APELAÇÃO CÍVEL Nº 390709-37.2009.8.09.0011 (200993907091) APARECIDA DE GOIÂNIA APELANTE: EDINAILTON PEREIRA DE SOUZA
APELADO: FLÁVIA FERREIRA ROSA
RELATOR: DESEMBARGADOR CAMARGO NETO CÂMARA: 6ª CÍVEL
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. 1. AÇÃO DE
INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL.
RECONHECIMENTO EQUIVOCADO DE PESSOA EM DELEGACIA DE POLÍCIA. EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO. A teor do que dispõe o art. 188, inciso I, do Código Civil, não constituem atos ilícitos os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido, não configurando dever de indenizar o reconhecimento de irmão do verdadeiro autor do ato ilícito, por meio de fotografia, ante as semelhanças físicas existentes entre ambos.
2. INEXISTÊNCIA DE DOLO OU CULPA DA VÍTIMA.
Não demostrada a existência de dolo, culpa ou erro grosseiro por parte daquele que promove ocorrência policial, com o consequente reconhecimento de pessoa, com o intuito de apurar fatos possivelmente contrários à ordem legal, resta indevida a pretensão indenizatória por dano moral.
APELO CONHECIDO E DESPROVIDO. SENTENÇA
MANTIDA.
A C Ó R D Ã O
Vistos, relatados e discutidos estes autos, em que são partes as retro indicadas.
ACORDAM os integrantes da Primeira Turma Julgadora da 6ª Câmara Cível, à unanimidade de votos, em conhecer do Apelo e negar-lhe provimento, nos termos do voto do Relator.
A sessão foi presidida pelo Desembargador Jeová Sardinha de Moraes.
Votaram com o Relator o Desembargador Jeová Sardinha de Moraes e o Desembargador Fausto Moreira Diniz.
Presente o ilustre Procurador de Justiça Doutor Eliseu José Taveira Vieira.
Goiânia, 22 de maio de 2012.
Desembargador CAMARGO NETO
Relator
APELAÇÃO CÍVEL Nº 390709-37.2009.8.09.0011 (200993907091) APARECIDA DE GOIÂNIA APELANTE: EDINAILTON PEREIRA DE SOUZA
APELADO: FLÁVIA FERREIRA ROSA
RELATOR: DESEMBARGADOR CAMARGO NETO CÂMARA: 6ª CÍVEL
V O T O
Presentes os requisitos legais de admissibilidade do recurso, dele conheço.
Trata-se de Apelação Cível interposta por EDINAILTON PEREIRA DE SOUZA contra sentença prolatada pelo MM. Juiz de Direito da 1ª Vara Cível da Comarca de Aparecida de Goiânia, Dr. J. Leal, nos autos da Ação de Indenização por Danos Morais ajuizada em desfavor de FLÁVIA FERREIRA ROSA, a qual foi julgada improcedente, com fundamento no art. 269, inciso I, do CPC, por ausência de dolo ou culpa da ré.
Pois bem. No caso presente, o autor busca o amparo da Justiça sob alegação de que fora lesado em sua moral, quando injustamente acusado pela Apelada, de crime praticado por seu irmão.
Impende notar que a responsabilidade civil decorre de
uma ação ou omissão, dolosa ou culposa, cuja consequência seja a
produção de um dano que pode ser de ordem moral ou patrimonial.
Destarte, presentes os elementos indispensáveis à configuração do ato ilícito, extrai-se o dever de indenizar, com fulcro no art.
186 do Código Civil.
Vale transcrever os artigos do Código Civil que fundamentam a questão:
Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa fé ou pelos bons costumes.
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.
Insta ressaltar que a regra do art. 186 do Código Civil é excepcionada pelo art. 188, do mesmo Código, que disciplina algumas situações em que, não obstante o dano, o agente se exime do dever de indenizar, como o exercício regular de um direito (Código Civil, art. 188, inciso I)
1.
Neste diapasão, o simples fato da requerida reconhecer na Delegacia de Polícia, pessoa que acredita ser a que efetuou os disparos em seu veículo, a qual viu rapidamente por uma única vez, com o carro em movimento, e ainda, com características semelhantes ao do verdadeiro 1
Art. 188. Não constituem atos ilícitos:I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido;
autor (fotos fls. 26/27) – irmão do reconhecido equivocado, embora possa trazer constrangimentos aos envolvidos no episódio, não é capaz, por si só, de configurar o dano moral, por estar a vítima amparada pelo exercício regular de um direito.
Assim, para caracterizar o dever de indenizar, indispensável que a pessoa exceda os limites do razoável, exercendo mal desnecessário e injusto.
Discorre Rui Stoco
2:
“Mas o indivíduo, no exercício de seu direito, deve conter-se no âmbito da razoabilidade. Se o excede, embora o esteja exercendo, causa um mal desnecessário e injusto e equipara o seu comportamento ao ilícito. Assim, ao invés de excludente de responsabilidade, incide no dever de indenizar.”
