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O TRABALHO DOCENTE E A FORMAÇÃO HUMANA NO CONTEXTO DA SALA DE AULA

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Academic year: 2021

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CONTEXTO DA SALA DE AULA

BELADELLI, Ediana Maria Noatto1 - CTESOP ORO, Maria Consoladora Parisotto2 - CTESOP BASTOS, Carmem Célia Barradas Correia3 - UNIOESTE Grupo de Trabalho – Formação de Professores e Profissionalização Docente Agência financiadora: não contou com financiamento

Resumo

O presente artigo fomenta a reflexão sobre o trabalho docente como sendo resultado de construção humana, um trabalho não-material articulado ao contexto cultural no qual o homem é constituído. Trabalho que cria um mundo humano, o mundo da cultura. Ao se apropriar desse mundo o homem se torna humano por se apropriar de suas produções históricas e sociais, fortalecendo sua natureza humana. Uma natureza que perpassa de forma inerente a docência e o processo educativo pelas relações que são estabelecidas entre os sujeitos que fazem parte desse processo. Tem por objetivo, via revisão bibliográfica, evidenciar a docência como prática essencialmente humana, na qual sujeito e objeto são humanos. Pautada nas relações que fundamentam o processo de ensino e aprendizagem de maneira significativa, busca-se mobilizar discussões sobre o processo educativo e sua dimensão humana, considerando o conhecimento como instrumento de humanização, de formação humana no contexto da sala de aula, esta entendida como espaço de convivência humana, espaço físico no qual os sujeitos do processo educativo entrelaçam e cruzam vidas. Ao entender a sala de aula como espaço onde o professor desenvolve sua profissão de forma articulada ao seu desenvolvimento enquanto ser humano constata-se a relevância de uma sólida compreensão conceitual sobre o sentido do trabalho docente e sua finalidade no contexto da sala de aula como espaço de vida, de movimento e construção humana, a fim de compreender os saberes pertinentes a prática pedagógica necessária à formação humana

1 Docente do Centro Técnico Educacional Superior do Oeste do Paraná (CTESOP) de Assis Chateaubriand.

Graduada em Pedagogia e aluna do Programa de Pós-graduação – Mestrado em Educação da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. Professora e Pedagoga da rede pública de educação (SEED - Palotina). E-mail: [email protected].

2 Coordenadora pedagógica do Centro Técnico Educacional Superior do Oeste do Paraná (CTESOP) de Assis

Chateaubriand. Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. Pedagoga da rede pública de educação (SEED – Toledo). E-mail: [email protected].

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Professora Associada da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, no Programa de Pós-Graduação (Mestrado) em Educação - PPGE e a partir de 2013, professora colaboradora do Mestrado em Odontologia da UNIOESTE. Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. E-mail: [email protected].

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articulada a formação profissional no cotidiano escolar. É preciso que o professor se reconheça tão humano quanto seus alunos, a fim de mobilizar uma relação igual em seu ponto de partida como sujeitos (ambos humanos) e no ponto de chegada (seres humanos cada vez mais humanos), sem desconsiderar que nesse processo o conhecimento deve ser o alicerce de formação.

Palavras-chave: Trabalho docente. Sala de aula. Formação humana. Introdução

As discussões sobre o trabalho docente, considerando as especificidades que o constitui têm se evidenciado significativamente no contexto atual. Tais discussões centram-se nos saberes relacionados à prática educativa de forma mais técnica e operacional, sem fomentar a especificidade do trabalho docente como processo de formação humana, no qual o professor é pessoa social e histórica, que participa da construção da própria humanidade. Sendo assim, o estudo é relevante por possibilitar um pensar sobre o processo de formação humana que ocorre de maneira integrada ao próprio trabalho docente, fortalecendo a importância do conhecimento como instrumento de humanização para além do seu caráter epistemológico, reafirmando que esse caráter é necessário ao trabalho docente, o qual tem sua fundamentação na própria função social da escola que de acordo com Saviani (1991) consiste na socialização do saber elaborado.

