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ONTIFÍCIAU
NIVERSIDADEC
ATÓLICA DES
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AULO— PUC-SP
PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS — MESTRADO —
CRISE POLÍTICA E REFERENDO POPULAR
O Escândalo do Mensalão como Contexto Político-Midiático do Referendo do Desarmamento
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OMESOrientadora: Profª Drª Vera Lúcia Michalany Chaia
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ONTIFÍCIAU
NIVERSIDADEC
ATÓLICA DES
ÃOP
AULO— PUC-SP
PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS — MESTRADO —
CRISE POLÍTICA E REFERENDO POPULAR
O Escândalo do Mensalão como Contexto Político-Midiático do Referendo do Desarmamento
Dissertação apresentada à banca examinadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais, sob orientação da Profª Drª Vera Lúcia Michalany Chaia.
Banca Examinadora
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Resumo
Em 23 de outubro de 2005, no Referendo do Desarmamento, o Brasil votou a favor ou contra a seguinte questão: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Em 27 de julho, pesquisas de opinião apontavam vitória do Sim com 80% das intenções de voto. Mas o Desarmamento acabou perdendo, com 63,9% de votos dados ao Não. Manteve-se no Brasil a venda legal de armas de fogo e munição.
As razões apontadas por diferentes autores que vêm estudando a vitória do Não desenham um quadro complexo, que envolve a questão da qualidade desigual da propaganda eleitoral dos lados a favor e contra no horário gratuito em rádio e televisão, o fracasso da política governamental de segurança pública e a conseqüente falta de credibilidade nas instituições públicas, o sentimento de que a proibição proposta no Referendo significaria perda de direito à legítima defesa, além de fatores decorrentes de interesses econômicos de fabricantes e comerciantes de armas e munições, assim como a posição assumida pelas elites e o financiamento das campanhas. Durante os meses que precederam o Referendo, aconteceu o chamado Escândalo do Mensalão, promovendo a maior crise política envolvendo o presidente Lula, seu governo e seu partido, o PT. É objetivo do presente trabalho estudar essa crise como pano de fundo do Referendo, ou seja, como elemento hipoteticamente fundamental para se entender o fracasso de uma iniciativa em que a posição favorável dos três era uma das marcas importantes. Com os promotores em baixa, os resultados podem ter refletido mais um aspecto da descrença dos eleitores naquela conjuntura. Uma imagem muito negativa do governo e dos governantes esteve durante meses em exposição na mídia. Analisar o conteúdo que então se divulgava em periódicos de importância nacional pode permitir uma reconstrução do que aqui se chamará contexto político-midiático. Para traçar esse pano de fundo foram escolhidas as revistas Veja e Época, que foram centrais na crise e que, em relação ao Referendo, assumiram posições contrárias.
Palavras-chave
Abstract
On October, the 23rd, 2005, took place in Brazil the Referendo do Desarmamento
(Referendum for the Disarmament), when Brazilians voted in favor or against the following question: “The fire weapons and ammunitions trade must be prohibit in Brazil?”. Polls predicted the vote Yes would win. It lost. The answer No got 63.9% of the total votes. The trade of weapons and ammunitions goes legally on. Different social scientists have studied the Referendo and pointed reasons for the victory of No, which make a complex explanation: the different quality of the radio and TV adverstising of the two sides; the failing of the governmental politics for public security; the lost of credibility of politicians, political parties, particularly the PT, Partido dos Trabalhadores (Workers’ Party), the federal government and President Luiz Inacio Lula da Silva himself; at last but not least, the weakening of the voters’ confidence on public institutions because of the crisis that proceeded the Referendo. From May to September, a big scandal called Escândalo do Mensalão (The Big Monthly Bribe Scandal) shook and startled Brazil, affecting negatively the images of President Lula, his government and his Party. The present work seeks to understand the Escândalo do Mensalão as a political background to the Referendum. To reach that aim, two of the most important Brazilian weakly magazines, Veja and Época, were submitted under a content analysis. Both had a similar critical position about the crises of Mensalação, but Veja was in favor of the vote No to the Disarmament, and Época in favor of Yes.
Keyword
Agradecimentos
Devo a concretização do presente trabalho, antes de mais nada, à Profª Drª Teresinha Bernardo, que me incentivou a voltar aos bancos escolares e que, durante meu curso de pós-gradução na PUC, nunca me faltou com sua amizade e apoio irrestritos.
A Profª Drª Vera Chaia, minha orientadora, conduziu com rigor e compreensão a orientação do trabalho em todas as suas etapas, sugerindo, fazendo correções, mostrando o caminho.
Ao cursar as diferentes disciplinas do programa, pude me valer da competência acadêmica e dos ensinamentos dos Profs. Drs. Miguel Chaia, Ana Amélia da Silva, Rogério Bastos Arantes, Carmen Sylvia Junqueira e Luiz Eduardo W. Wanderley. De todos serei sempre devedora.
No exame de qualificação contei com a crítica dos argüidores e inúmeras sugestões que enriqueceram minha pesquisa. Participaram da banca minha orientadora, a Profª Drª Vera Chaia, a Profª Drª Teresinha Bernardo e o Prof. Dr. Marco Antonio Teixeira.
Luciana Prandi Mendes de Carvalho cuidou da revisão do texto final.
Meus irmãos Maria de Lourdes e Eudes ofereceram, como sempre, a retaguarda doméstica, com afeto, companheirismo e amparo em todas as horas.
A todos, muito obrigada.
ERRATA
CRISE POLÍTICA E REFERENDO POPULAR
O Escândalo do Mensalão como Contexto Político-Midiático
do Referendo do Desarmamento
MARIA LÚCIA PRANDI GOMES
Na pág. 50, na linha 29, onde se lê: “Rnron”, leia-se: “Enron”
Na pág. 52, na linha 03, onde se lê: “Fernando Azevedo”, leia-se: “Fernando
Bezerra”.
Na pág. 71, na linha 12, onde se lê: “BB”, leia-se: “BR”.
Na pág. 71, na linha 17, onde se lê: “Bornhause” leia-se: “Bornhausen”.
Na pág. 75, na linha 15, onde se lê: “SMPB”, leia-se: “SMP&B”.
Sumário
INTRODUÇÃO... 8
O Referendo do Desarmamento ... 8
Objetivo ... 9
Política e mídia ... 11
Procedimentos da pesquisa... 16
As revistas escolhidas ...17
Unidades de análise e as variáveis ...18
Apresentação dos capítulos ... 21
1. O ESTATUTO DO DESARMAMENTO E O REFERENDO ... 24
1.1. O que foi o Referendo ... 24
1.2. O Estatuto do Desarmamento, violência urbana e mobilização da sociedade civil ... 25
1.3. A entrega voluntária de armas e a autorização para realização do Referendo .... 27
1.4. Como se explicou a derrota do Sim... 29
Na mídia impressa ...30
No horário gratuito...30
Um pano de fundo...35
2. DE QUE CRISE ESTAMOS FALANDO... 36
2.1. A crise em poucas palavras ... 36
Que tipo de crise foi essa? ...36
Crise e credibilidade ...38
3. A CRISE NAS MATÉRIAS E REPORTAGENS DE VEJA E ÉPOCA... 46
3.1. O volume da crise... 46
3.2. O estopim da crise ... 47
3.3. A crise semana após semana ... 48
Primeira semana...49
Segunda semana...51
Terceira semana ...52
Quarta semana...54
Quinta semana...55
Sexta semana...57
Sétima semana ...61
Oitava semana...63
Nona semana...66
Décima semana ...70
Décima primeira semana...73
Décima segunda semana ...81
Décima terceira semana ...85
Décima quarta semana ...88
Décima quinta semana ...91
Décima sexta semana...93
Décima sétima semana...94
Décima oitava semana ...96
Décima nona semana ...98
Vigésima semana ...100
Vigésima primeira semana...102
Vigésima segunda semana ...104
Vigésima terceira semana ...106
3.4. A crise se esgota ... 107
4. A CRISE NOS EDITORIAIS E NAS CAPAS DE VEJA E ÉPOCA... 110
4.1. Nos editoriais... 110
4.2. Nas capas ... 122
5. EM MEIO À CRISE, A CAMPANHA DO DESARMAMENTO NA VEJA E NA ÉPOCA... 127
5.1. Veja a favor do Não... 127
5.2. Época do lado do Sim... 132
6. CENÁRIO, SENTIMENTOS E OPINIÃO PÚBLICA... 144
6.1. O cenário do Referendo... 144
6.2. A representação da política ... 148
6.3. Sondando a opinião pública... 149
6.4. Imaginário e decisão... 153
CONCLUSÃO... 156
ANEXOS... 160
Anexo 1. Ficha da análise de conteúdo ... 161
Anexo 2. Títulos e chamadas de capa de Época e Veja... 162
Anexo 3. Cronologia da crise ... 166
Anexo 4. Composição das CPIs da crise ... 169
Anexo 5. Capas das revistas VEJA e ÉPOCA... 174
I
NTRODUÇÃOO R
EFERENDO DOD
ESARMAMENTODepois de controvertida campanha pelo rádio e pela televisão, em 23 de outubro de 2005, o Brasil deu um voto sim ou não para a seguinte pergunta: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Era o Referendo do Desarmamento. Pesquisas de opinião apontavam vitória do Sim: 80% para o voto Sim foi a cifra da pesquisa Datafolha de 27 de julho. O Desarmamento, no Referendo, perdeu com 63,9% de votos dados ao Não. A vitória do Não cobriu os 26 estados da União e o Distrito Federal. Vitória acachapante do Não.
