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ETO RASIL OPU. Cadernos para debate // 03

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Academic year: 2021

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PRO-JETO

BRASIL

POPU

LAR

Cadernos

para debate

// 03

(2)

Quem somos 6

Paradigmas 14

Democratização da Justiça e Direitos Humanos 22

Estado, Democracia, Participação Popular

e Reforma Política 30

Federalismo e Administração Pública 36

Relações Internacionais, Integração Regional e Defesa 42

Segurança Pública 51 Sistemas de Comunicação 59

SUMÁRIO

Eixo Temático - 3

ESTADO,

DEMOCRACIA

E SOBERANIA

caderno para

debate / 03

2020

(3)

Apresentação

Desde quando foram compostos os primeiros Grupos de Trabalho (GTs) do Projeto Brasil Popular, em 2016, seus integrantes debateram e aprofundaram o diagnóstico e as propostas existentes para cada área temática.

Os GTs estão distribuídos em quatro eixos: 1 | Direitos, 2 | Economia, Desenvolvimento e Distribuição de Renda, 3 | Estado, Democracia e Soberania e 4 | Igualdade, Diversidade e Autonomia. Os textos que compõem esse caderno foram formulados por uma equipe de redatores junto com a Secretaria Nacional do Projeto Brasil Popular partindo dos subsídios produzidos pelos GTs do Eixo Temático 3: Estado, Democracia e Soberania.

Esta é uma versão de texto para estudo e debate!

Todos/as podem enviar sugestões e contribuições para a Secretaria Nacional do Projeto Brasil Popular por e-mail: [email protected]

Sua contribuição é muito importante para o aprimoramento das nossas propostas. Desde já, agradecemos e convidamos os leitores a conhecerem as produções dos GTs dos demais eixos.

Vamos todos/as construir o Projeto Brasil Popular! Secretaria Nacional Projeto Brasil Popular

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7 Diante da profunda crise política, econômica e social que o Brasil atravessa

no último período, diferentes forças da esquerda e suas bases sociais identificaram a necessidade de criar um espaço de união e debate, com o objetivo de, junto à sociedade brasileira, formular um projeto nacional. Acreditamos que esse processo auxiliará na organização da luta de massas, ou seja, na construção de força social em torno de propostas que possam transformar a realidade brasileira.

Não é de hoje que homens e mulheres debatem um projeto de país. Entendemos essa tarefa como permanente para a vida dos povos, além de estratégica para os setores populares. Diante de um período em que o processo de desmonte da nação é reforçado, tal tarefa torna-se ainda mais urgente, além de oportuna, dada as condições criadas a partir das necessidades concretas da população. O que aqui chamamos de projeto nacional é um conjunto de temas, diagnósticos e propostas que apontam dilemas estruturais do nosso país e caminhos pelos quais é possível resolver os atuais problemas na vida do povo.

A esquerda brasileira já formulou importantes contribuições para esse debate. Porém, historicamente, o processo de produção dessas reflexões, via de regra, não esteve combinado com a articulação com movimentos populares e sindicais, resultando em formulações teóricas que, embora consistentes, tiveram pouca capacidade de enraizamento social. Nas últimas décadas, nossas formulações e estratégias não avançaram rumo à construção de um projeto de nação ou de um programa amplo, que transcenda medidas imediatas e emergenciais, ou as plataformas e programas eleitorais. Assim,

Quem

Somos?

embora se trate de uma preocupação permanente, não temos conseguido produzir formulações e estratégias unitárias de médio e longo prazos que nos possibilitem mobilizar força social em torno de uma proposta viável de desenvolvimento para o país.

Entendemos ser fundamental que, em paralelo à formulação de análises e propostas, possamos reafirmar a necessidade de diálogo com as bases sociais e o compromisso e disponibilidade para debater ideias com o povo. Mobilizados por essa perspectiva, desde fevereiro de 2016, viemos nos dedicando à tarefa de discutir e formular o conteúdo programático de um projeto nacional, democrático e soberano, que represente uma oportunidade de construção de uma nova hegemonia de forças construída a partir do diálogo junto ao povo brasileiro.

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Como dito anteriormente, não partimos do zero. Há acúmulos de diversos setores construídos ao longo da história. O projeto de país que estamos construindo deve expressar esses acúmulos e reflexões.

Fundamentalmente, nos propomos a construir um projeto para o Brasil que aponte para a superação de todas as formas de desigualdades, exploração e falta de liberdades. Portanto, um projeto que promova rupturas com o passado escravocrata, colonial, patriarcal, ditatorial, antipopular e que responda a um presente de crise no qual essas dimensões estruturais da exploração, dominação e opressões se intensificam.

Acreditamos que a melhoria das condições objetivas de vida do povo brasileiro depende de um modelo de desenvolvimento econômico, político, cultural e ambiental capaz de distribuir igualitariamente as riquezas e a renda gerada por toda a sociedade, além de orientar como serão tratados nossos bens públicos. As bases para a construção desse projeto popular para o Brasil estão alicerçadas na construção de um novo Estado orientado por novos paradigmas.

Dessa forma, reafirmamos que há a necessidade de, durante o processo de formulação do projeto, construirmos referências de valores e princípios capazes de contribuir para análise crítica da complexidade do presente e enunciar o futuro inédito que queremos compartilhar. Essas referências fundamentais sobre as quais serão assentadas as bases do nosso projeto de sociedade são os nossos paradigmas, capazes de exprimir as referências estruturantes da sociedade que queremos construir. Definimos os seguintes paradigmas que guiam nossas reflexões:

O que

queremos?

Vida Boa para todos/as ou Bem Viver: compreendemos o ser humano em sua integralidade e afirmamos que a vida deve ser vivida em todas as suas dimensões, por isso, devemos orientar as formas de produção dos bens, a reprodução social e os bens públicos para garantir a qualidade de vida de todos/as. Quanto ao Estado, ele deve atuar para proporcionar ao povo uma vida que valha a pena ser vivida. Isso se vincula à garantia do exercício de um conjunto de direitos, mas também a uma outra forma de organizar a produção, a reprodução e o consumo. Bens comuns: prezamos pela garantia e soberania dos bens

compartilhados pelas comunidades. A natureza, o ar, a água, a cultura, a linguagem, os conhecimentos tradicionais e o patrimônio histórico, assim como a própria comunidade em que nos inserimos, são bens comuns e, em conjunto, sustentam a vida humana. Ao contrário do que afirma o ideário de atribuição de valor capitalista, os bens comuns têm seu valor medido pelos benefícios que produzem ao coletivo e sua preservação não deve estar condicionada ao retorno financeiro, mas sim ao compromisso de uso comum a longo prazo.

Igualdade e diversidade: buscamos superar as condições de opressão e engendrar novas relações sociais entre as pessoas e os povos. No Brasil, a desigualdade é um componente histórico e estrutural, que tende a reproduzir novas formas permanentes de exclusão e discriminações. O enfrentamento à desigualdade tende a encontrar resistência de uma parte da sociedade, mas não é possível caminhar na perspectiva de transformar a sociedade sem enfrentar todas as dimensões desse problema: desigualdade econômica, regional, cultural, racial, de gênero, de conhecimento, de acesso a serviços sociais de qualidade, divisão social e sexual do trabalho etc. A construção da igualdade é uma referência para a formulação de um projeto para o país que deve passar pela defesa de políticas que contribuam para o combate das exclusões, discriminações e as fontes de produção e reprodução das diferenciações sociais e econômicas.

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11 Democracia, participação e autonomia: trabalhamos a partir da

compreensão de sentido público do Estado, retirando-o da condição de mero prestador de serviços para o povo, mas como um garantidor de direitos, comprometido com a autodeterminação dos povos, com o respeito à diversidade e com papel ativo na construção de uma sociedade igualitária.

