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REFLEXÕES SOBRE A ADOÇÃO HOMOAFETIVA (2011) 1

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REFLEXÕES SOBRE A ADOÇÃO HOMOAFETIVA

(2011)

1

ALVES,Ferigolo Anelise

2

; BOTTOLI, Cristiane

3

1

Trabalho de Graduação _UNIFRA

2

Curso de Psicologia do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil

3

Docente do Curso de Psicologia Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS,Brasil

E-mail: [email protected] ; [email protected] ;

RESUMO

O presente trabalho busca refletir sobre a adoção de crianças por casais homoafetivos, pois hoje observamos um número significativo de casais homoafetivos que manifestam o desejo da adoção. Grande parte dos estudos apontam para o fato de que ser homossexual ou heterossexual não torna uma pessoa mais ou menos apta para exercer os papéis de pai e mãe, pois o critério a ser observado é o melhor interesse da criança, e que o exercicio da parentalidade e da maternidade não é apenas uma questão biológica. Deste modo, devemos (re)conhecer as particularidades e dificuldades que permeiam a adoção, mais especificamente no caso dos casais homoafetivos.

Palavras-chave: Adoção; Casais homoafetivos; criança.

1. INTRODUÇÃO

Há tempos atrás a homossexualidade e a família eram duas coisas inconciliáveis, sendo que somente se poderia falar em uma família se esta fosse formada por pais heterossexuais com filhos. Por este motivo filhos homossexuais não eram bem vindos, e quando vinham eram reconhecidos como um erro, um problema.

Para podermos falar do tema família e homossexualidade antes é preciso olharmos para as novas formas de relações conjugais, para as novas configurações familiares, que introduziram na sociedade novos e diferentes laços sociais. Além disto, é necessário desconstruir os preconceitos que existem na sociedade quando o tema é a família, e suas configurações e relações.

Para Silva Junior ( 2005), as famílias homoafetivas e as monoparentais afastam-se dos padrões familiares mais tradicionais infundidos, como se os paradigmas heterossexuais de família fossem perfeitos ou os únicos viáveis.

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Hoje podemos observar um número significativo de uniões conjugais formadas por casais homoafetivos, que manifestam o desejo da adoção, mas porém no Brasil, até bem pouco tempo a união entre casais homoafetivos, não era reconhecida pelo judiciário, mas no ultimo dia 05 de maio, o Supremo Tribunal Federal ( STF), determinou a garantia dos direitos civis para esses casais. Deste modo, podemos entender que é uma realidade que não pode mais ser negada, e portanto, merecendo a tutela jurídica em decorrência dos princípios da dignidade da pessoa humana e também da liberdade constitucional, bem como a promoção de discussões sobre o tema na sociedade em geral e nos meios acadêmicos.

O fato de ser homossexual ou heterossexual, não torna um individuo mais ou menos aptos para exercer os papéis de pai e mãe, pois o critério a ser observado é sempre o do melhor interesse da criança. Desta forma, ao contrário do que se pensa, pais homossexuais não criam problemas para seus filhos, muito menos os transformam em homossexuais. Pois entende-se que o papel de pai e mãe são funções a serem exercidas, que vai além do procriar, ou seja, significa implicar-se de forma significativa no processo de paternar e maternar, e nas especificidades que isto envolve. Assim, fica evidente, que a constituição da família vai além do primado natural ( diferença homem e mulher), intervindo ai outra realidade, com um fundamento não biológico, ou seja, a passagem da natureza à cultura (ROUDINESCO, 2003).

Precisamos (re)conhecer as dificuldades que permeiam a adoção, mais especificamente no caso dos casais homoafetivos, para que sejamos capazes de conduzi-la de maneira mais satisfatória, pois, enquanto profissionais da psicologia, não trabalhamos apenas com números e papéis, mas também com seres humanos que, a partir da realidade da adoção terão suas vidas direcionadas para algum sentido e significado.

2. DESENVOLVIMENTO

Para Zamberlam (2001), conceituar família e seus papéis, ficou cada vez maus difícil ao longo dos anos, necessitando de uma modernização e de um remodelamento sobre o refletir e o perceber esta entidade, a partir das diferentes configurações familiares e das novas formas de relacionamento. Embora essas transformações sejam percebidas no cotidiano, a família continua sendo o centro da civilização e da vida.

A adoção de criança existe desde os primórdios dos tempos, mas com a exceção de algumas culturas, sempre sofreu discriminação. No Brasil com a Constituição de 1988 e o

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Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990, foi determinado o fim de qualquer tipo de discriminação entre filhos adotivos e biológicos ( WEBER, 2008).

Ocampo (2001) refere que, a adoção pode ser definida como o estabelecimento de relações parentais entre pessoas que não são ligadas biologicamente, e que pode ser vista como um problema, quando os sentimentos e fantasias inconscientes não estão suficientemente elaboradas. Pois segundo a autora, a situação do filho adotivo constitui um fenômeno que pode ser fonte de possíveis conflitos, de acordo com as formas com que os pais agem e elaboram essa situação.

