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Carlota. Joaquina. x foi às compras. (e gastou 15% da despesa do Estado) Há sensivelmente 200 anos, a rainha consorte de D.João VI

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(1)

sensivelmente

200

anos, a

rainha

consorte

de

D.João

VI

fez

uma

avultada

compra

de

peças parisienses

no valor

de

1.103709,13

reais, a

partir

do

Brasil.

Espreitamos

a

factura

de

1816

que pertence

agora

ao espólio

do

Palácio

de

Queluz

Por Catarina

Lamelas

Moura

Carlota

x

foi

às

compras

Joaquina

(e

gastou

15%

da

despesa

do

Estado)

de luvas brancas na mão, Inês Ferro, directora do Palácio Nacional de Queluz, prepara-se para folhear uma das mais recentes aquisições ao

espólio: um documento datado a1816

onde estão registadas ascompras que

arainha Carlota Joaquina fezemParis,

apartir do Rio de Janeiro, onde vivia emfuga com afamília real ecorte

por-tuguesas desde 1808

-

tendo embarcado no

final do ano anterior, antes daprimeira invasão francesa de Portugal.

De barco, chegaram aoRio de Janeiro oito

caixas. Entre largas centenas depeças

-

cujo

número total ainda não foi contabilizado

-,

contam-se 560lencinhos demão, corpetes,

im-pressionantes vestidos dos mais luxuosos ma-teriais, luvas, cosméticos epeças de joalharia.

Parte das peças vinham compor os enxovais

das princesas Maria Isabel e Maria Francisca de Assis

-

que iriam casar com dois dos seus

tios

-,

indica adirectora do palácio. Para

ho-mem, há também dois registos: 144camisas e

228pares de meias.

Ao Palácio de Queluz, o documento che-gou no final de Setembro do ano passado.

Foi adquirido através daleiloeira Sotheby's e

do antiquário S.J. Phillips, por um valor não divulgado. Afaustosa compra da rainha (de 1.103.709,13 reais) édetalhada emfrancês e, no

(2)

final, resumida em espanhol pelas 71páginas

de um caderno sóbrio de couro marroquino vermelho, com 22 por 20,5centímetros. "Não é das peças mais vistosas", avisa InêsFerro, "mas

tem um "potencial enorme" de investigação. A directora do palácio nota ainda oexcelente

estado de conservação em que se encontra o

documento com mais de200anos.

"Queremos sobretudo sistematizar ede

algu-ma foralgu-ma ilustrar esta listagem, num contexto alargado do que eraasilhueta, osadereços, os

hábitos, osgestos", indica. Nos próximos

me-ses, odocumento será alvodeuma investigação

multidisciplinar, com oobjectivo defazer

cor-responder asreferências àsrespectivas peças e

retratos da época. Deverá culminar com uma publicação dos resultados na linha editorial

Colecções em Foco, daParques de Sintra. Antes disso, porém, opúblico poderá vislum-brar alista de compras da rainha. Ainda não

existem datas ou planos concretos, mas Inês Ferro avança que o documento deverá ser ex-posto ainda este ano, àpartida notoucador de

Carlota Joaquina

-

que no Palácio Nacional de

Queluz passou os últimos momentos de vida.

Nascida em Espanha, a 1775,Carlota Joaquina de Bourbon

-

filha do rei espanhol Carlos IV

-

chegou com dez anos àcorte portuguesa, para casar com D. João, que se tornou mais tarde príncipe herdeiro aquando da morte do irmão primogénito.

Odocumento permite identificar os gostos

da Carlota Joaquina edeterminar atéque

pon-to estavam em linha com ascorrentes

euro-peias da época. Nem todas as peças têm uma descrição muito extensiva, mas os vestidos, por exemplo, são detalhados deforma mais viva

-

há referência aos tipos de materiais, cortes e cores. "Era interessante conseguir fazer corresponder aobjectos reais aquilo que vem elencado nesta exaustiva listagem de itens de moda", de forma aque "as pes-soas possam ver astipologias e perceberem

oque eram os toucados da época, qual era

alinha da indumentária", refere Inês Ferro.

