ENFRENTANDO A ESTIAGEM DA BACIA DO RIO PARAÍBA DO SUL
Larissa Ferreira da Costa1*; José Edson Falcão de Farias Junior2; Rosa Maria FormigaJohnsson3; & Moema Versiani Acselrad 4
Resumo – A bacia do rio Paraíba do Sul é formada por municípios dos estados de Minas Gerias,
Rio de Janeiro e São Paulo e possui um complexo sistema hidráulico composto por 4 reservatórios de grande porte e uma transposição de água para a bacia do rio Guandu, cujas regras de operação são definidas pela Agência Nacional de Águas. O Estado do Rio de Janeiro é fortemente dependente das águas desta bacia. No ano de 2014, esta bacia vivenciou uma estiagem severa, até então nunca registrada, que vem se prolongando também em 2015. Diante deste cenário, visando atender os usos múltiplos, diversas medidas estruturantes e não estruturantes tiveram que ser tomadas para minimizar seus efeitos, tais como mudanças nas regras de operação do sistema hidráulico do Paraíba do Sul e adaptações nas captações para abastecimento humano e industrial. O objetivo deste artigo é relatar os impactos desta estiagem e as ações tomadas pelos órgãos gestores, comitês de bacia e usuários para o seu enfrentamento.
Palavras-Chave – Estiagem, Bacia do rio Paraíba do Sul, Estado do Rio de Janeiro.
FACING DROUGHT IN PARAÍBA DO SUL RIVER WATERSHED
Abstract – Paraíba do Sul river watershed is formed by Minas Gerais, Rio de Janeiro and Sao Paulo
states municipalities and has a complex hydraulic system composed by 4 large reservoirs and relaying water to the Guandu River watershed, which rules operation are defined by the national agency, ANA. Rio de Janeiro state is heavily dependent on the waters of this watershed. In 2014, this watershed experienced severe drought, never registered so far, which has also been occurring in 2015. Front of this scenario, aiming to meet multiple uses, various structural and non-structural measures had to be taken to minimize its effects such as operating rules in hydraulic system changes in Paraíba do Sul watershed and adjustments in funding for human and industrial supplies. This paper purpose is to report the drought impacts and the actions taken by management institutions, watershed committees and users to face this situation.
Keywords – Drought, Paraíba do Sul watershed, Rio de Janeiro State.
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*Engenheira Civil, MSc. em Recursos Hídricos, Engenheira da Coordenadoria de Planejamento e Projetos Estratégicos do INEA – e-mail:
2 Engenheiro Civil, MSc. em Recursos Hídricos, Coordenador de Planejamento e Projetos Estratégicos do INEA – e-mail:
3 Professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Superintendente da Secretaria de Estado do Ambiente (SEA-RJ) – e-mail:
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INTRODUÇÃO
Observa-se desde 2012 um período de significativa redução dos índices pluviométricos em algumas regiões do Brasil (ANA, 2014). Na região sudeste, esse fenômeno tem prejudicado a oferta de água para os usos múltiplos, sobretudo para o abastecimento público de regiões mais populosas, com maior demanda hídrica, como as Metrópoles de Rio de Janeiro e São Paulo.
No dia-a-dia da população e economia do país, a insuficiência da oferta de água para os diversos usos gera impactos diretos e exige a adoção de medidas de contingência visando mitigar os problemas: medidas emergenciais e estruturantes, além de medidas não estruturantes relacionadas ao aprimoramento da gestão de recursos hídricos no Brasil.
Este trabalho relata a estiagem que a Bacia do rio Paraíba do Sul vem vivenciando desde 2014, bem como as ações de mitigação e adaptação definidas coletivamente pelos órgãos gestores, usuários e comitês de bacia, visando tanto economizar a água estocada nos reservatórios quanto aumentar a segurança hídrica dos usuários dos rios Paraíba do Sul e Guandu.
IMPORTÂNCIA DA BACIA PARAÍBA DO SUL PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO
A bacia do rio Paraíba do Sul abrange, total ou parcialmente, 184 municípios, sendo 39 localizados no Estado de São Paulo, 57 no Estado do Rio de Janeiro e 88 em Minas Gerais. O rio Paraíba do Sul é formado no Estado de São Paulo, na junção dos rios Paraibuna e Paraitinga, na serra da Bocaina, a 1.800m de altitude, e seus principais afluentes têm suas nascentes em território mineiro. O rio deságua no mar no município de São João da Barra, no Estado do Rio de Janeiro, após percorrer mais de 1.100km.