Soberania nacional e desenvolvimento: apontamos um caminho para o desenvolvimento no qual a distribuição da riqueza seja justa e onde os compromissos sociais não se submetam à lógica da economia de mercado. A soberania nacional é compreendida como a garantia de autodeterminação do conjunto do povo brasileiro para escolher e decidir sobre seu próprio destino. Ao propor também o desenvolvimento como eixo paradigmático, queremos afirmar a necessidade de desenvolver as forças produtivas em um país periférico, respeitando, porém, o meio ambiente e proporcionando condições dignas de vida a todos e todas. Esses paradigmas são referências para os debates dentro dos GTs, dos eixos e do Projeto como um todo. Os GTs, porém, a partir de uma perspectiva cíclica de construção, devem ao mesmo tempo em que partem desses paradigmas para construir propostas, enriquecê-los com novas formulações. Através deles buscamos reafirmar a generosidade humana do projeto que propomos e seu esforço permanente em afirmar e resgatar os valores humanistas que orientam a busca da emancipação e da libertação do ser humano das mais variadas formas de opressão e alienação.

Partimos de um contexto histórico que demanda um debate de projeto de país, o que se torna ainda mais urgente diante da gravidade da crise e do desmonte da nação. Entendemos que a burguesia não possui um projeto nacional e utiliza o contexto de crise econômica para provocar instabilidade política e impor um projeto neoliberal que atualmente ganha contornos ainda mais agressivos e autoritários. Diante disso, é tarefa primordial da esquerda se debruçar na elaboração de um projeto popular para o país.

O método de construção desse projeto, portanto, é tão importante quanto o resultado. Entendemos que o programa só cumprirá sua função se for uma produção coletiva que combine conhecimento científico e militância social. Só assim será ampliada nossa capacidade de mobilização: considerando o povo como protagonista das mudanças. Por isso, devemos constantemente cotejar com a realidade as nossas reflexões, interpretar as contradições e a partir delas formular novas propostas. O método com o qual nos propomos a trabalhar é coletivo, dialógico e dialético, capaz de envolver diversos setores, conjugando especificidades e especialidades, temas, regiões, naturezas diversas dos sujeitos, colocando em diálogo perspectivas mais gerais e mais específicas.

O processo de construção será contínuo, partindo da produção de sínteses que serão aprofundadas, gerando a construção de novas sínteses. Temos desafios importantes: 1 | produzir um projeto de nação; 2 | transformar esse projeto em um instrumento do processo político pedagógico que estimule nosso povo a debater, criticar e formular novas questões; 3 | formular sínteses coletivas a partir desse acúmulo e criar força social em torno dessas propostas. Nesse sentido, esse é um processo contínuo no tempo e na sua intencionalidade, um processo permanente de disputa de hegemonia na sociedade brasileira.

Método de construção

do projeto

(7)

Atualmente, possuímos 31 grupos de trabalho temáticos (GTs) que possuem a tarefa prioritária de refletir sobre temas estratégicos para a formulação de um projeto. Esses grupos são constituídos por intelectuais e acadêmicos comprometidos com o desenvolvimento do país; militantes dos movimentos populares que trazem o acúmulo de propostas de cada organização; e trabalhadores com experiência em gestão de políticas públicas e com conhecimento em diversas áreas. Os GTs debatem e formulam propostas de modo a obter uma elaboração programática que possa posteriormente ser discutida pela sociedade, buscando com isso agregar força social e apontar para as bases de um projeto de país.

Além dos GTs, foram estabelecidos Eixos Temáticos. A discussão em eixos objetiva potencializar a transversalidade dos temas e garantir que os documentos produzidos por eles tenham unidade programática. O Eixo Temático realiza a síntese integrada dos debates realizados pelos GTs, sendo o espaço prioritário de sistematização e aprofundamento de propostas e pontos divergentes.

Não devemos ter a pretensão de dar solução para tudo, muito menos em nome de todos e todas, mas buscaremos agir em torno de um esforço coletivo e intelectual, para formular um projeto que sirva como referência para as lutas sociais e para o pensamento crítico brasileiro.

Somar-se ao Projeto Brasil Popular é vislumbrar a esperança de construção coletiva das condições que irão possibilitar ao Brasil ser um país mais justo, soberano e democrático.

Direitos

Cidade Cultura Educação Esporte Religião, Valores e Comportamento Saúde Coletiva

Economia,

Desenvolvimento e

Distribuição de Renda

Agricultura Biodiversidade e Meio Ambiente Amazônia

Ciência, Tecnologia e Inovação Demografia e Migrantes Desenvolvimento Regional Economia Energia e Petróleo Financeirização Mineração Reforma Tributária

Seguridade Social e Previdência Semiárido

Trabalho, Emprego e Renda Transportes e Logística

Eixos e Grupos de

Trabalhos Temáticos

Estado, Democracia

e Soberania Popular

Democratização da Justiça e Direitos Humanos Estado, Democracia, Participação Popular e Reforma Política Federalismo e Administração Pública Sistemas de Comunicação Relações Internacionais, Integração Regional e Defesa

Segurança pública

Igualdade, Diversidade

e Autonomia

Igualdade Racial e Combate ao Racismo Juventude LGBTI+ Mulheres Povos Indígenas

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15 A presente proposta está em permanente elaboração, no entanto, buscamos

apresentar aqui sinais balizadores importantes para o atual momento histórico de construção de um Projeto Popular para o Brasil. O presente documento expressa o acúmulo das discussões realizadas, mas que continuam em aberto para novas formulações e debates.

Objetivo

A discussão de paradigmas tem a finalidade de estabelecer referências para a construção de um Projeto para o Brasil. Entendemos que as formulações teóricas e as elaborações programáticas dos movimentos sociais fornecem as bases para um programa coerente e coeso que corresponda às necessidades deste momento histórico tão desafiador.

A construção de uma sociedade fundada na justiça social, na igualdade, na liberdade, na diversidade, e organizada com base na democracia, no Estado de Direito, na sustentabilidade e na soberania, requer um projeto capaz de reunir as forças sociais, econômicas, políticas e culturais, mobilizando-as para uma longa empreitada de profundas transformações.

Nesse sentido, há um esforço permanente para dar conteúdo ao projeto, formulando novas referências que sejam capazes de orientar o movimento de construção e as lutas pela transformação social. Para tal, apostamos no diálogo e no debate entre movimentos sociais, intelectuais e acadêmicos que se dedicam a pesquisar, refletir e atuar sobre a realidade brasileira, propondo soluções para seus problemas históricos.

Paradigmas

do Projeto

Brasil Popular

O futuro é inédito e está para ser construído e reconstruído de forma permanente. Projetar esse futuro e construí-lo no presente, por meio dos processos de luta, requer ferramentas capazes de dar conteúdo àquilo que podemos denominar de nossa utopia: a sociedade que queremos construir.

A compreensão de paradigma

Utilizamos os paradigmas para indicar que há a necessidade de, durante o processo de formulação, adotar referências, princípios, sensibilidades, noções mestras e conceitos capazes de analisar criticamente a complexidade do presente e enunciar o inédito futuro que queremos construir. Essas referências fundamentais sobre as quais serão assentadas as bases do nosso projeto de sociedade são os nossos paradigmas.

Insuficiência das elaborações

teóricas e práticas sociais:

abertura para o novo.

Pensar em paradigmas na perspectiva de construir um projeto inédito, nos desafia a partir do pressuposto da insuficiência do que estamos produzindo e da necessidade de incluir novas dimensões na nossa práxis teórica e social, levando em conta as elaborações e experiências já adquiridas na nossa caminhada pela transformação social.

