Democracia representativa e o acesso a informação
Kelen Koupak (UEPG) (E-mail: [email protected]) Orientadora: Regina Fátima Wolochn (E-mail: [email protected])
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Palavras-chave: democracia, crise do regime representativo, direito a informação,
Lei nº 12.527/2011.
Resumo: A democracia é definida como o governo do povo, dando a este a
liberdade de também tomar decisões políticas que dizem respeito à vida em sociedade, ao contrário de outras formas de governo verificadas durante a história que somente oprimiam e excluíam os indivíduos. No entanto verifica-se que a democracia, em especial na sua forma representativa que é a vigente no Brasil, não cumpriu com seus ideais, pois se desvirtuou de seu caminho ao somente defender os interesses de alguns e não de toda a coletividade. Nesse sentido, faz-se necessário destacar alguns aspectos que levaram a crise do regime representativo. E embora ainda em fase inicial da pesquisa, e contando apenas com resultados parciais, é possível constatar que uma forma de solucionar essa crise é o amplo acesso a informação por parte dos governados em relação às ações dos governantes, visando assim, combater a corrupção e consolidar a democracia.
Introdução
O artigo em questão apresentará o conceito de democracia, utilizando-se da conceituação dos autores José Afonso da Silva, Norberto Bobbio e Alain Touraine, verificando-se as formas por meio das quais está se manifesta, com destaque para a democracia representativa, visto que está é a adotada no Brasil, por meio da qual os governantes são eleitos pelo povo através do voto.
Aborda-se, desse modo, as vantagens que o regime representativo proporciona à sociedade como um todo, ressalvando-se que esse sistema também possui desvantagens, pelo motivo de não conseguir cumprir com seus objetivos ou promessas tão almejadas por todos. Entretanto, demonstra-se de forma preliminar que a democracia representativa possui condições de realizar seus ideais e o possível caminho para isso é disponibilizar o acesso a informação a toda população para que se possa monitorar as decisões tomadas pelos governantes, inibindo assim a prática de atos ilícitos por parte dos mesmos, que em nada condizem com o papel de representantes do povo. Para tanto, relata-se alguns aspectos da Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011, que tutela o direito a informação no Brasil.
Para a concretização dos apontamentos realizados, a pesquisa será doutrinária e legislativa, tendo como marco teórico livros e artigos, bem como a legislação pertinente a o tema.
Objetivos
Objetiva-se analisar os diferentes posicionamentos doutrinários em relação ao conceito de democracia; apresentar as formas por meio das quais está se manifesta; expor as vantagens e desvantagens da democracia representativa e apontar o
acesso a informação como meio para propiciar transparência no exercício político e assim eliminar as mazelas que impedem a efetivação do governo representativo.
Método e técnicas de pesquisa
O método utilizado é o indutivo em que se partirá da analise conceitual da democracia e suas formas para então abordar o acesso a informação como ferramenta capaz de possibilitar a democracia representativa.
Os dados foram levantados por meio da utilização da pesquisa indireta, abrangendo suas subespécies, a pesquisa documental e a pesquisa bibliográfica. Resultados
A democracia é uma forma de governo, considerada como sendo a mais adequada por possibilitar que toda a sociedade tenha participação nas decisões políticas estando fundada nos princípios da liberdade e da igualdade, ou seja, é o governo da maioria em contraposição com a monarquia e a aristocracia, em que o poder é exercido, respectivamente, por um ou por poucos.