A princípio comenta-se sobre a natureza da prática docente articulada à ideia de trabalho e profissionalização, focando a importância de se reconhecer o professor como um profissional intelectual e político, responsável pelo processo educacional, considerando a complexidade que o constitui enquanto prática especificamente humana, como bem afirma Saviani (1991).

Em seguida apresentam-se considerações sobre a sala de aula como espaço no qual o trabalho docente se efetiva no contexto da práxis, considerando práxis na perspectiva de Ribeiro (2001) que corresponde à unidade entre teoria e prática. Unidade esta que faz parte do contexto formativo, pontuando-se a ação docente como processo intencional que necessita de constante reflexão. Articula-se o trabalho docente como um instrumento formativo no espaço cotidiano da sala de aula, considerando as relações que o constitui como prática humana.

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A docência como processo de trabalho especificamente humano

Etimologicamente a palavra “trabalho” em latim é labor, tripaliun que muitos entendem como castigo e fardo, assim é preciso compreender trabalho como uma obra, que os gregos chamavam de poesis (CORTELLA, 2008b). Nessa perspectiva considera-se importante pensar a docência como um processo de trabalho que consiste em uma obra, uma construção do sujeito humano integrado a um contexto complexo de ações formativas, o que exige uma análise sobre sua natureza integrada a educação como processo social e histórico. Saviani (1991) se refere à educação como fenômeno próprio dos seres humanos o que significa afirmar que é, ao mesmo tempo, uma exigência para o processo de trabalho. A docência é um processo de trabalho pelo qual se inicia o processo de transformação da natureza, criando como fomenta Saviani (1991) um mundo humano (o mundo da cultura). É nesse mundo que a docência ganha corpo e finalidade. Esse mundo da cultura é o que fundamenta o trabalho docente, no qual os sujeitos do processo educativo se relacionam e se constituem humanos.

Cortella (2008a) compreende cultura como sendo o conjunto dos resultados da ação do homem sobre o mundo por intermédio do trabalho. Isso significa dizer que o homem produz cultura, afirmando que ela é um produto derivado de uma capacidade inerente a qualquer humano. Pode ser analisada considerando a produção do homem via processo cultural de reciprocidade.

[...] a cultura é, por conseguinte, coletânea do processo de hominização, não tem data de nascimento definida e nem forma distinta inicial. A criação da cultura e a criação do homem são na verdade duas faces de um só e mesmo processo, que passa de principalmente orgânico na primeira fase a principalmente social na segunda, sem, contudo, em qualquer momento, deixarem de estarem presentes os dois aspectos e de se condicionarem reciprocamente. A realização biológica do ser em curso de hominização determina as possibilidades de criação cultural que lhe são dadas em tal fase, mas estas, ao se realizarem, contribuem para o desenvolvimento e aperfeiçoamento das qualidades orgânicas, até o momento em que impelem o animal a transformar o modo de existência, tornando-se um ser produtor, a princípio inconsciente e depois consciente, de si mesmo (PINTO, 1979, p. 122).

A partir dessa afirmativa é possível fortalecer a ideia de cultura como instrumento que constitui o homem enquanto ser humano e esse enquanto sujeito, considerando que a compreensão-síntese sobre tal temática fundamenta-se em reconhecer que o homem não nasce pronto, e sim se torna humano na vida social e histórica no interior da cultura. Esta, por sua vez, não antecede ao homem e nem este a ela, pois ambos se desenvolvem simultaneamente e

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constituem a totalidade do processo de formação humana. Isso é pertinente para o entendimento do trabalho docente e da prática educativa vista no contexto da educação como produção humana, na qual a cultura é instrumento formativo a ser socializado no espaço escolar considerando sua dimensão histórica, política e social.

