265834242-Portugues-Juridico.pdf

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Texto

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Português

Jurídico

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Português

NELSON MAIA SCHOCAIR

Jurídico

Teoria e Prática

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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

_____________________________________________________________________ S389p Schocair, Nelson Maia

Português jurídico: teoria e prática / Nelson Maia Schocair. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2008.

Inclui bibliografia ISBN 978-85-352-3063-5

1. Direito - Brasil - Linguagem. 2. Língua portuguesa - Português técnico. I. Título.

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ISBN: 978-85-352-3063-5

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Às amadas Renata, esposa amável e amada; Maria Luísa, Gabriela e Melissa, fi lhas adoráveis e adoradas; aos meus pais Nelson e Maria, sempre determinados a fazerem de seus fi lhos dignos representantes de sua ética e de sua humanidade.

Aos alunos que comigo escalaram as escarpas do caminho, aos que ainda pularão as pedras da evolução e a todo aquele que intentar crescer por meio da leitura e da prática textual.

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Natural do Rio de Janeiro, Nelson Maia Schocair é professor de Português Jurídico e Instrumental; Literatura e Redação. Revisor, consultor e palestrante, autor de diversas obras na área de Língua Portuguesa, é membro da AVBL – Academia Virtual Brasileira de Letras, cadeira 434; Imortal do Clube dos Escritores de Piracicaba, cadeira 54; e Cônsul para o Rio de Janeiro do Movimento Poetas del Mundo (Santiago do Chile).

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Caros alunos e colegas professores.

É com indisfarçável sentimento de alegria que ofereço a todos, conhecidos ou a conhecer, um pouco de meu maior prazer: a arte de ensinar!

A idéia de escrever o livro Português Jurídico nasceu da necessidade de dar conti-nuidade a um conjunto de obras iniciado com a publicação da Gramática e, em seguida, do livro de Redação. Cresceu calcada na observação das carências mais elementares vi-venciadas em mais de vinte e cinco anos de trabalho em salas de aula ora insalubres, ora luxuosas – contrastes recorrentes em nosso amado Brasil – em cursos de extensão ou em palestras país afora.

Em trabalhos de consultoria na área jurídica, comecei a notar que a difi culdade de externar opiniões claras e a ausência de argumentos sólidos não se restringia apenas aos ensinos fundamental e médio; não passava apenas pela desinformação geral quanto ao uso da linguagem cotidiana mas também ao português profi ssional: por que se escreve tão mal nesse segmento? As respostas deixaram-me algo perplexo: “Já sei português” ou “Argu-mentar no Direito é fácil, já vêm pronto texto e desenvolvimento”. Não foi difícil concluir que o problema passa pela base, encontra ressonância em cursos que pouco oferecem em termos de qualidade lingüística e consagra-se na mesmice de textos confusos, ambíguos, mal redigidos.

A proposta do Português Jurídico é preencher essa lacuna. Ajudar a fazer do aluno do curso de graduação um advogado em potencial; do advogado formado, um membro da OAB; do membro da OAB, um novo e brilhante jurista.

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Capítulo 1

Língua e

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A Comunicação Jurídica

Língua, Linguagem, Comunicação e Fala

A Língua é a parte social da linguagem, pois representa a reunião das palavras e das expressões usadas por um povo, englobando-se as regras pertinentes à sua Gramática Normativa e oralidade.

Segundo a Lingüística, representa o sistema de signos que permite a comunicação entre os indivíduos de uma comunidade, ou seja, por um lado representa o conjunto do próprio idioma, por outro denota as particularidades de um grupo social específi co.

Pode-se dividir o conceito de língua em ESCRITA, comprometida com os câno-nes gramaticais vigentes, e FALADA, livre, solta, isenta de compromisso com essas mes-mas regras. Neste livro, dado seu fi m profi ssional, trataremos especialmente do primeiro conceito: a língua escrita.

O lingüista Ferdinand de Saussure, em seu Cours de Linguistique Général – Curso de Lingüística Geral –, assim conceitua a língua: “para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada. Ela é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de conversões ne-cessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. A língua constitui-se algo adquirido e convencional. Pode-se dizer, faz a unidade da linguagem.”

1.1. Língua Escrita

1.1.1. Culta

É a que cumpre os ditames da Gramática Normativa, sempre aprisionada a regras clássicas e a conceitos consagrados, utilizada pelas classes sociais mais privilegiadas; por esse motivo, a modalidade culta é obrigatória em textos jurídicos.

Modernamente, a língua culta tem sido dividida em dois grupos:

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Exemplo:

“Faz muito tempo que se entende como correto o uso da língua culta para a elaboração de textos, embora saibamos ser complexa a sua absorção.”

B. Informal – usada pelo falante comum, sem, no entanto, esbarrar na oralidade ou no coloquialismo cotidiano.

Exemplo:

“Já faz muito tempo que entendemos como correto o uso da língua culta para a elaboração de textos, embora saibamos como é complexa a sua completa utilização.”

1.1.2. Características da língua culta formal

A. A mensagem não é transmitida de forma imediata, pois depende do grau de conhecimento do receptor para decodifi cá-la.

B. A mensagem é mais longa e complexa do que na língua falada.

C. A ausência do emissor faz com que o receptor não reconheça de maneira imediata e clara a intenção do código.

D. Requer do receptor um nível de compreensão do código acima da média, seja texto informativo, didático, científi co, literário ou jurídico.

E. Exigem-se construções sintáticas complexas, com elaboração de frases subordinadas entre si e ordenadas de maneira lógica e coerente.

F. Exige precisão e correção vocabular e conhecimento médio do léxico. 1.2. Língua Falada

Enquanto a língua é exterior ao indivíduo, pois é impessoal e comum a todos os in-tegrantes de uma comunidade, a fala é individual, pessoal, posto que cada falante a produz consoante à sua vontade e aos seus conhecimentos.

Fala é o uso que o indivíduo faz da Língua.

1.2.1. Coloquial

É marca da linguagem popular oral, pois é usada por grupos sociais menos privile-giados. Alguns autores, por questões estilísticas, valem-se de erros gramaticais propositais para personalizarem seus textos.

Exemplo:

“Já fazem muitos tempos atrás que nós se considera correto no uso da língua culta na hora de fazer os textos que a gente sabemos que é brabo acertar ela.”

A. Jargão – é a língua especial de uma determinada profi ssão e sua utilização também apresenta alguma defi ciência idiomática. Para usuários profi ssionais de extratos sociais

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mais elevados – médicos, engenheiros, advogados etc. – nomeia-se Língua Profi ssional ou Técnica. Recentes provas para o ingresso na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) têm revelado defi ciências na utilização da língua culta formal, exatamente pelo exagero no uso dos jargões.

B. Calão – é a língua típica da malandragem, usada pelos mais baixos extratos sociais. Desprovidos dos conceitos que formatam as normas gramaticais, os usuários criam dis-torções, termos chulos, vulgares para ilustrarem seu status quo: o abandono a que estão relegados.

C. Dialeto – designa uma língua menor dentro de outra, maior. Consoante o Dicionário de Comunicação, de Carlos Alberto Rabaça, “é uma forma de língua que tem seu próprio sistema léxico, sintático e fonético, e é usado num ambiente mais restrito que a própria língua”. Pode-se, então, defi ni-lo como forma local própria de comunicação a partir da qual se constitui uma língua de união.

D. Regionalismo – língua própria de indivíduos de uma região (baiano ou paulista, gaúcho ou carioca). Ocorre em países – como o Brasil ou os Estados Unidos da América – de dimensões continentais e que oferecem variáveis ao uso do idioma pátrio. Como quando um carioca pede média e bebe “café com leite”, enquanto um paulista come um “pão” francês de 50 g.

E. Sotaque – hábito articulatório realizado por entonações próprias que confere uma iden-tifi cação peculiar à fala de um indivíduo. Ocorre quando um inglês, por exemplo, tenta pronunciar uma sílaba nasal (balão) e diz balau.

F. Palavra-tabu – é aquela cujas regras de conduta social discriminam, normatizando-as como proibidas ou circunstancialmente autorizadas. Pronunciar uma palavra-tabu constitui-se numa transgressão de conduta reprovada socialmente cuja escala varia de intensidade segundo o contexto em que é usada, chegando-se até à punição do emissor.

