Entrevista com o poeta Adriano Espínola, dia 13/05/93.
Produção: Ricardo
César Pinto, Sílvia Helena e Sônia Vitorino Abertura: Ana Cláudia Peres Redação, edição e
texto final: Ana Cláudia Peres, Gabriela Frota Reinaldo e Lyciane Pires Participação: Adriana
Albuquerque, Ana Cláudia Peres, André Barbosa, Fernando Serpa, Gabriela Frota Reinaldo, Henrique Rocha, Kalu Chaves, Lídia Marôpo, Lyciane Pires, Michelline Feitosa, Ricardo César Pinto e Sílvia Helena Foto:
j L d r ia n o A lc id e s E s p ín o la b e m p o d e r ia re c e b e r / 7 a a l c u n h a d e p o e ta d io n is ía c o . O p e rfil, e le
f f m e s m o tr a ç a : tr á g ic o , a p a ix o n a d o e lo u c o p e lo v in h o . D a q u e le p r im e ir o c o n c u r s o d e p o e s ia in te r c o - le g ia l - 2 5 a n o s a tr á s - a té h o je , n ã o p a r o u d e f a z e r v e rs o s . S ã o c in c o liv ro s e m d if e r e n te s fo rm a s . O m e r g u lh o n a p o e s ia é q u e é o m e sm o . F a la d e f a v e la , a m o r e E r o s c o m o m e s m o fô le g o . U m fô le g o d e q u e m s a b e “ o u tr a r ” . P o r q u e , n a s u a d e f in iç ã o , “ o u tr a g e m é f in g im e n to , é te r c a p a c id a d e d e in tu ir ; é f ú n d a m e n - ta l p a r a q u e m t e m a p r e te n s ã o d e s e r p o e ta ” .
E le te m . N u m p a s s e io d e tá x i c o m a m u lh e r , p r o v a q u e é c a p a z . D a B e z e r r a d e M e n e z e s a té o ú ltim o m o te l d a P r a ia d o F u tu r o , A d r ia n o c o n d u z o le ito r p o r u m a v ia g e m d e q u a s e c e m p á g in a s . E o s e d u z a o r e t r a t a r a r e a lid a d e n a s r u a s d e F o r t a l e z a e a o d e s l i z a r p e lo e r ó tic o n a s p e r n a s d e M o e m a . “ T á x i o u P o e m a d o A m o r P a s s a g e ir o ” é se u q u a r to liv ro. T r a d u z i d o p a r a o In g lê s , foi p u b lic a d o s i m u lta n e a m e n te e m N o v a I o r q u e e L o n d r e s e e s tu d a d o n a s u n iv e r s id a d e s d a F ló r id a e R io d e J a n e ir o . M a s só a g o r a o C e a r á o a p la u d e .
0 “ T á x i ” d o b r o u a e s q u i n a e c o r r e u m u n d o . D e u - l h e in s p ir a ç ã o p a r a e s c r e v e r “ M e tr o ” . A o s 41 a n o s ,
F a la n te e ex p re ssivo , to d a s a s p a la v r a s q u e p ro fe re s e estendem a o co rp o m m ia p ro fu s ã o g estua l. S u a s m ã o s d iz e m m uito.
j á m o r o u n o s e s ta d o s U n id o s e n a F r a n ç a . É u m “ lob o u r b a n o ” . A d o r o u o v i n h o f r a n c ê s , m a s n ã o fo i o s u f ic ie n te p a r a e m b r ia g á - lo p o r m u ito te m p o . “ Q u is v o l t a r à a l e g r i a , a o s o l” . F o r ta le z a , t e r r a n a ta l, v iu o m e n in o v i r a r h o m e m . E h o m e m s e a p a ix o n a . M o e m a - “ a s í n t e s e p e r f e ita d e m e u p o e m a ” - e le c o n h e c e u p o r a c a so . E m p r e s t o u - l h e u m liv r o c q u a n d o foi p e g a r d e v o lta , fic o u a t é h o je . “ F o i o F e r n a n d o P e s s o a o c u lp a d o d a h i s t ó r i a ” .
A lé m d e F e r n a n d o P e s s o a , M a c h a d o d e A ss is , D o s to ié v s k i e o ti o M o r e ir a C a m p o s f o r a m o s g r a n d e s r e s p o n s á v e is p e l a c o n s tr u ç ã o d o p o e ta . P o e ta d e c a r n e e o ss o , q u e d á a u la s n a f a c u ld a d e d e L e tr a s , e s tu d a p a r a c o n c l u i r o d o u to r a d o n o R io s o b r c “ 0 C o r p o e s a a r e p r e s e n ta ç ã o n a L i t e r a t u r a B r a s i l e i r a ” e e sc re v e c r ó n ic a s p a r a o j o r n a l O P o v o . A f in a i, “jo r n a l i s m o e li t e r a t u r a s ã o p r im o s c a r n a i s ” , p r in c i p a l m e n t e p a r a q u e m s e m p r e d iv id iu o t e m p o e n t r e o s c o n s e lh o s d o “ tio J o s é M a r i a ” e a r e d a ç ã o d e u m j o r n a l - o ir m ã o R o d o lf o E s p í n o l a é c o r r e s p o n d e n t e d ’0 E s ta d o d e S ã o P a u lo e m F o r ta le z a e , q u a n d o o i r m ã o v ia ja v a , o p o e ta f a z ia à s v e z e s d e j o r n a l i s t a .
“ O m e u b a r a to m e s m o e r a a p o e s ia ” . E n tã o , b a s ta v a m v i n h o e m u s a . O “ p ó s - m o d e r n o ” , c o m o foi c h a m a d o , é u m p o u c o d e m a i s p a r a q u e m n u n c a p r e te n d e u “ u l t r a p a s s a r a m o d e r n i d a d e ” . M e s m o a s s im , o r ó tu lo d á c h a r m e . M a s A d r i a n o q u e r m e s m o é s e r p o e ta d e se u te m p o . E m b o r a p r e g a n d o a lg u n s s u sto s n o s e s tu d a n te s d e C o m u n ic a ç ã o , n e s ta e n tr e v is ta d e d u a s h o ra s:
- E u so u lo u c o p a r a l a r g a r a p o e s ia . - P o r q u e ?
- P o r q u e s o u p o e ta lú c id o e a p o e s ia é u m a c o is a d e lo u c o . S e e u n ã o tiv e s s e u m a c o m p a n h e i r a c o m o a M o e m a , e u r e a lm e n te n ã o se i c o m o p a s s a r ia o s d ia s q u a n d o e s to u e m c r is e p o é tic a .
C o m d ir e ito a d e c la r a ç ã o c tu d o , A d r ia n o so lto u o s v e r s o s d u r a n t e t o d a a e n tr e v is ta . F a lo u d a a n g ú s tia d e u m p o e m a in a c a b a d o , d o s p r o je to s fu tu ro s e d e ix o u to d o m u n d o a liv ia d o :
A d r ia n o E s p ín o la
E n tre v istaAdriano chegou para a entrevista com mela hora de atraso. Antes teve que escrever, em casa, uma crítica ao livro de Alcides Pinto.
Moema, musa e m u lher do poeta, partici pou a tiv a m e n te da conversa, fazendo as vezes de secretaria ou oportunos com entári os.
Adriano nasceu em Fortaleza, no dia 1o de março de 1952. É o quarto filho do jorna lista e escritor Hilde-brando Espínola.
L a b o r a tó r io d e J o r n a l i s m o (L J ) -
P e lo s te u s e s c r ito s, p e l a tu a v id a, a g e n t e n o ta q u e h á u m a c o n v iv ê n c ia b e m h a r m ó n ic a , b em a p a ix o n a d a e n tr e a p o e s i a e o v in h o . E s s e c a s a m e n to é d u r a d o u r o o u e x is te a lg u m a p o s s ib ilid a d e d e s e p a r a ç ã o ? A d r i a n o E s p ín o la ( A E ) - (R iso s) E u a ch o q ue é duradouro. E u m e c o n sid e r o u m poeta d io n isía c o , e c o m o tal n e c e ssito d o v in h o , da e m b r ia g u e z , m a s a em b ria g u ez no b o m se n tid o . A em b ria g u ez d o d e lírio , do so n h o , da im a g in a ç ã o a m il para p od er n ã o s ó escrever, m a s falar ta m b ém , v iv er en fim . A q u e s tão d o v in h o é um a q u estã o que m e m o tiv o u m u ito porque eu m orei do is a n o s na F ran ça, e lá o v in h o b o m é b o m e barato. E lá foi um m o m e n to m u ito im portan te para m im d ev id o a so lid ã o e m que eu m e encontrava e o v in h o fo i um g ra n d e c o m p a n h ei ro. A outra g ra n d e co m p a nh eira e q u e m e dá ta m b ém e s sa se n sa ç ã o d e e m b r ia g u e z é m in h a própria m ulh er , que é o v in h o d o co tid ia n o.
