A IMPRENSA E A PRIMEIRA ADMINISTRAÇÃO DO
PARTIDO DOS TRABALHADORES: Diadema 1983-1988.
MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL
A IMPRENSA E A PRIMEIRA ADMINISTRAÇÃO DO
PARTIDO DOS TRABALHADORES: Diadema 1983-1988.
ALICE DA CONCEIÇÃO ALVES
PARTIDO DOS TRABALHADORES: Diadema 1983-1988.
ALICE DA CONCEIÇÃO ALVES
Dissertação apresentada à Coordenação de Programa de Estudos de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e à Banca Examinadora, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em História Social, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Olga Brites.
BANCA EXAMINADORA
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SÃO PAULO
Contei com a colaboração e estímulo de muitas pessoas que, de forma direta ou indireta, acompanharam a trajetória de pesquisa. Aqui tenho a oportunidade de especialmente agradecer alguns amigos que foram fundamentais para a realização deste trabalho.
Primeiramente, à Professora Olga Brites pela compreensão, carinho, amizade, paciência durante a orientação e pelo agradável convívio durante esses anos. Sua dedicação profissional é um grande exemplo para mim.
Aos membros da banca de qualificação: professoras Heloísa Faria Cruz e Maria do Rosário Cunha Peixoto, pelas observações e sugestões que enriqueceram o trabalho.
Ao CNPq, pelo apoio financeiro, fundamental para a realização desta pesquisa.
Aos funcionários das instituições nas quais realizei a pesquisa, especialmente, aos colegas do Centro de Memória de Diadema, que muito contribuíram, sempre me recebendo com muito carinho. À Regina, da Secretaria de Cultura de Diadema, que muito me auxiliou no contato com diversas pessoas.
Aos colegas do programa de pós-graduação da PUC-SP, cuja convivência foi enriquecedora, especialmente ao Alan Modesto, Emília Carnevali, Terezinha e Fernanda Galve, pelo apoio nos momentos difíceis.
À professora Yvone Dias Avelino, aos colegas do doutorado Leandro Paschoarelli e Brás Ciro Galotta, que gentilmente fizeram a leitura do trabalho no curso de Pesquisa Histórica, e muito contribuíram com observações e sugestões.
À Betinha, secretária do Programa de Pós-Graduação, pelo carinho, paciência e solicitude.
À amiga Maria Ângela Expósito, pela constante disposição em me ouvir, pelo carinho e pelo auxílio na elaboração do abstract deste trabalho.
À jornalista Laís Fagundes Oreb, muito prestativa e atenciosa, que possibilitou o acesso a informações e materiais preciosos para o desenvolvimento desta pesquisa.
Pelo trabalho de revisão, agradeço à Marília Adamy, pela paciência e dedicação, sempre disposta a oferecer uma palavra de incentivo e carinho.
A toda minha família, que sempre me apoiou especialmente à minha mãe, exemplo de luta e determinação, às minhas irmãs, pela amizade, carinho e incentivo. À Amanda, Luana e Thaís, que me fazem acreditar e a ter forças para lutar por um mundo melhor.
Ao Marcelo, que pacientemente me acompanhou em mais esta caminhada, dentre tantas outras.
A pesquisa tem como proposta estudar como a grande imprensa paulistana, através do jornal O Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, do Jornal da Tarde, do periódico local intitulado Diadema Jornal e do Informativo Municipal, principal veículo de divulgação das ações da administração pública da cidade, noticiaram e analisaram a primeira administração do Partido dos Trabalhadores do Estado de São Paulo, na cidade de Diadema, de 1983 a 1988, que elegeu como prefeito Gilson Correa de Menezes, líder sindical metalúrgico do ABCD paulista.
O trabalho está contextualizado no processo de abertura política no Brasil, no final dos anos 70 e início da década de 80, em que diversos movimentos sociais buscaram novas estratégias de luta. Nesse processo, ocorreu a fundação do Partido dos Trabalhadores, que procurava marcar sua identidade enquanto partido de base, apontando a necessidade de mudança nos procedimentos de se fazer política, fundamentado na transparência e na participação popular, buscando novas formas de relacionamento entre a população e os governantes.
Diadema foi alvo de curiosidade da grande imprensa nesse período, fazendo parte do noticiário nacional e tornando-se referência, por ser a primeira administração do PT em todo o Estado de São Paulo. Esta representava a oportunidade de analisar a viabilidade de suas propostas partidárias ou uma forma de contribuir com as críticas dos adversários políticos, preocupados com o fato de um partido com novas propostas e ligado aos movimentos sociais, passar a ocupar espaços de representatividade política no poderes Legislativo e Executivo, a partir de 1982.
The present research supposes to study how the great São Paulo city’s press, through the newspaper “O Estado de São Paulo”, “ Folha de São Paulo”, “Jornal da Tarde”, and the local newspaper called “Diadema Jornal” and “Informativo Municipal”, main mean of making public the actions taken by the Government administration of the city, reported about and analyzed the first administration of “Partido dos Trabalhadores” in Diadema city from 1983 to 1988, which elected as mayor Mr. Gilson Correa de Menezes, who was a metallurgic sindical leader in the region of ABCD paulista.
The work is contextualized in the process of the politics opening in Brazil, in the end of the 70’s and the beginning of the 80’s, when several social movements looked for new fighting strategies. During this process, happened the foundation of “Partido dos Trabalhadores” which sought to mark its identity as a basis party, aiming to the necessity if changing in the way of doing politics, based on the transparency and on the popular participation, searching new ways of relation between people and government.
Diadema was the target of the curiosity of the great press in this period, it made part of the national newspapers and becoming reference, because of being the first PT’s administration in whole São Paulo State. It represented the opportunity of analyzing the workability of the party’s proposes or a way of contributing through criticism of the opponent parties, who were worried about the fact of a party, with new proposes and connected to social movements, starting to take places in the politics representation in the Legislative and Executive Powers since 1982.
Siglas ...10
Introdução ...12
Capítulo I - "Diadema, a cidade - laboratório do PT”...30
Capítulo II – Imprensa- Diadema-Desafios Locais... 88
Capítulo III - Gilson Menezes na Imprensa e a Questão da Nicarágua ...128
Considerações Finais...156
Fontes...166
SIGLAS
ABCD - Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e
Diadema
ABCDRM - Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul,
Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Mauá
ACID- Associação Comercial e Industrial de Diadema
ARENA- Aliança Renovadora Nacional
CEB´ s- Comunidades Eclesiais de Base
CP - Conselho Popular
CUT - Central Única dos Trabalhadores
DJ- Diadema Jornal
DM - Diretório Municipal
DR- Diretório Regional
FSLN - Frente Sandinista de Libertação Nacional
FSP - Folha de São Paulo
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia Estatística
ICM - Imposto sobre Circulação de Mercadorias
ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
IPTU - Imposto Predial e Territorial Urbano
ISS - Imposto sobre Serviços
JT- Jornal da Tarde
OAB – Ordem dos Advogados do Brasil
OP – Orçamento Participativo
OESP- O Estado de São Paulo
PDS- Partido Democrático Social
PDT - Partido Democrático Trabalhista
PMD - Prefeitura do Município de Diadema
PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PTB - Partido Trabalhista Brasileiro
PT - Partido dos Trabalhadores
SAB’s - Sociedade Amigos de Bairro
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem por objetivo analisar como os jornais da grande imprensa paulistana, mais especificamente O Estado de São Paulo, o Jornal da Tarde e a Folha de São Paulo, e também a imprensa local através do Diadema Jornal e dos Informativos Municipais, posicionaram-se em relação ao primeiro governo petista do Estado de São Paulo na cidade de Diadema de 1983 a 1988, que elegeu como prefeito Gilson Correia de Menezes, líder sindical metalúrgico.
