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Os conceitos de representação e recursividade na obra do jovem Peirce

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Academic year: 2019

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Gustavo Rick Amaral

Os conceitos de representação e

recursividade na obra do jovem Peirce

DOUTORADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA E DESIGN DIGITAL

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência

parcial para obtenção do título de Doutor em TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA E DESIGN DIGITAL sob a orientação do Professor Doutor Winfried Nöth.

SÃO PAULO

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BANCA EXAMINADORA

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Este trabalho é dedicado a Paula Salazar,

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Agradecimentos

Ao professor e orientador Winfried Nöth,

pelo rigor germânico e por ser um orientador "padrão Fifa" (no"país da CBF")

À professora Lucia Santaella,

por ter me apresentado e me guiado pela densa selva dos escritos peirceanos e especificamente por ter elaborado, ao longo de trinta anos, uma abordagem à semiótica de Peirce que criou um norte para esta pesquisa

Ao professor Edélcio Gonçalves de Souza,

cujas aulas e seminários a respeito de lógica e teoria de conjuntos tornaram possível parte considerável das análises desenvolvidas nesta pesquisa

Ao professor Jorge de Albuquerque Vieira,

pela magnificência com a qual consegue formar pontes sobre o abismo que separa a mentalidade reinante na área "das exatas" daquela que reina na área "das humanas"

A Paula Salazar,

pela paciência, companhia e apoio ao longo desses quatro anos de pesquisa e, sobretudo, pelo exemplo de superação e coragem oferecido a todos que testemunharam sua vitória contra uma das maiores adversidades que um ser humano pode encontrar nesta vida.

À família que deixei em Brasília,

minha mãe, meu pai e meu irmão, sempre presentes mesmo estando longe.

À família que me acolheu quando cheguei na “cidade grande”

Tia Rosa, Manu e Maurício, Aos amigos deBrasília,

que sempre nos obrigam a pensar diversas vezes em retornar à cidade natal.

Aos amigos de São Paulo,

principalmente, Marcelo Santos e Tarcísio Cardoso, por ainda terem, depois de alguns anos, paciência para ouvir minhas divagações teóricas.

E também à Poliana e ao Caio. Aos Gatos,

Chico Legi, Branquinha, Amelie, Zuzu, Toninho, Lechuga e Maria Eduarda,

pela inseparável companhia.

Devo agradecer ainda ao corpo docente do TIDD

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Palavras-chave: representação, recursividade, interpretante, cognição, semiótica, Peirce.

Resumo: Esta tese versa sobre o tipo de definição ou caracterização que Peirce utilizou para construir um conceito central dentro de sua semiótica: o conceito de representação. As análises que foram desenvolvidas para sustentar esta tese se limitam aos escritos peirceanos do final da década de 1860, época em que o pensamento de Peirce começa a se afastar de sua matriz kantiana e ganhar contornos próprios. O foco de toda a pesquisa realizada para a sustentação desta tese é o elemento lógico do sistema filosófico de Charles S. Peirce, i.e., a estruturação argumentativa desenvolvida pelo filósofo para validar as teorias que são oferecidas como respostas a problemas filosóficos.

De modo diverso das abordagens diádicas desenvolvidas para explicar o funcionamento de um processo de representação, a concepção de representação elaborada por Peirce dentro da semiótica é triádica e esta diferença está longe de ser meramente numérica. Nossa tese é que, com a introdução desse terceiro elemento (o interpretante), a caracterização do conceito de representação (elaborado dentro da semiótica peirceana) torna-se necessariamente recursiva e este tipo de caracterização é uma exigência interna da teoria que Peirce planeja oferecer como resposta ao que considerou ser o problema central da filosofia: como são possíveis os raciocínios sintéticos (i.e., ampliativos) ou, sob outro ângulo, como é possível haver crescimento do conhecimento?

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Key words: Representation, recursion, interpretant, cognition, semiotics, Peirce.

Abstract: This thesis addresses the type of definition or characterisation used by Peirce to formulate a central concept within his semiotics: the concept of representation. Analyses carried out to support this thesis are limited to Peirce's texts from the end of the 1860s, an era in which Peirce's thinking begins to detach itself from his Kantian matrix and take on its own features. The focus of all research conducted in support of

this thesis is the logical element of Charles S. Peirce’s philosophical system, i.e. the

argumentative structuring developed by the philosopher to validate the theories offered as responses to philosophical problems.

Differently from dyadic approaches developed to explain the workings of a representation process, the conception of representation elaborated by Peirce within semiotics is triadic and such difference is far from merely numerical. Our thesis is that, with the introduction of this third element (the interpretant), characterisation of the concept of representation (elaborated within Peircean semiotics) becomes recursive by necessity and such characterisation is an in-built requirement of the theory that Peirce intends to offer as an answer to what he considered to be the central issue of philosophy: how is synthetic (i.e. ampliative) reasoning possible or, from another angle, how is it possible for knowledge to grow?

With a view to proving our thesis in respect of the necessity for this type of conceptual characterisation within the Peircean philosophical project, we have dedicated a significant part of this text to the task of establishing not only that semiotics is central to such a project, but also to demonstrating that some central semiotic theses are a direct result of the fact that the concept of representation has been defined or characterised in a recursive manner. These central theses were termed elementary theses (of semiotics):

"there is no first sign (in an interpretative process)" and “there is no last sign (in an

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SUMÁRIO

Introdução Geral... 2

CAPÍTULO 1 - Semiótica: a respeito das origens... 11

CAPÍTULO 2 - Lógica e as raízes da semiótica... 23

2.1 - Síntese: de Hume a Kant... 27

2.2 - Sinai: de Kant a Peirce... 42

2.3 - Síntese: a distância entre Kant e Peirce... 52

CAPÍTULO 3 - O problema das fundações... 58

3.1 - O projeto cartesiano da fundação última do conhecimento físico-matemático... 61

3.2 - A impossibilidade do projeto das fundações seguras... 80

3.3 - Um modelo lógico da mente... 87

CAPÍTULO 4 - Introdução à análise do texto "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem" (QFCM) e análise da primeira questão... 97

4.1 Análise (da primeira parte) da Q1: Sobre a capacidade intuitiva de distinguir intuições... 104

4.2 Análise (da segunda parte) da Q1: sobre a capacidade intuitiva de distinguir intuições... 129

CAPÍTULO 5 - Análise da segunda e da terceira questões do texto "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem"... 147

5.1 Análise da Q2: sobre a autoconsciência intuitiva... 148

5.2 Análise da Q3: sobre elementos subjetivos de diferentes tipos de cognições... 168

CAPÍTULO 6 - Análise da quarta questão do texto "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem"... 180

6.1 Análise da Q4: sobre a capacidade de introspecção... 181

6.2 Excurso: o problema do segundo tipo de intuição...194

CAPÍTULO 7 - Análise da quinta questão do texto "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem"... 208

7.1 Análise (da primeira parte) da Q5: sobre a capacidade de pensar sem signos... 209

7.2 Análise (da segunda parte) da Q5: sobre a capacidade de pensar sem signos... 225

CAPÍTULO 8 - Análise da sexta e da sétima questões do texto "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem"... 236

8.1 Análise da Q6: sobre o significado do incognoscível... 237

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CAPÍTULO 9 - Resultados da análise do texto "Questões concernentes a certas faculdades

reivindicadas para o homem"... 273

9.1 Primeiro movimento argumentativo geral do QFCM: o estabelecimento da tese-base da semiótica...276

9.2 Segundo movimento argumentativo geral do QFCM: o estabelecimento da tese a respeito das origens do processo cognitivo...290

CAPÍTULO 10 - Análise do texto "Sobre uma nova lista de categorias" (ONLC)... 298