"Do ponto de vista da documentação [este

manuscrito] éde um valor incalculável",

co-menta ao PÚBLICO ainvestigadora Mafalda Barros, actualmente adesenvolver um dou-toramento sobre olegado cultural da rainha Carlota Joaquina. "É de todo ointeresse ter um conhecimento mais aprofundado das fon-tes primeiras danossa história porque

passa-mos muito tempo alerfontes secundárias que muitas vezes estão contaminadas por visões ideológicas dos seus autores", acrescenta a

ex-vice-presidente Instituto Português do Patri-mónio Arquitectónico eArqueológico (actual Direcção-Geral do Património Cultural).

Asvisões condenatórias eporvezes contradi-tórias deCarlota Joaquina sãoexemplo flagran-te disso. "Tanto dizem que ela tem traços

va-ronis, como depois de certo modo condenam

esse gosto pela moda ou pelas jóias, quando

isso são leituras feitas emépocas posteriores", observa ainvestigadora. Não existe também falta de fontes que lhe apontem defeitos ao

aspecto físico, desde airregularidade das fei-ções ao formato da cara. Oliveira Lima, um

(3)

importante historiador brasileiro nascido na segunda metade doséculo XIX, descreve

Car-lota Joaquina como "um dos maiores, senão o

maior estorvo da vida de DomJoão VI", cujas

ambições faziam adiplomacia da época "de tempo atempo andar numa roda-viva".

"Ostraços varonis egrosseiros do seurosto, oseu género de preocupações, oseu próprio impudor, denotam que em D.Carlota havia

apenas defeminino oinvólucro", escreve em

D.João VIno Brasil. "O traço convencional-mente feminino de Dona Carlota eraoamor

dasjóias evestidos, ofraco pelo luxo", aponta

ainda, referindo que esta "nunca se resignou

aser aquilo para que nascera

-

uma princesa consorte" eque "sentia emsi sobeja virilidade para ser ela orei".

Certo éque arainha tinha interesses

vinca-dos eexercia um poder político activo. Sendo

aúnica Bourbon livre

-

numa altura em que a

família real espanhola estava detida em Baiona

-,

ambicionou tornar-se regente da América

Espanhola. Poroutro lado, eraumaabsolutista

ferrenha, que mais tarde viria aapoiar ofilho

D.Miguel na luta entre liberais eabsolutistas. Foiportanto "muito mal tratada pelos liberais.

Sobre ela diz-se tudo emais alguma coisa", remata Inês Ferro.

(4)

Factura sem preço O documento foi comprado através da leiloeira Sotheby's

edo

antiquário S.J. Phillips por um valor não divulgado

Economia de

1816

Ascompras de Carlotajoaquina equivalem de

grosso modo aum sétimo dadespesa de

esta-do do ano de1816, deacordo com oscálculos

pedidos pelo

P

ao

2

professor da Universidade

deLisboa Jaime Reis.

Nos livros de contabilidade do erário régio consta que nesse ano oEstado gastou cerca de 7,5milhões de reais. Oinvestigador

-

cuja

principal área deestudo incide sobre a

histó-ria económica de Portugal nos séculos XIX

eXX

-

ressalva, no entanto, que na época o peso dadespesa deEstado sobre aeconomia global do país era bastante menor do que

ac-tualmente.

Épossível traçar ainda acomparação com as

finanças pessoais da população: em média, o salário diário de um pedre iroera de600reais,

um litro devinho custava :.4Oreais eum quilo

decarne de vaca 210 reais.

Oequilíbrio das despesa "não fazia parte do

pensamento do antigo regime", comenta a

in-vestigadora Mafalda Barreis. "Naquela altura,

aspessoas tinham de ter um certo aparato na sua apresentação. Fazia parte da

representa-ção", acrescenta.

Dos 1.103.709,13 reais da encomenda de Carlota Joaquina, aproximadamente 168,6 mil reais destinavam-se aencargos como a

comissão de 5%paga ao correspondente em Paris, seguros, transporte, taxas de alfândega

ecorrespondência, entre outros.

0

professor de História Económica do

Ins-tituto Superior de Economia eGestão Nuno Valério oferece uma outra análise: tendo por base oíndice de preços das; estatísticas

históri-cas portuguesas e asdiferentes moedas,

apon-taque esse valor hoje corresponda acerca de

24.175 euros.

