Volume 23 | Number 23
Article 51
7-2013
Relatório Para o Sr. Philipe Borel, Diretor do Pam
(Programa Alimentar Mundial)
Arnaldo da Rocha Ferreira
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da Rocha Ferreira, A. (2013). Relatório Para o Sr. Philipe Borel, Diretor do Pam (Programa Alimentar Mundial). Missão Espiritana, 23-24 (23-24). Retrieved from https://dsc.duq.edu/missao-espiritana/vol23/iss23/51
P. Ar n a l d o d a Ro c h a Fe r r e ir a
Superiora e um seminarista espiritano. Ai falamos e a decisao foi de que os missionarios deveriam retirar temporariamente. O sr. Bispo disse que ele e que decidia sobre a retirada dos missionarios, por isso tomaria a decisao que julgasse mais conveniente. Como nos encontrou moral e fisicamente muito abatidos, mandou-nos retirar para Malanje.
Eu tinha 50 casamentos e 300 baptizados para fazer nessa Pascoa. Como nao me achava em condi9oes de fazer esse trabalho, ele mesmo o fez.
Duas Irmas e eu retiramos nesse Sabado Santo para Malanje. A festa correu muito bem e o entusiasmo do povo, apesar de tudo, era grande.
Na segunda-feira de Pascoa, recebiamos uma mensagem que dizia: “Os missionarios matriculados em Kalandula, devem ficar na missao e nao exercerem, por ordem do Alto Comandante”.
Como ja tinhamos saido, resolvemos vir para ferias.
Assim terminou mais um capitulo da nossa estada na missao de Kalandula, junto de um povo martir e que ainda sofre com a nossa saida um tanto inesperada. No entanto, e preciso dizer que, apesar de tudo, fomos sempre respeitados tanto por uns como por outros e por isso tudo compreendemos, perdoamos e esquecemos. Tudo isto faz parte da opfpao que fizemos de ficar sempre com o povo.
A guerra e isto mesmo, mas sempre acreditamos que o povo angolano sempre suspirou pela paz e portanto tudo soube suportar para que ela um dia fosse uma realidade.
Valeu a pena esperar, sujeitar-se a ser perseguido, pois hoje essa paz e uma realidade e o nosso regresso a missao nao sofre mais contesta9ao.
P. Amaldo da Rocha Ferreira Missionario em Kalandula (Angola)
04
Re l a t o r i o p a r a o Sr Ph i l i p e b o r e l, Di r e t o r d o PAM (PROGRAMA A lIM EN TA R M UNDIAL)
Pedindo uma ajuda e dando conta da situa9ao da Provincia de Malanje
Com os meus respeitosos cumprimentos tomo a liberdade de enviar a V.a Ex.a um pequeno relatorio referente a situa9ao da Provincia de Malanje. Sou um missionario que estou na Missao Catolica de Kalandula, Diocese de Malanje, desde o ano de 1957. Conhe90 perfeitamente a area e o povo de toda a Provincia. Tivemos perto da Missao tres ataques, o ultimo dos quais durou tres dias. O pessoal missionario, um sacerdote e 6 Irmas Religiosas, permaneceram sempre na sede da Missao, apesar do abandono das autoridades. Com o recome90 da guerra apos as elei9oes em 29 de Setembro de 92, muito povo se dispersou. Uns ficaram retidos em Malanje, v.g. marido em Malanje, esposa em Kalandula e vice versa.
Aquando do ultimo ataque tudo ficou praticamente destruido. O movimento que existia de pessoas e bens paralisou. Os mercados, ate esses acabaram e toda a area da Provincia ficou isolada de Malanje. A cidade ficou bloqueada e o “mato” ficou sem comunica^ao com a cidade nao tendo possibilidade de adquirir fosse o que fosse para sua sobrevivencia.
A Missao foi socorrendo o povo que de todos os lados afluia a Missao. Ficando tambem nos isolados por terem sido destruidas todas as pontes, tambem deixamos de ter acesso a compra dos bens de primeira necessidade. Fomos sobrevivendo com uma pequena reserva que depressa se esgotou.