L J - N ã o tr o u x e o v in h o m a s tr o u x e s u a m u lh e r (A d r ia n o tin h a p r o m e tid o tr a z e r v in h o p a r a a e n tr e v is ta).
A E - T r o ux e m in h a m ulh er, o que v a i dar n o m e sm o (riso s).
“A m in h a id é ia é
a c o m p a n h a r co m o
e s se c o rp o é c o b e rto
e d e s c o b e rto e
ta m b é m co m o ele é
v e s tid o n a
im a g in a ç ã o d o s
p o e ta s ”
L J - A d r ia n o , v o c ê e s tá p r e p a r a n d o u m p r o je to d e d o u to r a d o e n titu -la d o “O C o r p o e S u a R e p r e s e n ta ç ã o n a L ite r a tu r a B r a s ile ir a P o d e r ia f a l a r u m p o u c o s o b r e e le ? A E - E s sa s id é ia s a in da estã o bro tando, naturalm ente, se m m uita fun d a m e n ta ç ã o . M a s , b a s e a d o n a s m in h a s o b se r v a ç õ e s, n a s m in h a s leitur as, n a s m in h a s in tu iç õ e s ta m b é m . E e v id e n tem en te que c o m o do utora d o eu v o u b u sc ar apro fun dar e s s a s id é ia s. O m estra d o e u fiz so b re “O C orp o e a su a T ra nsg res sã o na P ó s-m o d e m id a d e ” . E m e
im a g in ei ag ora in v e stig a n d o a v i sã o d o corpo n ã o a p en a s na co n te m - po ran cida dc, m a s a o lo n g o d e toda Literatura B r a sileira , o u se ja , da própria cultura brasileira cm su a form ação. E n tã o, eu m e e m p o lg u e i m uito v en d o o s tex to s d os p rim ei ros via ja ntes e d o s je su íta s, e so b r e tudo d os via ja ntes. Para e le s a v isã o do B rasil in ic ia lm en te era a q u ela v isã o p a ra d isía ca - a v isã o d o para íso que falava o S é r g io B u a rq ue d e H ola nd a - m a s centrada sob retud o, m e pa rece, n o co rpo da in diada nua. E n tã o, a m in h a id éia é aco m p a nh a r co m o e s s e corpo é cob erto e d e sc o berto. E e ssa c o isa d e c o lo c a r a roupa e tirar a roupa, d c d e sp ir o corpo nu, e ta m b ém c o m o e le é v estid o na im a g in a ç ã o d o s po eta s. E eu ten ho tam b ém um a su sp eita que a lin g u a g e m a co m p a n h a e ssa retórica do corpo. E n tã o, e s s e ato de v estir o corpo e d e sp i-lo tem a ver co m a lin g u a g em , c o m o s vá rios e s tilo s que estã o na literatura b ra si leira - d esd e o barroco até o s n o sso s d ia s. A lé m do la n ce da lin g u a g e m , eu quero observar a rela çã o da v i sã o d o corpo co m a própria v is ã o da so c ie d a d e da é p o c a , n um a p erspe c- tiva m a is so c io ló g ic a .
“P o e sia é d em a is
p a ra u m a c a b e ç a
c o m o a m in h a . E u
v ejo co m o um
p ro fu n d o m e rg u lh o
E sse m e rg u lh o é
m u ito a n g u s tia n te ”
até recordan do n u m a p alestra que h o u v e sob re o H o r á cio D íd im o - há 2 5 a n o s atrás, e m 1 9 6 8 , eu pa rtici p ei d e um co n cu rso in te rc o le g ia l de p o e sia . F ui c la ssific a d o , n a s m i n h a s p rim eiras ten ta tiv a s, e m e fa s c in o u m uito. C o m e c e i a ler o H orá c io D íd im o . E n tã o, a c h o que c o n traí para se m p re a o la d o d o vin ho o v írus da p o e sia . E u tô la sc a d o , vou m orrer a ssim . Já en ten di que a p o e sia é in se p a rá v e l da m in h a m a n e i ra d e ser. E a té p ro fissio n a lm cn te e s to u p ro fu n da m en te lig a d o à ela. A g o r a , e u so u lo u c o para largá-la. F ic o fa ze n d o outras c o is a s , queren do e s q u e c ê -la , m a s d e v e z e m quan d o e la v o lta , v o lta c o m força...
L J - P o r q u e v o c ê q u e r la r g á -la ? A E - P o rq ue eu so u u m poeta lú c i d o , e eu se i q ue a p o e sia é u m a co isa d e lo u co . P or d uas razõ es: um a po rq ue n ã o s e p o d e v iv er in te n sa m e n te co m a p o e sia to do s o s dia s. E u sin to a p o e sia d e um a tal in ten sid a d e q ue nã o dá para v o c ê curti- la to d o s o s d ia s po rq ue seria uma lo u cu ra . C o m o d iria o G la u b er R och a: “ P o e sia e p o lític a é d em a is para um a s ó c a b e ç a ” . E u diria ta m b é m , p o e sia é d e m a is para um a ca b eç a co m o a m in h a . E u ve jo co m o um profun do m er g u lh o , sem pre. N ã o sei s e v o c ê s lera m m e u livro “T á x i” , por e x e m p lo , e s s e a sp ec to d io n isía c o , e s s e m er g u lh o que eu fa ç o , m u ita s v e z e s é m u ito a n g u s tiante. É ex trem a m en te en v o lv e n te e q ue m e traz m u ita s v e z e s prejuízo na vid a prática. S e e u n ã o tiv e sse um a co m p a n h eira c o m o a M o e m a , e u re a lm en te n ã o sei corno é que eu p a ssa ria o s d ia s q uan do .eu esto u co m e s sa cr ise p o ética .
L J - D e o n d e v em a p a ix ã o p e l a lite r a tu r a , m a is e s p e c ific a m e n te p e l a p o e s ia ?
A E - E u não sei resp ond er ex a ta m ente. E u tiv e um a fo rm a çã o in te lectual dentro de casa. M e u pa i, um pro fesso r de s o c io lo g ia e jo rn a lista ta m bém . Lá em ca sa tinh a um a b ib lio te ca m uito v a sta, um a b ib lio teca b org ean a, que a g e n te s e perdia nela. D e sd e ce d o eu m e lem b ro de estar ce rcado por livros. M a s , m i nha p a ix ã o n unca foi a s c iê n c ia s so c ia is, nã o - o v elh o queria q ue eu fo sse so c ió lo g o . O m eu barato m e s m o era a p o e sia . N ã o se i s e lig a d o à m inha so lid ã o d e garotão. O fato é que eu sem p re se n ti m a is h a b ilid a de p ela p o esia . O n te m , eu esta v a
“ E u n ã o sei bem
d iz e r q u al a razão
e x iste n c ia l, p o rq u e
e u e sc re v o . E u sei
q u e q u a n d o eu
e sc re v o é u m a
e n tre g a to ta l”
L J - A o m e s m o te m p o , n ã o e x is te u m a c a ta r s e q u a n d o s e f a z p o e s ia ?
A E - S im , sim . Isso tem a ver co m to d o s o s m e u s v a z io s, co m todas as m in h a s a n g ú stia s, to da s a s m in h a s
p erp le x id a d es, as m in h a s a n g ú s ti as e x iste n c ia is. E um a c o isa a in da m e io m iste r io sa q ue eu n ã o s e i d i zer d e o n d e v e m ex a ta m en te ... O fato é que eu te n h o v iv id o a p o e sia m u ito in te n sa m e n te n e s s e s ú ltim o s a n o s, d e m a neira a té p r o fissio n a l. M a s , su b sta n c ia lm e n te c o m o p o e ta sim . N ã o ten h o pa ra d o d e e sc r e ver, m as ten h o d ad o tem p o a p o e sia . P orq ue cada m e r g u lh o para m im é u m m er g u lh o m u ito im por tante. E u nã o fa ço u m p o em a iso la - d a m c n te. É se m p r e u m g r a n d e m er g u lh o . A p o e sia para m im é lig a d a à um a c o is a c h a m a d a p a i xão. E toda p a ix ã o é aq u e la febre, aq u e le e n tu sia sm o , a q u e la e m p o l- g a ç ã o , a q u e le m er g u lh o , q ue n ã o dá para v o c ê , n o d ia -a -d ia , ter to do dia is s o daí. A q u ilo que eu fa lei d o poeta A lc id e s P in to , o inferno a c e s o na a lm a (A d ria n o acabara d e escr ev er u m a rtig o n o Jornal “ O P o v o ” so b re J o sé A lc id e s P in to , um poeta ce a re n se). N ã o dá para v o c ê to do d ia ac e n d er e s s e inferno na alm a! V o c ê tem que trabalhar, v o c ê tem q u e ir a o s b a n c o s, v o c ê tem q ue fa zer o s p a g a m e n to s, v o c ê tem q ue olh a r o s p ro b lem a s d o s filh o s, p ro b lem a da m ulh er. S ob re tudo h oje, n o B r a sil, c o m to da s a s d ific u ld a d e s que n ó s tem o s. E u , c la s s e m é d ia , p ro fesso r , co m to d o s o s p ro b lem as q ue a d v é m daí. E u nã o s e i b e m d izer qual a razão e x iste n c ia l, por que e u escr ev o ? E u se i que q ua n do eu e sc r e v o , m er g u lh o m e sm o , é c o m m uita garra, c o m m uita força. É u m a en trega total.