Crise civilizacional

A construção de um projeto para o país apresenta como pressuposto a visão de que estamos vivendo um momento de crise civilizatória, em que as bases da organização social estão colocadas em xeque, o que abre espaço para a formulação e disputa de novas perspectivas para uma revolução de nossos paradigmas de sociedade, “em toda a constelação de opiniões, valores e métodos participados pelos membros de uma sociedade, fundando um sistema articulado mediante o qual a sociedade e o conjunto de suas relações se orienta e se organiza”, como aponta Leonardo Boff. Isso implica em uma

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crítica radical ao tipo de civilização existente e a criação de novos sonhos, novos valores, novos comportamentos, novas sensibilidades, novas relações, formas novas de ver, pensar e agir sobre o mundo. Disso nasce, se constrói e se disputa um novo paradigma.

Nosso desafio é transformar os paradigmas em soluções concretas para os problemas da sociedade brasileira, práticas exemplares que superem as antigas e se tornem ideias aglutinadoras da esperança de transformação social. Para isso, faz-se necessário reinventar um novo modo de estar no mundo, criar novas formas de gerir o Estado e as relações sociais e econômicas, o que implica novas formas de produzir, distribuir, consumir, habitar e conviver. É importante construir progressivamente as bases para uma sociedade que esteja em sintonia com os ritmos e limites da natureza. Os paradigmas indicam duas dimensões combinadas: como progressivamente melhorar a vida das pessoas, mas também apontar transformações mais profundas que busquem superar o capitalismo e construir uma nova sociedade.

Os eixos estruturantes

dos paradigmas

A construção de uma sociedade sustentável exige superar as desigualdades econômicas, políticas e sociais e incorporar a cidadania na forma de participação popular no exercício da democracia, bem como o respeito às diferenças culturais e a consolidação de valores éticos de respeito à vida em suas múltiplas expressões.

Os paradigmas que elegemos como norteadores para construção do projeto são:

1 | Vida boa para todas e todos 2 | Bens comuns

3 | Igualdade e Diversidade

4 | Democracia, Participação e Autonomia 5 | Soberania e Desenvolvimento

1 | Vida boa para todos

Nos inspiramos aqui em nossos irmãos andinos e o buen vivir ou, como afirmam algumas economistas feministas, “uma vida que valha a pena ser vivida”. Trata-se de garantir o exercício de um conjunto de direitos, mas também uma outra forma de organizar a produção, a reprodução e o consumo. Toda a prática social e as formulações políticas precisam contribuir para geração de qualidade de vida em todas as suas dimensões. Para tanto, é necessário inverter o modelo de produção centrado no lucro, que acumula riqueza nas mãos de poucos e condena milhões de pessoas à miséria. As perguntas chave são o que, como, para que e para quem produzir? E mais: como organizar a reprodução da vida, de modo que seja compartilhada entre homens e mulheres, e que esteja no centro um modelo econômico, político e social que coloque a sustentabilidade da vida como primordial?

É fundamental atuar aqui e agora para estabelecer um processo de transição para o novo modelo. A transição nos impõe a urgência de limitar o extrativismo e combater a mercantilização da vida. Isso implica realizarmos mudanças na produção como, por exemplo, privilegiar o transporte coletivo em detrimento do individual, adotar a agroecologia em vez da agricultura industrial, investir na durabilidade dos produtos, contrapondo-se à estratégia da obsolência programada, criar políticas para o cuidado que reorganizem espaços e promovam ações coletivas e comunitárias, promovendo a cultura da suficiência.

Uma vida boa para todos e todas almeja que todos possam ter acesso à integralidade dos benefícios construídos pela humanidade, gerando o desenvolvimento de um conjunto de potencialidades, criatividade, relações prazerosas e de satisfação das necessidades.

2 | Bens comuns

São aqueles que uma comunidade ou uma população compartilham e aos quais todos e todas têm acesso, sem que sejam propriedade privada. A natureza (ar, água), a cultura (linguagem, conhecimentos tradicionais patrimônio histórico), e a própria comunidade em que nos inserimos, seja o

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19 espaço físico, seja a internet, são bens comuns e, em conjunto, sustentam a

vida humana.

Ao contrário do que afirma o capitalismo, os bens comuns têm mais valor quanto mais abundantes são. Seu valor não é medido de forma financeira, mas pelos benefícios que produzem, e sua preservação não depende do retorno financeiro, e sim do compromisso comum de longo prazo.

Há uma urgência em reconectar as esferas da produção, reprodução e consumo, separadas pelo capitalismo. Essa reconexão é que nos propiciará as transformações necessárias em nosso cotidiano para atuar em termos de recuperação e produção dos bens comuns.

3 | Igualdade e Diversidade

A produção da desigualdade é intrínseca ao capitalismo. Quando mais o mercado é “livre” e “autorregulado”, maior tende a ser a desigualdade que produz. Atualmente, o 1% mais rico acumula a mesma quantidade de riqueza dos 50% mais pobres. No Brasil, a desigualdade é um componente histórico e estrutural que tende a reproduzir novas formas permanentes de exclusão e discriminação. É uma desigualdade que atravessa a sociedade, encontrando respaldo político em segmentos médios e ricos da sociedade. O enfrentamento da desigualdade tende encontrar resistências, mas não é possível caminhar na perspectiva de transformar a sociedade sem enfrentar todas as dimensões da desigualdade: econômica, regional, cultural, racial, de gênero, de conhecimento, acesso a serviços sociais de qualidade, divisão social e sexual do trabalho etc. A construção da igualdade é uma referência para a formulação de políticas de um projeto para o país que empregue políticas que combatam as exclusões, discriminações e as fontes de produção de diferenciações sociais e econômicas. É também fundamental defender a democratização do conhecimento e da cultura, em todas as suas expressões, na perspectiva de todas e todos terem acesso a eles.

O capitalismo e o patriarcado são parte de um único sistema que estrutura as relações sociais com base na exploração, na opressão e no racismo. A contraposição a esse modelo deve articular necessariamente a dimensão de:

classe, relações sociais entre gêneros e raças como condição para superar as relações de dominação impostas pelo capitalismo. A desmercantilização, a superação da divisão sexual do trabalho e a solidariedade são elementos centrais para a construção de práticas que respeitem a autonomia e a liberdade de todas as pessoas.

O Brasil possui altas taxas de violações de direitos humanos, entre os quais destacamos o genocídio da juventude negra, dos povos indígenas, e a violência patriarcal contra mulheres e meninas (incluindo femicídios, violações, abusos sexuais e assédios de diferentes tipos), e contra a população LGBTI+. A isso se soma a não representação política desses setores da população. Há ainda índices alarmantes de tráfico de pessoas, em particular de mulheres, geralmente para fins de exploração sexual.

As profundas e enraizadas hierarquias na sociedade brasileira exigem um compromisso prioritário com o desmantelamento desses sistemas de opressão e que não passa apenas por uma questão de classe, embora seja necessário considerar essa imbricação e consubstancialidade das relações sociais.

Nosso princípio é que a ampliação e distribuição da riqueza é um meio para viabilizar uma vida boa para todos e todas, diminuindo progressivamente todos os tipos de desigualdades, opressões e discriminações sociais; por isso, a questão do direito à igualdade necessita ser articulada com a diversidade.

4 | Democracia, Participação e Autonomia

A participação popular ativa e a democratização do Estado estão vinculadas à força dos movimentos e organizações populares. Considerando as múltiplas opressões na sociedade brasileira, é de fundamental importância a organização de diversos sujeitos coletivos em nossa sociedade. Essa organização que responda à diversidade de problemáticas deve criar sinergia para a definição de um projeto integral que rompa com as fragmentações e hierarquias internas da classe trabalhadora.

Só com uma organização enraizada e que dê protagonismo a um conjunto de setores invisibilizados pelo silêncio e exclusão é que se garantirá, nas práticas concretas, a democratização da sociedade, a recuperação e

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construção dos bens comuns, o enfrentamento das elites e a construção de um posicionamento emancipador e libertário.