Entendendo a relação e a conexão existente entre homem e cultura de forma recíproca e contínua, considera-se relevante analisar a questão cultural. Segundo Cortella (2008a), da relação humano/mundo por meio do trabalho é que resultam os produtos culturais; esses produtos, por nós criados a partir de nossa intervenção na realidade e dela em nós. O autor afirma que o mais importante bem de produção é o próprio humano e, com ele e nele, a cultura. Assim, entende-se que ao se apropriar dessa cultura o homem se humaniza. Para tanto, evidencia-se que o conhecimento como instrumento humanizador, precisa ser pensado no contexto que o constitui, considerando as relações que o permeiam no mundo da cultura. Ao se apropriar desse mundo o homem se torna humano por se apropriar de si mesmo, de suas produções históricas e sociais, fortalecendo sua natureza humana.

Essa natureza se caracteriza como especificidade humana, na qual o trabalho é um processo de produção, criação e realização, pelo qual o homem se humaniza e estabelece as relações com a sociedade, como reforça Paro (2005). O autor afirma ainda que, a partir dessa análise, o trabalho docente é considerado um trabalho não material, pois se efetiva no campo do pensamento que se articula nas relações entre os sujeitos do processo educativo via conhecimento. Isso concretiza a ideia de que toda a prática docente tem seu fundamento no humano, pois o professor é humano, o aluno é humano e o objeto que integra os sujeitos do processo de ensino e aprendizagem, o conhecimento, é produto humano.

A sala de aula como espaço de formação humana

Partindo do pressuposto de que a docência é uma prática especificamente humana, que se efetiva nas relações humanas articulada pelo conhecimento como produção humana, considera-se fundamental pensar sobre essa prática tão complexa e ao mesmo tempo tão específica. Complexa e específica pela mesma razão, que é envolver o humano e a humanidade que o constitui.

Nesse sentido é importante fomentar a reflexão sobre a docência e sua prática de maneira mais significativa no contexto da sala de aula. Sala de aula aqui, entendida como espaço presencial, no qual os sujeitos do processo educativo desenvolvem relações humanas

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cotidianas ou freqüentes, com tempo e espaço definidos, isso por considerar que é nesse espaço que acontece a efetivação da práxis pedagógica assim como do fenômeno educativo em todo o seu contexto. É na aula que “[...] o professor transforma pedagogicamente pelos processos cognoscentes, na sua ação prática, a matéria enquanto conteúdo a ser comunicado” (CAMPOS, 2007, p.38). Nessa perspectiva, entende-se que é por meio da aula que ocorre o processo educativo de forma mais específica, no qual o conhecimento, objeto humano que constitui a cultura como mundo humano, é socializado, apropriado e construído. “A aula se faz, marcada por um contexto, situada por determinadas circunstâncias, nas quais o saber e o conhecimento se constroem coletivamente no exercício de fazer a aula” (CAMPOS, 2007, p. 39). Nesse fazer a sala de aula se constitui como um território em que se demarca o campo privilegiado da prática docente. “É a referência física, ou propriamente à área física e situacional do exercício profissional do professor na sua atividade clássica de ensino: a aula” (CAMPOS, 2007, p.40).

Sendo assim, a sala de aula é o campo onde se efetiva a prática docente entre os sujeitos do processo educativo, o professor e o aluno, sujeitos humanos. Sujeitos esses que são mediados pelas relações que ocorrem de maneira contínua na sala de aula, espaço esse que se tece a elaboração do eu e do outro, como reafirma o próprio autor.

A docência exige conhecimento da sala de aula como espaço de profissionalização docente, de formação humana, pois é nele que vidas se cruzam, se entrelaçam e se constituem. É onde a existência do trabalho docente e formativo se materializa. Para tanto, o professor precisa se reconhecer como parte desse espaço, o que pensa, o que diz, o que faz tem importância e finalidade educativa. Deve entender que tudo o que acontece nesse espaço tem com ele e com os seus alunos, de forma contextualizada e articulada ao todo que constitui esse espaço como social e histórico. É nas relações que ocorrem na sala de aula que a formação docente e humana acontece e se efetiva de maneira contínua.