O interesse por este tema surgiu devido ao meu trabalho como agente cultural na Prefeitura do Município de Diadema, durante os anos de 1991 e 1992, e iniciei o levantamento histórico de alguns bairros, colhendo depoimentos e documentos de moradores, bem como da administração. A imagem que eu tinha do município antes desse trabalho era de violência e desordem, pois era o que comumente transmitiam os meios de comunicação. Conhecendo a cidade, o que mais me chamou a atenção foi a organização dos moradores, na luta por suas reivindicações.
Outro ponto a ser considerado na escolha do tema foi o fato de esta ter sido a primeira experiência administrativa do Partido dos Trabalhadores em São Paulo, no processo de abertura política . O PT tinha acabado de se consolidar e buscava marcar sua identidade enquanto partido de base, apontando para a necessidade de mudança nos procedimentos de “fazer política”.
É importante lembrarmos que o PT surgiu da organização do movimento sindical que teve como base o ABC paulista, no final da década de 70, num momento em que os movimentos populares buscavam novas estratégias de luta e novas reivindicações.
de que “todos os políticos são iguais”, que só estão preocupados com seus próprios interesses, que não existe e nunca existiu projeto de transformação social, como se tudo fosse uma ilusão, algo sem sentido, que só os ingênuos poderiam acreditar.
Realizar esta pesquisa me fez refletir sobre os significados das diversas organizações da sociedade na década de 80 e sobre a minha própria trajetória, enquanto estudante e participante do sindicato dos bancários na década de 80 e, posteriormente, dos diversos sindicatos do magistério público e particular. O final da década de 70 e a década de 80 foram extremamente ricos do ponto de vista de mobilização e transformação social, com a reorganização do movimento sindical e estudantil, com a luta pela anistia, “ampla, geral e irrestrita”, a campanha das Diretas Já, os movimentos de bairro, a atuação das Comunidades Eclesiais de Base e os movimentos das chamadas minorias (negros, índios, mulheres), enfim, uma época de efervescência social e política.
De acordo com Eder Sader, as greves metalúrgicas do ABC paulista de 1978 podem ser consideradas um marco no surgimento de novas formas de organização social e no sentido dos trabalhadores falarem por si mesmos, rompendo a subordinação ao Estado, herança do período getulista.
Conforme indicam Paoli, Sader e Telles, os trabalhadores “Vistos tradicionalmente como personagens subordinados ao Estado e incapazes de impulsão própria e, após 1964, silenciados e atomizados politicamente pelo regime militar, eles irrompem na cena política de 1978 falando por boca própria e revelando a existência de formas de organização social que haviam tecido à margem dos mecanismos tradicionais montados para representá-los e que serviam para sua cooptação, enquadramento e controle. Grupos de fábrica, clubes de mães, comunidades de base e as mais diversas organizações de diferentes setores sociais a partir de diferentes temas, tomaram a sociabilidade própria entre seus membros como premissa para formas autônomas de organização e expressão que alteraram o próprio campo da política no país”. 1
multiplicidade das experiências de diversos grupos sociais, segundo Amaral, “juntamente com as lideranças do novo sindicalismo participaram da gestação do PT líderes comunitários, em especial aqueles ligados às Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s), intelectuais, parlamentares do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e membros de organização de esquerda”. 2 Na atuação do PT os núcleos de base tinham lugar privilegiado aos quais “competia ligar o partido à sociedade, servir como local de educação política e de permanente atividade de militância”. 3
De acordo com Francisco César Fonseca, “foram, portanto, o PT e a CUT que desse período em diante, hegemonizaram no âmbito do universo da força de trabalho a luta dos segmentos organizados que representavam. Atuando nos parlamentos (paulatinamente também nos executivos), mas principalmente nos movimentos popular, social e sindical, os `novos personagens` traduziam a disposição política de parte significativa dos trabalhadores em inserir-se à cidadania. Esta, necessariamente entendida em sentido amplo, significou a busca de maior participação tanto nos recursos econômicos quanto políticos, modelada, tal participação, pela idéia de justiça e direitos”. 4
No final da década de 70 e no decorrer da década de 80, a produção historiográfica deu um novo enfoque aos movimentos operários e sociais, em parte devido a um abrandamento da repressão e censura imposta pelo regime militar e pelas novas formas de resistência e atuação dos trabalhadores. No Brasil, essa mudança de enfoque está presente em obras que buscam destacar as diversas formas de resistência dos operários, indo além do discurso oficial dos sindicatos. Situada no período em que abrange esta pesquisa, a obra de Eder Sader “Quando Novos Personagens Entraram em Cena”, contribui para análise do sujeito coletivo, levando em conta a heterogeneidade dos movimentos estudados e a compreensão do espaço público enquanto ambiente de troca de experiências, buscando sempre o
1 Maria Célia PAOLI, Eder SADER, Vera da Silva TELLES. Pensando a classe operária: os
trabalhadores sujeitosao Imaginário Coletivo. In: Revista Brasileira de História, nº. 6.p.130.
2 Oswaldo E. AMARAL. AEstrela não é mais vermelha - as mudanças no programa petista nos anos 90, p. 31.
3 Ibid, p.38
se do movimento, ou seja, a priori, nada está definido. A diversidade de fontes utilizadas pelo autor, indo além da imprensa e fontes impressas, trabalhando principalmente com a história oral, nos dá outra dimensão dos movimentos populares, na medida em que traz à tona, vozes até então reprimidas.
Na primeira administração de Diadema, o PT enfrentava dois tipos de desafios: como indica Raquel Rolnik, primeiro “a construção da cidade em seu sentido físico territorial” 5, já que a infra-estrutura e serviços básicos eram insuficientes e em alguns bairros inexistiam. Havia grandes problemas, como a falta de saneamento básico, a necessidade de urbanização das favelas, entre outros. O segundo desafio era a construção do governo da cidade “no sentido de constituição do pacto básico que define uma esfera pública – a relação dos cidadãos entre si e com o seu governo. Também nessa dimensão tratava-se de uma construção totalmente nova, já que a experiência coletiva da maior parte dos moradores, quando existia, era ligada à organização sindical, religiosa (as comunidades de base da Igreja Católica) ou aos movimentos populares, espaços coletivos com lógicas de estruturação muito diferentes do Estado” 6 .
Esses dois desafios são apontados pelas fontes analisadas, tanto a grande imprensa, como a imprensa local e os informativos municipais, enfatizando a falta de infra-estrutura do município, mas as ações da administração pública no sentido de solucioná-las merecem um tratamento diferenciado. Com freqüência, a imprensa diária paulistana destacava a incompetência do Governo Municipal para resolver questões essenciais no atendimento à população. O Diadema Jornal destacava a ação do Governo Estadual através das diversas secretarias, no atendimento aos problemas básicos de Diadema, e os Informativos Municipais ressaltavam a importância da participação da população na tomada de decisões junto com a administração, seja através dos movimentos organizados ou do Conselho Popular, constituindo-se na marca de um novo modo de governar.