Entendemos também que há de se combater a concentração dos meios de comunicação em mãos de poucos grupos econômicos, e afirmamos a urgência de uma ampla democratização da comunicação, que passa por garantir a neutralidade e liberdade dos fluxos de informação na infraestrutura das comunicações e de internet, portanto, pelo combate à lógica capitalista da propriedade intelectual. Ademais, partindo do princípio de que o conhecimento liberta as pessoas, é necessário democratizar a cultura e o conhecimento.

Precisamos recuperar o sentido público, inclusive do Estado. Queremos um Estado que realmente seja capaz de garantir nossos direitos e esteja a serviço da sociedade e do povo, exercendo seu poder e sua gestão de forma democrática, transparente e com participação popular. Um Estado comprometido com a autodeterminação dos povos, que respeite a diversidade e seja ativo na construção de uma sociedade igualitária.

Isso implica um papel ativo no âmbito internacional que promova a integração dos povos. As políticas entre os países devem basear-se nos princípios da solidariedade, reciprocidade e redistribuição.

Nesse sentido, seguimos com nossa luta pela desmilitarização e questionamos o papel do poder econômico em intervenções militares realizadas em nome do controle de territórios ricos em bens naturais.

Quando falamos em autonomia, incluímos também o respeito às formas de organização populares dos povos indígenas, quilombolas, pescadores, e outras comunidades.

5 | Soberania e Desenvolvimento

Soberania Nacional é a garantia de autodeterminação do povo brasileiro para escolher e decidir sobre seu próprio destino. Defendemos uma ideia de emancipação na qual o povo decide os rumos e defende seu território e bens comuns.

Não é possível pensar um projeto para o Brasil sem ter como fundamento a soberania sobre o território e suas riquezas naturais com a garantia militar de sua defesa, a autodeterminação política da Nação, incluindo sua produção científica e tecnológica e a plena governabilidade sobre a própria economia. As soberanias energética e alimentar também são basilares em termos políticos e econômicos.

Propor desenvolvimento como eixo paradigmático significa afirmar a necessidade de desenvolver as forças produtivas em um país periférico, respeitando a sustentabilidade ambiental, e proporcionando condições dignas de vida a todos e todas. Deve ser um desenvolvimento pluridimensional, altamente diversificado, fortalecendo os setores que possam atender as necessidades da população e as estratégias da Nação. Um desenvolvimento que garanta qualidade de vida, inclusive possibilitando que os ganhos tecnológicos sejam redistribuídos entre todos, a fim de que as pessoas possam ter tempo para viver todas as dimensões da vida para além do trabalho. Precisamos também ter no horizonte a superação progressiva do assalariamento e a garantia de uma renda básica para todas as famílias, independente da ocupação e do tempo dedicado ao trabalho.

Afirmação dos Valores Humanistas

Nunca é demais afirmar a valorização e o cultivo da generosidade humana em nosso projeto e seu esforço permanente em afirmar e resgatar valores humanistas que orientem a busca pela emancipação e libertação do ser humano das mais variadas formas de opressão e alienação. A busca pela igualdade, liberdade, solidariedade, respeito, pluralidade, sororidade, fraternidade, dignidade, respeito a todas as formas de vida proteção na infância e velhice serão valores com força vital a orientar permanentemente o esforço de construir um Projeto Popular para o Brasil.

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INTRODUÇÃO

A democratização da justiça e dos direitos humanos tem seus princípios na Constituição Federal de 1988, que prevê a proteção a direitos individuais e coletivos, baseados nos princípios da cidadania, soberania popular, promoção do bem de todos sem discriminação de qualquer tipo, promoção dos direitos humanos e direitos sociais. A Constituição trata a justiça como tema amplo que não apenas envolve as pretensões – individuais e coletivas – levadas ao judiciário, mas a promoção de políticas públicas que ajudem a construir uma sociedade livre, justa e solidária.

A estrutura política brasileira se divide entre o poder de criação das leis (legislativo), o poder de executá-las (executivo) e de julgar a aplicação das leis (judiciário). A importância do judiciário se funda, portanto, nessa relação com os outros poderes, segundo as premissas do Estado Democrático de Direito.

A função do sistema de justiça na distribuição de direitos é decisiva, uma vez que cabem aos seus órgãos (magistratura, ministério público e defensorias públicas), além da advocacia, a disputa pela interpretação das leis. Ou seja, a função mais importante na democratização da justiça e na promoção dos direitos humanos é daqueles agentes do Estado a quem cabe dizer qual o sentido em que a lei deve ser aplicada, seja no caso de limitar a atuação do Estado, seja no caso de avaliar políticas públicas ou mesmo obrigar o Estado a agir.

Mas a função democrática de julgar a adequação dos atos políticos (do legislativo e do executivo) à Constituição Federal cabe ao único poder político da República que não possui qualquer instrumento de controle democrático. Assim, sua tarefa de arbitrar conflitos de acordo com regras

DEMOCRATIZAÇÃO

DA JUSTIÇA E

DIREITOS HUMANOS

democráticas predefinidas, sua mediação entre os diferentes grupos sociais, e destes contra o Estado, revela-se, no mínimo, problemática.

DIAGNÓSTICO

A estrutura do sistema de justiça brasileiro blinda o poder judiciário, o que entra em contradição com os princípios da democracia e da soberania popular. O operador do Direito tende a interpretar a lei de acordo com sua própria visão de mundo. Mas se a decisão judicial constitui um exercício de poder político, é necessário proteger as decisões não apenas da visão de mundo de quem interpreta a lei, como também do risco de interpretações que apenas reproduzam a ordem econômica e política. Daí a importância de que os operadores do Direito obedeçam à estruturas democráticas de gestão do poder judiciário.

O que se vê, entretanto, de forma geral, é um compromisso ideológico entre o judiciário e a ordem estabelecida. A justiça acaba por tornar-se mais um instrumento da clastornar-se social hegemônica para reproduzir as desigualdades. Temos, nesse sentido, um sistema de justiça marcado pela confusão entre o público e o privado, onde o Estado é visto como um bem pessoal, um “patrimônio” daqueles que historicamente utilizam o poder para fins particulares. Algo que a Operação Lava Jato nos confirma de maneira exemplar.

A desproporção do poder judiciário em relação aos outros poderes da República se ancora no modelo de garantia de livre opinião do intérprete da lei desenhado pela Constituição de 1988, no contexto da redemocratização. Tal modelo deu à magistratura e ao Ministério Público um desenho político-institucional flagrantemente individualista e desvinculado de qualquer controle democrático.

Uma vez selecionados por concurso público, os agentes da justiça submetem-se exclusivamente ao controle de um pequeno grupo dentro de suas instituições, geridas pelos interesses das elites. Curiosamente, as corregedorias ainda se baseiam em lei anterior à redemocratização, a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), de 1979.

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Quanto à política de gestão do judiciário, é seguido um modelo no qual o critério de antiguidade é fundamental para manter os mais velhos como líderes responsáveis pela conservação de privilégios concentrados nas cúpulas (presidência e corregedoria) dos Tribunais de segunda instância. A falta de mecanismos democráticos garante a concentração do poder político nos concursos para ingresso na carreira, nas promoção de membros para os tribunais, nos processos disciplinares e na remoção e transferência de membros pouco alinhados com a gestão oligárquica.

Outro ponto é a falta de controle sobre o orçamento do judiciário que, em 2015, foi de R$ 79,2 bilhões (1,3% do PIB, e 2,6% das despesas da União). Pesquisas estimam que 70% dos juízes e procuradores ganham acima do teto constitucional.