Quando se afirma que o professor precisa reconhecer sua importância enquanto pessoa humana nas relações de sala de aula, pretende-se dizer que a interação entre professor e aluno tem reflexo significativo no processo de ensino e aprendizagem além de possuir um valor pedagógico como diz Haydt (2006). A interação humana mobiliza os saberes inerentes ao trabalho docente, “[...] por ter uma função educativa, pois é convivendo com os seus semelhantes que o ser humano é educado e se educa” (HAYDT, 2006, p.57). A interação humana permeia o trabalho docente em todas as suas dimensões formativas, pois se

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fundamenta nas relações que se estabelecem no processo de ensino e aprendizagem, considerando os sujeitos que o constituem. “O modo como se dá nossa relação como os alunos, a qualidade de nosso relacionamento com eles e nosso impacto global sobre eles dependerão sobretudo de nossas atitudes e do modo como nos vemos a nós mesmos como professores” (MORALES, 2011, p.158). Assim é necessário percebê-la como um dos eixos norteadores do processo de construção do conhecimento, pois “No processo de construção do conhecimento, o valor pedagógico da interação humana é ainda mais evidente, pois é pelo intermédio da relação professor – aluno e da relação aluno – aluno que o conhecimento vai sendo coletivamente construído” (HAYDT, 2006, p. 57).

Negar ou não reconhecer que as relações humanas fazem parte do processo formativo é negar sua própria natureza, assim como do próprio processo de construção do conhecimento que é uma produção humana (CORTELLA, 2008a). É na relação entre os sujeitos, mediados pelas condições existentes, que ocorre a construção do conhecimento e essa como construção humana, pois é um objeto de humanização. Espaço de vivência e convivência “[...] aberto que deve favorecer e estimular a presença, o estudo e o enfrentamento de tudo o que constitui a vida do aluno” (MASETTO, 1994, p.34).

O saber docente a partir dessa compreensão é entendido como sendo um saber humano, que se associa e perpassa tudo o que faz parte do contexto de vivência humana. Quando se assume a docência o professor traz consigo elementos que influenciam na sua prática por trazer a existência implícita na docência uma dimensão tácita da ação pedagógica (CAMPOS, 2007). Dimensão essa que se relaciona ao sistema de crenças e valores do professor, manifestadas em sua conduta enquanto pessoa humana que se integra à pessoa humana profissional. A ação do professor implica na formação humana, pois possui uma dimensão educativa que contém elementos vinculados á relação interpessoal (ZABALZA, 2004). Formação humana entendida não apenas como uma formação na qual as ações do professor são abertas ou amáveis, mas relações humanas “[...] que abrangem todas as dimensões do processo ensino – aprendizagem que se desenvolve na sala de aula” (MORALES, 2011, p. 158). As relações de ensino e de aprendizagem acontecem também com o que o professor faz, com sua postura, essa relação influencia sobre as atitudes, valores, visão de mundo e de profissão nos alunos, pois a pessoa professor e profissional pelas suas ações demonstrar sua própria identidade humana. É preciso entenderapreender que o trabalho

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docente se envolve em uma dinâmica entre o pessoal e o profissional, o individual e o coletivo, sem haver separação (DOTTA, 2006).

E entende-se que é na sala de aula e na aula como elemento inerente ao trabalho docente que as relações pessoais e profissionais são mobilizadas constantemente, movimentadas pelo contexto social e histórico que constitui os sujeitos do contexto educacional. Sob esse olhar o trabalho docente é entendido como sendo a extensão do próprio ser humano que é representado na prática diária da ação educativa. Tudo o que acontece na sala de aula, faz parte do processo de ensino e aprendizagem, influenciando a formação humana de maneira intencional ou não. Como bem diz Feldmann (2009, p.71), “[...] professor é sujeito que professa saberes, valores, atitudes, que compartilha relações, e junto com o outro, elabora a interpretação e reinterpretarão do mundo”. Dessa forma, o ser humano perpassa o trabalho docente se materializando nas ações educativas como extensão do próprio ser.

A docência é fenômeno humano, na qual as relações constituem a base do processo educativo, e que nessa relação à dimensão formativa não se apresenta de maneira mensurável, mas com uma finalidade clara que é a formação humana. Libâneo (1994), comenta que as relações entre professores e alunos nos aspectos cognoscitivos e sócio-emocionais, a dinâmica das manifestações na sala de aula fazer parte da própria organização do trabalho docente. Nessa perspectiva evidencia-se a importância das relações entre os sujeitos do processo educativo como processo inerente ao próprio trabalho docente, no qual a formação acontece de forma recíproca.

