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PALAVRAS DO BRASIL VOCABULÁRIO E EXPERIÊNCIA HISTÓRICA NO IMPÉRIO DO BRASIL

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Academic year: 2021

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PALAVRAS DO BRASIL – VOCABULÁRIO E EXPERIÊNCIA

HISTÓRICA NO IMPÉRIO DO BRASIL

Aluno: Andre Novellino Gouvêa Orientador: Ilmar Rohloff de Mattos

I – Relatório Técnico – Período: Fevereiro de 2011 – Fevereiro de 2012

O objetivo deste texto é relatar as atividades realizadas na pesquisa “Palavras do Brasil – Vocabulário e Experiência Histórica no Império do Brasil” do professor Ilmar Rohloff de Mattos. No princípio, o grupo era formado pelo professor orientador Ilmar Rohloff de Mattos, pelas pesquisadoras bolsistas Beatriz Campos Pantaleão e Vera Regina Bastos-Tigre e por mim; eventualmente, juntaram-se a nós Ruberval Silva e Bárbara Perdigão na condição de pesquisadores bolsistas e Eduardo Falcão como pesquisador voluntário. Pretendo utilizar os resultados de meu trabalho nesta pesquisa em minha monografia.

• Práticas do Grupo

A pesquisa teve reuniões semanais, nas quais discutimos tanto textos historiográficos e teóricos, quanto as fontes primárias utilizadas para o nosso trabalho. Houveram também apresentações para o grupo dos resultados do trabalho de cada pesquisador. Os pesquisadores investigaram fontes primárias relevantes para o trabalho, trazendo para as reuniões os resultados obtidos. Realizamos ainda reuniões extras nas quais a mestranda Alessandra Gonzalez de Carvalho Seixlack apresentou os capítulos 1, 2, 9 e 13 do livro Futuro Passado de Reinhart Koselleck. No decorrer da pesquisa, analisei as falas de Bernardo Pereira de Vasconcelos no Senado imperial através da leitura dos Anais do Senado referentes aos anos de 1843 e 1848.

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2 II – Relatório Substantivo

• Introdução

Fiquei encarregado principalmente de estudar as relações entre o conceito de Império e o de Escravidão nas falas e ações políticas de Bernardo Pereira de Vasconcelos, deputado e posteriormente senador do Império do Brasil. Embora inicialmente tivesse uma postura liberal na política, Vasconcelos tornar-se-ia um dos elementos principais da guinada conservadora na política brasileira na segunda metade dos anos 1830, sendo seu discurso de 1843 no qual afirmou que “a África civiliza” marco importante disto, tendo Bernardo Pereira de Vasconcelos feito contundente defesa da escravidão em tal discurso. Para a pesquisa foi de particular interesse o vínculo estabelecido nas falas de Vasconcelos entre escravidão e império – entendido como sendo caracterizado pela ordem. Nas falas de Bernardo Pereira de Vasconcelos, o mesmo estabelecia uma relação de interdependência entre o império e a escravidão, sendo a ordem interna e a integridade territorial do império essenciais para se poder combater as revoltas escravas e fazer frente aos anseios anti-escravistas das potências estrangeiras, e a escravidão sendo necessária para prover a prosperidade do país e portanto possibilitar ter-se os instrumentos necessários para prover a ordem no império.

Nas falas de Vasconcelos, apresentava-se uma caracterização da história nos moldes da filosofia da história; haveria uma contraposição entre um regresso marcado pela ordem e um progresso caracterizado pela liberalização das instituições e contendo a possibilidade de anarquia. Bernardo Pereira de Vasconcelos se identificava como regressista, afirmando que o processo de liberalização teria passado do ponto, e que seria necessário estancar e mesmo regredir nas reformas liberais.

Ao longo de sua atuação política, Vasconcelos foi delineando um projeto político para o Império do Brasil que o apresentava como uma civilização – no sentido de uma cultura em particular – que teria sua marca própria na escravidão; tal instituição civilizaria o império, no sentido de trazer a ele prosperidade e povoamento de seu grande território esparsamente habitado.

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No projeto de pesquisa, de forma a investigar o conceito de Império e o de Escravidão no pensamento de Bernardo Pereira de Vasconcelos e as relações estabelecidades pelo mesmo entre eles, analisei seus discursos no Senado nos anos de 1843 e 1848, o que possibilitou melhor entendimento do projeto político de Vasconcelos para o Brasil.

Bernardo Pereira de Vasconcelos dava foco à particularidade das circunstâncias do Império do Brasil. Para Vasconcelos, nações tais como a França e a Inglaterra se encontrariam em circunstâncias diversas às do Brasil, e portanto tentar imitá-las resultaria em arremedá-las de forma ridícula, tendo o Brasil que buscar seu próprio caminho para se civilizar mais – caminho esse que passaria pela escravidão; Vasconcelos criticava o que chamava de estrangeirismos – buscar emular as nações estrangeiras pelo seu grau de civilização, sem se atentar para as impraticabilidades de se realizar tal emulação. Afirmava que o fim da escravidão deveria se dar não através da atuação do Estado, mas sim como consequência do desenvolvimento da sociedade, que mudaria as circunstâncias e faria com que a instituição da escravidão fosse perdendo o sentido e fosse sendo abandonada naturalmente. Países grandes, desertos e férteis precisariam de escravos e o Brasil, encontrando-se nessa situação, necessitaria da escravidão para ser próspero, significando sua abolição a ruína. No pensamento de Vasconcelos, todos os países teriam tido e precisado de escravos em algum momento no desenvolvimento de sua civilização – mas países tais como a França e a Inglaterra não mais teriam tal necessidade, por terem se desenvolvido de forma específica. Por essa razão, por se encontrar o Brasil em situação diversa – sendo menos povoado que tais países – não poderia simplesmente imitá-los, já que tal seria nada além do que maquiar uma situação fundamentalmente diferente da deles.