O

documento

permite

identificar

os

gostos

da

Carlota

Joaquina

e

determinar

se

estavam

em

linha

comas

correntes

da

época

Humanizar

o

discurso

0

estudo dos trajes e artes decorativas é

essen-cial no trabalho de reconstituição da época, explica Inês Ferro. Éassim que seconsegue "ilustrar edar corpo ehumanizar um

discur-sonarrativo" eevocar avivência dos espaços,

acrescenta. "Quando entramos num palácio

co-mooPalácio de Queluz, isso éuma

preocu-pação." Asvisitas da manhã decrianças de escola apresentam um exemplo

prá-tico: algumas salas ao lado, asturmas

são guiadas por actores a represen-tar figuras históricas da época.

Umas das conclusões que saltam àvista, numa leitura inicial do do-cumento, é ainfluência queamoda francesa tinha, aponta Inês Ferro. A directora do palácio aponta ainda para têxteis de valor elevado, como

oslamés (tecido com fios de ouro ou

pra-ta), rendas ebordados. "Sempre foram muito valorizados, àsvezes quase mais

do que asjóias", refere.

As peças aparecem catalogadas

ora por tipologia (lingerie e

luvas), ora por material utilizado (renda e

(5)

à vista mais do que outras. Éocaso do vestido

de 16mil reais de renda inglesa escolhido por Carlota Joaquina. A acompanhar apeça vinha um parde mangas compridas eoutra de mangas

curtas. Não eraalgo pouco comum, sendo que

ospróprios corpetes porvezesvinham também

com duas opções: mais rico ou mais decotado.

Em todo omanuscrito nãohámenção de for-necedores oucasas comercias, mas alguns dos

termos descritos fazem lembrar termos de ma-rfetíngcontemporâneos. Ora, seasmeias super

finas ("superfins") custavam 65 reais o par,as

extra finas ("extrafins") ficavam por 80reais.

Aentomenda englobava ainda uma série de outras compras das mais diversas áreas, inclusive cadernos de música com partituras em branco, produtos de cosmética euma "no-va invenção para escrever em simultâneo um original easua cópia com uma sómão". Foi realizada nas vésperas da partida paraEspanha das infantas D.Maria Isabel eMaria Francisca deAssis para acorte espanhola. "Na

iminên-ciade ter dereunir um determinado número de objectos que valorizassem a imagem das

infantas que iam tercargos importantes, a rai-nha dirige-se aParis para fazer esta compra", explica Inês Ferro.

A própria Carlota Joaquina "durante algum tempo acalentou o desejo devir àEuropa"

acompanhar as filhas, acrescenta Mafalda Barros. Acostumada àvivência na corte, esta

nunca seconformou com afalta de confortos e

aparato noRio deJaneiro, indica a

investigado-ra, reforçando que arainha "não gostava nada deviver no Brasil". Só regressou aPortugal, acompanhada por D.João VI, em 1820.

"Em várias cartas escritas do bibliotecário

Luís dos Santos Marrocos aopai, épossível

en-contrar relatos de que rainha "estava a prepa-rar avinda àEuropa", por volta do ano 1815,

indica amesma investigadora. Contudo, essa

ambição era conflituante com osinteresses in-gleses eacabou por retrair oseu apoio.

Oinventário que agora ocupa oespólio do

Palácio Nacional de Queluz fazia parte deuma colecção privada inglesa. Foi publicado pela primeira vez nocatálogo da exposição TheS.J.

Phillips Collection ofjewels of Portugal,

organiza-do pela Sotheby's, naCasa-Museu Medeiros e

Almeida, emLisboa, em Maio do ano passado.

Em termos de investigação, odocumento dá pano para mangas. Umadas incógnitas, pelo

menos, jáfoi descoberta. Osignatário da

gran-defactura

-

que estava descrito no catálogo da

Sotheby's como baronesa de Ardisson

-

é, de

acordo com documentos originais revelados pela investigadora Mafalda Barros, João

Bap-tista Ardisson, um súbdito espanhol enviado para oBrasil para negociar ocasamento das

infantas, que noregresso ficou incumbido de

tratar dascompras. No final dodocumento dáo

seu aval, assinando "salvo error àomission" .

Referências

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