• Nenhum resultado encontrado

Radiol Bras vol.42 número6

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Radiol Bras vol.42 número6"

Copied!
2
0
0

Texto

(1)

VII

Radiol Bras. 2009 Nov/Dez;42(6):VII–VIII

Editorial

Alguns preceitos de uma prática, por vezes, parecem tão bem estabelecidos, que deixam de constituir matéria de questionamento. Acabam tornando-se verdadeiros “dog-mas científicos”, o que é de uma contradição em si. Em ciência, os conceitos (que emba-sam preceitos) são cunhados a partir de ideias que exigem sustentação na experimenta-ção científica, sendo reformulados pelo surgimento de novas ideias, novas demandas, tecnologias, ou realidades. Os dogmas, ao contrário, prescindem de comprovação cientí-fica e sustentam-se numa questão de fé.

Na ultrassonografia diagnóstica, um dos preceitos mais arraigados é a necessidade de jejum como condição para garantir a qualidade do estudo do abdome, reduzindo a quantidade de gás no trato gastrintestinal e propiciando a distensão satisfatória da ve-sícula biliar(1)

. O preparo preconizado para a ultrassonografia abdominal, na maior parte dos serviços, inclui instruções de jejum por um período que varia de 4 a 6 horas para crianças(2)

e de 6 até 12 horas para adultos(3)

. Os reais benefícios deste procedimento ra-ramente são questionados, menos ainda, postos à prova.

Desta forma, é extremamente revigorante para o campo da ultrassonografia o artigo de Rabelo et al.(4)

, publicado nesta edição da Radiologia Brasileira, que, por meio da com-paração da qualidade de imagens obtidas na ultrassonografia abdominal de crianças, com e sem jejum prévio, buscam testar o paradigma do preparo abdominal para faixa pediátrica, relativizando, em conclusão, as vantagens advindas desta prática.

Quem realiza ultrassonografia em crianças, certamente, já se deparou com a dificul-dade de conseguir um exame minimamente aceitável, pelo estado de irritabilidificul-dade em que elas se encontram após um período de jejum prolongado. Um colega, radiologista pediátrico, define a criança com fome como “um adversário a se respeitar”... O termo adversário dá a noção exata do embate em que se transforma o exame nessas circunstân-cias, nas quais o vencedor quase nunca é o médico. Assim, frequentemente, vemo-nos obrigados a ceder e negociar, preferindo que a criança se alimente, para que possamos assumir o controle do exame. Ademais, o choro promove maior distensão gasosa que a produzida pela digestão. Experiências cotidianas desse tipo fortalecem a convicção de

0100-3984 © Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem

O jejum como fator de influência

na qualidade da ultrassonografia

de abdome em crianças posto

em questão!

Fasting brought into question as a factor influencing the quality of abdominal ultrasonography in children

Silvia Maria Sucena da Rocha*

(2)

VIII Radiol Bras. 2009 Nov/Dez;42(6):VII–VIII

que, em crianças, o prejuízo à qualidade do exame ultrassonográfico do abdome depende fortemente de outros fatores, que não apenas aqueles sobre os quais o jejum possa exer-cer alguma influência.

Mesmo o estudo da vesícula biliar pode ser mais prejudicado pelo estado de agitação da criança que pela ingestão prévia de alimentos. Na maior parte das vezes, o uso de transdutores de alta frequência possibilita a avaliação diagnóstica. E sempre há a possi-bilidade de reexame, com preparo, nos casos inconclusivos. Sob esse enfoque, o jejum deixa de ser a regra, tornando-se exceção.

Conquanto seja um estudo inicial, sobre as variáveis passíveis de influenciar a qua-lidade dos exames ultrassonográficos em crianças, a grande contribuição do trabalho de Rabelo et al. é a de testar noções correntes na prática da ultrassonografia pediátrica, per-mitindo a revisão legítima de concepções e condutas.

Para finalizar, ressalto o outro ponto, não menos importante, abordado pelos auto-res, referente à necessidade de aprimoramento dos sistemas de avaliação da qualidade das imagens ultrassonográficas, que permitam estudos comparativos interobservado-res mais confiáveis. Questão central e nevrálgica da ultrassonografia, método essencial-mente operador-dependente, da qual, no entanto, não podemos nos esquivar, ainda que constitua um verdadeiro desafio!

REFERÊNCIAS

1. Windler EE, Lempp FL. US of the upper abdomen: factors influencing image quality. Radiology. 1985; 157:513–5.

2. Siegel MJ. Fígado. In: Siegel MJ, editor. Ultra-sonografia pediátrica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2003. p. 189–244.

3. Sinan T, Leven H, Sheikh M. Is fasting a necessary preparation for abdominal ultrasound? BMC Med Imaging. 2003;3:1.

Referências

Documentos relacionados

O tema proposto neste estudo “O exercício da advocacia e o crime de lavagem de dinheiro: responsabilização dos advogados pelo recebimento de honorários advocatícios maculados

There a case in Brazil, in an appeal judged by the 36ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (São Paulo’s Civil Tribunal, 36th Chamber), recognized

The challenges of aging societies and the need to create strong and effective bonds of solidarity between generations lead us to develop an intergenerational

O relatório encontra-se dividido em 4 secções: a introdução, onde são explicitados os objetivos gerais; o corpo de trabalho, que consiste numa descrição sumária das

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no

Pensar a formação continuada como uma das possibilidades de desenvolvimento profissional e pessoal é refletir também sobre a diversidade encontrada diante

Em pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), em 2011 o consumo de artigos infantis movimentou cerca de R$26,2 bilhões, sendo que mais

um dos casos em que se mantiveram determinados turnos que completam 24 (vinte e quatro) horas de trabalho por dia. Essa situação se explica, para nós, por sua