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A escravidão contemporânea no Brasil

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA GIOVANNA MARIA CANONICO SOTTILE

A ESCRAVIDÃO CONTEMPORÂNEA NO BRASIL

Araranguá 2019

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A ESCRAVIDÃO CONTEMPORÂNEA NO BRASIL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Nádila da Silva Hassan, Esp.

Araranguá 2019

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À minha mãe Rosa e meu pai Alessandro que sempre me deram apoio em todos os momentos, amor incondicional e sempre acreditaram em mim. Ao meu lindo noivo, e quase esposo, Lu, por todo companheirismo, incentivo, amor e conselhos que me dá todos os dias. Ao meu irmão Lucas por toda confiança e risadas. Aos meus amigos, principalmente à minha amiga Lúcia, que me acompanhou e me incentivou durante todo trabalho.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus e aos meus pais por todo apoio e amor que me dão todos os dias, e que mesmo com a distância estão sempre comigo.

Ao meu, em breve, marido que em todos os momentos está ao meu lado, me ajudando e aconselhando, além de todo amor, carinho, alegria e incentivo que me dá todos os dias.

Ao meu irmão pela confiança e risadas que me proporciona.

A todos os meus familiares, de sangue ou de coração, que me trouxeram momentos de alegria e muito companheirismo.

À minha orientadora Prof. Nádila Hassan, que sempre esteve disposta a me ajudar, buscando o melhor desempenho possível, com muita paciência, conhecimento e compreensão.

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“Deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chances.” (Renato Russo).

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RESUMO

A presente monografia possui o objetivo de estudar o que é considerado escravidão contemporânea no Brasil, suas principais causas, quem são as vítimas atingidas e como essas condições violam as normas inseridas na legislação brasileira, dando destaque aos princípios constitucionais. Inicialmente é feita uma breve análise histórica da escravidão. Seguindo com a apresentação de alguns conceitos, analisando o perfil das vítimas do trabalho escravo e destacando as características da escravidão na contemporaneidade brasileira. Posteriormente, procede-se à observância de alguns tratados e convenções internacionais, importantes na luta contra o trabalho escravo, seguindo ao estudo das normas constitucionais do trabalho e da legislação infraconstitucional infringidos com a presença de condições análogas à de escravo. Por fim, são identificadas as mais relevantes medidas de combate ao trabalho escravo, tanto governamentais, quanto sociais e aponta-se os principais desafios enfrentados na busca da erradicação da escravidão contemporânea no Brasil. O estudo de todo o trabalho é baseado em pesquisas bibliográficas e legislativas. Conclui-se que para se alcançar o objetivo de extinguir o trabalho escravo no país, se torna necessário a concretização das normas e fundamentos contidos na Constituição Federal, além do respeito e aplicação, de fato, das leis previstas infraconstitucionalmente, por meio de medidas públicas dirigidas à diminuição das desigualdades socias, levando em consideração que a falta de educação, conhecimento, a miséria e o desemprego são os principais contribuintes para a submissão do indivíduo à escravidão.

Palavras-chave: Trabalho escravo. Escravidão contemporânea. Condições análogas à de escravo.

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ABSTRACT

The present monograph aims to identify what is considered contemporary slavery in Brazil, its main causes, who are the victims affected and how these conditions violate the norms inserted in the Brazilian legislation, highlighting the constitutional principles. Initially a brief historical analysis of slavery is made. Following with the presentation of some concepts, analyzing the profile of the victims of slave labor and highlighting the characteristics of slavery in the Brazilian contemporary. Subsequently, some international treaties and conventions that are important in the struggle against slave labor are followed, following the study of constitutional labor standards and insfraconstitutional legislation infringed by conditions similar to slave conditions. Finally, the most relevant measures to combat slave labor, both governmental and social, are identified and the main challenges faced in the search for the eradication of contemporary slavery in Brazil are identified. The study of all the work is based on bibliographical and legislative research. It is concluded that in order to achieve the objective of extinguishing slave labor in the country, it is necessary to implement the norms and foundations contained in the Federal Constitution, in addition to the respect and application, in fact, of the laws envisaged infraconstitucionalmente, through public measures directed to the reduction of social inequalities, taking into account that lack of education, knowledge, misery and unemployment are the main contributors to the subjection of the individual to slavery.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ART- Artigo

CF- Constituição Federal

CP – Código Penal

CC- Código Civil

CLT - Consolidação das Leis do Trabalho

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

CONAETE - Coordenadoria Nacional de Erradicação ao Trabalho Escravo

CPT - Comissão Pastoral da Terra

CTPS - Carteira de Trabalho e Previdência Social

CUT- Central Única dos Trabalhadores

DUDH- Declaração Universal dos Direitos Humanos

GEFM - Grupo de Especialização de Fiscalização Móvel

GERTRAF - Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado

IOS - Instituto Observatório Digital

IN - Instrução Normativa

MPT- Ministério Público do Trabalho

MTE - Ministério do Trabalho e Emprego

MPF - Ministério Público Federal

ONG - Organizações Não Governamentais

OIT - Organização Internacional do Trabalho

SDN - Sociedade das Nações

SIT - Secretaria de Inspeção do Trabalho

STF - Supremo Tribunal Federal

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1 INTRODUÇÃO... 10

2 O TRABALHO ESCRAVO NO TEMPO ... 12

2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA ESCRAVIDÃO ... 12

2.1.1 Da escravidão na antiguidade ... 12

2.1.2 Breve histórico da escravidão no Brasil ... 13

2.1.3 O período abolicionista ... 15

2.2 A ESCRAVIDÃO NA CONTEMPORANIEDADE BRASILEIRA ... 16

2.2.1 Conceitos sobre a escravidão contemporânea ... 16

2.2.2 As vítimas da escravidão contemporânea ... 18

2.2.3 As condições análogas à escravidão ... 20

2.2.4 Restrição de locomoção em razão de dívida e Retenção no local de trabalho ... 21

2.2.5 Trabalho forçado ... 24

2.2.6 Jornada exaustiva ... 25

2.2.7 Condições degradantes ... 26

3 A ESCRAVIDÃO NO ORDENAMENTO JURÍDICO NACIONAL E INTERNACIONAL ... 28

3.1 NORMAS INTERNACIONAIS ... 28

3.1.1 Principais Convenções e Tratados Internacionais ... 28

3.2 ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO ... 32

3.2.1 Os valores socias do trabalho e a livre iniciativa ... 32

3.2.2 A função social da propriedade... 33

3.2.3 O direito à igualdade ... 35

3.2.4 O direito à liberdade ... 36

3.2.5 A dignidade da pessoa humana ... 37

3.2.6 Legislação infraconstitucional – Código Penal ... 39

4 AS MEDIDAS DE COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO ... 42

4.1.1 Os principais mecanismos governamentais de fiscalização e combate... 43

4.1.2 As organizações não governamentais ... 45

4.1.3 A assistência e inclusão do trabalhador na sociedade ... 48

4.1.4 Os desafios da erradicação da escravidão contemporânea ... 49

5 CONCLUSÃO ... 52

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1 INTRODUÇÃO

Este estudo possui a proposta primordial de analisar o trabalho escravo contemporâneo na realidade brasileira, uma vez que, atualmente, o número de trabalhadores encontrados em situações análogas à de escravo no país, infelizmente, ainda é bastante expressivo.

Diante do fato, nasceu o anseio por estudar o referido tema um pouco mais a fundo, visando conhecer as características dessa nova forma de escravidão e quais atitudes estão sendo tomadas para prevenir o surgimento de novos casos.

A escravidão contemporânea carrega consigo um enorme retrocesso social. Além disso, menospreza os valores sociais do trabalho e a dignidade da pessoa humana, tida como princípio basilar da norma constitucional.

