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O ITR E O LANÇAMENTO DE OFÍCIO COM BASE NO SIPT

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Academic year: 2021

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BASE NO SIPT

Luiz Roberto Domingo

Mestre em Direito Tributário pela PUC/SP, Professor de Direito Tributário da Fundação Alvares Penteado - FAAP, Professor Convidado dos Cursos de Especialização em Direito Tributário do IBET, COGEAE/PUC-SP, USP, Faculdade São Bernardo do Campo, GVlaw, IBDT, Advogado, Membro da Comissão do Contencioso Administrativo Tributário da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de São Paulo, e do Instituto de Pesquisas Tributárias – IPT.

Sumário: 1. Introdução. 2. Da dinâmica do ITR. 3. Evolução le-gislativa e estagnação da forma de fiscalizar. 4. Lançamento de ofício – Subavaliação e retificação do VTN. 5. O SIPT instituição e regulamentação.

1. Introdução

O Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR tem sua incidência disciplinada pela Lei nº 9.393/96, que in-troduziu uma grande mudança na sua modalidade de lança-mento, a partir de 1997, que passou a ser “por homologação” (art. 10), diferentemente das disposições da Lei nº 8.847/1994, que previa a modalidade de lançamento por declaração.

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Essa alteração da legislação, da modalidade de lançamen-to, trouxe uma nova perspectiva na dinâmica das relações ju-rídicas tributárias, competência e forma para a fiscalização e ônus da prova no âmbito da revisão do lançamento, haja vista que os critérios informadores da incidência tributária regidas pelo art. 150 do CTN, cuja a atividade de apurar e antecipar o pagamento são, diferentes daqueles que suportam o exercí-cio da exatoria no regime do lançamento por declaração, cuja atividade de lançamento de ofício é realizado pelo Fisco com base nas informações prestadas pelos Contribuintes.

É certo que cada modalidade de lançamento contempla práticas e requisitos próprios, em especial o lançamento por homologação, haja vista que não há participação do Fisco na atividade de apuração do imposto, conforme expressamente prevê o art. 150 do CTN.

A diferença de abordagem técnica, jurídica e concei-tual que se espera para cada uma das modalidades de lança-mento, mostra-se relevante, a partir da constatação de que a Fiscalização Tributária, apesar de modalidade de lançamento do ITR passou a ser por homologação, ainda adota a mesma metodologia afeta à modalidade de lançamento por declara-ção, distorcendo o ônus da prova no procedimento fiscal que pretende verificar a adequada atividade de lançamento feito pelo contribuinte.

Neste trabalho, pretendo dar enfoque ao valor da terra nua sua atribuição pelo contribuinte no âmbito do lançamen-to por homologação e a dinâmica que tem sido implementada na revisão do lançamento por parte do Fisco, em especial com a utilização do Sistema de Preços de Terras - SIPT.

2. Da dinâmica do ITR

A Lei nº 9.393/96, ao disciplinar o ITR, estabelece os ele-mentos essenciais para incidência determinando os critérios material, temporal e espacial, da hipótese, e a sujeição passiva

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e o critério quantitativo, do consequente, perfazendo a regra matriz de incidência.

Dadas às características programáticas constitucionais que estão presentes na tributação do ITR, representada pelo binômio exploração-preservação, esse imposto tem como mis-são, sob um mesmo arquétipo legal e ao mesmo tempo, de-sincentivar a manutenção de grandes propriedades improdu-tivas, preservar o mínimo irredutível de áreas naturais para preservação do meio ambiente (reserva legal e preservação permanente, art. 2º e 16 da Lei nº 4.771/65) em propriedades produtivas e incentivar propriedades com vocação à preserva-ção de florestas e vegetapreserva-ção nativa (art. 3º da Lei nº 4.771/65, art. 50, § 4º, alínea “b”, da Lei nº 4.504/1964 e art. 5º, inciso I, da Lei nº 5.868/1972).

Essa dinâmica conseguiu ser aplicada mediante um ple-xo de variáveis a serem consideradas na identificação dos elementos componentes do critério quantitativo do ITR, os quais conferem algumas delimitações conceituais aplicáveis à definição da base de cálculo (art. 10 da Lei nº 9.393/1996) e a progressividade para a alíquota com base nas dimensões da propriedade e de seu respectivo grau de utilização.