Benedict Anderson e Zygmunt Bauman me serviram de base teórica para analisar as falas de Bernardo Pereira de Vasconcelos em relação à nação brasileira e da sua particularidade como civilização. Também serviram para correlacionar os conceitos de Império e Nação. O Império do Brasil tinha uma especificidade em relação a outros impérios experienciados na história, como o Império Napoleônico, o Império Austríaco ou o Império Romano, que era de que o Império do Brasil, além de ser um império era também uma nação; e portanto, ao contrário de tais impérios era imaginado como sendo limitado territorialmente e como um império de uma nação só – a nação brasileira seria imaginada como uma nação de origem européia que conviveria com outras nações em seu território – as nações indígenas e as africanas e crioulas – mas estas ficariam em posição subordinada a ela.

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No projeto de pesquisa, utilizamos como base teórica Reinhart Koselleck, em especial seu pensamento sobre as diversas formas de relação com o tempo que foram experienciadas historicamente, como a história mestra da vida e a filosofia da história, assim como seus conceitos de “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”. A filosofia da história – isto é, a idéia de que a história progrediria em um certo sentido, podendo tal progresso ser acelerado ou retardado, mas sempre estando os eventos históricos subordinados ao fim último de tal progresso e como afetariam sua vinda – ocupava um papel importante no pensamento de Vasconcelos, e era frequentemente em termos de progresso e regresso que ele expunha suas idéias. O regresso era identificado com a ordem e com o conservadorismo, e o progresso com o liberalismo e a anarquia; em 1848, disse Vasconcelos no Senado sobre as revoluções liberais que então ocorriam na Europa: “Lá na Europa tem havido suas desordens; não sabemos ainda se a Inglaterra seguirá o impulso da Europa; se ela o seguir, se a Inglaterra entrar também nas vias do progresso, é muito provável que a Europa se tartarise”. Ou seja, o progresso e a liberalização, se em demasia, implicariam em desordens e anarquia e, consequentemente, tartarisação, sinônimo para barbarização.

É necessário ressaltar entretanto que a proposta de Vasconcelos não era uma simples defesa da ordem pela ordem, mas sim de que a ordem deveria ser defendida porque não haveria liberdade sem ordem. Apesar da grande mudança em sua postura política em meados da década de 1830, passando de liberal a conservador, pode-se perceber um nexo de continuidade; Vasconcelos sempre defendeu o parlamentarismo e as liberdades civis e sua mudança de posição política significou não o abandono da liberdade pela ordem, mas a adoção da crença de que se deveria garantir antes de tudo a ordem, para que então se pudesse haver liberdade. E para garantir a ordem, seria essencial a escravidão.

Apesar de haver criticado o comércio intercontinental de escravos e a escravidão em 1827, Bernardo Pereira de Vasconcelos se tornaria um dos maiores defensores de ambos com o advento do regresso conservador. Entretanto sua defesa do comércio intercontinental de escravos e da escravidão manteve em sua estrutura elementos comuns aos de crítica. Em primeiro lugar, ambas se baseavam em uma razão prática; no caso da crítica através do argumento de que a mão-de-obra escrava seria menos produtiva, enquanto no caso da defesa através da afirmação de que em países vastos, desertos e férteis seria necessário ter-se escravos em um primeiro momento, para se providenciar prosperidade e consequentemente civilizar o país em questãos. Em segundo lugar, tanto a defesa quanto a crítica fizeram uso de teorias que analizavam a economia ou a sociedade, teorias estas que haviam sido escritas e publicadas por autores de relevo, e tinham circulação nos meios intelectuais no mundo

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ocidental. Em terceiro lugar, tanto a crítica como a defesa das instituições escravistas apontavam para o bem comum, para os interesses gerais da nação.

Um fênomeno de relevo para a mudança de posição de Vasconcelos acerca das instituições escravistas foi a revigoração da escravidão nas décadas de 1830 e 1840, caracterizando-se pelo que foi denominado por Dale Tomich de “segunda escravidão”1, isto é, um grande e novo fôlego que teve a escravidão, após ter passado por um período de declínio. As características que marcaram a “segunda escravidão” foram: a abolição da escravatura nas colônias britânicas e francesas e o consequente fracasso econômico das mesmas – dando dessa forma novas oportunidades para regiões antes periféricas de produção, como Cuba no caso da produção de açúcar – assim como as modificações econômicas ocorridas devido ao desenvolvimento industrial, que levaram a uma demanda crescente pelos produtos das plantações.

Na medida que a lavoura escravista cafeeira se expandia no Brasil, esta providenciava ao Estado maiores rendas, de forma que a renda estatal no Brasil cresceu de 14.000 contos de réis em 1834 para 24.000 em 1844. Ao mesmo tempo, também aumentavam as despesas estatais, devido às sucessivas revoltas nas quais o Império do Brasil estava imerso, passando os gastos públicos de 12.000 contos em 1834 para 24.000 em 1839, dos quais 54% eram destinados à defesa e à manutenção da ordem2. Dessa forma, a expansão da escravidão serviu como elemento estabilizador da ordem política no Império do Brasil, uma vez que possibilitou ao Estado realizar os gastos necessários para manter a ordem pública nas províncias; recebendo a manutenção da ordem atenção especial nos discursos de Bernardo Pereira de Vasconcelos posteriores à sua guinada conservadora, e dado que as rendas necessárias para tal manutenção da ordem dependiam crescentemente da lavoura escravista, defender a escravidão havia se tornado premente no programa político de Vasconcelos para estabilização do Império.