Tendo a UNITA “reconstruido” uma ponte come9amos a circular para Luanda, via Uije. Mas tudo o que vinha do PAM e CARITAS era para as Dioceses de Uije e Ndalatando. Como pertencemos a Malanje, nada recebiamos. A pequena reserva acabou mesmo. Como sobreviver? Fizemos um apelo a Malanje para que nos dessem alguma pequena ajuda, vindo ou indo pelo Uije. O nosso apelo nao foi ouvido. Como temos um Dispensario e um Centro Matemo-Infantil, com um movimento de mais de 200 consultas diarias, os medicamentos foram-se esgotando. Com a ajuda de pessoas amigas fora do Pais e com a compra de alguns medicamentos mais importantes fomos ainda aguentando; mas era impossivel manter e atender tanta gente.
As doen9as mais vulgares sao: paludismo, tuberculose em grande escala, mesmo assustadora, anemias agudas, sarampo (por falta de vacinas), chagas purulentas, que custam muito a cicatrizar, talvez devido a polui9ao toxica (bombas quimicas), pneumonias, hepatites, diarreias, tetano, desnutri9ao geral, etc.
O povo alimenta-se mal; medicamentos nao chegam e quando aparecem e tarde. Velhos esqueleticos, maes sem leite para amamentarem os recem-nascidos; tudo numa situa9ao deveras alarmante. Todos os dias chegam a Missao dezenas de pessoas para procurarem remedio para os seus males vindos de grandes distancias, 100 e mais kms. Onde instalar, alimentar e tratar tanta gente e tanta miseria? Actualmente temos cerca de 200 doentes intemados.
Temos ouvido pelos meios de comunica9ao social que a situa9ao de Malanje e alarmante. Concordamos com isso, ate porque muitos desses que la vivem sao da nossa area. Mas nao concordamos com o que dizem. A Provincia de Malanje e muito extensa e tudo vai, so e unicamente, para a cidade de Malanje e nada mais. O resto que e praticamente toda a Provincia nao recebeu nada e mesmo alguns medicamentos que vinham destinados a Missao de Kalandula e ate em nome dos missionaries ali residentes ficaram na cidade. Isto custa muito a quern de dia e de noite luta para salvar a vida a tanta gente que nao tern culpa alguma desta guerra fratricida. A situa9ao actual, se nao tomarem providencias imediatas, tomar-se-a muito pior do que a cidade de Malanje ha 3 meses atras. E uma dura e triste realidade. Temos a impressao que medem as necessidades do povo olhando so para as cidades. E uma injusti9a! A regiao de Kalandula, durante 16 anos de guerra matou a fome a milhares de pessoas da cidade de Malanje. Hoje ninguem
P. Ar n a l d o d a Ro c h a Fe r r e ir a
se lembra deste povo martir e trabalhador. Nao tem uma pedrinha de sal, um grao de arroz, um bocado de sabao, uma gota de oleo, dois graos de feijao. Nada, de nada...
Ha cerca de 4 ou 5 meses demos uma sugestao para minimizar o sofrimento deste povo. Pedimos que, se para Malanje fossem 10 cargueiros de generos alimenticios, que ao menos nos enviassem, via Uije, ainda que fossem apenas 500 kilos do que tivessem. Isto nao seria nada, nem nada resolveria, mas seria um sinal que tambem pertencemos a Provincia de Malanje, e que esta nao e so a cidade.
Nao quero com esta exposi^ao criticar ninguem. Quero apenas ser a voz daqueles que nao podem falar, ou nao sabem falar, ou que nao sao escutados por ninguem.
Todos os dias acorrem a Missao a pedir um pouco de sal, sabao, etc. Todo o nosso povo anda sujo, com sama, por falta de sabao. Anda roto por falta de vestuario. O que traziamos, quando iamos de ferias, e que estava a vestir a nudez deste pobre povo, mas tudo se esgotou.
Nos proprios missionaries vivemos com muitas dificuldades. Quern nos tem acolhido e ajudado e o Sr. Bispo do Uije, D. Francisco Mata Mourisca.
Como estamos a 240 kms do Uije temos tambem necessidade de combustivel, nao so para podermos levar a mercadoria para a Missao de Kalandula e daqui para as Missoes de Caculama e Cacuso, bem como para podermos alimentar o nosso gerador electrico, para bombearmos a agua e sobretudo para podermos conservar as diversas vacinas a aplicar aos doentes que diariamente chegam a Missao para tratamento das zonas mais longinquas.
Para que fa9am uma pequena ideia da realidade da nossa situaipao, apenas aponto isto: 200 litres de gasoleo, comprado no Uije, custam no minimo 12 milhoes de Kwanzas. Ha cerca de uma semana estava a 25 milhoes. Compramos uma lata de comprimidos de cloroquina por 2 milhoes e 500 mil Kwanzas. Paracetamol, pelo mesmo preijo. Como aguentar tudo isto? Impossivel!