Entretanto, segundo José Afonso da Silva, a democracia não pode ser simplesmente tratada como um conceito político abstrato e estático, mas como um processo de afirmação do povo e de garantia dos direitos fundamentais, que o mesmo vai conquistando no decorrer da história. Assim, “democracia é um processo de convivência social em que o poder emana do povo, há de ser exercido, direta ou indiretamente, pelo povo e em proveito do povo”.1
Norberto Bobbio a denomina como uma forma de governo contraposta a autocracia, considerando-a como um conjunto de regras que estabelecem quais são as pessoas responsáveis por tomar decisões coletivas e com quais procedimentos. A regra fundamental relata que o direito de participar direta ou indiretamente da tomada de decisões coletivas deve ser atribuído ao maior número possível de cidadãos. A segunda regra estabelece que as decisões, para serem coletivas, devem ser tomadas ao menos pela maioria. Uma terceira regra impõe que os eleitores devem ter condições de escolher entre partidos que tenham programas diferentes e alternativos para compará-los e assim tomar a melhor decisão nas suas escolhas.2
Já para Touraine, a democracia pode ser concebida em três dimensões, quais sejam o respeito pelos direitos fundamentais que se refere à limitação do poder do Estado, da Igreja e de outras instituições concretizando-se com a existência de eleições e pelo respeito às leis responsáveis pela definição dos limites no interior dos quais o poder é exercido; a cidadania que significa que os eleitores devem levar em consideração sua posição de cidadãos dentro da sociedade, e, portanto, devem interessar-se pelas decisões do governo e por fim a terceira dimensão trata-se da representatividade, que caracteriza-se pelo fato de que os agentes políticos devem representar os atores sociais, e como estes se apresentam com uma grande pluralidade, por meio da qual há uma diversidade de interesses, não se comportando todos da mesma forma, a democracia, por sua vez, para ser
1
SILVA, José Afonso da. Curso de direito positivo. 20.ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2002, p.126. 2
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Trad.de Marco Aurélio Nogueira. 10.ed. São Paulo: Paz e terra, 2000, p.30-32.
representativa deve ser pluralista, considerando a sociedade em seu aspecto heterogêneo.3
A democracia pode se apresentar de três formas, que é a direta, a semidireta e a indireta, sendo que possuem como princípio a soberania popular, mas diferem no modo como são exercidas. A democracia direta surgiu na Grécia Antiga, onde os cidadãos se reuniam em Assembléia na Ágora (praça) para tomar decisões políticas. No entanto, não eram todos que possuíam esse direito, pois mulheres, estrangeiros, escravos e crianças eram excluídos da participação política. Assim, na democracia direta é o próprio povo que exerce os poderes governamentais, “fazendo leis, administrando e julgando”4
, sem a presença de qualquer intermediário que tome decisões em seu nome.
A democracia indireta, também chamada de democracia representativa é aquela na qual o governo é exercido pelos representantes do povo, escolhidos por meio da eleição. Surge em decorrência da extensão territorial, do aumento da população e da complexidade dos problemas sociais, não permitindo mais ao povo exercer o poder diretamente. De acordo com Bobbio, o termo “representar” possui dois significados, sendo em sentido técnico-jurídico compreendido como agir em nome e por conta de outrem e na linguagem comum e filosófica é entendido como reproduzir, espelhar ou refletir.5
A democracia semidireta é caracterizada por ser uma junção da democracia representativa com alguns institutos de participação direta do povo, que integram a democracia participativa.6 Têm por objetivo possibilitar a participação popular não somente no momento da eleição, mas também em outros momentos decisivos do governo. Apresenta como institutos principais o referendo, o plebiscito e a iniciativa popular. O referendo é um instrumento de consulta popular realizado posteriormente à aprovação de projetos de lei pelo legislativo através da qual a população vai ratificar ou rejeitar o projeto aprovado. O plebiscito, ao contrário caracteriza-se pelo fato de que a consulta popular é realizada antes da formulação de um ato legislativo, autorizando ou não que o mesmo seja realizado. Finalmente, a iniciativa popular, é aquela em que o povo apresenta projetos de lei ao legislativo, devendo ser assinado por um número razoável de eleitores.
O modelo de democracia adotado no Brasil, pelos constituintes de 1988, é a representativa, tendo como sujeitos principais os partidos políticos, sendo que os instrumentos de participação direta foram deixados como leves temperos no processo decisório7. Em relação a isso, Bobbio argumenta que a democracia representativa e a democracia direta não são dois sistemas alternativos, no sentido de que onde exista um não pode existir outro, pois podem se integrar reciprocamente, de modo, que num sistema de democracia integral, as duas formas de democracia são necessárias, mas não são consideradas em si mesmas, suficientes.8
3
TOURAINE, Alain. O que é a democracia.Trad. de Guilherme João de Freitas Teixeira.2. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1996, p.42-45
4
SILVA, op. cit., p.136. 5
BOBBIO, Norberto. Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Trad. de Daniela Beccaccia Versiani.6.ed. Rio de Janeiro:Campus, 2000, p.457
6
SILVA, Op. cit., p. 136
7
Ibidem., p. 145
8
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Trad.de Marco Aurélio Nogueira. 10.ed. São Paulo: Paz e terra, 2000, p. 65.
