importante no estudo agrário. Mesmo que se pense um exemplo de mais extremo rigor das condições ecológicas – o deserto – nota-se que a agricultura aí existente não decorre das condições naturais, mas sim da irrigação, ou seja, trabalho/capital, embora essa necessidade tenha decorrido das condições climáticas. Então o clima, as tradições e as necessidades de manutenção (elementos externos) de uma população em áreas tão rigorosas, criam condições para que se desenvolva um determinado tipo de agricultura.
A metodologia apresentada por Diniz não é a única na Geografia brasileira que busca compreender as questões agrárias. Atualmente alguns autores retomam a abordagem sistêmica mesclando com outras abordagens ou então estudando movimentos sociais. Pode-se citar o exemplo das pesquisas, dos já citados, Alves e Silveira (2008) e de Amador (2009).
O primeiro trabalho tem como objetivo demonstrar a importância da metodologia sistêmica na Geografia Agrária, através da avaliação das alterações
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No esquema tradicional dos fatores básicos da agricultura considera-se a terra, o capital e trabalho. Mas Diniz considera terra como sendo um fator ecológico.
socioeconômicas e territoriais dos assentamentos rurais. O artigo busca a aplicação de tal metodologia para avaliar os impactos da territorialização dos assentamentos rurais, na organização espacial de Candiota no estado do Rio Grande do Sul.
Já a segunda pesquisa utilizou o método sistêmico, através da “metodologia adaptada de Tricart”, para a obtenção de parâmetros no âmbito da Geografia Física, e da metodologia agroecológica, na obtenção de dados no contexto da Geografia Humana, visando-se um estudo integrado da realidade do campo dos municípios de Venturosa e Pedra no Agreste de Pernambuco.
Considerações finais
Conforme o apresentado, para uma compreensão sistêmica da realidade agrária, metodologicamente, pode-se começar por algumas questões consideradas como parte dos elementos internos: “quem é o produtor rural?”; “como é produzido?”; e “quanto, o que, para quem é produzido?”. Não se deve esquecer que, em torno dessas questões, existem elementos extrínsecos, que fornecem condições de desenvolvimento e reprodução da produção e do produtor rural (elementos econômicos, ecológicos, demográfico-culturais e políticos).
A metodologia proposta não é um padrão a ser seguido exatamente como o descrito, mas apenas um modelo, uma idéia. Até mesmo as maneiras para identificar os elementos internos e externos da questão agrária devem ser feitas conforme o pesquisador achar mais eficiente. Como foi observado, Amador (2009) resolveu dividir sua pesquisa na metodologia sistêmica e na metodologia agroecológica, para depois tentar uma integração6.
Conclui-se ressaltando que a metodologia sistêmica é um caminho a ser seguido ou não, assim como os demais. É permissível fazer relações de seus modelos com outras abordagens desde que se explique o motivo. Percebe-se que nos estudos sobre a
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Especialistas da Nova Geografia acreditam que na Geografia tradicional houve uma grande coleta de fatos, que posteriormente com a necessidade de se repensar a Geografia como ciência aconteceram algumas divisões como “geografia nova”/“nova geografia” e geografia física/geografia humana. No entanto, ainda acreditavam que posteriormente os indícios os levariam a um terceiro estágio de convergência, e que tudo dependeria do debate. Ver: HAGGET, Peter e CHORLEY, Richard J. Modelos, Paradigmas e a Nova Geografia. In CHORLEY, R. e HAGGETT, P. (org.). Modelos físicos e de informação em Geografia. Rio de Janeiro: Universidade de São Paulo e Livros Técnicos e Científicos Editoras, 1975, p. 2-19.
geografia agrária brasileira ainda há um grande espaço para este tipo de análise, enquanto outras acabam se tornando repetitivas e reproduzidas em larga escala, deixando uma série de estudos com o mesmo perfil e resultados.
Referências
AMADOR, Maria Betânia Moreira. Pequena produção/pequena pecuária: uma abordagem sistêmica. In: Campo-Território: revista de geografia agrária. V.4, n. 7, p. 167-184, fev. 2009.
ALVES, Flamarion Dutra e SILVEIRA, Vicente Celestino Pires. A metodologia sistêmica na Geografia Agrária: um estudo sobre a territorialização dos assentamentos rurais. In: Sociedade & atureza. Uberlândia, 20 (1): 125-137, jun, 2008.
BERTALANFFY, Ludwig von. Teoria Geral dos Sistemas. Tradução de Francisco M. Guimarães. Petrópolis: Vozes, 1973.
CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo: Cultrix, 1996.
CAPRA, Fritjof. Ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1997.
CHRISTOFOLETTI, Antônio. Análise de Sistemas em Geografia. São Paulo: Hucitec, 1979.
CHRISTOFOLETTI, Antônio. Modelagem de Sistemas Ambientais. São Paulo: Editora Edgar Blüncher Ltda., 1999.
DINIZ, José Alexandre Felizola. Geografia da Agricultura. São Paulo: DIFEL, 1984.
HENSHALL, Janet. Modelos de Atividade Agrícola. In: CHORLEY, R. J. e HAGGETT, P. (orgs.). Modelos Socio-economicos em Geografia. São Paulo: EDUSP, 1975.
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
LIMBERGER, Leila. Abordagem Sistêmica e Complexidade na Geografia. In: Geografia. Londrina, 15 (2): jul./dez. 2006.
MORIN, Edgar. O Método I: a atureza da atureza. Portugal: Europa-América, 1986.
RIBEIRO, Júlio Cézar e SOUSA, Marcos Timóteo Rodrigues de. Do método e da metodologia científica: diálogos dialéticos entre a genealogia da ordem e o clamor da desordem. In: Travessias – Pesquisas em Educação, Cultura, Linguagem e Arte. Cascavel, n. 1, 2007.
VICENTE, Luiz Eduardo e PEREZ FILHO, Archimedes. Abordagem Sistêmica e Geografia. In: Geografia. Rio Claro: v. 28, n. 3, p. 345-362, set./dez., 2003.