Podemos situar Diadema no período estudado, como um local em que os trabalhadores atuavam politicamente além dos espaços instituídos pelo
5 Raquel ROLNIK (prefácio) . In: Jeanne BISILLIAT, Lá Onde os Rios Refluem - Diadema-20 anos de
Estado, no caso os sindicatos, e passaram a atuar como sujeitos sociais, buscando modificar as condições não apenas de trabalho, mas também de moradia, de atendimento à saúde, educação, entre outras reivindicações, buscando novas formas de participação política, questionando as esferas de poder, inclusive o poder local e redimensionando a relação entre Governo e população. No caso de Diadema, podemos citar a organização dos Conselhos Populares, que surgiram como proposta durante a campanha eleitoral, como forma de democratizar o poder municipal.
Inicialmente, de acordo com a administração, os Conselhos seriam formados por moradores de cada bairro, independente de ligações partidárias, para discutir os problemas e prioridades locais, servindo como interlocutores junto ao poder público municipal, na busca de decisões que atendessem às suas reivindicações. Posteriormente, os Conselhos Populares foram alvo de disputa entre o Diretório do PT local e a administração. 7
Ao estudar a primeira administração de Gilson Menezes, procuro analisar a memória construída pela grande imprensa sobre a atuação do Partido dos Trabalhadores, que chegou ao poder em um município industrial de São Paulo, e também analisar como a administração petista registrou essa atuação e como lidou com as imagens construídas pela imprensa paulistana e a imprensa local.
A grande imprensa constrói uma representação do real e não podemos dissociar o real de sua representação. Nesse sentido, é fundamental a pesquisa sobre como se deu o diálogo entre a administração pública e os jornais, pensando a imprensa “como um ingrediente do acontecimento”, como “força ativa na História” 8, ou seja, tratando-a não apenas como registro dos fatos, mas compreendendo sua importância política na consolidação de valores e na defesa de interesses.
7 “A direção do PT em Diadema defendia uma versão adaptada dos soviets. Segundo essa visão, os conselhos: a)
deveriam ser formados, inicialmente, a partir dos núcleos de base do PT; b) estariam abertos somente à participação dos ‘trabalhadores’e demais camadas exploradas’; c) não se limitariam às funções reivindicativas, mas deliberariam posicionamentos gerais sobre determinados temas políticos que deveriam ser seguidos pela administração municipal. Já a cúpula do PT, os técnicos petistas “de fora” e o prefeito defendiam a criação de conselhos de caráter “comunitário”(...) que adotassem mecanismos de funcionamento semelhantes aos dos movimentos populares’’. Julio Assis SIMÔES, “ O Dilema da Participação Popular – a etnografia de um caso” , p. 138 -139.
As fontes utilizadas são artigos de jornais da Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, em que procurarei identificar quais foram os temas e os problemas priorizados, analisando também o periódico local Diadema Jornal e os Informativos Municipais, elaborados pela assessoria de imprensa da PMD. Quanto à imprensa local, o ABCD Jornal, tinha uma linha editorial diferenciada, servindo como meio de discussão sobre a organização do PT, mas deixou de existir antes da administração Gilson Menezes. Circulou em Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema, entre 1975 e 1980, ganhando importância devido à cobertura das greves de 1978 e 1979. O Diário do Grande ABC, editado em Santo André, cobria a região do ABCDRM. Numa sondagem sobre alguns assuntos estudados neste trabalho, pude observar que este seguia a pauta da chamada grande imprensa, mas, devido ao tempo exíguo, não aprofundei a análise desse periódico, preferindo ater-me ao Diadema Jornal, pelo fato de focalizar mais detalhadamente os diversos grupos políticos e sociais do município, dando espaço aos partidos políticos atuantes na cidade: PT, PMDB, PTB e PDS, às Sociedades Amigos de Bairro, à Associação de Comerciantes e Industriais de Diadema e aos moradores, principalmente através da publicação das cartas dos leitores.
Trabalhei com o depoimento de Lais Fagundes Oreb, assessora de imprensa na gestão estudada, procurando analisar como se deu a relação entre o poder público, a imprensa local e a diária, e quais foram as formas de resistência encontradas pela administração para fazer frente às matérias que desmoralizavam a cidade, trazendo a imagem de “incompetência administrativa”, “desorganização” e “violência”. Procurei também discutir a importância dos informativos municipais como principal meio de comunicação entre governo e população.
não apenas no âmbito municipal, mas nacionalmente?Como a imprensa contribuiu para valorizar ou desvalorizar a atuação do PT? Quais foram os sujeitos sociais que tiveram maior visibilidade nas diferentes fontes analisadas? Em que contexto a gestão de Diadema foi criticada e/ou elogiada pela imprensa? Quais os acontecimentos e características enfatizados na história e na trajetória política de Gilson Menezes e nos componentes da Administração Municipal? A quem interessavam as notícias publicadas sobre Diadema?
Um fato importante a ser ressaltado é que o número de notícias veiculadas pelos jornais nesse período histórico é maior, se comparado aos períodos anteriores e posteriores à primeira administração petista. Cabe lembrar que em 1988, o PT ganhou as eleições na capital paulista e em outras cidades do ABCD, inclusive em Diadema, que de forma contextualizada, perdeu a importância e visibilidade que tinha no período em questão.
Na análise da imprensa, alguns autores foram referências fundamentais como Nelson Werneck Sodré ao afirmar que “um grande jornal, hoje, é uma empresa capitalista de grandes proporções” 9, o controle da informação está intrinsecamente relacionado ao controle do poder. De acordo com Fonseca, “Tal imprensa congrega pessoas, grupos, partidos e instituições representantes das classes sociais detentoras, gestoras e agregadas do capital” 10. Ao trabalhar com as fontes e atenta a estas particularidades e especificidades, identifico e analiso quais os valores e estruturas sociais foram priorizadas, procurando não ter uma visão reducionista da grande imprensa, ou seja, não a tratando apenas como instrumento de dominação ideológica de determinados grupos sociais, organizados em torno de princípios liberais, pelo fato de estarem estruturados como empresas capitalistas. Cabe lembrar que com o fim da censura do Estado, ao final da década de 70, o espaço ocupado pela imprensa alternativa foi, em parte, transferido para a grande imprensa. Embora existisse a censura empresarial, é importante analisarmos as estratégias utilizadas na abordagem de temas e posicionamentos políticos que nem sempre estavam em sintonia com o sistema vigente.
9 Nelson Werneck SODRÉ, História da Imprensa no Brasil, p. XI.
Em seu livro “O Jornalismo Canalha”, José Arbex destaca que “a mídia não é um muro compacto é perpassada por muitas contradições e embates ideológicos mesmo porque a opinião pública não é uma massa de argila que pode sempre ser moldada ao gosto dos meios de comunicação de massa. A mídia é muitas vezes obrigada a publicar notícias que contrariam os interesses imediatos de seus proprietários, ou mesmo a manter em seus quadros jornalistas que destoam da linha política geral adotada pelo jornal” 11.
Segundo Silvana Goulart, “Dentre as funções sociais básicas dos meios de comunicação ainda se destaca a atribuição de status a pessoas, organizações e movimentos sociais conferindo-lhes prestígio. Tal função insere-se no âmbito da ação legitimadora de políticas, pessoas e grupos...” 12 Neste sentido, analiso qual a importância dispensada aos diferentes sujeitos e movimentos sociais, identificando os aspectos que buscaram influenciar a opinião pública a respeito da administração de Diadema.