O cidadão que se encontra em uma situação de vulnerabilidade, buscando satisfazer as necessidades básicas de seus familiares, ou por falta de conhecimento, acaba deixando-se escravizar, na esperança da conquista de uma vida digna.

Importante ressaltar que o trabalho em condições degradantes não conflita apenas com os princípios fundamentais citados, mas também com vários outros direitos essenciais, além dos objetivos fundamentais do Estado.

Neste contexto, busca-se esclarecer o que configura o trabalho escravo hoje em dia, quais as principais normas norteadoras e quais medidas estão sendo tomadas para seu combate e fiscalização. No mesmo sentido, como questões secundárias, ainda se torna necessário expor o perfil das vítimas atingidas pela escravidão, quais atitudes tomadas após a libertação do trabalhador e porque essas condições desumanas de trabalho são tão difíceis de serem combatidas de uma forma efetiva.

A temática será desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica e documental, através de leituras, observação de documentários, análise da legislação e jurisprudência, além do estudo de vídeos relacionados ao tema.

O presente trabalho foi elaborado em três capítulos. O primeiro trata da evolução histórica do trabalho escravo; abordando a escravidão na antiguidade, no Brasil colonial, o período pós abolição, até chegar nos conceitos sobre a escravidão contemporânea. Segue com a apresentação das vítimas do trabalho escravo e a classificação das condições análogas à escravidão. No segundo momento, abrange a escravidão no ordenamento jurídico internacional e nacional, trazendo as principais Convenções e Tratados Internacionais, em especial os ratificados pelo Estado brasileiro, os princípios básicos do trabalho presentes na

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Constituição Federal e o Código Penal como dispositivo infraconstitucional essencial contra a escravatura moderna. Posteriormente, passamos a estudar os mecanismos de fiscalização e combate à escravatura no Brasil contemporâneo, quais ações tomadas pelo Estado e organizações sociais para auxiliar e inserir os trabalhadores libertados no mercado de trabalho, e quais as maiores dificuldades existentes na atualidade para concretizar a erradicação da escravidão contemporânea no país.

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2 O TRABALHO ESCRAVO NO TEMPO

O presente capítulo possui como principal objetivo esclarecer acerca do trabalho escravo, desde seu início até a atualidade. Traremos aqui as principais características da escravidão no passado, seus conceitos contemporâneos, quem são as vítimas atuais e suas diferentes formas.

2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA ESCRAVIDÃO

Iniciaremos com uma breve apresentação sobre o desenvolvimento da escravidão na história. A princípio será abordado aspectos da escravidão na antiguidade. Posteriormente, faz-se menção à servidão no Brasil colonial, relacionada a submissão de negros e indígenas, e em seguinte, esclarecimentos sobre o período abolicionista.

2.1.1 Da escravidão na antiguidade

A doutrina não é unânime considerando o momento em que surgiu a escravidão no mundo. O que se sabe é que a escravidão é um processo antigo e está contida na história da humanidade, conforme afirma Mello (2003, p. 15) “a origem da escravidão se perde na escuridão dos tempos, e que vestígios de cultura escravagistas se encontram nos mais remotos tempos da pré-história e em toda parte onde o homem passou”.

Na mesma ótica, Queiroz (1987, p. 5-6) diz que

a escravidão é instituição tão antiga quanto o gênero humano e de amplitude universal, pois, legitimada pelo direito do mais forte, ocorreu em todos os tempos e em todas as sociedades. Basta a leitura da Bíblia ou de outros livros que também tratem de épocas remotas para se ter uma idéia [sic] de sua antiguidade. No Egito, por exemplo, foram os escravos que ergueram as pirâmides destinadas a perpetuar a glória dos faraós. Da Babilônia de Hamurabi à Fenícia, da Grécia clássica à Roma também clássica, a grande maioria dos povos antigos conheceu a escravidão.

Em todo momento histórico, até mesmo na pré-história, idade antiga e idade média, faziam-se uso da mão de obra escrava; tanto na antiguidade oriental como na clássica, cada qual com suas próprias características. Na Mesopotâmia e no Egito recrutavam trabalhadores para executarem obras públicas ou construírem templos. Esses trabalhadores tornavam-se propriedade de seus governantes, os quais lhes atribuíam tarefas de forma autoritária. A tarefa aqui era habitual, diferente do que era proposto na Grécia e Roma, onde o trabalho escravo era a principal forma de prestações de serviço (PINSKY, 2011, p. 13).

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Silva (2002, p. 79) expõe que o surgimento da história escravista pode ser associada à domesticação de animais no período Neolítico. Com o desenvolvimento da agricultura e o início de conflitos entre povos, certos grupos passaram a aplicar em seus prisioneiros de combate os mesmos processos e instrumentos que utilizavam em animais, como a coleira, o curral, a chibata e até mesmo a marcação com ferro em brasa para se distinguir a posse. No entanto, o autor também sugere a inversão do argumento, dizendo que seria provável o homem ter tomado a servidão primeiramente de outro ser humano, ao invés de colocar a seu serviço um animal, excluindo-se talvez o cão.

No Império Romano, os escravos marcaram presença por todo período, “todos aqueles que pertencessem a cidades hostis eram moralmente indignos, agiam injustamente e logo eram passíveis de serem derrotados e escravizados” (JOLY, 2005, p. 41).

O escravo não era considerado um cidadão. A população romana possuía a ideia de que portavam superioridade aos trabalhadores dominados. A superioridade significava o poder de ter o indivíduo como bem e usar do mesmo como propriedade: “Meu pai, escreve Galeno, “sempre me ensinou a não encarar tragicamente as perdas materiais; se me morre um boi, um cavalo ou um escravo não faço disso um drama” (DUBY, 2006, p. 61).

Na época, era considerado natural a existência de homens dispostos a mandar, como também naturalmente haviam homens que nasceram para obedecer (ARISTÓTELES, 1997 apud TOSI, 2003, p. 80), era algo comum e fazia parte da rotina dos moradores.

Independentemente do local em que a escravidão ocorria, o indivíduo sempre foi excluído da comunidade cidadã, não possuindo liberdade e o mínimo de direitos. Seu papel era apenas o de servir de acordo com a vontade de seu senhor.

2.1.2 Breve histórico da escravidão no Brasil

No Brasil, os primeiros sinais da escravidão surgiram com os povos indígenas nativos, após a chegada das embarcações portuguesas em 1500.

Inicialmente, a relação entre os portugueses e os índios se deu pelo escambo. Em troca de objetos banais, desconhecidos pelos nativos, os mesmos transportavam os produtos da extração do pau-brasil e forneciam alimentos para os colonizadores. Eles recebiam espelhos, apitos, colares, em troca de seu trabalho, dando início, assim, a escravatura, sendo algo “regulamentado pela coroa portuguesa e que atingiu caráter amplo no espaço e no tempo” (PINSKY, 2011, p. 17).

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Com a queda na produção do pau-brasil, como consequência de sua exploração excessiva, tornou-se necessário realizar outra atividade econômica para que se obtivesse lucro. Com isto, Portugal implementa no solo da colônia brasileira o plantio de cana de açúcar, trazendo consigo os escravos negros vindos da África, sendo mão de obra fundamental para o desenvolvimento da agricultura, já que a população indígena diminuía, devido a guerras de conquistas e doenças trazidas pelos europeus. Além disso, a igreja lutava pela proibição da escravidão deste povo, argumentando que o índio possuía uma boa alma e apenas precisaria conhecer o Deus cristão (A ESCRAVIDÃO..., 2016, p. 1).