Os altos salários de membros concursados do judiciário muitas vezes são justificados por meio do argumento da meritocracia, entretanto, é importante lembrar que os concursos públicos selecionam indivíduos em uma base já elitizada da sociedade devido ao sistema educacional historicamente excludente no Brasil. À desigualdade no acesso combina-se a tendência da classe média de se acomodar, depois de concursada, a um estilo de vida que pouco considera a desigualdade social brasileira. O critério meritocrático reforça a mentalidade individualista da cultura judiciária, tendencialmente descompromissada com os direitos humanos.

Assim, toda a cultura jurídica nacional deve ser problematizada, desde a formação elitizada ao recrutamento meritocrático das carreiras do sistema de justiça. A visão de acordo com os interesses de classe está na base do mito da neutralidade ideológica do direito. A ideologia da imparcialidade jurídica encobre, em vez de explicitar, as motivações dessa ponderação e a sua necessidade.

A composição da oligarquia judiciária evidencia a reprodução de desigualdades históricas. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 84% da magistratura é branca; na primeira instância cerca de 63% são homens, índice que aumenta para 80% nos tribunais de segunda instância e para cerca de 89% nos superiores.

O modelo de ascensão da magistratura e a indicação para os tribunais de segunda instância e superiores é historicamente condicionado por dois fatores: (1) os pequenos grupos de gestão da instituição tem o poder de indicar os nomes da lista tríplice a ser apresentada aos governadores e Presidente da República (que, no caso do STF faz a indicação livremente quando um ministro se aposenta, já que se trata de cargo vitalício); (2) a tendência ao fisiologismo político-partidário característico dos governos de coalizão no loteamento dos cargos da justiça, o que é ainda mais sensível pelo fato de que se tratam de cargos vitalícios e de desproporcional poder de interferência sobre questões políticas, econômicas e sociais.

No que diz respeito à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), deve ser problematizada a gestão política aliada à lógica de mercado, tanto no ingresso de seus membros nos tribunais, quanto nas campanhas para a Presidência da entidade. Tais fatores contribuem para o distanciamento de pautas sociais, sobretudo aquelas vinculadas à desigualdade histórica da sociedade brasileira.

A justiça só se legitima por meio da democratização de direitos, uma vez que a dimensão essencial da democracia está não apenas em garantir direitos já existentes, mas em promover as condições para a sua efetivação através de políticas e de serviços públicos. Essa tarefa ressalta o poder político do judiciário, sobretudo quando confrontado com demandas sociais excludentes, inconciliáveis do ponto de vista do bem comum, devendo posicionar-se para compensar desigualdades históricas. O confronto entre a justiça social e a legalidade estrita é a condição para a democratização da justiça e para a promoção dos direitos humanos.

Há, ainda, um tema extremamente relevante relativo à democratização da justiça no Brasil: a crítica à estrutura, formação, atuação e independência das polícias (sobretudo a independência da Polícia Federal, muitas vezes decisiva para a investigação de casos envolvendo poderes políticos e econômicos). A ideologia que defende a repressão policial está em total contradição com os direitos humanos, e o controle institucional de condutas abusivas cometidas por seus agentes está longe de prevenir a repetição de abusos de poder.

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27 Essa ideologia reforça os estigmas contra grupos socialmente vulneráveis.

A violência contra eles é banalizada, sempre legítima e justificável, mesmo quando a ação da polícia é flagrantemente ilegal. A manipulação do medo faz do suposto combate à violência um combate às próprias populações vulneráveis consideradas como responsáveis pela violência estrutural de que são vítimas. Assim, por exemplo, a violência da falta de moradia é transformada, pelo discurso hegemônico, em criminalização dos movimentos sociais que lutam por habitação.

PROPOSTAS

1 - Controle social sobre o judiciário e soberania popular

Implementar mecanismos de participação e controle social na estrutura institucional através da criação de Conselhos de Controle Externo da Justiça com efetiva participação social, superando o modelo de controle interno e corporativo instituído pelo CNJ (onde a presidência e 9 dos 15 integrantes são membros do judiciário) e CNMP (onde a presidência e mais 7 dos conselheiros são membros do MP).

Implementação de ouvidorias-externas em todas as instituições de justiça e segurança pública, ocupadas por membros externos à respectiva carreira, com mandato eletivo por indicação da sociedade civil organizada, com poderes de escuta e assento nos órgãos de gestão das instituições do sistema de justiça, inclusive OAB.

As instituições do sistema de justiça devem se aproximar da sociedade civil organizada e estarem a serviço da população, buscando reconhecimento de sua legitimidade social, com o fomento da capacitação e do empoderamento da sociedade civil para a elaboração de experiências comunitárias de gestão e solução restaurativa de conflitos, incluindo a transferência de recursos financeiros.

A democratização nos processos de acesso às carreiras da justiça, incluindo o expediente das cotas como política de ação afirmativa; e a flexibilização de critérios antidemocráticos nas carreiras do sistema de justiça.

2 - Mudanças nos Tribunais

A instituição de mandatos para a composição dos Tribunais, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF).

Transformação do STF em Corte Constitucional, retirando o seu caráter de instância recursal, priorizando-se desse modo a decisão sobre questões estratégicas de relevância política.

Atualização da Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) com participação social, instituindo a eleição dos gestores da máquina jurisdicional (presidência de Tribunais, órgãos de direção e corregedorias) com a participação da magistratura de primeira instância e dos servidores da justiça.

Participação social nos procedimentos de indicação de membros da advocacia e do Ministério Público para os tribunais, sem prejuízo da criação de critérios eleitorais.

Dissociação entre processos de seleção de ingresso e promoção, e a gestão dos tribunais (presidência e corregedoria), transferindo-se funções para órgãos como Conselhos Sociais de Justiça, com a participação da sociedade civil, a fim de democratizar a justiça e desconcentrar o poder.

3 - Mudanças nos critérios de ingresso nas carreiras do sistema de justiça

Valorização de projetos de superação do modelo meritocrático, seja com a eleição de juízes e promotores, seja com a valorização de outros critérios complementares ao atual modelo, como a participação da sociedade civil nos critérios de recrutamento.

Expansão das cotas e políticas de ação afirmativa para o ingresso e ascensão nas carreiras do sistema de justiça.

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4 - A criação de órgãos externos de controle

Implementação de mecanismos de participação e controle social do Judiciário, como a constituição de Conselhos de Controle Externo da Justiça, superando o modelo de controle corporativo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), composto por membros do Judiciário, e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), composto por membros do Ministério Público.

Implementação de Ouvidorias Externas em todas as instituições do sistema de justiça, ocupadas por membros da sociedade civil organizada com mandato eletivo, com participação nos órgãos de gestão do sistema de justiça, incluindo a OAB.

Participação social nos procedimentos de indicação de membros da advocacia e do Ministério Público para os tribunais, sem prejuízo da criação de critérios eleitorais.

Abertura da gestão e dos currículos das escolas da Magistratura, do Ministério Público e da Defensoria Pública para o controle social mediante o Conselho de Composição Social e a Ouvidoria Externa.

5 - A especialização da jurisdição de conflitos coletivos

Estabelecimento de órgãos especiais de justiça ligados às causas de conflitos coletivos e à proteção dos direitos humanos. Tais órgãos atuariam em diálogo com a sociedade, procurando compor seus conflitos, valorizando a informalidade, multidisciplinariedade e a simplificação de procedimentos como estratégia de aproximação da justiça da realidade social, tornando-a mais acessível à compreensão da população, e respondendo a demandas de violação de direitos humanos.

6 - Mudanças legislativas

Reconhecimento das jurisdições indígenas, quilombolas e tradicionais com vistas a sua autonomia, com o fomento de projetos comunitários de justiça restaurativa, com a transferência de recursos estatais.

Implementação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade sobre o sistema de justiça, como a revogação de leis que contribuem para a criminalização dos movimentos sociais, como a Lei de Organizações Criminosas e a Lei Antiterrorismo.