10.1 Primeira parte da análise do ONLC: conceitos-chave... 302

10.2 Segunda parte da análise do ONLC: método de exposição hipotético-construtivo... 316

10.3 Terceira parte da análise do ONLC: método de exposição hipotético-desconstrutivo... 320

10.4 Quarta parte da análise do ONLC: a síntese no contexto argumentativo... 327

CAPÍTULO 11 - Análise da definição de interpretante dentro do texto "Sobre uma nova lista de categorias" (ONLC)... 335

11.1 A primeira definição de Interpretante dentro do modelo triádico de signo... 337

11.2 Análise dos exemplos que acompanham a primeira definição de Interpretante dentro do modelo triádico de signo... 340

11.3 Excurso: alguns modelos de interpretação do conceito peirceano de representação... 353

CAPÍTULO 12 - Interpretante e recursividade... 357

12.1 Análise do trecho de Savan a respeito da relação entre interpretante e recursividade...359

12.2 A caracterização recursiva do conceito de representação na semiótica peirceana...368

12.3 Recursividade e a sétima questão do QFCM...377

CAPÍTULO 13 - Recursividade e a concepção de representação como fluxo... 385

13.1 As teses elementares da semiótica...387

13.2 A recursividade como condição necessária...403

13.3 A Hipótese da prisão linguística...413

Considerações finais ... 434

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Introdução Geral

A ideia de representação na semiótica peirceana

Precisamente, esta tese de doutorado trata do tipo de definição ou caracterização que Peirce utilizou para construir um conceito central na sua teoria semiótica: o conceito de representação. Nossa tese é que, com a introdução do terceiro elemento (denominado interpretante) na definição peirceana de signo, a caracterização do conceito de representação torna-se necessariamente recursiva e este tipo de caracterização é uma exigência interna da teoria que Peirce planeja oferecer como resposta ao que considerou ser o problema central da filosofia: como são possíveis os raciocínios sintéticos (i.e., ampliativos) ou, sob outro ângulo, como é possível haver crescimento do conhecimento? O que pretendemos provar nas próximas centenas de páginas é que esta caracterização recursiva é uma condição necessária para a sustentação do projeto filosófico elaborado pelo jovem Peirce na década de 1860, época em que o pensamento peirceano começa a se afastar de sua matriz kantiana e ganhar contornos próprios. Portanto, as análises e argumentos que desenvolveremos a seguir recobrem apenas a fase inicial da construção do sistema filosófico peirceano, embora acreditemos que as principais teses defendidas no interior da semiótica bem como esta caracterização recursiva da representação são elementos essenciais ao pensamento semiótico de Peirce, o que nos leva a acreditar (sem obviamente poder estabelecer [nesta tese] este ponto) que tais elementos permaneceram sob todas as reformulações às quais o próprio Peirce submeteu seu sistema filosófico ao longo do tempo1. A estrutura geral e os principais componentes deste projeto filosófico elaborado pelo jovem Peirce na década de 1860 serão apresentados no primeiro capítulo. Nossa tese central pode ser expressa da seguinte forma:

TESE de Doutorado - A caracterização do conceito de representação (interno à teoria semiótica peirceana) é necessariamente recursiva.

As descrições de Peirce sobre processos de significação e as definições de signo2 invariavelmente incluem três elementos: o signo (propriamente dito), o objeto e o

1 Esta tese à qual aludimos (sem querer alimentar a esperança no leitor de que teremos a oportunidade de defendê-la) afirma apenas que algumas teses e algumas características da teoria semiótica elaborada ao final da década de 1860 não foram alteradas em versões posteriores. Isto é muito diferente de afirmar que não houve mudança alguma na semiótica e mesmo na filosofia peirceana (ao longo da carreira de Peirce). Por exemplo, é de conhecimento até do reino mineral que, entre o período de 1870 - 1885, Peirce desenvolveu um novo aparato para análise lógica que passou a chamar de "lógica dos relativos" (que consiste justamente na introdução do uso de quantificadores e variáveis ligadas na análise lógica e seria equivalente ao que hoje entendemos por lógica de primeira ordem). Este novo aparato teve um impacto considerável, pois é a partir dele que Peirce reorganiza seu sistema de categorias (que está na base de seu sistema filosófico).

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interpretante. Em termos gerais, o signo é um conceito que Peirce utiliza para descrever um processo representacional em que um primeiro elemento (o signo propriamente dito), para representar um segundo elemento (o objeto da representação), deve necessariamente produzir um terceiro elemento (denominado de interpretante) que possui função mediadora. A recursividade essencial a este modo de explicar o funcionamento de um processo de representação está no modo como este terceiro elemento é definido. Como, para haver representação entre os dois primeiros elementos, é necessário que o terceiro elemento entre em cena e este terceiro elemento é ele mesmo uma representação (um novo primeiro elemento, ou seja, um novo signo), então ele deve necessariamente produzir um quarto elemento (i.e., um novo terceiro elemento, ou seja, um novo interpretante) e assim por diante. O modo recursivo como foi definido o terceiro elemento do signo cria, dentro da semiótica, uma noção de sequência ou processo. Como veremos, uma sequência de interpretantes ou um processo interpretativo. O conceito de representação, dentro da semiótica peirceana, é captado por esta noção de sequência ou processo interpretativo (introduzida na teoria pelo terceiro elemento acima mencionado). A nossa tese central é que a noção geral de recursividade é fundamental não apenas para os campos da matemática, da lógica e, mais recentemente, da computação, mas também para a semiótica (no caso, peirceana). A ideia de correlacionar este conceito peirceano de interpretante com o conceito de recursividade nos foi sugerida por uma breve passagem de um texto de David Savan3. Nesta passagem, Savan afirma que o "o que há de característico de quase todas definições peirceanas de interpretante (...) é que o terceiro relatum é uma instância ou uma réplica de uma regra de recursão" (Savan, 1986, p. 133). A definição de recursividade da qual Savan lança mão para esclarecer o que Peirce entende por interpretante está presente no livro "Mathematical logic" do filósofo e lógico norte-americano W. Quine. Na verdade, no trecho do livro de Quine, citado por Savan, encontramos uma definição do que é uma definição recursiva ou uma caracterização

recursiva de um conceito. De acordo com a definição fornecida por Quine, "qualquer noção geral que é resolvida numa sequência infinita de casos especiais é dita

recursivamente caracterizada quando explicamos o primeiro caso e adicionamos uma regra geral que descreva (i+1)-ésimo caso, para cada i, em termos dos primeiros i casos" (Quine, 1981, p. 86). Vejamos um exemplo para que esta noção de recursividade se torne mais palpável.

Na verdade, não tão palpável assim, uma vez que escolhemos um exemplo proveniente do campo da matemática mesmo sabendo que, com isso, devemos perder nas próximas

signo, objeto e interpretante) ou ele apenas reservou o termo "signo" para se referir à primeira posição dentro dessa relação triádica.

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linhas parte de nossos leitores. Na matemática, o fatorial de um número qualquer é uma certa operação definida como o produto de todos os números que sejam iguais ou menores que o número em questão. Esta operação é representada pelo símbolo " ! ". Assim, o fatorial de um número n é representado como n! e o resultado desta operação é " n x (n - 1)! ", ou seja, o valor resultante da operação fatorial aplicada sobre o número n

é o número n multiplicado pelo fatorial de seu antecessor. Por exemplo, para que saibamos o resultado do fatorial do número 3 é necessário que calculemos o seguinte produto: 3 x 2 x 1. Obviamente, o resultado da operação 3! é 6.

