ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA BIBLIOTECA
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ALBERTO PESSOAFALSAS IMPRESSÕES
DIGITAIS
COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADEÀLBERTO PESSOA
FALSAS IMPRESSÕES
DIGITAIS
COIMBRA lMPRENSA DA UNlVERS IDADE
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Separata de aO Instituto», vol. 71.0 1 n.o 1
FALSAS IMPRESSÕES DIGITAIS
(I)A possibilidade de fazer aparecer, sôbre qualquer objecto
'de superfície polida, uma impressão digital, visível ou latente, proveniente dum indivíduo que nunca tocou nesse objecto com as pontas dos seus dedos, é hoje admitida por todos os que se ocupam de questões de dactiloscopia.
A fabricação de falsas impressões não constitui, como alguns autores afirmam, uma simples curiosidade de labo-ratório sem aplicações práticas.
Quere-me parecer que é um perigo real, de que não convém por certo exagerar a importância, mas que será imprudente não ter sempre em vista.
São, com efeito, conhecidas algumas observações referentes a falsas impressões, direitas ou invertidas lateralmente, en-contradas no local do crime e gue têm sido estudadas pelos Serviços de Identificação dos diversos países.
Na hipótese de se tratar de impressões invertidas, o fal-sário procura apenas evidentemente desorientar as pesquizas, fazendo-as incidir sôbre impressões inexistentes, como acon-teceu, por exemplo, no caso, referido por Ehmer (2), do roubo feito numa joalharia em que o ladrão deixou bem aparente, no local do crime, a impressão invertida dum dos seus próprios dedos.
Na hipótese duma impressão direita, o falsário procura evidentemente comprometer, por vingança ou qualquer outro motivo, a pessoa de quem assim deixa as impressões, a não ser que se trate duma manifesta ironia como no caso daquele criminoso francês, autor de vários assassinatos, que deixava sempre bem visível, na fronte dos cadaveres, a impre_ssão
( 1) Êste estudo foi publicado na Revista de Medicina Legal de Cuba,
ano II, n.0 6, Junho de 1923, traduzido pelo prof. Israel Castellanos.
(2) Citado por Heindl. System und Praxis der Daktyloskopie. Berlin,
sangrenta dum dedo polegar que se averiguou ser o do Per-feito de Polícia de Paris(1).
Nos romances policiais, hoje tão em voga, há freqüentes referências a esta questão, indicando mesmo alguns os pro-cessos técnicos que, no intender dos autores, podem ser usados para fazer falsas impressões digitais.
Assim, por exemplo, no romance de R. Austin Freemann, Der rote Daumenabd1·uck, encontram-se as seguintes passa-gens que traduzo da transcrição feita no livro já citado de Heindl:
aPara isto há dois métodos.
«Ü primeiro não tem arte nem dificuldades: imprimem-se os dedos em argila plástica ou em lacre quente, lança-se depois no molde, assim feito, cola de gelatina que se deixa arrefecer e solidificar, de modo a conseguir uma excelente moldagem das pontas dos dedos .
. aMas êste processo não pode ser pelos falsificadores
to-mado em cpnsideração porque- excluindo as vítimas mortas ou sem sentidos- só pode ser aplicado com conhecimento da pessoa, por isso eu sou levado a crer que nestes casos, o falsário emprega antes um método mais difícil mas muito mais eficaz.
«Para isso é indispensável conseguir uma impressão di-gital autêntica. ·
«Desta tira-se uma fotografia ou melhor um negativo que para êste fim se tenha tirado com inversão lateral, mete-se êste negativo numa prensa contra uma folha de gelatina es-pecialmente preparada e expõe-se à luz. .
«Üra esta gelatina especial, chamada cromatada, tem uma propriedade muito notável: exposta à luz torna-se insolúvel na água.
a.A camada de gelatina colocada debaixo do negativo, fica protegida nas partes opacas, emquanto a luz penetra pelos
(1) Citado por Herméto Lima, As impressões digitaes não podem
servir de prova para condemnação- Como e/las iam dando logar a um grave êrro iudiciário- Archivo de Medicina Legal, vol. I, n.0
' 1 e 2, Ja-neiro e Abril de 1922, pág. 35.
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pontos transparentes; estes pontos transparentes. dos nega-tivos correspondem às linhas negras das impressões digitais e estas linhas correspondem às cristas papilares das pontas dos dedos.
cPor conseqüênCia a luz actua só nos pontos da película de gelatina correspondentes às cristas, que se tornam inlúveis, emquanto que o resto da película conserva a sua so-lubilidade.
<<Depois fixa-se cuidadosamente a lâmina de gelatina sôbre uma placa metálica delgada, como suporte, e lava-se muito cuidadosamente com água quente para que a parte solúvel de gelatina se destaque, ficando apenas sôbre a lâmina me-tálica os pontos correspondentes às crist3s.
«Por esta forma se consegue um fac-simile exacto, em relêvo, da impressão digital.
«Passando depois sôbre êste relêvo um rôlo ennegrecido ou aplicando muito ligeiramente o relêvo sôbre uma placa ennegrecida e depois sôbre um bocado de papel, produz-se uma impressão digital que corresponde exactamente ao de-senho das cristas papilares das pontas dos dedos».
Vivian Grey(x) indica também num dos seus livros, embora com menos minúcia, um processo de fazer falsas impressões, consistindo essencialmente em aproveitar os moldes feitos sôbre os pingos de cera que eséorrem pelos dedos duma pessoa que segure uma vela acesa na :não.
Tudo isto é por ventura um pouco ingénuo; mas não de-vemos esquecer que se trata de pa~sagens de romances ...
