UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA MAIRA DE SOUZA FLÔR
A PRÁTICA DA MEDITAÇÃO NA REDUÇÃO DO ESTRESSE: UM ESTUDO BIBLIOGRÁFICO SOBRE OS ASPECTOS PSICONEUROIMUNOLÓGICOS
Palhoça 2009
MAIRA DE SOUZA FLÔR
A PRÁTICA DA MEDITAÇÃO NA REDUÇÃO DO ESTRESSE: UM ESTUDO BIBLIOGRÁFICO SOBRE OS ASPECTOS PSICONEUROIMUNOLÓGICOS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de psicólogo.
Orientador: Prof. Maurício Eugênio Maliska, Dr.
Palhoça 2009
MAIRA DE SOUZA FLÔR
A PRÁTICA DA MEDITAÇÃO NA REDUÇÃO DO ESTRESSE: UM ESTUDO BIBLIOGRÁFICO SOBRE OS ASPECTOS PSICONEUROIMUNOLÓGICOS
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de psicólogo e aprovado em sua forma final pelo Curso de Psicologia, da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Palhoça, 22 de junho de 2009.
____________________________
Prof. e orientador Maurício Eugênio Maliska, Dr. Universidade do Sul de Santa Catarina
____________________________ Prof. Ana Maria Lima da Luz, Msc Universidade do Sul de Santa Catarina
____________________________ Pedro Paulo Mendes Sbissa, Mestrando Universidade Federal de Santa Catarina
"Venham até a borda, ele disse. Eles disseram: Nós temos medo. Venham até a borda, ele insistiu. Eles foram. Ele os empurrou... E eles voaram." (GUILLAUME APOLLINAIRE).
Dedico este trabalho a todos os mestres que me ensinaram a voar!
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, por mais esta possibilidade de auto-desenvolvimento. Aos guias e amigos espirituais, pela proteção, amparo e inspiração. A vocês, meu amor é infinitamente profundo!
Ao meu pai José de Souza Flôr, exemplo de perseverança, bondade e desapego, por sempre incentivar meus estudos e me dar recursos físicos e emocionais para desenvolvê-los. Este trabalho, assim como tudo que sou, é mérito seu!
À minha mãe Celia Maria de Carvalho Flôr, exemplo de companheirismo, bondade e amor, pela dedicação, carinho e confiança no meu potencial. Este trabalho, assim como tudo que sou, também é mérito seu!
À minha irmã Gisele de Souza Flôr e ao seu esposo que, por serem tão diferentes de mim em muitos aspectos, reforçaram a minha identidade fazendo-a ficar evidente diante dos meus olhos.
À Cleusa Maria Bento, pelo amor de mãe que sempre dirigiu a mim. Ao meu primo Filipi, pela alegria contagiante e constante que me ajudou a não desistir.
Aos integrantes do grupo Dharma: Paulo Gustavo, Fabíola, Priscila, Ary Junior, Janaína, Camila, Jackeline e a todos os outros que por ele passaram, pelo desenvolvimento espiritual alcançado e por aprender a meditar.
Às demais integrantes da “tripla”: Roberta Rodrigues Ramos e Priscila Netto Campos pela amizade verdadeira e sincera, pelo companheirismo. A vocês ofereço todo o meu amor!
Ao mestre e amigo Flávio Costa por me ensinar a questionar e a ter auto-confiança e à sua esposa Catarina Marques pelo carinho e amizade. Saibam que os admiro profundamente!
À mestre Anita Bacellar, por me acompanhar nos diversos âmbitos da minha carreira profissional, por me apresentar a Abordagem Centrada na Pessoa e por me ensinar a olhar para este trabalho como uma possibilidade de crescimento. Obrigada por me fazer crescer!
Ao professor Iúri Novaes Luna, pelo auxílio na construção dos objetivos desta pesquisa e por me ensinar a acreditar que é possível fazer Psicologia!
À professora Simone Vieira de Souza, por me acompanhar na clínica e por me ensinar que academia é mais que seguir regras e protocolos e que é possível manter nossas características mesmo neste contexto.
Às amigas do grupo de orientação de TCC: Laidiara, Amanda e Alina. Juntas, sorrimos e choramos ao longo da elaboração desta conquista.
Ao meu Orientador Maurício Maliska por aceitar me acompanhar em um caminho completamente desconhecido. Obrigada pela abertura, confiança e pela transferência recíproca!
À Pedro Sbissa pelas contribuições no desenvolvimento desta pesquisa e também por dedicar-se ao estudo e vivência da meditação. Devido a isto, me senti mais segura e menos sozinha nesta aventura!
À Professora Ana Maria Luz, por aceitar fazer parte da banca deste TCC antes que eu mencionasse o tema da pesquisa. Obrigada pela confiança no meu potencial!
À professora Alessandra, por disponibilizar algumas das obras utilizadas neste trabalho.
Aos colegas do curso de Psicologia e aos amigos, pela convivência inclusive nos momentos de estresse.
Às pessoas queridas com as quais senti a pureza de ser eu mesma! A todos aqueles com os quais convivi ao longo de minhas vidas. Os momentos de convivência com cada um de vocês ajudou a construir o que sou hoje. A todos que contribuíram direta ou indiretamente coma realização desta pesquisa:
“[...] observar a si mesmo, é como uma vela numa noite escura que ilumina não apenas tudo à volta, mas também a si mesma. [...] um processo simples, mas uma vez que você comece a usá-lo em si mesmo, ele se torna uma meditação” (OSHO)
RESUMO
O estresse apresenta-se, na atualidade, como um importante gerador de adoecimento na população. Deste modo, precisa-se desenvolver formas de reduzí-lo e a prática da meditação apresenta-se como um destes recursos. Utilizando a psiconeuroimunologia como um articulador entre a prática da meditação e a redução do estresse, esta pesquisa propôs-se a identificar, na literatura, possíveis alterações nos aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos no estresse advindas da prática da meditação. Para atingir tal objetivo foi necessário: identificar na literatura os aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos no estresse; identificar na literatura os aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos na prática da meditação; e articular os aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos na prática da meditação com os do estresse. A discussão sobre estes aspectos foi realizada sob um olhar permeado pelo contexto da saúde, principalmente pela Psicologia da saúde e hospitalar. Para que se cumprissem os objetivos propostos realizou-se um estudo exploratório, de abordagem qualitativa que apresenta um delineamento de pesquisa bibliográfica. Deste modo, utilizaram-se como fontes de informação, principalmente livros e artigos científicos coletados em bibliotecas, bases de dados online e acervo pessoal da pesquisadora. As obras identificadas por descritores pré-selecionados passaram por três etapas de depuração: por título; por resumo, no caso dos artigos, e por sumário, no caso dos livros; e por leitura integral. Ao longo da seleção das obras, adotou-se como critério a cientificidade, a aproximação dos conteúdos aos objetivos da pesquisa e o idioma português como idioma de veiculação das obras. Após a seleção do material, este foi lido, descrito e concomitantemente realizou-se uma análise descritiva. Dentre os resultados encontrados, pode-se destacar que o estresse ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e a prática da meditação, por sua vez, desestimula a ativação deste eixo. Deste modo, pode-se pensar na prática da meditação enquanto um recurso a ser utilizado na redução do estresse, inclusive na redução do estresse hospitalar, podendo ser articulada às intervenções da Psicologia neste contexto.