I – Nas religiões, consideram-se tabu por estarem impregnadas do sagrado, devendo seu uso ser restrito aos iniciados.

Exemplo:

A Bíblia diz em Êxodo 20:1-1: “Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão: Não terás outros deuses diante de mim.”

(1o Mandamento do Decálogo )

II – Na etiqueta, a palavra-tabu refere-se ao que se julga depreciativo, obsceno. Via de regra, a palavra-tabu é proibida por se referir a um assunto tabu. Exemplo com a palavra puto [Do lat. puttu, por putu, ‘menino’], consoante defi nições do Dicionário Aurélio Século XXI:

1. Lusitanismo: garoto, menino, rapazinho: “Um puto português só por um triz não foi campeão da Europa”. (A Bola, Lisboa, 26/07/1982);

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2. Angolanismo – Quimbundo: palavra pouco usual, ou difícil, da língua portuguesa: “Eu decorei esses putos alambicados”. (José Luandino Vieira, João Vêncio: Os seus amores, p. 90); 3. Brasileirismo:

a) Diz-se de homossexual.

b) Diz-se de indivíduo devasso, corrompido, dissoluto. c) Danado da vida.

d) Corresponde a uma qualifi cação depreciativa ou apreciativa de coisa ou pessoa designada pelo substantivo: “Estou sem um puto.”

G. Gíria – como fenômeno antropológico é palavra ou construção de uso corrente entre grupos sociais diferenciados, não raro marginalizados, e que só a estes pertencem. Nesses grupos, desempenha função especial: é sua senha, ou seja, reveste-se de marca caracteri-zadora do próprio grupo. A gíria, quando praticada ou aceita pelo todo da comunidade lingüística, converte-se em léxico, caso contrário, continua marginal e específi ca.

Exemplo:

A palavra gatinha – moça bonita, graciosa – dada sua formatação emocional, de caráter positivo, passou a signo de grupo, cujo signifi cante é usado em todas as camadas sociais, e não apenas nos meios menos providos.

Como a língua coloquial é usada na comunicação diária, cometem-se erros que são le-vados à modalidade escrita, difi cultando a absorção do conteúdo de seus textos. O ideal é não se descuidar da evolução natural do aprendizado, realizando estudos sitemáticos do léxico e de suas interações sintáticas nos textos e contextos em que se inserem.

1.2.2. Características da língua coloquial

A. As construções sintáticas são simples e diretas, possibilitando a rápida depreensão da mensagem pelo receptor.

B. É comum a adjetivação e o tom emocional do discurso.

C. A presença de ambos (emissor e receptor) facilita a comunicação e a interação. D. São usados signos de ritmo, entonação e pausa, que conferem sonoridade ao contexto. E. Os gestos, ante a presença de ambos (emissor e receptor), substituem alguma difi culdade

idiomática entre eles.

Na linguagem jurídica o nível é sempre culto.

Acusação e defesa no Júri: sustentação oral nos tribunais Parte inicial: vocativo – exórdio

Preparação: proposição – narração – divisão Assunto central: confi rmação – refutação

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Resumindo

Se por um lado a Língua denota o extrato social do falante, por outro, a Lin-guagem representa o uso da palavra escrita, verbalizada, prerrogativa da língua culta, e como é o meio de expressar e comunicar a Língua ou os Signos entre pessoas ou gru-pos distintos, engloba qualquer processo de comunicação: utilização de sinais, gestuais, sons, pinturas.

São exemplos de linguagem não-verbal: mímica, Código Morse, semáforos, bandeiras, sinais dos surdos-mudos, assobios, fumaça, corpos pintados, tambores etc. Essas, e muitas outras manifestações, são atos de comunicação, representando, com isso, tipos de linguagem.

Exemplo de linguagem não-verbal em Despacho proferido por um juiz da Justiça do Estado do Rio de Janeiro sob a forma de um DRAGÃO:

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1.3. Níveis de Linguagem – Denotação e Conotação

Há dois níveis de signifi cação a serem atribuídos à comuniação: um, direto, ime-diato e que se encontra no dicionário, denominado denotação. Outro, fi gurado, poético, imaginativo, estilístico, a que se denomina linguagem fi gurada ou conotação.

Exemplos:

A. Denotação – Um ser humano pode viver isolado da sociedade? B. Conotação – Um ser humano é uma ilha?

Esses níveis de signifi cação podem ser usados na linguagem jurídica. Entretanto, ao se desviar do conceito dicionarizado, pode-se, eventualmente, esbarrar no ridículo, no pejorativo, sendo, portanto, aconselhável, usar o sentido denotativo em petições, pareceres ou sentenças.

Seguem três exemplos de Sentenças: as duas primeiras são conotativas, observan-do que a I é chula, vulgar, por isso, julgo-a uma afronta; a II reputo uma obra de arte; a terceira – a ideal – é denotativa.

I. Trecho de sentença erótica que absolveu um acusado de estupro em 1989, de um juiz da XXX Vara Criminal e de Execuções Penais, no Piauí:

“O estupro se realiza quando o agente age contra a vontade da vítima, usando coação física capaz de neutralizar qualquer reação da infeliz subjugada. No presente processo a vítima alegre e provocante passou a assediar o acusado, que se encontrava nas areias do rio Poty, mostrar-lhe o biquíni, que almofadava por trás, o incognoto estimulado. A vítima e o acusado trocaram olhares imantados, convidativos e depois se juntaram numa câmara de ar nas águas do rio Poty, onde se deleitara de prazer, oriundo do namoro, amassando o entendimento do desejo para fi ndar numa relação sexual, sob o calor do sol, mergulhando no império dos sentidos até o cansaço físico, disjunciando-se os dois, o acusado para um lado e a vítima para outro, para depois esta aparentar um simulado do ato do qual participou e queria que acontecesse, numa boa e real, como aconteceu. Não há confi guração do crime de estupro. Há sim uma relação sexual, sob promessas de namoro fácil para ser duradouro, que se desfaz na primeira investida de um ato sexual desejado entre o acusado e a dissimulada vítima, que com lágrima nos olhos fez fertilizar a mesma terra onde deixou cair uma partícula de sua virgindade, como uma pequena pele, que dela não vai mais se lembrar, como também não esquece o seu primeiro homem, que a metamorfoseou mulher.”

Embora seja válida a sentença a seguir, já que cumpre sua fi nalidade, recomenda-se que o texto de suas petições ou de recomenda-seus pareceres recomenda-sejam compostos, EXCLUSIVA-MENTE, em linguagem denotativa.

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II. PODER JUDICIÁRIO – JUSTIÇA FEDERAL NO CEARÁ

1. RELATÓRIO

I Trata o presente caso De uma ação criminal Movida neste Juízo Buscando sanção penal Para um ocorrido fato Tido como estelionato Pelo MP Federal.

II Fulano de tal

É o nome do acusado, Profi ssão: eletricista, Nesta domiciliado, É viúvo, brasileiro, E desse modo ligeiro, Ei-lo aí qualifi cado.

III Denúncia foi recebida As folhas um, oito, três Noventa e sete era o ano Outubro era o mês Vinte e três era o dia Que a ação começaria. Com o despacho que se fez.

IV Veio, porém, a Juízo, O réu, antes de citado, Na folha dois, zero, três Formulou arrazoado Dizendo que prescrevera O crime – se ocorrera Do qual era acusado.

V

Disse que entre a conduta Como criminosa tida E o dia em que a denúncia Aqui fora recebida Treze anos se passavam E só doze lhe bastavam Pra encerrar a partida.

VI Ouvido o douto parquet Este fez oposição Dizendo que o fato crime Não teve consumação Há tanto tempo passado Sendo desarrazoado Se falar em prescrição. VII O MM. Juiz Acatou o argumento Que o MP Federal Usou como fundamento E colocou no papel Que ao pedido do réu Negava deferimento.

VIII Feito isto foi marcada Logo uma audiência Para interrogar o réu Sendo-lhe dada ciência Que iria ser processado Depois seria julgado

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IX

Mas com aquele decisum Não houve conformação Recurso em sentido estrito Do réu foi a reação Para ver modifi cada A decisão prolatada Negando-lhe a prescrição.

