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Alessandra Negrão Elias Martins

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Academic year: 2018

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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC/SP

Alessandra Negrão Elias Martins

Mediação Familiar Para Idosos em Risco:

Mapeamento de uma Prática da Promotoria de Justiça Cível do

Foro Regional de Santo Amaro São Paulo (SP)

MESTRADO EM GERONTOLOGIA

(2)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC/SP

Mediação Familiar Para Idosos em Risco:

Mapeamento de uma Prática da Promotoria de Justiça Cível do

Foro Regional de Santo Amaro São Paulo (SP)

Dissertação de Mestrado apresentada junto ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Gerontologia, realizado sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Vera Lúcia Valsecchi de Almeida.

Alessandra Negrão Elias Martins São Paulo

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BANCA EXAMINADORA

___________________________

___________________________

(4)

RESUMO

Fundamentado na visão positiva do conflito como algo natural e inerente às relações humanas, este passa a ser trabalhado de forma construtiva. A Resolução 125 do Conselho Nacional de Justiça, como Política Pública, ampliou o acesso à Justiça, como acesso a ordem jurídica justa, com a possibilidade da utilização dos métodos adequados de solução de conflitos

entre os quais a “mediação”. Diversos são os modelos de mediação; um deles

é o Transformativo, fundamentado nas relações interpessoais e familiares, no empoderamento e no reconhecimento do outro. A mediação é desenvolvida em diversos contextos, a exemplo do familiar e é exercida com base na interdisciplinaridade. O mediador é um técnico imparcial e facilitador da comunicação. No contexto familiar a mediação trabalha com idosos em situação de risco. Reflete-se sobre os conceitos de família e envelhecimento –

plurais – ou seja, únicos para cada pessoa. As mudanças familiares repercutem nos cuidados dos filhos e dos idosos dependentes de cuidados. O Projeto de Mediação Para Idosos em situação de Risco acontece desde 2011, na Promotoria Cível do Foro Regional de Santo Amaro, São Paulo, com a possibilidade da utilização da mediação nos conflitos familiares presentes nos Procedimentos Administrativos encaminhados à Promotoria de Justiça, com idosos em situação de risco. Via de regra, os idosos se encontram em situação de risco por abandono moral e/ou material em seus cuidados. Como mediados temos, em geral, o idoso em risco, familiares, cuidadores e conviventes. A equipe de atendimento é composta por mediadores voluntários que atendem em campo com a utilização da equipe reflexiva. Foram analisados de forma qualitativa os resultados dos casos atendidos em mediação. Foram constatadas a voluntariedade da não adesão e a ausência de mudanças significativas, além de transformações como acordo, termo de entendimento, comunicação, cuidados ao idoso e convivência familiar.

(5)

ABSTRACT

Based on a positive understanding of conflict as something natural

and inherent in human relationships, conflict isnow being addressed

constructively. Resolution #125 passed by the Brazilian National

Council of Justice as a Public Policy has increased access to

Justice, such as the access to fair legal order, with the possibility of

using appropriate conflict resolution methods including mediation.

Several mediation methods are now in place. One such method is

Transformative Mediation, which is based on interpersonal and

family relationships, personal empowerment and recognition of the

other. Today, this interdisciplinary method of mediation is being

used in different contexts, such as the family. The mediator acts an

impartial third party and as a facilitator of the communication

between the conflicting parties. Within the context of the family,

mediation can also be applied to elderly at risk. This is reflected on

the concepts of family and aging that are unique to each person.

Changes within the family have an impact on the care of children

and dependent elderly. The Mediation Project for At-Risk Elderly

was first introduced in 2011 as an initiative of the Civil Prosecutor’s

Office at the Regional District Court of Santo Amaro in the city of

São Paulo to use mediation in family disputes through

Administrative Proceedings forwarded to the Prosecutor's Office

when elderly parents are at risk. As a rule, these elderly people are

at risk due to moral and/or material abandonment. Typically, the

mediation sessions are attended by the at-risk elderly, their family

members, caregivers and cohabitants. The team of mediators

consists of volunteer professionals who act as co-mediators and

reflecting team. The results of the mediation cases conducted by the

team were analyzed qualitatively. A few variables were taken into

account, such as non-adherence to mediation and no significant

changes between the parties after the mediation sessions, as well

as the transformation of the conflict leading to an agreement

between the parties and signing a memorandum of understanding,

improvement in their communication, in the care of their elderly and

their family life.

(6)

AGRADECIMENTOS

Quero agradecer a todos que colaboraram para que esta dissertação de mestrado fosse possível. Sou muito grata!

À minha orientadora Prof. Dr.ª Vera Lúcia Valsecchi de Almeida por toda amizade e dedicação; com ela foi possível desenhar os caminhos a serem seguidos.