A imprensa escrita é uma das formas de estudar historicamente certas questões, mas é necessário criticá-la internamente, como sugere Renée Zicman: “devemos lembrar que na imprensa a apresentação da notícia não é uma mera repetição de ocorrências e registros, mas antes uma causa direta dos acontecimentos, onde as informações não são dadas ao azar mas ao contrário denotam as atitudes próprias de cada veículo de informação, todo jornal organiza os acontecimentos e informações segundo seu próprio ‘filtro’.” 13 Portanto procuro enfatizar nesta pesquisa, a interpretação que a imprensa fez dos fatos, observando formas de construí-los. Na análise dos jornais, estarei atenta à organização dos cadernos, ao diálogo entre textos e imagens e ao uso de recursos, como manchetes e fotografias. Pretendo observar quais problemas da cidade foram mais enfatizados, observando as ambigüidades da imprensa, procurando dar maior visibilidade às matérias que ganharam força nos jornais.
Com o intuito de conhecer a experiência de sujeitos que viveram diretamente as ações da Administração Pública e que trouxeram outros
11 José ARBEX, O Jornalismo Canalha, p.190.
elementos sobre a experiência do PT em Diadema, foram analisadas oito entrevistas de moradores que fizeram parte de diversos movimentos da cidade (saúde, habitação, moradia entre outros), participando também de movimentos como as Comunidades Eclesiais de Base e principalmente os Sindicatos. As entrevistas foram realizadas por pesquisadores do Centro de Memória de Diadema entre os anos de 1994 e 1997, mas o início e desenvolvimento dos movimentos ocorreram na década de 80. Por essa razão, os depoentes já fizeram uma avaliação dos mesmos, muitas vezes mostrando grande satisfação por sentirem-se sujeitos históricos responsáveis por mudanças significativas na cidade, não apenas do ponto de vista de conquistas materiais (luz, asfalto, entre outras), mas também na construção de novas relações sociais entre os moradores e, principalmente, com o poder público. Noutros casos, percebemos certa frustração e até decepção, por compreenderem que os movimentos poderiam ter avançado, buscando maior democratização nas relações políticas, econômicas e sociais, o que na avaliação de alguns depoentes, gerou um refluxo na década de 90.
Nas entrevistas, foram abordadas a trajetória de vida das pessoas, sua origem, a chegada ao município e a participação nos diversos movimentos. Alguns depoentes contextualizaram sua participação nos movimentos em Diadema com o ressurgimento do movimento sindical e na organização das Comunidades Eclesiais de Base, não apenas no ABC paulista, mas também na cidade de São Paulo. Muitos atuavam na Igreja, nos sindicatos e no Partido dos Trabalhadores, na década de 80. Situaram o crescimento populacional de Diadema com o processo de industrialização do ABC paulista, enfatizando a falta de estrutura da cidade nas décadas de 60 e 70, quando ocorreu o grande crescimento populacional e das favelas. Alguns iniciaram a luta nos movimentos antes da chegada do PT à Prefeitura do município.
Estas entrevistas servem como referência para compreender a relação da imprensa escrita local e da grande imprensa com esses movimentos sociais, observando se os agentes desses movimentos tiveram voz nesses órgãos.
trabalhar com a FSP, Jornal da Tarde e OESP, por terem uma cobertura regional, nacional e internacional. Posteriormente, recorri ao Arquivo do Estado de São Paulo, pois a forma como estão organizadas as reportagens no Banco de Dados da FSP dificultava a análise, impossibilitando saber se havia ou não chamada na primeira página, com muitas fotos recortadas, restando apenas o texto. Também observei qual o espaço que os artigos ocupavam no jornal, em que caderno ou seção estavam organizados, enfim, questões essenciais para a pesquisa.
Os informativos municipais foram pesquisados no Centro de Memória de Diadema. Apesar da boa vontade dos funcionários que lá trabalham, este local apresentou uma série de dificuldades para a realização da pesquisa, pelo fato de ter passado por um incêndio no ano de 2003. Desta forma, alguns informativos foram obtidos no Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, que também não possuía todas as publicações. O acesso à totalidade do material publicado só foi possível através do acervo da jornalista Lais Oreb, responsável pela assessoria de imprensa no período estudado.
Os informativos não tinham uma publicação regular. O primeiro foi editado em agosto de 1983, ou seja, seis meses após a administração tomar posse, mas constitui importante fonte de diálogo com a grande imprensa, por ser uma forma de divulgação das realizações da PMD. Nestes informativos, podemos identificar as prioridades da administração e também as citações referentes à grande imprensa, seja no sentido de defender-se de algumas denúncias ou utilizando os artigos para reforçar algumas medidas tomadas pela administração.
Analisando o Diadema Jornal constatei que servia como importante fonte de diálogo com a grande imprensa e os informativos municipais, uma vez que procurava dar ênfase à atuação da oposição ao poder executivo no município, principalmente o PMDB, ao mesmo tempo em que fazia a propaganda da atuação das secretarias estaduais em relação à Diadema. Um segundo fator é que esse periódico circulava apenas no município e era direcionado mais à classe média, principalmente aos comerciantes e profissionais liberais, que eram seus principais anunciantes, portanto, tinha uma circulação mais restrita do que a chamada “grande imprensa”, mostrando mais detalhadamente os diferentes interesses e posicionamentos político-partidários na cidade. Os informativos municipais davam maior destaque à atuação do poder público local junto à população mais pobre; já o DJ indicava, principalmente através das cartas dos leitores, como a atuação da PMD era avaliada por diferentes segmentos sociais.
Para a realização deste trabalho algumas leituras foram fundamentais, entre elas, destaco a “História da Imprensa no Brasil”, de Nelson Werneck Sodré, que faz uma análise da evolução da grande imprensa, vinculando-a com a história política do Brasil, desde o seu surgimento, no século XVIII, até os anos 1960. Esta foi uma leitura fundamental, por relacionar a história da imprensa com a história do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, contribuindo para a análise teórica e também metodológica, ao utilizar uma documentação extremamente rica, trabalhando a legislação, os anais e os processos jurídicos envolvendo jornalistas. Ela me auxiliou a compreender quem são os grupos produtores da chamada grande imprensa, imprensa local e Informativos Municipais e de que forma estavam relacionados aos grupos políticos predominantes no período. 14O autor analisa a Imprensa no Brasil,
mapeando os periódicos e estudando as relações destes com as campanhas políticas nos diversos momentos históricos, contribuindo significativamente para a pesquisa histórica que tem a imprensa como fonte básica. O autor também se preocupa em estudar o papel ocupado pela publicidade nos
periódicos, a importância da difusão e circulação dos jornais, bem como a análise do público a que se dirigem as publicações. No capítulo “O pensamento de Nelson Werneck Sodré sobre a imprensa e os meios de comunicação de massa no Brasil, nos últimos anos”, escrito especialmente para a última edição, de 1999, é analisada a relação entre a grande imprensa e o neoliberalismo nas décadas de 80 e 90, contribuindo para o aprofundamento teórico da pesquisa.
Eder Sader é outra referência teórica importante, na medida em que nos ajuda a refletir sobre um período histórico em que há grande mobilização política de trabalhadores de diferentes setores, estudantes, movimentos de bairro, liderados em grande parte por donas de casa, contra a carestia, a luta por creches, entre outras reivindicações, tendo como ponto comum a oposição ao regime político opressor.
A obra de Sader, “Quando Novos Personagens Entraram em Cena”, possibilita o conhecimento e compreensão dos movimentos sociais nas décadas de 70 e 80, e o papel que tiveram na luta pela democracia. Este trabalho tem como ponto central de análise as experiências do que o autor chama de “sujeito coletivo” 15 que buscou novos discursos e práticas na sua atuação.