A docência é constituída por “[...] interações humanas que objetiva mudar ou melhorar a situação humana das pessoas” (FELDMANN, 2009, p. 76). O trabalho docente não se dissocia da finalidade da educação e da escola como um todo, pois firma-se na construção do próprio, de sua humanização. Assim, o relacionamento pessoal na sala de aula assim como interpessoal abarca tudo o que se é e não é se faz e não faz como pessoa, profissional professor (MORALES, 2011).

A sala de aula como espaço de formação docente

A sala de aula, por ser um espaço de ralações, e também um espaço no qual o trabalho docente constitui e se desenvolve de maneira mais específica no cotidiano e contexto escolar. Nesse espaço e que se dá o trabalho docente. “É na sala de aula que ocorre a prática

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pedagógica em si, onde o professor se faz professor, onde se faz o ser docente de forma específica” (CAMPOS, 2007, p.40). Nessa prática o professor faz da sala de aula um lugar privilegiado de aprendizagem (MASETTO, 1994). Aprendizagem essa que não ocorre apenas para o aluno mas também de forma contínua com o professor, que ao estabelecer as relações didáticas que perpassam as relações humanas, aprende a profissão e o ser professor. Veiga (1994), afirma que é na sala de aula que o trabalho docente é evidenciado, é o espaço no qual ocorre o encontro entre os sujeitos do processo educativo, é o espaço no qual o professor faz o que sabe, o que pensa, o que sente e expressa seu posicionamento quanto a concepção de mundo, de homem, de educação e sociedade. É um espaço de sujeitos humanos. Dessa forma, como diz Tardiff (2005, p. 31) “[...] todo o trabalho humano sobre e com seres humanos faz retornar sobre si a humanidade de seu objeto”. Essa humanidade é o que permeia e fundamenta a prática educativa, em qualquer contexto de formação. Esse saber possibilita um olhar para as práticas pedagógicas como representações do próprio ser humano que se materializa nas relações educativas. Não se afirma aqui a ideia de que o trabalho docente é subjetivo, determinado pelo indivíduo. O que se chama a atenção é para a necessidade de compreender que determinadas condições do processo educativo estão articuladas ao fazer docente de forma mais específica, exigindo do professor constante reflexão sobre seu trabalho de maneira contextual e crítica, considerando os fatores sociais, históricos, culturais, políticos e econômicos que constituem a prática educativa. A ação reflexiva se refere a um saber que se aprende, considerando as reais condições do processo educativo. Compreende-se que docência se faz e se refaz pelo humano que a sustenta articulando-se a todos os elementos que o constitui na sua objetividade e suas subjetividades.

Para que a sala de aula seja espaço de aprendizagem docente é necessário que os processos educativos sejam pautados em uma relação dialógica, de encontro entre professor e aluno. “É por meio do diálogo que professor e aluno juntos constroem o conhecimento, chegando a uma síntese do saber de cada um” (HAYDT, 2006, p.59). O diálogo permite que o processo de ensino e aprendizagem ocorra de forma recíproca e significativa. Antunes (2008) defende que o papo da sala de aula, (entendido como diálogo) é fundamental para que os sujeitos envolvidos possam desenvolver aprendizagem. Nesse processo o professor aprende novos saberes relacionados a formação humana. Como diz Tardiff (2010, p. 11), “[...] o saber dos professores é o saber deles e está relacionado com a pessoa e a identidade deles, com a sua experiência de vida e com a sua história profissional e com as suas relações com os alunos

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em sala de aula”. Aprender também é um processo inerente a docência e é um processo integrado as relações humanas que são estabelecidas na sala de aula. “Toda a aprendizagem precisa ser embasada em um bom relacionamento entre os elementos que participam do processo” (MASETTO, 1994, p.46).