À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/ SP, em especial ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia Social, pela oportunidade da realização deste trabalho. Agradeço aos Professores do Programaque muitos contribuírampara minha trajetória: Dr.ª Vera Lúcia Valsecchi de Almeida, Dr. Paulo Renato Canineu, Dr.ª Salma Tannus Muchali, Dr.ª Beltrina Côrte, Dr.ª Ruth Gelehrter da Costa Lopes, Dr.ª Flamínia Manzano Moreira Lodovici, Dr.ª Maria Helena Villas Bôas Concone,Dr.ª Elizabete Mercadante e Dr.ª Suzana Carielo da Fonseca; suas vozes, inspirações e ensinamentos estão neste estudo.

Também agradeço, em especial, à Prof. Dr.ª Cíntia Möller Araujopelas ricas contribuições na minha qualificação.

À Fundação CAPES(Comissão de Aperfeiçoamento do Nível Superior)pela bolsa concedida para o desenvolvimento de meu mestrado.

À minha família - Marcelo, João Victor e Ana Beatriz - pela compreensão da minha ausência, aos meus amados paisDirce e José Antônio,à irmã Michele e sobrinhos - Gustavo e João Pedro -pela compreensão da saudade, neste período de estudos.

Às queridas Mestras“minhas mães da mediação”: Violeta Daou e Marta Marionipelo convite paraauxiliar na construção de uma prática de mediação e por toda colaboração nesta construção.

(7)

À Dina Freitas, amiga mediadora quefez toda a interlocução para que iniciássemos a construção desta prática.Àamiga mediadora Karin Kansog por todos os conhecimentos eajuda na elaboração conjuntado Projeto de Mediação.

Aos queridos mediadores integrantes da equipe de atendimento Heloísa Desgualdo, Ana Luísa Coutinho, Gabriela Leifert, Adriana Scoz, Silvia Hidal pela amizade eespírito de colaboração e construções. Aos queridos amigos mediadores João Moris, Márcia Caron e Malu Americano pelas contribuições que deixaram a esta prática.

Aos Oficiais da Promotoria de Justiça Cível em Santo Amaro: Antônio Batista, Cristina Freitas, Lenira da Silva, Helena Antonoff, Marinez Chan e Solange Costa, que colaboram paraa realização dos encontros de mediação e muito ajudarampara que a pesquisa documental fosse possível.

Às famílias atendidas na mediação por compartilharem suas : histórias, construções e realidades possíveis.

(8)

DEDICATÓRIA

 À Deus sempre presente no meu caminhar e à cultura depaz

 À minha querida orientadora, Prof. Dr.ª Vera Lúcia Valsecchi de Almeida, pela possibilidade da concretização deste sonho, pelas valiosas contribuições.Que este trabalho possa traduzir seu precioso olhar

 Aos meus amores Marcelo, João Victor e Ana Beatriz pela família e histórias construídas e em contínuas construções

 Aos meus pais por todos os meus valores e pela minha história

(9)

“Todos estamos matriculados na escola da vida, onde o

mestre é o tempo”.

(10)

1 SUMÁRIO

PALAVRAS INICIAIS 02

1.JUSTIFICATIVA 04

2.OBJETIVOS 09

3. ABORDAGEM METODOLÓGICA E PROCEDIMENTO DE

COLETA DE DADOS 10

4. REVISÃO DA LITERATURA 12

4.1 Conflitos 12

4.2. Princípio do Acesso à Justiça 14

4.3. Meios de Composição de Conflitos 16

4.4.Métodos Consensuais de Solução de Conflitos por

Autocomposição e por Hetorocomposição. 17

4.5.Outros Métodos Consensuais de Solução de Conflitos 20

4.6.Resoluções 22

5. MEDIAÇÃO 23

5.1. Contextualização 23

5.2. Escolas ou Modelos de Mediação 26

5.3. Mediação Familiar 30

6.

Envelhecimento: questões e reflexões

33

6.1. Processo, Visibilidade, Tempo e Educação 33

6.2. A Família e o Idoso 41

6.3. Fragilidade, Violência, Vulnerabilidade e Riscos 50

6.4. Proteção e Rede de Cuidados 53

7. DESENVOLVIMENTO DO PROJETO DE PESQUISA 56

7.1. História do Projeto de Mediação Para Idosos em Situação

De Risco 56

7.2. Sujeitos do Processo de Mediação 59

7.3. Desenvolvimento do Projeto 60

8. DINÂMICA DOS ENCONTROS 62

8.1. Relato das Histórias ou Fase das Narrativas 64

8.2. Construção da Agenda 66

8.3. Encerramento do Processo 67

9. Resultados Possíveis 67

9.1. Análise dos resultados 87

9.2. Conquistas, Desafios, Limites e Utilidades 91

10. Estudos de Casos 94

Considerações Finais 105

BIBLIOGRAFIA 109

(11)

2

PALAVRAS INICIAIS

Na atualidade surgem novos paradigmas com relação ao envelhecimento e à velhice; paradigmas que objetivam qualidade de vida e envelhecimento ativo e saudável.