“ E u n ã o sei b em
d iz e r q u al a raz ã o
e x iste n c ia l, p o rq u e
eu e sc re v o . E u sei
q u e q u a n d o eu
e sc re v o é u m a
e n tre g a to ta l”
L J - V o c ê d is s e q u e a p o e s i a é u m a p a ix ã o q u e lh e c o n s o m e . Q u a n d o c r ia n ç a e a d o le s c e n te , d e ix a v a d e b r in c a r e n a m o r a r p a r a le r e f a z e r p o e s ia ?
A E- N ã o . E u fui sem p re um m e n i n o m u ito so lto . M e u p a i, o v e lh o H id elbr an d o E sp ín o la , sem p re m e d eu m uita liberda de. S em p re v iv i
m u ito in te n sam en te m inh a ju v e n tude. M a s, é cla ro, que e u tinha g ra n d es m o m e n to s de so lid ã o . E u ten tei a té fazer a n á lise n o a n o p a s sa d o para tentar descobrir e s s e s m e u s v a z io s...
“E u c o n v e rsa v a
m u ito co m o
M o re irin h a . E le é
c a sa d o co m a m in h a
tia. D esd e m e n in o ,
e u c o n v iv o co m o tio
M o re ira C a m p o s”
L J - A P o e s ia e s tá lig a d a à s o li d ã o ?
A E - E xa tam ente. E co m o v a zio , sob retud o. A p o esia é a ten tativa d c dar um se n tid o à e x istê n c ia , à vid a, à s c o isa s. E ssa tentativa d e dar se n tid o tem haver - eu tiv e um a ex p er iên cia m uito forte quanto a iss o - c o m e s s e v a zio interior, e x is ten cia l, q ue m uita s v e z e s é m uito duro. E u já tive várias c r ise s, e para m im , n e ssa s c r ise s, o que apareceu foi o absurdo: ver de frente o ab sur do da vida. E quando v o c ê tem c o n sc iê n c ia d o a b su r d o ... E a í vem n o v a m e n te a id e ia d io n isía ca , por que o d io n isía c o é trágico. O q ue é se r trágico? É encarar d e frente o ab su rd o da vida. O absurdo de ter n a sc id o e o absurdo de m orrer. E ssa ex p er iên cia d o absurdo a ch o a b so lutam en te fundam ental para quem quer realm en te m ergulha r n o se n ti d o trá gico da ex istê n c ia da arte. M e u s grandes autores, que m e in fluenciaram , sã o au tores trág ico s. D e s d e o s trág icos g r e g o s até m a is r e c e n te m e n te F e r n a n d o P e ss o a . M a s se m faltar M a ch a d o d e A ssis. Encarar a vid a tra g ica m ente é a m aneira d e encarar co m m a is s o l tura, co m m a is ironia e hum or a própria vida. N u n c a encarar a s c o i sa s d em a sia d a m e n te a sério. T udo tem um a frag ilida de tã o grande, um a efe m erid a d e, um a transitorie- d a d e tá o grande! A própria b e le z a é um co n ce ito perecív el, efêm ero, né? E n tã o, o trág ico é isso : é v o c ê sab er que o curso do tem po tem e s se m o v im e n to ondular de a sc e n sã o e qu ed a, d e destruição e co nstru ção p erm an en te d as c o isa s. A m inha p o e sia s e en ca m in ha por aí.
L J - Q u a is a s o u tr a s in flu ê n c ia s lite r á r ia s q u e v o c ê s o fr e u ? A E - D o s to ié v s k i, o s g r e g o s... O v elh o n ã o tinh a m u ito s liv ro s de literatura. U m a d a s m in h a s b rig a s co m e le até ho je , sa b e ? E le a ch a que literatura é p erfu m a ria , p o e sia s o bretudo. A g e n te fica b rig a n d o e brin cando por is so . O utra in flu ê n cia que eu tiv e, eu fui lig a d o por la ç o s d e p a ren tesco c o m o M oreira C a m p o s, e s sa figura extraordinária que v o c ê s in c lu siv e já en tre v ista ram aqui. E o M oreira é to do d e d i ca d o â literatura. O pa pai é um in telectua l, co n ta co m um a b ib lio te ca d e c iê n c ia s h u m a n a s... E le tinh a um a b ib lio te ca fantástica . E u a ch o que é um a d a s m a io re s b ib lio te c a s particulares aqui d o C eará. E u c o n v ersav a m u ito co m o M o reirin ha. T iv e e s sa so rte d e co n v er sa r c o m e le , m in h a s p rim eiras in d a g a ç õ e s, d ú v id a s, in q u ie ta ç õ e s, n é? E le é c a sa d o co m a m in h a tia. D e s d e m en in o , e u c o n v iv o c o m o tio M o reira C a m p o s, n em tioM oreira C a m pos. M oreira C a m p o s é d e guerra. E u ch a m o e le d e tio J o sé M aria. E ssa figura d o c e q ue v o c ê s c o n h e ce m , e ta m b ém um h o m e m extraor dina ria m en te lú c id o , e q ue m e d eu grandes liç õ e s . E u c o n fe sso que m eu a m a d u re cim en to c o m o escr ito r se d ev e em g ra n d e parte à s liç õ e s que p u d e aprender co m o M oreira C a m pos.
“N ão h á lei n em rei
q u e m e a fro n te / M e u
p o e m a é lib e rd a d e /
M in h a casa, u m a
p o n te / N ão h á lei
n em rei q u e m e
a m e d ro n te ”
L J- C o m o v o c ê d e fin ir ia s u a o b r a ? A E - A d e fin iç ã o d e ssa m in h a obra a ch o a in da m uito d ifíc il, tem erária. E u escrev i 5 livros. O p rim eiro fo i o “F a la F a v e la ” , tud o b e m , um liv ro sé rio , de d en ú n cia s o c ia l, q ue eu escr ev i em 1 9 8 1 . F oi le v a d o p e lo Jo sé C a rlo s M a g n o para o teatro. F oi m uito b e m re ce b id o p ela crítica. H o u v e b a sta n te r e ce p tiv id a d e p e lo p úb lic o. F o i um p o em a sé rio . A li, eu n ã o brin quei rea lm en te. A h! Taí o “ F ala F a v e la ” (M o e m a en trega o
“ Preguiçoso e para-dão” , d íz q u e o ó c io é estimulante. Mas es crevendo transforma-se. Seus poemas es tão sempre em movi mento.
Dia nove de julho, Adriano pôs no mer cado o livro “ Metro”. O lançamento foi re gado a vinho, teatro e a participação do co ral da UFC
Quando criança, Adri ano era muito danado e irrequieto. Recebia com o castigo pelas traquinagens, escre ver uma dissertação.
Adriano Espínola é adepto dos princípios do Anarquismo. Mas isso na arte. Na políti ca, ele d efend e a Soci al Democracia.
A poesia de Adriano transpõe fronteiras de tempo e espaço. O pin tor Van Gogh convive em perfeita harmonia com Mathias Beck.
A d r ia n o E s p ín o la
E n tre v istaliv ro a ele). E u só ten ho e s s e e x e m plar. R ar id a d e, tá to d o s e acabando. C o m e ç o d iz e n d o a ssim : “ M inh a c id a d e é m eu p a ís / M e u p o v o , m eu p o e m a q ue e sc r e v o por o n d e p is o / F ortaleza é m in h a p á tr ia /A q u i fun dei a rep ú b lica d e m e u s v er so s num a c a lç a d a / M e u ca n to e u fo ijei co m o a ç o da dor g e r a l/E sp a d a n o m e io da praça / M in h a le i, q uem tocar n essa c id a d e p a ssa rá p e lo c u m e d e m i n h a s p a la v r a s/ N ã o há le i n em rei q u e m e a fro n te/ M e u p o em a é lib er d a d e /M in h a c a s a , u m a p o n te /N ã o h á rei n em le i que m e a m ed ro n te/ M e u cartório é o v e n to / M in h a e s critura é d efro n te / N ã o há le i n em rei q u e m e a fr o n te /M in h a g le b a é o h o m e m / E a hora m in h a fo nte/ N ã o h á le i n em rei que m e a m ed ro n te / T r a g o um m a nd a to d o tem po e a dor n o h o riz o n te” . E um p o em a que eu fiz c o m a dor n o ho rizo nte, a dor da fa v e la J o sé B a s to s q ue fo i d esp eja d a e tal.