X

Vieram os autos conclusos Pra que eu decida afi nal Se inverto a decisão E dou ao feito um fi nal Ou mantenho o seu curso Instruo logo o recurso E mando pro Tribunal. É o relatório. Decido.

2. FUNDAMENTAÇÃO

XI Ao apreciar o caso Que ora é apresentado Importa examinar

Com cautela e com cuidado o termo inicial

Do prazo prescricional Pela defesa alegado.

XII Nesse sentido, vejamos o fato considerado Como artifi cioso, Ardiloso, simulado

Que o réu criou em sua mente Buscando dolosamente o benefi cio almejado.

XIII É fato que causa espanto o que passo a descrever Pois do que consta dos autos o que ele intentou fazer Foi obter quitação De mútuos de habitação Com seguro a receber.

XIV Como modus operandi Para o seu desiderato A sua esposa, Fulana Figurou em dois contratos Usando fi nanciamento Comprou casa, apartamento Porém omitindo um fato.

XV O fato omitido in casu Era a saúde de Fulana Que, portadora de câncer, Brevemente morreria E através da sua morte Na verdade seu consorte Se benefi ciaria.

XVI É que Fulana morrendo Os seguros pagariam

Todo o saldo dos empréstimos E as contas se quitariam A casa, o apartamento Após feito o pagamento Pro marido fi cariam.

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XVII

Mas do que vejo dos autos Esse plano não vingou Porque a seguradora Bem cedo desconfi ou Foi pondo difi culdade E o fato é que, em verdade, Os seguros não pagou.

XVIII

Às folhas cinqüenta e cinco O BEC é que noticia Sete anos que passaram E ainda não havia Sido providenciada A cobertura esperada Do que o seguro previa.

XIX

Também em favor da tese Que não houve a conclusão Da conduta criminosa De que trata esta ação Um feito judicial Na Justiça Estadual Está em tramitação. XX Vejo às folhas 200 Um ofício a informar Que em uma Vara Cível Aqui mesmo do lugar o espólio de Fulana Litiga até hoje em dia Com Blá-blá-blá-blá.

XXI

Bem se sabe, pra que haja Estelionato consumado Impõe-se que o agente Alcance o fi m planejado Pois como o tipo é descrito Na norma em que está inscrito É crime de resultado.

XXII Tendo, assim, convicção De que o fato tratado Como crime nestes autos Foi simplesmente tentado Retorno a minha atenção Ao prazo da prescrição E como ele é contado.

XXIII O transcurso de tal prazo Em caso de tentativa Expressamente é previsto Em locução normativa Diz a norma que começa No mesmo dia que cessa A atividade nociva.

XXIV A norma que ora cito É de sabença geral

Bem no artigo cento e onze Lá do Código Penal o inciso é o segundo Não é coisa do outro mundo Só disciplina legal.

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XXV

Sobre o tema MIRABETE Dá a seguinte lição: Que havendo tentativa o prazo de prescrição Começa mesmo de fato No dia do último ato De sua execução.

XXVI Partindo dessa premissa Resta só verifi car Qual o ato executório Feito em último lugar Por parte do acusado Pra ser benefi ciado Pela Blá-blá-blá-blá.

XXVII Identifi car tal ato

Não me traz qualquer tormento. É claro que a tentativa

De ter locupletamento Encerrou quando o acusado Sentindo-se habilitado Entregou o requerimento.

XXVIII O mês em que ocorreu o fato acima apontado: Setembro de oitenta e quatro Isso está bem comprovado Sendo um pouco inteligente Isto é sufi ciente

Pra ser tudo calculado.

XXIX

Daquele mês de setembro Até o outro momento Que formulada a denúncia Deu-se o seu recebimento Foram mais de treze anos Não há como ter enganos, Este é meu pensamento.

XXX Assim, não se pode mais Discutir a autoria. A materialidade Se, no caso, dolo havia, Pois a prejudicial Do prazo prescricional Impede a pena tardia

XXXI

Tem, pois, razão a defesa Quando alega prescrição E assim fundamentado Exerço a retratação. Não pode mais o Estado Exercer a pretensão De punir o acusado.

3. DISPOSITIVO

POSTO ISTO, julgo extinta Toda punibilidade

Da conduta do acusado, Cuja materialidade Na denúncia está descrita, Mas que hoje está prescrita, Livre de penalidade.

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III. Despacho de um Juiz de Palmas, Tocantins:

A Escola Nacional de Magistratura incluiu, na sexta-feira (X/X/XX), em seu banco de sentenças, o despacho pouco comum do juiz XXX, da XXX Vara Crimi-nal da Comarca de Palmas, em Tocantins.

A entidade considerou de bom senso a decisão de seu associado, mandando soltar Fulano de Tal e Sicrano de Tal, detidos sob acusação de furtarem duas me-lancias:

DECISÃO

Trata-se de auto de prisão em fl agrante de Fulano de Tal e Sicrano de Tal, que foram detidos em virtude do suposto furto de duas (2) melancias. Instado a se manifestar, o Senhor Promotor de Justiça opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.

Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fun-damentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Ghandi, o Direito Natural, o princípio da insignifi cância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados e dos políticos do mensalão deste governo, que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional) [...] Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém.

Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasilei-ra, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário apesar da promessa deste presidente que muito fala, nada sabe e pouco faz.

Poderia brandir minha ira contra os neoliberais, o consenso de Washington, a car-tilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia [...]

Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra – e aí, cadê a Justiça nesse mundo?

Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade.

Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas téc-nicas: não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir.

Simplesmente mandarei soltar os indiciados. Quem quiser que escolha o motivo.

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1.4. Funções da Linguagem

Saber utilizar a linguagem mais precisa no momento adequado é o que norteia o estudo das várias funções da linguagem.

Ao realizar uma comunicação verbal: peça, relatório, petição, parecer, o autor precisa ter em mente que a mensagem é direcionada a um leitor que dele inferirá juízos, consoan-te inconsoan-terpretação pessoal, por isso, toda composição escrita apresenta uma pessoa que a escreve, denominada EMISSOR; alguém que a lê, o RECEPTOR. O assunto sobre o qual se escreve chama-se MENSAGEM e o fi o-condutor é denominado CANAL. Os fatos, as evidências, as vivências ou os juízos constituem o REFERENCIAL e o código utilizado para explicitar a mensagem chama-se função METALINGÜÍSTICA.

Esquema das funções da linguagem CONTEXTO

EMISSOR MENSAGEM RECEPTOR

CANAL

CÓDIGO

DIVISÃO DA FUNÇÕES

1.4.1. Referencial

Volta-se diretamente para a informação, para o próprio conteúdo, para o referente, ou seja, para o CONTEXTO. Usa-se essa função com a intenção de se transmitir dados reais, com o emprego de palavras utilizadas em sentido estritamente denotativo. Deve ser usada em discursos científi cos, no texto jornalístico e nas correspondências ofi ciais e comerciais. É conhecida também pelos nomes de Cognitiva, Informativa, ou Denotativa.

Características:

A. Impessoalidade – o autor sempre se posiciona em terceira pessoa, não se envolvendo emocionalmente com a mensagem.

Exemplos:

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B. Capacidade de argumentação – o autor precisa argumentar com clareza, concisão, objetividade e, sobretudo, aprofundamento.

C. Objetividade – não cabem recursos subjetivos. Exemplo:

“O surgimento e a proliferação das favelas nas grandes cidades têm como causado-res principais o êxodo rural e o baixo poder aquisitivo da população. A conjunção desses fatores, ao produzir e multiplicar as favelas, gera o principal obstáculo ao planejamento urbano e à segurança da população.”

1.4.2. Emotiva ou Expressiva

Pode-se afi rmar que é o oposto da função referencial, pois nesse tipo de texto o emissor se preocupa em expressar seus sentimentos, suas angústias e suas emoções. Tam-bém denominada Expressiva ou Exteriorização psíquica, é centrada no EMISSOR e usada em depoimentos (linguagem do réu), nos argumentos da defesa (linguagem do advogado ao apelar junto ao Tribunal ou ao Júri).

Características:

A. Parcialidade – o texto é escrito em primeira pessoa a fi m de comover o receptor ou interlocutor em relação a seus sentimentos.

B. Signos de pontuação – usam-se reticências e pontos de exclamação. C. Subjetividade – prevalecem os recursos subjetivos.