Além disso, para Fonseca ( 2002), a adoção está ligada a idéia de família moderna, onde somos levados a pensar em novas modalidades, onde desde o Estatuto da Criança e do Adolescente, a legislação começa a desprender-se do modelo conjugal, permitindo, por exemplo, que solteiros, viúvos ou separados adotem crianças.

A nova Lei de Adoção, Lei n° 12.010 de 2009, institui a criação do Cadastro Nacional de Adoção, o qual reúne os dados das pessoas que querem adotar e das crianças e adolescentes aptos para a adoção, de modo a impedir a “adoção direta”, também estabelece uma preparação psicológica, de modo a esclarecer sobre o significado de uma adoção e promover a adoção de pessoas que não são normalmente preferidas ( mais velhas, com problemas de saúde, indígenas, negras, pardas e amarelas). Outra mudança da nova lei, é que agora ela traz o conceito de família extensa, pela qual deve-se esgotar as tentativas de a criança ou adolescentes ser adotado por parentes próximos com os quais o mesmo convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade. Assim, por exemplo, tios, primos e cunhados tem prioridade na adoção. Outro ponto a ser comentado é a família substituta, pois é aquela que acolhe uma criança ou adolescente desprovido de família natural, de modo que faça parte da mesma.

Para Souza ( 2009), no Brasil a abertura para a adoção por pessoas homossexuais (adoção individual), pode ser extraída a partir do artigo 29 do Estatuto da Criança e do Adolescente: “Não se deferirá colocação em família substituta a pessoa que revele por qualquer modo incompatibilidade com a natureza da medida ou não ofereça ambiente familiar adequado” (p. 225). No Brasil a lei é saliente, o que proporciona aberturas jurisprudências que pouco a pouco vão levar a uma normalização do que já é fato.

Para Weber (2004), deve-se entender a adoção como uma outra forma de parentalidade e filiação, tão importante e com a mesma essência da biologia, e não apenas com um fator de risco, pois, os pais tem a responsabilidade de garantir bons cuidados à criança, porém outras pessoas podem propiciar tais cuidados tão bem quanto a mãe ou o

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pai biológico. Assim para o desenvolvimento emocional da criança satisfatório, a presença da mãe biológica pouca diferença faz em termos do bem-estar e do futuro sucesso do filho, sendo que os pais não biológicos, ou adotivos podem dar conta desta tarefa tão bem, ou melhor que os pais biológicos (FONSECA, 1995).

A possibilidade de adoção por casais homossexuais reveste-se também de um laço afetivo, mas mesmo assim, trás questionamentos, como por exemplo, o desenvolvimento da criança adotada. Deste modo, essas novas formas de relações familiares se deparam com diversas dificuldades e desafios, que muitas vezes nem o indivíduos envolvidos na questão, nem a sociedade estão preparados para enfrentar, pois envolve primeiramente a questão de como nomear as relações constituídas por casais homossexuais e a maneira que se configuram ( FÉRES- CARNEIRO, 1999).

Costa (2005) refere que não há nenhum impedimento no Estatuto da Criança e do Adolescente para que casais homossexuais adotem, pois a capacidade para a adoção nada tem a ver com a sexualidade do adotante, pois basta preencher os requisitos legais. A autora ainda destaca que ainda hoje a adoção por pares homossexuais é vista com muito preconceito, como se o fato de ser homossexual fosse algo “anormal”, que poderia influenciar diretamente e de forma prejudicial na educação da criança.

Para Silva Junior (2005), a adoção cumpre uma função social atualizada considerável, e deve ser compreendida para além da herança preconceituosa, necessitando ser contextualizada. Moschetta (2009) destaca que em função das mudanças, já mencionadas, que levaram novas configurações familiares, surge uma nova realidade onde, o casal homoafetivo se auto designa como família e exige não apenas o direito a cidadania de forma individual, mas também o direito a constituição de uma família enquanto sujeito social, responsável também pela educação e socialização de filhos, sejam eles biológicos ou adotivos, o que exige consequentemente discussões tanto por parte do judiciário quanto da sociedade em geral, pois é uma realidade que não pode ser mais negada.

Em função desta realidade premente, o Supremo Tribunal Federal, no ultimo dia 05 de maio reconheceu a união estável entre casais do mesmo sexo, como entidade familiar, o que pode abrir espaço mais afetivo para discussões que levam a reformulação na própria legislação brasileira. Deste modo os casais homossexuais tem alguns direitos assegurados como herança, comunhão parcial de bens, pensão alimentícia e previdência, licença medica, inclusão do companheiro com dependente em planos de saúde.

Zambrano (2006), chama a atenção para o fato de que a homoparentalidade costuma ser alvo de mitos e questionamentos, colocando a prova a orientação sexual dos

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pais e os cuidados dos filhos. Essa associação homossexualidade dos pais e cuidados dos filhos é exatamente o que os estudos sobre homoparentalidade se propõem a refletir e problematizar, demonstrando que homens e mulheres homossexuais podem ser ou não bons pais, da mesma forma que homens e mulheres heterossexuais.