Os negros eram trazidos da África acorrentados nos porões dos navios portugueses e grande parte acabava por não sobreviver ao trajeto. Os que sobreviviam, logo ao chegarem no Brasil, eram vendidos aos grandes proprietários de terras que não se importavam em separar familiares, como pais e filhos, caso não fosse de seu interesse possuir toda família. Restando claro o domínio e poder que o indivíduo tinha sobre o outro, sem qualquer preocupação ou respeito a natureza humana (PINSKY, 2011, p. 44-45).

A escravidão africana se tornou uma das principais fontes de renda da Coroa Portuguesa devido ao fato dos escravos produzirem mercadorias e ao mesmo tempo serem a própria mercadoria, pois eram vendidos como produtos para outras regiões, gerando baixo custo aos processos.

Os mesmos eram tratados da pior maneira possível. Trabalhavam demais, debaixo chuva ou sol, sem qualquer intervalo, recebendo míseros trapos de roupas e comida de péssima qualidade (A ESCRAVIDÃO..., 2016, p. 1). A violência também fazia parte da rotina de todos. Seus proprietários praticavam livremente diversas formas de coações físicas para que as obrigações fossem cumpridas pelos trabalhadores:

Correntes, gargalheira, tronco, algemas, peia, máscara, anjinho, bacalhau, palmatória, golilha, ferro para marcar figuram em listas de castigos aplicados a escravos e que foram classificados pelo antropólogo Artur Ramos em instrumentos de suplício e instrumentos de aviltamento. (RAMOS apud PINSKY, 2011, p. 72). Pinsky (2011, p. 76) ainda complementa ao dizer que também haviam surras programadas e públicas que ocorriam muitas vezes sem nenhuma razão, sendo proibida qualquer manifestação de rebeldia. A tortura era avisada antecipadamente, gerando uma aglomeração de pessoas nas praças, que buscavam encontrar o melhor lugar para assistir o sofrimento alheio.

A condição era tão degradante que muitos escravos se suicidavam. Algumas mulheres, quando engravidavam, provocavam abortos para que seus descendentes não passassem pelo mal da escravidão quando nascessem. (A ESCRAVIDÃO..., 2016, p. 1).

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Não demorou muito para os escravos reagirem aos maus tratos e passassem a lutar contra a dominação dos senhores brancos através de rebeliões, fugas e criação de quilombos, “localidade povoada por negros que haviam fugido do cativeiro, sendo dividida e organizada internamente; geralmente, também havia índios ou brancos” (QUILOMBO, 2019, p. 1).

Segundo Mattoso (1988, p. 176), um dos quilombos mais conhecidos na história foi o Quilombo dos Palmares, que chegou a ter cerca de vinte mil refugiados, sob os cuidados de Zumbi, chefe dessa república. Os escravos que conseguiam permanecer ali eram considerados livres e montavam grupos de resgate para salvar outros escravos. Essas pessoas viviam de pesca e de alimentos ali cultivados.

Contudo, mesmo após diversos movimentos de resistência, o primeiro ato abolicionista de fato ocorreu apenas em 1826.

2.1.3 O período abolicionista

A abolição da escravatura no Brasil foi fruto de um longo processo envolvendo intensa manifestação popular e pressão à monarquia.

Em 1827, o Brasil legitimou o acordo feito com a Inglaterra em 1826, no qual se comprometia pôr fim ao tráfico de escravos africanos no período de três anos, porém apenas no ano 1831, o país de fato promulgou a lei que proibiu o tráfico de pessoas e declarou livre os prisioneiros que desembarcassem nos portos posteriormente àquela data. A Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850, veio para proibir de vez a entrada de escravos negros no Brasil. Mais tarde, em 1871 foi criada a Lei do Ventre Livre (Lei nº 2040), considerando livre todos os filhos de mulher escravas nascidos a partir da criação da mesma. Os idosos receberam a Lei dos Sexagenários, em 1885, concedendo a liberdade aos escravos com idade superior a sessenta anos. Enfim, no dia 13 de maio de 1888, princesa Isabel assina a Lei nº 3.353, ficando conhecida como Lei Áurea, concedendo, teoricamente, a liberdade para todos os escravos do país (SILVA, 2009, p. 27-32).

A realidade é que a concessão do direito fundamental ocorreu muito mais em razão de motivos econômicos do que por pura consciência humanitária, pois devido ao desenvolvimento do mercado financeiro e o crescimento das indústrias, passou-se a necessitar de trabalhadores assalariados. A instituição do trabalho livre serviu para o início da construção do mercado interno brasileiro (SIMÓN, 2007, p. 107).

Além disso, os abolicionistas não consideraram a inserção dos recém libertos na sociedade e muito menos garantiram que seriam aceitos por ela, fazendo com que muitos

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ainda continuassem nas fazendas em que eram escravizados por falta de escolha, conhecimento e oportunidades. A liberdade e igualdade de todos os homens propostas pela Lei, não passaram de meras declarações formais:

Embora condenada e abolida em tratados e declarações formais, a escravidão ainda não foi de todo eliminada em nosso tempo e continua encontradiça em várias partes do mundo, sob formas parciais ou disfarçadas, a escravidão não deixou de existir, apresentando-se com uma gama variada de práticas. (GORENDER, 2004, p.47). O regime escravocrata deixou manchas persistentes no tempo, mesmo após a árdua luta para sua abolição no Brasil. O modelo escravista atual possui uma nova roupagem, porém sua essência do passado permanece. Essa escravidão contemporânea é movida principalmente pela ganância, busca do dinheiro a qualquer custo e pela grande desigualdade social, estimulando consequentemente, os trabalhadores, ainda, a se sujeitarem a condições degradantes de trabalho.

2.2 A ESCRAVIDÃO NA CONTEMPORANIEDADE BRASILEIRA

Após a abolição do trabalho escravo formal pela Lei Áurea de 1888, muitas pessoas permaneceram trabalhando em condições precárias.

A admissão de que ainda existia trabalho escravo no Brasil ocorreu apenas em 1995 pelo governo federal juntamente com a Organização Internacional do Trabalho, fazendo com que o país se tornasse uma das primeiras nações mundiais a reconhecer, de forma oficial, a escravidão contemporânea em seu território. Todavia, mesmo após este reconhecimento, o trabalho escravo perdura até a atualidade, fazendo que com o passar do tempo houvesse a criação de novas expressões relacionadas ao trabalho escravo, tais como trabalho análogo ao de escravo, trabalho escravo contemporâneo e trabalho forçado (OIT BRASÍLIA, 2019, p.1).

Neste contexto, torna-se necessário, primeiramente, a apresentação de alguns conceitos para maior entendimento e em seguida, identificaremos o perfil das vítimas, as principais características da escravidão contemporânea e suas diferentes formas.

2.2.1 Conceitos sobre a escravidão contemporânea

Conceituar trabalho escravo não vem a ser uma tarefa fácil devido as constantes mudanças sociais. Um dos entendimentos mais completos disponíveis é o do autor Sakamoto (2007, p. 17) ao dizer que

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no Brasil, há variadas formas e práticas de trabalho escravo. O conceito de trabalho escravo utilizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) é o seguinte: toda a forma de trabalho escravo é trabalho degradante, mas o recíproco nem sempre é verdadeiro. O que diferencia um conceito do outro é a liberdade. Quando falamos de trabalho escravo, estamos nos referindo a muito mais do que o descumprimento da lei trabalhista. Estamos falando de homens, mulheres e crianças que não têm garantia da sua liberdade. Ficam presos a fazendas durante meses ou anos por três principais razões: acreditam que têm que pagar uma dívida ilegalmente atribuída a eles e por vezes instrumentos de trabalho, alimentação, transporte estão distantes da via de acesso mais próxima, o que faz com que seja impossível qualquer fuga, ou são constantemente ameaçados por guardas que, no limite, lhes tiram a vida na tentativa de uma fuga. Comum é que sejam escravizados pela servidão por dívida, pelo isolamento geográfico e pela ameaça às suas vidas. Isso é trabalho escravo. Partindo do mesmo princípio, Sento-Sé (2011, p. 60) descreve o trabalho escravo contemporâneo dando enfoque aos direitos fundamentais:

Dessa maneira, poderíamos conceituar o trabalho escravo contemporâneo como sendo a atividade laboral desenvolvida pelo trabalhador em benefício de terceiro, em que se verifica restrição à sua liberdade e/ou desobediência a direitos e garantias mínimos (sujeição à jornada exaustiva ou a trabalho degradante, dívida abusiva em face do contrato de trabalho, retenção no local de trabalho por cerceamento do uso de qualquer meio de transporte, manutenção de vigilância ostensiva e retenção de documentos) dirigidos a salvaguardar a sua dignidade enquanto trabalhador. Trata-se de conceito que segue a previsão do art. 149 do Código Penal e que, a nosso ver, esclarece a compreensão da matéria

O art. 149 do Código Penal Brasileiro determina o crime de redução a condição análoga à de escravo:

Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:

Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência

§ 1o Nas mesmas penas incorre quem:

I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;

II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho § 2o A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido:

I – contra criança ou adolescente;

II – por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem. (BRASIL, CP, 2019).

Cabe ressaltar que, no ano de 1930, a OIT aprovou a Convenção sobre Trabalho Forçado, também conhecida como Convenção 29. A mesma, conceitua trabalho forçado ou obrigatório dizendo que “para os fins da presente convenção, a expressão ‘trabalho forçado ou obrigatório’ designará todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de espontânea vontade”.

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O escravo contemporâneo não se encontra em uma situação muito distante da que estava no período de colonização no Brasil, porém, o que difere daquela época é o fato de não permanecer acorrentado, não morar mais em uma senzala, nem ser torturado fisicamente com constância. Além disso, como eram considerados mercadorias que faziam parte do patrimônio de seu dono, possuíam certo valor. Eram alimentados, vestidos e cuidados quando alguma doença surgia. De acordo com Repórter Brasil (2013, p. 1), a antiga escravidão era permitida, possuía baixos lucros, a mão de obra era escassa e o relacionamento de um escravo com seu senhor era tido por toda a vida. Já a escravidão contemporânea é proibida, desfruta em altos lucros, a mão de obra escrava é tida como descartável e, consequentemente, o relacionamento do trabalhador com o seu empregador é curto, pois terminado o serviço não se torna mais necessário o sustento do indivíduo.

A escravidão nos tempos atuais vai muito além da restrição da liberdade e agressões, mas também é caracterizada pelas precárias condições de trabalho e falta de compromisso dos patrões que, pelo fato de possuir trabalhadores vivendo na miséria e pobreza, lhes impõe sujeitar-se a tais situações (SENTO-SÉ, 2011, p. 1).

Segundo Mello (2005, p. 24), a escravidão acontece quando os trabalhadores, embora libertos da superexploração, se encontram obrigados a aceitar propostas de trabalho com as mesmas características degradantes por falta de cultura, escolaridade e oportunidades que não lhes permite buscar novos horizontes.

2.2.2 As vítimas da escravidão contemporânea

As vítimas do trabalho escravo contemporâneo frequentemente derivam de minorias ou grupos socialmente excluídos. Muitos são trabalhadores migrantes internos ou externos e trabalhadores pobres sazonais (contratados para realizar apenas um serviço específico por um período de tempo), que deixaram suas casas para trabalhar em grandes centros urbanos ou regiões de expansão agropecuária, buscando novas oportunidades ou atraídos por falsas promessas (OIT BRASÍLIA, 2019, p. 1). De acordo com Sakamoto, essas vítimas

partem rumo às fazendas que empregam trabalhadores temporários e, com a esperança de conseguir um dinheiro, obter no mínimo o sustento e o pão de cada dia, tornam-se mão-de- obra escrava. Submetem-se à exploração, aceitam condições desumanas de vida. Vivem longe dos familiares e perambulam entre fazendas e cidades em busca de oportunidades”. (SAKAMOTO, 2007, p. 41-42).

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Trevisam (2015, p. 20) caracteriza as novas vítimas da escravidão ao dizer que a escravidão moderna é “uma realidade em que não se trata mais de cor de pele ou raça, mas incide no aproveitamento da miséria e desespero daqueles que não veem possibilidade de inserir-se no meio social”, logo, resta claro dizer que o trabalho é visto como uma forma de digna de se inserir na sociedade, fazendo com que mais pessoas que possuem esse desejo, aceitem a se sujeitar as péssimas condições a elas impostas.

Essa submissão não é exclusividade de apenas um grupo populacional, todos podem ser afetados, mas, certos grupos possuem uma maior vulnerabilidade. O Sistema ONU Brasil, declara que

a exploração de trabalhadores e trabalhadoras atinge as pessoas mais pobres, as mais vulneráveis e as mais marginalizadas: mulheres, migrantes, crianças, afrodescendentes, povos indígenas, pessoas com deficiência, entre outros grupos. O medo, o desconhecimento sobre os direitos básicos das pessoas, a submissão física ou psicológica ao empregador e a necessidade de sobrevivência muitas vezes impedem que as vítimas do trabalho escravo denunciem abusos (ONU, 2017, p. 1). A condição análoga à de escravo também possui grande ligação com o desemprego e a informalidade. O perfil das vítimas, divulgado pela Secretaria de Inspeção do Trabalho, diz que 45% das pessoas que se encontram nesta condição, com idade igual ou superior a 18 anos, nunca tiveram um emprego com registro em CTPS, 57% não possuíram nenhuma ou só uma admissão no mercado trabalhista formal e 72% obtiveram até três admissões registradas em seus históricos laborais.

Segundo Vilela (2019, p. 1), através das informações obtidas ao se analisar os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados e do seguro-desemprego do trabalhador, chegou-se à conclusão que 87% dos trabalhadores salvos pertenciam ao sexo masculino e 13% ao feminino. Relacionado à educação, 22% haviam estudado até o 5º ano do ensino fundamental, ao passo que 18% concluíram o ensino fundamental e 11% eram analfabetos.

Quanto à naturalidade a maioria dos trabalhadores, mais de 50%, era natural do Nordeste, 21% do Sudeste, 9% do Norte, 8% do Centro-Oeste, 2% do Sul e 3% não tinham conhecimento do local em que nasceram. Já em relação à origem, 48% moravam no Nordeste, 28% do Sudeste, 13% na região Norte, 10% do Centro-Oeste e 1% residiam no Sul.

Os dados ainda relatam que 70% dos trabalhadores eram solteiros. Em relação a raça, 72% afirmaram ser pardos, 14% se declararam negros, 12% brancos, e 1% indígenas. Quase 1% dizia possuir origem asiática (VILELA, 2019, p. 1).

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Desde que o Estado brasileiro identificou a prática ilegal do trabalho escravo e passou a combatê-lo, no ano de 1995, a fiscalização da Inspeção do Trabalho através de seus grupos resgataram 53.677 trabalhadores nessa condição em todo o país, até o início de 2019. Durante esse período, 4.586 estabelecimentos foram fiscalizados, 35.927 guias de seguro desemprego emitidas e foram pagos mais de R$ 103 milhões em verbas salariais e rescisórias durante as operações (SIT, 2019, p. 1).

O que pode se concluir após a análise das pesquisas referidas é que a maioria dos trabalhadores resgatados da escravidão moderna são homens, pardos, nordestinos e possuem baixa escolaridade.

Além disso, e não menos importante, a falta de oportunidade de trabalho digno também vem a ser um dos principais motivos do número elevado de trabalhadores que se sujeitam a essas condições. Sem qualificação profissional e não possuindo o mínimo de conhecimento de seus direitos fundamentais acabam aceitando qualquer oferta empregatícia, na busca de fornecer uma vida melhor e mais digna para si e para sua família.