LISTA DE SIGLAS
ACP – Abordagem Centrada na Pessoa ACTH – hormônio adrenocorticotrópico BIREME – Biblioteca Virtual da Saúde CRH – hormônio liberador de corticotropina EEG – eletroencefalograma
EUA – Estados Unidos da América
IDATE- Inventário de ansiedade traço-estado LPSP – Lóbulo Parietal Superior Posterior MCP – Matéria Cinzenta Periaquedutal NE – norepinefrina
OMS – Organização Mundial da Saúde ONU – Organização das Nações Unidas SCIELO – Scientific Eletronic Library Online SGA – Síndrome Geral da Adaptação SNA – Sistema Nervoso Autônomo SNC – Sistema Nervoso Central
SNP – Sistema Nervoso Parassimpático SNS – Sistema Nervoso Simpático
SPP – Sistema Parassimpático Periférico SSY – Siddha Samadhi Yoga
SUS – Sistema Único de Saúde
TCC – Trabalho de Conclusão de Curso
UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância Unisul – Universidade do Sul de Santa Catarina WAIS-R – Escala Wecheler de Inteligência WMS-R – Escala Wecheler de Memória
SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO... 11 1.1 PROBLEMÁTICA... 12 1.2 OBJETIVOS... 14 1.2.1 Objetivo Geral... 15 1.2.2 Objetivos Específicos... 15 1.3 JUSTIFICATIVA... 15 2 REFERENCIAL TEÓRICO... 19 2.1 O CONCEITO DE SAÚDE... 19 2.2 A PSICOLOGIA DA SAÚDE... 22 2.3 A PSICOLOGIA HOSPITALAR... 24 2.4 APRESENTAÇÃO DO ESTRESSE... 27 2.4.1 Contextualização do estresse... 27 2.4.2 Caracterização do estresse... 31
2.4.3 O Sistema Nervoso Autônomo... 33
2.5 APRESENTAÇÃO DA MEDITAÇÃO... 34
2.5.1 Contextualização da meditação... 35
2.5.2 Caracterização da meditação... 37
2.6 DO DUALISMO À INTEGRAÇÃO: A PSICONEUROIMUNOLOGIA... 43
2.6.1 Contextualização da psiconeuroimunologia... 43 2.6.2 Caracterização da psiconeuroimunologia... 47 3 MÉTODO... 52 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA... 52 3.2 FONTES DE INFORMAÇÃO... 53 3.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS... 53 3.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE... 53
3.5 INSTRUMENTOS DE COLETA E REGISTRO DE DADOS... 54
3.6 PROCEDIMENTO ... 54
4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS... 60
4.1 COMPREENSÃO PSICONEUROIMUNOLÓGICA DO ESTRESSE... 60
4.1.2 Aspectos psicossociais na etiologia do estresse... 64
4.2 COMPREENSÃO PSICONEUROIMUNOLÓGICA DA PRÁTICA DA MEDITAÇÃO... 71
4.2.1 A meditação enquanto experiência subjetiva... 71
4.2.2 O estado de concentração relaxada... 75
4.3 ARTICULAÇÃO DOS ASPECTOS PSICONEUROIMUNOLÓGICOS ENVOLVIDOS NA PRÁTICA DA MEDITAÇÃO E NO ESTRESSE... 84
4.3.1 Articulação neurofisiológica... 85
4.3.2 Uma compreensão fenomenológica... 92
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 100
1 INTRODUÇÃO
A presente pesquisa refere-se ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Psicologia do curso de graduação em Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). Seguindo as diretrizes propostas pelo curso, ao longo da realização desta pesquisa, pretendeu-se inovar e ampliar a produção científica em Psicologia, relacionando-a ao estágio obrigatório do Núcleo Orientado da Saúde do referido curso.
A atuação da pesquisadora em Psicologia hospitalar iniciou-se em um Projeto de Extensão vinculado ao curso de Psicologia, durante os semestres de 2007-2 e 2008-1 e teve continuidade através do estágio curricular obrigatório no Hospital de Caridade – Irmandade Senhor Jesus dos Passos em Florianópolis, durante os semestres de 2008-2 e 2009-1. Esta prática, aliada às experiências pessoais da pesquisadora, possibilitou a identificação de um problema de pesquisa.
Durante a intervenção psicológica junto à pacientes e acompanhantes no referido hospital, foi possível identificar a presença de diferentes níveis de estresse, provenientes da hospitalização e do adoecimento. Além disso, foi possível observar que muitos pacientes recorrem a tratamentos complementares, além do tratamento convencional oferecido pelo hospital, tais como fitoterapia e acupuntura. A partir da identificação desta realidade surgiu o questionamento sobre possíveis relações entre estas variáveis e definiu-se como recurso complementar a ser pesquisado, a prática da meditação.
Deste modo, esta pesquisa propõe-se a estabelecer possíveis relações entre a prática da meditação e a redução do estresse, a partir de um viés psiconeuroimunológico. Para chegar a tal fim, pretende-se utilizar um levantamento bibliográfico sobre os temas em questão e suas relações.
Esta pesquisa é composta da presente introdução, do referencial teórico, do método, da apresentação e análise dos dados, das considerações finais. A introdução apresenta a problematização do tema, os objetivos e a justificativa da pesquisa, que contém as relevâncias sociais e científicas. O referencial teórico apresenta o conceito de saúde adotado ao longo da pesquisa, um apanhado sobre a Psicologia Hospitalar, o estresse, a meditação e a psiconeuroimunologia em sub-capítulos que contextualizam e caracterizam cada tema. Este capítulo do projeto
apresenta conceitos importantes, que possibilitam a compreensão do tema proposto e permitem a análise dos dados coletados. O método, por sua vez, explica com detalhes como foi realizada esta pesquisa e o cronograma estabelece um panorama cronológico das etapas cumpridas durante a realização da presente pesquisa. No capítulo da apresentação e análise de dados, por sua vez, encontram-se as reflexões e articulações entre os dados descritos e as considerações teóricas. Por fim, nas considerações finais, apresenta-se um apanhado dos pontos centrais levantados ao longo da pesquisa, bem como um fechamento da mesma.
1.1 PROBLEMÁTICA
O estresse existe em todos os animais enquanto reação biológica produzida com o objetivo de preparar o corpo para fuga ou enfrentamento das situações que colocam a vida em risco. O mesmo acontece na espécie humana. Desde o homo sapiens, reações fisiológicas são desencadeadas em situações de risco (ANDREWS, 2003).
Partindo dessa reflexão, Andrews (2003) discorre sobre o estresse como um facilitador para a manutenção da vida, uma vez que prepara o corpo para sua própria conservação diante de situações de perigo. No entanto, precisa-se considerar que as situações de perigo, às quais o homo sapiens estava exposto, não são as mesmas que acometem o homem atual (homo sapiens sapiens) (ANDREWS, 2003). Enquanto o homem das cavernas estava exposto a ataques de animais e a mudanças climáticas sem abrigo adequado, entre outras coisas, o homem atual está exposto a outros perigos, como o modelo social moderno, permeado por competitividade e agilidade nas informações, o que exige deste homem constante flexibilidade e criatividade.
Apesar da completa alteração do que representa perigo ao longo da história, o corpo do homem continua tendo reações fisiológicas semelhantes ao homem da pré-história, porém, muitas vezes, sem poder esboçar reações de enfrentamento ou de fuga.
[...] Estamos reagindo aos desafios dos dias atuais com a resposta fisiológica de um homem Neanderthal. Porém, diferentemente dos ancestrais das cavernas, não podemos fugir de nossos problemas, nem lutar fisicamente contra eles (ANDREWS, 2003, p. 27).
Estas alterações fisiológicas são a liberação de hormônios e substâncias químicas que, por sua vez, são geradas por alterações psicológicas. A este quadro de alterações, Hans Selye chamou de estresse (SELYE, 1936, apud MOREIRA, 2003). Nas palavras do mesmo, estresse é a “resposta inespecífica do organismo a qualquer demanda imposta a ele" (SELYE, 1936 apud GRAEFF, 2003, p. 21).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe um conceito de saúde, no qual saúde é “[...] o completo bem-estar físico, psíquico e social, ocorrendo conjuntamente, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade” (OMS apud CAMPOS, 1995, p. 54). Neste conceito considera-se um ser humano que vai além da questão somática, abrangendo seus aspectos psicológicos e sociais. Desta forma, o estresse, enquanto alteração do bem estar, tanto físico, quanto psíquico e social, caracteriza-se como um fator gerador de adoecimento na população, que precisa ser compreendido para que se possa desenvolver recursos que possibilitem sua redução. A partir disto questiona-se: que recursos podem ser utilizados para promover a redução do estresse?
Este questionamento é estimulado por Lipp (2000), que fala sobre a necessidade de se buscar compreender o estresse e encontrar formas de enfrentá-lo. Tratando desta necessidade de enfrentamento do estresse, Lima (2005) coloca a meditação como uma das fontes de redução do estresse na pós-modernidade. Neste sentido, surge também o questionamento: como a meditação pode contribuir com a redução do estresse?