“C o m o m ila g re d a
im a g in a ç ã o p o é tic a
c o n s e g u i e x p re ss a r a
d o r e a a n g ú s tia
d a q u e la s p e s so a s q u e
v iv e ra m aq u e le
m o m e n to te rrív e l”
L J - V o cê e s te v e lá ? C o n v e r s o u c o m a lg u é m ?
A E - E s tiv e lá um a vez. N ã o a c o m p a n h e i, n ã o tiv e u m a m ilitâ n c ia p o lític a n em nada. A c h o que o p o eta n ã o p recisa d isso . P re cisa ter um a c o n sc iê n c ia alerta para a pro b le m á tic a da su a ép o ca . A o que c o n sta , p or e x e m p lo , o C astro A l v e s n ã o a n do u em n en hu m n a v io neg reiro, n em le v o u chib ata da n a s c o sta s para se ntir c o m o o escr av o n eg ro sentiria. N a verdad e, eu p en s e i e m e scr ev er uns três p o em a s so m en te . Q u a n d o e u escr ev i três p o e m a s, se n ti q ue p oderia d izer a in da m a is. U m p o em a c o m e ç o u a p uxa r o outro e , d e repente, a cab ei e sc r e v e n d o 2 9 p o em a s e co m p o nd o um a e s p é c ie d e narrativa o n d e e n traram v á rio s p erso n a g e n s, há d iá lo g o s d e v á rio s com p a nh eiros. V ou abrir a q u i u m cham ado: “C e n a -1 ” o u “P o em a V ertebral para F ra n cis c o G o n ç a lv e s” - F ra n cisco G o n ç a l v e s foi um cara q ue lev o u um tiro
n as c o sta s c fic o u paralítico: “ A ba la dentro d o co r p o / E is m inh a c a s a / U m a b a la lo tea n d o a e s p in h a / E is m eu e s p a ç o ” . O utra gran de a le gria m in h a foi quan do foi d ram ati za d o p e lo J o sé C a rlo s M a g n o . V e io o líder da fav ela a ssistir. E le d is s e a ssim : “P ux a, é c o m o s e v o c ê e s ti v e s s e lá ” . E u a ch ei q ue foi o m a io r e lo g io q ue eu recebi. É ex a ta m en te o la n ce da verdade, da v e r o ssim i- lha nça . E le co n sta to u para m im , até d c m a neira m u ito direta - porque c ie foi um d o s líd er es d o m o v im e n to -, c o m o co m o m ila g re da im a g i n a çã o p o étic a co n se g u i ex p re ssa r a dor, a e m o ç ã o e a a n g ú stia d a q u ela s p e sso a s que v iv eram a q u e le m o m en to terrível. E u m e se n ti m u ito g ratificado por isso .
“A tra v és d a
in tu içã o , o p o e ta
sen te c o m o ele
se n tiria sen d o o u tro .
A c h o isso
fu n d am e n ta l p ara
to d a p e s so a q u e
q u e ira se r p o e ta ”
L J - E s s e é u m d o m d o p o e ta , f a l a r s o b r e o q u e e le n ã o v iv e n c io u ? A E - E xato. T o d o g ra n d e po eta , m o d é stia à parte, m o b iliz a sím b o los e, sob retud o, su a ca p a cid a d e in tu itiv a . In tu ir é outrar. E s s a outragem é a b so lu ta m en te fu n d a m en tal para to do escritor, so b re tu do para tod o poeta. O que é que seria is so ? Q u em fez m a g n ific a - m en te bem is s o daí foi o F ernando P e s s o a , c o m o f in g im e n t o . A outragem é o fin g im e n to , é se r o u tro. Já R im b a u d d izia , n o sé c u lo passad o: “E u so u outro” . E le já tinh a p erceb id o e s s e fato d e q ue o h o m em na m od ern id a d e nã o abriga s ó um a perso na lida d e. E , c o m a su a im a g in a çã o , co m a su a in tu iç ã o , é ca p a z d e outrar. E ssa ca p a cid a d e de outrar é a ca p a cid a d e d e ser um outro e o outro ser ca p a z d e se iden tificar co m a q u ilo q ue foi e x p resso n o p o em a , n o co n to o u no rom ance. S e nã o fo sse a ssim , não hav ia c o m o e x istir a própria cria çã o literária que é um a grande outragem . E sto u m e lem b ran do o c a so d o C h i- c o B uarque. É um cara in crível,
c o m o e le é c a p a z d e outrar na alm a fem in in a ! E d iz e m que e le foi, na outra e x is tê n c ia , um a m ulh er, para se n tir d e m a ne ira tão profunda o q ue um a m u lh er se n te, se n d o ele u m h o m e m . É a outrag em . A tra vés d a in tu iç ã o é q ue um poeta sente p ro fú n da m en te c o m o e le sentiria se n d o outro. A c h o is s o a b so lu ta m e n te fun da m en tal para toda p e s so a q ue queira, que tenha preten sã o d e ser po eta . S e nã o tiver ca p a c id a d e d e o u tra g em , pára aí.
“E u , o ré u fu n d a d o r
d o c in ism o n a p o e sia
b ra s ile ir a / E se n ão
fo r m e lh o r a in d a /
E u , c o rru p tív e l
tra id o r d e to d a s as
c a u s a s ...”
L J - M a s c o m o v o c ê d e fin ir ia s u a o b r a ?
A E - D e p o is d o “F a la F a v e la ”, eu fa ç o um a obra inteira m en te d ife rente que é o “ L o te C la n d e stin o ” (M o e m a e n tre g a o liv r o ). A q u i (“ F a la F a v e la ”), nã o sei s e v o c ê s no taram , tem um a certa estrutura m e ló d ic a , a té a rim a , a m étrica. A q u i (“ L o te C la n d e stin o ”), sã o p o e m a s to ta lm e n te so lto s e v io le n tos: “ V a m o s n ó s/E u e tu a so c o s aca b a r co m o lir ism o /V a m o s n ó s a p o n ta p é s chutar o traseiro d e todas a s m etá fo r a s/ N ã o há nada que su bstitu a n o sso braço e astú cia na hora do p e g a ” E s s e p o em a que eu abri, por a c a s o , c h a m a -se “ M inha G ía v a ta C o lo rid a ” , C h ap in ha de C er v eja, C arn ava l na M ar qu ês de S a pu ca í e etc. E s s e p o em a foi im portante po rq ue m e d eu o pique para e sc r e v e r e x a ta m c n te o “T á x i” . N e s s e p o e m a , d efen d o o c in is m o q ue in v e n te i:” E u , o réu fundador do c in is m o na p o e sia b ra sileira / E s e n ã o for m elh o r a in d a / E u, cor rup tível traidor d e to da s a s c a u sa s/ E u , se du to r d o s p o e ta s m en or es e a b a n d o n a d o s/ E u , d em issio n á rio d as c o n v ic ç õ e s m a is elem en ta r es/ N ã o m e m er ece sa b er d e vid a que n ã o se ja da c id a d e ” . É lotalm ente d iferente d o F a la F a v ela. D ep o is d e s s e m er g u lh o n o urbano v io le n to, sa io c o m um troço totalm ente diferente. S a io c o m um terceiro li vro ch a m a d o T rapézio. M inh a se
cretária aí (p e d in d o -o à M o e m a ). M e u terceiro liv ro é u m liv ro de h a ic a is . T o d o v o lta d o para a na tu reza. B e líssim a m e n te ilustrado p elo G erald o J e su ín o ( p ro fesso r do cu r so d e C o m u n ic a ç ã o da U F C ): “ Sui - c íd io / S o l n o h o riz o n te/ O dia c o m a su a a g o n ia / D e sp e ja d a p o n te” . I la ic a is sã o p o e m a s ja p o n e se s d e 3 ve r so s, o prim eiro c o m 5 síla b a s, o se g u n d o 7 e o terceiro v e r so 5 s íla b a s. “ F o lh a s, v e n ta n ia s/ C aju s d esp en ca m n u s/ A p o d re ce m o d ia ” . E u q uis abrir u m a clareira na c id a d e, na h istó r ia , para respirar um p o u c o a p o e sia e, a o m e s m o tem po, o e x e r c íc io d e um p o em a sin té tic o , so m e n te d e 3 v er so s.
“ S e m p re fui lig ad o
às e s q u in a s , às ru as,
às a v e n id a s. S em p re
tiv e u m m o v im e n to
u rb an o . A c h o q u e
c o n se g u i isso co m o
‘T á x i’ ”
L J - T an to o “ F ala F a v ela ” co m o o “ T á x i” dã o ê n fa se à tem á tica urbana. C o m o é que é su a rela ção c o m o urbano? V o c ê d is s e um a v ez que q uan do e sta v a na F ra nça d e s co briu su a n o rd estin id a d e. C o m o é que ap a recem a s ra íze s n o rd estin a s na su a p o esia ?