Exemplo:

Suzane: “Ele foi plantando uma semente em mim. Ou eu fi cava com ele sem meus pais, ou fi cava com meus pais, mas sem ele.”

Daniel: “Ela veio dizendo que queria matar os pais. Eu disse pra ela: pára com isso. Isso é uma loucura.”

(Primeiros depoimentos colhidos pelo juiz Alberto Anderson Filho, presidente do 1o Tribunal do Júri de Suzane Louise von Richthofen e de seu namorado Daniel

Cravi-nhos de Paula e Silva em 03 de dezembro de 2002)

1.4.3. Conativa

É centrada no RECEPTOR da mensagem. Na propaganda é utilizada para conven-cer o possível cliente a consumir um determinado produto; no universo jurídico é usada como forma de persuasão com o fi m precípuo de estimular mudanças de comportamentos ou de idéias por parte do destinatário-alvo.

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Também conhecida como Apelativa, pode ser dividida em: a) Exortação – apelo à linguagem poética, típica da propaganda.

Exemplo:

“Entre na onda sem gastar os tubos.”

(propaganda de uma marca de produtos para surfi stas) b) Volitiva – revela vontade, súplica, apelo.

Exemplo:

“Confessa, pelo amor de Deus, meu fi lho!” c) Autoritária – típica do discurso jurídico.

Exemplos:

Intime-se; Publique-se; Arquive-se; Volvam-me conclusos; Registre-se. Características:

A. Imperativo – verbos no modo imperativo, discurso categórico. B. Vocativo – emprego do vocativo – presença do interlocutor.

A lei é uma ordem, e não uma exortação.

1.4.4. Poética

É a função cuja mensagem está centrada na CONOTAÇÃO, na forma particular de se entender o código lingüístico. A prioridade é o ritmo, a sonoridade, o belo. A forma é mais importante que o conteúdo.

Características:

A. Subjetividade – não se valoriza o teor objetivo da mensagem. B. Linguagem fi gurada – uso de fi guras de estilo (metáforas e outras).

Exemplo:

“A morte é o corredor de acesso à vida eterna!”

1.4.5. Fática

É a que procura manter o receptor atento, com vistas a prolongar a extensão da linha comunicativa, testando sistematicamente o CANAL. É comum em discursos ou palestras quando se visa à atenção do ouvinte.

Exemplos:

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1.4.6. Metalingüística

A mensagem visa explicar o CÓDIGO, já que para esse fi m está voltada. No uni-verso jurídico, é a linguagem dicionarizada, o entendimento denotativo do próprio léxico em suas inserções contextuais.

Características:

A. Descrição – fi lme que fala do fi lme; livro que fala do livro etc. B. Subjetividade ou Objetividade – depende do fi m ao qual se destina.

Exemplos: a) Com subjetividade:

“Lutar com palavras é a luta mais vã, enquanto lutamos mal rompe a manhã”. (Carlos Drummond de Andrade)

b) Com objetividade:

“Justiça é estar em conformidade com o direito; a virtude de dar a cada um aquilo que é seu.”

Contextualização:

Texto recebido via internet que ressalta a importância da comunicação escrita. A Distorção na Comunicação Oral

(A importância da omunicação documental) DE: DIRETOR-PRESIDENTE

PARA: GERENTE

Na próxima sexta-feira, aproximadamente às 17 horas, o Cometa HALLEY estará nes-ta área. Tranes-ta-se de um evento que ocorre a cada 78 anos. Assim, por favor, reúnam os funcionários no pátio da fábrica, todos usando capacetes de segurança, quando explicarei o fenômeno a eles. Se estiver chovendo, não poderemos ver o raro espetáculo a olho nu. Sendo assim, todos deverão se dirigir ao refeitório, onde será exibido um fi lme documen-tário sobre o Cometa Halley.

DE: GERENTE PARA: SUPERVISOR

Por ordem do Diretor-Presidente, na sexta-feira, às 17 horas, o Cometa Halley vai apa-recer sobre a fábrica. Se chover, por favor, reúna os funcionários, todos com capacete de segurança e os encaminhe ao refeitório, onde o raro fenômeno terá lugar, o que acontece a cada 78 anos a olho nu.

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DE: SUPERVISOR

PARA: CHEFE DE PRODUÇÃO

A convite de nosso querido Diretor, o cientista Halley, 78 anos, vai aparecer nu, no refei-tório da fábrica, usando capacete, pois vai ser apresentado um fi lme sobre o problema da chuva na segurança. O Diretor levará a demonstração para o pátio da fábrica.

DE: CHEFE DE PRODUÇÃO PARA: MESTRE

Na sexta-feira, às 17 horas, o Diretor, pela primeira vez em 78 anos, vai aparecer no re-feitório da fábrica para fi lmar o Halley nu, o cientista famoso e sua equipe. Todo mundo deve estar lá e de capacete, pois vai ser apresentado um show sobre a segurança na chuva. O Diretor levará a banda para o pátio da fábrica.

DE: MESTRE

PARA: FUNCIONÁRIOS

Todo mundo nu, sem exceção, deve estar com segurança no pátio da fábrica, na próxima sexta-feira, às 17 horas, pois o manda-chuva (Diretor) e o Sr. Halley, guitarrista famoso, estarão lá para mostrar o raro fi lme “Dançando na chuva”. Caso comece a chover, é para ir para o refeitório, de capacete, na mesma hora. O show será lá. O que ocorre a cada 78 anos.

AVISO PARA TODOS

Na sexta-feira, o chefe da diretoria vai fazer 78 anos e liberou geral para a festa, às 17 ho-ras, no refeitório. Vai estar lá, pago pelo manda-chuva, Bill Halley e seus Cometas. Todo mundo deve estar nu e de capacete, porque a banda é muito louca e o rock vai rolar solto até no pátio, mesmo com chuva.

1.5. Questão comentada

Raramente se encontram mensagens com apenas um dos tipos de fun-ção. A propósito, determine as funções da linguagem presentes nesse trecho de Sentença poética apresentada em exemplo anterior.

“Daquele mês de setembro Até o outro momento Que formulada a denúncia Deu-se o seu recebimento Foram mais de treze anos Não há como ter enganos,

(25)

I – Poética: o próprio texto realizado em verso com estrofe e rima. II – Emotiva: utilização da 1a pessoa do singular.

III – Metalingüística: conclusão do que já foi explicado sobre prescrição. IV – Conativa: decisão taxativa.

1.6. Fixação do conteúdo

1. Retome a Sentença (erótica).

“O estupro se realiza quando o agente age contra a vontade da vítima, usando coação física capaz de neutralizar qualquer reação da infeliz subjugada. No presente processo a vítima alegre e provocante passou a assediar o acusado, que se encontrava nas areias do rio Poty, mostrar-lhe o biquíni, que almofadava por trás, o incognoto estimulado. A víti-ma e o acusado trocaram olhares ivíti-mantados, convidativos e depois se juntaram numa câmara de ar nas águas do rio Poty, onde se deleitara de prazer, oriundo do namoro, amassando o entendimento do desejo para fi ndar numa relação sexual, sob o calor do sol, mergulhando no império dos sentidos até o cansaço físico. Disjunciando-se os dois, o acusado para um lado e a vítima para outro, para depois esta aparentar um si-mulado do ato do qual participou e queria que acontecesse, numa boa e real, como aconteceu. Não há confi guração do crime de estupro. Há sim uma relação sexual, sob promessas de namoro fácil para ser duradouro, que se desfaz na primeira investida de um ato sexual desejado entre o acusado e a dissimulada vítima, que com lágrima nos olhos fez fertilizar a mesma terra onde deixou cair uma partícula de sua virgindade, como uma pequena pele, que dela não vai mais se lembrar, como também não esquece o seu primeiro homem, que a metamorfoseou mulher”.

Responda ao que se pede:

a) Já no primeiro período há um erro típico da oralidade denominado redun-dância; encontre-o e rescreva o trecho, corrigindo-o.

b) No 5o período, a Sentença é verdadeiramente prolatada, entretanto, antes já se

pronunciava o magistrado a favor do reclamado. Que elementos textuais da-vam indícios de que a Sentença seria contrária à postulação da reclamante? c) Encontre sinônimos para os termos: almofadava, incognoto, imantados. d) Em que períodos há contradições, no tratamento para com a reclamante, sendo

ela a vítima ou reclamante do processo? Como elas se confi guram?

e) Que argumentos foram usados para o magistrado justifi car sua decisão a favor do reclamado?

f) Quais as funções da linguagem presentes nesta Sentença? Cite, ao menos, um exemplo de cada.