A base de cálculo, por exemplo, é definida por aspectos físicos e econômicos da materialidade de incidência. No âm-bito dos aspectos físicos, define a “ÁREA TRIBUTÁVEL”, a partir de um rol de áreas que devem ser excluídas da ÁREA TOTAL DO IMÓVEL, a saber: a) área de preservação perma-nente e de reserva legal, previstas na Lei nº 12.651/2012; b) área de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior; c) áreas comprovadamente imprestáveis para qualquer exploração agrícola, pecuária, granjeira, aquícola ou florestal, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual; d) sob regime de servi-dão ambiental; e) cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração; e

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f) alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas

hidrelétricas autorizada pelo poder público.

Ora pela exclusão da base de cálculo do ITR de áreas de preservação permanente, áreas de reserva legal, áreas de florestas e áreas de interesse ecológico a legislação indica a vocação desse tributo como instrumento de incentivo à pre-servação do meio ambiente. Na mesma linha teleológica, pela exclusão de áreas comprovadamente imprestáveis para ex-ploração econômica e das áreas alagadas para fins de consti-tuição de reservatório de usinas hidrelétricas, vem, ainda que em menor intensidade, a perspectiva de a tributação incidir sobre a capacidade econômica da propriedade inexplorada, o que será complementada pela estruturação regressiva da alí-quota da alíalí-quota em função do maior grau de utilização da propriedade.

No âmbito dos aspectos econômicos para definição da base de cálculo, a Lei define o VALOR DA TERRA NUA, a partir de um rol de investimentos realizados no imóvel que devem ser excluídos do valor venal do imóvel (valor esse atri-buído pelo proprietário por meio de autoavaliação), a saber:

a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas

perma-nentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; e

d) florestas plantadas.

O outro elemento do critério quantitativo da regra matriz de incidência do ITR, a alíquota, foi instituída sob o princípio da progressividade, levando em conta as variáveis “grau de utilização” (relação entre área aproveitável e área aproveita-da) e “dimensão do imóvel”. Portanto, verifica-se a progressi-vidade em relação à dimensão: maior será a alíquota quanto maior for o imóvel; e, a regressividade em relação ao grau de utilização: menor será a alíquota quanto maior for o grau de utilização das áreas aproveitáveis do imóvel.

São esses elementos fáticos e jurídicos dessa matemática da apuração do critério quantitativo do ITR, seus aspectos co-notativos e deco-notativos, que merecem um estudo mais apro-fundado pela Doutrina.

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3. Evolução legislativa e estagnação da forma de fiscalizar

Historicamente o ITR era constituído pela modalidade de lançamento por declaração1, nos termos do art. 6º da Lei 8.847/94:

Art. 6º O lançamento do ITR será efetuado de ofício, podendo, alternativamente, serem utilizadas as modalidades com base em declaração ou por homologação.

Naquele contexto, a autoridade administrativa expedia anualmente uma Tabela informando o Valor da Terra Nua Mínimo – VTNm, apurado segundo levantamento feito jun-tos aos Cartórios de Registro de Imóveis acerca das transmis-sões de propriedades efetivadas no ano-calendário anterior. Assim, a informação sobre o valor da terra nua prestada pelo contribuinte era parcialmente considerada e, mesmo assim, desde que não fosse inferior ao preço de pauta divulgado em ato expedido pela Receita Federal (Instrução Normativa).

Caso o contribuinte não concordasse com o VTNm, teria até a data do vencimento da obrigação tributária constante da Notificação de Lançamento para impugna-lo mediante apresentação de laudo técnico de avaliação2 elaborado por

1. Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autori-dade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efeti-vação.

§ 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento.

§ 2º Os erros contidos na declaração e apuráveis pelo seu exame serão retificados de ofício pela autoridade administrativa a que competir a revisão daquela.

Art. 148. Quando o cálculo do tributo tenha por base, ou tome em consideração, o valor ou o preço de bens, direitos, serviços ou atos jurídicos, a autoridade lançado-ra, mediante processo regular, arbitrará aquele valor ou preço, sempre que sejam omissos ou não mereçam fé as declarações ou os esclarecimentos prestados, ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo ou pelo terceiro legalmente obrigado, ressalvada, em caso de contestação, avaliação contraditória, administrativa ou judi-cial.

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profissional devidamente habilitado, que confirmasse o VTN atribuído pelo contribuinte em sua Declaração de ITR. Daí surge a prática de o Fisco exigir do contribuinte laudo técnico a comprovar o VTN.

A partir da Lei nº 9.393/96, a modalidade de lançamento do ITR passou a ser por homologação, na forma do art. 150 do CTN:

Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de an-tecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade adminis-trativa, opera-se pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, ex-pressamente a homologa.