organizaram um número de Comunicações do Iser sobre o assunto: Referendo do sim ao não: uma experiência da democracia brasileira (2006).
As razões apontadas pelos autores para explicar a vitória do Não, que manteve no Brasil a venda legal de armas de fogo e munição, desenham um quadro complexo que envolve a questão da qualidade desigual da propaganda eleitoral dos lados a favor e contra no horário gratuito em rádio e televisão, o fracasso da política governamental de segurança pública e a conseqüente falta de credibilidade nas instituições públicas, o sentimento de que a proibição proposta no Referendo significaria perda de direito à legítima defesa, além de fatores decorrentes de interesses econômicos de fabricantes e comerciantes de armas e munições, além da posição assumida pelas elites e o financiamento das campanhas, entre outros motivos importantes. Oportunamente, esses fatores já estudados serão referidos nesta dissertação com maior cuidado. Trata-se agora de introduzir um novo complicador.
O
BJETIVOÉ objetivo do presente trabalho estudar a crise que se abateu sobre o governo, o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula como elemento hipoteticamente fundamental para se entender o fracasso de uma iniciativa em que a posição favorável dos três era uma das marcas importantes. Com os promotores em baixa, os resultados podem ter refletido mais um aspecto da descrença dos eleitores naquela conjuntura. Mais que isso: o clima político negativo para o governo e o PT, com conseqüente perda de credibilidade por parte de políticos e instituições, e um sentimento crescente de descrença e decepção vivido pela população, não propiciava as necessárias condições para que políticos e militantes do PT e o próprio governo se lançassem numa campanha mais empenhativa a favor da proibição da venda legal de armas e munição. Naquele momento, ser membro do PT representava um constrangimento aos que se dispunham a sair às ruas para a propaganda do desarmamento. Em meio a argumentos e fantasias, chegou-se a imaginar que o governo desejava desarmar a população para ter o caminho mais livre para sabe-se lá que tipo de manipulação do poder. 1
Uma imagem muito negativa do governo e dos governantes esteve durante meses em exposição na mídia. Analisar o conteúdo que então se divulgava em periódicos de importância nacional pode permitir uma reconstrução do que aqui se chamará contexto político-midiático. Traçar esse pano de fundo do Referendo a partir da análise de conteúdo de duas revistas semanais ao longo de 24 semanas é o instrumento escolhido para a reconstituição da crise que, certamente, terá afetado o voto que aqui nos interessa, num momento que influenciava o ânimo e as expectativas do eleitor, posto de frente com a contingência de ter que reavaliar seu governo e seus governantes. Escolha eleitoral, mídia e construção da imagem dos políticos e instituições juntam-se, portanto, nesta dissertação, como elementos privilegiados no trato da questão da democracia direta.
P
OLÍTICA E MÍDIAA crise se originou do popularmente denominado escândalo do mensalão, escândalo que se ampliou e extravasou os limites originais para envolver aspectos e dimensões não imaginados num primeiro momento, e se caracterizar como crise de governo em âmbito federal. O escândalo foi armado pela denúncia de um esquema de corrupção exposta pela mídia, e, a partir daí, foi se ampliando e dando forma à crise. O dito escândalo do mensalão — provado e comprovado, negado e repudiado por diferentes óticas — comporta os elementos com os quais John B. Thompson conceitua “escândalo político midiático” (2002).
Para o autor, o escândalo político é um evento de mídia e um fenômeno moderno. Sua principal característica é o fato de revelar através da mídia uma série de atividades que até então eram escondidas e caracterizavam alguma forma de transgressão. Para ele, o século XX se torna de fato o lar do escândalo político. Uma vez inventado, torna-se um gênero narrativo e, logo adiante, uma arma de luta política. Essa arma ganha importância e fica cada vez mais forte a partir da década de 19602. Os líderes políticos já tinham grande visibilidade através da imprensa escrita. Com o desenvolvimento da mídia eletrônica, em especial da televisão, essa visibilidade se acentua. Tudo aquilo que antes permanecia oculto nos bastidores da ação política, vem a público com as novas tecnologias de vigilância e investigação — câmeras escondidas, fitas de gravação, grampos de telefone. Com isso, é possível captar, documentar e depois veicular o que estava escondido.
todos têm visibilidade, porque não ocupam posições públicas importantes numa determinada sociedade. Existem indivíduos que são mais vulneráveis que outros, porque seu comportamento público, e também privado, está mais sujeito à exposição e ao controle e, portanto, mais sujeito a cobranças. Um outro aspecto a ser considerado é que o surgimento do escândalo midiático está relacionado com transformações sociais do mundo moderno, redefinindo as relações entre a vida pública e a vida privada, uma vez que agora novas formas de visibilidade e publicização se fazem presentes, provocando novas relações entre escândalo e mídia e entre ações e interações sociais. Autoridades públicas, a partir desse momento, adquirem um tipo de publicização que prescinde da presença física. Os governantes fazem uso da comunicação não somente como veículo para divulgação de decretos oficiais, mas também como meio de produzir a sua própria imagem. Portanto, a visibilidade presente nos dias atuais é benéfica para que as lideranças políticas sejam conhecidas, mas também deve ser avaliada com desconfiança, pois agora a mídia torna visíveis todas as atividades que estavam ‘escondidas’ do público em geral e cria um campo complexo entre imagens e informações, fazendo que a visibilidade midiática se torne difícil de ser controlada e possa se transformar numa armadilha para as lideranças” (Chaia e Teixeira, 2001, pp. 64-65).
Para Thompson há também a mudança da cultura política. A política tradicional estava fundamentada nas diferenças entre as classes sociais. Havia crenças muito fortes e uma nítida oposição entre esquerda e direita. Mudanças estruturais da sociedade contemporânea provocaram um crescimento de fatias do eleitorado não conectadas aos partidos de direita ou esquerda. Surge um novo eleitor, cujas opções políticas não estão comprometidas com as convicções das gerações anteriores. Emerge o que ele chama de política da confiança. Nessa nova cultura política, o escândalo assume uma significação poderosa, porque coloca em questão a credibilidade dos líderes. Por outro lado, quanto mais os partidos encontram dificuldades de se identificar com as bases da política tradicional (esquerda e direita), mais eles têm que procurar novos meios de se diferenciar um do outro. Se conseguem identificar transgressões de normas praticadas pelos adversários, como corrupção ou abuso de poder, podem usar isso como arma para tirar vantagem política.
Thompson não considera, no entanto, que o embate ideológico esteja condenado a um segundo plano, e nem que vale mais a imagem que remete às características pessoais do político. Para ele não significa que seja uma coisa ou outra. Certamente, continua sendo muito importante que os partidos tenham os seus programas. Mas, junto com isso, a política da confiança tem se tornado mais e mais relevante. Não são coisas que se excluem mutuamente, porque estão intimamente ligadas. O que parece indiscutível é que a política da confiança se tornou quase inevitável. Tanto mais a concepção de uma política sustentada em classes se dissolve, mais importante se torna a questão do caráter. A questão da credibilidade se torna cada vez mais ligada à plataforma programática de qualquer político.