(26)

h) Noutra parte da Sentença, o magistrado esbarrou no termo chulo, na apre-ciação jocosa para descrever o fi m do ato, segundo ele mesmo, sexual con-sentido como se demonstrasse prazer, distante da frieza do momento deci-sório com o qual deveria envolver-se. Encontre esse fragmento.

2. (UEL) Assinale a alternativa que encerra uma palavra empregada CO-NOTATIVAMENTE.

a) Jovem hoje, viria a ter, sem dúvida, uma existência mais tranqüila. b) Todos dançam, suam, gritam juntos, e experimentam plena satisfação. c) Pressentimos que estamos vivendo a aurora de um grande momento da História. d) Os bailes e reuniões sociais eram quase invariavelmente ocasião de frustrações. e) Todos tremem e aplaudem, ritmicamente, juntos, em franca euforia.

3. (UEL) Vivemos numa sociedade competitiva. As coletividades dotadas de indivíduos ambiciosos progridem mais, pois é evidente que o progresso do todo depende da intuição de progresso das partes. Mas essa valorização do senso competitivo, característica de nossos dias, torna-se condenável, quando o homem não se atém a concorrer limpamente com seus semelhan-tes. Quando os avilta, inveja, subestima. Devemos supor sempre que o con-corrente nos inspire o máximo de respeito e, longe de ser inimigo, compõe conosco uma peça importante para a motivação do progresso geral.

Indique a alternativa em que se traduz corretamente o sentido de uma expressão do texto.

a) Dotados de indivíduos ambiciosos – providos de pessoas orgulhosas. b) Senso competitivo – interesse egoísta.

c) Sociedade competitiva – comunidade competente. d) Avilta, inveja, subestima – corrompe, trai, critica.

e) Não se atém a concorrer limpamente – o indivíduo não se limita a competir

honestamente.

4. (UEL) Assinale a alternativa em que a CONOTAÇÃO esteja presente.

a) Diante da explosão da aniversariante, todos engoliram o sorriso.

b) A mesa estava imunda e as mães enervadas com o barulho que os fi lhos faziam. c) O vendedor insistira muito e ela, sempre tão tímida quando a constrangiam,

acabou por comprar as rosas.

d) Quando recolheu do chão o caderno aberto, viu a letra redonda e graúda que era a sua.

e) Todas eram vaidosas e de pernas fi nas, com aqueles colares falsifi cados e com as orelhas cheias de brincos.

5. Identifi que as funções da linguagem presentes no texto abaixo, de Nel de Moraes.

Haikai XII

... e, quando amanhece, eu pinto as fl ores-poema

(27)

As Qualidades do Texto Jurídico

Simplicidade: essa é a melhor lição para escrever com qualidade. Defi ciência

“Muitos assim escrevem por deformação educacional ou profi ssional; outros, po-rém, utilizam-se de expressões que não entendem porque pensam que com elas vão adquirir status. Lembram o pobre Fabiano, de Vidas Secas (romance de Graciliano Ramos), personagem de minguados recursos de expressão, que às vezes decorava algumas palavras difíceis e empregava-as inteiramente fora de propósito.”

Adriano da Gama Kury A linguagem jurídica deve ser culta, prerrogativa da Gramática Normativa, po-rém requer fl uência e naturalidade. Prescinde de aparatos idiomáticos, jargões em exces-so, preciosismos, arcaísmos ou calões.

A leitura sistemática, alternada entre textos técnicos ou científi cos, com outros, lite-rários ou fi losófi cos, é a base para uma escrita efi ciente que vise a um texto profi ssional de qualidade. Além disso, o estudo, o domínio e o aprimoramento de alguns recursos lingüís-ticos são pré-requisitos para a composição dessas produções não-literárias. Para tal intento, deve-se compor o texto com concisão, correção e clareza, sob pena de se fazer confundir com outro tipo de gênero – o literário – que se caracteriza pelo ideário artístico cujo autor se vale do nível conotativo da linguagem, bem como de recursos estilísticos que o identifi quem ou o personalizem. Respeitando-se esse conceito, obtém-se a esperada objetividade.

2.1. O que é concisão?

É manter a objetividade acima de tudo. A utilização de subterfúgios lingüísticos ou a difi culdade de se “entrar imediatamente no assunto” caracterizam falta de concisão,

(28)

Exemplo 1:

“Eu escreverei a petição se não houver, como ocorreu ontem, por volta do meio-dia, quando me preparava para realizar uma prova, baixada na Internet, e alguns amigos foram à minha casa, de sunga, para que fôssemos à praia, alguém para me interromper.” Comentários:

Nota-se que a mensagem principal se restringiria ao período “Eu escreverei a petição se não houver alguém para me interromper”, porém, a mensagem extrapolou a necessária concisão com elementos pífi os.

Exemplo 2:

“A Instrução, como todos sabem, ou pelo menos deveriam saber, será, salvo contra-tempo, como por exemplo chuva forte, acidente ou tiroteio, realizada na segunda-feira, se não me engano, 07 de maio de 2008, às 11h 30.”

Correção: mais uma vez, pode-se perceber que a mensagem está truncada, com elementos que nada acrescentam ao contexto principal. O texto sucinto seria: “A Instrução será realizada na segunda-feira, 07 de maio de 2008, às 11h 30.”

2.2. Como atingir a correção vocabular?

Ao compor seu texto, com a qualidade que dele se espera, a linguagem deve estar de acordo com a Norma Culta, ou seja, deve obedecer aos princípios estabelecidos pela gramática ofi cial. Não se pense que escrever difícil é o que se pede; cobra-se, na verda-de, precisão no tocante à grafi a, à concordância, à regência, à colocação pronominal e à pontuação, bem como conhecimento dos processos semânticos: sinonímia, homonímia, paronímia, hiponímia, hiperonímia e polissemia.

Exemplo 1:

“Meu cliente só beijou a boca dela. Não fez essa parada cavernosa que a gente tá discutindo, mas como não tem amor que pode esperar, ela deu mole e ele se deu bem! Apenas isso.”

Correção: “Meu cliente apenas a beijou nos lábios. Não cometeu esse ato libidinoso como quer fazer crer a litigante. Ao acreditar em seu consentimento, cometeu uma imprudência, jamais um crime.”

Exemplo 2:

“... pelos motivos expostos, meu cliente não deve ser considerado um prescrito, afi nal, a dois anos, ininterruptamente, ele comparece às cessões à que é convocado.”

(29)

Correção: neste exemplo, há erros semânticos e regenciais:

1. prescrito é “ordenado, estabelecido”, se o autor quis dizer “banido, desterrado”, que usasse PROSCRITO;

2. a dois anos é erro no emprego da forma temporal, confi gurando “o momento futuro, quando se realizará a ação”; no entanto, o texto apresenta a idéia de “fato ou aconte-cimento já transcorrido”, logo, o autor deveria ter usado HÁ DOIS ANOS;

3. cessões são “doações”; como quis aludir às “reuniões”, o autor do texto deveria ter escrito SESSÕES;

4. em “à que é convocado” ocorre erro de regência: não se usa crase (não há artigo) antes de pronome relativo diferente de “qual”; deveria ser, portanto, ÀS QUAIS ou PARA AS QUAIS é convocado, com a anteposição da preposição que indica fi nalidade.

Reescritura precisa: “... pelos motivos expostos, meu cliente não deve ser considerado um proscrito, afi nal, há dois anos, ininterruptamente, ele comparece às sessões para as quais é convocado”.

2.3. Por que clareza é fundamental?

A clareza não se caracteriza pela unidade, não é uma regra que se estude separada-mente do macrotexto, afi nal consiste na manifestação das idéias de forma que possam ser rapidamente depreendidas pelo leitor comum. Clareza é sinonímia de coerência, e, seus “inimigos” mais comuns são a desobediência às normas da língua, os períodos longos demais, a imprecisão vocabular, a tendência à prolixidade.