Acompanhando a modalidade de lançamento por homo-logação, a novel legislação faz as adequações necessárias para refletir a alteração nos procedimentos de apuração, retifica-ção e contestaretifica-ção do VTN, lembrando que esse valor, no

pro-cedimento anterior, era fixado pelo Fisco, e, agora, passou a ser atribuído pelo contribuinte, conforme dispõe o art. 8º, da

Lei nº 9.393/1996:

Art. 8º O contribuinte do ITR entregará, obrigatoriamente, em cada ano, o Documento de Informação e Apuração do ITR - DIAT, correspondente a cada imóvel, observadas data e condições fixa-das pela Secretaria da Receita Federal.

31 de dezembro do exercício anterior ...

§ 2º O Valor da Terra Nua mínimo - VTNm por hectare, fixado pela Secretaria da Receita Federal ouvido o Ministério da Agricultura, do Abastecimento e da Refor-ma Agrária, em conjunto com as Secretarias de Agricultura dos Estados respecti-vos, terá como base levantamento de preços do hectare da terra nua, para os diver-sos tipos de terras existentes no Município.

...

§ 4º A autoridade administrativa competente poderá rever, com base em laudo téc-nico emitido por entidades de reconhecida capacitação técnica ou profissional devi-damente habilitado, o Valor da Terra Nua mínimo - VTNm, que vier a ser questio-nado pelo contribuinte.

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§ 1º O contribuinte declarará, no DIAT, o Valor da Terra Nua - VTN correspondente ao imóvel.

§ 2º O VTN refletirá o preço de mercado de terras, apurado em 1º de janeiro do ano a que se referir o DIAT, e será considerado auto

-avaliação da terra nua a preço de mercado.

Note-se que a legislação consagra o valor da terra nua como aquele que reflete o preço de mercado de terras na data do fato gerador, mas considera-o como “AUTOAVALIAÇÃO” da terra nua a preço de mercado atribuída pelo contribuinte.

A etmologia da palavra “autoavaliação” contempla a jun-ção do termo “auto” – (do grego autos, significando próprio, por si mesmo, autônomo), que possui o conceito de tudo o que pode se mostrar por si mesmo, independente de outro elemento, por ter vida própria ou por se encontrar compro-vado por si mesmo3, e do termo “avaliação” – determinar va-lor, de modo que a autoavaliação deve ser apropriada com o conteúdo semântico de uma avaliação feita pelo próprio con-tribuinte, de quem não se espera, por conta de sua atividade agrícola, o conhecimento técnico de levantamento de preços, modelos de regressão, homogeneização de preços, inferências estatísticas, níveis de insignificância, situações de paradigma e outros elementos técnicos contidos nas regras da ABNT.

Inobstante essa disposição legal, é sabido e corrente que, mesmo a partir de 1997, a fiscalização do ITR vem exigindo dos contribuintes a apresentação de laudo de avaliação do imóvel que confirme o valor da terra nua atribuído pelo con-tribuinte na DIAT, com um texto padrão nas intimações de termo de início de procedimento fiscal: - Laudo de avaliação

do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade téc-nica - ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados. A falta de apresentação do laudo de

3. SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 10ª Ed. Rio de Janeiro, Forense, 1987, p. 247.

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avaliação ensejará o arbitramento do valor da terra nua, com base nas informações do Sistema de Preços de Terra – SIPT da RFB.

Não se pode imaginar que a legislação possa atribuir ao contribuinte a tarefa de realizar a “autoavaliação a preço de mercado” no momento do autolançamento e, concomitan-temente, quando da fiscalização autorizasse a exigência por parte do Fisco da apresentação de laudo técnico, com todos os requisitos emanados pela ABNT, que confirmasse o VTN atribuído pelo contribuinte. Na verdade não há uma autoriza-ção legal expressa, mas admitir que o Fisco possa constituir tal exigência seria destituir a validade da autoavaliação pre-vista em lei.

Tal interpretação perversa que a Administração Tributária vem implementando nas fiscalizações de ITR, im-plica concluir que a lei teria preparado uma armadilha ao contribuinte, ao considerar que uma autoavaliação deva ter a mesma certeza que um laudo técnico de avaliação, mes-mo sem se submeter ao rigor científico que envolve a Norma Técnica da ABNT, submetendo o contribuinte à multa de 75% relativa ao lançamento de ofício (salvo nos casos em que o contribuinte contrate anualmente profissional avaliador, o que não seria o caso).

