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Rev. Bras. Psiquiatr. vol.29 número4

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Academic year: 2018

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Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(4):380-5 Cartas aos Editores 382

Dementia praecox

: a loucura

moderna?

Dementia praecox

: a modern folie?

Sr. Editor,

O artigo “Is the outcome of schizophrenia really better in developing countries?”1 abordou uma das principais conclusões dos estudos de colaboração internacional, realizados pela Orga-nização Mundial de Saúde (OMS), sobre o comportamento da esquizofrenia ao redor do mundo. Supostamente, a esquizofrenia apresentaria melhor prognóstico em sociedades não industriali-zadas. Os autores sugerem que esta afirmação se tornou um axioma internacionalmente inquestionável. Citando registros pro-venientes dos mesmos centros colaboradores, alegam que esta conclusão deveria ser revista. Haveria “poucas evidências oriun-das de países pobres que demonstrem a influência benéfica das variáveis apontadas pelos estudos da OMS”.

Embora os estudos da OMS sugiram que “a maior contribui-ção destas pesquisas não é apresentar respostas, mas delinear questões a respeito de como as sociedades e culturas moldam o processo de doença”, de fato, seus instrumentos oferecem tão poucos recursos conceituais que os autores do artigo aqui refe-rido acabam confundindo conceitos demasiadamente genéricos, como “sociedades não industrializadas” e “países em desenvolvi-mento”, com “miséria social”.

Na realidade, atravessamos um processo de velocíssima tran-sição global e aqueles estudos procuraram replicar conclusões que há muito sinalizavam a ausência de esquizofrenia, ou im-portantes variações evolutivas, em diferentes contextos histórico-culturais.2,3

Como a própria OMS reconheceu, foi um projeto ambicioso. Vale lembrar que o primeiro da série foi iniciado em 1969, quando a psiquiatria vinha sendo solapada por sua evidente falta de confiabilidade diagnóstica. Os instrumentos elaborados pela OMS padronizaram a entrevista psiquiátrica e operacionalizaram os sintomas, estratégias essenciais para o incremento da confiabilidade diagnóstica.

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Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(4):380-5 383 Cartas aos Editores

Mas a conclusão mais intrigante foi a idéia de a prevalência da esquizofrenia ser universalmente homogênea e estável, inde-pendente de épocas e contextos socioculturais. Aparentemente, esta conclusão pode ter sido apenas o resultado do peso excessi-vo dado à categoria “S”, do sistema CATEGO/PSE. Neste caso, apenas os sintomas desta categoria, ou melhor, alguns sintomas equivalentes aos de primeira ordem de K. Schneider é que teriam prevalência homogênea e universal.

O problema surge quando consideramos os esquizofrênicos marcados por acentuada deterioração da personalidade. Como conjugar esta evidência clínica com a literatura passada, que sugeria sua ausência em sociedades tribais, hoje extintas, assim como em épocas anteriores à revolução industrial?5 Tampouco há registros, na antiguidade, de algum tipo de loucura seguido de um processo de deterioração mental tão marcante quanto os encontrados a partir de Pinel. Além disto, recente meta-análise6 indica que tem havido significativas variações epidemiológicas entre países, nas últimas décadas.

Desta forma, se apenas a psicose for, de fato, universal, e não o curso evolutivo, diferente das críticas apontadas pelos autores, a indagação principal deve se voltar para os elementos capazes de influir na emergência deste complexo fenômeno, hoje defini-do pelo curso desfavorável, e não apenas pela psicose”.

Nelson Goldenstein

Laboratório de Estudo e Pesquisas em Psicopatologia e Subjetividade, Instituto de Psiquiatria, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Financiamento: Inexistente

Conflito de interesses: Inexistente

R e f e r ê n c i a s

1. Patel V, Cohen A, Thara R, Gureje O. Is the outcome of schizophrenia really better in developing countries? Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(2):149-52.

2. Torrey F. Schizophrenia and Civilization. New York, NY: Jason Aroson; 1980.

3. Murphy HB. Cultural influences on incidence, course, and treatment response.. In: Wynne LC, Cromwell LR, Matthysse S, editors. The Nature of Schizophrenia. New York, NY: John Wiley & Sons; 1978. p. 586-94.

4. Robins E, Guze SB. Establishment of diagnostic validity in psychiatric illness: its application to schizophrenia. Am J Psychiatry. 1970;126(7):983-7.

5. Gottesman I. Schizophrenia Genesis: The Origins of Madness. W. Freedman; 1990.

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