REINTEGRATÓRIA / ATENTADO / INDENIZATÓRIA. Invasão e dano comprovados de forma inconcussa pela prova dos autos.
Qualidade e precisão do laudo pericial, aliás não impugnado pelos requeridos.
Inobservância ao ônus do CPC, art. 333, II. Procedência da cautelar de atentado.
Dever de indenizar pelos danos materiais sofridos pela parte demandante.
Inconsistência do recurso aviado. Apelo IMPROVIDO.
APELAÇÃO CÍVEL DÉCIMA NONA CÂMARA CÍVEL
Nº 70027404623 COMARCA DE VERANÓPOLIS
ITELVINO PALUDO APELANTE
IVANI TRES PALUDO APELANTE
JULEIDA DE MARCO TRES APELADO
JACIR TRES APELADO
ORLANDO ANTONIO FRANCO APELADO
A C Ó R D Ã O
Vistos, relatados e discutidos os autos.Acordam os Desembargadores integrantes da Décima Nona Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em negar provimento ao apelo.
Custas na forma da lei.
Participaram do julgamento, além do signatário (Presidente), os eminentes Senhores DES. GUINTHER SPODE E DESA. MYLENE MARIA
MICHEL.
DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI, Relator.
R E L A T Ó R I O
DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI (RELATOR)
Trata-se de apelação interposta por ITELVINO PALUDO E OUTRO da sentença de parcial procedência das ações indenizatória, reintegratória de posse e de atentado ajuizadas por JACIR TRES E OUTROS.
Disseram os recorrentes que não houve invasão, já que as divisas sempre foram respeitadas, jamais foram adulteradas e não houve o ingresso na área do adverso. Referiram que o perito anotou ter encontrado 8 marcos, o que não é correto, vez que só existem 2 marcos entre as propriedades. Quanto aos marcos, ainda, aduziram ter sido realizada pequena manutenção, e não modificação.
Alegaram que houve pequena poda da vegetação, mas que tal não pode ser encarado como dano. Assim, inexiste atentado, tampouco danos a serem ressarcidos, e estas demandas, ademais da possessória, não devem vicejar.
Pugnaram, destarte, pelo juízo de improcedência das demandas, em face da ausência de prova do fato constitutivo do direito dos autores.
Houve contra-razões.
Subiram, assim, estes autos. É o relatório.
V O T O S
DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI (RELATOR)
Nega-se provimento ao apelo.
Por primeiro, incumbe gizar, como de mister, que o recurso não possui qualquer fundamentação técnica. Inexistem fundamentos de direito. Sequer algum artigo de lei é citado, a este título. Por isso, tangencia-se ao não conhecimento, na forma do CPC, 514, II.
A ação reintegratória há de vicejar uma vez que provados os requisitos do CPC, 927, notada a contribuição da perícia oficial a tanto, pois que esta prova atestou a invasão do terreno dos autores, com a modificação em grande escala das divisas, e destruição da divisão original.
Por sua vez, a ação de atentado também colhe porquanto houve alterações na situação de fato, no local objeto do litígio, mesmo após
deferida a liminar reintegratória.
E, assim, o pedido de indenização é agasalhado uma vez que os danos tanto às antigas cercas, quanto às árvores do terreno dos autores (dano este que plasma o atentado propalado, vez que posterior à concessão da liminar reintegratória) ensejam indenização, em prol da parte requerente, conforme o pleiteado.
Enfim. A perícia realizada comprovou que houve invasão das terras dos autores/apelados. O levantamento planialtimétrico dos autores foi corroborado via medição por satélite (GPS), pelo experto.
A invasão, assim, e, depois, o atentado (ingresso na área litigiosa e modificação, no terreno, pelos reús da possessória) ocorreram, modo incontroverso (CPC, 334, II), na medida em que o réu Itelvino admitiu ter adentrado na área dos autores e cortados árvores sem autorização.
Restou esclarecido, demais, que a divisa fora, anteriormente, modificada, tudo à revelia da parte demandante, o que não pode vingar.
O corte de árvores, ainda, independentemente do que possa pretextar a parte ré (“manutenção”, mera “poda”) deu-se em tal extensão que não pode ser ignorada. A suposta ignorância da parte, ademais, acerca da desnecessidade de ter que “avisar” antes de ingressar em propriedade alheia - em litígio, sabidamente - para cortar vegetação é argumento dos mais pueris.