Ao contextualizar a meditação, pode-se apontá-la enquanto uma prática que não se resume a uma “[...] técnica aplicada mecanicamente, mas uma atitude em que a mente pode permanecer calma e ao mesmo tempo concentrada e alerta” (LIMA, 2005, p. 2); o que permite uma ampliação da consciência de si.
A meditação, enquanto prática, originou-se há, pelo menos, cinco mil anos nos registros sagrados das tradições orientais (LIMA, 2005) como a tradição budista1, que se refere à meditação como “[...] o caminho para trazer-nos de volta a nós mesmos [...]” (RINPONCHE, 1999, p. 87 apud LIMA, 2005, p. 2). E a tradição
1 O Budismo é uma tradição religiosa e filosófica desenvolvida na Índia a partir dos ensinamentos de Sidarta Gautama, também chamado de Buda.
vedanta2 (da Índia), que coloca a meditação enquanto “[...] estado em que podemos desfazer as ilusões egóicas [...] (MUKTANANDA, 1993 apud LIMA, 2005, p. 1).
A prática da meditação tem algumas diferenciações técnicas de acordo com sua origem filosófica, entretanto, utilizar-se-á como base para a caracterização da meditação, cinco parâmetros definidos por Cardoso et al (2004). Parâmetros estes, que são aceitos pela Agency for Healthcare Research and Quality. São eles:
1) Definição objetiva de uma técnica específica;
2) Produção de um relaxamento muscular em algum momento do processo;
3) Produção de “relaxamento lógico”;
4) É necessário que seja um estado auto-induzido;
5) Desenvolvimento da capacidade de manter o foco de atenção em determinado ponto (âncora), durante o processo meditativo.
Goleman (1998) e Andrews (2003) referem-se à meditação como um treino da capacidade de concentração capaz de gerar “um nível de relaxamento muito mais profundo do que aquele do sono, levando a um estado de maior repouso fisiológico” (ANDREWS, 2003, p. 82).
Estes mesmos autores exploram a prática da meditação como contribuidora na promoção de saúde e na redução do estresse, colocando-a como um possível recurso a ser utilizado com esta finalidade. É com base nestas conclusões dos autores e nos questionamentos levantados anteriormente, que o presente projeto propõe-se a investigar o seguinte problema de pesquisa: Quais as
possíveis alterações nos aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos no estresse advindas da prática da meditação?
1.2 OBJETIVOS
2 A filosofia vedanta é baseada nos textos védicos. Tradicionais escrituras Indianas que compõem a base do Hinduísmo.
1.2.1 Objetivo Geral
Identificar, na literatura, possíveis alterações nos aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos no estresse advindas da prática da meditação.
1.2.2 Objetivos Específicos
a) Identificar, na literatura, os aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos no estresse.
b) Identificar, na literatura, os aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos na prática da meditação.
c) Articular os aspectos psiconeuroimunológicos envolvidos na prática da meditação com os do estresse.
1.3 JUSTIFICATIVA
Através das reações desencadeadas no corpo pelo estresse e as consequentes alterações psicológicas provenientes deste estado, pode-se considerar o estresse como um fator gerador de adoecimento, além de ele próprio já se caracterizar como um adoecimento, por ser uma alteração do bem estar biopsicossocial. A OMS (apud ANDREWS, 2003) aponta que 90% das consultas médicas são decorrentes do estresse. Além disso, refere-se ao estresse como uma “epidemia global” (LIPP, 1996a, p. 13), o que demonstra o quanto ele interfere no estado de saúde, configurando-se como um dos principais geradores de adoecimento da população.
Iniciando, geralmente, como uma pequena alteração do bem estar biopsicossocial dos indivíduos, o adoecimento pode evoluir e cronificar-se (LIPP,
1996) a ponto de se fazer necessário a hospitalização. Em virtude desta consequência evidente do estresse, justifica-se a importância de se desenvolver cada vez mais formas eficientes de reduzí-lo. Desta forma, contribui-se não apenas com a recuperação da saúde, mas também com a prevenção do adoecimento, como será explorado no capítulo referente à análise.
As evidências da influência do estresse no adoecimento e na hospitalização levam a crer que ao reduzir-se o nível de estresse da população – através de recursos como a prática da meditação – reduzir-se-á, por consequência, o número de hospitalizações. Esta possível consequência, além de caracterizar-se como um redutor de gastos para o governo, pode trazer uma melhor qualidade de vida para a população ao contribuir com o bem estar nos seus três âmbitos de abrangência: biológico, psicológico e social.
Foram encontrados alguns autores que apontam a prática da meditação como um recurso a ser utilizado na redução do estresse, entre eles está Lima (2005). Evidências da eficácia deste recurso são apresentadas por outros autores, como Andrews (2003), ao afirmar que esta prática provoca a rápida diminuição da secreção dos hormônios responsáveis pela sintomatologia do estresse, como o cortisol, por exemplo. Apesar de tais referências, se faz necessário uma investigação mais completa sobre as relações entre a prática da meditação e a redução do estresse.
Nesse sentido, esta pesquisa, ao objetivar identificar as relações existentes entre estes dois aspectos, ao mesmo tempo em que busca localizar em literatura a eficácia de tal prática na redução do estresse, apresenta um novo recurso ainda pouco explorado cientificamente no Brasil, apesar de ser um foco de interesse no mundo. Ao final desta pesquisa, pretende-se oferecer à população, que vivencia o estresse e suas consequências, dados que caracterizem a relação entre a prática da meditação e a redução do estresse, o que poderá servir de avaliador na escolha do recurso a ser utilizado por estes indivíduos para a redução do estresse.
Um dos requisitos solicitados para a realização desta pesquisa é que ela esteja vinculada ao contexto de estágio obrigatório do curso de Psicologia da Unisul. Como este estágio ocorre no Hospital de Caridade – Irmandade Senhor Jesus dos Passos em Florianópolis, no qual, estão inseridos indivíduos adoecidos, muitas vezes em decorrência do estresse, justifica-se a importância do propósito desta pesquisa.
Devido à possibilidade de alguns questionamentos serem levantados sobre a relação do tema proposto nesta pesquisa com a Psicologia, se faz necessário adiantar que o estresse é um tema largamente explorado pela Psicologia, principalmente no que diz respeito à Psicologia do trabalho humano. Já em relação à prática da meditação, esta se fundamenta principalmente no desenvolvimento da atenção. As diversas técnicas utilizadas pelos diferentes tipos de meditação são empregadas com esta finalidade (GOLEMAN, 1998). Sendo a atenção um aspecto da cognição humana como o pensamento e a percepção, este é um campo a ser explorado pela Psicologia enquanto ciência e também nesta pesquisa.
Além do foco na atenção, a prática da meditação traz um estado de concentração e relaxamento, através do qual o praticante pode ampliar sua auto-percepção (GOLEMAN, 1998). Isto pode tornar-se um facilitador para a atuação do Psicólogo, inclusive no contexto hospitalar, pois a partir deste estado de plena atenção, pode-se cogitar que as intervenções psicológicas venham a tornarem-se mais assertivas e eficazes.
“Os efeitos da prática da meditação e yoga3 têm sido um foco de interesse da ciência experimental” (LIMA, 2005, p. 11). Segundo o mesmo autor, uma das primeiras pesquisas referentes ao assunto foi realizada em 1935 pela cardiologista francesa Theresa Brosse, que realizou sua pesquisa experimental na Índia, evidenciando a redução dos batimentos cardíacos dos indivíduos que participaram do experimento (BROSSE 1946 apud LIMA, 2005).
Ao se fazer um levantamento em bases de dados sobre a relação entre estresse e meditação a partir da psiconeuroimunologia, encontram-se, predominantemente, artigos de pesquisa experimental no idioma inglês (BARNES et al, 2004; BORMANN et al, 2006; CURIATI et al, 2005; CYSARZ; BÜSSING, 2005; MCCOMB et al, 2004; PHONGSUPHAP et al, 2007; entre outros) e alguns artigos no idioma português (BARA FILHO et al, 2002; KOZASA, 2002; VANDENBERGHE; SOUSA, 2006; entre outros), mas que não fazem a ligação entre estes dois aspectos a partir da psiconeuroimunologia ou resumem-se à questões neuropsicológicas. Entre estes, o que mais se aproxima do tema proposto nesta pesquisa, refere-se às
3 O yoga é uma prática tradicional e milenar que inclui posturas corporais, mas não se resume a isso. O termo yoga significa união. A prática do yoga tem o objetivo de unir o homem à sua essência.
questões neurofisiológicas envolvidas na prática meditativa, com o título de “Suportes Básicos e Neurofisiologia das Práticas Meditativas” de Lima (2005).