São analisadas as novas formas de relacionamento desse sujeito coletivo com as instituições já existentes como a Igreja, os sindicatos e os partidos de esquerda. O chamado “novo sindicalismo”, compreendido como corrente renovadora que começou a questionar a organização sindical existente, segundo o autor “na origem, pois, dessa corrente, encontramos o impulso de um grupo de dirigentes sindicais no sentido de superar uma situação de esvaziamento e perda da representatividade de suas entidades e assumir as lutas reivindicativas de seus representados” 16 , ganhou espaço valorizando práticas concretas de atuação, denunciando a situação social vigente. As greves deflagradas no ABC paulista, a partir de 1978, ganharam repercussão na política nacional, mobilizando não apenas trabalhadores, mas diversas outras entidades da sociedade como a OAB, a Comissão de Justiça e
15 Para o autor, o sujeito coletivo indica “uma coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam práticas através das quais seus membros pretendem defender interesses e expressar suas vontades, constituindo-se nessas lutas”.
Paz, as entidades estudantis, os movimentos de bairro, entre outros. A leitura desse livro foi de importância fundamental para compreender as origens da administração petista em Diadema, visto que grande parte de suas lideranças surgiu dos diversos movimentos que se organizaram nas décadas de 70 e 80, principalmente do sindicalismo do ABCD paulista. Muitos dos objetivos e ações da administração municipal estavam relacionados aos objetivos e princípios defendidos por esses movimentos, como por exemplo, a luta pela participação popular e a democratização das relações de poder entre população e administração pública, que observamos na experiência da formação dos Conselhos Populares de Diadema, a organização dos movimentos (habitação, saúde, entre outros), bem como as formas de comunicação com a população, principalmente através dos informativos municipais, que procuravam dar maior transparência às realizações do poder público local.
O trabalho de Heloisa de Faria Cruz, “São Paulo em Papel e Tinta-periodismo e vida urbana – 1890-1915”, também foi extremamente importante, na medida em que desvendou a imprensa como campo de luta na constituição da vida pública da cidade, e também como espaço de gestação e manifestação de projetos sociais. Este ponto ficou muito claro no desenvolvimento da minha pesquisa, em que pude observar a posição de confronto da grande imprensa, principalmente no OESP E JT, com o Partido dos Trabalhadores, sendo claramente assumida ao relacionar as práticas e idéias do Partido associadas ora ao “totalitarismo”, ora ao “banditismo”. Várias outras questões discutidas na obra da autora acima citada foram fundamentais como: a análise da circulação tanto dos jornais da grande imprensa, da imprensa local, como dos Informativos Municipais; a importância da propaganda na imprensa, embora neste trabalho eu não tenha analisado o que representou em termos de renovação de linguagem, centrando a análise do que representava a propaganda em termos de sustentação dos periódicos, principalmente no Diadema Jornal.
compreende como “Uma prática social constituinte da realidade social, que modela formas de pensar e agir, define papéis sociais, generaliza posições e interpretações que se pretendem compartilhadas e universais”. Salienta a necessidade de investigação dos silêncios e omissões da imprensa, como os jornais narram o acontecido, necessidade de avaliação da freqüência com que sujeitos e assuntos aparecem nos jornais.
A obra de Júlio Assis Simões, “O Dilema da Participação Popular – A etnografia de um caso”, também contribuiu teoricamente para esta pesquisa. Fundamentada no período entre 1983 e 1988, no município de Diadema, situa a administração Gilson Menezes no quadro político-ideológico do Brasil, analisando as particularidades do PT enquanto partido surgido dos movimentos populares, gerando grande expectativa nos diversos segmentos sociais, uma vez que se propunha um governo “popular, transparente e democrático”, num contexto histórico ainda marcado pelo autoritarismo do regime militar.
O autor analisa as lideranças do município e as disputas políticas com a oposição e mesmo as lutas internas do PT, entre diretório municipal e entre os diversos setores do governo, que nos permitem melhor compreender as diferentes políticas adotadas no sentido de garantir a “participação popular” nas decisões administrativas. Descreve a história política do município, o que muito auxiliou na compreensão das relações existentes entre poder local e poderes estadual e federal. Também analisa o processo de ocupação urbana de 1950 até a década de 80, situando os principais problemas enfrentados pelo prefeito Gilson Menezes, principalmente no que se refere à urbanização de favelas.
Marilena Chauí é outra referência importante, quando se discute sobre PT e a imprensa da década de 80, até o momento de conclusão deste trabalho, em 2006. No artigo publicado na Folha de São Paulo em 16 de maio de 1983, analisou o papel da chamada “grande imprensa” frente à eleição de Gilson Menezes em Diadema, muitas vezes, “minimizando” o ocorrido ou tratando-o com certa “comicidade”, pelo fato de um operário aventurar-se a administrar uma cidade. Nesse artigo, Chauí chama a atenção para programas e ações do governo, que segundo sua ótica, caracterizaram “um governo de trabalhadores com trabalhadores”, que não mereceram destaque por parte dos jornais da imprensa paulistana. Vinte anos depois, diante das constantes denúncias ao Governo Luís Inácio Lula da Silva (2002-2006), intensificadas nos dois últimos anos do Governo, a filósofa aponta para o discurso utilizado pela mídia, que reforça a idéia “do tudo igual”, principalmente no que se refere à corrupção e a construção da “crise”, que segundo a mídia assola o Governo. 17
No capítulo 1, “Diadema, a cidade-laboratório do PT” 18, selecionei as matérias da grande imprensa que analisaram a administração de Diadema, tendo como foco o significado do PT no poder, uma vez que o partido trazia a concepção de uma nova forma de governar, buscando a participação popular. Procuro identificar quais foram as posições das diferentes fontes frente a um governo que se propunha a democratizar as relações de poder, identificando quais foram os sujeitos sociais que tiveram visibilidade.
A formação da assessoria de imprensa e a publicação dos Informativos Municipais foram analisadas no primeiro capítulo, por constituírem importante fonte de diálogo com a grande imprensa paulistana e o Diadema Jornal, sendo também um espaço de contestação das matérias que eram veiculadas pelos jornais paulistanos de circulação nacional, no caso o OESP, a FSP e o JT.
Priorizei os dois primeiros anos da gestão, em que havia uma grande expectativa de como seria a primeira experiência administrativa do Partido dos Trabalhadores, no sentido de verificar se realmente seria coerente com suas propostas de transparência, honestidade e governo participativo. O ano de
17 Marilena CHAUÍ. A Crise é um produto da mídia. Revista Caros Amigos, p. 30-37.
1986, em que ocorreram eleições para governador, também foi enfatizado. Devido ao fato de Diadema voltar a ser destaque na imprensa paulistana, procurei relacionar as notícias publicadas sobre a cidade com os editoriais dos jornais e com notícias do PT que foram publicadas nesse período, verificando se os problemas eram referentes apenas à cidade de Diadema ou se o alvo a ser atingido era o Partido dos Trabalhadores, uma vez que crescia nas intenções de voto para o governo do Estado de São Paulo.