4. Lançamento de ofício – subavaliação e retificação do VTN

A legislação do ITR prevê que a administração tributária poderá desconstituir a autoavaliação, desde que identifique e comprove que houve subavaliação ou prestação de informa-ções inexatas, incorretas ou fraudulentas por parte do contri-buinte, conforme dispõe o art. 14 da Lei 9.393/96:

Art. 14. No caso de falta de entrega do DIAC ou do DIAT, bem como de subavaliação ou prestação de informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, a Secretaria da Receita Federal pro-cederá à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constantes

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de sistema a ser por ela instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimentos de fiscalização.

§ 1º As informações sobre preços de terra observarão os critérios estabelecidos no art. 12, § 1º, inciso II da Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, e considerarão levantamentos realizados pe-las Secretarias de Agricultura das Unidades Federadas ou dos Municípios.

O enunciado prescritivo estabelece que caberá à admi-nistração tributária a identificação da inconsistência da de-claração e, atendendo aos requisitos legais do ato administra-tivo, apresentar o motivo e a motivação do ato, expondo os elementos materiais bastantes e suficientes a demonstrar a subavaliação ou a informação inverídica ou equivocada.

Caberá, portanto, à administração tributária o ônus da prova da inconsistência encontrada na apuração do tributo no âmbito do lançamento por homologação. Por isso a neces-sidade de a administração provar que houve subavaliação. A prova é o elemento fundamental para acusação de subavalia-ção e, assim, motivar o lançamento.

Para Alberto Xavier (in “Do Lançamento – Teoria Geral do Ato, do Procedimento e do Processo Administrativo Tributário”, Forense, Rio de Janeiro, 1998, pág. 124), na prá-tica, há a conjunção de duas teorias jurídicas no momento do lançamento: a verdade material e a livre convicção, ensinando:

“A instrução do procedimento tem como finalidade a descober-ta da verdade material no que toca ao seu objeto com os seus corolários da livre apreciação das provas e da admissibilidade de todos os meios de prova. Daí a lei fiscal conceder aos seus órgãos de aplicação meios instrutórios vastíssimos que lhes permite formar a convicção da existência e conteúdo do fato tributário. Essa convicção é, porém, uma livre convicção, no sentido de que não está limitada à existência de regras legais de prova, antes os meios probatórios têm, em princípio, o valor que corresponder à sua idoneidade como elemento da referida convicção. Não quer isso dizer que o procedimento administrativo de lançamento, como processo inquisitório que é, ignore toda e qualquer pro-va legal. Com efeito, não raro a lei fiscal introduz limites à livre

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convicção dos seus órgãos de aplicação ao estabelecer provas ne-cessárias, determinando que certos fatos relevantes para o obje-to do procedimenobje-to só possam ser provados documentalmente e aceitando a força probatória plena dos documentos autênticos em que se incorporam declarações de terceiros.”

É de notar-se, que em se tratando da atividade adminis-trativa fiscal, a prova não é elemento exclusivo do processo, mas deve ser requisito motivador da ação da administração

no ato exarado, é elemento de sua convicção da ocorrência do

fato sujeito à incidência da norma. Tal questão mostra-se re-levante, pois sendo o lançamento ato vinculado, a autoridade tem o dever de exercê-lo e o deve segundo os estritos ditames da lei e das provas que suportam seu entendimento.

Assim, no exercício de sua função, a administração fiscal tem o dever de provar a ocorrência do fato do qual decorreu a aplicação do Direito, é dele o ônus da prova. Vejamos o que doutrina Alberto Xavier (op. cit. pág. 144):

“Porque no procedimento administrativo de lançamento se ten-de à averiguação da verdaten-de material quanto ao objeto do pro-cesso- indispensável para a aplicação da lei de imposto- nele não se coloca, em rigor, um problema de repartição do ônus da prova como critério de juízo sobre o fator incerto.

...

Que o encargo da prova no procedimento administrativo de lan-çamento incumbe à Administração fiscal, de modo que em caso de subsistir a incerteza por falta de prova (Beweislosigkeit), esta deve abster-se de praticar o lançamento ou deve praticá-lo com um conteúdo quantitativo inferior, resulta claramente da exis-tência de normas excepcionais que invertem o dever da prova e que são as presunções legais relativas.

Com efeito, a lei fiscal não raro estabelece presunções deste tipo em benefício do Fisco, liberando-o deste modo do concreto en-cargo probatório que na sua ausência cumpriria realizar; nestes termos, a Administração fiscal exonerar-se-á do seu encargo probatório pela simples prova do fato índice, competindo ao par-ticular a demonstração do contrário.”