2.2.3 As condições análogas à escravidão

O trabalho em condições análogas à de escravo no Brasil, além de uma grave infração trabalhista, é, principalmente, um crime contra a dignidade da pessoa humana. Ele acontece tanto em ambiente rural, quanto urbano.

Historicamente, os principais casos de escravidão moderna no país estão relacionados à criação de bovinos, cultivo de soja, plantio de cana-de-açúcar, entre outras atividades rurais. Porém, nos últimos anos, houve a intensificação na fiscalização das grandes cidades, fazendo com que os casos de trabalhadores em condições análogas à de escravo no ambiente urbano aumentasse (REPÓRTER BRASIL, 2019, p. 1). Os canteiros de obra e oficinas de costura são algumas das principais atividades urbanas ligadas a escravidão:

No Brasil, casos de escravidão urbana ocorrem na região metropolitana de São Paulo, onde imigrantes (predominantemente latino-americanos, sendo a maioria de bolivianos) sem toda documentação de estada – dada sua situação de extrema vulnerabilidade – são explorados em setores produtivos que lhe exigem dezenas de horas de trabalho diárias, sem folga, com baixíssimos salários e em condições degradantes de trabalho. Os principais setores afetos ao trabalho escravo contemporâneo urbano são a indústria da confecção têxtil e a construção civil (MPF, 2014, p. 17).

Destaca-se que, no ramo da construção civil, já foram encontradas grandes construtoras financiando essas atividades, como a MRV, a qual é financiada pela Caixa Econômica Federal, no âmbito do programa “Minha casa, minha vida”; e a OAS, na

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amplificação do aeroporto internacional de Guarulhos, obra destinada a melhorias na infraestrutural do país para a copa do mundo de 2014 (REPÓRTER BRASIL, 2019 p. 1).

Independentemente do local, a constatação de condições degradantes no ambiente de trabalho, o trabalho forçado, a jornada exaustiva, a restrição de locomoção do trabalhador em razão de supostas dívidas ao empregador, cerceamento de meio de locomoção ou a retenção de documentos pessoais é mais do que suficiente para constatar a sua exploração. A organização não governamental Repórter Brasil (2013, p. 1), diz que podemos notar essas condições “quando o trabalhador não consegue se desligar do patrão por fraude ou violência, quando é forçado a trabalhar contra sua vontade, quando é sujeito a condições desumanas de trabalho ou é obrigado a trabalhar tanto e por tantas horas que seu corpo não aguenta”.

Recentemente, o Ministério do Trabalho e Emprego, apresentou a Instrução Normativa SIT/MTE nº 139/2018, estabelecendo característica administrativa da figura da redução do trabalhador ao trabalho escravo contemporâneo, ampliando o art. 149 do CP, já citado acima, e definindo procedimentos e diretrizes na atuação da auditoria-fiscal do Trabalho em relação ao combate do trabalho escravo contemporâneo. Podemos observar em seu art. 6º a classificação das condições análogas à de escravo:

Art. 6º Considera-se em condição análoga à de escravo o trabalhador submetido, de forma isolada ou conjuntamente, a:

I - Trabalho forçado; II - Jornada exaustiva;

III - Condição degradante de trabalho;

IV - Restrição, por qualquer meio, de locomoção em razão de dívida contraída com empregador ou preposto, no momento da contratação ou no curso do contrato de trabalho;

V - Retenção no local de trabalho em razão de: a) cerceamento do uso de qualquer meio de transporte; b) manutenção de vigilância ostensiva;

c) apoderamento de documentos ou objetos pessoais (BRASIL, IN, 2019).

A seguir estudaremos, individualmente, as formas abrangidas pelas condições análogas à de escravo, elencadas no artigo 149 do Código Penal e na Instrução Normativa SIT/MTE nº 139/2018, para melhor esclarecer sobre o que é necessário para a caracterização da escravidão moderna no Brasil.

2.2.4 Restrição de locomoção em razão de dívida e Retenção no local de trabalho

A restrição de locomoção por dívida, também conhecida como servidão por dívida, ainda é considerada uma forma muito comum de escravidão moderna. Uma situação em que pessoas são iludidas por falsas promessas e, após se deslocarem ao local da prestação

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de serviço informado pelo empregador, além de não receberem qualquer remuneração, ainda são submetidas à violência, gerando até a morte em alguns casos. Silva (2009, p. 52) determina que essa situação ocorre quando um devedor se compromete a fornecer seus serviços a outra pessoa com maior autoridade, como forma de garantir o pagamento de sua dívida.

O ambiente rural é o local mais comum para se encontrar trabalhadores forçados a prestar seus serviços em consequência de dívidas obtidas. Acontece principalmente por intermédio dos chamados “gatos”, os quais aliciam pessoas para mão-de-obra, aproveitando do desespero ou ignorância, fazendo com que inconscientemente se endividem. Nesta perspectiva, Sakamoto (2007, p. 27) se refere ao fato dizendo:

Esses gatos recrutam pessoas em regiões distantes do local da prestação de serviços ou em pensões localizadas nas cidades próximas. Na primeira abordagem, mostram-se agradáveis, portadores de boas oportunidades de trabalho. Oferecem mostram-serviço em fazendas, com garantia de salário, de alojamento e comida. Para seduzir o trabalhador, oferecem “adiantamentos” para a família e garantia de transporte gratuito até o local do trabalho. O transporte é realizado por ônibus em péssimas condições de conservação ou por caminhões improvisados sem qualquer segurança. Ao chegarem ao local do serviço, são surpreendidos com situações completamente diferentes das prometidas. Para começar, o gato lhes informa que já estão devendo. O adiantamento, o transporte e as despesas com alimentação na viagem já foram anotados em um “caderno” de dívidas que ficará de posse do gato. Além disso, o trabalhador percebe que o custo de todos os instrumentos que precisar para o trabalho – foices, facões, motosserras, entre outros – também será anotado no caderno de dívidas, bem como botas, luvas, chapéus e roupas. Finalmente, despesas com os improvisados alojamentos e com a precária alimentação serão anotadas, tudo a preço muito acima dos praticados no comércio.

Assim, obtendo dívidas impossíveis de serem quitadas, resta apenas se submeter aos trabalhos degradantes, em condições de saúde, higiene e segurança precárias. O trabalhador, na maioria das vezes, se vê longe de sua cidade e de familiares, gerando um estado de fragilidade maior, facilitando para sua “dominação”.

Algo comum nessas situações é a retenção de qualquer tipo de documento do trabalhador com o objetivo de mantê-lo no local de trabalho. O empregador retém os documentos do empregado, teoricamente, para realização de cadastro ou registro, porém não os devolve, visando assegurar o trabalhador no local e obrigá-lo a trabalhar para pagar as supostas dívidas propositadas, mesmo sabendo que as referidas não são condizentes (BAUMER, 2018, p. 27). De acordo com a Lei nº. 5.553, de 6 de dezembro de 1968, ninguém possui permissão para reter documento de identificação pessoal, ainda que entregue por fotocópia autenticada, estendendo a regra para comprovante de quitação de serviço militar, certidão de nascimento, certidão de casamento, CTPS, título de eleitor, comprovante de naturalização e carteira de identidade de estrangeiro (BRASIL, 1968)

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Magalhães e Maciel (2017) destacam que essa modalidade de escravidão é aplicada frequentemente a trabalhadores migrantes, graças a vulnerabilidade em que se encontram:

Inúmeras pesquisas sobre mobilidade no Brasil têm revelado práticas de servidão de trabalhadores migrantes por anos a fio em razão de gastos que o empregador dispende no transporte dos trabalhadores de sua região de origem até o local de trabalho. Parte ou mesmo todo o salário é retido para a compensação destes custos e de “benefícios” que o empregador oferece, como alojamento, alimentação e vestimenta, também estes frequentemente precários (MAGALHÃES; MACIEL, 2017).