Também conforme Dias (2000), alguns mitos de que a crianças adotadas por homossexuais seriam desprovidas de referencias comportamentais, com tendência a se tornarem homossexuais, não possuem fundamentos reais. Pois, mesmo que as famílias homoparentais existam dois pais ou duas mães, estes poderão desempenhar os papeis materno e paterno, independente do sexo a qual pertencem. O que importa, conforme a autora, é que casais homossexuais também estão aptos para cuidar de filhos e transmitir a eles valores culturais do grupo ao qual dizem respeito, permitindo sua entrada efetiva e de direitos, no mundo social. Pois entende-se que, a parentalidade é a capacidade psicológica de exercer a função parental, ou seja, a capacidade de ser pai ou mãe suficientemente bons para seus filhos.

Assim, a partir do momento que a união estável de pessoas do mesmo sexo passa a ser reconhecida com entidade familiar, independentemente do caráter predominantemente obrigacional ou contratual, faz com que sejam reconhecidas alguns elementos característicos da família heterossexual que também estão presentes nas famílias homossexuais. Deste modo, entende-se que é o afeto que justifica o respeito mutuo, a durabilidade, e a solidez, indispensáveis para que a união formem uma estrutura familiar saudável e adequada para o pleno desenvolvimento das crianças e dos adolescentes ( SILVA JUNIOR, 2005). Estes aspectos, por si só, já justificam o fato de não se admitir um tratamento diferenciado do jurídico e da sociedade em geral, que tenha como base as escolhas afetivas ou a estrutura familiar.

A adoção hoje é definida como uma outra possibilidade de se constituir família, a qual pode trazer resultados tão satisfatórios, quanto a filiação biológica. Na verdade, como muito bem define Levinzon (2004) “toda filiação é, antes de tudo, uma adoção” (p.25). A adoção é a única possibilidade de se constituir uma verdadeira parentalidade e a única de genitores tornarem-se pais.

3. CONCLUSÃO

Quando falamos na questão da origem familiar surgem inquietações e dúvidas. Devido a isso devemos identificar fatores situacionais do contexto da criança e dos pais adotivos para ter uma melhor compreensão, sem esquecer também de identificar os fatores emocionais e

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comportamentais que envolvem os mesmos. A adoção homoafetiva, embora que no Brasil não seja totalmente reconhecidas, está tornando-se uma realidade cada vez mais visível e mais difícil de ser ignorada.

Podemos falar que os pais tem a responsabilidade de garantir bons cuidados a criança, mas mesmo assim outras pessoas podem propiciar cuidados tão bem quanto os pais biológicos. Mesmo assim, ainda hoje permanecem algumas dificuldades em reconhecer que os laços familiares são criações socioculturais e que podem ou não ocorrer junto com os laços biológicos. Por outro lado, a adoção tem representado, há muito tempo, a possibilidade de formar uma família assentada não na biologia, mas sim na cultura.

De certa forma, os profissionais de psicologia são chamados para trabalhar questões que envolvem as famílias homoafetivas, os significados da adoção, e a realidade das crianças e adolescentes inseridos neste “novo” núcleo familiar, avaliando e intervindo de certa forma, neste momento tão peculiar para todos os envolvidos. Portanto esta discussão se faz necessária.

REFERÊNCIAS

COSTA, N.R.A. Construção de sentidos relacionados à maternidade e à paternidade em uma

família adotiva. Tese de Doutorado, Faculdade de Filosofia em Ciências e Letras, Universidade de

São Paulo, Ribeirão Preto, 2005.

DIAS, M. B. União Homossexual: aspectos sociais e judiciários. Porto Alegre. Livraria do Advogado, 2000.

FILHO, F.S.T. Os segredos da adoção e o imperativo da matriz bioparental. Estudos Feministas, Florianópolis, 18(1), Janeiro-abril 2010.

FONSECA, C. Caminhos da adoção. São Paulo: Cortez, 1995. __________ Caminhos da adoção. São Paulo, SP: Cortez, 2002. LEVINZON, G.K. . Adoção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

MOSCHETTA, S.O.R. Homoparentalidade: direito à adoção e reprodução humana assistida por casais homoafetivos. Editora Juruá, Curitiba, 2009.

OCAMPO, M. L.S. O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas. Porto Alegre. Martins Fontes, 2001.

ROUDINESCO, E. A Família em Desordem. Traduzido por André Teles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

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SILVA JUNIOR, E. D. A possibilidade jurídica de adoção por casais homossexuais. Curitiba: Juruá, 2005.

SOUZA, I. M. C. C. Parentalidade: Analise Psicojuridica. Curitiba: Juruá, 2009. WEBER, L. N. D. Aspectos Psicológicos da Adoção. Curitiba: Juruá, 2004. ______________. Pais e filhos por adoção no Brasil. Curitiba: Juruá, 2008.

ZAMBERLAM, C. O. Os novos paradigmas da família contemporânea: uma perspectiva interdisciplinar. Rio de Janeiro: Renovar, 2001.

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