7 - O aperfeiçoamento de balizamentos às contrapartidas ao exercício da função de interesse público nas carreiras do sistema de justiça

Vedação de remuneração que exceda o teto constitucional, independentemente da do tipo de remuneração acumulado na função.

Criação de impedimentos para agentes que exerçam cargos de governo, com a quarentena após a saída dos Tribunais.

Vedação aos patrocínios de eventos de associações de carreira e de instituições do sistema de justiça por empresas.

Regulamentação sobre a acumulação de cargos, com a proibição do recebimento de honorários paralelos à carreira jurisdicional.

Regulação das campanhas para o quinto constitucional e para a Presidência da OAB, para que sejam imunizadas contra a mercantilização de tais funções de interesse público.

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31

INTRODUÇÃO

A Constituição Federal de 1988 é a lei fundamental do país e serve como parâmetro de validade a todas as demais espécies normativas. Ela declara como objetivos: “construir uma sociedade livre, justa e solidária”, garantir o desenvolvimento nacional”, “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”, “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, etnia, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. E que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”.

Vivemos formalmente em uma democracia. Entretanto, faz mais sentido pensá-la como um processo, uma vez que as circunstâncias políticas, institucionais e históricas determinam as possibilidades democráticas reais e a efetividade da representação dos interesses populares.

Defendemos que o aprofundamento democrático só pode ser real e efetivo com a democratização dos espaços públicos de decisão. O processo de aprofundamento democrático deve enfrentar as desigualdades e a exclusão, promover a diversidade e fomentar a participação cidadã. Somente por meio dele será possível fazer com que o Estado trabalhe em defesa do interesse público.

DIAGNÓSTICO

A democracia grega, forma de governo que começou a se desenvolver em Atenas, em meados do século VI a.C., teve como fenômeno absolutamente

ESTADO, DEMOCRACIA,

PARTICIPAÇÃO POPULAR

E REFORMA DO

SISTEMA POLÍTICO

original a separação entre o exercício do poder político e a propriedade da riqueza. A participação popular no regime foi decisiva, por exemplo, para manter a propriedade fundiária limitada e para impedir a escravidão por dívidas. O aprofundamento dessa relação – ampliação do poder político e defesa dos interesses dos mais pobres – caracteriza o processo de afirmação permanente da democracia desde suas origens.

Pensar assim significa, evidentemente, deixar em segundo plano a concepção liberal da democracia, que é fundada na ideia da separação entre as massas e o exercício do poder (democracia representativa) e na manutenção por lei, por meio do poder judiciário e do monopólio da violência pelo Estado, de um conjunto de garantias e privilégios econômicos e sociais.

Fundamentalmente, a democracia se faz sentir nas sociedades capitalistas ocidentais com base na combinação entre voto universal e direitos sociais. Ou seja, a combinação da ampliação da participação política com a construção de mecanismos de proteção dos trabalhadores contra a superexploração por parte do capital.

No Brasil, esse processo de construção da democracia vem sendo marcado por avanços e recuos. Ele esteve no centro das disputas sociais que culminaram no golpe de 1964 e ganhou forte impulso a partir do final da década de 1970, quando um amplo conjunto de movimentos transformou o tema da participação política em um elemento central na luta contra a ditadura militar e nas reivindicações sociais que se seguiram.

A democracia participativa e/ou democracia direta tornou-se um dos fundamentos constitutivos desses movimentos. Desde os anos 1980, sobretudo em prefeituras de cidades governadas pelo Partido dos Trabalhadores e seus aliados, foram adotadas diferentes formas de consulta e participação popular, como o orçamento participativo. Mais tarde, ações do Governo Federal nas gestões de Lula e Dilma, como as conferências nacionais, cumpririam papel semelhante, ainda que com poder de decisão reduzido.

Por outro lado, o projeto neoliberal só poderia ser implementado por meio da redução da democracia. No Brasil, podemos citar como exemplos desse cerceamento: a Lei de Responsabilidade Fiscal – de 2000, lei que condiciona

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os gastos de todos os entes federativos à sua capacidade de arrecadação de tributos; a autonomia operacional do Banco Central; a Emenda Constitucional 95 – aprovada sob Michel Temer, que limita o crescimento das despesas do governo brasileiro durante 20 anos.

Apresentadas como formas de proteção da política macroeconômica e da política monetária contra “possíveis excessos” dos representantes eleitos pelo voto popular, essas ferramentas reduzem na prática os espaços democráticos que haviam sido conquistados em décadas anteriores e que estão previstos na Constituição. Essas restrições legais evidenciam a necessidade de impedir que a vontade popular interfira no gerenciamento da macroeconomia, uma vez que os interesses populares (ampliação e qualificação do SUS e da educação, por exemplo) entram em conflito direto com os interesses das elites econômicas.

Depois dos avanços observados durante os anos dos governos populares, o momento atual trouxe um retorno ao processo de fechamento dos espaços de influência democrática sobre a distribuição da riqueza.

Nesse contexto, o avanço de um projeto democratizante para o Estado brasileiro deve ocorrer em dois movimentos estratégicos distintos e combinados. O primeiro é reativo, voltado para a preservação dos elementos democráticos presentes no arcabouço institucional existente, e o segundo movimento é afirmativo, visando retomar a pauta democrático-participativa construída pelos movimentos sociais dos anos 1970 aos 1990 e a combater as iniciativas antidemocráticas posteriores à aprovação da Constituição de 1988. Esses dois movimentos podem e devem ocorrer de maneira combinada e articulada, no mesmo período de tempo, levando em conta a correlação de forças como critério para a configuração da pauta prioritária em cada momento. É fundamental, ainda, que ambos os movimentos sejam compreendidos como partes de uma estratégia mais ampla, voltada para o aprofundamento permanente e radical da democracia entendida como controle popular sobre as decisões políticas e econômicas.

Reforma política

O tema da reforma política tende a estar orientado por interesses eleitorais

e partidários, o que reduz a questão a uma reforma do sistema eleitoral, ou mesmo como um instrumento para melhorar a governabilidade do Estado ou aumentar sua eficiência – dentro do atual status quo.

Nossa proposta diz respeito a mudanças no próprio sistema político, na cultura política e no Estado. A reforma política que defendemos visa à radicalização da democracia, para enfrentar as desigualdades e a exclusão, promover a diversidade e fomentar a participação cidadã. Isso significa uma reforma que amplie as possibilidades e oportunidades de participação política, capaz de incluir e processar os projetos de transformação social de segmentos historicamente excluídos dos espaços de poder, como as mulheres, os/as negros/as, a população LGBTI+, indígenas, jovens, pessoas com deficiência, idosos/as e os/as despossuídos/as de direitos.

Uma reforma política em sentido amplo deve englobar os processos de decisão e a forma de exercer o poder, as formas de participação e de representação política, as práticas políticas e todos os espaços de expressão política. Ela deve envolver o âmbito do Estado (Legislativo, Executivo e Judiciário), dos entes federativos e suas relações (União, estados, DF e municípios), dos partidos políticos e da sociedade civil organizada. Alguns princípios democráticos se sobressaem como eixos para essa reforma política ampla: igualdade, diversidade, justiça, liberdade, participação, transparência e controle social.

PROPOSTAS

1 - Fortalecer a democracia direta

Regulamentar as formas de manifestação da soberania popular expressas na Constituição Federal (plebiscito, referendo e iniciativa popular). O aprimoramento das regras sobre o plebiscito e referendo é necessária para que a participação popular seja efetiva e não meramente simbólica.

2 - Fortalecer a democracia participativa

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35 que possa criar e consolidar espaços de participação e democratização da

gestão das políticas públicas, a exemplo dos Conselhos e Conferências (nacionais, estaduais e municipais), de modo que tenham maior coesão e possam tensionar os poderes. São pressupostos da participação o caráter deliberativo, laico, suprapartidário e autônomo dos espaços institucionais de participação, a liberdade de escolha da representação não governamental, o financiamento público, a transparência e o pleno acesso às informações públicas, assim como o respeito do Executivo às deliberações aprovadas pelos mecanismos de participação.