A dependência do Estado do Rio de Janeiro em relação à bacia do Paraíba do Sul se dá por suas características geográficas, pois se situa a jusante dos estados vizinhos, além de abastecer cerca de 12,3 milhões de habitantes (75% da população total do Estado), aproximadamente 85% das atividades agrícolas e as principais indústrias do Estado (INEA, 2014).
É importante notar que a bacia do rio Paraíba do Sul é uma reserva estratégica de atendimento das próximas gerações, tanto da própria região hidrográfica como da região metropolitana do Rio de Janeiro e bacia do rio Guandu. Para estas regiões, o rio Guandu constitui o único manancial com disponibilidade de atendimento às demandas futuras de água.
Sistema Hidráulico Paraíba do Sul
O Sistema Hidráulico deste rio compreende um complexo conjunto de estruturas hidráulicas na bacia e transpõe água para o rio Guandu. O denominado ‘reservatório equivalente’ (RE) é composto por três reservatórios em São Paulo (Paraibuna, Santa Branca e Jaguari) e um quarto no Estado do Rio de Janeiro (Funil). Este conjunto tem capacidade total de reservação de 7.294,70 milhões de metros cúbicos, dos quais 4.341,90 milhões de metros cúbicos estão dentro da faixa normal de operação do setor elétrico (volume útil total). O reservatório de Paraibuna é o que possui maior capacidade de armazenamento (61% do volume útil), seguido por Jaguari (18%), Funil (14%) e Santa Branca (7%).
Outra importante infraestrutura hidráulica da Bacia é o sistema de transposição das águas da bacia do rio Paraíba do Sul para o rio Guandu, na porção média do rio Paraíba do Sul. Este sistema inicia-se na estação elevatória de Santa Cecília, que bombeia água do rio Paraíba do Sul para o reservatório de Santana, no rio Piraí, invertendo o curso deste rio e elevando significantemente sua vazão. No município de Piraí, a elevatória de Vigário bombeia a água do rio Piraí até o reservatório de Vigário; deste reservatório as águas seguem para o Sistema Tocos-Lajes, passando pelas usinas
geradoras de Fontes e Nilo Peçanha e flui para o reservatório de Ponte Coberta da Usina Hidrelétrica de Pereira Passos. Desta forma, o rio Guandu, que em condições normais teria uma vazão média de 25 m³/s, recebe entre 119m³/s e 160m³/s da transposição do Paraíba do Sul.
Inicialmente concebido para geração de energia elétrica, este sistema hoje constitui a principal fonte de abastecimento público da região metropolitana do Rio de Janeiro desde a instalação da ETA Guandu, em 1955, além de atender a outros usos na bacia do rio Guandu. A região metropolitana do Rio de Janeiro é composta por 18 municípios e concentra 75% da população do estado. Hoje, 83% da população da metrópole, ou 9,4 milhões de habitantes, dependem deste manancial5.
Esta bacia é operada segundo as regras definidas pela resolução da Agência Nacional de Águas, ANA nº 211/2013, onde foi determinada a vazão de 119 m³/s como o limite mínimo de bombeamento em Santa Cecília, e 71 m³/s a jusante de Santa Cecília, o que corresponde a uma afluência mínima de 190 m³/s. A ANA é responsável por definir e fiscalizar as condições de operação de reservatórios por agentes públicos e privados, visando garantir o uso múltiplo dos recursos hídricos, conforme estabelecidos nos planos de recursos hídricos das respectivas bacias hidrográficas; no caso de existir aproveitamentos hidrelétricos, a Agência deve se articular com o Operador Nacional do Sistema (ONS). Segundo o ONS, a Política de Operação do Sistema Paraíba do Sul tem como objetivo atender, prioritariamente, aos requisitos de uso múltiplo da água; a geração de energia elétrica é consequência dos requisitos hidráulicos da bacia, ditadas pelas restrições de uso múltiplo conforme a resolução supracitada.