Assim como os dados destacados acima atribuem a maior parte dos gastos públicos de então à defesa e à manutenção da ordem, também afirmava Vasconcelos que a maior causa do crescimento das despesas do Império eram as rebeliões:

“O Sr. Vasconcelos: – [...] Não se sabe qual é a principal causa do aumento destas despesas? Não são as rebeliões que têm afligido o império de 1835 para cá? Não houve a rebelião

1 Dale Tomich apud Marcia Berbel; Rafael Marquese; Tâmis Parron. Escravidão e Política - Brasil e Cuba,

1790-1850, p. 347. Hucitec, 2010.

2 Marcia Berbel; Rafael Marquese; Tâmis Parron. Escravidão e Política - Brasil e Cuba, 1790-1850, p. 257.

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do Pará? Não sobreveio logo a do Rio Grande do Sul que tem consumido tantos milhares de contos de réis? Não se seguiram as da Bahia e do Maranhão, e ultimamente as de Minas e de São Paulo? Como não há de crescer consideravelmente a despesa? Eu não posso atribuir o nosso aumento de despesa senão à nossa desgraça!

[...] Portanto declaro que não assevero que as rebeliões foram as únicas causas do acréscimo da despesa, tem havido muitas outras causas; mas as principais são as revoluções.”3

A miríade de rebeliões nas províncias brasileiras dessa forma consumiriam largamente as rendas estatais, desde o ano seguinte ao Ato Adicional de 1834.

Em seus discursos, Bernardo Pereira de Vasconcelos afirmava ser a escravidão necessária para a prosperidade dos países grandes, desertos e férteis e o Brasil, encontrando-se nessa situação, necessitaria da escravidão para ser próspero, significando a abolição da mesma sua ruína, de forma que disse no Senado em princípios de 1843:

“O Sr Vasconcelos: – [...] Eu sou de opinião inteiramente contrária a do nobre senador; estou na convicção de que terra nova e vasta não prospera sem o serviço do escravo, e eu noto que em todos os povos tem havido escravidão...

O Sr. C. Ferreira: – Olhe para a América do Norte e veja quais são os estados que mais prosperam; se aqueles que têm escravos, ou aqueles onde há somente gente livre.

O Sr. Vasconcelos: – O nobre senador parece que não está bem certo nestas matérias; se o nobre senador fosse a esses lugares veria a abundância e a riqueza onde há escravos, e uma população disseminada e semi-bárbara onde não há escravidão...”4

Vasconcelos, ao constrastar a “a abundância e a riqueza” que teriam os países vastos, desertos e férteis que tinham a escravidão com a “população disseminada e semi-bárbara” dos que não tinham a escravidão, apontava para uma associação entre riqueza e civilização; sendo a escravidão a provedora da riqueza nos países que se encontrassem em tal situação. De acordo com o pensamento de Vasconcelos, todos os países teriam tido e precisado de escravos – entendidos em sentido amplo, ou seja, de trabalhadores compulsórios – em algum momento no desenvolvimento de sua civilização – e os que deixaram de os ter foi por não mais terem necessidade, pelo seu próprio desenvolvimento:

“O Sr. Vasconcelos: [...] Eu vejo todos os povos do mundo terem escravos, sem exceção de um só, não há de o nobre senador, lendo a história, dizer-me: – Este povo não teve escravos. –

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Anais do Senado, 1843, vol. IX, pp. 21-24.

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O Sr. C. Ferreira: – Quando deixarão de os ter?

O Sr. Vasconcelos: – Quando as necessidades públicas as dispensavam, quando as terras muito encareceram, quando os escravos se tornaram mais pesados do que úteis; não foi por meras teorias, a tanto não chegou o seu entusiasmo pelos indivíduos.”5

Essas teorias, que Vasconcelos afirmava não serem de sua autoria6, eram reforçadas por Vasconcelos com a exposição de casos históricos, mencionando ele exemplos como São Domingos, cujos primeiros colonos Vasconcelos afirmava que caíram na ruína, pois haviam levado consigo trabalhadores assalariados, que chegando à ilha não quiseram trabalhar, levando o grupo como um todo à desgraça; a ilha teria apenas começado a prosperar quando o rei da Espanha permitiu que se pudesse impor o trabalho forçado aos índios locais. Outro caso mencionado por ele foi o da colônia da Virgínia, um dos principais locais do que se tornou o sul dos Estados Unidos, a qual teria sofrido fracasso em tentativas sucessivas de colonização, obtendo apenas a prosperidade após que se compraram escravos aos holandeses.7 Além dessas situações de um passado mais distante, Vasconcelos buscou dar também exemplos mais próximos de seu tempo, como a Nova Holanda8, cujas colônias que haviam sido estabelecidas por Peel também teriam sofrido algo semelhante ao que haveria ocorrido em São Domingos; os trabalhadores assalariados, assim que chegaram à Nova Holanda, desapareceram, espalhando-se pela vastidão do território, alguns caindo em desgraça e outros morrendo. O florescimento posterior das colônias da Nova Holanda seria devido, para Vasconcelos, a “braços escravos”, não de africanos, mas sim de ingleses condenados ao trabalho forçado nas colônias, sendo distribuídos entre os agricultores. Podemos inferir, portanto, que Vasconcelos utiliza o conceito de escravidão em sentido amplo, identificando-a com o trabalho forçado em geral.

Bernardo Pereira de Vasconcelos explicava esses acontecimentos afirmando que, para a lavoura prosperar, precisa-se de combinação e divisão de trabalho, dando como exemplo a produção de açúcar, que sem a combinação do trabalho acabaria-se perdendo toda a produção, devido a dificuldade de se realizar os trabalhos necessários no tempo próprio sem a

5

Anais do Senado, 1843, vol. II, p. 448.