3 - Reforçar a diversidade e a igualdade nos mecanismos participativos e de democracia direta

Esses mecanismos devem ser pautados pela diversidade, pela igualdade em termos de gênero, raça, etnia, orientação sexual etc., e devem garantir o acesso das camadas sociais excluídas aos processos de tomada de decisões políticas.

4 - Aperfeiçoar a democracia representativa

É preciso garantir uma representação mais efetiva da vontade popular, enfrentando as sub-representações (trabalhadores/as, mulheres, negros/as, juventudes, LGBTI+ etc) e a influência do poder econômico nas decisões públicas. Para isso, devem-se restringir todas as formas de financiamento privado das campanhas eleitorais.

5 - Fomentar participação da sociedade civil na definição da pauta do Legislativo

Para tal, propomos que o primeiro ato de cada sessão legislativa no início do ano seja convocar uma assembleia com a participação dos parlamentares e representantes dos movimentos sociais e organizações representativas da sociedade civil com reconhecida atuação em prol dos direitos da cidadania e do interesse público, cujo objetivo será debater a pauta de votação daquele ano, elegendo prioridades.

6 - Revogação dos mecanismos de restrição da vontade popular

Entre eles, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a autonomia operacional do Banco Central.

7 - Criar mecanismos de participação, deliberação e controle social das políticas econômicas e de desenvolvimento

Hoje, esses mecanismos não existem. Essa participação e controle social deve ocorrer nos níveis de criação e execução das políticas de diversos órgãos da área, como Ministério da Fazenda, Banco Central e BNDES. Em relação ao processo orçamentário, propomos um fórum permanente, com representantes do governo e da sociedade civil, que participe da criação, execução, monitoramento, avaliação e revisão do processo orçamentário.

8 - Impedir o aprofundamento da autonomia do Banco Central 9 - Garantia de acesso universal às informações orçamentárias

10 - Articular a reforma do sistema político com as discussões sobre a democratização da informação e da comunicação, exigindo mecanismos que garantam a transparência total em relação a dados, incluindo aqueles vinculados ao sistema judiciário, além do controle social dos meios de comunicação

11- Apoiar a criação de um Sistema Público de Comunicação, conforme previsto na Constituição, com a criação de centrais públicas de comunicação

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INTRODUÇÃO

Partimos da definição de que a federação brasileira é muito desigual, tanto regionalmente quanto em relação aos 5.568 municípios, muito díspares em relação à densidade demográfica, dinâmica econômica, indicadores sociais e arrecadação tributária.

Reiteramos a necessidade de fortalecer o protagonismo estatal conjugado com controle social possibilitando avançar nas transformações institucionais do Estado, de modo a recuperar sua capacidade de planejar e agir. Em paralelo, o Estado deve renovar as estratégias e ampliar os instrumentos para construção de pactos que respeitam a autonomia dos entes da federação, mas também fortalecem a cooperação entre eles.

DIAGNÓSTICO

O Brasil está organizado como um Estado Federal, mas com aspectos peculiares. É a única Federação do mundo a reconhecer municípios como entes federativos em sua Constituição. A República Federativa do Brasil é, portanto, formada pela união indissolúvel dos 26 estados, 5.568 municípios e o Distrito Federal. Além disso, adotou um modelo cooperativo em que muitas competências são exercidas de forma conjunta pelos diferentes entes.

Essa característica trouxe enormes avanços democráticos, com a ampliação de serviços e o aperfeiçoamento dos canais de controle e participação social municipais que contribuíram para uma maior democratização, ainda que insuficiente, uma vez que o município está mais próximo do cidadão, o que amplia sua capacidade de atender às especificidades locais. Por outro

FEDERALISMO

E ADMINISTRAÇÃO

PÚBLICA

lado, agregou mais complexidade às relações federativas, pois o arranjo das políticas públicas nacionais precisa ser feito entre os três diferentes níveis, todos autônomos entre si. Assim, falta à federação instrumentos adequados à coordenação das políticas públicas. Além disso, hoje, a participação dos níveis mais altos de governo na construção de estratégias em conjunto com as demais esferas federativas, sobretudo dos governos locais, baseia-se quase que exclusivamente na transferência de recursos financeiros.

As regiões metropolitanas são grandes exemplos desse déficit de cooperação. Em cada estado foram adotados critérios e modelos distintos; na maior parte das regiões metropolitanas, o órgão gestor - quando existente - é estadual e as estruturas de paridade com municípios estão apenas no discurso, sem efetivação. Os fundos metropolitanos e outros instrumentos de financiamento do desenvolvimento regional são praticamente inexistentes. A superação dos desafios das grandes metrópoles brasileiras passa pela integração das políticas setoriais e pela integração de todo seu território em si, nas suas diversas escalas.

Em nível nacional, as desigualdades regionais persistem, sobretudo na dicotomia norte-sul. Além disso, o universo dos municípios brasileiros é marcado por grandes diferenças demográficas, de dinâmica econômica, indicadores sociais, arrecadação, capacidade técnica e gerencial de suas administrações públicas. Atualmente, 70% dos municípios possuem menos de 20 mil habitantes e abrigam apenas 18,2% da população. Já os 283 municípios com mais de 100 mil habitantes acumulam aproximadamente 70% de toda a renda do país, enquanto os 3.915 municípios com até 20 mil habitantes representam menos de 10% da renda nacional.

Por isso, qualquer proposta de Reforma Federativa deve levar em conta o enfrentamento dessas desigualdades e o papel na União na redistribuição equitativa dos recursos no território nacional, bem como, incentivar instrumentos de cooperação federativa e solidariedade territorial, como os consórcios públicos e colegiados regionais ou setoriais.

Não há, entretanto, um modelo e diretriz única. Em inúmeras situações é possível afirmar que a centralização de atividades e competências na

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39 União podem surtir bons efeitos, como, por exemplo, nas compras de bens e

serviços comuns em grandes escalas, como material escolar, medicamentos, dentre outros. Noutros casos, a descentralização pode ser o melhor caminho, abrindo espaço para a inovação e a criatividade no desenvolvimento local, a exemplo do orçamento participativo, projetos de economia solidária e incentivo às micros e pequenas empresas, ou à agricultura familiar.

Em suma, há casos em que convém concentrar competências na União, há casos em que é melhor descentralizá-las para os estados ou municípios. O importante é que essa escolha seja fruto de um pacto, que respeite as autonomias dos entes da Federação e fortaleça a cooperação. Não há, portanto, como prescrever um único modelo de gestão para todas as áreas, sendo necessário que cada política setorial amadureça e apresente propostas de arranjo federativo adequadas às suas necessidades.

O essencial é suspender pressupostos de uma lógica e concepção neoliberal de Estado que orienta suas práticas e normas a atuações tímidas e concentradoras. Esse ideário foi absorvido sem ressalvas pela opinião pública ao ser incansavelmente defendido pelos meios de comunicação.

Essa ideologia, aliada a nossos processos históricos e sociais forjou um Estado orientado para o “não fazer”, burocratizado em seus procedimentos, cheio de controles que travam qualquer impulso transformador. Autoritário em seus métodos, o Estado parece eficiente somente na manutenção do status quo e em solapar direitos individuais e sociais, além de impedir a efetivação dos objetivos constitucionais. A precariedade da gestão tornou-se uma política de governo e serviu para converter o Estado brasileiro numa espécie de escritório de gerenciamento de negócios privados que extrapolaram as fronteiras nacionais.

Todo esse processo serviu para alienar ainda mais as camadas populares das estruturas sociais que lhes dizem respeito como a educação, o mercado, a segurança alimentar etc. Mesmo após a mudança de governo, em 2003, este cenário não se modificou totalmente, uma vez que seus pilares centrais permanecem erguidos, especialmente o sistema político, a política fiscal, e a concentração dos meios de comunicação de massa.