ESTIAGEM EM 2014/2015
A Região Sudeste, incluindo o Estado do Rio de Janeiro, vem vivenciando, desde janeiro de 2014, uma estiagem severa. Na bacia do rio Paraíba do Sul, esta foi a pior estiagem dos últimos 85 anos de registro histórico. A severidade da estiagem afetou a oferta hídrica do rio Paraíba do Sul, e consequentemente do rio Guandu, com a necessidade de reduções sucessivas da vazão objetivo em Santa Cecília e da vazão transposta para o rio Guandu.
Em fevereiro de 2014, as afluências médias observadas na bacia estavam se configurando como as menores do histórico. A ANA, então, solicitou por meio de ofício ao ONS, atenção quanto à operação dos reservatórios do Sistema Interligado Nacional, visando preservar os usos múltiplos. Em março, o ONS elaborou uma nota técnica contendo simulações que apontavam a necessidade de redução imediata da vazão objetivo em Santa Cecília para 173m³/s, visando atingir a meta de 10% do reservatório equivalente no início de novembro de 2014 (ONS, 2014).
Diante deste cenário, em abril/2014, o Grupo de Trabalho Permanente de Acompanhamento da Operação Hidráulica na Bacia do Rio Paraíba do Sul (GTAOH) do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CEIVAP) iniciou uma série de reuniões com o objetivo de acompanhar a operação hidráulica da bacia. Participam deste grupo representantes da ANA, dos órgãos gestores dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, ONS, comitês de bacias estaduais e usuários de água. Os relatos dos usuários, juntamente com as simulações de possíveis cenários futuros, permitem uma avaliação dos impactos e a indicação de medidas e ações que devem ser tomadas para que não ocorra desabastecimento.
Ao longo de 2014, a ausência de chuva implicou no registro de vazões muito baixas e, como consequência, diminuições expressivas dos volumes dos reservatórios do sistema hidráulico do
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Paraíba do Sul. A Figura 1 apresenta as vazões mensais naturais médias, mínimas históricas (1931 a 2013) e registradas nos anos de 2014 e 2015, em Santa Cecília.
Figura 1 – Vazões Naturais Afluentes em Santa Cecília
As vazões naturais mensais afluentes em Santa Cecília em 2014 se configuraram como muito próximas às piores até então registradas, ou como as piores do histórico. Esta baixa afluência se estendeu até janeiro de 2015, onde se registrou a pior vazão natural da história para o mês de janeiro. Em fevereiro e março de 2015, as vazões sofreram um expressivo aumento; no entanto ainda abaixo da média desses meses. Nos meses de abril, maio e junho de 2015 as vazões voltaram a se aproximar da mínima histórica, indicando a permanência da estiagem.
AÇÕES PARA O ENFRENTAMENTO DA ESTIAGEM EM 2014 E 2015
Devido a persistência de vazões muito baixas nos meses de abril e maio de 2014, o volume equivalente apresentou expressiva diminuição, como pode ser visto no Detalhe 1 da Figura 2, indicando a necessidade de adoção de medidas mais robustas para aumentar a segurança hídrica dos usuários fluminenses.
Figura 2 – Evolução do Armazenamento Equivalente
A primeira medida proposta pelo GTOH, para poupar os estoques dos reservatórios, foi a diminuição gradual da vazão objetivo em Santa Cecília, visando atingir a vazão de 173m³/s,
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 110 V o lu me Ú ti l A rmaz en ad o (% )
Armazenamento do Sistema Equivalente - Bacia do rio Paraíba do Sul
2001-2002 2002-2003 2003-2004 2004-2005 2005-2006 2006-2007 2007-2008 2008-2009 2009-2010 2010-2011 2011-2012 2012-2013 2013-2014 2014-2015 Detalhe1 Detalhe 2
conforme autorizado na resolução nº700 de 27/05/14 da ANA. Ao longo do ano de 2014 e 2015, a autorização para operação da vazão em Santa Cecília foi diminuindo até atingir 110m³/s, em fevereiro de 2015. Apesar da autorização indicada nas resoluções da ANA, as implementações se deram de maneira gradual e parcial, devido aos seus impactos para os usuários ao longo dos rios Paraíba do Sul e Guandu, conforme pode ser visto na Tabela 1. As reduções realizadas em 2014 e 2015 resultaram em uma economia considerável de água superior a 1100 hm³, que corresponde a aproximadamente 25% do reservatório equivalente até 12 de junho/2015.