Como acreditamos que esta operação já esteja minimamente esclarecida, passemos a fazer algumas observações sobre o modo como ela foi definida, que é o ponto que efetivamente nos interessa neste texto introdutório. No parágrafo anterior, afirmamos que o valor resultante da operação fatorial aplicada sobre o número n é o número n multiplicado pelo fatorial de seu antecessor, ou seja, o resultado da operação n! é n x (n - 1)! . Isto significa que o resultado desta operação depende do resultado desta mesma operação para um caso anterior. A ideia de recursividade está presente justamente no fato desta operação recorrer à uma referência a ela mesma para poder ser definida. A definição não é circular, como veremos, pois esta recorrência é sempre efetuada para um caso anterior da aplicação da operação definida. Este caso anterior é dado por uma sequência.

Podemos apresentar esta definição ou caracterização recursiva da operação fatorial com apenas duas cláusulas. As duas cláusulas ou regras que compõem esta definição recursiva funcionam como um algoritmo que serve para que encontremos o resultado da operação fatorial aplicada sobre algum número específico.

Caracterização recursiva da operação fatorial

Cláusula n°1 (cláusula base) --> Se o número (diante do símbolo que representa a

operação fatorial) for menor ou igual a 1, então o valor da operação fatorial é 1. Cláusula n°2 (regra geral) --> Caso o número (diante do símbolo que representa a

operação fatorial) tenha outro valor que não seja menor ou igual a 1, então o valor da operação fatorial é o valor do número multiplicado pelo valor da

operação fatorial aplicada sobre o antecessor deste número.

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Ora, o número que antecede ao número 4 é o número 3. Logo, o que a segunda cláusula nos pede para fazer é multiplicar o número 4 pelo resultado da operação fatorial

aplicada sobre o número 3. Em símbolos, o que a segunda cláusula nos solicita fazer é encontrar o valor de 4 x 3! . Isto significa que, para encontrarmos o valor de 4!, é preciso, antes, encontrar o valor de 3!. E de onde vamos tirar o resultado da operação fatorial 3! ? Simples, basta que apliquemos a esta operação a segunda cláusula (uma vez que, como o número 3 não é menor ou igual a 1, então ele também não cumpre a condicionante da primeira cláusula). Aplicar a segunda cláusula significa isolar o número 3 e multiplicá-lo pelo resultado da operação fatorial aplicada sobre o seu antecessor, que é o número 2. Então, o que temos é que o valor de 3! é dado pela operação 3 x 2! . E, assim, estamos diante de outro fatorial: a operação 2! . Mais uma vez, perguntemo-nos o que pode ser feito para encontrar o valor de 2! ? Claro está que devemos aplicar a segunda cláusula novamente, pois o número 2, como o 3 e o 4, também não cumpre a condicionante expressa na primeira cláusula. Ao aplicar a segunda cláusula ao número 2, descobrimos que o valor de 2! é 2 x 1! (pois o número q é o antecessor de 2). E isto nos põe novamente diante de outro fatorial: a operação 1!. Entretanto, esta é a última delas, pois, pela primeira vez, estamos diante de uma operação fatorial feita sobre um número que é igual ou menor que 1. Isto significa que está cumprida a condição para aplicarmos a primeira cláusula. Logo, o valor de 1! é 1. Note que, ao contrário de todos os outros passos anteriores esta operação ( 1! ) não nos apresentou como resultado outro fatorial.

Revisemos nossos passos. Começamos nos perguntando pelo valor de 4! . Descobrimos que 4! = 4 x 3! . Então nos perguntamos pelo valor de 3! e descobrimos que 3! = 3 x 2! . Com isso, sabemos que o valor de 4! é, na verdade, 4 x 3 x 2! . Porém, o valor de 2! é 2 x 1! . Logo, o valor de 4! é 4 x 3 x 2 x 1! . Mas, deve-se recordar que o valor de 1! (pela primeira cláusula) é 1. Assim, o que temos é que 4! tem como valor o resultado da seguinte multiplicação: 4 x 3 x 2 x 1 . Logo, o valor de 4! é 24.

Por qual motivo esta definição apresentada da operação fatorial é denominada recursiva? A recursividade está justamente no fato de que, segundo esta definição, para saber o resultado da aplicação desta operação sobre um número n temos que recorrer ao resultado desta mesma operação aplicada sobre o antecessor do número n (i.e., o número

n - 1) e esta recorrência é feita até que se atinja um ponto de parada. Da mesma forma, as definições que Peirce oferece de signo também possuem tal noção geral de recursividade. Na semiótica, conforme a sugestão de Savan (que citamos acima), a recursividade fica patente na definição do terceiro elemento do signo, o interpretante. O terceiro elemento possui um papel de mediação essencial em qualquer processo de representação. Para haver representação, deve sempre haver produção de interpretante. Dentro dos limites da semiótica peirceana, uma coisa não pode representar outra sem produzir um interpretante, i.e., sem recorrer a um terceiro elemento mediador. Um signo

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signo para o mesmo objeto B) e, assim, ele também deve produzir (por ele mesmo) outro interpretante E. Tal processo de representação continua indefinidamente. Porém, deve-se chamar atenção para uma importante característica (das definições de signo de Peirce), o resultado de uma representação específica também depende de uma representação anterior. Claro está que, neste exemplo, começamos pelo signo A. Entretanto, este signo deve ser entendido como resultado de uma representação anterior ainda que não tenhamos nos referido a ela diretamente.

Na semiótica peirceana, a relação de representação entre o signo e objeto

necessariamente produz um interpretante e esta relação é ela mesma necessariamente resultado de algum interpretante anterior. Assim, toda representação entre um signo e um objeto deve desencadear um processo interpretativo e deve ela mesma ser resultado de um processo interpretativo anterior. Isto significa que não há um ponto de origem para o processo de representação. É como se estivéssemos diante de um processo definido recursivamente para o qual não há cláusula base. Não há um ponto de partida, nem um ponto de chegada pré-estabelecido. O que há é fluxo. Isto nos leva a uma estranha teoria que entende a representação como um processo que necessariamente

ocorre numa espécie de fluxo.

Estrutura da tese

Para que possamos provar esta (nossa) tese a respeito da necessidade do tipo de caracterização conceitual mobilizada dentro do projeto filosófico peirceano, seremos obrigados a estabelecer, em primeiro lugar, que a semiótica é uma teoria central neste projeto e, em segundo lugar, que algumas teses centrais dentro da semiótica são decorrência direta do fato de o conceito de representação ter sido definido ou caracterizado de forma recursiva. Estas teses centrais serão denominadas de teses elementares da semiótica (e serão explicadas de forma mais detalhada no nono capítulo).

Teses elementares da semiótica peirceana

Tese_1 da semiótica --> Não há primeiro signo (num processo interpretativo). Tese_2 da semiótica --> Não há último signo (num processo interpretativo).

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acima apresentadas têm que ser estabelecidas dentro da teoria semiótica (desenvolvida pelo próprio Peirce), e o estabelecimento destas teses depende da recursividade que é encontrada dentro da concepção de signo ou de processo representativo (e é introduzida pelo conceito de interpretante). Se, por um lado, como pretendemos provar, estas duas teses são condições necessárias para a sustentação do projeto filosófico peirceano, por outro lado, como também pretendemos provar, a caracterização recursiva de representação (mobilizada por Peirce para definir a relação entre signo, objeto e interpretante) é uma condição necessária para o estabelecimento das duas teses elementares. Portanto, a nossa tese é justamente que a caracterização ou definição do conceito de representação que está no coração do conceito de signo da semiótica peirceana é necessariamente recursiva. Sem esta recursividade, simplesmente não seria possível derivar as duas teses elementares da semiótica: "não há primeiro signo num processo interpretativo" (Tese_1 da semiótica) e "não há último signo num processo interpretativo" (Tese_2 da semiótica). Como veremos no último capítulo, se concebermos uma teoria semiótica alternativa àquela proposta por Peirce, i.e., sem a caracterização recursiva de representação, não seria possível garantir que, em todo processo interpretativo, não haja ponto originário ou ponto de chegada preestabelecido. Isto significa que a teoria da representação que está subentendida no projeto filosófico peirceano necessariamente mobiliza um conceito de "representação como fluxo". Como teremos a oportunidade de explicar detalhadamente, o conceito de interpretante (proveniente da semiótica) deve ser entendido como uma espécie de princípio que instaura um processo representacional (uma cadeia de interpretantes) que ocorre num fluxo, sem ancoragem alguma, sem ponto de partida ou chegada absoluto.