Encontra-se também, artigos que apresentam os benefícios da prática da meditação em vários aspectos da vida e, entre estes aspectos, cita-se a redução do estresse, como o artigo “Mindfulness4
nas terapias cognitivas e comportamentais” de Vandenberghe e Sousa (2006). Além destes, encontra-se ainda revisões bibliográficas a respeito da prática da meditação, como a dissertação “Meditação transcendental e saúde: uma revisão eletrônica da produção científica multidisciplinar em bancos de dados, de 1970 a 2006” de Máximo Filho (2006). Este último aproxima-se mais da proposta desta pesquisa, mas, ainda assim, não se refere às relações psiconeuroimunológicas existentes entre a prática de meditação e a redução do estresse.
A relação proposta por esta pesquisa é encontrada brevemente, apenas em alguns livros traduzidos para o português de autores do exterior como Andrews (2003), Goleman (1998) e Hoffmann (1991). Deste modo, esta pesquisa pode ser considerada, de certa forma, inovadora, uma vez que se propõe a fazer uma relação entre conteúdos ainda pouco explorados pela Psicologia no Brasil. Além de contribuir com o avanço da Psicologia enquanto ciência, esta pesquisa também contribui para a Psicologia enquanto profissão, pois proporciona ao psicólogo uma ampliação dos conhecimentos acerca da eficiência de um recurso a ser utilizado na redução do estresse.
Por fim, pode-se considerar, ainda que de forma incipiente, que esta pesquisa pode contribuir para mais um processo de quebra de paradigmas como os que já ocorreram ao longo da história da ciência uma vez que propõe uma relação entre conhecimentos orientais e ocidentais e aborda uma temática que, de certo modo, ainda é vista com alguns preconceitos no cenário científico e acadêmico.
4 Mindfulness é um tipo de meditação e pode ser “definida como uma forma específica de atenção plena – concentração no momento atual, intencional, e sem julgamento” (KABAT-ZINN, 1994 apud VANDENBERGHE; SOUZA, 2006).
2 REFERENCIAL TEÓRICO
O referencial teórico configura-se como um capítulo no qual pretende-se esclarecer o que se compreende pelos temas envolvidos na pesquisa. Além disso, apresentam-se as principais concepções teóricas às quais serão utilizadas ao longo da análise dos dados coletados durante a pesquisa. Deste modo, é a isto que se propõe este capítulo. Para tanto, em um primeiro momento, recorrer-se-á a uma explanação acerca de temas pertinentes à saúde, a Psicologia da saúde e a Psicologia Hospitalar. Considera-se fundamental tratar destas questões, uma vez que é, principalmente, no contexto da saúde e, mais especificamente, no contexto da Psicologia Hospitalar, que o estresse e a meditação são pensados e articulados ao longo desta pesquisa.
O desenvolvimento deste capítulo segue com inicial contextualização e posterior caracterização do estresse, da meditação e da psiconeuroimunologia, uma vez que estes são os temas centrais em torno dos quais giram as principais discussões desta pesquisa.
2.1 O CONCEITO DE SAÚDE
O conceito de saúde adotado por cada população, em cada momento histórico, está permeado pelos costumes, valores, conceitos, enfim, pelas características do modo de vida dessas pessoas. Desta forma, para que se possa compreender e contextualizar a compreensão atual de saúde, se faz necessário relembrar alguns períodos da história e suas respectivas características que contribuíram para a construção do que se entende atualmente por saúde.
Durante a Idade Média havia um modelo teocêntrico, ou seja, “por meio de deus se justificava a ordem social [...]” (KUJAWA; BOTH; BRUTSCHER, 2003, p. 8). Neste contexto, saúde era uma bênção de Deus, por isto não havia preocupações políticas com relação à assistência a saúde. “[...] a saúde e a morte eram determinações divinas” (KUJAWA; BOTH; BRUTSCHER, 2003, p. 8) e apresentou-se pouca resistência a este modelo na época. Segundo estes autores,
este processo de resistência foi feito principalmente por aquelas consideradas bruxas, que insistiam em alterar o processo de saúde e doença através de práticas consideradas místicas como o uso de benzeduras e a manipulação de ervas, e, por isso, muitas foram queimadas vivas em fogueiras. Desta forma, a assistência à saúde se resumia à caridade ao doente.
Na idade Moderna, por sua vez, o modelo econômico era o mercantilismo e a mão-de-obra era valorizada. Segundo Kujawa; Both; Brutscher (2003), evitar epidemias, neste período, era de vital importância para o modelo econômico, pois o trabalho das pessoas era necessário e sua morte acarretava prejuízos. Para que as pessoas se mantivessem vivas passou-se a dar atenção à higiene e políticas públicas passaram a ser exigidas do estado. Porém, as exigências limitavam-se a isto e, deste modo, saúde se resumia a estar vivo.
Com a revolução industrial houve uma série de mudanças sociais e econômicas e iniciou-se o desenvolvimento do capitalismo. As pessoas migraram para as cidades e se submeteram a jornadas de trabalho excessivas. Neste contexto, segundo Kujawa; Both; Brutscher (2003), surgiram preocupações com saneamento e controle de epidemias, pois os pobres precisavam de assistência para que se tornassem mão-de-obra para as fábricas.
O processo desencadeado pela revolução industrial contribuiu para a fragmentação do homem entre mente e corpo e esta herança permanece influenciando as práticas atuais no que concerne à saúde. Neste sentido, o sistema capitalista “[...] silenciou a simbolização e a historicidade das populações e, consequentemente, das doenças” (KAHHALE, 2003, p.162).
No século XVIII, com o desenvolvimento da medicina moderna, como afirma Kahhale (2003), a cientificidade contribuiu para a medicalização da saúde, com o objetivo principal de combate às epidemias. Isto se fortaleceu ainda mais no século XIX e a saúde passou a significar ausência de doença. Desta forma, as políticas de saúde priorizavam a ação medicamentosa e curativa, mas ainda assim a responsabilidade da doença e da cura da mesma era exclusiva do indivíduo, isentando o estado de qualquer responsabilidade.
O período das guerras mundiais trouxe consigo muitas alterações e com o fim da Segunda Guerra Mundial, os países vencedores da guerra criaram uma organização que não pertencia a país algum, era supranacional, com a função de manter a paz mundial e enfrentar os problemas consequentes da guerra. Esta
organização foi chamada de ONU (Organização das Nações Unidas). A partir disto a ONU cria a OMS, com a função de lidar com os problemas de saúde decorrentes da guerra e com o propósito de que todos os povos atinjam a saúde no maior nível possível (KAHHALE, 2003).
Até este momento, o conceito que imperava era o de saúde como ausência de doença, mas, rompendo com a visão medicamentosa e com esta dualidade entre saúde e doença, em 1948 a OMS “[...] propõe como princípio, norteador das suas atividades, o entendimento de saúde como o completo bem-estar físico, mental e social.” (KAHHALE, 2003, p. 165). Com esta mudança conceitual, passou a ser necessário uma preocupação além de questões biológicas, levando as políticas de saúde a incluir ações também voltadas a aspectos psíquicos e sociais da população.
Não se pode pensar um conceito de saúde que não esteja permeado por questões intrínsecas ao modo de viver em que os indivíduos estão inseridos. Neste sentido, pode-se dizer que o conceito de saúde é histórico e ideológico. (KUJAWA; BOTH; BRUTSCHER, 2003) E, além disso, pode-se incluir questões políticas, epistemológicas, tecnológicas e religiosas, entre outras.