“Thompson pergunta: o que torna um escândalo um escândalo político? Um dos elementos que distingue o mero escândalo do político é que a arena de discussão é outra, implica lideranças políticas que estão envolvidas com o poder político num 'campo político' (definição utilizada por Pierre Bourdieu). Os escândalos podem aparecer em diferentes regimes políticos, desde os autoritários até aqueles em que predomina a democracia liberal. Porém, o regime que favorece a maior ocorrência dos escândalos políticos é a democracia liberal, porque possui algumas características que o diferenciam dos outros:
“- a política é um campo de forças em competição, organizado e/ou mobilizado em torno de idéias, partidos e grupos de interesse;
“- a reputação dos políticos é importante porque prevalece uma institucionalização do processo eleitoral e, para se ascender ao poder e obter sucesso eleitoral, um dos elementos-chave é gozar de boa reputação;
“- a relativa autonomia da imprensa;
“- as condições do poder político que favorecem a descoberta de transgressões por rivais e opositores, visto que prevalece o princípio da lei.
O escândalo político propriamente dito começa com a divulgação pública de uma ação ou acontecimento que coloca em ação o processo de afirmações e contra-afirmações, que constitui o escândalo midiático. Para Vera Chaia e Marco Antonio Teixeira, “o desenvolvimento temporal do escândalo midiático também depende de outras instituições como justiça, instituições políticas e até policiais. Tal escândalo possui um começo e um fim, e se desenrola como um enredo de novela, envolvendo os espectadores e leitores que acompanham todas as etapas da "história". O término do escândalo pode implicar uma confissão, resignação, um inquérito oficial e um julgamento. Também existe a possibilidade desse escândalo desaparecer gradualmente da mídia, uma vez que já que não desperta interesse público.
“Além dos indivíduos envolvidos diretamente no escândalo midiático, Thompson também ressalta que muitos e diferentes agentes e instituições podem estar envolvidos na criação e no desenvolvimento dos escândalos. Cita como exemplo a polícia e outros agentes da lei que freqüentemente possuem um papel crucial, pois realizam investigações das atividades que se tornaram "foco" do escândalo e contribuem com novos elementos, reforçando a necessidade de se investigarem esses escândalos.” (Chaia e Teixeira, 2001, p. 65).
Vale considerar, ainda segundo esse autor, que o escândalo não tem necessariamente penetração generalizada na população. Existem assimilações diferenciadas, conforme o nível de informação que a pessoa tem sobre determinado assunto e a importância dele em sua vida. Assim, os indivíduos não são manipuláveis facilmente, existindo um discernimento pessoal que é essencial para assegurar as liberdades deles. Fatos que se localizam fora do discurso da mídia e que se manifestam num segundo momento em relação à notícia, servem para dar veracidade à construção simbólica precedente, contribuindo para realimentar o escândalo e transformá-lo num processo que pode ganhar continuidade e veracidade.
está posta em questão, ou pelo menos seus atores principais, acaba se dando no vazio, em que apenas os interesses mais imediatos, mais concretos (como ter ou não ter uma arma) parecem fazer sentido.
Para irmos um pouco adiante, podemos aceitar a idéia de que o poder simbólico é reputado como um dos aspectos do capital simbólico, atributo de um indivíduo ou de uma instituição. Tal poder, por sua vez, refere-se à capacidade de intervir no curso dos acontecimentos. A mídia produz e transforma o capital simbólico. O escândalo político envolve indivíduos ou ações que estão situadas dentro de um campo político e que têm impacto nas relações dentro desse campo. O centro político é o campo de ação e interação que está ligado à aquisição e ao exercício do poder político pelo uso, entre outros, do poder simbólico (Bourdieu, 1989). Em outras palavras, não se pode fazer política sem a mídia, ou sem a sua interferência, seja ela favorável ou desfavorável. Com o devido cuidado de levar em conta a interação entre a mídia e o leitor, e seu resultado efetivo em termos de imagem, avaliação e comprometimento, podemos aceitar que o poder real de governar depende em parte do poder de simbolizar os atos do governo e sinalizar o sentido desses.
Para analisar as revistas Veja e Época nesta dissertação, tomando as duas como representativas de um espectro mais amplo de veículos de massa, escritos ou não, será usado o conceito de enquadramento que é amplamente utilizado na análise de conteúdo das mensagens da mídia, em particular das notícias. “Enquadrar é selecionar certos aspectos da realidade percebida e torná-los mais salientes no texto da comunicação de tal forma a promover a definição particular de um problema, de uma interpretação casual, de uma avaliação moral, e /ou a recomendação de tratamento para o tema descrito. Enquadramentos, tipicamente, diagnosticam, avaliam, prescrevem (...) o enquadramento determina se a maioria das pessoas percebe e como elas compreendem e lembram de um problema, da mesma forma que determina a maneira que avaliam e escolhem a forma de agir sobre ele” (Entman, 1993, p. 54). A noção de enquadramento apóia-se no binômio seleção/saliência de determinados fatos.
Trabalhadores, expressando presunção de culpa, que, a partir de maio de 2005, foi se consolidando por meio de uma narrativa própria” (Lima, 2006, p. 14).
Venício Lima, ao elaborar o conceito de Cenário de Representação da Política (CR-P), dá uma enorme contribuição para o reconhecimento da mídia como objeto fundamental para a compreensão do poder político, considerando a comunicação como compartilhamento, buscando a compreensão das representações e práticas culturais que expressam os valores e os significados construídos na relação entre a mídia e demais instituições da sociedade contemporânea. Venício Lima, trabalhando com os conceitos de imaginário social3 e cultura política4 e o conceito gramsciano de hegemonia5 dá as ferramentas para a construção do cenário de representação da política, considerando representação da realidade, mas também, a constituição da própria realidade. De modo que, segundo essa orientação, buscaremos enxergar a política, e sua crise, na leitura da mídia, ao mesmo tempo em que estaremos vendo nessa leitura um elemento decisivo na construção da própria crise, isto é, da política.
P
ROCEDIMENTOS DA PESQUISA
3 “Bronislaw Baczko assinala que é por meio do imaginário que se podem atingir as aspirações, os medos
e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades esboçam suas identidades e objetivos, detectam seus inimigos e, ainda, organizam seu passado, presente e futuro. O imaginário social expressa-se por ideologias e utopias, e também por símbolos, alegorias, rituais e mitos. Tais elementos plasmam visões de mundo e modelam condutas e estilos de vida, em movimentos contínuos ou descontínuos de preservação da ordem vigente ou de introdução de mudanças” (Moraes, 2007: 1).
4 Para Gabriel Almond, “a teoria da cultura política define a cultura política nos seguintes quatro pontos:
(1) Ela consiste em um conjunto de orientações subjetivas relativamente à política numa população nacional ou um subconjunto de uma população nacional. (2) Ela tem componentes cognitivos, afetivos e avaliativos: ela inclui conhecimento e crenças a respeito da realidade política, sentimento com relação à política e adesão a valores políticos. (3) O conteúdo da cultura política é o resultado da socialização infantil, da educação, da exposição à mídia e de experiências adultas com a estrutura e o desempenho social, econômico e do governo. (4) A cultura política afeta o desempenho político e governamental; os constrange, mas certamente não os determina. As setas causais entre cultura e desempenho e estrutura apontam nos dois sentidos” (Almond, 1990, apud Lima, 2001: 179-180).
5 “Para Antonio Gramsci, o conceito de hegemonia caracteriza a liderança cultural-ideológica de uma
Entre os diferentes periódicos de circulação nacional, considerou-se mais viável o uso de revistas semanais em vez de jornais diários. Primeiro pelo fato de que o trabalho com edições semanais ofereceria o acesso a sínteses já elaboradas pelos editores, segundo porque a análise de um menor número de edições tornaria a pesquisa mais viável, sem ter que se recorrer a técnicas de amostragem.
O período de análise deveria se completar com o da campanha eleitoral do Desarmamento, que durou quase três semanas, em outubro de 2005, iniciando-se, porém, bem antes, de modo que se pudesse acompanhar como vinha sendo tratada a imagem do governo. Em maio acontecera a denúncia sobre corrupção nos Correios, logo seguida da histórica entrevista do deputado federal Roberto Jefferson, estourando o escândalo do mensalão6, e abrindo-se uma crise que durou meses e ultrapassou a data do Referendo. Essas duas datas, aproximadamente, balizaram o período da pesquisa de conteúdo das revistas, perfazendo 24 semanas.