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“O Sr. Vasconcelos: – Ora[, o] nobre senador disse que a minha economia política me fez acreditar que os braços africanos eram muito convenientes e mesmo necessários para o aumento da nossa produção. Infelizmente para o meu nome, essa economia não é minha; não tenho a honra de ser o inventor dela, e muito me gloriaria [sic] de ter servido à produção de meu país emitindo tais princípios.” Anais do Senado, 1843, vol.

III, p. 424.

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Anais do Senado, 1843, vol. III, p. 425.

8 Nome antigo para a Austrália, como indicado em mapas em: William R. Shepherd, Historical Atlas, p.

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combinação do trabalho. Uma vez estabelecido isso, Vasconcelos afirmava então que no caso brasileiro, não se poderia ter combinação de divisão de trabalho sem escravos, uma vez que a terra seria gratuita e livre – o que levaria os trabalhadores agrícolas, que não fossem obrigados, a buscar sua própria subsistência em pequenas propriedades; espalhando-se os trabalhadores, não seria possível organizá-los para realizar um trabalho combinado e dividido. Mencionando o caso dos Estados Unidos da América, Vasconcelos dizia que, uma vez que lá a terra era adquirida através da venda, ao invés de ser livre e gratuita como ele afirmava sê-la no Brasil, isso seria o suficiente para ter-se a realização de trabalho combinado e dividido, uma vez que os trabalhadores teriam restrições em seu acesso à terra, portanto afastando os trabalhadores da possibilidade de controlarem os meios de produção e levando a mão-de-obra a concentrar-se em grandes estabelecimentos rurais, e tal concentração permitiria a combinação e divisão do trabalho que seriam necessárias para ter-se produtividade. Indo além, Vasconcelos afirmava que nos Estados Unidos não só é a aquisição das terras restrita pela venda, como a prosperidade dos estados que não têm escravos é devida aos que os tem.9

Essa ênfase na necessidade de se ter grandes estabelecimentos agrícolas para ter-se produtividade no meio rural foi expressa posteriormente também por Oliveira Viana, no que tange três grandes elementos do campo brasileiro: o café, a cana de açúcar e o gado. Viana afirmava que a natureza das culturas do café e da cana de açúcar requeria que fossem cultivadas em grandes extensões para haver eficiência, e o mesmo ocorreria com a criação de gado10. Já vivendo após a abolição da escravatura, Oliveira Viana fez diagnóstico semelhante ao de Vasconcelos sobre a dispersão da mão-de-obra livre no Brasil, de que a abundância de terras levaria à tal dispersão e consequentemente à desorganização do campo11.

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Anais do Senado, 1843, vol. III, pp. 425-427.

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“De um modo geral, contemplando em conjunto a nossa vasta sociedade rural, o traço mais impressionante a fixar, e que nos fere mais de pronto a retina, é a desmedida amplitude territorial dos domínios agrícolas e pastoris. [...] Essa excessiva latitude dos domínios rurais é, em parte, imposta pela natureza das culturas. O pastoreio, a lavoura de cana e a lavoura de café exigem, para serem eficientes, grandes extensões de terreno.” Oliveira Viana. Populações Meridionais do Brasil, vol. I, pp. 119-120. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

11 “Há uma outra causa, que impede também essa vinculação [entre a classe senhoril e o proletariado

dos campos]. É o excesso de terra, a facilidade que tem o proletário dos campos de colocar-se. [...] Essa facilidade de emigração é um dos maiores fatores de desorganização de nossa sociedade e do nosso povo. Devido a ela os laços de interdependência econômica entre patrões e servidores não se podem apertar; as relações de patronagem se tornam flutuantes e instáveis; não adquirem, nem podem adquirir, solidez, permanência, estabilidade. Os servos de gleba, taillables à merci, cuja gênese só se explica pela carência de terra, não podem surgir aqui. Dentro da prodigalidade miraculosa da nossa natureza, essa forma de escravidão é impossível. Dela o nosso campônio se evade facilmente pela fuga, pela vagabundagem, pelo nomadismo, tão

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Bernardo Pereira de Vasconcelos traçava a origem das ideias que expunha no Senado imperial sobre mão-de-obra e produção agrícolas a economistas ingleses:

“[O Sr. Vasconcelos: –] O nobre senador tem a mesma liberdade que eu; prefere Tocqueville e Beaumont, eu prefiro os homens práticos, enfim, toda essa corte de sábios economistas da Inglaterra que se têm ocupado especialmente desta questão. Peço licença ao nobre senador para acreditar mais no que dizem esses ingleses que não são suspeitos na matéria, esses escritores que a Inglaterra considera mais habilitados nesta questão; dizem eles que, em países vastos, desertos e férteis, não pode haver ou não tem havido riqueza sem trabalho forçado.”12

Vasconcelos, mantendo usualmente sua postura realista, dá prova disso nesse trecho, contrapondo o que seriam teóricos idealistas com os “homens práticos”, economistas ingleses; esta é uma tática argumentativa comum nos discursos de Bernardo Pereira de Vasconcelos, na qual ele desqualifica os argumento de seus opositores identificando-os como idealistas ou sentimentais. Nessa vertente, os economistas ingleses, por analisarem a cultura material teriam maior valor já que estariam mais próximos do “real”, do concreto, enquanto que pensadores da política como Alexis de Tocqueville teriam menor valor por analisarem assuntos mais abstratos, como sistemas de governo, mais removidos da materialidade do mundo.

Bernardo Pereira de Vasconcelos afirmava, entretanto, que as teorias de economia política as quais ele apoiava eram contrárias às teorias de economia política de maior aceitação13, sendo plausível que tais teorias de maior aceitação referidas por ele fossem justamente as que ele apoiara em sua fase liberal, as teorias econômicas cujos modelos matemáticos davam suporte à ideia de que o homem livre seria mais produtivo do que o escravo.