Num artigo publicado em xgt3 nos A1·chives d' Antropologie
c1·imitielle, Goddefroy (2) diz conhecer um método que
per-mite produzir falsas impressões digitais desde que se dis-ponha, está claro, duma impressão autêntica, feita com tinta ou revelada.
Por· motivos óbvios o autor entende que não deve dar publicidade ao seu método, não se recusando, porém, a
( 1) Citado por Heindl, loc. cit.
(2) Goddefroy, Peut-on produire de fausses emprcintes
torná-lo conhecido das pessoas que se ocupam de questões· de dactiloscopia.
Por isso quando trazia em ensaios, no Instituto de Me· dicina Legal de Coimbra, um processo de fazer falsas im-pressões, resolvi escrever para a Bélgica, pedindo informações sôbre a questão.
Recebi em resposta uma extensa e minuciosa carta, cheiat de preciosas indicações que, evidentemente, não posso nem devo publicar.
Direi apenas, depois de deix;:~r aqui expressos os meus agradecimentos ao Sr. E. Goddefroy pela . sua respos~a
tão pronta e completa, que a leitura dessa carta me veiO mostrar ser o processo que andava estudando diferente daqueles que o autor me indicou.
Com o meu processo, que é muito simples, fàcilmente-se consegue fazer aparecer, em poucos minutos, uma falsa impressão latente sôbre qualquer objecto de superfície lisa e polida, desde que se disponha duma impressão latente autêntica em metal, vidro, porcelana, etc., o que é fácil de obter sem que o indivíduo visado suspeite.
Podem também produzir-se falsas impressões invertidas la-teralmente, mas para isso será necessário que o indivíduo visado toque com os seus dedos num objecto especialmente preparado, o que poderá motivar suspeitas.
Não vou, é evidente, indicar aqui duma maneira exacta como isto se faz.
Mas naturalmente não tenho dúvida nenhuma em comu-nicar a qualquer pessoa que, tendo categoria para o .fazer, me peça informações, êste meu processo que~ devo dizer, se não parece nada com os processos mais ou menos fan-· tasistas indicados nos romances policiais que referi.
Estas falsas impressões comportam -se perante os reagentes usados para a revelação justamente da mesma forma que as autênticas- condição evidentemente indispensável· para que possam induzir em êrro.
Depois de coradas deixam-se transferir do· suporte em que se encontram por meio do papel gelatinado, das fôlhas especiais para a transferência de impressões de Rudolph Schneider, ou por qualquer outro meio semelhante.
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l Não há então maneira de distinguir as falsas impressões das verdadeiras?
.Goddefroy afirmava. no artigo já citado que, nas falsas impr.essões, as linhas papilares são contínuas, não
apresen-.tando os sinais dos orifícios das glândulas sudoríparas que sempre se observam nas autênticas.
Da mesma opinião é Locard que diz permitir a poros-copia fazer com segurança a distinção, visto as falsas im-pressões não apresentarem, na grande maioria dos casos, o ponteado dos orifícios sudoríparos ( 1 ).
O critério não é seguro; nas falsas impressões os poros podem ser tão nitidamente visíveis como nas autênticas.
É esta de resto a opinião actual de Goddefroy que me informou ter conseguido, posteriormente à publicação do seu artigo, falsas impressões perfeitas, reproduzindo os orifícios
· sudoríparos.
A êste propósito parece-me que convém advertir o
se-gcin~: ·
Nem todos os indivíduos produzem impressões digitais autênticas em que os poros sejam igualmente visíveis: há indivíduos que habitualmente deixam impressões magníficas,
outros impressões inferiores. ·
Além disso em impressões produzidas nas mesmas con-dições, mas em ocasiões diversas, pelo mesmo dedo do mesmo indivíduo a nitidez dos poros pode variar com o estado da pele.
A visibilidade dos poros depende ainda necessàriamente da natureza do objecto em que se encontra a impressão e do processo usado na revelação.
De tudo isto se deve concluir que, embora muitas vezes confrontando uma impressão autêntica com uma impressão falsa do mesmo dedo, feita na mesma ocasião e em circuns-tâncias análogas, se observe uma menor nitidez dos poros desta segunda impressão, não pode esta diferença de grau na visibilidade do.s poros servir para a distinção, visto que, no caso de se encontrar uma falsa impressão no local do
(•) Locard, L'enquéte crimine/le et les methodes scientijiques. Paris 1920, pág. 108.
crime, falta para termo de c0mparação uma impressão autên-tica feita no mesmo momento e idênautên-ticas condições.
O perigo de aparecerem, no local dum crime, falsas im-pressões digitais não parece no entanto muito para recear, pelo menos uas questões correntes, porque a pessoa que as quizesse provocar deveria ( 1):
1. o Conhecer os processos que se podem usar, saber aplicá-los e dispôr dos materiais necessários.
2.0 Ter tempo para o fazer.
3.0 Dispôr de uma ou mais impressões digitais da pessoa
visada.
4.0 Não deixar as suas próprias impressões nem qualquer vestígio das manobras executadas no objecto comprometente, o que nem sempre é fácil de conseguir.
5.0 Não deixar além disso em qualquer outro ponto do local do crime nenhum vestígio da sua passagem.
6. 0 Poder provar por um alibi reconhecido como
verda-deiro a sua própria inocência.
É além _disso manifestamente necessário que a pessoa cuja impressão tenha sido reproduzida não possa provar, por
um alibi ou por qualquer outra forma, a impo~sibilidade da
sua participação no crime.
Raras vezes haverá vantagem para o criminoso ·em deixar no local as impressões doutra pessoa, tanto .mais que, seja qual for o processo empregado na falsificação, os resultados nerp sempre são satisfatórios.
E em geral mais cómodo e menos perigoso não deixar as próprias impressões ...
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