Como nossa tarefa consiste em mostrar que a recursividade é uma condição necessária para o projeto filosófico peirceano, ou seja, para as soluções teóricas propostas por Peirce em seu sistema filosófico, então teremos que começar pela explicação e contextualização deste projeto. Por este motivo, antes mesmo de nos voltarmos para as análises dos argumentos elaborados por Peirce e para a argumentação de nossa tese (propriamente dita), parte considerável de nosso texto é dedicada a apresentar o surgimento da semiótica nos escritos peirceanos da década de 1860. Assim, optamos por dividir nosso texto em três grandes partes: I) o panorama histórico do surgimento da semiótica no pensamento peirceano e a relação da filosofia de Peirce com outros sistemas filosóficos, como o de Kant e de Descartes (capítulos 1,2 e 3); II) as análises do texto peirceano (capítulos 4 - 11)4; III) as argumentações para sustentação da tese propriamente dita (capítulo 12 e, sobretudo, 13): "a caracterização do conceito de representação (interno à teoria semiótica peirceana) é necessariamente recursiva".

4 Aproveitemos este texto introdutório para esclarecer o significado de algumas abreviações de títulos ou coletâneas de textos elaborados por Peirce que deverão aparecer ao longo desta tese: CP – Collected Papers; NEM – The New Elements of Mathematics; EP – Essential Peirce; MS – Manuscritos da

Houghton Library. As referências aos “Collected Papers” serão feitas pela numeração relativa ao volume e ao parágrafo (e não às páginas). Por exemplo, uma citação cuja referência bibliográfica esteja CP 2.101

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Algumas observações sobre metodologia

O foco deste trabalho é o elemento lógico do sistema filosófico de Charles S. Peirce. E por elemento lógico entendemos a estruturação argumentativa da obra que constitui e valida as teorias apresentadas pelo filósofo como respostas a problemas (filosóficos) estabelecidos internamente, i.e., dentro de seu próprio sistema filosófico, ou externamente, i.e., pela tradição. Assim, procuramos organizar toda a exposição a ser feita do pensamento peirceano (e também das análises e interpretações acerca dele) em torno do que pode ser considerado o problema central da filosofia de Peirce: a possibilidade das sínteses (ou, em outros termos, a possibilidade da ampliação do conhecimento, de um sistema de crenças). De acordo com Martial Gueroult (2007 [1957]), considerar que também a atividade filosófica (como a científica) procura resolver problemas por meio de teorias é entender a filosofia a partir da noção de problemática.

Sendo, como a ciência, um esforço para conhecer e compreender o real, a filosofia institui, como ela, uma problemática. Todas as grandes doutrinas podem se caracterizar a partir de problemas: problema do uno e do múltiplo entre os pré-socráticos; problema da possibilidade da ciência e da predicação em Platão; problema das causas primeiras, da demonstração, do método geral das ciências da natureza em Aristóteles; problema do fundamento da física matemática em Descartes; problema do fundamento da possibilidade das ciências e da metafísica como ciência em Kant; problema dos vínculos entre a história e o racional em Hegel, etc.

Como a ciência, a filosofia deve, ao instituir problemas, respondê-los através de teorias. Ora, toda teoria só é válida na medida em que é demonstrada. A demonstração não visa simplesmente que a teoria seja imposta a outrem, mas que faça nascer em toda inteligência, incluindo na de seu protagonista, a intelecção do problema e de sua solução.

É por isso que o elemento lógico deve assumir em toda filosofia, não uma função de tradução (de uma paisagem mental ou de uma intuição), mas uma função de validação e até de constituição.

(Gueroult, 2007 [1957], p. 235)

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denominamos de) externos. Porém, três motivos podem ser arrolados para justificar a desconsideração desses fatores externos na presente tese. Os dois primeiros motivos são carências: de espaço e de competência. Em primeiro lugar, como o leitor notará, a análise somente de "fatores internos" ao texto peirceano nos tomou tantas páginas (centenas delas) que nos falta espaço para desenvolver análises de qualquer outro tipo. Em segundo lugar, falta-nos competência para elaborar análises mais rigorosas (que valeriam a pena serem publicadas) acerca desses fatores externos citados. Deixemos esta tarefa para especialistas (historiadores, psicólogos, sociólogos, antropólogos, etc.). O terceiro e mais importante dos motivos é que esta desconsideração decorre de uma opção metodológica. Para esclarecer este posicionamento metodológico é preciso observar que a sustentação da tese que pretendemos defender depende de uma interpretação global do sistema filosófico peirceano (ao menos dos seus primeiros desenvolvimentos). Não só a sustentação de nossa tese propriamente dita, mas também o estabelecimento de grande parte dos passos intermediários (que nela desembocam) só faz sentido a partir de uma interpretação global do sistema filosófico peirceano. A afirmação de que "a caracterização do conceito de representação (interno à teoria semiótica peirceana) é necessariamente recursiva" só pode ser justificada na dependência de algum quadro interpretativo. O que pretendemos, com esta tese, é simplesmente oferecer uma interpretação de um conceito central ao pensamento peirceano com o objetivo de enxergar o seu papel dentro do sistema como um todo, ou seja, sua função na resolução do problema maior da filosofia peirceana (aquele relativo às possibilidades das sínteses).

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CAPÍTULO 1

Semiótica: a respeito das origens

Não é sem a companhia de alguma perturbação que surgem, aos mortais, questões e reflexões relativas a origens. A fonte desta perturbação parece ser o fato de que, quando se busca um ponto originário corre-se o risco de encontrar a prova da finitude daquilo cuja origem foi encontrada. O ponto de fuga da busca pela origem da espécie humana é estabelecer, de uma vez por todas, a prova da finitude do homem e a atribuição de um caráter histórico a tudo que lhe disser respeito. Entretanto, e isto soa paradoxal, embora o questionamento a respeito das origens seja fonte de perturbação, mais perturbador ainda é o estado de total desconhecimento das origens. E, seguindo uma gradação, mais perturbador do que essa situação de total desconhecimento é o estado no qual tomamos conhecimento da impossibilidade de se perguntar sobre as origens com esperança de obter alguma resposta minimamente aceitável. Por um lado, se a busca pelas origens nos perturba por evidenciar nossos limites, também devemos reconhecer que ela nos conforta ao oferecer a possibilidade de algum espaço originário ao qual podemos pertencer. Por outro lado, a impossibilidade de se fixar uma origem não parece ter nenhuma contraparte confortante, pois ela provoca um sentimento eterna e constantemente renovado de desenraizamento. No campo da epistemologia, um dos resultados mais notáveis dos argumentos peirceanos (que estão envolvidos no estabelecimento de um pensamento propriamente semiótico) é nos levar a crer que não

é possível se fixar uma origem para os nossos processos de conhecimento. Não há fundação possível para nosso sistema de crenças.