As revistas escolhidas
Foram escolhidas as revistas semanais Veja e Época.
Veja é a revista semanal de maior circulação no Brasil e a quarta do mundo, com mais de um milhão e cem mil exemplares semanais. Época disputa com a Isto é a segunda posição, com circulação pouco menor que quinhentos mil exemplares.
Em 14 de maio de 2005, reportagem da Veja teve papel importante na eclosão de crise política de grandes proporções, quando divulgou a transcrição de um vídeo, gravado por uma câmara escondida, o flagrante de um então funcionário dos Correios, Maurício Marinho, explicando a dois empresários como funcionava o esquema de propina para fraudar licitações. O esquema envolveria o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), e sua denúncia serviu como estopim para o chamado escândalo do mensalão, que logo se desdobrou em outros, numa crise devastadora.
Referendo do Desarmamento. Época, por sua vez, cobriu a crise igualmente, mas tomou uma posição francamente favorável ao Sim. Para se comparar fontes diferentes, não podia ser melhor.
É pressuposto deste trabalho que um acompanhamento paralelo de outros veículos de comunicação de massa, incluindo-se os grandes jornais escritos, as demais revistas, os meios virtuais disponíveis na internet, assim como os noticiários televisivos, certamente mostraria, apesar de variações e discrepâncias, resultados não suficientemente distantes dos encontrados para Veja e Época a ponto de os inviabilizar como representativos do que se disse, mostrou e escreveu durante a crise do mensalão. Certamente posições mais favoráveis ao governo, e até mesmo mais desfavoráveis, ao presidente e seu governo e partido poderiam ser encontradas nesses outros meios, mas esse tipo de resultado escapa aos objetivos da presente investigação. Não se trata, em momento algum, de avaliar se teria existido ou não o chamado mensalão, nem de investigar a realidade, a qualidade ou a profundidade de esquemas de corrupção que, aos borbotões, alimentaram as edições lidas para esta dissertação. O fato é que o que foi dito e publicado teve conseqüências reais, que levaram a mudanças efetivas no governo e no partido. É nesta ótica que a crise aqui relatada é tomada como objeto da pesquisa.
Uma vez escolhidos intencionalmente os dois periódicos, foram incluídos na análise todos os números de Veja no período que vai de 18 de maio a 26 de outubro de 2005, que corresponde às edições numeradas de 1905 a 1928, e todos os números de
Época no período de 16 de maio a 24 de outubro de 2005, que reúne as edições de números 365 a 388.
Unidades de análise e as variáveis
Em cada número das revistas incluídas, foram analisadas as seguintes partes:
— todas as matérias e reportagens da seção Brasil que tratassem de tema ligado ao governo federal, ao Partido dos Trabalhadores e ao presidente Lula, além do Referendo do Desarmamento propriamente dito, podendo-se ter, neste caso, um número variado de unidades incluídas;
— a capa.
As matérias constituem o objeto central de análise, mas, pelas funções que desempenham na estrutura jornalística do periódico, os editorias e as capas foram igualmente considerados.
de intervenção do campo midiático no próprio processo de instituição do real e também porque fazem agirem os atores sociais” (Fausto Neto, 1994, pp. 162 e 163).
A capa de uma revista é sua vitrine. Através de imagens e umas poucas palavras, antecipa de forma sumária, estilizada e às vezes exagerada as mensagens que esperam pelo leitor no miolo do periódico. Para mostrar ênfases, usa de elementos estéticos da comédia e do drama. A capa dá o tom. Posiciona-se no campo competitivo-consumidor da banca de revista, em diálogo com as demais publicações que se oferecem ao consumidor. Cabe-lhe atrair o leitor, oferece-se descaradamente ao comprador. Identifica pela beleza de imagens valorações positivas, trata as negativas por meio de caricaturas, desenhos debochados e imagens que chocam; às vezes seduz e empolga. A capa faz rir e faz chorar. Cria o mal-estar no leitor antes mesmo da leitura das matérias, provoca constrangimento, pena e desdém. A capa fala por si só. O objetivo da capa é ganhar o leitor.
Denominou-se unidade de análise cada resultado obtido de uma capa, de um editorial ou de uma matéria ou reportagem. Cada unidade foi submetida a um esquema de análise de conteúdo, de modo a se identificar o tema principal tratado (além dos secundários), a avaliação pela pesquisa da posição expressa na revista em relação ao presidente Lula, ao PT e ao governo. Essa posição, para cada um dos três níveis, foi classificada entre as seguintes alternativas:
- positiva; - negativa; - neutra.
Para cada unidade de análise, os resultados foram registrados numa ficha conforme o desenho mostrado no Anexo 1. No corpo da ficha transcreveram-se o resumo ou descrição do conteúdo da unidade e trechos e frases selecionados. Dados de identificação da unidade de análise também foram, evidentemente, incluídos.
Com esse instrumento foi possível classificar, reunir e manipular os dados com maior agilidade, quer quando se tratou de estabelecer contagem numérica, quer quando foi o caso de se aplicar tratamento qualitativo.
A Tabela 1 mostra a distribuição das unidades de análise nas duas revistas, perfazendo 287 unidades nas três categorias. Em cada revista, 24 unidades de capas e 24 editoriais representam seções fixas, mas o número de matérias e reportagens selecionadas variou um pouco: 99 para Veja e 92 para Época. A média de unidades de matérias e reportagens por semana na Veja foi de 3,9 e na Época 3,8.
Tabela 1. Número de unidades da análise de conteúdo
Unidades analisadas Veja Época Veja + Época
Capas 24 24 48
Editoriais 24 24 48
Matérias e reportagens 99 92 191
Total 147 140 287
A
PRESENTAÇÃO DOS CAPÍTULOSdiscutindo-se o significado do referendo, como consulta popular, para a democracia direta. Faz-se um apanhado sobre o Estatuto do Desarmamento e a mobilização da sociedade civil para sua aprovação, dando-se as datas e normas para a realização do referendo. Recuperam-se estudos já realizados para explicar a derrota do Sim, que manteve a comercialização de armas de fogo e munições. Completa-se o capítulo introduzindo-se a hipótese principal que norteia este trabalho, com o esboço da idéia de que a crise política vivida no período estudado operou como um pano de fundo da campanha do desarmamento, idéia desenvolvida ao longo da dissertação.
No Capítulo 2 abordam-se os fatos principais relacionados ao que se chamou de Escândalo do Mensalão, responsável pela maior crise do governo do presidente Lula em seu primeiro mandato e até os dias de hoje. São introduzidos seus personagens e as implicações para o presidente Lula, seu governo e seu partido. Trata-se de caracterizar a crise. Chama-se a atenção para o fato de que os atores envolvidos na crise — o presidente, seus auxiliares no governo, os parlamentares do PT — estarão, como membros do governo Lula, posicionados favoravelmente ao voto em favor da proibição do comércio de armas e munições, e que tais atores estarão submetidos, por força do escândalo, a uma significativa perda de credibilidade, o que, por hipótese, poderá influir na campanha do Referendo. Trata ainda o capítulo da crise como contexto político-midiático.
O Capítulo 3, de natureza empírica, mostra no detalhe como o escândalo do mensalão, que se transforma em crise no governo, aparece nas páginas das revistas Veja
e Época, fornecendo seu desenvolvimento semana a semana. A apresentação semanal dos fatos elaborados pela mídia deve permitir uma compreensão da narrativa da crise, seu volume, sua amplificação e a extensão de seus efeitos. Optou-se por expor o material na sua seqüência cronológica como se estivéssemos mesmo assistindo a uma novela de televisão. Afinal, como diz Thompson, escândalos modernos aparecem como se fossem folhetins.
O Capítulo 5 trata especificamente da campanha do Referendo do Desarmamento nas duas revistas que, emblematicamente, assumem posições distintas com respeito ao voto no Referendo: Veja contra a proibição e Época a favor. Ainda que, no caso da crise do mensalão tenham caminhado praticamente juntas.
O Capítulo 6 cuida de aspectos interpretativos relevantes para a presente investigação, voltando-se para os temas do enquadramento, do cenário de representação da política e da opinião pública
A Conclusão está reservada às considerações finais da pesquisa.
1.