Diversas das ideias expostas por Bernardo Pereira de Vasconcelos sobre a escravidão foram retiradas de E. G. Wakefield, como o evento relacionado a Peel e sua tentativa de colonização na Nova Holanda: Wakefield afirmava que Peel havia transportado da Inglaterra ao rio Swan, situado na Nova Holanda, 50.000 libras esterlinas em capital, assim como 300 pessoas da classe trabalhadora, sendo estes tanto homens quanto mulheres e crianças. Entretanto, dizia Wakefield, bastou a expedição de Peel chegar ao seu destino e ficou “sem

comuns, ainda hoje, nos sertões.” Oliveira Viana. Populações Meridionais do Brasil, vol. I, p. 128. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

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Anais do Senado, 1843, vol. III, p. 426.

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nem um criado para fazer-lhe a cama ou buscar-lhe água do rio”14. Para Wakefield, a abundância de terras em colônias faria com que não houvesse divisão de classe entre proprietários dos meios de produção e trabalhadores, e que dessa maneira não se pudesse formar uma classe de trabalhadores assalariados em quantidade suficiente, impossibilitando a acumulação de capital e portanto dificultando o desenvolvimento econômico15. Em lugares em que as terras existissem em abundância e fossem de livre acesso e baratas, e aonde todos os homens fossem livres, qualquer um poderia obter sua própria terra se assim desejasse, tornando o trabalho agrícola não só um tanto quanto caro, como haveria grande dificuldade em contratar-se trabalhadores. Segundo Wakefield, a escravidão, por possibilitar a concentração da mão-de-obra em algumas propriedades, resultaria em maior produtividade na agricultura; o trabalho escravo seria mais caro do que o trabalho livre devido aos cuidados necessários com os escravos para reprimir revoltas e garantir sua subsistência, mas, sendo a terra barata, a maior produtividade da mão-de-obra escrava mais que compensaria esta ser mais cara do que o trabalho livre; a própria necessidade de se obter trabalho combinado em lugares aonde as terras fossem abundantes e portanto vastas teria originado a escravidão16. Para embasar tal ideia, Wakefield mencionava o caso de São Domingos17, sendo sua

14 “[Peel was] left without a servant to make his bed or fetch him water from the river.” Edward Gibbon

Wakefield. England and America, vol. II, p. 33. Londres: Richard Bentley, 1833.

15 Edward Gibbon Wakefield. England and America, vol. I, pp. 17-18. Londres: Richard Bentley, 1833. 16 “Grãos muito baratos não são produzidos em qualquer parte, em grandes quantidades, senão pelo

trabalho de escravos, negros ou brancos, chamados de escravos ou servos. [...] mas por que os servos na Polônia e os escravos na América produzem grãos mais baratos do que homens livres em qualquer parte? [...] aonde a terra é muito barata e todos os homens são livres, aonde cada um que queira possa facilmente obter um pedaço de terra para si mesmo, não apenas o trabalho é muito caro, [...] mas é dificuldade consiste em obter trabalho combinado a qualquer preço. [...] o trabalho de escravos, embora caro comparado ao trabalho de trabalhadores livres na maioria dos países, é, sendo combinado, muito mais produtivo, em proporção ao número de pessoas empregadas, do que o trabalho dividido dos homens livres aonde quer que a terra seja muito barata. Isso explica [...] que a barateza dos grãos cultivados por escravos deve, não à barateza do trabalho escravo, mas à barateza da terra; essa mesma barateza da terra é também a causa da escravidão.” “Very cheap corn is not produced anywhere, in large quantities, except by the labour of slaves, black or white, called slaves or serfs. [...] but why is it that serfs in Poland and slaves in America produce cheaper corn than freemen anywhere? [...] where land is very cheap and all men are free, where every one who so pleases can easily obtain a piece of land for himself, not only is labour very dear, [...] but the difficulty is to obtain combined labour at any price. [...] the labour of slaves, though dear compared with that of free labourers in most countries, is, being combined, much more productive, in proportion to the number of hands employed, than the divided labour of freemen wherever land is very cheap. This explains [...] that the cheapness of corn raised by slaves is owing, not to the cheapness of slave-labour, but to the cheapness of land; that same cheapness of land being also the cause of slavery.” Edward Gibbon Wakefield. England and America, vol. I, pp. 246-248. Londres: Richard Bentley, 1833.

17 “A primeira colônia européia na América foi implantada por espanhóis na ilha de São Domingos, ou,

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exposição tão semelhante à de Vasconcelos sobre tal caso que é difícil não concluir que Vasconcelos havia embasado sua exposição na descrição das ocorrências de São Domingos de Wakefield18. É importante também notar que o conceito de escravidão que Wakefield e Vasconcelos utilizavam era a princípio essencialmente o mesmo – de escravidão não no seu sentido mais estrito, mas sim como trabalho forçado em geral. É necessária a ressalva entretanto, de que a definição de escravidão que Vasconcelos utilizava variava de acordo com a questão que se estava tratando; em geral, quando se tratava de justificar a escravidão no Brasil, Vasconcelos se utilizava da definição descrita anteriormente, mas quando se tratavam das proibições à escravidão, Vasconcelos utilizava uma definição muito mais estrita de escravidão, inclusive chamando em certos momentos outras formas de trabalho compulsório, como o de servidores obrigados, de trabalho livre.