Exemplo:

“As vídeolocadoras de São Carlos estão escondendo suas fi tas de sexo explícito. A decisão atende a uma portaria de dezembro de 91, do Juizado de Menores, que proíbe que as casas de vídeo aluguem, exponham e vendam fi tas pornográfi cas a menores de 18 anos. A portaria proíbe ainda os menores de 18 anos de irem a motéis e rodeios sem a companhia ou autorização dos pais.”

(Folha Sudeste) Correção:

“As vídeolocadoras de São Carlos estão escondendo suas fi tas de sexo explícito. A decisão atende a uma portaria de dezembro de 91, do Juizado de Menores, que proíbe que as casas de vídeo aluguem, exponham e vendam fi tas pornográfi cas a menores de 18 anos.

A portaria proíbe os menores de 18 anos de irem a motéis e ainda de freqüentarem rodeios sem a companhia ou a autorização dos pais.”

2.4. Questão comentada

(Unicamp)

Lendo a notícia a seguir, você poderá observar que, além de constar na manchete, o verbo COBRAR ocorre duas vezes no texto.

(30)

Defensor Cobra Investigações no DSP

“O defensor público E. C. K., da 9a Vara Criminal, levou ao juiz das

exe-cuções penais, petição cobrando investigações sobre as denúncias de corrupção envolvendo agentes penitenciários. Um grupo de presos da Delegacia Especializada de Roubos e Furtos denunciou que agentes do Sistema Penitenciário estariam cobrando Cr$ 5.000,00 por uma vaga nos presídios da Capital. O diretor do DSP, P. Vinholi, disse que ainda não está apurando as denúncias porque considera ‘impossível’ ocorrer tal tipo de transação”.

(Diário da Serra, Campo Grande, 26 e 27 de setembro de 1993) a) Transcreva os dois trechos em que ocorre aquele verbo, na mesma ordem. b) Reescreva as duas sentenças usando sinônimos de cobrar.

Respostas

a) “... petição cobrando investigações...” e “... estariam cobrando Cr$ 5.000,00...” b) “... petição exigindo investigações...” e “... estariam recebendo Cr$ 5.000,00...”

Comentários:

A precisão e a clareza são fundamentais à boa argumentação. 2.5. Fixação do conteúdo

1. (Unicamp)

STF dá vitória ao governo no julgamento do artigo 20

“Pela diferença de um voto, o governo saiu vitorioso ontem no julga-mento do pedido de liminar contra o artigo 20 da Lei de Responsabi-lidade Fiscal. Uma retifi cação no voto do ministro Marco Aurélio de Mello garantiu a decisão do STF, que confi rmou a constitucionalidade do artigo que estabelece os limites de gastos com pessoal para os três poderes. A revisão promovida pelo ministro Marco Aurélio favoreceu o governo, que corria o risco de fi car impedido de aplicar cortes de despesas com folha de pagamento previstas na lei, especialmente em relação aos Poderes Legislativo e Judiciário no âmbito dos Estados e Municípios. Existem ainda no STF outras cinco ações propostas pela oposição contra dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal”.

(O Estado de S. Paulo, 12/10/2000) a) No texto acima, ocorrem vários termos de jargão técnico que remetem a

diversas fases do andamento de um processo no judiciário. Transcreva pelo menos três.

b) O que os termos “retifi cação” e “revisão” informam sobre a participação do juiz Marco Aurélio de Mello no julgamento da questão?

c) Do que trata o artigo 20 da Lei de Responsabilidade Fiscal? Responda, com base no texto.

(31)

2. (UFPE)

“A língua é a nacionalidade do pensamento como a pátria é a naciona-lidade do povo. Da mesma forma que instituições justas e racionais revelam um povo grande e livre, uma língua pura, nobre e rica, anun-cia a raça inteligente e ilustrada. Não é obrigando-a a estacionar que hão de manter e polir as qualidades que porventura ornem uma língua qualquer; mas sim fazendo que acompanhe o progresso das idéias e se molde às novas tendências do espírito, sem contudo perverter a sua índole a abastardar-se”.

(José de Alencar)

Na questão a seguir escreva nos parênteses (C) se for CERTO ou (E) se for ERRADO.

Em “... raça inteligente e ILUSTRADA” e “... PERVERTER a sua índole e ABASTARDAR-SE”, os termos em destaque podem signifi car, respecti-vamente:

a) ( ) que tem gravuras ou ilustrações / desvirtuar / abastecer-se; b) ( ) instruída / corromper / degenerar-se;

c) ( ) digna de louvor / transtornar / prover do necessário; d) ( ) distinta / complicar / fazer perder a genuinidade; e) ( ) nobre / estabelecer / corromper-se.

3. (Unitau) Numere a coluna com parênteses de acordo com os signifi ca-dos das palavras da coluna numerada a seguir:

1 – prevaricacão ( ) dignidade, honradez

2 – simoníaco ( ) força divina conferida a alguém 3 – carisma ( ) psíquico, relativo à alma

4 – dogma ( ) falta com o dever por interesse ou por má-fé 5 – anímica ( ) venda ilícita de coisas sagradas ou espirituais 6 – decoro ( ) governo por poucos e poderosos

7 – oligarquia ( ) ponto fundamental indiscutível de doutrina ou sis-tema

Texto para as questões 4 e 5 (Unitau)

“A teoria da argumentação é a parte da semiologia comprometida com a explicação das evocações ideológicas das mensagens. Os novos re-tóricos aproximam-se, assim, da proposta de Eliseo Verón, que, preo-cupado com as condições ideológicas dos processos de transmissão e consumo das signifi cações no seio da comunicação social, chama de semiologia os estudos preocupados com essa problemática, deixan-do como objeto da teoria lingüística as questões tradicionais sobre o conceito, o referente e os componentes estruturais dos signos. Essa demarcação determina que a semiologia deve ser analisada como uma teoria hermenêutica das formas como se manipulam contextualmente os discursos”.

(Rocha e Cittadino, O Direito e sua Linguagem. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 1984. p. 17)

(32)

4. As palavras “argumentação”, “manipulação” e “hermenêutica” signifi -cam, respectivamente:

a) ato de debater; ato de criticar; ato de agir com ponderação; b) ato de produzir falácias; ato de fazer remédios; ato de signifi car; c) ato de enganar; ato de pressionar; ato de atribuir signifi cado a teorias; d) ato de apresentar raciocínios; ato de conservar alguma coisa ou alguma

situação; ato de interpretar textos e sentidos das palavras; e) ato de elaborar idéias; ato de forçar alguém, ato de questionar.

5. No texto, aparecem palavras que são específi cas do esquema da comu-nicação. Indique-as: a) ideológica, consuma; b) mensagem, referente; c) transmissão, problemática; d) lingüística, semiológico; e) signo, hermenêutica.

6. (UFRS) A pronúncia das palavras na linguagem coloquial por vezes se distancia bastante de sua representação escrita. Em alguns casos, essa diferença chega a determinar uma quantidade diferente de síla-bas entre a palavra escrita e sua pronúncia na linguagem coloquial. Este é o caso de todas as palavras a seguir, COM EXCEÇÃO DE:

a) objeto; b) psicanalista; c) quarto; d) captar; e) signifi cado.

7. (FGV) Figurou recentemente, num jornal da cidade, a frase a seguir: “Embora fosse prolixo, o apresentador ultrapassou o tempo previs-to”.

Examine atentamente o sentido dessa frase. Se for o caso, corrija-a no que for necessário e explique o porquê da correção.

Caso você considere correta a frase, escreva apenas: A frase está cor-reta.

8. (UFF) Sobre as palavras destacadas nos versos a seguir, assinale a afi rmativa correta.

“E suas VERGONHAS tão altas e tão saradinhas Que de nós as muito olharmos

Não tínhamos nenhuma VERGONHA”.

a) Seus sentidos são diferentes, mas têm a mesma classe gramatical. b) Seus sentidos são distintos e suas classes gramaticais são diferentes. c) Ambas têm o mesmo sentido, mas as classes gramaticais são diferentes. d) Ambas têm o mesmo sentido e a mesma classe gramatical.