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“Na ordem jurídica brasileira não pode duvidar-se da solução a dar ao problema em causa: o respeito pela propriedade privada, consagrado constitucionalmente, e que em matéria tributária se reflete no princípio de uma rígida legalidade, revela só por si que no caso de incerteza sobre a aplicação da lei fiscal são mais for-tes as razões de salvaguarda do patrimônio dos particulares do que as que conduzem ao seu sacrifício. (in dubio pro libertate; melhor est conditio possidentis).”

Paulo Celso B. Bonilha, ao tratar do ônus da prova na relação processual tributária, conclui que:

“Se é verdade que a conformação peculiar do processo adminis-trativo tributário exige do contribuinte impugnante, no início, a prova dos fatos que afirma, isto não significa, como vimos, que, no decorrer do processo, seja de sua incumbência toda a carga probatória. Tão pouco a presunção de legitimidade do ato de lançamento dispensa a Administração do ônus de provar os fatos de seu interesse e que fundamentam a pretensão do cré-dito tributário, sob pena de anulamento do ato.”

Comprovada a subavaliação do imóvel a administração tributária deverá realizar o lançamento de ofício com base nas informações sobre preços de terras, constantes de sistema

a ser por ela [Receita Federal] instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimentos de fiscalização.

5. O SIPT instituição e regulamentação

O Sistema de Preços de Terras – SIPT, foi instituído pela Lei nº 9.393/1996 e criado pela Portaria SRF Nº 447/2002, com a seguinte redação:

O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL no uso da atribuição que lhe confere o art. 209 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal, aprovado pela Portaria MF nº 259, de 24 de agosto de 2001, e tendo em vista o disposto no art. 14 da Lei nº 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e na Portaria SRF nº 782, de 20 de junho de 1997, resolve:

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Art. 1º Fica aprovado o Sistema de Preços de Terras (SIPT) em atendimento ao disposto no art. 14 da Lei nº 9.393, de 1996, que tem como objetivo fornecer informações relativas a valores de terras para o cálculo e lançamento do Imposto Territorial Rural (ITR).

Art. 2º O acesso ao SIPT dar-se-á por intermédio da Rede Serpro, somente a usuário devidamente habilitado, que será fei-to mediante identificação, fornecimenfei-to de senha e especifica-ção do nível de acesso autorizado, segundo as rotinas e modelos constantes na Portaria SRF nº 782, de 20 de junho de 1997. Parágrafo único. A definição e a classificação dos perfis de usu-ários, os critérios para a sua habilitação e as transações auto-rizadas para cada perfil, relativos ao controle de acesso lógico do SIPT, serão estabelecidos em ato da Coordenação-Geral de Fiscalização (Cofis).

Art. 3º A alimentação do SIPT com os valores de terras e demais dados recebidos das Secretarias de Agricultura ou entidades correlatas, e com os valores de terra nua da base de declara-ções do ITR, será efetuada pela Cofis e pelas Superintendências Regionais da Receita Federal.

Art. 4º A Coordenação-Geral de Tecnologia e Segurança da Informação providenciará a implantação do SIPT até 15 de abril de 2002.

Essa foi a única regulamentação que o SIPT teve desde 1996 até 2015. Mesmo assim, sem qualquer fixação de critérios para levantamento de preços ou para tratamento dos dados para sua uniformização, sem qualquer rigor jurídico ou cien-tífico no tratamento dos dados, a administração tributária foi colhendo informações sobre avaliação de preços de terras e quando não as encontrava imputada no sistema a média do VTN das Declarações de ITR apresentadas pelos contribuin-tes de determinada localidade, consolidando, assim, informa-ções aleatórias sobre os preços de terras. Não é necessária maior investigação para perceber que o sistema vigente ainda hoje não congrega os elementos mínimos para garantir a ne-cessária segurança jurídica aos contribuintes, diante da ine-xistência de um padrão para identificação das diversas qua-lidades de terras existentes em uma dada região ou em uma dada propriedade.