O regime representativo possibilita uma maior participação popular na política, através da qual os cidadãos possuem a liberdade de escolher, por meio do voto, os governantes que apresentem as melhores propostas que possam contribuir com os interesses e anseios da coletividade.
No entanto, essa forma de governo também possui desvantagens que por sua vez levaram essa forma de governo a uma crise devido ao fato de ter se desvirtuado de seu caminho, não conseguindo cumprir com seus objetivos. A título exemplificativo, Bobbio apresenta alguns dos problemas que têm defasado a democracia, dentre eles aponta o fenômeno da globalização, que tornou a sociedade muito complexa com o desenvolvimento da tecnologia, exigindo, assim, especialistas para que sejam resolvidos os problemas políticos. Com isso, há o conflito entre a democracia que prega o governo de todos e a tecnocracia, segundo a qual somente podem participar do governo e tomar decisões aqueles que possuem conhecimentos específicos. Também destaca o mandato vinculado, de acordo com o qual os políticos depois de eleitos, ao invés de defenderem os interesses de toda a nação, apenas representam os grupos que os colocaram no poder, perseguindo interesses particulares. Há ainda a questão do poder invisível, pois as ações dos governantes permanecem secretas e alheias aos governados, de forma que estes não possuem meios para conhecer e fiscalizar os atos de seus representantes. Por fim, expõe o fato de que os cidadãos não foram educados para a cidadania, permanecendo indiferentes à política, sem se ater a real importância da participação ativa e consciente nos moldes da democracia.9
Ainda, pode ser destacada, a falta de identidade dos partidos políticos, que apesar de serem instrumentos do sistema representativo, responsáveis por expressar as reivindicações do povo, não apresentam clareza quanto as suas posições em relação a temas polêmicos e, além disso, não seguem as ideologias expressas no programa partidário e em suas siglas. Desse modo, há uma grande dificuldade por parte dos cidadãos na escolha de suas opções políticas, fazendo com que muitas vezes optem pelo voto nulo, negando assim, um direito que foi conquistado com muita luta.
Como forma de retirar a democracia da crise em que se encontra destaca-se uma importante ferramenta que é o acesso a informação, pois é impossível construir um governo democrático se as informações públicas que dizem respeito a todos, permanecem sob sigilo dos governantes. Nesse aspecto a Organização internacional Artigo 19 10destaca que “a informação é o oxigênio da democracia. Um indivíduo só pode exercer plenamente sua liberdade de escolha se tiver a oportunidade de acessar informações completas, verídicas e de qualidade”.11
No Brasil o direito a informação é tutelado pela Lei nº 12.527 de 18 de novembro de 2011, que estabeleceu ser a publicidade a regra e o sigilo, a exceção. Além disso, determinou aos órgãos públicos o dever de utilizar-se de todos os meios legítimos disponíveis para garantir o acesso, sendo obrigatório manter informações de interesses públicos em sítios oficiais da rede mundiais de computadores.
Ademais, juntamente com disponibilização de informações online que devem ser claras e objetivas, estando ao alcance do entendimento de todos, é necessário,
9
BOBBIO, op. cit., p. 36-46 10
O artigo 19 é uma organização não-governamental que trabalha em vários países na promoção e proteção do direito à liberdade de expressão. Sua denominação refere-se ao artigo 19 da Declaração Universal dos direitos Humanos, que assegura a liberdade de expressão e informação.
11
ARTIGO 19. Transparência pública. Disponível em < http://artigo19.org/?p=564>. Acesso em: 4 jun. 2014.
também, democratizar o acesso a internet, visto que ainda há uma grande parcela da sociedade que não possui esse acesso. Caso contrário, a participação ficará restrita a um determinado número de indivíduos que dispõem de meios técnicos adequados para acessar as informações públicas, contradizendo o ideal democrático que proclama pela participação de todos.