Tabela 1 – Resumo das reduções praticadas
Data Vazão Autorizada (m³/s) Vazão Praticada (m³/s) Jusante de Santa Cecília (m³/s) Transposição Guandu (m³/s) 09/06/2014 173 180 66 115 25/06/2014 173 173 66 115 18/07/2014 165 169 59 111 04/08/2014 165 165 55 111 15/08/2014 165 165 55 111 02/09/2014 160 163 55 109 10/09/2014 160 160 52 109 18/09/2014 160 166 52 115 26/09/2014 160 162 52 111 01/10/2014 160 161 52 110 05/01/2014 140 149 42 114/1006 13/01/2015 140 147 42 114/966 31/01/2015 140 145 42 114/926 06/02/2015 140 140 40 110/906 05/03/2015 110 134 36 108/886 13/03/2015 110 130 35 105/856 29/03/2015 110 127,5 35 100/856 31/05/2015 110 134,5 35 114/856
Nos meses de dezembro/2014 e janeiro/2015, período no qual se espera um reenchimento dos reservatórios, mesmo com a redução da vazão objetivo implementada, observa-se no detalhe 2 da Figura 2 que houve um decaimento do nível do reservatório equivalente ocasionado pelas baixas vazões naturais afluentes nesses meses.
As reduções das vazões geraram impactos sobre diversos usos de água da bacia, que foram identificados através de vistorias e análise dos sistemas de captações, e vêm sendo monitorados por meio de estações hidrometeorológicas telemétricas, de qualidade das águas, dos relatos dos usuários e de vistorias.
Algumas captações sofreram com a redução do nível. Os municípios fluminenses de Barra Mansa, Barra do Piraí, São Fidelis, Vassouras, Sapucaia e Três Rios apresentaram problemas na sua estrutura de captação em função do rebaixamento do nível do rio; São João da Barra, em função do aumento da intrusão salina. Esses municípios tiveram auxílio técnico para o estabelecimento de medidas emergenciais de curto prazo, já implementadas, e para o estudo de soluções permanentes de médio/longo prazo, que estão sendo viabilizadas. Na captação da ETA Guandu, operada pela
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CEDAE e responsável pelo abastecimento de cerca de 9 milhões de pessoas, foi necessário altear a barragem para garantir a permanência da sua captação por gravidade e intensificar o monitoramento relativo à qualidade da água. Na foz do rio Guandu, o aumento da intrusão salina afetou os usuários industriais ali localizados.
Para garantir que nenhum usuário ficasse desabastecido, foi criado um protocolo de comunicação entre INEA, Light, Furnas e ONS, com o objetivo de estabelecer um canal onde os usuários pudessem informar as situações emergenciais decorrentes das reduções de vazões. Através deste protocolo, o INEA centraliza as demandas dos usuários tanto do Guandu como os que captam diretamente no rio Paraíba do Sul na região fluminense, e aciona a Light ou Furnas, caso necessário, solicitando o aumento da vazão praticada em Pereira Passos, ou em Funil, visando mitigar a situação de emergência. Os operadores comunicam ao ONS. Esse protocolo foi acionado uma vez em 2014 e 11 vezes de janeiro a 12 de junho de 2015.
No tocante à qualidade de água, o monitoramento realizado pelo INEA no rio Paraíba do Sul, mostrou uma mudança nos padrões em alguns pontos de monitoramento, a exemplo do reservatório de Funil. Neste local, houve necessidade de um acompanhamento constante dos níveis de cianobactérias durante o verão, época onde há um aumento da incidência da radiação solar e das temperaturas. Como o nível do reservatório estava mais baixo, ocorreu um agravamento da qualidade da água, sem causar necessidade de interrupções nas captações a jusante. Na foz do rio Paraíba do Sul e no Canal de São Francisco, os pontos foram monitorados com o intuito de verificar o avanço da cunha salina até as captações dos usuários localizadas próximas a estes locais.