A E - A q u i (“T r a p é zio ”) foi um a parada estr a té g ic a . F iz um ex e r c í c io do p o em a p eq u e n o para botar ago ra um p o e m a é p ic o , q u e foi ex a ta m en te o “T á x i” - e s s e p oem a lo n g o se m n en hu m a interrupção. E que é e s sa v ia g e m por dentro da cid a d e d e F o rta leza , d e sd e a B e ze r ra d e M e n e z e s , d en tr o d e um “T á x i” , a té o ú ltim o m o te l da Praia d o F uturo, a tra v e ssa n d o a cida de. E ssa c o isa da cid a d e m e in tere ssa po rq ue co m o um é p ic o e u tam b ém co n sid er o um a e s p é c ie de o d issé ia urbana. E um a v ia g e m ce rcada d e p erig o s em ca da es q u in a , d e a v e n turas. A s s im c o m o fe z U lis s e s , o p e r so n a g e m d e H o m er o - outro p oem a para m im fundam ental. E ssa c o isa da v ia g e m e d o re to m o . E u m e c o n sid er o um a n im a l urbano. E u n ã o p o sso escr ev er so b re o ser tão, m e faltaria v iv ê n c ia , a u te n tic i da de, le g itim id a d e para escrever. O utra c o is a ta m b ém é q ue eu se n ti,
fa la n d o na q uestão urbana, é que a e s sa altura do ca m p eo n a to , F orta leza j á é um a gran de cid ad e, co m to d o s o s p ro b lem a s d as grandes c id a d e s u nive rsa is. E u q uis ta m b é m falar d e F ortaleza num co n te x to já d e ser um a gran de cida d e. E u so u u m lo b o urbano. Sem pre fui lig a d o à s e sq u in a s, à s ruas, à s a v e nida s. Sem pre tiv e u m m o v im e n to urbano. A c h o que c o n se g u i iss o , sob retud o c o m o “T á x i” , que é p ro fun dam en te lig a d o à F o rtaleza, m a s está c o lo ca n d o o s prob lem as e x iste n c ia is , so c ia is, que v o c ê p o d e encontrar perfeitam ente e m qua l quer cid a d e do m undo. E n tão, d ig o que rea lm en te co n se g u i is s o por q ue e s s e liv ro co n tin u a, para m inha surpresa, se n d o estu d a d o n o R io de Janeiro. E u tinha co lo ca d o até a l g u m a s notas no final ach an do que a s p e s s o a s poderiam não en tender b em d eterm in a do s lu gares, deter m in a d a s referência s. M a s, de re pente, n o R io d e Janeiro, tev e um a re ce ptiv id a d e enorm e. E le foi estu d ad o na U F R J (U n iv e rsid a d e F e deral d o R io de Janeiro), num curso d e p ó s-g r a d u a ç ã o . D e p o is, na U n i v er sid a d e d e Santa IJrsula e na V e ig a de A lm eid a . E u fui lá falar para o s a lu n os. A lg u n s a lu n o s fo ram m e entrevistar, e eu cu rioso, “P ô , tô fa lando d e um a cid a d e que v o c ê s nã o c o n h ece m ” . A í m e d is seram isso : “ O s p ro b lem a s que v o c ê co lo ca sã o tam b ém p ro b le m a s d o R io de Janeiro”. F oi e stu d ad o tam b ém n o s E U A , na U n i v er sid a d e d e F lórida, e eu fui co n v id a d o para dar um a palestra lá. E , na ap resen ta ção , a crítica d e lá, E liza b eth L o w e, falou exa ta m en te iss o , que era profundam ente lig ad o à F ortaleza, m a s refletia u niv ersa l- m en te to do s o s pro blem as co n te m p o râ n eo s d o h om em .
“ H o je, eu v ejo na
M o e m a a sín te se de
to d a s as m u lh eres.
Q u a n d o v o cê am a
v e rd a d e ira m e n te ,
e ssa m u lh e r
re p re se n ta to d a s”
L J - V ocê d iz q u e M o e m a é s u a m u sa . N o “T á x i”, v o c ê f a l a ta m b é m d e u m a o u tr a m u lh e r . E la f o i
a s u a m u s a d a a d o le s c ê n c ia ? A E - F o i, n e ssa é p o c a d o s E U A ,
q uan do e u era g a ro tã o dc 17, 18 a n o s. O p e sso a l dizia : “ P ô , v o c ê co lo ca v a su a própria m u lh er para ir para um m o te l, p e g a n d o n as c o x a s d ela, na taba quin ha d e la ” (riso s). F oi outra c o isa q u e e u q u is d e sm iti-ficar. A in u sa d o poeta p o d e ser a sua própria m ulh er e e la tem p eito , tem co x a . N ã o é um a m u sa abstrata, id ea liza d a , um a m u lh er q ue v iv e n as n u v e n s, não. E la é um a m ulh er que está p ró x im a, v o c ê a m a , en fim , tua co m p an h eira P or q ue eu iria in ventar um outro n o m e ? E u a ch o M o e m a urpa sín te se p erfeita d e m e u p o em a (riso s).
“ M e sin to o rg u lh o s o
d e te r c o lo c a d o
F o rta le z a no m a p a
p o é tico m u n d ia l, de
te r p ro je ta d o
u n iv e rsa lm e n te a
c id a d e d e F o rta le z a ”
L J - C o m o é t e r u m a m u s a n o d ia -a - d i-a s e m p r e -a s e u l-a d o ?
A E - E la c u m a heroína. E la é m inha
m ulh er há m a is d c 16 an os. 16, é ? ( Pergunta a M oe m a. E la a sse n te co m a ca b eç a ). A ex p e r iê n c ia p o é tic a é um a c o isa fascin an te. E outra e x p e riên cia fa scin a n te ta m b ém para o h o m em é o próprio am or. É ta m b ém e s s e barato, e s sa v ia g e m , e s s a era - p o lg a ç ã o , e s sa tra n sfo rm a çã o d o m un do , e s s e se n tid o q ue s e dá a o m un do e a v id a d e m an eira m uito ag u da . E a M o em a m e e n sin o u o am or. A m inha e x p er iê n c ia v er da d eiram en te am o ro sa foi c o m ela. E u já fui m uito g a lin h a , sab e? M a s
h o je , eu v ejo na M o e m a a sín te se d c to da s as m ulh er es. Q u a n d o v o c ê am a verdadeiram ente, e s s a m ulh er representa to da s a s m ulh er es. Q u em tem um a e x p er iê n c ia se m e lh a n te , nã 0 co m pa ran do ev id e n te m e n te , foi o John L ennon co m a Y o k o O no. E le tem várias m ú sic a s e letras que e le (iiz ia :“ O h, Y oko! V o c ê m e a cor d o u, v o c ê m e fez ver o m u n d o ” . Entjão, e s s a re la çã o a ch o ta m b ém interessa nte. N ã o co m p ar a n do e v i d en tem en te, ca d a um tem su a s e x p eriên cia s. M a s a a lg o se m e lh a n te nesp e se n tid o , é um a co isa un iv er- sa l,jsã o d uas p e sso a s que s e a m a m
“Quando a gente tá próxim o do objeto, nossa vista se turva” Na França, Adriano achava mais fácil es crever sobre o Brasil.
Nova York proporcio nou muitas experiên cias estéticas que in fluenciam a obra de Adriano. Defrontar-se com Picasso foi um choque.
A d r ia n o E s p ín o la
E n tre v istaGargalhadas, reticên cias, um certo tom professoral, slsudeze mãos que não para vam quietas m arca ram toda a entrevista.
Quando terminou a en trevista, ele sorteou o livro Táxi entre os alu nos e continuou con versando com o pro fessor Ronaldo Salga do.
Adriano não gosta de badalação. “O meu barato é a minha soli dão” . O poeta prefere a companhia da fam i-lia e tem poucos am i gos.
2 4
e s e enco ntram .
L J - O “T á x i ” è a s u a o b r a m a is c o n h e c id a . V o cê a c o n s id e r a r e a l-m e n te o l-m o l-m e n to l-m a is p r o fu n d o d a s u a c r ia ç ã o ?
A E - A p ro p ó sito d o q ue v o c ê fa lo u, m in h a g ra n d e a leg ria foi e s sa aqui (E le m ostra a e d iç ã o am erica na ). O lh a , que e d iç ã o bo nita. E u u niver s a liz e i e s s e “ T á x i” pau-de-arara. F o i e d ita d o a o m e s m o tem p o em N o v a Iorque e L on dres. P uxa vid a, realm en te fo i um a alegr ia e um a su rpresa m u ito gran de para m im ...
M o e m a - A d ria n o , m ostra o m a pa d e F o rtaleza.