No passo, veja-se que o réu Itelvino afirma, com clareza (Termo de Declarações junto à Polícia Civil – fl. 24, apenso, 1º vol.) que junto com seu filho “entrou na propriedade de Jacir (sem autorização do
mesmo) e roçou em baixo de uma rede elétrica que passa no local e vai até a propriedade do declarante (...) não pediu permissão para Jacir para cortar as árvores, que tinham cerca de 6m de altura” (grifamos).
Reprise-se, foram cortadas árvores com aproximadamente SEIS METROS de altura. E não se cuidou de um ou outro exemplar isolado, mas de CERCA DE 100 ÁRVORES (PINUS), mais ou menos – como declarado pelo autor Jacir à autoridade policial, e que jamais é negado pelos réus. Isto é mais do que uma “poda”, por suposto. O esgrimir de tal tese, impende consignar, aproxima-se da litigância de má-fé vez que seguramente pode-se induzir em erro o juízo.
Note-se que, outrossim, os apelantes afirmam que os limites entre as áreas são os mesmos há 30 anos; tal é repetido desde a primeira manifestação da parte nos autos, e cuida-se de mera alegação, mera versão, desacompanhada de substrato probatório. Idem, no que pertine com os marcos divisórios: o perito encontrou 8, e a parte assevera que há tão-somente 2 marcos entre as propriedades.
É singela assertiva sem o pertinente alicerce probatório. E que colide com a prova técnica produzida, a final, a qual comprova a alteração
na divisa em aproximadamente 11m (onze metros), exatamente conforme asseveraram os demandantes.
O ônus de provar o fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor (o qual quedou devidamente provado pelo laudo do expert oficial) tocava aos réus/apelantes, como consabido, à luz do que reza o CPC, 333, II.
Em casos similares, tem-se dito que, entre a versão da parte litigante - no caso, aliás, sem prova do alegado, grife-se – e o laudo do perito do juízo é de preponderar o entendimento deste. Na situação em tela a ilação neste sentido é axiomática. Em a prova pericial ratificando a tese inaugural, não será a simples alegação da parte contrária, desacompanhada
de substrato probatório, repetimos, que a irá infirmar.
À prova técnica não se pode opor simples argumentação e tencionar que esta vá vicejar.
O debate, portanto, apresenta-se singelo. A tese da exordial veio a ser comprovada pelo excelente laudo pericial (fls. 135 e ss., autos apensos, 2º volume). Os réus/apelantes, que aliás deixaram de impugnar a perícia (certidão, fl. 172v., apenso 2º volume), também não fizeram a prova que lhes tocava na dicção do CPC, 333, II, como referimos.
Especificamente no que tange à ação cautelar de atentado, na forma do CPC, 879, esta deve medrar dado que o comportamento da parte ré foi de tal sorte que alterou substancialmente a situação de fato enquanto em curso a ação possessória aforada pelo autor. A alteração, como vimos, foi de vulto, consistente na “poda”, no corte de diversas espécies vegetais – a alteração das divisas foi o que ensejou a reintegratória; e o corte de árvores consubstanciou o dano, que toca indenizar. Impende gizar que o atentado, como processo cautelar e apesar de ser admitido apenas sob a forma incidental, afigura-se cabível relativamente a qualquer ação, desde
que presentes os pressupostos, assim como uma das hipóteses de cabimento a que alude o referido art. 879 do CPC.
No aspecto indenizatório, e na esteira do supra referido, decerto que os danos patrimoniais causados pelos requeridos hão de ser indenizados. Tem-se o deslocamento da cerca, que deve ser retificada, mais o corte de árvores (cujos reflexos materiais são dificilmente mensuráveis, aliás, mesmo abstraindo-se o dano ambiental): nestes moldes, a indenização fixada, em apenas R$ 2.000,00, não se mostra exagerada.
Reitere-se que o apelo aviado não aduz fundamentação jurídica. No aspecto que se percute, não há argumentos que possam arredar o dever de indenizar, especialmente quando o corte das árvores é confesso e na medida em que a modificação da cerca foi constatada pela perícia.
Logo, nega-se provimento ao apelo. É o voto.
DES. GUINTHER SPODE (REVISOR) - De acordo. DESA. MYLENE MARIA MICHEL - De acordo.
DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI - Presidente - Apelação Cível nº
70027404623, Comarca de Veranópolis: "NEGARAM PROVIMENTO AO APELO. UNANIMEMENTE."