(33)

Capítulo 2

Léxico e Vocabulário

Jurídico

(34)
(35)

Léxico

e

Vocabulário

Na construção de um discurso persuasivo, prerrogativa da linguagem jurídica, deve-se estabelecer criteriosamente a diferença de conceito que existe entre léxico e vocabulário. Embora os gramáticos não tendam a distanciá-los, os lingüistas o fazem com primazia.

Consoante defi nição do Dicionário Aurélio Século XXI, léxico é: “Dicionário dos vocá-bulos usados por um autor ou por uma escola literária”.

De forma distinta, assim determina o conceito de vocabulário: “Lista de palavras ou expressões de uma língua ou de um estágio dela, de um dialeto, de um autor, e de um ramo de conhecimento, técnica ou atividade, geralmente dispostas em ordem alfabética, e que podem vir ou não acompanhadas das classes gramaticais a que pertencem e/ou de outras indicações”.

Entendendo as diferenças: enquanto o léxico é o próprio dicionário, ao representar um conjunto dinâmico, em constante processo de transformação, organizado em ordem alfabética, contendo ou não o signifi cado e a classe a que pertence o vocábulo, o vocabulá-rio é a seleção e o emprego de certas palavras pertencentes ao léxico (dicionávocabulá-rio) para fi ns de comunicação entre os seres humanos. Ademais o vocabulário refl ete os extratos social e cultural aos quais pertence o falante que dele faz uso.

Exemplos:

a) Marcos é plantador de aipim no interior do Rio de Janeiro. b) João é vendedor de mandioca em São Paulo.

c) Maria é advogada, consumidora voraz de macaxeira, em Salvador. Comentários:

Recorrendo-se ao léxico, teremos o seguinte vocabulário: aipim e mandioca (Sudeste bra-sileiro); macaxeira (Regiões Norte e Nordeste do Brasil); todos, entretanto, têm a mesma signifi cação, variando apenas os aspectos socioculturais e geográfi cos.

Para evolução constante e necessária, sugiro aos estudantes da área jurídica os seguintes tipos de livros e de dicionários: de Direito, nas áreas que o compõem; de Defi nições (Filológico); de Etimologia; de Sinônimos e Antônimos; de Fi-losofi a; de Lingüística; além do VOLP – Vocabulário Ortográfi co da Língua Portuguesa.

(36)

3.1. Semântica

Estuda a signifi cação das palavras, as mudanças de sentido através do tempo ou em uma determinada época. Divide-se em sincrônica (relativa à contemporaneidade) e diacrônica (relativa à sua constante evolução).

A semântica estuda sistematicamente os seguintes pontos:

3.1.1. Significante

Elemento visível, material, que representa o vocábulo em si, constituído por fone-mas e letras: exclusivamente lexical.

Exemplos:

a) Vi ontem uma estrela cadente.

Estrela: substantivo feminino e primitivo, constituído de sete fonemas e igual nú-mero de letras.

b) A estrela encenará às dez em ponto.

Estrela: substantivo feminino e primitivo, constituído de sete fonemas e igual nú-mero de letras.

3.1.2. Significado

Representa o sentido, a informação que a palavra carrega no contexto em que se insere. Pode ser denotativo ou conotativo.

Exemplos:

a) Vi ontem uma estrela cadente.

Estrela: denominação comum aos astros luminosos que mantêm praticamente as mesmas posições relativas na esfera celeste. Sentido denotativo.

b) A estrela encenará às dez em ponto.

Estrela: Atriz notável, de categoria reconhecida. Sentido conotativo.

3.1.3. Campo semântico

É formado por grupos de palavras que mantêm entre si relações de sinonímia e que representam, basicamente, uma única idéia central.

Exemplos:

a) casa, residência, moradia, habitação, sobrado, lar, apartamento, abrigo, teto – todas repre-sentam a mesma idéia: lugar onde se mora.

(37)

3.1.4. Cognação

Palavras que, derivadas de outras, primitivas, com elas ainda conservam vínculo semântico.

Exemplos:

a) través, travessa, travessão, atravessar, travesseiro – todas mantêm entre si a relação primária de “direção oblíqua, esguelha, soslaio, obliqüidade, viés”;

b) terra, enterrar, aterrar, aterrissar, terremoto – todas mantêm entre si a relação primária de “solo”.

Cognação no Direito Romano signifi cava grau de parentesco consangüíneo pelo lado materno ou paterno, indiferentemente.

3.1.5. Sinonímia

É a relação existente entre vocábulos que apresentam sentidos semelhantes, e não, necessariamente, iguais.

Exemplos: zelar = cuidar; calmo = tranqüilo; atro = negro; branco = alvo.

Sobre a sinonímia deve-se entender que raramente existem sinônimos perfeitos; normalmente é o contexto que defi ne com clareza a intenção do emissor da mensagem. Leia os exemplos que seguem com as palavras casa, habitação e lar, teoricamente sinô-nimas:

a) “Minha casa precisa de uma reforma em seus alicerce.”

b) “Eis meu lar, minha casa, meus amores.” (Casimiro de Abreu, Obras, p. 108) c) “Dê-lhes uma habitação para que não morram ao relento.”

Comentários:

No primeiro exemplo, casa é termo hipônimo, de natureza particular, específi ca, que desig-na o tipo de habitação, sem menciodesig-nar se há a constituição de um lar. No segundo, lar é sua família, sobretudo quando o poeta cita que são seus amores os constituintes desse lar e que moram nesse tipo de habitação, denominada casa. Já no terceiro exemplo, não se alude ao tipo de moradia que se deve doar ao(s) necessitado(s), usa-se, na verdade, uma decisão que indica: “Direito real que têm uma pessoa e sua família de habitar gratuitamente casa alheia”.

3.1.6. Antonímia

É a relação existente entre vocábulos de sentidos opostos, contrários. Nomes con-cretos, via de regra, não apresentam antônimos.

Exemplos:

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3.1.7. Homonímia

É a relação existente entre vocábulos da mesma estrutura fonológica no plano do signifi cante. Os homônimos podem ser:

A. Homófonos heterográfi cos – iguais na pronúncia, diferentes na escrita. Exemplos:

censo = contagem ≠ senso = juízo;

concerto = apresentação musical ≠ conserto = remendo; seção = divisão ≠ sessão = reunião ≠ cessão = doação; taxa = tributo ≠ tacha = pequeno prego.

B. Homófonos homográfi cos – iguais na pronúncia e na escrita, também chamados de homônimos perfeitos.

Exemplos:

alvo = substantivo = mira ≠ alvo = adjetivo = branco; casa = verbo casar ≠ casa = substantivo = moradia; livre = verbo ≠ livre = adjetivo;

manga = substantivo = fruta ≠ manga = verbo mangar (zombar). C. Homógrafos heterofônicos – iguais na escrita, diferentes na pronúncia.

Exemplos:

colher (é) = substantivo = talher ≠ colher (ê) = verbo;

jogo (ó) = verbo jogar ≠ jogo (ô) = substantivo = entretenimento ou disputa; meta (é) = objetivo ≠ meta (ê) = verbo meter;

molho (ó) = verbo molhar ≠ molho (ô) = pequeno feixe; creme culinário.

3.1.8. Paronímia

É a relação existente entre vocábulos semelhantes na pronúncia e na escrita, porém, diferentes quanto ao signifi cado.

Exemplos:

arrear = selar ≠ arriar = abaixar;

eminente = importante ≠ iminente = impendente; ratifi car = confi rmar ≠ retifi car = corrigir;

vultosa = importante, considerável ≠ vultuosa = face inchada e vermelha.