Mas, apesar deste novo conceito trazer consigo uma série de benefícios, Kahhale (2003) faz uma crítica a ele, considerando-o utópico e estático. Segundo ela, ao se considerar saúde desta forma, parte-se o dinamismo da vida humana. Não se pode conceber como saudável um indivíduo que permanece sempre em perfeito bem-estar físico, psíquico e social. É justamente a dinâmica entre bem-estar e mal-estar tanto físico quanto psíquico e social que traz desenvolvimento para a vida humana. Kahhale (2003, p. 166) se expressa em relação a isto da seguinte forma:
A saúde é um reflexo da capacidade de tolerância, compensação e adaptação de cada indivíduo, dos grupos e da sociedade em geral frente às condições ambientais, sociais, políticas e culturais nas quais estão inseridos.
Recorre-se a uma concepção de ser humano sob uma perspectiva sócio-histórica para fundamentar esta visão de saúde discutida por Kahhale (2003) e para chegar a um conceito mais adequado ao modo de vida humano atual. De acordo com esta perspectiva, o homem vai constituindo a si mesmo à medida que constitui
o contexto social no qual está inserido. Neste sentido, não se pode oferecer um conceito inerte a um homem dinâmico (KAHHALE, 2003).
Desta forma, pode-se afirmar que “[...] saúde é um processo dinâmico, ativo, de busca de equilíbrio, não sendo possível falar em saúde plena.” (KAHHALE, 2003, p. 166). Segundo a mesma autora, ao se falar em saúde cidadã é necessário transcender o caráter curativo, mas também não se deve prender a um conceito inalcançável. Um caminho a ser seguido é a aplicação da promoção e da prevenção da saúde.
2.2 A PSICOLOGIA DA SAÚDE
A inclusão da Psicologia no contexto da saúde no Brasil está diretamente vinculada às reivindicações por uma reforma sanitária ocorridas, principalmente no período posterior à ditadura, bem como à implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). Estes acontecimentos históricos acompanhados de algumas conferências internacionais abriram portas para a inserção da Psicologia enquanto fazer necessário para promoção, prevenção e assistência à saúde no Brasil.
Devido ao estado deplorável da saúde pública nas décadas de 1970 e 80 causado pelas ações da Ditadura Militar, começou a surgir um movimento contra o modelo hospitalocêntrico desenvolvido pelo militarismo. Este movimento, segundo Kujawa; Both; Brutscher (2003), foi conhecido como Movimento da Reforma Sanitária, que preconizava uma saúde integral, que envolvesse o processo de promover, proteger e recuperar, e defendia que a saúde era um direito de todos.
Neste momento (em 1978), kahhale (2003) aponta que no cenário internacional, a OMS e a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) organizaram a Conferência Internacional de Alma Ata, que apontou como cuidados fundamentais à saúde os cuidados de atenção primária. Estes cuidados mais básicos e fundamentais são os que deveriam ter atenção especial para que pudessem chegar a todos. Além disto, esta conferência sugeriu ações de saúde que envolvessem promoção, prevenção, cura e reabilitação como fatores importantes para o desenvolvimento econômico e social.
Foi em meio a este cenário nacional de reivindicações pela Reforma Sanitária e Internacional de novas propostas no âmbito da saúde, que aconteceu a VIII Conferência Nacional de Saúde em 1986. Esta conferência aprovou o projeto do SUS elaborado pela Reforma Sanitária. Pode-se dizer que todos estes acontecimentos históricos contribuíram para que o SUS conquistasse base legal, sendo incluído na constituição de 1988 e confirmando a saúde como direito de todos (KUJAWA; BOTH; BRUTSCHER, 2003).
O SUS “[...] não é um serviço ou uma instituição, mas um Sistema que significa um conjunto de unidades, serviços e ações que interagem para um fim comum.” (ABC do SUS, 1990 apud KUJAWA; BOTH; BRUTSCHER, 2003, p. 24)
Com a inclusão do SUS na constituição de 1988 a saúde legitimou-se como um direito de todo cidadão (KUJAWA; BOTH; BRUTSCHER, 2003). Para complementar todas estas transformações, posteriormente a isto, ocorreram algumas conferências internacionais que contribuíram para uma mudança ainda maior de paradigma no que diz respeito à saúde.
Uma destas conferências foi a Conferência de Jakarta, na Indonésia, em 1997 (KUJAWA; BOTH; BRUTSCHER, 2003), que tem grande importância para o profissional de Psicologia, uma vez que traz a compreensão de saúde como “[...] um processo que capacita a população a ter controle e desenvolver sua saúde, portanto está diretamente relacionada com a construção da subjetividade individual e social [...]” (KAHHALE, 2003, p. 171).
Mas, para que se possa compreender a inserção do psicólogo na saúde pública é necessário remeter-se a algumas questões históricas da profissão. De acordo com Kahhale (2003), na década de 1970 iniciou-se cuidados de atenção primária a saúde que incluía psicólogos e assistentes sociais. Houve um movimento dos psicólogos na luta pela sua inserção no trabalho dos centros e postos de saúde.
Para que esta inserção fosse possível foi necessário romper com o modelo clínico curativo e desenvolver a Psicologia social comunitária, podendo trabalhar, assim, de maneira interdisciplinar. Além disso, foi necessário que se desenvolvesse no país um pensamento de saúde pública enquanto saúde coletiva, e isto se deu com a aceitação do SUS na constituição de 1988 (KAHHALE, 2003).
Kahhele (2003) aponta algumas demandas que o psicólogo passou a assumir na área da saúde. São elas a Psicologia na rede básica de saúde, que até 1983 seguia o modelo clínico clássico, mas precisou adaptar-se às mudanças, como
foi citado anteriormente e a Psicologia Hospitalar, que tem como uma de suas funções, neste contexto, facilitar o tratamento.
Desta forma, dentro de uma perspectiva sócio-histórica, o trabalho do psicólogo voltado para saúde pública “[...] deve promover a capacidade de intervenção e transformação do homem sobre o mundo cotidiano, permitindo [...] a sua inserção num processo coletivo de engajamento na luta por melhores condições de vida.” (KAHHALE, 2003, p. 188). E isto remete à compreensão de saúde proposta na Conferência de Jakarta, citada anteriormente.
Fica evidente que a atuação do psicólogo na saúde pública, hoje, apesar de ser amparado por lei, ainda não alcançou o ideal discutido: uma atuação pautada na saúde coletiva, pois ainda há evidencias de atuação nos moldes clínicos curativos. Neste sentido, Kahhale (2003) propõe algumas questões a serem enfrentadas para se alcançar uma prática mais próxima da ideal. São elas:
Como a articulação entre corpo e subjetividade se expressa nas doenças; como o usuário do sistema de saúde se constitui como um sujeito histórico, apropriando-se das suas determinações; como processos corporais são criados e significados pelo sujeito ao mesmo tempo em que expressam o processo coletivo, social e cultural (KAHHALE, 2003, p. 189).
2.3 A PSICOLOGIA HOSPITALAR
A ampliação do conceito de saúde trouxe consigo um consenso na atualidade de que o adoecimento físico não é algo exclusivamente orgânico, há uma “unidade somatopsíquica” (GIANNOTTI, 1995, p. 22). Sabe-se que tanto adoecimentos crônicos quanto agudos estão frequentemente associados a fatores emocionais, psicológicos e sociais. Neste sentido, é necessário que se intervenha também nestes fatores para evitar o agravamento ou cronificação do adoecimento (ISMAEL, 2005).
Deste modo, para que se possa abranger todos estes aspectos no contexto da saúde, não é possível restringir a assistência às competências de apenas um profissional (ISMAEL, 2005). Isto caracteriza a necessidade de uma assistência não apenas multiprofissional, mas também interdisciplinar para que haja troca e interação entre os vários profissionais. É neste cenário que se insere a
necessidade do profissional da Psicologia no âmbito da saúde pública, para lidar com as interações somatopsicossociais presentes no processo saúde/doença (GIANNOTTI, 1995).
A inserção da Psicologia na saúde pública inclui a atuação em Instituições como os Hospitais, o que exige uma adaptação tanto técnica quanto do embasamento teórico da prática psicológica. O aparato metodológico da Psicologia, que até então era basicamente fundamentado no modelo clínico tradicional, passou a não mais se encaixar na realidade prática e institucional característica do hospital (GIANNOTTI, 1995).