Além disso, há presença de guardas nos limites da propriedade ameaçando lhes tirar a vida caso tentem abandonar o serviço:

Se o trabalhador pensar em ir embora, será impedido sob a alegação de que está endividado e de que não poderá sair enquanto não pagar o que deve. Muitas vezes, aqueles que reclamam das condições ou tentam fugir são vítimas de surras. No limite, podem perder a vida (SAKAMOTO, 2007, p. 28).

Podemos apontar este impedimento como restrição na locomoção do trabalhador em razão de dívida, identificado através da “limitação ao direito fundamental de ir e vir ou de encerrar a prestação do trabalho, em razão de débito imputado pelo empregador ou preposto ou da indução ao endividamento com terceiros” (BRASIL, IN, 2018). Também como espécie de retenção no local de trabalho em razão de manutenção de vigilância ostensiva, conforme apresentado no art. 6 da Instrução Normativa SIT/MTE nº 139/2018 e conceituada pelo art. 7, inciso V, sendo “qualquer forma de controle ou fiscalização, direta ou indireta, por parte do empregador ou preposto, sobre a pessoa do trabalhador que o impeça de deixar local de trabalho ou alojamento”. No mesmo tocante, Silva (2010, p. 134) expõe:

Não raras vezes, portanto, a vítima do trabalho análogo ao de escravo é submetida à vigilância ostensiva, castigos, maus tratos ou outras formas de coação física ou psicológica por parte do tomador de serviços ou de seus prepostos, para que ele não fuja da fazenda onde o serviço é prestado ou como forma de punição por ter tentado evadir-se do local, o que ocorre após o obreiro perceber sua condição de escravo, caracterizando-se, outrossim, a peonagem, que alia o pretexto do débito ao uso constante e ostensivo da força, como mecanismo de coerção e de Dominação do trabalhador.

De acordo com Simón (2007, p. 108), podemos diferenciar a submissão por dívida do trabalho forçado ao analisar o vício de consentimento no momento do ocorrido e seu alcance. O vício de consentimento no trabalho forçado se dá desde o início da relação jurídica, pois o indivíduo não concordou com a contratação ou em permanecer laborando, nas quais derivam de uma coação financeira, física ou moral. Já na servidão por dívida, o mesmo ainda que tenha concordado em trabalhar, ao iniciar seus serviços ou durante a sua prestação é obrigado à adquirir dívidas, configurando-se figura jurídica da lesão, disposta no art. 157 do

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Código Civil: “Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta” (BRASIL, CC, 2019).

2.2.5 Trabalho forçado

Trabalho forçado é a expressão destinada àquelas relações de trabalho em que os empregados são obrigados a exercer uma atividade contra sua vontade, por meio de coação e da negação de liberdade, sob ameaças, detenção e indigência, que podem derivar para os membros da família do trabalhador (MARQUES, 2012, p. 3-4).

Sua denominação foi consagra pela OIT em sua convenção 29 (Decreto nº 41.721/1957), que expressa em seu art. 2º, 1, “Para os fins da presente convenção, a expressão “trabalho forçado ou obrigatório” designará todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de espontânea vontade” (BRASIL, Decreto nº 41.721, 1957).

A Instrução Normativa SIT/MTE nº 139/2018 diz que “o trabalho forçado é aquele exigido sob ameaça de sanção física ou psicológica e para o qual o trabalhador não tenha se oferecido ou no qual não deseje permanecer espontaneamente”

Como supracitado, o vício de consentimento se dá desde o início da relação jurídica, resultado das inúmeras estratégias de coação efetuadas pelos aliciadores. Assim, como na servidão por dívida, o empregado fica à disposição do empregador por inúmeros motivos, como isolamento geográfico, confinamento armado e até mesmo pela aquisição de supostas dívidas. O recrutamento também ocorre, na maioria das vezes, da mesma forma, por aliciadores que fazem a intermediação entre empregado e o empregador.

Trabalho forçado, formas contemporâneas de escravidão, servidão por dívida e tráfico de seres humanos são termos relacionados, embora não idênticos em sentido jurídico. A maioria das situações de trabalho escravo ou tráfico de pessoas são, contudo, abrangidas pela definição de trabalho forçado da OIT (OIT, 2019, p. 1). Pode-se dizer que a principal diferença entre a servidão por dívida e o trabalho forçado, se torna mais clara em relação a forma em que o indivíduo é abordado e convencido a trabalhar, pois na primeira o trabalhador, apesar de iludido, aceita a proposta, já na segunda o referido não possui ao menos opção de escolher se oferece seus serviços ou não, gerando vício de consentimento.

Essa espécie de trabalho escravo pode ser cometida pelo Estado, por empresas privadas ou por indivíduos que possuem o apetite e o poder de impor aos trabalhadores duras

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privações, como violência física ou abuso sexual. O trabalho forçado pode incluir práticas que restringem o movimento do indivíduo; a retenção de salários ou documentos de identidade para forçar a permanência do emprego; ou envolvê-lo em dívidas fraudulentas. É tido como crime e uma violação brutal dos direitos fundamentais (OIT, 2011, p. 11).

O trabalho forçado priva o trabalhador de liberdade, deixando apenas a escolha de desempenhar a função para qual foi incumbido, sendo pressionado a laborar por jornadas de trabalho extremamente exaustivas e fazendo com que sua mobilidade seja cerceada e posto à serviço do empregador.

2.2.6 Jornada exaustiva

Frequentemente se constata, principalmente nas atividades remuneradas por produção, a submissão de trabalhadores a jornadas extremamente extensas, superando as 14 horas diárias. Quando essas horas não fazem parte de jornadas de trabalho diferenciadas, as quais são permitidas pela lei, caracterizará jornada exaustiva, como descrita no art. 149 do Código Penal.

Uma jornada de trabalho exaustiva, extrapolando os limites de tempo permitidos, pode gerar vários danos ao trabalhador. Ela pode ser caracterizada quando a duração da carga horária habitual de trabalho é ultrapassada por repetidas vezes, não respeitando os limites estabelecidos na Constituição Federal e na CLT. Em seu art. 58 a legislação atribui que “a duração normal do trabalho, para os empregados em qualquer atividade privada, não excederá de 8 (oito) horas diárias, desde que não seja fixado expressamente outro limite” (BRASIL, CLT, 2019). Admite-se prorrogação e compensação de jornada, mas em número que não exceda a duas horas diárias, como consta no art. 59 da mesma legislação.

Conforme o Manual de Combate ao Trabalho em Condições Análogas à de escravo, do Ministério do Trabalho, não é resumida apenas em jornadas extensas de trabalho:

Note-se que jornada exaustiva não se refere exclusivamente à duração da jornada, mas à submissão do trabalhador a um esforço excessivo ou a uma sobrecarga de trabalho – ainda que em espaço de tempo condizente com a jornada de trabalho legal – que o leve ao limite de sua capacidade. É dizer que se negue ao obreiro o direito de trabalhar em tempo e modo razoáveis, de forma a proteger sua saúde, garantir o descanso e permitir o convívio social. Nessa modalidade de trabalho em condição análoga à de escravo, assume importância a análise do ritmo de trabalho imposto ao trabalhador quer seja pela exigência de produtividade mínima por parte do empregador, quer seja pela indução ao esgotamento físico como forma de conseguir algum prêmio ou melhora na remuneração (BRASIL, MTE, 2011).