Venho portanto, por este meio e como responsavel da Missao, fazer um apelo a V.a Ex.a para que a vossa Instituiipao Humanitaria nos de uma ajuda para podermos diminuir o sofrimento do nosso povo.
Temos ainda um outre problema nao menos grave e importante e preocupante. Como levar ate a Missao de Kalandula o que porventura nos derem como socorro ou ajuda? A solufao, a meu ver, para a Missao e impossivel, porque a carrinha que temos carrega apenas 1.700 kilos, mas para a Vossa Benemerita Instituiyao Humanitaria e muito facil: temos nos armazens da CARITAS, aqui em Luanda, uma carrinha Toyota Dyna 300 que chegou precisamente nas vesperas das confronta9oes de fins de 92. Nao foi possivel leva-la para a Missao porque as estradas ficaram fechadas, mas um aviao Hercules pode muito bem leva-la para o Uije, porque ela pesa so 3.500 kilos. Se a Missao tivesse posses para isso ela ja estava la, e resolveria muitos problemas, mas as nossas economias nao chegam para tal. Nao seria uma hipotese a considerar por V.a Ex.a ?
Alem de tudo isso temos ainda bastante carga que adquirimos fora do Pais, como fardos de roupa, material escolar, etc, etc. Aqui desejava salientar que em toda a Provincia de Malanje, apenas a nossa Missao tem em funcionamento o I e II niveis escolares. Temos lutado para adquirir material escolar, mas temos conseguido o suficiente por intermedio de pessoas amigas e organiza9oes nao govemamentais.
A unica que nos tem ajudado, no que pode, tem sido a CARITAS e ultimamente a UNICEF.
Estamos tambem a construir uma Matemidade para assistirmos a futura mae. Custou muito convencer as futuras maes da necessidade de serem seguidas durante a sua gravidez. Gra9as a uma Irma Enfermeira-Parteira com o Curso de Obstetricia e Ginecologia, conseguimos que essas senhoras venham a Missao logo que suspeitam que estao gravidas para receberem a ficha propria e assim serem acompanhadas durante esse tempo e assim evitarem problemas graves que aparecem varias vezes e que se podiam solucionar sendo regularmente observadas.
E esta, em resumo, a situa9ao de quase toda a Provincia de Malanje.
Estivemos com o Sr. Bispo de Malanje, D. Eugenio Salessu a quern informamos da situa9ao deveras alarmante em que vivemos e com o risco de se tomar semelhante ou pior do que a que se passou em Malanje, cidade. Creio que nao ha razao para se chegar aquele estado de coisas. Basta que haja uma grande compreensao e uma, ainda que pequena, ajuda e muito mal e miseria se podera evitar.
Ja chegam 16 anos de guerra, ja chega de tantas vitimas inocentes, tantos orfaos, tantas viuvas, mutilados, dementes, esfomeados, delinquentes vitimas todos da guerra, com todo esse cortejo de miseria e de morte.
Quern vive na cidade nao se apercebe da miseria que se vive no mato. Os da cidade habituaram-se a uma vida dificil, e verdade, mas ao mesmo tempo duma certa comodidade. Ora ha milhares de seres humanos que tem os mesmos direitos e que sao pura e simplesmente postos de lado e abandonados.
Reconhecemos que a situa9ao que se vive e dura e dificil, mas tambem reconhecemos que ainda ha muitas pessoas e na9oes que querem ajudar este povo a sair do abismo no qual caiu sem dar por ela, so porque os homens nao se respeitam uns aos outros.
A PAZ e possivel e e tarefa de todos nos procura-la, encontra-la e sobretudo vive-la como irmaos. Fa9amos tudo e todos por isso.
Com os meus respeitosos cumprimentos e votos de optimo trabalho em favor deste martirizado povo, que conta e confia em todos nos, quero mais uma vez agradecer toda a vossa aten9ao e compreensao para este pequeno e pobre relatorio que outra finalidade nao tem, se nao fazer ouvir a voz de dor de um povo martirizado.
De V.a Ex.a Atenciosamente
Missao Catolica de Kalandula, 25 de Janeiro de 1994
O Responsavel da Missao P. Amaldo da Rocha Ferreira.