Enquanto Vasconcelos estava expondo no Senado imperial na sessão de 25 de abril de 1843 suas ideias de economia política de que no caso brasileiro a escravidão seria necessária para ter-se prosperidade no país, que a prosperidade seria o motor do processo civilizador, e que portanto o fim do tráfico deveria trazer tendências barbarizadoras ao Brasil, foi confrontado com um aparte do senador liberal Costa Ferreira, que disse ironicamente: “Já a África civiliza!”. Bernardo Pereira de Vasconcelos então, ao invés de buscar refutar a ironia, pelo contrário, incorporou-a em seu próprio discurso político:

espanhola extensas doações de terras as mais férteis. [...] os primeiros colonos espanhóis em São Domingos não obtiveram trabalhadores da Espanha. [...] Os primeiros colonos de São Domingos permanecendo sem trabalhadores, seu único prospecto era uma existência solitária, feroz, meio-selvagem. [...] Instados por essa falta de trabalhadores, os primeiros colonos de São Domingos persuadiram o governo espanhol a incluir nas doações de terra uma doação proporcional de nativos. [...] Essa foi a origem da escravidão na América.” “The first European colony in America was planted by Spaniards in the island of St. Domingo, or, as it was originally called, Hispaniola. The first Spanish colonists of St. Domingo received from the Spanish crown extensive grants of the most fertile land. [...] the first Spanish settlers in St. Domingo did not obtain labourers from Spain. [...] The first settlers in St. Domingo remaining without labourers, their only prospect was a solitary, wild, half-savage existence. [...] Urged by this want of labourers, the first settlers in St. Domingo persuaded the Spanish government to include in each of its grants of land a proportionate grant of natives. [...] This was the origin of slavery in America.” Edward Gibbon Wakefield. England and America, vol. II, pp. 4-6. Londres: Richard Bentley, 1833.

18 A única diferença entre os dois relatos é que enquanto Wakefield dizia que os colonos de São

Domingos não haviam levado trabalhadores da Espanha, Vasconcelos afirmava que foram levados

trabalhadores que chegando lá não quiseram trabalhar, levando todos à desgraça. Esta discrepância pode ser explicada pela possibilidade de Vasconcelos ter utilizado uma fonte alternativa de informação sobre o caso de São Domingos, mas é mais plausível que seja uma confusão de Vasconcelos em relação ao que havia sido escrito por Wakefield sobre São Domingos, ou uma mistura acidental do caso de São Domingos com algum outro caso colonial descrito por Wakefield, ou ainda pela possibilidade de Vasconcelos ter conseguido essas informações dos escritos de Wakefield de segunda mão.

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“O Sr. Vasconcelos: – [...] Eu digo que a associação brasileira hoje precisa de adotar uma economia política em grande parte contrária à geralmente admitida, por isso que a abolição do tráfico deve trazer tendências barbarizadoras...

O Sr. C. Ferreira: – Já a África civiliza!

O Sr. Vasconcelos: – É uma verdade; a África tem civilizado a América, e veja o nobre senador os grandes homens da América do Norte, os mais eminentes onde têm nascido; vejo os outros todos que devem sua existência, o seu aperfeiçoamento aos países que têm procurado em parte

africanizar-se.”19

Seu opositor portanto, inadvertidamente proporcionou-o com uma frase de efeito que Vasconcelos incorporaria plenamente em seu discurso político e que desenvolveria em seguida:

“O Sr. Vasconcelos: [...] Eu quero a civilização material do país, e também a civilização moral; mas o que acontece é que nos esquecemos de que uma civilização está tão ligada com a outra que não podem deixar de andar a par. Logo que a civilização se for diminuindo, como eu penso, havemos de barbarizar-nos...

O Sr. Costa Ferreira: – Por falta de africanos!

O Sr. Vasconcelos: – a estes apartes todos eu tenho respondido. Eu já não fui tão franco? Sempre me cabe a árdua tarefa de dizer verdades pesadas! Eu já disse que a África tem civilizado a América...

O Sr. Costa Ferreira: – Despovoa a África e desmoraliza a América.

O Sr. Vasconcelos: – Em boa poesia eu admito que assim seja; mas os fatos, esse positivismo de que fala o nobre senador pela Bahia, me fazem acreditar que nós estamos perdidos se não abrirmos os olhos; que a produção do país reduzir-se-á dentro em pouco tempo ao mesmo estado em que se acha na América espanhola; e que nesse estado não há constituição, não há lei, há só escravidão.”20

Bernardo Pereira de Vasconcelos afirmava portanto, que caso no Brasil não se tivesse escravidão, se não se tivesse trabalho compulsório, a ausência de prosperidade econômica levaria o país à anarquia e ao despotismo, e essa situação sim seria a verdadeira escravidão. A América espanhola, que frequentemente era vista como uma imagem da barbárie para os estadistas brasileiros da época, tem sua suposta barbárie explicada por Vasconcelos como sendo resultante da ausência de escravidão naquelas terras, já que esta havia sido abolida na maioria dos países hispano-americanos. Bernardo Pereira de Vasconcelos diagnosticava um perigo iminente de catástrofe para o Brasil em vista da extinção do tráfico estar cada vez mais

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Anais do Senado, 1843, vol. IV, p. 346.

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próximo no horizonte político do país, o que causaria aguda falta de mão-de-obra; para demonstrar o efeito que a cessação do tráfico teria no Brasil, Vasconcelos comparava-o com as ex-colônias espanholas na América, afirmando que a produção agrícola tinha sofrido drástica queda nelas à partir da abolição da escravatura nas mesmas. As próprias guerras civis, a falta de ordem, seriam decorrentes da ausência da escravidão em tais ex-colônias:

“O Sr. Vasconcelos: – [...] Eu não tenho tocado na abolição do tráfico senão para fazer sentir o futuro que nos espera; de certo eu não podia tocar na excelência do trabalho forçado em nossas

circunstâncias, para chamar mais escravos ao Brasil [...]; eu tenho repetido sempre que a falta de braços escravos há de diminuir muito nossa riqueza, há de nos reduzir ao estado a que foram reduzidas as ex-colônias espanholas pela abolição do tráfico...