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semiótica peirceana para dentro dela localizar o conceito de interpretante, que, de acordo com nossa interpretação, deve ser correlacionado à noção de recursividade ou regra recursiva.

Como veremos, a semiótica e também a epistemologia em torno da qual ela é construída têm como um dos principais objetivos sustentar a seguinte tese: todo processo de conhecimento que termina por estabelecer alguma crença é sempre falível e este estado de crença resultante é sempre provisório. De acordo com as linhas argumentativas desenvolvidas por Peirce (e que analisaremos nas próximas centenas de páginas), o motivo deste falibilismo é a tese também peirceana de que sempre há um resíduo de incerteza contido em qualquer crença que possamos obter. Em linhas gerais, a semiótica está inserida num corpo teórico que funciona (dentro do sistema filosófico peirceano) como uma retumbante lição de humildade epistemológica. O problema é que, a partir de algumas perspectivas mais habituais, esta lição só parece poder ser assimilada como uma derrota da razão. Se partirmos do pressuposto que o conjunto de nossas faculdades cognitivas deveria nos permitir, em determinadas condições, obter conhecimento absoluto acerca do mundo, é óbvio que uma teoria que estabeleça que, na prática, nosso conhecimento é provisório e falível deve ser interpretada como uma derrota da razão. Os resultados de uma teoria falibilista, neste contexto, são claramente decepcionantes. Por isso, não é incomum que sintamos certo incômodo na leitura de passagens da obra peirceana. Nos escritos que vamos analisar, notaremos que Peirce investe grande parte de sua energia para desmontar estes pressupostos que nos impedem de aceitar o falibilismo exceto como um fracasso da razão5.

Como estamos numa região introdutória deste texto, esta localização nos permite um pouco de liberdade com relação ao modo de expressão. Tentemos algumas comparações mais metafóricas para que comecemos a esclarecer por qual motivo os escritos peirceanos, ainda que levem a noção de incerteza para dentro da teoria do conhecimento, não devem ser lidos como um elogio à incerteza, ao erro, ou seja, uma apologética da irracionalidade. Que a espécie humana tenha pavor do estado de incerteza nos parece fora de discussão. Prova disso é que nos últimos tempos, para cercar o acaso, acuá-lo, dominá-lo, temos inventado enormes sistemas de previdência social (que os estados nacionais mal conseguem sustentar) e os mais incríveis sistemas privados de seguro e contrasseguro projetados para nos proteger contra doenças, pestes, epidemias, roubos, assaltos, sequestros, atentados, acidentes de trânsito, terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas e qualquer outro evento que pareça estar nas mãos do acaso. O combate contra o acaso é permanente e a vitória definitiva contra a fonte geradora de incertezas parece ser uma questão de honra para uma espécie que ostenta um cérebro tão grande, pesado e caro do ponto de vista evolutivo. Aprendemos a

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acreditar piamente que foi por isso mesmo que fizemos uma revolução científica há algum tempo atrás. As concepções mais instrumentais de ciência (essas, mais fáceis e palatáveis, que ensinamos para as crianças nas escolas) nos dizem que conhecimento serve para que nos emancipemos da tirania de uma natureza que só é capaz de evoluir (aparentemente) de forma lenta e cega, como se caminhasse lentamente para prolongar seu deleite dos sabores do acaso. Ao contrário da natureza, temos pressa e sabemos onde queremos chegar (ao menos esta é a imagem que temos feito de nós mesmos). Como estamos em combate permanente com o estado de incerteza, entrar num estado no qual a incerteza é a única constante, ainda que residual, é perturbador. Para exemplificar como a constância de um estado de incerteza é perturbadora para seres humanos, podemos apresentar um caso proveniente da psicologia. É altamente desaconselhável começar com um exemplo de psicologia a sustentação de uma tese que pretende se concentrar no elemento lógico da obra de um filósofo que se definia como lógico (e que pode ser considerado um dos primeiros a defender uma visão anti-psicologista da lógica). Entretanto, as vaguezas contidas nas metáforas, às vezes, sugerem com facilidade o que a precisão dos argumentos só parece conseguir expressar mediante esforço colossal do intelecto. Além do mais, como afirmamos, a região do texto em que nos encontramos nos concede margem para manobras (puramente) retóricas.

Que se observe ou ao menos que se imagine o espírito em permanente estado de perturbação de pais cujos filhos desapareceram nalgumas tragédias históricas (das quais, aliás, o século XX esteve repleto) como guerras, ditaduras, genocídios, etc. Há uma distância considerável entre constatarmos que uma pessoa está morta e imaginarmos

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esta possibilidade permanece eternamente aberta. O mecanismo que faz funcionar esta espécie de tortura continuada está justamente no fato de que esta porta não parece poder ser fechada nunca.

Embora seja moralmente execrável, deve-se reconhecer que esta "estratégia do desaparecimento" é altamente eficiente para os fins para os quais foi desenvolvida, a saber, perpetuar o sofrimento (que é inicialmente apenas) de um indivíduo para além de sua morte, atingindo pessoas que lhe são próximas com o intuito de disseminar o medo dentro (de alguns setores) de uma sociedade. O princípio maquiavélico por trás desta estratégia não é nenhuma novidade: planta-se medo para colher obediência. De atrocidades a história humana não carece. O que foi novidade no século XX foi a escala em que as atrocidades foram cometidas e o maquinário institucional, calculadamente construído pela engenhosa razão humana, para cometê-las, o que explica a eficiência. Ainda que tenhamos introduzido este exemplo como um caso de psicologia, é provável que a eficiência desta "tortura do desaparecimento" não possa ser explicada somente por algumas especificidades, algumas fraquezas da estrutura psíquica humana, mas este lamentável sucesso parece residir no fato de tal violência ser capaz de atingir coletivamente seres humanos e feri-los numa região muito sensível do "corpo social": um direito adquirido tão logo nos tornamos isso que somos. Se levarmos em consideração que ritos fúnebres são um dos primeiros traços comportamentais a nos distinguir de outros animais e também considerarmos a incontável quantidade de camadas simbólicas que viemos sobrepondo durante todos esses milênios a estes ritos, notaremos sem muita dificuldade que negar ao homem a oportunidade de enterrar seus mortos é um crime cometido contra a espécie (e não somente contra indivíduos espaço-temporalmente situados). Esta tortura continuada, esta perturbação constantemente renovada é um dos efeitos de longo prazo mais nocivos dessas ditaduras, espécie de efeito letal da radiação que vai atravessar gerações. Antes de abandonarmos este exemplo, notemos que o que tortura aquela mãe cujo filho desapareceu (naquelas condições descritas) é o pensamento renitente acerca da possibilidade de seu retorno. O mecanismo responsável pela tortura funciona justamente porque esta possibilidade é mantida aberta. É como se a porta da casa dessa família não pudesse ser fechada. Ela permanece sempre aberta ou, que seja, entreaberta. Nunca totalmente fechada.

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fechar esta porta. Da perspectiva peirceana, enquanto nos movermos nos interiores de teorias que nos permitem sistematicamente alimentar a esperança de alcançar um ponto originário, uma fundação inabalavelmente segura para o conhecimento humano, sempre teremos nosso espírito invadido por um mal-estar toda vez que percebemos que ainda não atingimos este ponto. É como se todas as nossas crenças fossem ilegítimas. Sentiremo-nos mal toda vez em que percebemos que nossos edifícios (por mais imponentes e complexos que sejam) não possuem fundações seguras. Observada do ponto de vista de um projeto fundacionalista como aquele defendido por Descartes nos primeiros dias da modernidade, a filosofia peirceana é uma vertigem.