Nesse sentindo percebe-se a ideia de que os saberes docentes se diferem pela subjetividade humana ao mesmo tempo em que se objetivam pela mesma razão, ser essencialmente construído pelo humano que constitui o professor, o aluno e o objeto de suas relações, o conhecimento em suas múltiplas representações sociais e históricas. Tal subjetividade não é entendida como algo inerente ao sujeito, como parte de um “dom” natural, mas resultado de um processo de formação histórico-social que se firma nas relações do sujeito com o mundo, considerando as condições oferecidas pelo contexto. Como diz Antunes (2008, p.48) “[...] o educador (professor) não nasce pronto. Forma-se ao longo de sua própria caminhada de professor, observando em sua experiência esta ou aquela ação, este ou aquele cuidado”. Esse observar não é um observar de mera aparência, mas um processo de analise sobre as práticas pedagógicas integrando-as as teorias que a fundamentam em um constante movimento de reflexão e ação, considerando que a experiência por si só não se constitui em instrumento de formação, pois pode limitar a prática docente a ações empiristas. Assim, ela precisa estar constantemente articulada em bases teóricas que a explicam, justificam e a fundamentam, para que possa ser instrumento de formação no contexto da práxis. “A sala de aula é parte de um todo, está inserida em uma instituição educativa, que por sua vez, está filiada a um sistema educacional, que também é parte de um sistema sócio-econômico, político e cultural mais amplo” (VEIGA, 1994, p.117).

A sala de aula é um espaço privilegiado de aprendizagem docente e formação humana, que não se limita a um espaço de execução do trabalho docente mais de construção desse trabalho, que é processo de humanização. Não se firma aqui a ideia de que ensinar se aprende ensinando, o que se firma é a ideia de Zabalza (2004) que ensinar é uma tarefa complexa que exige conhecimento consistente da disciplina, dos alunos, de como aprendem e do que desejam aprender assim como sobre os recursos que serão utilizados a fim de melhorar as condições de trabalho. A sala de aula é o espaço no qual essa aprendizagem tem um campo significativo, por se constituir no espaço onde o trabalho docente ganha corpo, pois é nela que a ação docente acontece de maneira mais específica e concreta. Ação essa que, segundo Morin (et al. 2007, p.24) “[...] é aplicação do movimento a alguma coisa”. A ação não é

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qualquer ação cotidiana, mas aquela que se destina a clarificar ou a resolver uma problemática de vida, de sociedade e de educação. Ação essa de caráter intencional “[...] pois o trabalho docente sendo uma atividade intencional e planejada requer estruturação e organização, a fim de que sejam atingidos os objetivos do ensino” (LIBÂNEO, 1994, p.179). Isso fortalece o pensar sobre a ação docente como uma ação que exige reflexão constante, por situar-se no campo do trabalho não material. Segundo Campos (2007) a reflexão sobre a ação docente possibilita a análise das convicções profissionais dos professores assim como a construção da sua própria identidade. Construção essa que se move pelo constante pensar e fazer pedagógico. Nesse sentido a ação docente se agrega a uma finalidade inerente da educação que se centra na construção da mais importante e significativa obra, como diz Cortella (2008a), o ser humano. Essa obra, por assim considerar, precisa de bases sólidas para se construir, bases essas que se firmam no conhecimento, objeto que ao mesmo tempo é produto e produtor do homem. Conforme Cortella (2008a, p. 39), “[...] o bem de produção imprescindível para nossa existência é o conhecimento, dado que ele, por se constituir em entendimento, averiguação e interpretação sobre a realidade, é o que nos guia como ferramenta central para nela intervir”. Isso afirma a importância do conhecimento como instrumento indispensável à condição humana, para que o homem entenda sua natureza, sua condição de sujeito, ser capaz de intervir sobre sua própria condição como quem se faz e se refaz pelos processos sociais e históricos que o constituem. Nesse sentido a natureza da docência se constitui na própria essencialidade humana, no processo de humanização que se operacionaliza na educação. A educação cabe formar homens. Homens esses que possuem necessidades que “[...] são impostas pelo ser humano a si mesmo, na condição de ser histórico-social, que constantemente vai se criando no processo de criação de novas realidades” (RIBEIRO, 2001, p. 13). Ainda na percepção de Ribeiro (2001), entende-se que a educação como especificidade humana, está condicionada por esta finalidade que não é algo acabado e abstrato, de construção e constituição de um ser humano cada vez mais humano. Nessa perspectiva, entende-se que a docência se associa intimamente a esta finalidade de construção do próprio ser humano. A sala de aula é o lugar onde ocorre a criação humana, onde se efetiva a docência, o trabalho docente enquanto obra na qual o professor “[...] cria a si mesmo na medida em que cria no mundo” (CORTELLA, 2008b, p.21).