3.1.9. Polissemia

Propriedade de alguns vocábulos que, apesar de apresentarem signifi cados diversos, dependentes de um novo contexto, mantêm inalterado seu signifi cante:

(39)

Exemplos: Grupo I – o verbo a) Paula anda triste. b) Esse processo não anda! c) Anda sempre de bicicleta.

d) A menina anda desde os oito meses. e) O tempo anda depressa.

f) Ela anda mesmo sem seu amor. Comentários:

Pode-se notar que, embora o signifi cante seja sempre o mesmo, o signifi cado se altera a cada novo contexto:

a) Paula está triste.

b) Esse processo não prossegue! c) Passeia sempre de bicicleta.

d) A menina caminha desde os oito meses. e) O tempo transcorre depressa.

f) Ela vive mesmo sem seu amor. Grupo II – o nome

a) Jonas quebrou a cabeça.

b) Na cabeça do alfi nete desenha maravilhas. c) Esse rapaz perdeu a cabeça e agrediu a namorada. d) Falta-lhe cabeça para entender a língua portuguesa. e) Você não me sai da cabeça.

f) Texto como este só poderia sair da cabeça de um Machado. g) De uma cabeça fi z 4000 touros e vacas.

h) Gosta de postar-se na cabeça da procissão. i) Com essa nota você vai para as cabeças.

j) João Cândido foi o cabeça da Revolta da Chibata. Comentários:

Pode-se notar que, embora o signifi cante seja sempre o mesmo, o signifi cado se altera em cada contexto:

a) Jonas quebrou o crânio.

b) Na extremidade do alfi nete desenha maravilhas. c) Esse rapaz perdeu o juízo e agrediu a namorada. d) Falta-lhe tirocínio para entender a língua portuguesa. e) Você não me sai da memória.

(40)

f) Texto como este só poderia sair da imaginação de um Machado. g) De um animal fi z 4000 touros e vacas.

h) Gosta de postar-se na frente da procissão.

i) Com essa nota você vai para as primeiras colocações. j) João Cândido foi o líder da Revolta da Chibata.

3.2. Considerações sobre a Polissemia – a etimologia

“A única forma de resolver ou talvez de delimitar o problema tradicional da homo-nímia e polissemia é abandonar totalmente os critérios semânticos na defi nição do lexema, contando apenas com os critérios sintáticos e morfológicos”. Lyons (1987: 143)

A etimologia baseia-se no diacronismo, a origem e evolução dos vocábulos no tem-po. Muitos termos que hoje temos num certo sentido, revelam sentidos diversos em outros momentos e em outros contextos históricos.

Cite-se como exemplo a palavra maravilha – “Ato ou fato extraordinário, surpreen-dente, admirável, assombroso”. Se, originalmente, a carga semântica, emocional, do signi-fi cado indicava o sentido básico de “surpresa”, numa próxima releitura emocional passou a indicar “Milagre de Deus”, como na tradução da Bíblia Sagrada, em texto relacionado à “Anunciação de Maria”: “Deus fez em mim maravilhas!” ou Deus operou em mim um milagre.

Ora, se Deus opera milagres e Deus é Justo, Bondoso, Sapientíssimo, por que não readaptar o sentido de “milagre divino” a algo “belo, fascinante”? Hoje, ao admirarmos uma paisagem que nos extasia, dizemos: “Que vista maravilhosa!”, neste caso, claramente esta-mos “surpreendidos” com o “Milagre de Deus” que propiciou o espetáculo de “beleza” que se põe diante de nossos olhos estupefatos.

Passemos a outro exemplo, agora com prefi xos. Quando se pretende compor um texto e surge uma dúvida quanto ao emprego correto do prefi xo, o que fazer? Como saber que Imoral não é o mesmo que Amoral? De fato, é difícil uma resposta sem estudo apro-fundado. Vamos entender.

O prefi xo i(n) indica negação ou sentido contrário; já o prefi xo a signifi ca ausência, falta de. Ocorre que a moral – não confundir com o moral: “ânimo, disposição, vontade” – representa “o conjunto das nossas faculdades morais; brio, vergonha”, segundo o Dicio-nário Aurélio Século XXI. Imoral é o sujeito contrário à moral; desonesto; libertino, desleal; porém, o sujeito amoral é o que não tem o senso da moral, ou seja, se não segue os padrões normativos, provavelmente não o faz de forma premeditada, agressiva, mas por ignorância ou desconhecimento desses mesmos padrões. Então a qual dos dois poderia ser aplicado o prefi xo anti? Como o prefi xo grego anti representa uma ação contrária, não parece certo dizer antimoralidade com sentido de amoralidade, mas sim imoralidade. Como se pode notar, esse estudo é complexo, requer tempo e conhecimento, porém, constitui-se em aprendizado prazeroso.

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3.3. Polissemia e pontuação

Analisemos a palavra quadrilha: “Turma de quatro ou mais cavaleiros, dispostos para o jogo das canas – antigo jogo militar em que os jogadores se digladiavam com canas como se fossem lanças.”

Desse conceito simples, converteu-se, no tempo, para qualquer associação de “qua-tro malfeitores a praticarem atos criminosos”. Com o passar do tempo, qua“qua-tro – numeral, por isso, mensurado – desapareceu do contexto, passando a qualquer quantidade dessa mes-ma associação, ou súcia, corja, bando (daí bandidos) – coletivos, logo, imensuráveis.

No século XIX, surge na Europa, especifi camente na França, uma contradança de salão alegre e movimentada e que originaria, no interior e depois nas grandes urbes do Brasil, as nossas danças de quadrilha que acontecem nas festas juninas, igualmente alegres e movimentadas.

Como nos interessa a carga emocional na acepção gramatical, perceba como a pontuação interfere no sentido que se quer atribuir a essa palavra:

Grupo I

a) Vamos dançar quadrilha? b) Vamos dançar, quadrilha?

Grupo II

a) Vamos dançar quadrilha! b) Vamos dançar, quadrilha! Comentários:

As letras a dos Grupos I e II remetem ao sentido de “dança”, o que se altera é a carga emocional que representam (em I há incerteza, questionamento; em II, surpresa e conten-tamento); já nas alíneas b dos grupos I e II, o verbo dançar é usado em sentido conotativo/ coloquial, representando a idéia de que o bando (acepção de quadrilha nessas alíneas) não logrará êxito em seu intento criminoso. Mais uma vez, o que estabelece o tom emocional de cada discurso é a pontuação: em I há preocupação com a possibilidade de serem capturados; em II, a certeza de que isso ocorrerá.

3.4. A etimologia na área jurídica

De forma análoga, quando analisamos as palavras aparentemente sinônimas cortesã, amante e companheira, afeitas ao meio jurídico, temos:

a) cortesã: originalmente representava a mulher que vivia ou morava na corte, com o tempo passou a designar “acompanhante” de um nobre dessa mesma corte; hoje, representa uma “garota de programa”;

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b) amante: originalmente signifi ca uma pessoa que admira determinado objeto, pessoa, pai-sagem (Maria é amante de vasos chineses ou Maria é amante da natureza). Com o tempo passou a denominar pessoa que se apaixona por alguém. Hoje, é alguém que mantém relação extramatrimonial com outrem (o mesmo que amásia que signifi cava “namorado[a]”). c) companheira (concubina): é a mulher que vive com homem com quem não é

legal-mente casada. Comentários:

Embora pareçam ter sentidos semelhantes, pode-se ser amante sem ocorrência de concu-binato (forma de união conjugal que implica direitos e deveres mais ou menos determi-nados, e considerada distinta do casamento, segundo critérios variáveis consoante cada sociedade), desde que essa relação não se confi gure estável ou possa ser reconhecida diante da lei. Logo, cortesã ou amante estão mais próximas quanto à carga semântica por repre-sentarem desvio de conduta, condenáveis socialmente, em oposição à companheira (ou concubina) protegidas por legislação específi ca.

Outro exemplo:

Tempo – do latim tempus – passou por várias alterações de sentidos: a) sucessão cronológica que determina noções de presente, passado e futuro; b) ocasião apropriada ou disponível;

c) condições meteorológicas;

d) período em que se vive; época, século, era; e) fl exão verbal usada nas conjugações; f) períodos em que se dividem certos jogos; g) andamento musical.

Na área jurídica, mantém-se o sentido primitivo nas formas tempestivo (que vem ou sucede no tempo devido; oportuno) e intempestivo (que vem ou sucede fora do tempo próprio; inoportuno).

3.5. Questão comentada

1 Ouço muito: um bom texto deve ser claro e conciso.

Não há dúvida de que a clareza é a principal qualidade do texto. Ser conciso, entretanto, é uma luta muito árdua.

2 Ser conciso é dizer o necessário com o mínimo de palavras, sem preju-dicar a clareza da frase. É ser objetivo e direto.

3 E aqui está a nossa difi culdade. Nós, brasileiros, estamos habituados a falar muito e dizer pouco, a escrever mais que o necessário, a discur-sar mais para impressionar do que comunicar.

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Referências

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