O Sr. H. Cavalcanti: – Não foi por isso.

O Sr. Vasconcelos: – ... Em nenhuma delas é a indústria florescente [...]; o único país que se tem podido manter um pouco é Venezuela; mas o seu estado é tal, que, exportando hoje apenas 300 mil dólares, em os tempos em que tinha escravos só em cacau exportava 11 a 14 milhões de dólares...

O Sr. H. Cavalcanti: – E não será isto efeito da ausência do elemento monárquico? O Sr. Vasconcelos: – Também, também contribui...

O Sr. H. Cavalcanti: – Vá para aí.

O Sr. Vasconcelos: – Mas a falta do trabalho combinado tem influído muito na desgraça dessas ex-colônias. A instabilidade das ex-colônias espanholas procede da abolição, ao menos data dela...

O Sr. H. Cavalcanti: – Data das guerras civis.

O Sr. Vasconcelos: – As guerras civis são atribuídas à mesma origem. Enfim, estamos divergentes, e agora não é ocasião própria de desenvolver esta matéria; eu me tenho ocupado por vezes deste objeto; porque quero fazer sentir a necessidade da colonização, e de alguns sacrifícios para uma colonização tal qual as nossas circunstâncias exigem...”21

Dessa forma, a instabilidade hispano-americana teria como origem para Vasconcelos a ausência de prosperidade, consequência da ausência da escravidão. Bernardo Pereira de Vasconcelos se utilizava da comparação do Brasil com as colônias espanholas para demonstrar os perigos da extinção do tráfico e consequentemente do esgotamento da mão-de-obra escrava; não porque objetivasse manter o tráfico, cada vez mais insustentável, mas para instar a necessidade de se levar adiante medidas que compensassem tal extinção.

Para Vasconcelos, a África, por prover à América a mão-de-obra compulsória necessária ao florescimento econômico, seria a responsável pelo avanço do seu processo

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civilizador. Quando afirmava que “a África civiliza”, portanto, Vasconcelos não o fazia por ver nos africanos qualidades positivas morais ou civilizatórias, chegando a refutar tal interpretação de sua fala de forma explícita:

“O Sr. Vasconcelos: – Eu não disse nesta casa que os africanos eram mestres de moral; apelo para a memória de todos os nobres senadores, sem excetuar nenhum.”22

E prosseguindo, explica de forma detalhada o significado de sua afirmação de que “a África civiliza:

“O Sr. C. Ferreira: – Disse que o país ia barbarizar-se se não se introduzissem escravos. O Sr. Vasconcelos: – A hermenêutica do nobre senador foi desta vez algum tanto temerária.

O que eu disse, Sr. presidente, é hoje um axioma conhecido por todos que têm estudado a economia política aplicada às terras novas, vastas e desertas. Todos os que têm dado algum tempo ao exame do que são terras vastas, desertas e férteis, e que lhes aplicam os princípios da ciência econômica, entendem que nestas terras é muito difícil prosperar a indústria sem o trabalho forçado, e que por conseqüência a maior parte do engrandecimento, da riqueza da América é devida ou foi devida ao trabalho africano. Foram os africanos que, trabalhando estas terras férteis, fizeram a sua riqueza; e como em economia política a riqueza é sinônimo de civilização, eu disse que a África civilizara a América. eis o que eu disse nesta casa, e que me parece que ao menos justificarei de maneira que o nobre senador me perdoará o atrevido da proposição.

O Sr. H. Cavalcanti: – É poética.

O Sr. Vasconcelos: – Os africanos têm contribuído para o aumento, ou têm feito a riqueza da América; a riqueza é sinônimo de civilização no século em que vivemos; logo a África tem civilizado a América, que ingrata não reconhece esse benefício.”23

As terras vastas, desertas e férteis teriam dessa forma uma particularidade: necessitariam do trabalho compulsório para se desenvolverem economicamente, e no caso do continente americano, a fonte principal de tal mão-de-obra obrigada era a África. A prosperidade econômica sendo sinônimo de civilização, a África então civilizaria a América.

Bernardo Pereira de Vasconcelos afirmaria ainda que a África civilizava a América em um outro sentido – a instituição do trabalho compulsório favoreceria intelectualmente o país que a tivesse, gerando homens capazes na arte de governar:

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Anais do Senado, 1843, vol. IV, p. 393.

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“O Sr. Vasconcelos: – Eu cito um fato de país estrangeiro, bem que tenha por vezes repelido tais citações. A América do Norte, que muitos dos progressistas elogiam, deve a sua civilização, a sua riqueza, ao braço africano! Quem são os homens mais eminentes da América do Norte? São os homens que nasceram nos países de trabalho africano. Em 1841 existia a confederação há 52 anos; tinha tido 8 presidentes, e ainda não tinha havido um presidente, que eu me lembre, dos estados de trabalho livre que tivesse obtido a reeleição! Esta honra está ali reservada só para o natural dos países do trabalho escravo.

O Sr. H. Cavalcanti: – Para os senhores feudais.