Demos este volteio retórico só para informar que, durante os primeiros três capítulos desta primeira parte da tese, vamos tratar das origens da semiótica no desenvolvimento do pensamento peirceano. E, como o leitor deve ter percebido, origem é um tema caro a Peirce. Pode-se estabelecer como data oficial para o nascimento da semiótica peirceana a publicação do artigo "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem". A tese central deste artigo é uma proposição que equaciona o conceito de pensamento ao conceito de signo: "todo pensamento é pensamento em signos" (CP 5.253 [1868])6. Este artigo é o primeiro de uma série de três textos que compõem o que os estudiosos da obra peirceana passaram a chamar de "série sobre a cognição" ou simplesmente "série cognitiva". Este conjunto de textos constitui uma estrutura argumentativa única cujo propósito último é fornecer uma resposta à pergunta que Peirce formulou como problema filosófico maior: como são possíveis as sínteses, como é possível o raciocínio sintético? Transcrevemos a seguir a formulação deste problema7 pelas próprias palavras do filósofo:

De acordo com Kant, a questão central na filosofia é "como são possíveis os juízos sintéticos a priori ?" Porém, antes desta pergunta, vem a questão como são possíveis os juízos sintéticos, em geral, e de forma mais geral ainda, como o raciocínio sintético é possível? Quando a resposta a este problema geral tiver sido obtida, aquele problema particular será comparativamente mais simples. Este é a fechadura na porta da filosofia.

(CP 5.348 [1868])8

Dez anos mais tarde, Peirce volta a tratar este problema como central.

Ao final do último século, Immanuel Kant levantou a questão "como são possíveis os juízos sintéticos a priori ?" Por juízos sintéticos, ele se referia A juízos que afirmam fatos positivos e não são questão de mero arranjo; em resumo, estes são os juízos do tipo produzido por raciocínio sintético e que os raciocínios analíticos não podem produzir. Por juízo a priori, ele se refere

6 No original: "all thought is in signs". A tradução para o português que Santaella oferece em suas obras sobre semiótica peirceana é a seguinte: "todo pensamento se dá em signos" (cf. Santaella, 1994, p. 44). 7 Este trecho foi retirado do segundo artigo da série cognitiva.

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àqueles juízos que afirmam, por exemplo, que todos os objetos externos estão no espaço, todo evento tem uma causa, etc., proposições que, de acordo com ele, não podem ser inferidas da experiência. Não tanto por sua resposta, mas simplesmente por ter levantado tal questão, toda a filosofia de seu tempo foi estilhaçada, destruída e uma nova época na história da filosofia nasceu. Entretanto, antes de ter feito tal pergunta, ele deveria ter feito uma pergunta mais geral: "Como são possíveis os juízos sintéticos, em geral?" Como é possível que um homem possa observar um fato e, em seguida, pronunciar um juízo a respeito de outro (distinto) fato que não esteja envolvido no primeiro? Este é um paradoxo estranho. O abade Gratry afirma ser um milagre; e que toda indução verdadeira é uma inspiração imediata das alturas. Respeito esta explicação muito mais que outras tentativas pedantes de resolver a questão a partir de malabarismos com probabilidades, com formas de silogismos, o que deixa de ser. Respeito porque esta explicação demonstra uma apreciação da profundidade do problema, porque ela atribui uma causa adequada e também porque ela está intimamente concectada  como uma verdadeira explicação deve estar  com uma filosofia geral do universo. Ao mesmo tempo, não aceito este tipo de explicação, pois uma explicação deve nos revelar como algo é feito, e afirmar a existência de um milagre perpétuo parece ser um abandono de toda esperança de fazer isso [revelar como algo é feito], sem justificativas que sejam suficientes.

(CP 1.690 [1878])9

A semiótica nasce associada a uma teoria da cognição que foi apresentada por Peirce como uma alternativa às teorias epistemológicas que, ao recorrerem ao conceito de intuição, tornam-se incapazes de fornecer uma explicação aceitável a respeito do funcionamento e da possibilidade do raciocínio sintético. Construir um corpo teórico livre (ou quase livre) do conceito de intuição custou a Peirce algumas dezenas de páginas de paciente análise e minuciosa desconstrução dos posicionamentos epistemológicos dominantes na filosofia moderna, aos quais se referia com a rubrica "cartesianismo" ou "espírito do cartesianismo", e custou-lhe também um esforço descomunal para operar um deslocamento de perspectiva que o permitisse explicar

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todas as faculdades cognoscitivas que as teorias adversárias explicavam e ainda explicar aquilo que, de acordo com sua crítica, os recursos conceituais das teorias adversárias tornavam inexplicável: a possibilidade de síntese10.

De forma bem geral, a semiótica pode ser entendida como um aparato conceitual que tornou possível esse deslocamento de perspectiva. Uma teoria da cognição baseada no conceito de signo (e não no conceito de intuição) é uma teoria que explica a ligação entre (a abstração na mente de) o sujeito cognoscente e o objeto como uma relação sígnica, uma relação de representação, portanto uma relação indireta. Como pretendemos demonstrar nas próximas centenas de páginas, é justamente esta teoria semiótica da cognição (cuja tese central é o equacionamento entre o conceito de pensamento e o conceito de signo) que permite a Peirce encontrar uma solução para o problema do raciocínio sintético. Entretanto, para poder enunciar sua solução para tal problema, Peirce reorganizou as posições das peças do jogo epistemológico redefinindo algumas das funções de cada uma delas. Quase nenhum conceito relevante do campo epistemológico passou incólume a decisão peirceana de se lançar numa cruzada contra as epistemologias de base intuicionista e de se propor a erigir uma teoria sobre base diversa. Dentro deste quadro teórico e em consequência de sua tese central, Peirce precisou propor alterações (às vezes, drásticas e profundas) em conceitos como o de sujeito cognoscente, objeto, verdade, realidade, pensamento, consciência, etc. As consequências do estabelecimento de uma teoria semiótica da cognição são apresentadas nos dois outros artigos que compõem a série cognitiva: "Algumas consequências das quatro incapacidades" ("Some Consequences of Four Incapacities"), publicado em 1868; e "Fundamentos da validade das leis da lógica: outras consequências das quatro incapacidades" ("Grounds of Validity of the Laws of Logic: Further Consequences of Four Incapacities"), publicado em 1869.

Neste terceiro artigo ("Fundamentos da validade das leis da lógica: outras consequências das quatro incapacidades"), Peirce defende uma teoria acerca dos raciocínios ampliativos (o que inclui, para a filosofia peirceana, uma teoria da indução e

10 Esta versão da história do desenvolvimento da semiótica no pensamento peirceano que apresentamos neste capítulo ignora uma espécie de "pré-história" da semiótica (na filosofia antiga e medieval). Na verdade, de acordo com alguns historiadores, a semiótica nasce,de fato, como doutrina dos signos, no pensamento escolástico. Com relação a este período de gestação da doutrina dos signos no ventre do pensamento escolástico, podemos indicar dois livros do semioticista norte-americano John Deely:

“Introdução à semiótica – História e Doutrina” (1995) e “Semiótica básica” (1990). Deely tem realizado

há décadas um admirável esforço para trazer à luz uma época, por ele e por outros (cf. Randall apud