Neste sentido é a orientação da jurisprudência desta Corte de Justiça:
APELAÇÃO CÍVEL. RECURSO ADESIVO. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO DANOS MORAIS E MATERIAIS. ILEGITIMIDAE PASSIVA NÃO CONFIGURADA. COMUNICAÇÃO DE FURTO A AUTORIDADE POLICIAL. EXERCÍCIO REGULAR DE UM DIREITO. 1. Uma vez que a controvérsia entre as partes reside no fato do apelante ter supostamente acusado o apelado de furto, além do que teria disseminado falsa notícia, fazendo acusações levianas e vexatórias, é ele parte legítima para figurar no polo passivo da presente demanda. 2. Proceder o registro de ocorrência policial, para iniciativa de apuração de possível crime de furto constitui direito 2 STOCO, Rui. Tratado de Responsabilidade Civil. Ed. RT, pág. 189.
do lesado, e o consequente desconforto que sofre as pessoas envolvidas em reflexo ao exercício desse direito não é suscetível de reparação civil. 3. Não demostrando que houve dolo, má-fé, culpa grave ou erro grosseiro por parte daquele que promove ocorrência policial, com o intuito de apurar fatos possivelmente contrários a ordem legal, resta prejudicada a pretensão indenizatória por dano moral e material. 4. (…). Apelação Cível conhecida e parcialmente provida. Recurso Adesivo conhecido e improvido3.
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. DANO MORAL.
INEXISTENTE. REPRESENTAÇÃO CRIMINAL. EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO. AUSÊNCIA DE DOLO, CULPA OU MÁ-FÉ. I- Constitui exercício regular de um direito a comunicação à autoridade policial de fato criminoso, lastreado em provas testemunhais com indícios da ocorrência do mesmo conforme narrado, não se tratando de dano moral suscetível de reparação civil, tendo em vista a ausência de comprovação de que houve dolo, culpa ou má-fé por parte da vítima, ao contrário, restou demonstrado que a mesma agiu dentro de uma razoabilidade, pretendendo a apuração dos fatos, cuja competência é do Estado. Apelo conhecido e improvido.4
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANO MORAL.
REGISTRO DE OCORRÊNCIA POLICIAL. EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO. AUSÊNCIA DE DOLO, MA-FÉ, CULPA GRAVE OU ERRO GROSSEIRO NO PROCEDER DO COMUNICANTE. I- Proceder o registro de ocorrência policial, para iniciativa de apuração de possível crime de furto, constitui direito do lesado, e o consequente desconforto que sofre as pessoas envolvidas e reflexo do exercício desse direito. II- Não demonstrado que houve dolo, ma-fé, culpa grave ou erro grosseiro por parte daquele que promove ocorrência policial, com o intuito de apurar fatos 3 TJGO, 1ª Câmara Cível, ApC nº 438692-66, Rel. Dr. Gerson Santana Cintra, DJ nº 785 de 24/03/2011
possivelmente contrários a ordem legal, resta prejudicada a pretensão indenizatória por dano moral. Recurso conhecido e improvido.5
Neste contexto, embora o autor alegue que seu nome e imagem foram divulgados na imprensa indevidamente, em decorrência do equívoco com relação a autoria do crime, não foi comprovada a participação da Apelada nesta divulgação, tampouco qualquer entrevista sua imputando ao autor a prática do crime, sendo que tudo ocorreu no âmbito das investigações policiais.
É cediço que compete, em regra, a cada uma das partes fornecer a prova das alegações que fizer, ou seja, ao autor incumbe a prova do fato constitutivo do seu direito e ao réu a prova do fato impeditivo, extintivo ou modificativo daquele, nos termos do art. 333, do Código de Processo Civil.
Destarte, no caso concreto, não logrou o Apelante a comprovar satisfatoriamente que a Recorrida agiu com dolo ou culpa, quando o apontou como suspeito dos disparos efetuados, ao contrário, extrai-se dos autos que a Apelada apenas agiu amparada no exercício regular de um direito, razão pela qual não há falar em fixação de indenização por danos morais.
A respeito da discussão, bem delineou o juiz sentenciante:
“(...) Urge consignar que o reconhecimento de pessoas ou coisas
5
.TJGO, 1ª Câmara Cível, ApC nº 95744-1/188, Rel. Des. Leobino Valente Chaves, DJ nº 14766 de 29/05/2006pela vítima durante a primeira fase da persecução penal, não tem o condão de provar autoria, servindo-se tão somente como indício, que será posto em contraste com as demais provas colhidas.
Amiúde até, esse erro em nossas investigações policiais, seja pelas condições psicológicas da vítima, seja pela reduzida qualidade das fotografias exibidas, seja, ainda, pela dificuldade de memorização da compleição física do delinquente durante o inesperado ato criminoso. Destarte, salvo quando evidente o desiderato de prejudicar (denunciação caluniosa) ou incidir em culpa grave, deverá a vítima se responsabilizar civilmente pela declaração de reconhecimento de pessoas ou coisas.
Acrescenta-se que a requerida jamais deu publicidade ao caso;
suas declarações foram para polícia, não para imprensa. De sorte que não poderá responder pelo fato da divulgação da imagem e nome do autor (...)”.