Com o desenvolvimento de um novo arcabouço teórico direcionado à prática da Psicologia em hospitais, passou a ser característico da atuação do psicólogo nestes locais o trabalho focado “[...] no sofrimento e nas repercussões que o paciente sofre com a doença e a hospitalização [...]” (ISMAEL, 2005, p. 18). Além disso, o setting terapêutico no hospital é muito variado. Os atendimentos podem acontecer no leito, no corredor ou em outros espaços físicos, muitas vezes com a presença de outras pessoas. Esta realidade exige do psicólogo constante adaptação ao que se apresenta no meio (ISMAEL, 2005).
Outra questão que envolve a prática da Psicologia nos hospitais é a necessidade de um conhecimento das características do adoecimento dos pacientes para que se possa acompanhar a evolução do tratamento e comunicar-se com a equipe. Este conhecimento facilita tanto as intervenções junto ao paciente, quanto as intervenções junto aos familiares/acompanhantes e nas orientações e trocas com a equipe de saúde. Esta variedade de intervenções, por sua vez, é mais uma peculiaridade da prática psicológica neste contexto (ISMAEL, 2005).
A vivência física e psicológica decorrente do adoecimento pode trazer consigo um estado de ansiedade, o que, por sua vez, pode gerar defesas na tentativa de manter um equilíbrio homeostático. A partir da vivência de ameaça, instala-se uma tentativa de manter a integridade pela via da ansiedade, o que acarreta em prejuízo do bem estar físico e emocional (RAGOZINI et al, 2005). Este processo pode ser compreendido como estresse, o que será abordado no sub-capítulo seguinte.
A vivência do adoecimento, tanto agudo quanto crônico, traz para a vida do indivíduo adoecido alterações na rotina de vida, nos papéis desempenhados por ele e nas expectativas futuras. Estar submetido a estas alterações envolve
alterações emocionais que podem prejudicar a adesão ao tratamento. Quanto a isto, Ragozini et al (2005) afirma que a maneira como o indivíduo vai enfrentar o adoecimento e a hospitalização envolve processos como a tolerância à frustrações, características de personalidade, a noção de doença que o paciente possui, assim como as fantasias que envolvem o processo de adoecimento e hospitalização.
Além das fantasias relacionadas ao adoecimento e a hospitalização, Strain citado por Botega (2006) sugere que este processo envolve uma série de estresses psicológicos, que são divididos por ele em oito grandes categorias. São elas: ameaça a integridade narcísica, que se caracteriza pela constatação da possibilidade de finitude da vida; ansiedade de separação, que envolve o processo de estar longe de pessoas queridas, do ambiente de casa, do estilo de vida; medo de estranhos, que diz respeito à entrega de si mesmo aos cuidados da equipe de saúde; culpa e medo de retaliação, relacionado à idéia de que a doença vem como um castigo; medo de perda de controle, de funções como esfíncteres, fala e marcha; perda de amor e reprovação, que está relacionado à dependência financeira; medo de perda ou danos a partes do corpo, relacionado a questão da imagem corporal e, por fim, o medo da morte e da dor.
Diante disto, o atendimento psicológico aos pacientes hospitalizados deve ser feito no sentido de facilitar a adesão ao tratamento, minimizar os sentimentos e fantasias gerados pelo processo, auxiliar o paciente na readaptação à rotina de vida e, quando necessário, às mudanças de hábitos. Além disso, devem ser trabalhadas as questões decorrentes das limitações impostas pelo ambiente, como a despersonalização, desenvolvendo autonomia no paciente para que ele possa participar de forma mais ativa no processo de recuperação (RAGOZINI et al, 2005).
Não é possível descrever todas as particularidades da Psicologia Hospitalar, uma vez que são muitas e, muitas vezes, são únicas, exigindo do profissional um manejo criativo e inovador. Mas a atuação nestes moldes não foi sempre assim. No início, a prática era baseada nos moldes clínicos tradicionais e, ainda hoje, há resquícios deste modo de atuação na Psicologia Hospitalar.
Romano (1990) afirma que a primeira presença de um psicólogo no contexto hospitalar se deu em uma equipe multiprofissional no Hospital Mc Lean, em Massachussetts (EUA). Isto ocorreu em 1893. Entretanto, no Brasil, apenas da década de 1950, algumas estudiosas de Psicologia começaram a exercer sua prática oficialmente em alguns hospitais. Fica evidente a demora do início desta
prática no Brasil e isto foi acompanhado pelo reconhecimento da profissão que ocorreu apenas na década de 1960 (ROMANO, 1990). Todo este contexto histórico e estas características da prática da Psicologia Hospitalar demonstram o quanto esta especialidade da Psicologia ainda está em construção apesar do seu grande avanço nos últimos 30 anos.
2.4 APRESENTAÇÃO DO ESTRESSE
Como apresentado por Botega (2006) e Ragozini et al (2005), o ambiente hospitalar associado ao adoecimento apresenta-se para o indivíduo hospitalizado como um contexto que exige deste um processo intenso de adaptação. Esta necessidade de adaptação vem, por vezes, acompanhada de ansiedades ou estresses que, geralmente, são identificadas nesses indivíduos. A identificação e categorização destes estressores pode ser considerada algo importante para o psicólogo hospitalar, uma vez que é, principalmente, nesses aspectos que tal profissional intervém.
Diante da apresentação do estresse como um ponto central para a vivência do indivíduo adoecido e hospitalizado, para a atuação do psicólogo hospitalar e para esta pesquisa, faz-se necessário contextualizar e caracterizar, com maior riqueza de detalhes, o estresse.
2.4.1 Contextualização do estresse
O termo estresse talvez seja uma das categorias psicológicas mais utilizadas pelo senso comum. Esta ampla difusão do termo estresse, no meio social, tornou-o, em certa medida, banalizado. Muitas vezes as pessoas referem-se ao estresse sem saber o que ele realmente é. Lipp (2000, p. 11) afirma que “A representação social do stress nem sempre corresponde à realidade”. Segundo ela, muitas vezes até mesmo os profissionais da saúde utilizam o termo porque não sabem definir o que se passa com o paciente.
Conceitualmente, o estresse é compreendido como uma resposta inespecífica do organismo diante de uma situação ameaçadora. Esta resposta tem o objetivo de restabelecer a homeostase quando o organismo está alterado, pronto para fuga ou enfrentamento da ameaça (SARDÁ JUNIOR et al, 2004). Mas de acordo com Lipp (1996a), esta resposta também pode ser desencadeada por excesso de emoções positivas, além dos estados emocionais negativos.
O que vai definir quais reações serão desencadeadas é a interpretação do organismo diante das situações (SARDÁ JUNIOR et al, 2004). Desta forma, ao mesmo tempo em que um indivíduo desencadeia esta reação por uma situação que considera ameaçadora, outro, diante da mesma situação, não a interpretaria como uma ameaça e, por isso, não apresentaria tais reações.
Portanto, de acordo com Sardá Junior e colaboradores (2004), o estresse é uma reação adaptativa do organismo a situações consideradas nocivas ao organismo. Ele pode ser considerado de extrema importância para a manutenção da vida e para a continuidade da espécie, uma vez que mobiliza o organismo para enfrentamento ou fuga do perigo. Esta importância abrange todos os animais e também a espécie humana. Entretanto, o estresse também pode ser considerado nocivo para a manutenção da vida, quando desencadeado em excesso, devido a interpretação de situações não perigosas como tal (SARDÁ JUNIOR et al, 2004).
Citando o livro de Robert Sapolski (1998) “Why zebras don’t get ulcers?”, Sardá Junior e colaboradores (2004) afirmam que quando um animal, como a zebra, esta pastando e é exposto a uma situação de perigo, como a presença de um predador, são desencadeadas reações que permitam sua luta pela vida, ou seja, é desencadeado o estresse. A demonstração das reações fisiológicas da zebra diante do perigo mostra-se bastante ilustrativa para a compreensão do estresse na espécie humana. Ao detalhar o que se passa com a zebra nesta situação, o autor diz que:
[...] seus sentidos são postos em alerta, sua respiração torna-se mais curta, seu coração bate mais rápido, sua pressão arterial se eleva, a circulação sanguínea (por conta da vasoconstrição) é desviada dos vasos mais próximos da pele para os órgãos dos sentidos e para os grandes músculos. Essas alterações fisiológicas aumentam momentaneamente a força física do animal. O comportamento alimentar é subitamente interrompido, seus esfíncteres podem ser relaxados e ela poderá defecar ou urinar (ficando mais leve e, em consequência, mais rápida). Seu sistema imunológico fica mais eficiente, principalmente na cicatrização, pois um ataque predatório pode causar lesões e hemorragia. O sangue fica enriquecido com uma quantidade extra de glicose e colesterol, que são transformados
rapidamente em energia, e plaquetas, que ajudam na cicatrização (SARDÁ JUNIOR et al, 2004, p. 14).