A E - Sim ! D e p o is da tradução b e lís sim a d o C h a r le s P errone, tem a s n o ta s, tem d u a s críticas: da E liz a - beth I^owe - fa lando cm Shakespeare tra d u z in d o um p o e m a b ra sileiro p ó s -m o d e r n o -, e o e s tu d o d o C h a r le s Perrone: “U m p eq u e n o iti nerário d e um lo n g o p o em a em tra d uç ão ” . E term ina coloca ndo o m apa d e F ortaleza e d o B ra sil para v o c ê se g u ir o percurso d o “T á x i” . O utro dia e u d is s e n o jo rn al que m e sin to o r g u lh o so d e ter c o lo c a d o F ortaleza n o m a p a p o é tic o m un dia l. S in to - m e o r g u lh o so de ter projetado u n i v er sa lm e n te a cid a d e d e F ortaleza que v ejo ta m b ém c o m o um lab irin to d e a ven tu ra s h u m a n a s, de peri g o s.
“ E u li a q u e la p arte
d o faro l, v io le n ta
m e sm o . Q u a n d o eu
c o m e ce i a ler, m e
e m p o lg u ei p ela
h istó ria . E so lta v a
p a la v rã o m e sm o !”
L J - A E liz a b e th L o w e d is s e q u e v o c ê e r a u m p o e t a d e im p lo s ã o n o m u n d o d e s e n v o lv id o . C o m o é q u e v o c ê v ê is s o ?
A E - E u tiv e e s sa m esm a ex p er iên c ia , n ã o s e i s e m esm a ex p er iênc ia . N o se n tid o q ue is s o s e a clare, foi um a ex p er iê n c ia q ue tive na França q uan do eu li o “T á x i” . F oi um s im p ó s io q ue fizeram , e foram p o e tas p o rtu g u ese s e b ra sileiros, se n d o b ra sileiro so m e n te eu. P o eta s que lia m se u s p o e m a s e se u s tradutores trad uziam para a pla téia. T ava todo m u n d o bem -com p o rtad o . E c o m e
ç o u co m um p o rtu g u ês, e le leu se u p o em a ca lm am en te. E v e io o tradu tor e to do m u n d o parado. V e io um outro poeta p o rtu g u ês, fez ta m b ém a leitura do se u p o em a ...
A /o e w a - N a F rança, eles nã o ap la u d em por ed u ca çã o . E le s s ó a p la u d e m quan do e le s g o sta m .
“Q u a n d o v o cê se
a fa sta d o p a ís, v o cê
v iv e n u m a o u tra
cu ltu ra, n o u tra
so c ie d a d e , v o cê tem
e sse se n tim e n to d e
b ra s ilid a d e ”
A E - D e p o is d o s três p rim eiro s, o po eta bra sileiro c o m e ç a a falar. “A g or a e u v o u d esco nta r” . E u li aq uela parte d o farol, b em v io lenta m e sm o . Q u a nd o eu c o m e c e i a ler, m e e m p o lg u e i p ela h istó ria, e a cadeira ch e g a balançar, a m esa tam bém . E e u so lta v a pa lavrão m esm o ! E m e em p o lg ue i pela história. Q ua n do ter m in ei, o s fra n ce ses ficaram lou co s, aplaudindo e querendo m ais. E cu digo: “m a s nã o tem m a is tradução, n ã o ” . “ A s s im m e sm o se m traduzir” (p ú b lico ). A í, sem traduzir m andei bala. A í ch eg o u um a francesa para m im e d isse: “O lh a , eu não en ten do nada de p o rtu gu ês, m a s adorei s e u p o e m a ” (riso s). E n tã o, o s crítico s ficaram e m p o lg a d o s. U m p o rtug u ês m e e n trev istou para a R á d io F rance Inter n a cio n a l . E e le s d isse ra m que era d e um a “v io lê n c ia sedutora” - m e le m bro b em d essa e x p r e ssã o q ue e le s em pregaram - e d e um “ ím p eto ir re sistív el” . T a lv e z seja e s sa v io lê n c ia ... P or is s o que ela d iz aqui: “P oeta d e im p lo sã o no m u n d o d e s e n v o lv id o ”. A c h o que a p o esia d e le s é m uito b em com portada. Sã o p o e sia s que estã o tem a tiza n do o branco, o silê n c io , o nada , a m orte, a a u sê n c ia , tá en ten dendo ? A c h o que e le s já d isse ra m tudo e agora estã o querendo ex p ressa r o nada. E n ó s a in da te m o s m uito a dize r, n ó s p o eta s bra sileiro s, q ue a n o ssa rea lid ad e, essa loucura que está aí, ain da é um p ro ce sso d e form açã o só cio -c u ltu ra l m uito gra n d e, e que n o s co n fu n d e a toda hora. E o que há d e v io lê n c ia a q u i, nã o s ó em F ortaleza, é n o B rasil to do , o s p iv e
tes que e stã o n o s cr u za m en to s, atro p e la m e n to s fa ta is , a s porradas, o sa n g u e , a q u e la c e n a n o final da m u lh er co rta n d o o p e s c o ç o da o u tra. E s sa s c e n a s q u e m arcam h o je o B r a sil e s tã o aq ui n o livro. E ssa v io lê n c ia tem m u ito a ver co m a n o ssa c iv iliz a ç ã o brasileira.
L J - V o c ê a c h a o “T á x i ” o m o m e n to m a is im p o r ta n te d a s u a o b r a ?
A E - N ã o se i. E sto u a p o stan do ag ora n o “M e tr o ”. P orque n o “M c - trô ” m er g u lh ei tún do e m m uita s c o isa s. A c h o q ue o er o tism o , por e x e m p lo , n o “ M e trô ” é m u ito m a is acen tu a d o. N ã o s e i s e tem a v io lê n cia d o “T á x i” , m a s o er o tism o e a b ra silid a d e, ta lv e z , e u tenha b u sc a d o m a is. A g o r a , v o lta n d o tua per gu nta . V o c ê m e fa lo u s e eu m e se n ti m a is n o rd estin o , m a is b ra si leiro. R e a lm e n te , e s s a ex p er iên cia é in cr ív el. Q u a n d o v o c ê s e afasta d o p a ís, v o c ê v iv e num a outra c u l tura, noutra so c ie d a d e , v o c ê tem e s s e se n tim e n to n o s s o d c b ra sili d a d e, q ue s e a ce ntu a en o rm em en te. V o c ê c o m e ç a a p erceber co m o v o c ê é d ifere n te d ele s. E e s s a s d ife re n ça s sã o cu ltu ra is, d e tem pera m en to , d e a fetiv id a d e . E v o c ê fica d ese ja n d o a q u ela c o isa d c b ra sili dade. S ó m e sm o na F rança que c u fui en ten de r p erfe ita m en te a frase do O s w a ld d e A n d ra d e quan do ele d is s e que ha v ia d esc o b e rto o B rasil d o a lto da torre EifFel. E eu tiv e essa m esm a se n sa ç ã o . Lá, é que fui m e desc ob rir p ro fu n da m en te b ra silei ro, n o rd estin o e cea re n se. Q u e eu perceb i c o m o e le s le v a m tudo m u i to a s é r io , a q u ela c o isa m u ito regra da , m u ito d isc ip lin a d a , tudo n os lu ga re s. E n o ssa cultura nã o é nada d isso . M in h a literatura, n o ssa lite ratura, n o s s o m o d o d e ser não é n ad a d isso . E n tã o, foi quan do m e se n ti m a is p ro fú n da m en te b ra silei ro. E q u is vo ltar para o B rasil.
“A d o ra v a e sse sol,
m o rria de sa u d a d e
d e sse sol, d e s sa
c o is a a b e rta , livre. O
e ró tic o q u e eles n ão
têm . S ão e m b u tid o s,
L J - V o lta r à a le g r ia , n ã o é? A E - A h , v olta r à a le g r ia , a o s o l, pô! A d o r a v a e s s e so l, m orria de sa u d a d e d e sse so l, d e ssa co isa a ber ta, livre. O e r ó tic o que e le s n ã o têm . S ã o ex trem a m en te em b u tid o s, fec h ad os. E o n o sso er o tism o é um a c o isa m u ito qu ente, até d e v id o ao so l, n é? (r iso s )
L J - A d r ia n o , v o lta n d o a o " M e tr o ", a p a r a d a f i n a l é e m P a r is o u n â o ?
A E - N ã o , nada . O “ M etro" v a i a P a ris, d e p o is v a i ao m uro d e B e r lim , derruba o m uro d e B erlim .
L J - V a i a té a ú ltim a e s ta ç ã o d a p a ix ã o p o s s ív e l, n é ? A R o m é n ia . M o e m a - V a i à R o m é n ia .
A E - A h , vai pra R o m é n ia . L á, rapaz, é u m n e g ó c io ! A v io lê n c ia lá , v o c c s lem b ram da guerra c iv il da R o m é n ia ? A í, d e p o is vai pro O rien te M c d io , cruza c o m N o stra - d a m u s, e r e to m a ao R io d e Janeiro. E le ago ra vai andar, o m etrô n o s trilho s da lin g u a g e m , d a im a g in a ç ã o , c o m o to d o s o s ou tros p o etas, tá entendendo? D e sd e H om ero a té ... O ra, d e sd e H o m ero , d e sd e G ilg a - m e sh , q ue é a e p o p e ia m a is a n tig a d o h o m e m , tá en ten d en d o ? E le e n tra ta m b ém n e s s e m etro , né? O G ilg a m e sh é u m p o e m a b a b iló n i c o , q u e entra ta m b ém . A té ... C a e ta no V e lo so . T u d o rap az, tudo, foi a m aio r esc u lh a m b a ç ã o .