O E
STATUTO DOD
ESARMAMENTO E OR
EFERENDO1.1. O
QUE FOI OR
EFERENDO“Quanto ao referendum, que é o único instituto de democracia direta de concreta aplicabilidade e de efetiva aplicação na maior parte dos Estados de democracia avançada, trata-se de um expediente extraordinário para circunstâncias extraordinárias.” Norberto Bobbio, O futuro da democracia.
O Brasil foi o primeiro país a consultar a população para decidir sobre a comercialização de armas de fogo e munição. Em países onde a venda foi proibida, como Austrália e Inglaterra, a decisão partiu dos parlamentares e foi imposta aos cidadãos.
O Referendo realizado em 23 de outubro de 2005 foi o primeiro da nossa história.
Outras consultas diretas à população brasileiras foram feitas na forma de plebiscito, como o de 1963, sobre a manutenção do parlamentarismo, e o de 1993, sobre presidencialismo ou parlamentarismo, monarquia ou república. A diferença entre plebiscito e referendo é que o referendo diz respeito unicamente a atos normativos, de nível legislativo ou ordem constitucional, enquanto que o plebiscito se aplica a qualquer tipo de questão de interesse público, como políticas governamentais. De todo modo, o tema da democracia direta ainda é pouco estudado (Benevides, 2003, p. 95).
§ 1º - Este dispositivo, para entrar em vigor, dependerá de aprovação mediante referendo popular, a ser realizado em outubro de 2005.
§ 2 - Em caso de aprovação do referendo popular, o disposto neste artigo entrará em vigor na data de publicação de seu resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
1.2. O E
STATUTO DOD
ESARMAMENTO,
VIOLÊNCIA URBANA E MOBILIZAÇÃO DA SOCIEDADE CIVILSegundo o então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP), na apresentação do texto da Lei 10.826,
Ao aprovar o Estatuto do Desarmamento (...), o Poder Legislativo deu resposta, pronta e enérgica, ao clamor de milhões de brasileiros contra a violência e a insegurança que desafiam o Estado e afrontam o cidadão (...).
Não há dúvida de que a criminalidade se relaciona, íntima e diretamente, à posse e ao uso de armas de fogo, responsáveis, no Brasil, por cerca de 40 mil mortes a cada ano. Mais triste é saber a idade da maioria das pessoas: de 15 a 25 anos. Representamos apenas 2,8% da população mundial, mas já respondemos por 11% dos homicídios praticados com armas de fogo. Caso de polícia, problema que inquieta governantes e autoridades, esses números espelham, também, um drama social, a dor de milhares de famílias que vêem, de uma hora para outra, o sonho do futuro transformar-se no desespero do presente (...).
Temos a certeza de que o Estatuto do Desarmamento concorrerá para significativo decréscimo na prática da violência e na impressionante estatística dos que morrem por arma de fogo. Assim ocorreu nos países que adotaram leis em favor da segurança publica e da integridade física dos seus cidadãos (Cunha, 2004).
A violência urbana mereceu estudos importantes como os desenvolvidos por núcleos e grupos de estudos sobre a violência da USP, PUC-RJ, UFMG e UFRGS, destacando-se o papel do Instituto de Estudos da Religião (Iser), que desde 1992 construiu hipóteses em relação à questão da violência urbana no Brasil. Com sua parceria com a ONG Viva Rio (1994), o desarmamento transformou-se em foco de trabalho a partir de 1996, com a produção de pesquisas e uma agenda que incluía linhas de ação voltadas para políticas públicas e a reforma do sistema legal sobre o controle de armas. Nas palavras de seu dirigente, o antropólogo Rubem Cesar Fernandes,
Graças a uma parceria pioneira entre um governo estadual e a sociedade civil foi realizado pela primeira vez no país, segundo Luiz Eduardo Soares, que ocupava o cargo de subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, com o Viva Rio, um movimento pelo desarmamento e pela paz. A parceria pioneira entre Estado e sociedade civil resultou em programa inédito que incluiu a realização, também pela primeira vez no Brasil, de um levantamento sobre a natureza e a origem do armamento em circulação.
A pesquisa começou a pôr em questão os mitos que decorriam das observações imediatas e sem critérios científicos. 80% das armas apreendidas entre os criminosos eram curtas e leves e não pesadas e longas; eram revólveres e pistolas. Cerca de 85% eram nacionais, fabricadas pela Taurus, Rossi e Inbel.7 Isso desconstituía toda a mitologia do contrabando que, evidentemente existe, mas, numa escala diminuta em relação ao conjunto. Também demoliu o mito de que os nossos grandes problemas eram as armas longas, as metralhadoras, os fuzis etc. As armas que mais matam, que mais são usadas pelos criminosos, que estão sempre em operação nas ações criminosas não são as maiores. (Cf. Mota e Crespo, 2006, p. 10).
A parceria poder público-sociedade civil sem dúvida motivou a aprovação pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro de uma lei que proibia a comercialização de armas de fogo em todo o Estado. Essa lei, contudo, terminou declarada inconstitucional, por seu caráter de legislação estadual. Mas o movimento não terminou aí, muito pelo contrário. Passou ao âmbito nacional, com a coleta de mais de 1.200.000 assinaturas realizada em todo território nacional, e entregue ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, solicitando a iniciativa do executivo federal para a elaboração de uma lei federal proibindo a venda de armas no país.
A primeira vitória foi alcançada em 1999, com aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, do Projeto de Lei 1073, documento básico para futuro
7 As duas principais indústrias de armas no Brasil são a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos),
Estatuto do Desarmamento. O projeto foi derrotado em outras comissões e paralisado nos anos seguintes, em virtude da pressão dos fabricantes de armas8. Mas as derrotas no Congresso Nacional levaram as lideranças do movimento a adotarem uma nova estratégia: a pressão social, através de atos públicos, passeatas e manifestações, além da realização e divulgação de pesquisas para conscientizar as pessoas para a questão das armas.
Em janeiro de 2003, Luis Eduardo Soares assumiu o cargo de secretário nacional de Segurança Pública, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e a luta ganhou novo fôlego. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) se dispôs a apresentar o projeto no Congresso.
Em julho de 2003, foi criada uma Comissão Especial Mista, composta por três deputados e três senadores, tendo como relator o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que, trabalhando em regime de urgência urgentíssima, condensou os mais de 70 projetos que existiam sobre o assunto, mantendo, entretanto, a estrutura do projeto 1.073/99.
Segundo entrevista de Antônio Rangel Bandeira,
A tramitação se acelerou com a pressão das ruas, dos artistas etc. O projeto foi aprovado, por voto de liderança. Todos os partidos apoiaram, embora deputados e senadores de diferentes partidos tivessem feito discursos contra. Então, no dia 23 de dezembro de 2003, Lula levou de presente de Natal para a população uma nova legislação, muito avançada, em termos internacionais. Nas negociações, nós estávamos muito fortes e o outro lado, muito fraco. Tentamos proibir o comércio de armas, mas a Taurus e a CBC [Companhia Brasileira de Cartuchos] não permitiram. A fórmula que encontramos foi decidir este ponto através de um referendo popular. Eles estavam muito fracos e com medo que a gente impusesse a proibição e conseguisse. Aceitaram o referendo, certos de que iriam perder. (Cf. Mota e Crespo, 2006, pp.11-12).
1.3. A
ENTREGA VOLUNTÁRIA DE ARMAS E A AUTORIZAÇÃO PARAREALIZAÇÃO DO
R
EFERENDODando cumprimento ao que estava previsto nos artigos 29, 30, 31 e 32 do Estatuto, ou seja, que os cidadãos que possuíssem armas de fogo teriam o prazo de 180 dias para
8 “O lobby das armas se intensificou no Congresso. ‘Técnicos’ das indústrias de armas freqüentavam o
regularizar o registro, ou a posse, perante a Polícia Federal, e os que quisessem entregá-las poderiam fazê-lo mediante recibo e indenização, a contar de 23 de junho de 2004, começou o recolhimento de armas, com sucesso, tendo que se estender o prazo até 23 de outubro de 2005.
A campanha foi liderada pelo Ministério da Justiça, tendo à frente o ministro Marcio Thomas Bastos, e mobilizou igrejas, organizações da sociedade civil, policiais militares dos estados e a polícia federal, entre outras instituições. Segundo dados do Ministério da Justiça, ela resultou na entrega e destruição de 443.719 armas de fogo, quase meio milhão de armas.