O homem reage de forma muito semelhante à zebra diante de situações ameaçadoras e isto acontece desde o surgimento da espécie. Porém, na atualidade, estas reações são desencadeadas por situações diferentes e de forma prolongada, tais como o trânsito, o trabalho, a economia mundial, entre outros (SARDÁ JUNIOR et al, 2004).
O mesmo autor segue afirmando que, quando o predador sinaliza o ataque, a zebra foge até que se sinta segura. Neste momento, toda esta reação é interrompida e o organismo volta à homeostase, ou seja, apesar do animal estar exposto a muitas situações estressantes, estas não se prolongam por muito tempo. Mas com o homem não tem sido assim, uma vez que o predador do homem, muitas vezes, não é identificado com tanta facilidade, dando margem a interpretações quanto a sua presença ou não. Deste modo, as reações fisiológicas continuam ativas até que cesse a atuação do agente estressor.
Essas reações orgânicas prolongadas desgastam, em excesso, o organismo e interrompem funções primordiais para a saúde do mesmo. Desta forma, Lipp (1996a) aponta que quando exposto em excesso ao estresse, o homem pode ser acometido por afecções físicas, como resfriados, úlceras, gastrites, problemas cardíacos, entre outras, ou afecções psíquicas, como depressão, ansiedade, irritabilidade, entre outras.
Sardá Junior e colaboradores (2004) levantam um questionamento: se a condição de desgaste do organismo humano é tão grande, diante de tanto estresse, não seria de se esperar respostas adaptativas do organismo a isto? Os mesmos autores seguem afirmando que sim, segundo eles “A reação de estresse tem por objetivo mobilizar o organismo para solucionar a condição em que se encontra” (SARDÁ JUNIOR et al, 2004, p. 16). Porém, não houve nenhuma mudança fisiológica na espécie humana desde o surgimento da espécie, há cerca de cento e cinquenta mil anos (BOURGUIGNON, 1990; LEAKEY, 1995 apud SARDÁ JUNIOR et al, 2004).
O organismo do homem e suas reações são basicamente as mesmas, mesmo diante de tantas mudanças no modo de vida, que ocorreram principalmente nos últimos sete mil anos. Houve um distanciamento do modo de vida natural, uma vez que foi modificado o ambiente para adaptá-lo às necessidades humanas. Um
exemplo disso é a vida em grandes sociedades e não mais em grupos de caçadores ou coletores (BOURGUIGNON, 1990; LEAKEY, 1995; FOLEY, 1992 apud SARDÁ JUNIOR et al, 2004).
A partir disto, pode-se considerar que os estressores presentes na vida moderna não podem ser enfrentados a partir da antiga organização fisiológica do homem. Sardá Junior e colaboradores (2004, p. 17) referem-se a isto ao afirmar que “[...] é um fato novo para uma estratégia antiga, e pelo visto, na maioria das vezes ela não produz efeitos satisfatórios”.
O termo estresse já era utilizado no século XIV com o significado de aflição e adversidade (LAZARUS; LAZARUS, 1994 apud LIPP, 1996a). Posteriormente, desta vez no século XVII, o mesmo termo foi utilizado como opressão, desconforto e adversidade (SPIELBERGER, 1979 apud LIPP, 1996a), mas, somente no século XIX, foi utilizado pelas ciências físicas e humanas.
Sardá Junior e colaboradores (2004) afirmam que, já no século XX, em 1914, Cannon utilizou o termo estresse para denominar a reação do organismo a uma situação de emergência. Cannon chegou a esta conclusão a partir da observação das reações fisiológicas de gatos expostos ao cachorro como fator psicológico de ameaça.
Posteriormente, em 1936, Hans Selye demonstrou, tomando como base experimentos com animais, que a exposição a agentes estressores provocava sempre a mesma sintomatologia: a liberação de corticóides, a produção de úlceras pépticas no organismo, bem como a hipertrofia do córtex das glândulas adrenais e involução dos órgãos imunes (timo e baço). Hans Selye denominou esta reação de Síndrome Geral da Adaptação (SGA) (MOREIRA, 2003).
Lipp (1996a) afirma que Selye (1952) definiu que o SGA se desencadeia em três fases. São elas: fase de alerta, na qual há a excitação do sistema nervoso simpático, fase de resistência, na qual há a liberação do cortisol e fase de exaustão, na qual surgem as doenças provenientes da deficiência do sistema imunológico.
Moreira (2003) coloca que estas reações denominadas por Hans Selye como a SGA podem ser causadas tanto por fatores somáticos quanto psíquicos. “Fica, pois, evidente na SGA, que as agressões à personalidade, bem como as suas defesas, quer sejam somáticas ou psíquicas, orgânicas ou emocionais, são, em essência, da mesma natureza” (MOREIRA , 2003, p. 101).
À SGA Selye chamou de estresse, e somente neste momento o termo tomou maior visibilidade no meio acadêmico. Segundo Moreira (2003), Selye retirou este termo da engenharia, na qual estresse significava “[...] um conjunto de forças que atua contra determinada resistência” (MOREIRA, 2003, p. 102).
Cabe, neste momento, discutir a respeito da utilização do termo estresse no idioma original (stress) ou do termo aproximado à língua portuguesa (estresse). Moreira (2003) afirma que Selye ao falar sobre estresse em outros países, utilizava o termo na forma original, uma vez que não encontrava traduções em outras línguas que fossem fiéis ao que o termo original pretendia expressar. Referendada por cientistas de vários países da Europa, a palavra stress, na língua original passou a ser utilizada como um termo universal. Dessa forma, Moreira defende o uso do termo tal qual foi cunhado por Selye.
Lipp (2000) também defende a utilização do termo na língua de origem e utiliza como argumento o fato de grande parte dos autores utilizarem o termo desta forma. Autores como Andrews (2003), Hoffmann (1991) e Goleman (1998), também utilizam o termo desta forma. Porém, há autores como Sardá Junior e colaboradores (2004), que defendem o uso do termo “estresse”, uma vez que este termo já existe no dicionário da língua portuguesa. Além deste argumento há ainda o fato de que utilizar o termo na forma mais próxima ao português não desvirtua o significado do mesmo, pois “estresse” não é uma tradução, mas apenas uma aproximação do termo à língua portuguesa e não implica um novo conceito. Desta forma, ao longo desta pesquisa será utilizado o termo na língua portuguesa: estresse.
2.4.2 Caracterização do estresse
Aquilo que causa o estresse pode ser chamado estressor. Lipp (2000) divide os estressores em externos e internos. Segundo ela, as fontes externas caracterizam-se por tudo aquilo que vêm de fora do organismo e exige deste uma grande adaptação. Exemplos de fontes externas de estresse são as perdas, os falecimentos, problemas financeiros e também fontes positivas que exijam grandes adaptações. As fontes estressoras internas, por sua vez, são as crenças, valores e modos de agir, que também exigem do indivíduo grandes adaptações. A mesma
autora aponta estes últimos estressores como os mais difíceis de serem identificados, até mesmo pelos próprios indivíduos e são justamente as crenças valores e modos de agir que vão influenciar a percepção destes indivíduos.
Lipp (1996a) afirma que os níveis de estresse aumentaram progressivamente nas últimas décadas e abrangeram não apenas a população adulta, mas também idosos e crianças. Com isto, aumentaram, por consequência, as doenças que o estresse provoca. Esta autora, assim como Moreira (2003), coloca que a partir dos últimos estudos que detalham a abrangente resposta do estresse no organismo, como especificada anteriormente, chegou-se à conclusão que o estresse pode provocar distúrbios viróticos, a partir do processo de imunossupressão.