L J - F o i a m a io r T o r r e d e B a b e l? A E - É rapaz, o m a io r barato é o C astro A lv e s ca n ta nd o c o m o Jorge B enjo r. “ C a d ê T ere za ” , m ó bara to!
“E m to d a o b ra d e
a rte o fu n d a m e n ta l é
a e s tru tu ra e os
d e ta lh e s. E h á m a is
d e in sp ira ç ã o , m as
q u e é m u ito
tra b a lh o , é ”
L J - A d r ia n o c o m o é o te u p r o c e s s o d e c r ia ç ã o ? E v e r d a d e a q u e la e s tó r ia q u e d iz e m q u e d o s p o e ta s,
d o s e s c r ito r e s , d a s p e s s o a s q u e f a z e m a r te , q u e é 1 0 % d e in s p ir a ç ã o , 9 0 % d e tr a n s p ir a ç ã o ? Q u a is s ã o a s p e r c e n ta g e n s ?
A E - É por a í, sa b e? D á m u ito trabalho, rea lm en te... A g or a ô G a- briela, é um n e g ó c io tão a n g u stia n te, p e sso a l. E o se g u in te , a gen te c o m e ç a co m a q u ela id é ia ... A í cu b o lei e s s e p o em a h á quatro a n o s atrás, a í quan do a g en te c o m e ç a a escr ev er o p ró x im o , né? A q u e le p r o c e sso a sso c ia tiv o d e id é ia s, de e m o ç ã o . C laro q ue v o c ê tem que escrever. O co m b u stív e l m a io r é o da e m o ç ã o , m a s eu nã o poderia ja m a is escr ev er um p o em a d e sse s d e 2 0 0 p á g in a s d e um a v e z , é um a loucura! E a a n g ú stia m a io r é eu nã o sa b er quan do q ue eu parava. E u n ã o sa b ia ab soluta m en te." M e u D e u s, parei aqui, o que é q ue vai continua r? C om o é que va i ser a co n tin u a ç ã o d e s s e troço?” E u nã o sa b ia a b so lu ta m en te. Era a n g u sti an te, c a an gú stia ta m b ém sa b e qual era? “ Porra, s e eu m orrer o p o em a va i ficar in a ca b a d o, aí eu ten ho que apressar e s s e troço, sabe? P o rque s e eu m orrer vai ficar in a ca b ad a e s s a obra-prim a." A í n ã o p o d e , n é? E ntão é a q u ela c o isa ta m b ém d e v o c ê ter que d izer a q uilo que tá te a n gu stia n do e q ue v o c ê tem que term inar aquela obra, sabe? É terrível, en tã o q uan do e u via ja va, na E uropa, eu m orria d e m e d o d e m e a co n tecer a lg u m a c o isa , e eu nã o p od er term inar o po em a . A í en tã o a prim eira v ersã o, e s sa pri m eira é um a esp é cie a ssim d e m o n s tro, né? Q uer dizer, v o c ê va i ter que trabalhar e retrabalhar. A í en tã o, ô G abriela, o fluxo da cria çã o... Q ua n d o e u term inei o p oe m a, porra, eu to m ei u m porre de vin ho. R apa z...
L J - V o c ê se le m b r a M o e m a ? A E - C om em o ra m o s o lim p ic a m en - te. E u se n ti que ha v ia term inado, m a s e u se n ti que ali era s ó o térm i n o d e prim eira etapa, sab e? E u ha via c o n se g u id o estruturá-lo, aí é o pro blem a da estruturação do p o e m a , sa b e? Q u e iss o é m uito d ifícil. E m toda obra de arte o fun dam en tal é a estrutura e o s d eta lh es. É , há m a is d e inspira ção , há ta lv ez 2 0 ou 30 % , m a s que é m uito trabalho, é. E u a ch o que eu refiz, cu reescrev i e s s e p o em a , ta lv ez u m a s c in c o v e z e s , n é M o e m a ? O u s e is v e z e s.
M o e m a - M a is.
A E - M a is? F oi um n e g ó c io tortu rante, lo u c o , sa b e? U m trabalho im en so .
L J -O “T á x i ”, e le d e u u m g a n c h o p a r a v o c ê c o m e ç a r a e s c r e v e r o "M e t r ô ”, e o " M e t r ô ”? E le va i
d e ix a r u m g a n c h o p a r a o u tr a v ia g e m ?
A E - E bo a e s s a tua perg un ta, p o r q ue o se g u in te , n o “ L o te C la n d e s ti n o ” , e s s e ú ltim o p o e m a é um a ten tativa d e um p o em a é p ic o urbano, e s s e “ M in h a G ravata C o lo n d a ” , n é? O “ T á xi", e le c o m e ç a e x a ta m en te se reportando a e s s e p oe m a. Ó: “ D e p o is d e tirar e en rolar n o b o lso m inh a gra vata c o lo r id a , d e p o is d o p iq u e a tra v e ssa n d o ruas e p o rtas...” , eu tô m e referin do a e s s e po em a. E n tã o e s s e p o e m a s e lig a a e s s e outro, na v er da d e é u m a trilo gia . C o m o “M e tr ô ” encerrei a tri lo g ia . É “ M in h a G ravata C o lo r i da", “ Táxi" e o “M etrô". O P edro Lira diz: “ A d r ia n o , rap az, m ud a e s s e “M in h a G ravata C o lo rid a ” pra “ Ô n ib u s” , rap az, a í fica “Ô n ib u s” , “T áxi" e “ M etrô". E u a c h o le g a l, porque eu in c lu siv e e u fa lo aq ui de ô n ib u s, e m v á rio s m o m e n to s, m a s o que m e in tere ssa é a v ia g e m urbana. A g or a o “ M e trô ” , que é e s s e ú ltim o po em a, e le nã o s ó está lig a d o ao “T áxi", m a s tá lig a d o ta m b ém à “M in h a G ravata C o lo rida " , sab e? E ntão o s três p o e m a s têm um a in- terrelação en o rm e entre e le s , há um a in tr a te x tu a lid a d e m u ito g r a n d e . V o c ê fa lo u m u ito in tertex tu a lid a de, há m uita in tertex tu a lid a de, m a s há tam b ém so b re tu d o in tra tex tu a lida de. E n tã o na verdad e, ta lv e z seja um p oem a só , en orm e. E u a c h o q ue vai ser in te re ssa n te a lg u é m estud ar e s s e s três g ra n d es p o e m a s, sab e?
“E u a c h o q u e
n e n h u m e s c rito r vai
se p re o c u p a r
im e d ia ta m e n te co m o
re su lta d o d a su a
obra. P o rra, a ssim
n in g u é m e s c re v e ria ”
L J - V ocê n ã o tê m m e d o q u e a c r ític a c o n s id e r e q u e v o c ê te n h a n e u tr a liz a d o a f ó r m u l a d o “T á x i",
q u e s e ja r e p e titiv o ?
A E - P o de ser, m a s eu n ã o m e pre o cu p o c o m is s o porque e le está d en tro, s e co nfigu ra dentro d e um s is te m a, n é? D e ss a trilogia q u e sã o v ia g e n s d iferen tes: um a é a v ia g e m de ô n ib u s o u a p é, a v ia g e m d e “ T á x i” e a v ia g e m do m etrô. A g o r a p od e a lg u é m d izer a ssim : “ P ô , já que foi
Muitas vezes, Adria no Espínola assumiu sua condição de pro fessor. Quando falou da co lo n izaçã o do Ceará, parecia em sala de aula.
Mas é como poeta que ele cumpre seu me lhor papel. Adriano deixou a modéstia de lado e recitou poemas durante toda a entre vista.
Até ingressar no cur so de Letras da Uni versidade Federal do Ceará, Adriano estu dou no tradicional co légio Castelo Branco.
Dias depois da entre vista, Adriano com en tou com uma das alu-nas que havia gosta do da conversa, mas achou que falou de mais.
Adriano rendeu-se à tecnologia. Deixando de lado o rom antis mo do escritor debru çado sobre a velha m áquina, aderiu ao computador.
A d r ia n o E sp ín o la
E n tre v istab em su c e d id o o “T á x i” , aí v o c ê p e g o u a fó rm ula e tá ex p loran d o, n é?