Deely, 1995, p.59), considerada como o “período menos conhecido da história da filosofia ocidental”. Esta “terra incognita” vai de 1350 (ano da morte de Guilherme de Ockham – que representa um dos pontos culminantes da filosofia escolástica [latina] e é um dos últimos pensadores considerados pela historiografia oficial como filosoficamente relevante) até 1650 (ano da morte de Descartes – pensador pós-latino e “pai” da filosofia moderna). São nestas terras que são plantadas, de acordo com as pesquisas

e os levantamentos históricos realizados por Deely, as primeiras sementes de um pensamento propriamente semiótico. Em outros textos (1986, p.5), o semioticista trata este período como aquele que favoreceu um lento processo de coalescência da consciência semiótica embora tenha sido apenas na passagem entre os séculos XIX e XX que Peirce obteve uma visão geral e sistêmica do território da semiótica (em toda a sua extensão e capacidade revolucionária de constituir-se num novo início para toda a empresa da filosofia [1995, p.79 e 1986, p.16]). Não lhe faltaram motivos, como veremos, para

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da hipótese) segundo a qual o raciocínio indutivo pode ter sua validade fundamentada se for observada uma condicionante básica: tal raciocínio deve ser aplicado por um tempo indefinidamente longo por uma comunidade indefinida de pesquisadores. Esta solução oferecida ao que considera ser o problema maior da filosofia, só se torna disponível a partir de duas reformulações conceituais efetuadas no segundo dos artigos da série ("Algumas consequências das quatro incapacidades"). A primeira dessas reformulações conceituais é aquela que torna o sujeito cognoscente uma espécie de sujeito coletivo ao substituir a noção de indivíduo por uma noção de comunidade indefinida de pesquisadores e a segunda delas é a reformulação do conceito de realidade, que passa a ser um ser in futuro, i.e., um ponto de convergência ao qual tendem todas as linhas de investigação levadas a cabo por aquela comunidade indefinida de pesquisadores. Como todas essas teorias estão encaixadas dentro de uma estrutura única de argumentação que tem o objetivo de fornecer uma resposta para o problema dos raciocínios ampliativos ou sintéticos, estas reformulações (do conceito de sujeito cognoscente e de realidade) são consequências diretas da teoria da cognição defendida no primeiro artigo da série ("Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem"). Assim, podemos resumir da seguinte forma esta estrutura única de argumentação por trás dos artigos que compõem a série cognitiva: a teoria peirceana sobre a fundamentação das leis da lógica e, em particular, sua teoria acerca dos raciocínios ampliativos (i.e. sintéticos), apresentadas no terceiro artigo da série, são uma consequência da teoria peirceana da realidade, apresentada no segundo artigo; esta última, por sua vez, é uma consequência da teoria peirceana da cognição, elaborada, principalmente, no primeiro artigo da série (mas que também foi desenvolvida no segundo artigo).

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será mobilizado durante a série cognitiva para fornecer uma resposta ao problema filosófico das sínteses.Ainda que consideremos que o nascimento oficial da semiótica peirceana seja a enunciação da tese central do primeiro artigo da série cognitiva, não se pode deixar de notar que já estava presente em escritos muito anteriores e acabou por tomar forma (praticamente definitiva11) na teoria das categorias o mecanismo sígnico ou representacional pelo qual a semiótica, em geral, e o conceito de signo, em particular, viriam a se tornar ferramentas teóricas indispensáveis para se explicar as faculdades cognoscitivas e, ao mesmo tempo e em última instância, tornar possível a validação do raciocínio ampliativo ou sintético.

Já no ano de 1865, quando é convidado para uma série de palestras em Harvard (W1; 165-301), Peirce, em meio a reflexões sobre Kant, Boole, Mill e também sobre os fundamentos da indução, dedica um considerável espaço para marcar enfaticamente posição contra uma visão psicologista da lógica e propor que a lógica fosse entendida como uma espécie de "ciência das representações em geral" (W1; 169 [1865]). É neste contexto que Peirce toma emprestado o termo "semiótica", cunhado por Locke no "Ensaio sobre o entendimento humano" (obra publicada 1690)12. Nestas palestras, já aparecem as primeiras classificações sígnicas (cf., por exemplo, W1; 237 [1865]) e alguns temas fundamentais para o pensamento peirceano que posteriormente seriam englobados pela semiótica, como a tese a respeito do crescimento dos símbolos (que é o modo como Peirce trata o problema da ampliação de um sistema de conhecimento). Por exemplo, ainda nestas palestras ministradas em Harvard em 1865, Peirce apresenta uma "lógica da informação" justamente para abrigar uma teoria a respeito do crescimento dos símbolos (W1; 272).

No ano seguinte, quando é convidado para uma série de palestras no Lowell Institute, em Boston (W1; 358-504 [1866]), Peirce continua a desenvolver muitas destas ideias e

já começa a se aproximar da definição de signo desenvolvida no “Sobre uma nova lista de categorias” (em 1867). Na sétima destas palestras (outubro-novembro de 1866), pode-se notar que Peirce já utiliza o termo “interpretante” (W1, 465 [1866]) para designar aquele elemento que é resultado de um processo de representação13. Este termo já tinha sido introduzido alguns meses antes, em março de 1866 (W1; 347), numa

11 A estrutura triádica dentro da qual o signo é definido neste artigo e também as funções de cada um de seus elementos seguiram praticamente inalteradas durante todo o desenvolvimento do pensamento de Peirce. Acreditamos que as mudanças que o conceito de signo e também o conceito de representação (que é mobilizado pela definição peirceana signo) sofreram ao longo do tempo não alteraram a essência dessas concepções. Estas mudanças funcionaram como uma evolução direcionada, como um aprofundamento. Para um ótimo histórico da evolução do conceito de representação em Peirce, consultar o artigo de Winfried Nöth (2011b) intitulado "Da representação à Terceiridade e do Representamen ao Medium: a evolução de termos-chave e tópicos-chave peirceanos ("From Representation to Thirdness and Representamen to Medium: Evolution of Peircean Key Terms and Topics").

12 cf. capítulo XXI ("sobre a divisão das ciências") do quarto livro ("sobre conhecimento e probabilidade") do Ensaio de Locke.

13 Nesta palestra, o conceito de interpretante, embora ainda esteja fora da estrutura triádica (na qual será encaixado posteriormente) já é definido com a função de substituição ("surrogate"). Neste contexto, o interpretante é entendido como um segundo termo que se apresenta como equivalente a um primeiro

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anotação sobre as partes que compõem um argumento, embora neste trecho Peirce não ofereça definição do que entende por interpretante. De acordo com um levantamento feito por Max Fisch (texto introdutório do W1,1982, p. xxxiii), se observamos os escritos de Peirce à época, notaremos que ele experimenta, por algum tempo, alguns termos como "sujeito" ("subject") ou "correspondente" ("correspondent") e, ao se aproximar do fim do ano de 1866, quando provavelmente nota que a novidade subjacente ao conceito que pretendia nomear exigia um nome novo, acaba por cunhar o termo "interpretante".