Devido ao forte lobby das indústrias de armas, o Congresso Nacional, apesar do sucesso da campanha, postergava a autorização para a realização do Referendo, previsto na Lei 10.826 de 2203 para o ano de 2005. Com a pressão popular e o trabalho de alguns parlamentares, finalmente o decreto legislativo nº 780, de 06 de julho de 2005, determinou que a consulta se fizesse em 23 de outubro de 2005 e indicou os procedimentos para sua realização.
O Tribunal Superior Eleitoral confirmou a data e normatizou a campanha. Entre os mecanismos institucionais, tratava-se de criar duas frentes parlamentares para a condução da propaganda eleitoral, uma a favor e outra contra.
Em 22 de julho, duas frentes parlamentares foram registradas pela Mesa do Congresso Nacional: a Frente Parlamentar por um Brasil sem Armas, presidida pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL), e a Frente Parlamentar pelo Direito da Legítima Defesa, presidida pelo deputado Alberto Fraga (PFL-DF), que seriam chamadas popularmente de frentes, respectivamente, do Sim e do Não.9 No dia 11 de agosto foi publicado no Diário da Justiça a Resolução nº 22.041, do Tribunal Superior Eleitoral,
9 Demais integrantes das frentes: 1) do Sim: os senadores Luiz Otávio (PMDB-PB), Gerson Camata
dispondo sobre “a arrecadação e a aplicação de recursos e sobre a prestação de contas do Referendo” e no dia 1º de outubro começou o horário eleitoral gratuito, com dois blocos diários de dez minutos, além das inserções.
1.4. C
OMO SE EXPLICOU A DERROTA DOS
IMDada a importância do tema, muitos estudos foram feitos a fim de explicar o comportamento do eleitor, com a publicação de trabalhos esclarecedores.
Nesta seção, busca-se acompanhar as razões para a vitória do Não apontadas pelos autores.
A proposição dos estudos é que havia na mídia e no imaginário popular um cenário favorável ao Sim, influenciado pelas imagens da entrega voluntária de armas, sua destruição pelos tratores, a mobilização da sociedade civil, referências sobre bala perdida na novela “Mulheres apaixonadas”, em exibição pela rede Globo de televisão, o engajamento de artistas. As pesquisas de opinião pública confirmavam essa disposição10.
No entanto, após o início do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE), a opção pelo Sim inicia uma verdadeira queda ladeira abaixo, podendo-se afirmar que, entre outros fatores, a propaganda eleitoral conduzida pelas duas frentes teve significativa relevância na alteração da intenção do voto do Sim para o Não11.
Vejamos em primeiro lugar as análises feitas a respeito da mídia impressa e num segundo momento a que tratou do horário gratuito.
10 Citada na introdução, a pesquisa do CNT/Sensus, de 13 de setembro de 2005, também evidenciou a
ampla vantagem do Sim, revelando que 72,7% dos eleitores consultados em amostra nacional defendiam a proibição, enquanto 24,1% eram contrários a ela.
Na mídia impressa
Tomando como base o Paraná, Mário Fuks, Daniela Paiva e Raquel Novaes (2006), analisando a cobertura da campanha nos jornais A Gazeta do Povo e Estado do Paraná, concluíram sobre o papel da imprensa local: “... que apesar de um crescimento relativo das reportagens no referendo, em relação aos eventos políticos anteriores, os jornais paranaense não mudaram o padrão de cobertura da política. A persistência na fragmentação das matérias, a manutenção do enquadramento episódico como predominante e a ênfase no tema da meta campanha, indicam que a mídia impressa paranaense não vislumbrou no referendo a oportunidade para alterar o comportamento reativo e distante do compromisso de animar o debate no espaço público. Esta postura sugere que os jornais pouco influíram na tomada de decisão dos eleitores paranaenses...”.
Rosiley Maia, Adriana Buarque e Rafael Brischilliari, em “A dinâmica da deliberação: indicadores do debate midiado sobre o Referendo do Desarmamento” (2006), tendo analisado os jornais O Globo, Folha de S. Paulo e as revistas Isto é e
Veja, constataram “que de modo geral há um equilíbrio entre as vozes, com exceção da
Veja e sua opção pelo Não e constrói sua narrativa jornalística, mobilizando vozes de pessoas que se posicionam contra a proibição do comércio e/ou se dizem indecisas”.
No horário gratuito
O horário gratuito na televisão é um espaço privilegiado da propaganda eleitoral, tanto pela audiência que alcança quanto pela linguagem usada, muito mais familiar ao eleitor comum.
“A exaltação de valores e princípios foi um dos principais recursos discursivos utilizados pela duas frentes, em especial pela Frente Pelo Direito da Legítima Defesa. Em 19,3% dos seus programas, foi em nome de valores e princípios que o “Não” tentou persuadir os eleitores, referindo-se aos direitos do cidadão e à liberdade, relacionados, em última análise, ao direito da legítima defesa. A Frente por um Brasil sem Armas usou essa mesma retórica, ligada ao direito à vida, muitas vezes associado à sua superioridade enquanto direito coletivo em face do direito individual. O “Não” também exaltou os atributos positivos do povo brasileiro, especialmente no último período da campanha. Foi uma exaltação da “brava gente brasileira a quem os governos pouco ajudam”, mas que “não abre mão de seus direitos” (...) Além disso, foram poucos os políticos que se pronunciaram, sendo o uso da palavra, praticamente restrito aos dirigentes das Frentes: de um lado, representando a Frente do “Sim”, o presidente Renan Calheiros e o secretário geral Raul Jungmann; de outro, em nome da frente do “Não”, o presidente Alberto Fraga e o vice-presidente Luiz Antonio Fleury.
No estudo “Em busca das explicações para a revoada de votos”, Luciana Fernandes Veiga e colaboradores analisam as retóricas utilizadas pelas duas correntes que representavam a dualidade de posição: a Frente Parlamentar por um Brasil sem Armas e a Frente Parlamentar pelo Direito da Legítima Defesa, em busca da compreensão do efeito da persuasão entre os eleitores. Concluíram que:
— “A estratégia da Frente por um Brasil Sem Armas não obteve sucesso em associar o referendo à campanha do Estatuto do Desarmamento. Estratégia inviabilizada pela ação da Frente pelo Direito à Legítima Defesa;
— A campanha do Não convenceu os leitores que a proibição da venda legal de armas não reduziria a criminalidade e ainda deixaria o cidadão muito mais vulnerável ao crime, na medida em que o Estado não consegue oferecer um serviço se segurança eficiente;
— Na deliberação, os participantes visam buscar um acordo sobre princípios morais substantivos que possam ser justificados com base em razões que sejam mutuamente aceitáveis.
— Os adeptos à Frente do Sim se mostram decididamente mais motivados a incorporar os argumentos concorrentes dos outros em seus próprios argumentos, buscando dar respostas às objeções levantadas. Contra o argumento de que o desarmamento seria inócuo, já que os bandidos continuariam armados, os adeptos da Frente do Sim buscam apontar que a proibição do comércio de armas visa atingir os cidadãos comuns e que isso teria um impacto para reduzir o número de circulação de armas, e, conseqüentemente, daquelas que acabam parando nas mãos de criminosos. Em segundo lugar, contra o argumento de que quem deveria ser desarmado é o “bandido” e não o “cidadão comum”, contra-argumentou-se que a polícia busca, sim, desarmar aqueles que praticam delitos.
Para esses autores, outro fator importante da deliberação é a revisão dos próprios proferimentos, seja para melhorar a qualidade dos argumentos à luz de novas razões ou de críticas recebidas, seja para tematizar o que pareceu errado ou incorreto, seja, ainda, para indagar a respeito do melhor caminho a ser seguido, numa dada situação. A Frente do Não continua a proferir o mesmo discurso, calcado nas crenças e nas razões apresentadas nos primeiros momentos da campanha.