L J - O q u e v o c ê s e n tiu e q u e m a is v o c ê f e z p a r a O “T á x i ” te r sid o s u c e s s o p r im e ir o e m L o n d r e s e N o v a I o r q u e , p r a d e p o is te r f e i t o s u c e s s o a q u i e a lg u n s c r ític o s d i z e r e m q u e e s s e “T á x i ” n ã o v a i a lu g a r n e n h u m ? V o c ê te m m e d o q u e o M e t r o f a ç a o m e s m o p e r c u r s o ? A E - M ed o! O u desejo?
L J -D e s e r r e c o n h e c id o f o r a p r a d e p o is s e r a q u i m e s m o ...
A E - A h , s im , so b e s s e a sp ec to . E u a c h o que va i a co n tec er is s o porque p io r o u a situ a çã o . P o rque nem m e s m o m etrô n ó s te m o s, né? E ntão n in g u é m va i co m p re en de r a s su b i d a s e d e sc id a s d o m etrô aq ui c tal. M a s eu n ã o e sto u m uito in tere ssa d o . .isso , e m se r co m p le ta m en te en - m did o aq ui e ag ora n ã o , né? P ri m e ir o po rqu e e u a ch o q ue nenhu m escr ito r o u n en h u m artista vai se p reoc up ar im e d ia ta m e n te co m o resu lta d o da su a obra. Porra, a ssim n in g u é m escr ev er ia p e n sa n d o no resu lta d o im ed ia to da su a obra! Já a c o n te c e u is s o , um a c o isa curiosa q ue a c o n te c e u co m o “T á x i” . O “ T á x i” foi la n ça d o em 8 6 e eu im a g in a v a , p esso a l: “ A h , b o m , se p a ssa em F or ta leza ” . E u im a g in a va a té q ue e le fo sse estu d a d o aqui, por a lg u n s c o le g a s e tiv e sse um a re ce p tiv id a d e m uito bo a a q u i em F o rta leza . P icas! N ad a . A o co n trá rio, fic o u um s ilê n c io a ssim m eio in v o c a d o . E n in g u é m e sc r e v e u . M in to , e sc r e v e u C a rlo s d ’A lg e , fa la n do até d o a sp ec to d io n isía c o da ob ra , m a s foi só is s o , e o p esso a l m u d a v a d e a ssu n to . P arecia que o “T á x i” , q uan do sa iu d a qu i, s ó d o brou m e sm o um a es q u in a e se arre b en to u n u m p o ste e a li m orreu, p a rou. E nqu an to is s o , por c o in c id ê n c ia , eu tinh a id o para o R io d e Janeiro , e m 8 6 , n o m e sm o a n o do la n ç a m e n to , por c o in c id ê n c ia eu v ejo um a rece p tiv id a d e lá. Secretá- ria por favor... E um a e fic iê n c ia tre m end a , né? . R a p a z , e s se cara, o A n a z ild o V a sc o n c e lo s S ilv a , pro fe sso r d a P ó s-g r a d u a ç ã o , está fa z e n d o ex a ta m en te e s s e livro “ F o r m a ç ã o É p ic a da Literatura B r a sile i ra” , e eu d ei pra e le o livro e , de re pe nte, na se m a n a se g u in te, ele c h e g o u pra m im : “ R ap az o teu p o em a é u m é p ic o , lírico, p ó s m od er n o ” . E u n u n ca tinha o u v id o falar n e ssa p alav ra p ó s-m o d e m o . “ Tá
m u ito in teressa n te teu liv ro , g o ste i m u ito e tal, e e u v o u escr ev er so b re e le ” . A i eu a ch o que fiqu ei su rpreso a ssim . “N ã o , n ó s v a m o s estudar. E u v o u in c lu í-lo ta m b ém na c a d e i ra” . A í m a is su rp reso eu fiq u ei. E de fato, o livro fo i estu d a d o na c a deira d e E strutura É p ic a d a L itera tura B rasileira.
“ E u fic a v a se n tid o
p o rq u e as p e sso a s
n ã o fala v am n a d a ,
e ra u m silê n cio
co m p leto . E n q u a n to
isso , era e s tu d a d o no
R io de J a n e iro ”
L J -V o c ê a c h a q u e is s o è d e u m a c id a d e m u ito d e s a r tic u la d a ? O u v o c ê a c h a q u e a in d a n ã o e x is te é u m a c r ític a , a s p e s s o a s n ã o te m e m b a s a m e n to p a r a a n a lis a r , n o a to , s e a o b r a é b o a o u s e a o b r a é. ..
A E - E u a ch o que a s d uas c o i s a s . O L uís S é r g io S an to s (jornalista e pro fesso r do curso d e C o m u n ic a ç ã o na U F C ), c o m m uita sin ce rid a d e, até m e d is s e quando eu la n ce i o livro: “R a p a z , A drian o eu g o sta ria de escrev er so b re o teu livro, m a s quan do eu li, eu m e se n ti d esa p a re lh ad o pra falar sob re teu livro que eu sei que é um a co isa a ssim n o v a , d ife rente, co isa e tal” . E le nã o tem naturalm cntc form ação literária, né? É d e co m u n ic a çã o . A i e le m e d is s e com m uita sin ce rid a d e - e foi le g a l e le ter m e d ito is s o - porque eu d esco b ri, até eu d iscu ti co m a M o - em a , q ue eu ficav a se n tid o porque a s p e sso a s n ã o falav a m na da , era um s ilê n c io co m p leto . E nqu an to iss o esta v a se n d o estu da d o c d is c u tido n o R io de Janeiro. E lá n o s esta d o s U n id o s e tal. A í ta lv e z te nha sid o isso . A té e u d isse pra ela: “ Será que a s p e sso a s estã o s e s e n tindo a ssim m eio ... N ã o sa b em co m o a n alisar o livro?” M a s tem tam b ém aquela h istó ria d e que sa n to d e casa nã o fa z m ila g r e, n é? D e q ue nã o se v a loriza rea lm en te o artista lo ca l. N ó s te m o s um a ten dê nc ia re a lm en te terrível de torcer o nariz para n o sso s va lores. N ó s te m o s g ra nd es artistas aq ui, n o enta nto, n ó s tem o s e s sa ten d ên cia de esno b a r o que está p ró x im o da g en te, n é? N ó s tem o s c a b e ç a s aqui m a ra v ilh o so s,
n é? Q u e a g e n te e sn o b a , a ge n te in v en ta lo g o u m d efeito ou fresca o u d im in u i, sa tiriza , n é? O cea ren s e tem m u ito d isso . T em u m a sátira na ponta da lín g u a . T errível, né?
“ E le c h e g o u a dizer:
A d ria n o , n ã o se
p re o c u p e co m a
re p e rc u s s ã o n acio n al
d o te u livro. V á se
p re o c u p a r é co m a
in te rn a c io n a l”
L J - S a i u u m a c r ític a m u ito n e g a ti v a n o j o r n a l “ O E s ta d o d e S ã o P a u l o ” s o b r e o l iv r o “T á x i ”. C o m o f o i a c r ític a ?
A E - R a p a z e s s e “T á x i” n ã o vai a luga r n en h u m , d e s s e tam anho.
L J - C o m o e r a o n o m e d e le ? A E - F e m a n d o P a ix ã o , o n o m e do filh o d um a é g u a . E s s e cara e sc r e v e u is s o d iz e n d o ... A g o ra , eu vi que o cara te v e a b so lu ta m á vontad e porque e le falou d e c o isa s n em e x is tia m no liv r o , sa b e? F o i criticar um u n iv e rso que n em m e u era. Era do H erá clito D ió g e n e s . Eu c o lo c o até a nota fin a l, r e co n h e ce n d o o s créd i to s in te le ctu a is , né? E e le d izendo q ue c u m e perd ia no lix o , n o s b eco s da m in h a cid a d e, atrás d o s m eu s am o re s. In v en to u a s s im u m a s c o i s a s para ridicu la rizar o liv ro , sabe? E d iz e n d o que era m e lh o r “ o rese- n h ista e o leito r saltarem d e sse “ T á x i” po rq ue e le n ã o v a i a lugar n en h u m ” . Isso aí m e d oe u real- m en te ... M e a feto u e ssa porrada, m e afeto u. E u ach ei um a b eleza d ep o is. N o m o m e n to d e dor... É, po rq ue tava tod o m u n d o e m p o lg a d o e tal, e cla ro, naturalm ente, quan d o a g e n te ed ita um a obra d e ssa , a g e n te acred ita n ela , né? E e s s e cara b a ix o u o p a u a ssim ... E o D é c io P ignatari, e le tava su perem p olgado, n o m o m e n to , c o m o liv ro , né? C h e g o u aqui a F o rtaleza , m e procurou, n ó s sa ím o s, ja n ta m o s ju n to s. E le queria m e c o n h ece r, sab e? E e le foi u m d o s ca ra s q u e m e d isse : “ A d r i a n o , c o m e c e i a ler teu livro, rapaz, d e repen te fui até o final e tal...” . E o q ue e le fa lo u e u nã o v o u reprodu zir a q u i, m a s foi um en con tro a b so lu tam ente m arcante. A b so iu ta m