Acreditamos que a história da origem da semiótica dentro pensamento peirceano ou a história de como a semiótica passou a ser central para toda a sua filosofia pode ser contada como uma narrativa a respeito do modo como Peirce, ao longo da década de 1860, vai gradualmente se afastando da matriz kantiana na qual seu pensamento foi (inicialmente) moldado. Esta afirmação acerca deste afastamento pertence a um tema muito debatido entre os estudiosos da obra peirceana, pois há uma corrente de intérpretes que sustentam a tese de que existem "dois Peirces", há uma tensão não-resolvida entre transcendentalismo e naturalismo. A formulação clássica desse problema relativo a esta tensão no pensamento peirceano pode ser encontrada no livro "O empirismo de Charles Peirce" ("Charles Peirce's empiricism") de Justus Buchler (1939) e também no livro "O pensamento de C. S. Peirce" ("The Thought of C. S. Peirce) de Thomas Goudge (1969 [1950]). Não pretendemos entrar neste debate mais amplo por dois motivos: primeiro, porque a intenção desta parte inicial de nossa exposição é simplesmente apresentar o cenário (do pensamento peirceano) para que localizemos nossa tese central; segundo, ainda que quiséssemos, não teríamos "munição" suficiente. Embora o artigo seminal "Sobre uma nova lista de categorias" tenha sido produzido sob uma inegável influência kantiana, nossa tese (com relação a este ponto) é que a teoria peirceana das categorias já não se encaixa dentro dos limites do que geralmente se entende por filosofia kantiana14 não apenas pelo fato das listas de categorias destes dois filósofos serem bastante distintas, mas pelo fato de a própria derivação (peirceana) das categorias já ser fruto de uma concepção semiótica da lógica que inviabiliza um dos principais recursos conceituais utilizados por Kant na "Crítica da Razão Pura": o conceito de intuição. É verdade que alguns termos emprestados da "Crítica da Razão Pura" ainda são empregados na exposição que Peirce fez de sua lista de categorias. Também é verdade que o ponto de partida deste artigo é uma teoria kantiana (aquela, "já estabelecida", segundo a qual a função dos conceitos é reduzir a multiplicidade das impressões dos sentidos à unidade  cf. CP 5.545 [1867]) e também não deixa de ser verdade que a própria formulação do problema a ser resolvido tem um teor kantiano ("como são possíveis as sínteses?"). Entretanto, o artigo "Sobre um nova lista de categorias" pode até ser considerado kantiano na letra, mas já é peirceano no espírito.

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O que pretendemos mostrar com este breve panorama (acompanhado de algumas poucas análises) é que a semiótica peirceana pode ter suas origens esclarecidas quando passamos a elencar os motivos que levaram Peirce a abandonar o projeto kantiano enunciado na Crítica. Nossa tese é que estes motivos são essencialmente lógicos. Estes motivos foram se acumulando graças a descobertas realizadas no único "laboratório" do qual se pode dizer que Peirce trabalhou durante toda sua vida, o campo da lógica. Como se sabe, por trás do sistema de categorias de Kant está um sistema de funções lógicas. Cada categoria pertencente à lista de categorias kantianas é derivada de alguma função lógica pertencente à lista de funções lógicas (do juízo). O progressivo afastamento de Peirce com relação a Kant parece ter sido motivado por descobertas no campo da lógica que resultaram de algumas pesquisas que se estendem do ano de 1864 até 1866. Acreditamos que este afastamento começa quando, em 1864 (cf. MS 477), Peirce descobre o primeiro problema numa das tríades das funções lógicas (mobilizada por Kant para derivar suas categorias) e se prova irreversível quando, já ao final de 1866, publica um artigo sobre silogismo aristotélico15 em que fica claro que sua concepção de lógica não pode ser conciliada com aquela que Kant mobilizou para derivar as categorias. São estas descobertas no campo da lógica que o leva a propor sua própria lista de categorias.

Quando afirmamos que a semiótica nasce da separação do pensamento peirceano da matriz kantiana não significa que Peirce tenha resolvido se exilar em "terras pré-críticas". Não parece haver uma linha nos escritos que nos permita afirmar que o projeto filosófico de Peirce a partir 1867 seja reverter a Revolução Copernicana operada por Kant no campo da epistemologia. Como tal afastamento se dá por conta daquilo que Peirce denominou de "avanços mais recentes nas pesquisas no campo da lógica" (cf. W1, p. 352 [1866]) e é a lógica que está por trás das categorias que permitiram o movimento de inversão copernicana, pode-se afirmar que o conflito (entre o pensamento peirceano e kantiano) que origina a semiótica peirceana ocorre nos bastidores da revolução copernicana da "Crítica da Razão Pura". Não é por outro motivo que, em seu estudo clássico sobre o desenvolvimento do sistema filosófico de Peirce, Murray Murphey denomina o pensamento peirceano de "fenomenalismo semiótico" (1993 [1961], p. 90).

Antes de passarmos ao panorama histórico e filosófico acima anunciado, devemos apresentar de forma esquemática um resumo do desenvolvimento do pensamento peirceano. Como nestes capítulos nosso intuito é reconstruir a estrutura lógica do pensamento peirceano nesta fase de surgimento semiótica, óbvio está que a ordem preconizada neste esquema é uma ordem lógica (e que não precisa coincidir com a ordem cronológica). Outro ponto que deve ser enfatizado (do qual já tratamos no texto introdutório) é que, por opção metodológica, organizamos toda a exposição a ser feita do desenvolvimento do pensamento peirceano a partir do que o próprio Peirce considerou como problema central à filosofia.

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Passos lógicos construção inicial do sistema filosófico peirceano

I) Descobertas no campo da lógica (entre 1864 e 1866) levam ao questionamento das categorias kantianas.

II) Elaboração de uma nova lista de categorias.

III) A terceira categoria proveniente da nova lista de categorias leva ao questionamento de todas as teorias epistemológicas que posicionam a intuição como conceito responsável por explicar as fundações do conhecimento.

IV) O questionamento de todas as teorias epistemológicas que colocam o conceito de intuição naquela "posição fundacional" leva à elaboração de uma nova teoria da cognição.

V) A elaboração de uma teoria da cognição (condizente com a teoria das categorias e alternativa àquelas teorias que recorrem à intuição) leva a uma reformulação do conceito de realidade e o estabelecimento de uma teoria da realidade que é considerada compatível com as descobertas na área da lógica e com a epistemologia de base semiótica (inaugurada por Peirce).

VI) A reformulação do conceito de realidade torna possível a proposição de uma teoria que funciona como uma validação (à prazo) para o raciocínio sintético (ou ampliativo).

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CAPÍTULO 2

Lógica e as raízes da semiótica

Como antecipamos no texto introdutório, o berço da semiótica é aquela disciplina filosófica que passou a ser central na modernidade: a epistemologia. O assunto ao redor do qual gravitam as teorias epistemológicas é a relação (de conhecimento que se supõe haver) entre o sujeito cognoscente e o objeto (a ser conhecido). Não é difícil notar que aquela pergunta que Peirce escolheu como norte para suas investigações filosóficas (cf. CP 5.348 [1868]) pode ser entendida como uma instância da seguinte questão: como é possível ao sujeito cognoscente obter conhecimento acerca do objeto? Esta pode ser entendida como a questão nuclear da epistemologia e, ao redor dela, muitas outras são cabíveis: qual a origem do conhecimento? Qual o fundamento do conhecimento? Qual a natureza do conhecimento (humano)? etc. . A história das respostas que os filósofos encontraram ao longo do séculos para cada uma dessas perguntas (e que estavam implicadas em suas teorias) é rica o suficiente para nos desencorajar em resumi-la em pouquíssimas linhas. Limitaremo-nos a tratar daquele ciclo de debates epistemológicos mais próximo de Peirce e que acabou por influenciá-lo de forma mais direta. O cenário que estava montado no palco quando Peirce entra em cena na segunda metade do século XIX é constituído basicamente pelos notáveis resultados dos esforços da síntese operada por Kant16.

Deve-se recordar que já no nascedouro da modernidade filosófica, a maioria dos debates teóricos no campo da epistemologia passa a se organizar em torno de duas grandes correntes: racionalismo e empirismo. Por um lado, para os racionalistas, a fonte de todo ato de conhecimento é a razão, ou seja, a razão é faculdade humana que deve presidir o ato de conhecimento, pois somente ela pode fornecer um conhecimento seguro das coisas (em contraste com os enganos dos sentidos). Por outro lado, para os empiristas, a fonte de todo ato de conhecimento é a experiência, tudo o que se conhece é, de alguma forma, derivado dos sentidos. A síntese entre essas duas correntes só foi possível a partir de uma espécie de versão epistemológica da revolução copernicana. O

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