Além de discutir as falhas na condução da campanha e aventar estratégias possivelmente melhores para apresentar os próprios argumentos, a fim de fazer frente ao quadro compreensivo encetado por seus rivais, os adeptos do Sim reconhecem que não podem negar inteiramente alguns argumentos do Não. E, muito menos, poderiam resolver desacordos sobre questões empíricas, como a ineficácia das políticas de segurança pública no país.
importante para reduzi-lo. Assim, todos e cada um dos cidadãos poderiam no futuro, desfrutar de uma condição mais pacífica de vida e de maior segurança social (...) Enquanto os adeptos do Sim apelam para razões relativamente altruístas, compelindo o cidadão a pensar na coletividade e nas gerações futuras, nas vidas que poderiam ser salvas com a proibição de armas, a Frente do Não mobiliza razões voltadas para os próprios indivíduos, motivando-os a entender que a proteção da própria vida e da própria família deveria estar em primeiro lugar. Esse raciocínio apresenta-se vinculado, com freqüência, à alegação de desamparo e risco vividos no presente, já que o Estado é ineficaz em prover proteção pública.”
Por sua vez, Mauricio Lissovsky em “A campanha na TV e a desventura do Sim que era Não” (in: Mota e Crespo, 2006) apresentou as seguintes conclusões:
— A campanha do Sim não foi capaz de perceber a disjunção entre o Referendo e as campanhas anteriores em favor do desarmamento e, por conseqüência, subestimou o caráter intempestivo desta eleição “fora de época”. O Não, desde logo, soube compartilhar com o eleitorado esta percepção, sugerindo o seu caráter inútil e ilusório. O Sim, por sua vez, imaginou o Referendo em continuidade à campanha do desarmamento, e insistiu bastante sobre os riscos das armas, sem conseguir demonstrar que havia uma vinculação entre “ser contra as armas” ou “a favor do desarmamento” e votar pela proibição do comércio de armas. Seu principal erro estratégico foi ignorar que o apoio popular ao desarmamento (fundamentalmente passivo, uma vez que a maioria da população não dispunha realmente de armas para devolver) não poderia ser automaticamente transformado em voto Sim. Este erro — em primeiro lugar um erro de interpretação das pesquisas de opinião — comprometeu todas as ações de propaganda deslanchadas no início da campanha.
deu conta do cenário de incerteza que este Referendo agudizava e subestimou a ansiedade do eleitor. As categorias “pré-morais” e “pré-políticas” que mobilizou a seu favor (“defesa da vida”, “horror à arma”) não foram capazes de suprir lacunas de informação dos eleitores de modo a que se sentisse “à vontade” para votar Sim.
— O grande desastre do Sim foi ter perdido a batalha da credibilidade. O Não conseguiu posicionar-se como confiável e desinteressado, já o Sim não pôde superar a acusação que distorcia os fatos e falsificava números. Como sua aposta inicial foi antes na sedução que na persuasão, quando sua legião de celebridades foi derrotada, já não dispunha de credibilidade suficiente para recompor a força de seu discurso até final da campanha.
Não para manter um privilégio. E quem diz Sim, ao submeter-se a uma injustiça, também diz Sim ao impulso de mudar. A propaganda da Frente Brasil sem Armas não tinha um plano para fazer do Não a vocalização de um privilégio e, menos ainda, para ecoar no Sim a vontade e a coragem de mudar. Teria dado certo? Difícil dizer, conclui Mauricio Lissovsky.
Um pano de fundo
Não é difícil concordar com esses autores e suas conclusões. Realmente, tudo aponta para esses motivos. Minha intenção, como dito anteriormente, é tentar estudar com mais pormenores, em que condições esses motivos teriam se realizado, ou, em outras palavras, qual o catalizador que presidiu a concretização dos efeitos que levaram à rejeição da proibição do comércio de armas e munições no país. Já um pouco antes do início da campanha eleitoral do Referendo, o país não vivia a calma habitual, nem a mídia tratava do cotidiano banal. Muito pelo contrário, o país estava em ebulição, a mídia fervia, os poderes constituídos se agitavam. Governantes, políticos e instituições eram postos em questão. A política era posta em questão. Vivíamos a grande crise do presidente Lula, do seu governo e do seu partido. Será que havia clima para se discutir e decidir sobre uma mudança que implicava abrir mão de certa liberdade e certos direitos? Será que havia tranqüilidade para se acreditar nas instituições a ponto de se mexer num item que, sem dúvida, está colado na base do que entendemos por segurança pessoal? Seria viável pôr um fim ao comércio de armas num momento em que o governo e governantes perdem credibilidade, em que os cidadãos sentem aumentar suas frustrações em relação à política e instituições.
2.
D
E QUE CRISE ESTAMOS FALANDO2.1. A
CRISE EM POUCAS PALAVRASO escândalo político midiático conhecido como o “escândalo do mensalão” se refere a um esquema de compra de votos de parlamentares em apoio aos projetos do governo. É o epicentro da crise.12 Ganhou repercussão nacional e internacional, atingindo profundamente a imagem do PT, do governo federal e do próprio presidente Lula.
O termo “mensalão” foi usado pela primeira vez pelo deputado federal Roberto Jefferson, na entrevista à jornalista Renata Loprete, publicada na Folha de S. Paulo, em 6 de junho de 2005, e que deu origem ao escândalo aqui analisado e que acabou por nominar toda a crise. O deputado chamava de mensalão uma suposta mensalidade paga aos deputados de partidos da base aliada para que votassem favoravelmente a projetos do governo.
A CPMI dos Correios, em seu relatório de 21 de dezembro de 2005, definiu mensalão como o “fundo de recursos utilizados especialmente para atendimento a interesses político-partidários”.
O neologismo pegou. Que tipo de crise foi essa?
A chamada crise do mensalão não comporta os elementos de uma crise de Estado, conforme descrito por Marcus Ianoni (s/d), uma vez que essa tem sido associada, entre outros aspectos, à crise fiscal do Estado, crise financeira e crise do modelo nacional desenvolvimentista. Envolve necessariamente o aspecto econômico e dimensões políticas e institucionais do Estado. Segundo Francisco Weffort (1992:70), se a crise do Estado tem várias dimensões é porque ela engloba um conjunto de crises.
A crise em estudo não é uma crise de governabilidade uma vez que o exame da governabilidade vai além do estritamente político-institucional (sem deixar de se preocupar com os seus problemas), adentrando na esfera sócio-política, numa interação entre Estado e sociedade (Ver Diniz, E., Lopes, J. S. L. e Prandi, R. (orgs.), 1994).
Nas palavras de Eli Diniz, “de acordo com a nova interpretação de teor pluridimensional, o êxito das estratégias governamentais requer a mobilização não apenas dos instrumentos institucionais e dos recursos manejados pelo Estado, mas também dos meios políticos de execução. A questão da viabilidade política, que por sua vez, envolve a capacidade de articular coalizões e alianças que dêem sustentabilidade às alianças governamentais”. É exatamente neste ponto que a crise aqui estudada se insere.
Na trama de sustentação das alianças governamentais para a formação de uma base partidária ao governo, a crise ganha corpo como crise de relações entre poderes — e por isso é crise política —, sendo o Executivo acusado de corromper, através do partido no governo, o PT, o Legislativo. Para garantir a aprovação de projetos de interesse do governo, deputados dos partidos da base aliada, estariam recebendo propina paga, mensalmente, pelo PT ou alguns de seus dirigentes. Com ou sem a anuência ou conhecimento do presidente da república — dúvida permanente que ajuda a alimentar a crise. E mais, acusam-se os pagadores das propinas mensais, do mensalão, como o chamou o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) em sua denúncia devastadora, de se valerem de dinheiro público. Corrupção no Executivo para pagar corrupção no Legislativo, formando-se um emaranhado de escândalos menores ou maiores. Esse quadro colocou em dúvida a real sustentação do projeto do governo.
recursos financeiros convertidos em propina. Seria a saída desejada para a crise, que estancaria o sangramento corrupto das fontes de dinheiro público, restabelecendo-se a moralidade no Congresso. Paralelamente, reformas políticas seriam demandadas para consolidar o fim da crise e estabelecer procedimentos preventivos, envolvendo a fidelidade partidária (que impediria a troca de partido), limitando a proliferação de pequenos partidos (chamados em diversas ocasiões de partidos de aluguel), e a instituição do financiamento público das campanhas eleitorais e de listas fechadas nas eleições proporcionais. Uma condição entretanto, parecia ser sine qua non para a solução da crise: a inocência do presidente Lula. De seu lado, a economia ia bem. Apesar das altas taxas de juros vigentes no país, os reclamos eram pouco significativos. A crise política passava ao largo da economia.