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Considerações finais

Considerando a reflexão mobilizada pelo estudo, entende-se que o trabalho docente corresponde em uma ação complexa, que se fundamenta nas relações humanas, mobilizadas pelo conhecimento como produção também humana. O que exige compreender a sua especificidade formativa de maneira associada ao próprio entendimento de educação e homem como produção histórica e social. Assim, o grande desafio centra-se na compreensão de sua natureza enquanto prática especificamente humana que exige a princípio saber reconhecer que toda a base do processo pedagógico é humana. Parece estar se afirmando o óbvio, porém pouco analisado no emaranhado mundo da educação, que muitas vezes nega sua própria condição quando desconhece ou não considera sua natureza formativa. Nessa perspectiva, entende-se que é preciso fomentar a reflexão sobre o que constitui a prática docente a fim de reconhecer os saberes necessários a essa ação que é intencional e profissional que se efetiva na sala de aula como espaço formativo. Reconhecendo a complexidade da prática docente bem como sua condição de imensurável, o trabalho docente é entendido como sendo um conjunto de potencialidades educativas que constituem o professor enquanto ser humano, sujeito social e histórico que se forma professor pela práxis pedagógica, sendo o seu trabalho um processo de humanização.

Dessa forma entende-se que é primordial que o professor reconheça a importância de seu papel enquanto sujeito integrante do processo de formação humana. Tudo o que ele é, relacionado ao que pensa, diz e faz, assim como com o que deixa de ser, pensar, dizer e fazer influencia significativamente no processo de ensino e aprendizagem, pois antes de tudo os sujeitos que constituem a prática docente são iguais em sua especificidade, são humanos. Além disso, é necessário entender que a sala de aula é um espaço privilegiado de vivência, de convivência e de formação docente, pois é nesse espaço que o trabalho docente ganha corpo e se efetiva de maneira mais específica. Porém para que esse espaço seja formativo não se pode isolar esse espaço do contexto social, pois assim não estaria negando a finalidade da educação como processo histórico e social. É fundamental que a sala de aula seja entendida como um espaço mobilizador do processo formativo, tanto docente quanto humana, pois são processos que não se dissociam, por fazerem parte da mesma natureza.

Assim é preciso que o professor se reconheça tão humano quanto seus alunos, a fim de mobilizar uma relação igual em seu ponto de partida como sujeitos (ambos humanos) e no ponto de chegada (seres humanos cada vez mais humanos). É assim que se entende a

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finalidade da prática docente em qualquer contexto, enfrentar o desafio constante de formar humanos que reconheçam a educação e o conhecimento como processo de humanização, priorizando a aprendizagem de qualidade e para a vida toda. Afirmando-se isso, não se pretende dizer que esse professor tem a responsabilidade individual de responder aos objetivos formativos da escola, pretende-se apenas fomentar que também cabe a ele. Entende-se que a educação qualitativa depende de condições reais que envolvem o todo da sociedade, não somente o trabalho do professor que é associado ao mesmo contexto social e histórico.

REFERÊNCIAS

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CORTELLA, M. S. Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2008b.

DOTTA, L. T. T. Representações sociais do ser professor. Campinas, SP: Alínea, 2006. FELDMANN, M. G. Formação de professores e escola na contemporaneidade. São Paulo: Editora Senac, 2009.

HAYDT, R. C. Curso de didática geral. 8 ed. São Paulo: Ática, 2006. LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

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Referências

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