PROPOSTAS

1 - Realizar uma Reforma Federativa que busque

Reconhecer e reforçar o papel do Estado na administração pública, rejeitando a visão de que o Estado deve trazer da iniciativa privada sua lógica administrativa supostamente mais eficiente, com “choques de gestão” e redução de gastos.

Defender o pressuposto de que a orientação das ações do Estado pelo lucro é incompatível com uma gestão do Estado que aponte para uma ética cidadã.

Reconhecer o papel central do Estado no enfrentamento das desigualdades e o da União, em especial, na redistribuição equitativa dos recursos no território nacional.

Elaborar um modo de concepção, desenho, execução, monitoramento e avaliação de políticas públicas em que a construção coletiva, para além da mera participação, não seja uma característica marginal, mas central, imprescindível e fator de distinção das políticas públicas; essa participação popular deve estar calcada nos direitos humanos e priorizar a promoção da igualdade, a inclusão social, a sustentabilidade socioambiental e a reconstrução das amplas capacidades do Estado.

Construir novas estratégias de pacto federativo que favoreçam a cooperação e que acelerem o fortalecimento dos estados e, em especial, dos municípios.

Permitir que o governo federal gradualmente deixe de atuar de maneira tutelar e com viés de controle e passe a articular políticas públicas em harmonia com a autonomia política dos entes subnacionais, respeitando as realidades de cada localidade.

2 - Novo sistema tributário progressivo, simplificado e melhor fiscalizado

Promover uma reforma que compreenda não apenas a necessidade de progressividade, mas também a simplificação do sistema e a centralização

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do processo de arrecadação e sua fiscalização. Defendemos a existência de três tributos: um sobre a propriedade (imóveis, automóveis, embarcações, dinheiro etc.); um sobre a renda (salários, honorários, dividendos, lucros etc.); e outro sobre o valor agregado (comércio, circulação de mercadorias, indústria, serviços etc.).

Os tributos poderiam ser cobrados pelos níveis maiores (algo a ser estudado e pactuado, com vistas à eficiência e a redução de personalismos). Do montante arrecadado, ampliar o percentual de compartilhamento com os entes subnacionais.

3 - Promover a cultura do debate político

Estimular a cultura do debate na sociedade e fortalecer a participação dos partidos políticos e da população em torno das decisões coletivas, assim como avançar no desenho e implantação de mecanismos que promovam sua efetividade. A conquista do poder não deve ser para concentrá-lo, mas para distribuí-lo, sobretudo aos historicamente alijados.

4 - Construção de agenda de debates sobre Administração Pública com especialistas, beneficiários e representantes da população em geral a partir de uma lista preliminar de itens para discussão:

Competências.

Parcerias com as organizações da sociedade civil. Mecanismos de participação social nas gestões.

Mecanismos de articulação e coordenação (intra e inter setoriais) de políticas públicas.

Oferta e qualidade de serviços públicos.

Força de trabalho no setor público (recrutamento e seleção, formação, avaliação, remuneração, mobilidade etc).

Planejamento, Orçamento, Finanças Públicas e seus instrumentos (LOA, LDO, PPA, LRF, - Leis 4.320/64 e 10.180/01 e DL 200/67, entre outros);

Órgãos de controle interno e externo.

Contratações (uso do poder de compra, arranjos com setor privado etc.). Autonomia da administração indireta.

Administração do patrimônio. Logística, TI, base de dados.

5 - Fortalecimento e ampliação dos sistemas nacionais

Buscar reforçar e aperfeiçoar, com a contribuição de toda sociedade (em especial seus usuários, gestores e funcionários públicos), de sistemas que busquem um desenho de cooperação entre os entes federados, como é o caso do Sistema Único de Saúde (SUS), o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), o Sistema Nacional de Cultura (SNC) etc.

6 - Adoção de um modelo de gestão compartilhada das políticas públicas por meio de comissões tripartites e controle social

Para que as políticas sejam efetivas e de qualidade, é essencial que a população possa participar do seu desenho, gestão e avaliação; tal medida gera valorização das ações e resolução de problemas de forma coletiva, pautadas pela valorização da ideia de cooperação e comunitarismo. Além do mais, acompanhar e avaliar a execução das políticas e serviços públicos melhora a qualidade deles o que possibilita que a população, na prática, identifique os lados positivos da ação estatal.

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43

INTRODUÇÃO

A maneira como o Brasil se posiciona e se insere no cenário internacional reflete diretamente na vida e no cotidiano do povo brasileiro, e também na de outras populações. Este GT buscou definir diretrizes para uma política externa e de defesa a partir de um projeto nacional soberano e popular, pautado por valores democráticos, pela busca de igualdade, autonomia, desenvolvimento, integração regional e multilateralismo. Assume ainda uma posição anti-imperialista, anticolonialista, antirracista e feminista.

O Brasil não deve escolher ser o rabo do tubarão ou a cabeça da sardinha, isto é, alinhar-se de forma subalterna às principais forças imperialistas ou buscar reproduzir essa mesma lógica em sua relação com outros países da periferia. O que sim precisamos é priorizar alianças, parcerias e cooperações com países que possuem um passado de exploração e desenvolvimento semelhante para buscar, em conjunto, a independência com relação a limitações internacionais das mais diversas naturezas. Essas relações com outras nações devem sempre respeitar o princípio da autodeterminação dos povos e os direitos humanos.

DIAGNÓSTICO

Relações internacionais

Historicamente a atuação internacional do Estado brasileiro priorizou a subordinação em relação às grandes potências, especialmente Europa e

RELAÇÕES

INTERNACIONAIS,

INTEGRAÇÃO

REGIONAL E DEFESA

Estados Unidos, em detrimento da criação de laços e processos duradouros e profundos com os Estados periféricos do sul global.

Durante o século XX essa posição consolidou a dependência econômica, financeira e tecnológica do país, resultando na baixa autonomia política do Estado para a gestão das políticas macroeconômicas e sociais. Poucos foram os governos que buscaram garantir ao Estado brasileiro mais autonomia, interna e externamente.

A partir dos anos 1980, com a redemocratização, houve uma aproximação entre os Estados brasileiro e argentino e a defesa da integração regional. Nos anos 1990, formou-se o Mercosul. Após 2003, o novo direcionamento à política externa resultou na aproximação a nações em desenvolvimento e subdesenvolvidas por meio de processos de integração regional como a Unasul (2008). Nesse contexto, foi possível, também devido a mobilizações populares, arquivar a proposta dos Estados Unidos de criação de uma Área Livre Comércio das Américas (Alca), e os planos para a criação de uma força armada regional (“Otan dos pobres”). Outras alianças e coalizões políticas como o G-20, o Fórum Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) e o grupo dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foram fortalecidas.

Essas iniciativas permitiram a contraposição a acordos desiguais e o arquivamento de propostas de instalação de bases estrangeiras no território nacional, como o protocolo 505 da base de Alcântara, no Maranhão. Além disso, deu-se início à construção de projetos políticos de integração regional, como o Conselho e a Escola de Defesa Sul-americana, ligada à Unasul, e fortaleceram-se iniciativas de cooperação política com os Estados Africanos, como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a Coordenação-Geral de Cooperação Humanitária e Combate à Fome (CGFOME).

O reconhecimento dos laços históricos, sociais e econômicos com os Estados africanos, principalmente na questão do combate ao racismo e da luta pelo desenvolvimento, só encontrou um lugar de destaque nos governos Lula e Dilma (2003-2016). Entretanto, a relação com o continente vem sendo pautada pelo interesse na exportação de manufaturas e pela internacionalização de empresas brasileiras, como construtoras, a Vale e a Petrobrás.

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