Procuro discutir o papel da imprensa escrita em relação a um governo ligado aos movimentos sociais no período da abertura política, contextualizando a administração Gilson Menezes dentro do processo de reorganização da sociedade civil. Esse momento histórico é significativo na medida em que ganha força a ação direta da população, nesse contexto conforme afirma Eder Sader, com a “participação popular” fazendo parte do discurso dos partidos e movimentos de oposição ao governo, com a idéia de participação engajada à causa da justiça social. A eleição de Gilson Menezes em Diadema, em 1982, é de suma importância nesse contexto histórico, pois era um líder sindical, cassado no período da ditadura militar durante a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo - Diadema e, portanto, representante das lutas populares. Essa vitória eleitoral estava ligada aos movimentos que “foram um dos elementos da transição política ocorrida entre 1978 e 1985. Eles expressaram tendências profundas na sociedade que assinalavam a perda de sustentação do sistema político instituído(...). Havia neles a promessa de uma radical renovação da vida política.” 19
Alguns representantes da administração municipal e representantes do Partido dos Trabalhadores, em seus depoimentos citados nos artigos de jornais, deixam claro essa vivência e crença no movimento social, como observamos no trecho a seguir, que expõe a opinião de Luis Inácio Lula da Silva, então presidente do PT, sobre a nomeação dos secretários de Diadema:
mas levando em consideração seu compromisso com a luta da população”. 20
Este argumento de Lula indica um debate presente no social sobre o perfil dos dirigentes políticos onde a ênfase recai sobre a formação escolar como parâmetro para avaliar lideranças políticas. Os que não possuem formação universitária são freqüentemente julgados como incapazes para o exercício da vida pública, como afirma Heloísa de Faria Cruz “O domínio dos códigos letrados, ‘habilidade fornecida pelos bancos acadêmicos’ permeia o ‘discurso competente’ das elites e articula argumentos preconceituosos de desqualificação das elites populares”. 21 É um momento de enfrentar preconceitos e enfatizar a importância das lideranças que saem dos movimentos.
Para a realização desse trabalho, é fundamental analisarmos a posição dos jornais frente aos movimentos políticos e sociais que atuaram no processo de abertura política, mas temos que compreender, conforme nos aponta Laura Antunes Maciel, que afirma que a imprensa "assimila interesses e projetos de diferentes forças sociais que se opõe em uma dada sociedade e conjuntura, mas os articula segundo a ótica e lógica dos interesses de seus proprietários, financiadores, leitores e grupos sociais que representa”. 22
No capítulo 2, Imprensa- Diadema - Desafios Locais, analiso quais problemas da cidade foram priorizados pela grande imprensa, merecendo destaque a existência do grande número de favelas, constituindo aproximadamente 1/3 das habitações e o problema da violência, estudando como as diferentes fontes posicionaram-se no que se refere à atuação da administração diante dessas questões.
Procuro analisar qual a importância atribuída pela grande imprensa, pela imprensa local e pelos informativos municipais, no que se refere à atuação dos governos estadual e federal em Diadema, tendo em vista que representavam projetos políticos diferenciados. Outro ponto fundamental do segundo capítulo
19 Eder SADER. Quando Novos Personagens Entraram em Cena, p. 313. 20O Estado de São Paulo, 31/03/1983.
é a análise da visibilidade e o espaço que encontravam as Sociedades Amigos de Bairro, os Conselhos Populares e os movimentos populares nas diferentes fontes.
É fundamental analisarmos como se estruturou a cidade nesse período, que espaços e sujeitos sociais foram privilegiados pela imprensa, tendo sempre em vista, como nos aponta Laura A. Maciel, que "a leitura cotidiana, e crítica, dos jornais exige um exercício para desvendar e cotejar seus múltiplos textos, para estabelecer relações e nexos entre notícias apresentadas de forma tão fragmentada e hierarquizada, para buscar descobrir o que não é dito ou o que é apenas insinuado nas entrelinhas, esmiuçar significados em títulos e destaques que, às vezes, invertem ou até desautorizam o conteúdo das matérias; enfim para elaborar uma opinião e a crítica sobre a realidade em meio ao poder e à universalidade das representações elaboradas diariamente pelos jornais, precisamos realizar um trabalho árduo e uma intervenção ativa para lidar com uma narrativa sobre os acontecimentos que se apresenta como o próprio acontecimento, reivindicando uma condição de lugar de verdade na produção do entendimento sobre a realidade social” 23.
No capítulo 3, Gilson Menezes na Imprensa e a Questão da Nicarágua, analiso a construção da imagem de Gilson Menezes pela grande imprensa, pela imprensa local e pelos informativos municipais. A relação da administração com os ideais e governos socialistas é realizada através do estudo de artigos sobre o apoio da Prefeitura de Diadema ao Governo Sandinista, analisando o posicionamento das diferentes fontes frente a essa questão.
Este trabalho tem como objetivo contribuir na discussão das transformações pelas quais passou a cidade nos últimos 20 anos, abordando a ótica da imprensa. Muitos estudos já foram feitos sobre Diadema, privilegiando as diversas áreas de políticas públicas, onde a imprensa é citada, mas não constitui a principal fonte de estudo, como aqui será apresentada.
22 Laura Antunes MACIEL, “ Produzindo Notícias e Histórias: algumas questões em torno da relação
Capítulo 1
“DIADEMA, A CIDADE LABORATÓRIO DO PT ”
Neste capítulo, procuro analisar os artigos que avaliaram o projeto político do Partido dos Trabalhadores, tendo como ponto de partida a cidade de Diadema, na primeira experiência administrativa do PT, no Executivo Municipal, no Estado de São Paulo, em 1983 e 1984. Nesse momento, havia muita expectativa da grande imprensa e dos movimentos populares frente a um governo que se propunha popular e democrático. Em 1986, no contexto das eleições estaduais, essa experiência administrativa era vista como uma vitrine do PT. Utilizei como fontes os jornais: Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde, o Diadema Jornal e os Informativos Municipais.
O estudo da formação da assessoria de imprensa e a caracterização dos Informativos Municipais foram desenvolvidos neste capítulo, por constituírem o principal meio de comunicação entre a administração e a população, sendo também importante fonte de diálogo com a “grande imprensa” e o Diadema Jornal, dando visibilidade às realizações do poder público municipal em diversas áreas de atuação.
A primeira administração petista esteve inserida no contexto nacional dos governos João Baptista Figueiredo (1979-1985) e José Sarney (1985-1990), período marcado pela abertura política e pelo fortalecimento dos movimentos populares, onde campanhas nacionais se consolidaram, como por
23 Laura Antunes Maciel, “Produzindo Notícias e Histórias: algumas questões em torno da relação
exemplo, a luta pela Anistia em 1979, a Campanha pelas Diretas Já, que culminou em 1984, e a convocação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte para 1986, aprovada em outubro de 1985, através da Emenda Sarney. Essas lutas uniram diferentes partidos políticos, apesar das divergências político-ideológicas já existentes.
De acordo com Maria Helena Moreira Alves, a política de abertura do Governo João Baptista Figueiredo era definida “de modo a limitar a participação de setores da população até então excluídos e permitir que o Estado determine qual é a oposição aceitável, e qual é intolerável. Grupos ligados aos movimentos sociais de trabalhadores e camponeses, fossem seculares ou vinculados à Igreja, enfrentaram repressão contínua e sistemática” 24.
A partir da revogação do Ato Institucional nº. 5 25, os movimentos populares e as organizações de base se reestruturaram, ocorrendo alianças entre as Comunidades Eclesiais de Base e o “novo movimento sindical” na luta pela democratização do governo. O Partido dos Trabalhadores surgiu da organização desses movimentos de base e do novo sindicalismo.
Em sua obra “Estado e Oposição no Brasil”, Maria Helena Moreira Alves ressalta que “O Partido dos Trabalhadores (PT) cumpriu as exigências legais, em 1980, em 20% dos municípios de 12 Estados. No final do ano seguinte o partido atingira o nível mínimo de organização em um quinto dos Municípios de 19 Estados, com cerca de meio milhão de filiados. Era, portanto, o terceiro maior partido de oposição. O PT nasceu das greves de 1978, 1979, 1980, em estreita ligação com os movimentos de base rurais e urbanos e com a ação social dos católicos progressistas. (...) Partido mais nitidamente de classe, o PT congregou uma série de movimentos sociais, membros de associações de moradores, comunidades de base, ativistas camponeses e sindicais. Contava também com o apoio de intelectuais oposicionistas e de parte do movimento estudantil. Por influência talvez dos animadores católicos, o PT adotou uma forma de organização muito semelhante à das comunidades de base.