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Apenas em 29/04/2015, com a publicação da Instrução Normativa RFB nº 1.562, que “dispõe sobre a prestação de informações sobre Valor da Terra Nua à Secretaria da Receita Federal do Brasil”, houve uma padronização da nomenclatu-ra dos tipos de ternomenclatu-ras que deverão compor o sistema de preços criando seis categorias, conforme art. 6º:

Art. 6º A partir dos resultados obtidos em cada levantamento, os entes previstos no art. 3º deverão informar o VTN por hectare, segundo as seguintes aptidões agrícolas:

I – lavoura – aptidão boa: terra que suporta manejo intensivo do solo, apta a cultura temporária ou permanente, mecanizada ou mecanizável, com boa declividade e solos de boa ou média pro-fundidade, bem drenados, irrigada ou irrigável ou, ainda, com condições específicas que permitam a prática da atividade agrí-cola com produtividade alta ou média;

II – lavoura – aptidão regular: terra apta a cultura temporária ou permanente que possui limitações de uso, que não comporte ma-nejo intensivo do solo, que não seja apta à mecanização, ou seja, com condições e restrições relacionadas a fatores que diminuam a produtividade, tais como erosão, drenagem, clima, solos rasos e relevo;

III – lavoura – aptidão restrita: terras que apresentam limita-ções fortes para a produção sustentada de um determinado tipo de utilização, observando as condições do manejo considerado. Essas limitações reduzem a produtividade ou os benefícios, ou aumentam os insumos necessários, de tal maneira que os custos só seriam justificados marginalmente;

IV – pastagem plantada: terra para pastagem plantada ou me-lhorada, assim considerada a terra imprópria a exploração de lavouras temporárias ou permanentes por possuírem limitações fortes à produção vegetal sustentável, mas que podem ser utili-zadas sob forma de pastagem mediante manejo e melhoramento; V – silvicultura ou pastagem natural: terra para pastagem natu-ral, silvicultura ou reflorestamento, assim considerada a terra cuja possibilidade de manejo e melhoramento resume-se a prá-ticas com baixo nível tecnológico e reduzida aplicação de capital e que, por essa razão, não possibilitam o uso indicado nos incisos anteriores;

VI – preservação da fauna ou flora: terra inaproveitável ou com restrição ambiental, terras com restrições físicas, sociais,

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ambientais ou jurídicas que impossibilitam o uso sustentável e, por isso, são indicadas para a preservação da flora e da fauna ou para outros usos não agrários.

Parágrafo único. O levantamento realizado pelos municípios e Distrito Federal deve informar valor para todas as aptidões agrí-colas existentes no seu território, devendo ser preenchido com traço “-” referido campo caso inexista tal aptidão.

A par da possibilidade de críticas aos critérios que identi-ficaram e instituíram as aptidões agrícolas (que será tema de outro artigo), é certo que a administração tributária apresenta uma regulamentação mínima que confere alguma segurança jurídica aos contribuintes, pelo menos no que se refere aos critérios adotados para compor os preços das terras que for-marão o Sistema da Receita Federal.

A questão que se avizinha, no entanto, é a repercussão jurídica da lacuna legislativa existente entres 1996 e 2002 e, principalmente, a existente entre 2002 e 2015, uma vez que os valores de terra nua existentes no SIPT nesse período são carentes de lastros seguros e adequados a compor a apuração do ITR sem que a atividade fiscal resvale o arbitramento, que não estando este previsto em lei, constitui-se arbitrariedade.

Deste modo, ainda que o Sistema de Preços de Terras seja uma opção válida para exercer a fiscalização, a forma como as informações foram alimentando o sistema, sem qual-quer tratamento (em descumprimento do art. 14, e seu § 1º, da Lei nº 9.393/96 e do art. 12, § 1º, inciso II da Lei nº 8.629/93), e a ausência de publicação pela administração tributária da metodologia utilizada na adoção desses valores mostram-se insuficientes para conferir legalidade ao lançamento de ofício.

Apesar de reconhecer que há casos em que os contribuin-tes realmente realizaram o subfaturamento, o lançamento de ofício lavrado apenas com base no SIPT, sem maiores investi-gações ou avaliações técnicas pode não ter os substratos ma-teriais necessários a dar validade à atividade fiscal. Caberá à administração e ao Poder Judiciário avaliarem caso a caso as condições de prova e demonstração do valor retificado pela

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administração tributária com o fim de garantir a segurança jurídica e a estrita legalidade na exigência de tributos.

É de ser lembrado que o motivo do auto de infração foi a circunstância descrita com “após regularmente intima-do, o sujeito passivo não comprovou por meio de Laudo de Avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653-3 da ABNT, o valor da terra nua declarado. No Documento de Informação e Apuração do ITR (DIAT), o valor da terra nua foi arbitrado, tendo como base as informações do Sistema de Preços de Terra - SIPTda RFB.”, tendo confundido a autori-dade fiscal o arbitramento com arbitrarieautori-dade.

Referências

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