O estresse tem sido identificado como um possível fator psicopatogênico de muitas outras disfunções, como hipertensão arterial, úlceras gastroduodenais, psoríase, vitiligo, abortos e complicações da gravidez, lúpus, doenças respiratórias, entre outras (LIPP, 1996a). Sardá Junior e colaboradores (2004), também apontam uma série de adoecimentos que, além de outros fatores, podem ser provenientes da resposta fisiológica do estresse e afirma que, além disto, o estresse pode dificultar o avanço do tratamento dos adoecimentos.
Quando acometidas por estes adoecimentos, as pessoas geralmente procuram atendimento médico, muitas vezes em hospitais. O adoecimento e hospitalização, por sua vez, exigem do indivíduo mais um processo de adaptação, o que desencadeia novamente as reações fisiológicas do estresse. Silva e Müller (2007, p. 252) afirmam que “nas diferentes situações da vida, a doença física pode ter um impacto considerável no equilíbrio homeostático do indivíduo, despertando diferentes reações e processos adaptativos.” Deste modo, forma-se um ciclo no qual o estresse gera adoecimento e este gera estresse, o que, por sua vez, mantém ou agrava o adoecimento (ANDREWS, 2003).
Quanto ao estresse gerado pela hospitalização, isto é bastante explorado pela Psicologia Hospitalar, por autores como Botega (2006), que apresenta 8 categorias de estressores hospitalares, como já foi apresentado, e Mello Filho (2002), que utiliza o termo “agente estressor” para referir-se ao estresse proveniente da hospitalização e adoecimento. Segundo este autor a expressão “agente estressor”, foi utilizada pelo próprio Selye em 1936 no livro “A Syndrome Produced by diverse Nervous Atents”.
Diante desta complexidade, Lipp (2000) aponta que, além de aprender a lidar com o episódio, precisa-se buscar a causa para evitar as consequências do estresse excessivo, que é mais prejudicial. Complementando o que foi exposto por Lipp (2000), pode-se afirmar que é preciso não apenas tratar o estresse, mas também desenvolver estratégias de prevenção do mesmo, para que, desta forma, possa-se interromper o ciclo gerador de adoecimento (SILVA; MÜLLER, 2007).
2.4.3 O Sistema Nervoso Autônomo
O estresse apresenta estreita relação com o Sistema Nervoso Autônomo (SNA). Deste modo, ao longo desta pesquisa, este sistema será, com frequência, referido e isto ocorrerá não apenas no que se refere ao estresse, mas também com relação à meditação e à psiconeuroimunologia. Desta forma, considera-se importante dedicar os próximos parágrafos a este sistema e suas subdivisões.
Machado (2005) propõe uma divisão do Sistema Nervoso com base em critérios funcionais. Desta forma, divide este sistema em Sistema Nervoso Somático, responsável pela relação do organismo com o meio ambiente e Sistema Nervoso Visceral, que é responsável pela manutenção da constância do meio interno (homeostase). O Sistema Nervoso Visceral divide-se em componente aferente e eferente. O componente aferente conduz as informações nervosas dos receptores das vísceras para regiões específicas do Sistema Nervoso. O componente eferente, por sua vez, conduz os impulsos originados nos centros nervosos até as glândulas, músculos lisos ou músculo cardíaco.
Tanto o Sistema Nervoso Somático e Visceral, quanto os componentes aferente e eferente apresentam-se em completa relação, sendo muitas vezes difícil definir o que diz respeito a um ou ao outro. Mas, a partir desta classificação didática, Machado (2005) afirma que o componente eferente do Sistema Nervoso Visceral corresponde ao SNA, apesar de alguns autores afirmarem que alguns feixes aferentes do Sistema Nervoso Visceral também fazem parte deste sistema. Este, por sua vez, divide-se em Sistema Nervoso Simpático (SNS) e Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) (MACHADO, 2005).
Machado (2005) afirma ainda que, na maior parte das vezes, os Sistemas Nervosos Simpático e Parassimpático tem ação antagônica; no entanto trabalham harmonicamente na coordenação da atividade visceral. Em geral, o SNS é responsável por: dilatação da pupila, diminuição do peristaltismo do tubo digestivo e fechamento dos esfíncteres, dilatação dos brônquios, secreção das glândulas sudoríparas, ereção de pêlos, vasoconstrição das glândulas salivares, aceleração do ritmo cardíaco (taquicardia), dilatação das coronárias, vasoconstrição dos vasos sanguíneos do tronco e das extremidades, secreção de adrenalina na glândula suprarenal e ejaculação no homem. Já o SNP é responsável por: constrição da pupila, secreção abundante da glândula lacrimal, aumento do peristaltismo e abertura dos esfíncteres, constrição dos brônquios, vasodilatação das glândulas salivares, diminuição do ritmo cardíaco (bradicardia) e constrição das coronárias, contração da parede da bexiga, promovendo o esvaziamento, e ereção no homem (MACHADO, 2005).
Este mesmo autor ressalta a íntima relação desses dois sistemas. Isto leva a crer que a alteração de um acarreta em mudanças no funcionamento do outro. O estresse, por gerar alterações nestes sistemas, também pode acarretar na alteração de todas estas funções descritas acima.
2.5 APRESENTAÇÃO DA MEDITAÇÃO
A meditação, enquanto conceito e prática explorada nesta pesquisa em sua possível relação com a redução do estresse, também precisa ser apresentada. Por se tratar de um tema cuja exploração no meio científico brasileiro é recente, ao longo de sua contextualização e caracterização, procurar-se-á tomar o cuidado de utilizar uma linguagem acessível. Para tanto, ao longo do texto, sempre que se fizer necessário a utilização de algum termo em sua língua de origem, uma explicação sobre este termo será apresentada ou, ao menos, sua tradução.
2.5.1 Contextualização da meditação
O termo meditação teve sua origem no sânscrito5 como dyana, que quer dizer atenção, contemplação, meditação e foi citada, inicialmente, pelas antigas tradições filosóficas, religiosas e espirituais do oriente. A tradição oriental pode ser considerada muito antiga. A medicina ayurvedica6, da Índia, que existe há, no mínimo, cinco mil anos, buscando restabelecer a harmonia do corpo com a natureza, já utilizava a meditação (LIMA, 2005). Devido a isto, encontram-se, ao longo dessa história, muitas concepções de meditação. Cada vertente religiosa, filosófica e ou espiritual menciona um conceito próprio de meditação.
Cada uma destas vertentes, além de trazerem consigo um conceito, apresenta um objetivo específico a ser atingido pela prática. Em geral este objetivo é o auto-desenvolvimento (VISNADI, 1998). Pode-se considerar, a partir do que Lima (2005) apresenta, que as tradições Budista e Hindu7 são as principais que se referem à meditação. Estas, por sua vez, subdividem-se em escolas.
Apesar de possuírem essências muito semelhantes, estas escolas apresentam técnicas diferenciadas. O Budismo apresenta três grandes escolas. A primeira é a escola Theravada ou Hinayana (que significa pequeno veículo), esta possui como principal método a meditação sobre a respiração e concebe a meditação como absorção, contemplação (samapati) e concentração (samadhi). Esta escola apresenta quarenta tipos de meditação que, em geral, compartilham dessa idéia (LIMA, 2005).
A outra escola é o Budismo Tibetano ou Vajrayana (que significa veículo diamantino), na qual se compreende a meditação como concentração. Sua técnica basicamente diz respeito a concentrar-se em um objeto de suporte, como uma imagem, por exemplo. E a terceira escola é a Mahayana (que significa grande veículo). Nesta última, o mais conhecido é o Zen, que se originou na China e desenvolveu-se no Japão com duas práticas principais: a meditação Zen, na qual há
5 Sânscrito é uma língua tradicional da Índia. É a língua na qual foram escritos os tradicionais e milenares textos do Budismo e do Hinduísmo. Cabe lembrar que, na Índia, há cerca de vinte línguas oficiais e, entre elas, está o sânscrito.
6 Ayurveda é a medicina desenvolvida na Índia. O termo foi cunhado em sânscrito e significa ciência da vida. A ayurveda é um dos sistemas medicinais mais antigos da humanidade e continua sendo utilizado como principal modelo médico na Índia.
7 O Hinduísmo é uma tradição religiosa e filosófica que teve sua origem na Índia. Em sânscrito é chamado de sanatana dharma, que significa “a eterna lei”.