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Ela não significa tão somente jornada prolongada, mas também caracteriza aquelas circunstâncias em que o trabalhador está submetido a um grau tão extremo de superexploração de sua força de trabalho em que suas energias não são repostas devidamente, ocasionando danos à sua saúde física e/ou mental. A alta rotatividade existente em muitos setores de atividade econômica e a superexploração da força de trabalho que caracteriza o capitalismo dependente brasileiro dá-nos a real dimensão do quanto essa forma de execução de trabalho escravo pode ser comum em nosso país.

Ou seja, a sobrecarga laboral ou superexploração da força de trabalho, mesmo que dentro do espaço de tempo definido, também podem caracterizar uma condição de trabalho escravo contemporâneo, indo além de horas extras exigidas pelo patrão. Corrompe a dignidade do empregado, causando prejuízos a saúde mental e física do trabalhador, decorrente de uma situação de sujeição que se estabelece entre ambos, de maneira forçada ou por circunstâncias que anulem a vontade do submisso. Vale mencionar que a portaria nº 3.214/78 do Ministério de Trabalho e Emprego dispõe também sobre a questão de saúde e segurança do trabalho, com o objetivo de efetivar as limitações da jornada de trabalho (ALVES, 2009 apud BAUMER, 2019, p. 22).

Pereira (2009, p. 23) ainda destaca que, o poder diretivo exacerbado, o assédio moral, junto com a falta de opções, o clima opressivo e o grau de ignorância dos trabalhadores, tornam tudo ainda mais graves.

2.2.7 Condições degradantes

Segundo Fiorillo (2000, p. 21) o ambiente de trabalho é o lugar em que as pessoas executam suas atividades laborais, cujo equilíbrio encontra base na salubridade do meio e na inexistência de agentes que façam mal à saúde, tanto física, quanto mental, dos obreiros.

Infelizmente, a atual realidade vem demonstrando que a sujeição da vítima a condições degradantes, é a conduta típica mais encontrada em relação à redução de trabalhadores a condição análoga à de escravo. Essas condições são as que abrangem o maior número de elementos e excluem do trabalhador os direitos mais fundamentais. O indivíduo passa a ser tratado como se fosse um objeto e é negociado como qualquer mercadoria.

As condições degradantes reúnem vários elementos irregulares que determinam a precariedade do trabalho e também das condições de vida sob a qual o trabalhador é submetido, atentando especialmente contra a sua dignidade, como destacamos abaixo:

Quando a violação de direitos fundamentais fere a dignidade do trabalhador e coloca em risco sua saúde e sua vida. Costuma ser um conjunto de elementos irregulares, como alojamentos precários, péssima alimentação, falta de assistência médica, saneamento básico e água potável (REPÓRTER BRASIL, 2019).

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Magalhães e Maciel (2017, p. 1) concordam ao explicar que essas condições não se dão apenas por meio das relações trabalhistas em si, mas também da situação de saúde, higiene, moradia e alimentação que as pessoas são submetidas. No campo e nas cidades, ambientes de trabalho e alojamento insalubres que são considerados prejudiciais à saúde do trabalho são, também, elementos que configuram trabalho análogo ao de escravo devido a condições degradantes.

Em harmonia, Pereira (2014, p. 29) enfatiza que a condição degradante de trabalho existe quando não são respeitados os direitos constitucionalmente assegurados como: o salário pelo serviço prestado, a jornada de trabalho 8 horas diárias e 44 horas semanais (máximo), a remuneração de eventuais horas extras, o descanso semanal remunerado, a redução dos riscos inerentes ao trabalho e a observação as normas de segurança, higiene e saúde da atividade laboral.

Percebe-se que conceituar condições degradantes é uma tarefa muito difícil, logo, o que realmente encontramos é “um entendimento interligado de conceitos e exemplificações de um trabalho degradante que, basicamente o conceituam como aquele que afronta a dignidade da pessoa humana, seus direitos e garantias, o que o torna bastante subjetivo, assim como o próprio conceito de dignidade da pessoa humana” (MARQUES, 2012, p. 5).

Esse trabalho é prestado em locais totalmente insalubres, faltando muitas vezes água potável, boas condições sanitárias e assistência médica:

no trabalho prestado sob condições degradantes é comum encontrar trabalhadores alojados em barracos de palha ou lona, junto de animais peçonhentos, expostos a umidade, frio, calor, escuridão. A água para consumo muitas vezes é compartilhada com o gado. Não há locais para alimentação, as refeições são preparadas em fogueiras e ingeridas no chão. Não há garantias mínimas de saúde, higiene, segurança e conforto do obreiro (PEREIRA, 2014, p. 30).

Portanto, o trabalho degradante pode ser visto como um aglomerado de situações que acabam deixando o trabalhador em constante situação de humilhação. Faz com tenha que trabalhar em lugares insalubres, onde não há o mínimo de dignidade, sendo tratados como animais ou mercadoria descartáveis, assim como na escravidão antiga, um verdadeiro retrocesso social.

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3 A ESCRAVIDÃO NO ORDENAMENTO JURÍDICO NACIONAL E INTERNACIONAL

O ordenamento jurídico brasileiro é formado por vários institutos que tratam sobre a escravidão contemporânea, seja de maneira direta ou indiretamente. Nesta esfera temos a Constituição Federal de 1988, as convenções internacionais ratificadas pelo país, as leis ordinárias e atos infralegais.

Neste capítulo, serão apresentadas as principais normas do combate ao trabalho escravo contemporâneo, presentes no ordenamento jurídico brasileiro e também no ordenamento internacional.

No primeiro momento, temos a arguição das principais Convenções e Tratados Internacionais, em especial os ratificados pelo Estado brasileiro, os quais possuem enorme importância na história da abolição da escravatura moderna no mundo.

Posteriormente, passamos a estudar o trabalho escravo moderno pela visão constitucional de 1988, passando pela valorização do trabalho e da livre iniciativa, a função social da propriedade, o princípio da dignidade da pessoa humana e o direito à liberdade. E por fim, há uma breve análise sobre a legislação infraconstitucional, mais precisamente do Código Penal.

3.1 NORMAS INTERNACIONAIS

Encontramos, internacionalmente, diversas normas que visam acabar com a utilização do trabalho análogo ao de escravo no mundo. A origem da busca pela erradicação da escravidão, não se difere do surgimento de vários outros temas sobre direitos humanos, pois ocorreu em paralelo com a ideia dos organismos internacionais

A seguir destacamos as principais convenções e tratados internacionais desde o início da luta contra a escravidão, até a atualidade.

3.1.1 Principais Convenções e Tratados Internacionais

Em 1926, temos o primeiro tratado internacional que, notadamente, previa a escravidão, nomeado de Convenção das Nações Unidas sobre escravatura. Esse tratado se deu no âmbito da Liga das Nações, conhecida também como Sociedade das Nações (SDN), que existiu entre os anos de 1919 e 1947.

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Estabeleceu, em seu art. 1º, a escravidão como “o estado ou condição de um indivíduo sobre o qual se exercem, total ou parcialmente, os atributos do direito de propriedade” (ONU, CNU, 1926). Esse conceito de possui como presunção, o exercício dos atributos do direito de propriedade de uma pessoa sobre a outra, intitulada como escravidão clássica:

Em geral, tem sido dito que o escravo possui três características definidoras: sua pessoa é a propriedade de outro homem, sua vontade está sujeita à autoridade do seu dono e seu trabalho ou serviços são obtidos através da coerção (DAVIS apud COSTA, 2017, p. 12):

Ademais, em seu art. 2º firmou o compromisso estabelecido entre as partes contraentes buscando impedir e reprimir o tráfico de escravos e promover a abolição completa da escravidão sob todas as suas formas: “a) a impedir e reprimir o tráfico de escravos; b) a promover a abolição completa da escravidão sob todas as suas formas progressivamente e logo que possível” (ONU, 1926).