24 Maria Helena Moreira ALVES, Estado e Oposição no Brasil– 1964-1984, p.273.
Compunha-se de células organizadas ao nível das bases – os núcleos-, encarregados da organização e administração do partido” .26
No período de 1983 a 1988, a grande imprensa deu visibilidade ao município de Diadema. Havia na cidade e fora dela muita expectativa, uma vez que pela sua origem e concepção de poder, o PT diferenciava-se dos demais partidos, por manter uma relação mais estreita com os movimentos de base, principalmente com o movimento operário, participando ativamente das lutas sociais, não ficando restrito às disputas eleitorais e parlamentares. Durante a década de 90, as reportagens sobre a administração municipal diminuíram consideravelmente, pelo fato do Partido dos Trabalhadores ter vencido as eleições em diversas cidades, inclusive São Paulo.
Os artigos publicados pela Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde durante a gestão Gilson Menezes, abordavam uma série de questões sobre a administração, que muitas vezes ultrapassavam os limites da cidade de Diadema e referiam-se às propostas do projeto político do PT. Neste capítulo, analiso o diálogo que estabeleceram com a imprensa local e os Informativos Municipais.
Inicialmente, os artigos da grande imprensa paulistana ressaltavam que Diadema testaria a primeira administração petista do Brasil. Além desse município o PT venceu em Santa Quitéria, uma pequena cidade do Maranhão.
A “incapacidade administrativa”, segundo a grande imprensa, era enfatizada por vários artigos publicados principalmente pelo OESP e JT, ressaltando o clima de terror existente em Diadema com aqueles que não concordavam com as idéias do Partido dos Trabalhadores. Esses periódicos priorizavam a questão dos escândalos envolvendo a gestão pública, com o favorecimento de alguns membros do governo municipal e do Partido. Os conflitos entre a administração e os servidores também mostravam, segundo os jornais citados, a “incoerência e contradição” do PT enquanto governo e como oposição, pelo fato do Partido ter surgido do movimento sindical, mas enquanto administração entrava em confronto com o movimento dos funcionários municipais, que reivindicavam seus direitos.
Houve a necessidade da organização de uma assessoria de imprensa do Governo Municipal para acompanhar, contestar e pedir esclarecimentos sobre as publicações jornalísticas e também para divulgar as realizações da Prefeitura, prestar contas e esclarecimentos à população, através de um meio próprio de comunicação. O principal veículo para esse fim foi o Informativo Municipal, que se constituiu num importante material para compreendermos o momento de redemocratização do país, em que novos sujeitos políticos atuavam em novos espaços políticos, ultrapassando os limites da democracia representativa.
Além de se conhecer os problemas existentes no município, através dos informativos municipais, percebe-se a preocupação em chamar a atenção da população para o debate de temas fundamentais para a sociedade brasileira, como a Campanha das Diretas Já e a participação na Constituinte, ou seja, a prefeitura não apenas administrava a cidade, mas estava engajada nas lutas pela democratização do país, dentro de um projeto que visava uma sociedade igualitária e participativa não só nacionalmente, mas também com as lutas internacionais, como a Campanha de Solidariedade à Nicarágua.
Os Informativos Municipais tinham como principal objetivo divulgar as ações da PMD, ressaltando a atuação e os projetos dos diversos departamentos, salientando os Conselhos Populares, marca da gestão administrativa baseada na participação popular. Sua circulação era restrita ao município e procurava atingir os diversos segmentos sociais, através de uma linguagem e composição gráfica de fácil acesso e distribuição gratuita nos equipamentos da prefeitura, diferindo da grande imprensa e imprensa local, comercializadas nas bancas.
Menezes também foi muito importante, embora não tenha sido gravado por razões técnicas, mas mesmo assim, trouxe elementos que mostraram a importância da experiência sindical no trabalho da assessoria de imprensa.
No início da administração municipal não havia canais de comunicação com a população, como boletins ou jornais. O primeiro Boletim Informativo foi publicado em 15 de agosto de 1983, ou seja, seis meses após a posse de Gilson Menezes, e trazia os principais objetivos da gestão:
“A Prefeitura resolveu fazer um boletim informativo para que a população saiba o que a Administração Gilson Menezes anda fazendo. Em cada número vamos contar o que está acontecendo nos vários Departamentos e o que a Prefeitura está oferecendo à comunidade. Diadema é um município com sérios problemas de longos anos e a atual Administração já está resolvendo alguns, mas para isso, precisa da ajuda da população que deve organizar-se e reivindicar melhorias não só para si, mas para todos” 27.
Esse documento ressalta a posição da Administração frente à necessidade de organização da população, ou seja, chama os moradores a reivindicarem melhores condições de vida no município, não para resolverem os problemas individualmente, mas salientando sempre o caráter coletivo da luta e das reivindicações. Essa “matriz discursiva” 28está presente tanto nas Comunidades Eclesiais de Base como no novo sindicalismo dos anos 70, na medida em que existia uma convocação para a luta através da comunidade, de grupos solidários em busca de decisões conjuntas.
A década de 80 foi marcada pelo surgimento do novo sindicalismo e também pela ligação que existia entre os diversos sindicatos que começaram a se reorganizar na busca de interesses que tinham como objetivo a
27Boletim Informativo n°1, 15/08/1983.
redemocratização do país. A estruturação da assessoria de imprensa da Prefeitura de Diadema é um bom exemplo.
Ao ganhar a eleição, Gilson Menezes solicitou a Davi de Moraes, então presidente do sindicato dos jornalistas de São Paulo, que indicasse alguns nomes para a assessoria de imprensa do município de Diadema. A jornalista Lais Fagundes Oreb foi convidada para ser responsável por esse setor, conforme depoimento dado pela mesma. Antes do governo petista, o assessor de imprensa do prefeito Lauro Michels, que antecedeu essa gestão, era também o proprietário do Diário do Grande ABC, importante jornal regional. A principal função desse assessor era ser porta-voz do prefeito, não existindo uma estrutura que possibilitasse a cobertura de todas as ações da prefeitura.
É importante indicarmos as principais lideranças políticas da cidade antes da eleição de Gilson Menezes, para melhor compreendermos o significado da administração petista. 29
A emancipação política de São Bernardo do Campo ocorreu em 24 de dezembro de 1958, através de um plebiscito, e em 1960, foi realizada a primeira eleição municipal. Desde essa data até a administração do Partido dos Trabalhadores ,em 1983 , Diadema passou por cinco administrações. Julio Assis Simões analisa que “a criação de novos municípios e distritos fez parte, inicialmente da estratégia de liberalização política conduzida por Getúlio Vargas, a fim de rearticular alianças no plano local com vistas à restauração da competição eleitoral (suprimida pela ditadura estadonovista). No período democrático, a criação de municípios permaneceu um importante instrumento nas transações efetuadas por lideranças estaduais e federais para reestabelecer bases de apoio locais”. 30
O primeiro prefeito de Diadema foi o professor e contador Evandro Esquível, um dos emancipadores mais ativos do município. Exerceu seu primeiro mandato de 1960 a 1964, eleito pelo PTN (Partido Trabalhista Nacional), segundo Julio de Assis Simões “um dos braços do janismo”.