O Sr. Vasconcelos: – Não se nos nega que sejam muito ricos os estados que não têm escravos; mas homens eminentes, homens dignos de governar, e que têm sabido governar, vão-se buscar nos estados de escravos que têm dado à união 5 presidentes reeleitos, ou por outra, 10 presidentes, quando os estados de trabalho livre apenas têm visto presidentes 3 de seus homens [...]. Os outros todos eram das terras onde há escravidão; entretanto a sua inteligência, a sua arte de governar foi tão conhecida pelo país, que eles obtiveram sempre a reeleição. Não pode haver argumento mais apropriado para fazer avaliar as nossas tristes circunstâncias.”24

Dessa forma, a escravidão criaria um clima intelectual propício ao aprendizado do governo, de maneira que os homens do sul dos Estados Unidos da América eram mais capazes na administração do Estado do que os do norte, atestando-se isso por eles serem não só eleitos para um primeiro mandato como presidentes, mas também reeleitos para um segundo – tal confirmação deles no cargo da presidência através de um segundo mandato sendo uma evidência do reconhecimento pela população da capacidade administrativa desses homens. Partindo disso, é plausível que Bernardo Pereira de Vasconcelos com tal afirmação estivesse se referindo ao ócio possibilitado aos homens das classes proprietárias pelo sistema escravista, ócio este que seria visto de forma positiva, como um tempo no qual esses homens poderiam se dedicar ao seu auto-melhoramento através do aprimoramento de sua erudição, e poderiam também se dedicar à prática do governo.

O sul dos Estados Unidos servia para diversos estadistas brasileiros de modelo de sociedade escravocrata estável, devido a ampla reprodução vegetativa de seus escravos25. Entretanto, Bernardo Pereira de Vasconcelos declarava a reprodução dos escravos como solução inviável para o problema de mão-de-obra das plantações do Brasil, pela realidade do país:

24

Anais do Senado, 1843, vol. V, p. 361.

25

Marcia Berbel; Rafael Marquese; Tâmis Parron. Escravidão e Política - Brasil e Cuba, 1790-1850, pp. 350-351. Hucitec, 2010.

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“[O Sr. Vasconcelos: –] Eu já tenho dito por vezes nesta casa, é minha opinião que estamos ameaçados de iminente miséria [...]. É no meu conceito um fato incontestável que nossos lavradores não têm senão braços escravos, e braços escravos homens; por conseguinte não se pode esperar a sua substituição pela reprodução; até aqui eram substituídos pela importação de africanos”26

A reprodução dos escravos, portanto, não teria como ser ampla o suficiente para suprir a necessidade de mão-de-obra, uma vez que as proporções dos sexos eram largamente desiguais. Só restaria uma alternativa que pudesse compensar o fim do tráfico que então se delineava no horizonte: a colonização.

Com a crescente oposição das grandes potências estrangeiras – em particular da Inglaterra – ao tráfico de escravos, de maneira a manter a escravidão, Bernardo Pereira de Vasconcelos além de realizar uma defesa do comércio de escravos, idealizava alternativas de mão-de-obra que mantivessem o sentido da dominação senhorial, mesmo que não fossem stricto sensu escravidão. Notável dentre estas alternativas foi a proposição da vinda de colonos “livres” africanos, que teriam condição similar à de “servidores obrigados”, sendo encaminhados da costa da África para o Brasil para trabalhar na lavoura, e não teriam plena liberdade para se desligar de tal trabalho. Entretanto, tal proposição acabou sendo inviabilizada por oposição inglesa.

Com o fim do tráfico em vista, Bernardo Pereira de Vasconcelos buscou fortalecer o poder senhorial sobre as terras, formulando projeto do que viria a ser a Lei de Terras e apresentando-o ao Conselho de Estado em 1843. Tal projeto previa a compra como o meio de se adquirir terras incultas, restringindo portanto seu acesso às pessoas de posses; as rendas de tais vendas deveriam ser investidas no incentivo à imigração, sendo os imigrantes vedados de comprar terras por três anos, imaginando-se que trabalhariam na lavoura nesse período; fortalecia-se portanto o poder dos grandes proprietários de terra.

A escravidão seria, por sua vez, grande beneficiária da manutenção da ordem pública, uma vez que tal manutenção implicaria no combate à resistência escrava, e a manutenção da integridade do território do Império significaria ter-se maior poder para fazer frente às demandas das grandes potências por restrições ao tráfico e à escravidão.

• Conclusão

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Através da análise dos discursos de Bernardo Pereira de Vasconcelos, foi possível estabelecer os princípios norteadores de suas idéias, e a relação de interdependência pensada por ele entre o império e a escravidão. Seu estilo de argumentação tem um caráter realista e contundente, criticando diversos ataques à escravidão e ao tráfico por seu sentimentalismo e por portanto não levarem em consideração de forma realista e pensada os interesses da nação.

A escravidão surge como elemento singularizador da nação brasileira, e como sustentáculo da mesma e do império; este, caracterizado pela ordem, protege a escravidão. Vasconcelos, antes liberal, ao ter em seu espaço de experiência as desordens decorrentes da abdicação de Dom Pedro I e o esvaziamento do poder central com a interpretação que as províncias deram ao Ato Adicional à Constituição de 1834, passou a ter em seu horizonte de expectativa a possibilidade da anarquia e da desagregação do Império do Brasil. Sendo assim, julgou propício estancar as reformas liberais e mesmo “regredir” em algumas delas, para evitar a anarquia.

A escravidão e a ordem ambos estariam ameaçados pelas potencialidades do futuro, e apenas em conjunto poderiam se sustentar.

• Bibliografia Básica

a) Textos Historiográficos e Teóricos:

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2005.

BERBEL, Marcia; MARQUESE, Rafael; PARRON, Tâmis. Escravidão e Política - Brasil e Cuba, 1790-1850. Hucitec, 2010.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.

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SOUSA, Octavio Tarquinio de. Bernardo Pereira de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957.

b) Fontes Primárias:

Anais do Senado. Anos de 1843, 1848 e 1850. http://www.senado.gov.br/anais/

LOPES, José Reinaldo de Lima. Curso de História do Direito. Ato Adicional de 12 de agosto de 1834 e Lei de interpretação do Ato Adicional de 12 de maio de 1840.

Referências

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