Referente a Organização Internacional do Trabalho, em 1930, a Convenção nº 29 tratou do trabalho forçado, como já exposto anteriormente, na qual seus membros assumem o compromisso de suprimir a utilização do trabalho forçado ou obrigatório, no menor prazo possível (BRASIL, Decreto nº 41.721, 1957). Essa definição descreve, em seu artigo 2, item 2, as situações que não podem ser caracterizadas como trabalho forçado ou obrigatório:

2. Entretanto, a expressão ‘trabalho forçado ou obrigatório’ não compreenderá, para os fins da presente convenção:

a) qualquer trabalho ou serviço exigido em virtude das leis sobre o serviço militar obrigatório e que só compreenda trabalhos de caráter puramente militar;

b) qualquer trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívicas normais dos cidadãos de um país plenamente autônomo;

c) qualquer trabalho ou serviço exigido de um indivíduo como consequência [sic] de condenação pronunciada por decisão judiciária, contanto que esse trabalho ou serviço seja executado sob a fiscalização e o controle das autoridades públicas e que dito indivíduo não seja posto à disposição de particulares, companhias ou pessoas privadas;

d) qualquer trabalho ou serviço exigido nos casos de força maior, isto é, em caso de guerra, de sinistro ou ameaças de sinistro, tais como incêndios, inundações, fome, tremores de terra, epidemias, e epizootias, invasões de animais, de insetos ou de parasitas vegetais daninhos e em geral todas as circunstâncias que ponham em perigo a vida ou as condições normais de existência de toda ou de parte da população;

e) pequenos trabalhos de uma comunidade, isto é, trabalhos executados no interesse direto da coletividade pelos membros desta, trabalhos que, como tais, podem ser considerados obrigações cívicas normais dos membros da coletividade, contanto, que a própria população ou seus representantes diretos tenham o direito de se pronunciar sobre a necessidade desse trabalho.

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Outro marco de suma importância no âmbito legislativo internacional, foi a criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948. A mesma destacou o direito à liberdade, proibiu qualquer forma de escravidão e consagrou o livre direito à escolha do trabalho:

Artigo 4º

Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Artigo 5º

Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

[...] Artigo 13º

1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.

2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo 23º

1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.

2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.

3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.

4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses (ONU, DUDH, 1948).

Posteriormente, a Convenção das Nações Unidas sobre a escravidão foi expandida pela Convenção Suplementar sobre Abolição da Escravatura, do Tráfico de Escravos e das Instituições e Práticas Análogas à Escravidão, com o intuito de aumentar os esforços, mundialmente, visando abolir qualquer situação interligada com o trabalho escravo, ocorrendo no ano de 1956. em seu art. 1º, definiu que:

Artigo 1º

Cada um dos Estados Membros à presente Convenção tomará todas as medidas, legislativas e de outra natureza, que sejam viáveis e necessárias, para obter progressivamente e logo que possível a abolição completa ou o abandono das instituições e práticas seguintes, onde quer ainda subsistam, enquadrem-se ou não na definição de escravidão assinada em Genebra, em 25 de setembro de 1926:

§1. A servidão por dívidas, isto é, o estado ou a condição resultante do fato de que um devedor se haja comprometido a fornecer, em garantia de uma dívida, seus serviços pessoais ou os de alguém sobre o qual tenha autoridade, se o valor desses serviços não for equitativamente [sic] avaliado no ato da liquidação da dívida ou se a duração desses serviços não for limitada nem sua natureza definida. (ONU, 1956). Por meio dela, o Estado Parte assume o compromisso de tomar medidas para obter gradativamente acabar com as instituições e práticas análogas à escravidão. “Como também prevê que o ato de escravizar uma pessoa ou de incitá-la a alienar sua liberdade ou a de

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alguém na sua dependência, para escravizá-la deve constituir infração penal” (COSTA, 2017, p. 14). No Brasil este tratado foi promulgado pelo Decreto 58.563/66.

Em 1957, a Convenção nº 29, foi aditada pela Convenção nº 105, destacando o pacto firmado pela busca da extinção da escravidão. Incorporada no ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto n.º 41.721/57, assim como a primeira. Segundo Costa (2017, p. 15), “a característica preponderante dessa norma internacional reside no fato dela estabelecer medidas úteis mais específicas no combate ao trabalho escravo, nas quais os países signatários se comprometem a diversas iniciativas.”

Anos depois, em 1969, foi editada a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica), adquirido pelas leis brasileiras através do Decreto nº 678/92, proibindo expressamente, no art. 6º, a escravidão, a servidão e o tráfico de escravos em mulheres: “Ninguém pode ser submetido à escravidão ou a servidão, e tanto estas, como tráfico de escravos, como o tráfico de mulheres são proibidos em todas as suas formas” (BRASIL, Decreto nº 678, 1992).

Enfim, o Protocolo de Palermo, inserido no ordenamento jurídico do Brasil, por meio do Decreto 5.077/2004, aborda o tráfico de pessoas, muito usado por empregadores que buscam utilizar formas de trabalho análogas à escravidão.

Insta salientar que, o Mercosul, na Declaração Contra o Tráfico de Pessoas e o Trabalho Escravo, feita em 2015, tendo como signatários (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela), também trata das vítimas de trabalho forçado. No documento, os países se comprometem a estimular políticas regionais em matéria de combate, prevenção e buscar formas de reinserir as vítimas no mercado de trabalho (COSTA, 2017, p. 16).

De acordo com o The Global Slavery Index, promovido pela ONG internacional Walk Free Foundation, é estimado que 45,8 milhões de pessoas no mundo estão submetidas a alguma forma de escravidão moderna (OIT, 2017, p.1).

A intensa abordagem sobre a escravidão nas principais instituições internacionais, vem nos mostrar como esta é uma preocupação que coincide, de maneira ilegal, com o capitalismo. Embora sobreviva movida pela ganância de alguns cidadãos e pela proteção dada por alguns governos à produção barata de bens de consumo, ou de fato pela simples falta de interesse governamental, ainda continua a ser combatida mundialmente, nos dando esperança em ver sua abolição real no futuro.

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3.2 ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

Como na maioria das garantias sociais e individuais, o marco nacional do combate à escravidão foi a Constituição de 1988. A norma soberana traz em seus artigos o repúdio à prática do trabalho escravo ou forçado, seja por disposições expressas ou através de seus princípios fundamentais.

Outra legislação nacional que possui suma importância no âmbito do trabalho escravo contemporâneo, é o Código Penal, dando destaque a seu art. 149, o qual criminaliza o trabalho em condições análogas a de escravo no ambiente de trabalho.

Portanto, iniciamos com a abordagem constitucional de suas normas e princípios, passando a breve análise da legislação infraconstitucional.

3.2.1 Os valores socias do trabalho e a livre iniciativa

Diante da realidade enfrentada nos dias atuais, a visão contemporânea dos princípios da livre iniciativa e do valor social do trabalho, representa a verdadeira preocupação com o trabalhador. Esses princípios estão dispostos no artigo 1º da Constituição Federal:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.

Os mesmos ainda são encontrados no art. 170 do mesmo dispositivo: “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios [...]” (BRASIL, CF, 2019).

Os valores sociais do trabalho e a livre iniciativa, para Novelino (2008, p. 203-294), significam que o Estado não pode aceitar privilégios econômicos abusivos, levando em consideração que apenas o trabalho possui a capacidade de promover a dignidade da pessoa humana, pois a partir do momento que o indivíduo identifica que está contribuindo para o progresso social, se sente respeitado e útil. O mesmo autor, ainda diz que sem uma remuneração justa e condições de trabalho íntegras, o indivíduo tem a sua dignidade violada. Já a ordem econômica, busca assegurar a existência digna. Por esse motivo, a liberdade de

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