29 As informações sobre os prefeitos de Diadema e suas respectivas administrações foram obtidas no livro
“Diadema: sua História”, escrito por Sylvia Ramos Esquível, ex-primeira-dama do município, na obra
“O Dilema da Participação Popular” de Julio de Assis Simões e também no livro” De Menor a
Esquível tinha grande influência junto aos sitiantes e comerciantes de Vila Conceição, um dos bairros que compunham Diadema. Tinha grande rede de contatos na cidade e fora dela, principalmente devido a atividades relacionadas a transações comerciais de terras na região. Antes de ser prefeito exerceu o mandato de vereador em São Bernardo do Campo em 1947. Aumentou seu prestígio por ter implantado um curso de alfabetização de adultos na Vila Conceição, por ter sido o responsável pela construção da Casa Paroquial e do cartório, na década de 50. Desde esse período, lutou pela emancipação de Diadema.
Na primeira eleição em 1960, concorreu com o adhemarista Lauro Michels, do PSP (Partido Social Progressista), que durante os anos 60 e 70, tornou-se um importante político local, além de ser pecuarista e empreendedor imobiliário. Vencendo por uma pequena diferença de votos, na sua primeira gestão Esquível concedeu isenção de impostos para empresas que se instalassem na cidade por um período de até seis anos, medida que acarretou um crescimento industrial e urbano.
Esquível e Michels consolidaram-se como importantes políticos e disputaram o poder até a década de 70, procurando o apoio de lideranças locais e dando grande estímulo à formação de associações de moradores, que serviam como base eleitoral.
Lauro Michels exerceu a segunda gestão de Diadema no período de 1964 a 1968, também estimulando o desenvolvimento industrial do município, atraindo indústrias de pequeno e médio porte, voltadas a complementar as montadoras de automóveis que se estabeleceram em São Bernardo do Campo. O Governo Municipal facilitava a aquisição de terrenos e se comprometia a providenciar infra-estrutura urbana.
Estado, ao norte do município e, sobretudo da represa Billings ao sul”. 31Os primeiros gestores deram maior atenção aos incentivos fiscais para a instalação de indústrias do que para a regulamentação do uso do solo urbano, o que fez com que os problemas se agravassem dado o grande afluxo de pessoas que chegavam aos municípios, atraídos pela industrialização.
Ricardo Putz, com o apoio de Michels, foi eleito prefeito e governou de 1973 a 1977 De acordo com Julio Assis Simões, “surgiu como representante de lideranças de camadas médias – professores, funcionários públicos, pequenos industriais e comerciantes em ascensão no município – empunhando a bandeira da ‘renovação’”. 32Elaborou o plano diretor de zoneamento, concluiu a construção do Paço Municipal e pressionou o Governo Estadual para ampliar o número de escolas no município. Em sua gestão, iniciou um programa de apoio à moradia econômica, assessorando projetos de auto-construção. Ao enfrentar algumas restrições, por ser considerado prefeito da oposição, Putz aderiu à ARENA, o que causou reações do MDB local.
Em 1976, Lauro Michels foi novamente eleito pelo MDB, governando de 1977 a 1983. No seu mandato, priorizou projetos de urbanização nas áreas centrais, onde se localizava grande parte do comércio. Iniciou o saneamento básico da cidade e construiu o prédio da divisão de cultura, composto de biblioteca e teatro, além do ginásio esportivo. Essas construções localizavam-se no centro do município, contrastando com a pobreza das regiões periféricas.
Assim como Putz, Michels também se desligou do PMDB e aproximou-se do governo Maluf, eleito pela ARENA, para obter financiamento para obras por ele consideradas sociais, como a construção de postos de puericultura. De acordo com Simões ao final do governo, em 1982, Diadema já possuía 300.000 habitantes, sendo que um terço morava em favelas: “A crise econômica nacional do início dos anos 80, repercutiu imediatamente em Diadema, com o fechamento de pequenas indústrias e o aumento do desemprego. Foi com este quadro pouco promissor que a gestão Gilson Menezes teve de se defrontar de saída” 33.
Os problemas de Diadema eram inúmeros no início da década de 80. Segundo o documento “PT Diadema – 21 anos com você”, para que o Partido dos Trabalhadores pudesse concorrer às eleições municipais, era necessária a filiação de 600 pessoas. Em junho de 1981, 775 pessoas filiadas ao Partido realizaram a Convenção Municipal, que indicou Gilson Menezes para prefeito. Pela legislação eleitoral do período o mesmo partido podia inscrever mais de um candidato, vencendo o mais votado dentro da legenda com maior número de votos. Com isso muitos partidos inscreveram até três candidatos, como podemos observar:
Resultados da votação para prefeito de Diadema, em 198234
Candidatos/Partidos Nº Absoluto de Votos % Gilson Menezes PT 23.310 23.310 27,80
Romeu C .Pereira Orlando Annibal Francisco Guillen PMDB 11.411 6.525 4.696 22.632 13,61 7,78 5,60 26,99 Marion Magali Jorge Ferreira Ricardo Putz PTB 14.155 4.680 3.108 21.943 16,88 5,58 3,71 26,17 PDS (Eiziro Okasaki) 4.277 5,10
PDT 100 0,12
Brancos Nulos
3.610 4,30
TOTAL 83.838 100,00
Fonte: Tribunal Regional Eleitoral
As administrações anteriores a Gilson Menezes adotaram políticas de expansão industrial e priorizaram o investimento nas áreas centrais do município, sendo que a rápida expansão urbana não foi acompanhada com obras de infra-estrutura.
Assumindo o poder municipal em 1983, Gilson enfrentou sérios problemas principalmente nas regiões periféricas, como por exemplo, a falta de saneamento básico e a necessidade de urbanização das favelas. Para resolver esses problemas, era necessário criar canais de comunicação com a população, buscando maior participação na definição de prioridades. O primeiro passo para essa aproximação entre poder público e munícipes foi a formação da assessoria de imprensa.
Na entrevista de Laís Oreb, responsável pela assessoria de imprensa, ela deixa claro que seu papel não era de porta-voz do governo, mas sim a de facilitar o acesso da imprensa ao governo e vice-versa.
“Quando eu fui para lá então o que existia era uma sala, uma máquina de escrever elétrica e duas escrivaninhas, (...). Aí me arrumaram uma secretária e era uma secretária para atender telefone, ela começou ao mesmo tempo a recortar jornal, a fazer um arquivo de jornais, que é imprescindível numa assessoria de imprensa não só arquivar, como fazer um caderninho, que a gente chamava de caderninho. Nós fazíamos um caderninho diário de todas as matérias que tinham saído de Diadema, ou então de alguma coisa assim muito importante a nível político tanto nacional como estadual e mandava xerocar e aí mandava para o prefeito e depois para os secretários. Na época não eram secretarias, eram departamentos, mas os então na época secretários também começaram a pedir os nossos caderninhos, então essa menina que era secretária todo dia de manhã ele já chegava recortava tudo que tinha saído sobre Diadema, mandava xerocar, fazia os caderninhos, mandava entregar nos departamentos e deixava para o prefeito ler.”
através de um esforço individual e posteriormente da equipe, para estruturar esse departamento.
“O primeiro informativo fui eu que fiz na máquina elétrica , inclusive eu fiz num final de semana, porque como a confusão lá era muito grande, então eu fui num sábado e levei meu filho para poder fazer o boletim tranqüila (...)”.
Boletim Informativo nº. 1 publicado em 15 de agosto de 1983.