A ANA elaborou um Plano de Ações Complementares para a gestão da crise hídrica na bacia do rio Paraíba do Sul (ANA, 2015). Neste plano foi avaliado o impacto aos usuários da bacia do Paraíba do Sul, na hipótese de novas reduções de vazões, e a possibilidade de utilização dos volumes dos reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, abaixo do seu volume útil operacional, conforme Tabela 2. Foram indicadas ações de adaptação das captações para abastecimento público em 11 municípios de São Paulo e em 10 municípios do Rio de Janeiro que captam na calha do rio Paraíba do Sul
Tabela 2 – Volumes disponíveis nos reservatórios do sistema Hidráulico do Paraíba do Sul Reservatórios Volume
Máximo (hm³)
Volume Mínimo (hm³)
Volume útil Volume Morto utilizável sem bombeamento7 hm³ % do volume equivalente hm³ % do volume equivalente Paraibuna 4.731,7 2.095,6 2.636,1 60,7 425 9,8 Santa Branca 439 131 308 7,1 84 1,9 Jaguari 1.235,6 443,1 792,5 18,3 - - Funil 888,3 283 605,3 13,9 60 1,4 Reservatório Equivalente 7.294,6 2.952,7 4.341,9 100 569 13,1
Na foz do Canal de São Francisco, os usuários ali localizados, sentiram o impacto de não conseguir captar durante alguns momentos. As empresas vinham sendo alertadas de INEA que a situação de escassez era preocupante, sendo inevitável a redução gradativa da vazão transposta para o Guandu. Em julho/2014, em reunião na Associação das Empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz (AEDIN), a TKCSA já vinha apresentando problemas na captação; foi INEA explicitada, sobretudo pelo INEA, a necessidade das empresas se mobilizarem para estabelecer ações de curto e médio prazo, visando minimizar o efeito da salinidade da água em suas captações. Algumas
ampliaram sua capacidade de captação e reservação para minimizar os efeitos da redução da vazão. No entanto, essas medidas não seriam suficientes; em novembro/2014, foram necessárias medidas mais efetivas, sendo proposto inclusive a transferência da captação INEA da planta siderúrgica da TKCSA para montante, em local fora da influência da cunha salina, além da implantação de estrutura provisória de barramento da cunha salina (soleira submersa), a jusante da captação de água atual.
Com o agravamento da estiagem, em dezembro/2014, a Secretaria de Estado do Ambiente do Governo do Estado do Rio de Janeiro formalizou, por meio de ofício, a necessidade de providências para enfrentar eventuais reduções adicionais a partir de janeiro/2015, junto às quatro principais indústrias (Furnas, Gerdau, FCC e TKCSA).
No final de janeiro/2015, foi necessário esgotar o volume útil de dois reservatórios: Paraibuna e Santa Branca; e utilizar parte do volume abaixo deste, respectivamente, até os dias 06/02 e 24/02/15, respectivamente. O ONS, por sua vez, através da Nota Técnica 013/2015 (ONS, 2015), recomendou a vazão limite de 110m³/s em Santa Cecília.
Em janeiro de 2015, o Secretário de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro criou o gabinete de segurança hídrica do Estado do Rio de Janeiro com o objetivo de discutir medidas para aumento da segurança hídrica do Estado. Inicialmente, o foco foi discutir as ações necessárias para mitigar os impactos dos usuários do Canal de São Francisco. Foi apresentada aos representantes das quatro empresas localizadas no local a possibilidade de utilização de água de reuso da CEDAE para o aumento da oferta hídrica no Canal. Essa seria uma solução definitiva e a longo prazo; com a previsão de execução em 1 ano, as empresas terminariam a construção de uma adutora que levaria a água de reuso da CEDAE até os seus pontos de captação. No entanto, uma medida emergencial, de curtíssimo prazo, se fez necessária para que as reduções sucessivas não impedissem o abastecimento destes usuários. Os usuários se uniram, então, para construir uma solução provisória: uma soleira submersa para conter a entrada da cunha salina, que está em andamento, com conclusão prevista para meados de julho de 2015.