Crise e credibilidade
Minha análise focaliza a crise como fator que teria sido decisivo na perda de credibilidade do PT, do governo e do presidente da República no que diz respeito ao posicionamento desses atores, o que teria influído na vitória do “Não” no Referendo popular que propunha a proibição do comércio legal de armas e munições no Brasil, realizado em 23 de outubro de 2005.
O escândalo do mensalão provocou a destituição da direção do Partido dos Trabalhadores, a exoneração de inúmeros ocupantes de cargos de confiança de empresas estatais, a queda de ministros de Estados, a cassação de parlamentares, a renúncia de outros aos seus mandatos. Envolveu também empresas prestadoras de serviços contratadas pelo governo, acusadas de intermediação e superfaturamento.
Após a divulgação da fita, as oposições e a mídia clamam pela instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o escândalo, a famosa CPI dos Correios. Prontamente, o governo se mobiliza para impedir sua instalação. Apesar da posição contrária do governo, senadores petistas assinam o requerimento da CPI. Começa a cizânia no PT.
Sentindo-se acuado e abandonado por seus ex-aliados, o deputado Roberto Jefferson parte para o contra-ataque. Denuncia Delúbio Soares, tesoureiro do PT, como o pagador do mensalão e o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, cujas agências de publicidade SMP&B e DNA tinham contratos com órgãos públicos, como o operador do mensalão. A revista Veja publica a reportagem “O elo se fecha”, explicitando a conexão PT-governo-Marcos Valério (6/6/2005).
Em 9 de junho, o Congresso Nacional solicita aos partidos que indiquem os membros para efetivar a instalação da CPMI, comissão mista envolvendo a Câmara e o Senado.
O governo reage e propõe a criação na Câmara de uma CPI para investigar denúncias de compras de votos para a aprovação da reeleição do então presidente da república Fernando Henrique Cardoso. Quer demonstrar que a relação promíscua entre o Executivo e o Congresso não é novidade, mas que já se praticava como compra de votos pelo governo anterior no caso da votação que permitiu um segundo mandato para FHC. Não obtém sucesso, a CPI não sai.
As denúncias alcançam níveis alarmantes, envolvendo partidos, pessoas, empresas, governo. A crise faz suas primeiras vítimas. Houve várias baixas.
Primeira baixa
Em 7 de junho, cai toda a diretoria dos Correios.
Delúbio Soares nega as acusações e permanece na tesouraria do PT. O presidente do PT, José Genoino, defende o tesoureiro e alega que as denúncias são falsas.
Segunda baixa
(Comunicação), José Dirceu (Casa Civil) e Antônio Palocci (Fazenda), inocentando o presidente Lula. As críticas mais duras são dirigidas ao ministro José Dirceu, acusando-o de “mentacusando-or” dacusando-o mensalãacusando-o.
Como conseqüência do depoimento de Jefferson, o ministro José Dirceu, até então “o homem forte do governo”, deixa o cargo e assume seu mandato de deputado.
Em 30 de junho, novo depoimento de Roberto Jefferson na CPI reafirma as denúncias e aponta a agência do Banco Rural em Brasília como local dos saques do mensalão. Acusa o secretário geral do PT, Sílvio Pereira, braço direito de Zé Dirceu, de ser o gerente do mensalão.
Terceira baixa
Em novo episódio, um assessor do deputado estadual José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão do presidente do PT José Genoino, foi flagrado, ao tentar embarcar no aeroporto em São Paulo, transportando dinheiro irregular, reais e dólares. O episódio ficou conhecido como o caso dos “dólares na cueca”. Diante dessas novas acusações, José Genoino renuncia à presidência do Partido dos Trabalhadores.
Outras baixas virão.
Na seqüência, confirma-se a denúncia de que Marcos Valério avalizara empréstimo de 2,4 milhões de reais ao PT, com documentos assinados por Delúbio e Genoino. É ainda revelado um empréstimo do Banco do Brasil ao PT no valor de 20 milhões de reais, sem avalista ou garantias legais.
Novos atores entram em cena: a ex-secretária de Marcos Valério, Fernanda Karina Somaggio, afirma que conhecia as relações do tesoureiro com o empresário e que testemunhara a saída de dinheiro “em malas” para Brasília, dinheiro levado pelo assessor do deputado José Janene (PP).
É a vez de tocar nos fundos de pensão. Suspeita-se dos espaços ocupados pelo Banco Rural e por BMG nos investimentos dos fundos de pensão da Petrobras e de Furnas. Ao mesmo tempo, Luiz Gushiken, secretário de Comunicação do governo, com
status de ministro, é acusado de favorecer sua ex-empresa, pelo fato de ter amigos nas diretorias dos fundos de previdência das estatais.
Em 12 de julho, Luiz Gushiken deixa o cargo de secretário de Comunicação, permanecendo no governo com o cargo de assessor.
O presidente Lula, em viagem à Paris, alega em entrevista ao “Fantástico”, em 17 de julho, que todos os partidos fazem uso do caixa dois13.
Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do deputado Waldemar da Costa Neto, presidente do PL, afirma na CPI que o mesmo recebia mensalão. Waldemar da Costa Neto renuncia em 1º de agosto.
Em novo depoimento na CPI, Roberto Jefferson reafirma as denúncias feitas e acusa José Dirceu de ter enviado emissários do PT e do PTB a Portugal, numa tentativa de obter recursos para saldar débitos de campanha de ambos os partidos. A Portugal-Telecom, empresa que teria sido procurada, nega as afirmações de Jefferson.
O marqueteiro de Lula, Duda Mendonça, em depoimento à Polícia Federal e à CPI, afirma ter recebido parte do pagamento pelas campanhas eleitorais do PT pelo caixa dois, em depósitos efetuados em contas que ele mantinha no exterior.
As revistas insistem que “Lula sabia” das ações praticadas pelo PT e por autoridades do governo. Lula nega que soubesse e diz, indignado, que se sentia traído.
Caminha-se para o desmoronamento do PT.
Começa a debandada do partido: doze de seus parlamentares federais deixam o PT14. Deles, onze vão para o recém-fundado PSOL — Partido Socialismo e Liberdade — da senadora Heloísa Helena, dissidente expulsa do PT em dezembro de 2003.
13 Caixa dois: sistema contábil que registra recursos não declarados na escrituração legal, a fim de
sonegá-los ao fisco. Cf. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.
14 Senadores Heloisa Helena (AL) e Cristóvão Buarque (DF), deputados federais Ivan Valente (SP), Babá
O ministro da Educação, Tarso Genro, deixa o ministério para assumir interinamente, a pedido de Lula, a presidência do PT. Faz a crítica partidária e propõe a “refundação” do PT para recuperar os princípios éticos que, antes da crise, eram considerados uma das mais importantes marcas do partido.
Entretanto, quando os prognósticos falavam no fim do PT, aconteceu a massiva participação dos filiados petistas nas eleições para a direção partidária. Votaram 315 mil filiados. O deputado federal Ricardo Berzoini, ex-ministro da Previdência, foi eleito presidente nacional do PT.
No curso da crise do mensalão, surge o “mensalinho” 15 do presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), que se vê obrigado a renunciar para escapar da provável cassação de seu mandato.
Finalmente, a crise atinge duramente o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, até então preservado. Âncora da credibilidade do governo e apoiado por amplos setores da economia, entre empresários, banqueiros e instituições, Palocci resiste a acusações de corrupção, mas não escapa da censura moral que cercou um episódio farsesco, envolvendo interesses empresariais escusos e garotas de programa.
Beneficiando-se do instrumento jurídico da delação premiada, Rogério Buratti, ex-secretário de Palocci na prefeitura municipal de Ribeirão Preto, declara que parte dos recursos municipais pagos à companhia de coleta de lixo que atuava na cidade era desviada para os cofres do PT. Palocci nega e resiste. Mas uma casa em Brasília é posta sob suspeita: alugada por empresários de Ribeirão Preto, seria usada para reuniões de negócio e encontros com mulheres de programa, agenciadas por famosa cafetina brasiliense. Francenildo dos Santos Costa, o caseiro, declara que Palocci freqüentava a casa. O sigilo bancário do caseiro é quebrado ilegalmente com o propósito de o desmascarar, supondo-se que ele teria recebido dinheiro para dar o testemunho que incriminava o ministro da Fazenda. Palocci é acusado de ordenar a quebra do sigilo. Não dá mais para segurar: Palocci cai e é substituído por Guido Mantega.