Assim, o acesso a informação constitui-se em um meio para que a sociedade possa participar das decisões que lhe afetam de modo a fiscalizar a atuação de seus representantes e também emitir opiniões, não ficando sua participação restrita á época das eleições. Trata-se de um exercício da cidadania, visando combater a corrupção e solidificar o regime democrático.
Discussão
Os dados constatados permitem compreender que a democracia nunca cumpriu com seu verdadeiro objetivo que é o de ser o governo exercido pelo povo, pois mesmo na democracia direta, que é aquela surgida na Grécia Antiga, não eram todos que tinham o direito de participar das decisões políticas.
Com o aumento da densidade demográfica a democracia direta se tornou inviável, não sendo possível toda a população se reunir para governar. Dessa forma, houve a necessidade do sistema representativo, mas do mesmo modo, não conseguiu realizar o ideal democrático, pois os representantes do povo se mostram incompetentes para exercer tal papel, visando apenas interesses próprios, ao invés de buscarem benefícios para toda a sociedade, praticando, assim, a corrupção e mantendo seus atos invisíveis ao olhar da sociedade, para que a mesma não tenha condições de fiscalizá-los.
Aliado a isso, há a falta de interesse dos cidadãos em mudar esse cenário, já que não se interessam pelas decisões do governo, votando muitas vezes sem consciência por não analisar as propostas políticas, ou objetivando, ainda, benefícios pessoais ao vender seu voto.
Contudo destaca-se que o acesso a informações públicas é um importante meio de participação do povo no governo para suprimir a crise na qual a democracia representativa se encontra apesar disso ser um grande desafio, pois há ainda uma grande parte da população que não dispõem de meios para obter tais informações, a exemplo da internet.
Considerações finais
Embora essa pesquisa se encontre, ainda em andamento, com resultados iniciais, constata-se que a democracia em seu sistema representativo, possui possibilidades de tornar-se um verdadeiro instrumento que expresse a vontade popular, porém é necessária a efetivação do acesso a informação para que se tenha conhecimento das atitudes e das decisões tomadas pelos governantes, pois a participação do povo não pode ficar restrita ao momento da eleição, sendo necessário que representantes e representados governem conjuntamente, de modo a permitir a construção de uma verdadeira democracia.
Ressalta-se a importância dos resultados obtidos e necessidade da continuidade da pesquisa, visando-se a divulgação das conclusões dela advindas, no sentido de demonstrar a real importância do acesso a informação em nosso sistema de governo.
Referências
ARTIGO 19. Article 19 em português. Disponível em: <http://www.article19.org/pages/pt/ resource-language.html>. Acesso em: 4 jun. 2014.
BALESTERO, Gabriela Soares. O resgate da democracia participativa e
deliberativa como mecanismo legitimador do exercício do exercício dos
poderes estatais. Disponível em:
<www.fdsm.edu.br/site/posgraduacao/dissertacoes/11.pd>. Acesso em: 3 jun. 2014.
BRASIL. Acesso a informação e controle social das políticas públicas. Disponível em: <http://www.cgu.gov.br/acessoainformacao/materiais-interesse/Acesso-a-informacao-e controle-social-das-politicas-publicas.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2014.
BRASIL. Lei nº 12.527 de novembro de 2011. Disponível em:<www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12527.htm. Acesso em: 4 jun. 2014.
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Trad.de Marco Aurélio Nogueira.10.ed. São Paulo: Paz e terra, 2000.
___. Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Trad. de Daniela Beccaccia Versiani.6.ed. Rio de Janeiro:Campus, 2000.
CADEMARTORI, Daniela mesquita Leutchuk de. O diálogo democrático. 1. ed. Curitiba: Juruá, 2010.
RUE, Letícia de La. A lei de acesso à informação no poder legislativo brasileiro dentro do contexto da sociedade informacional: perspectivas para a democracia. Disponível em: < www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=ac450d10e166657e>. Acesso em: 3 jun. 2014.
SILVA, José Afonso da. Curso de direito positivo. 20.ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2002.
TOURAINE, Alain. O que é a democracia. Trad. de Guilherme João de Freitas Teixeira. 2. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.