Por outro lado, motivada pelo interesse do Governo de São Paulo em transpor águas do reservatório de Jaguari para complemento do abastecimento da Macrometrópole Paulista, a ANA formou um grupo técnico composto por representantes dos órgãos gestores dos estados integrantes da bacia (MG, RJ e SP) e o CEIVAP. Diante desta nova transposição da bacia, e pela necessidade da alteração das regras operativas nas estiagens de 2003 e 2014, foi estudada uma proposta de resolução conjunta entre esses estados e a ANA, redefinindo as condições de operação do Sistema Hidráulico do rio Paraíba do Sul. Os objetivos principais são aumentar a segurança hídrica para os usuários da bacia do Paraíba do Sul e garantir a transposição mínima de 119m³/s para o Guandu. No dia 10 de maio de 2015, os secretários de estado responsáveis pela gestão dos recursos hídricos na bacia se reuniram com a ANA para concluir os termos desta Resolução Conjunta ANA/DAEE/INEA/IGAM. Foram acordadas as condições gerais para a operação do Sistema, que serão as bases de uma futura resolução conjunta.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A estiagem severa e a crise hídrica da bacia do Paraíba do Sul desde 2014 evidenciaram a necessidade de adaptação dos municípios e usuários industriais à nova realidade de escassez hídrica. Soluções emergenciais, de curtíssimo prazo, como a soleira para contenção da cunha salina no Canal de São Francisco, e adaptações nas captações de diversos municípios, foram necessárias ao longo de 2014 e 2015. No Estado do Rio de Janeiro, estas e outras ações de médio/longo prazos vêm sendo implementadas com apoio técnico do INEA e financeiro dos comitês de bacia, sobretudo
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CEIVAP e Comitê Guandu. Entretanto, estas ações são necessárias, porém não suficientes, para evitar riscos de dasabastecimento futuro, sendo essenciais também medidas de reversão da tendência de degradação ambiental da principal bacia hidrográfica do Estado. É possível, nesse contexto tirar algumas importantes lições:
Faz-se necessário aperfeiçoar as regras de operação do Sistema Hidráulico Paraíba do Sul, definidas na Resolução ANA no 211/2003. Estas não se mostram mais adequadas às condições da Bacia Paraíba do Sul, seja em termos hidrológicos ou de uso múltiplo de suas águas. Para a segurança hídrica futura, destaca-se que essas mudanças, em fase final de pactuação, feita conjuntamente com a ANA, os Estados de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, e o CEIVAP, irão aumentar significativamente o estoque de água nos reservatórios de cabeceira para o conjunto de usuários dos rios Paraíba do Sul e Guandu. As novas regras serão implementadas somente quando a Bacia do Paraíba do Sul superar a crise hídrica mas aumentarão a resiliência da Bacia a estiagens severas como a vivenciada desde 2014.
É preciso aproveitar a crise para mudar paradigmas: segurança hídrica é um tema que deve ser introduzido ou valorizado na agenda política e na gestão de bacias hidrográficas do Sudeste e de regiões densamente urbanizadas como as Metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro. No estado do Rio de Janeiro, este assunto está sendo discutido e deverá se traduzir em um Plano ou Programa Estadual de Segurança Hídrica.
A mudança de paradigmas inclui também sair da lógica exclusiva de aumento da oferta de água para o desenvolvimento de uma cultura de gestão da demanda e de uso racional da água. Isto se traduz em programas robustos de redução de perdas dos sistemas de abastecimento, programas permanentes de economia de água junto aos consumidores finais (de água tratada), regulamentação e estimulo ao reuso de água não potável sobretudo para fins industriais, entre outros. No rio Guandu, por exemplo, é preciso estabelecer condições de uso de suas águas, em função da complexidade dos usos e dos problemas de intrusão salina.
Por fim, é preciso também proteger e recuperar mananciais, através da restauração florestal em bacias hidrográficas estratégicas, sobretudo para o abastecimento público. A recuperação de qualidade de água através da coleta e tratamento de esgotos é imprescindível para o aumento da disponibilidade hídrica desta e principalmente das próximas gerações.
REFERÊNCIAS
ANA (2014). Encarte Especial sobre a Crise Hídrica. Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil. Informe 2014.
ANA (2015). Plano de Ações Complementares para a Gestão da Crise Hídrica na Bacia do Rio Paraíba do Sul.
INEA (2014). Nota Técnica DIGAT/INEA Nº01-A/2014.
ONS (2015). Nota Técnica nº013. Critérios para a utilização dos volumes mortos dos reservatórios das usinas hidrelétricas da bacia do alto paraíba do sul.
ONS (2014). Nota Técnica nº 0043. Avaliação das Condições Hidrológicas e de Armazenamento da Bacia do Rio Paraíba do Sul.