No Brasil, nos últimos anos, muitas mudanças ocorreram na instituição família, com novos arranjos e várias formas antes inexistentes. Também se constatam transformações com relação à natalidade; famílias cada vez menos numerosas, além da conquista da mulher por novos lugares no mercado de trabalho.

Com relação aos idosos, muitas mudanças positivas aconteceram nos últimos anos; mudanças relacionadas à saúde e à qualidade de vida. Paralelamente a esse panorama positivo a valorização da velhice na nossa cultura ainda é uma realidade controversa. O lugar do idoso nas famílias e sociedade não é claramente definido; os idosos ainda vivenciam muitas perdas com relação aos seus espaços, fato constatado também no mercado de trabalho.

Assim, importa refletir sobre o envelhecimento como um processo que acontece como qualquer fase natural da vida, com perdas e ganhos (LUFT; 2012); processo a um só tempo individual e coletivo. Afinal, há “velhices” e há a “velhice” de cada um. A compreensão do idoso impõe um olhar ampliado: quem ele é? em qual sociedade se insere? como é sua família? Responder a estas questões é, entre outras, tarefa da Gerontologia Social.

(12)

3 São conflitos que chegam, em número expressivo, na Promotoria de Justiça Cível da cidade de São Paulo, lócus da prática de mediação que é realizada com idosos em conflitos familiares que se encontram em situação de risco. Este projeto de Dissertação de Mestrado objetiva investigar estes conflitos e os resultados da mediação realizada por mediadores voluntários na Promotoria Cível do Foro Regional de Santo Amaro – São Paulo. Por tratar-se de um tema que extrapola, em muito, o âmbito jurídico, o olhar da

Gerontologia Social – como área de conhecimento interdisciplinar – torna-se fundamental.

(13)

4

1. JUSTIFICATIVA

Apesar de recente a mediação com idosos é, no Brasil, uma prática que já existente em diversos locais, a exemplo de:

Santo André (São Paulo) na Ordem dos Advogados do Brasil,38ª subseção, realizada pela Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa em parceria com a Comissão de Mediação.

Sorocaba (São Paulo): o CRI (Centro de Referência do Idoso) Dr. José Mussi acolhe e encaminha denúncias e de idosas vítimas de maus-tratos. O CRI é coordenado pela Secretaria da Cidadania (SECID) em parceria com o Fundo Social de Solidariedade (FSS); conta com uma equipe multidisciplinar com vários serviços, dentre os quais assistência jurídica e mediação.

Distrito Federal, conforme pesquisa realizada por VALE (2010, p. 14) idosos em situação de violência intrafamiliar são atendidos na Unidade Mista de Taguatinga, dentre as ações do serviço especializado em Geriatria e Gerontologia estão: “reuniões com familiares e equipe multiprofissional para mediação de conflitos entre idosos e cuidadores em situação de violência familiar”;

Ceará: pelo Ministério Público do Estado, segundo GONDIM (2012, p. 11):

É possível afirmar que no Estado do Ceará os conflitos familiares são resolvidos por meio do exercício da mediação familiar tanto no âmbito comunitário como no judicial. A mediação familiar-comunitária é aplicada através do Programa dos Núcleos de Mediação Comunitária do Ministério Público do Estado do Ceará que, desde 1999, ainda quando eram Casas de Mediação, exercem a mediação sob o trabalho voluntário de mediadores capacitados que auxiliam famílias e comunidades a refletirem sobre a realidade do conflito, encontrando assim, a possibilidade de identificar as reais necessidades para a busca do bom senso diante da lide.

(14)

5

envolvendo o idoso, na busca do fortalecimento da cidadania e do empoderamento dos idosos”1.

Alagoas, em Maceió, no Centro Integrado de Combate à Violência contra o idoso, conforme ALENCAR (2010; s/p):

A atuação do centro se estende à mediação dos mais variados casos de violência contra idosos, especificados como: violência física, maus-tratos, abuso psicológico, violência psicológica, sexual e abandono, entre outros tipos de violência contra a população maior de 60 anos.

Minas, com o Programa de Mediação de Conflitos

Pelo governo local que visa promover a resolução extrajudicial de conflitos e o acesso à justiça, por meio de mediações interpessoais e coletivas, orientação articulação e fomento à organização comunitária e institucional. Atua em comunidades marcadas por violações recorrentes aos direitos fundamentais, entre os quais os conflitos contra idosos (Fonte: Instituto Elo).

Santa Catarina, em Florianópolis, pelo Centro Integrado de Atenção

e Prevenção à Violência contra à Pessoa Idosa (CIAPREV), é um programa da Prefeitura executado pela Secretaria Municipal de Assistência Social composto por uma equipe multiprofissional que entre suas ações desenvolve a mediação de conflitos familiares

Paraná, em Cornélio Procópio, no Centro Integrado de Atenção à Violência contra à Pessoa Idosa

 No Rio Grande do Sul em:

- Bagé, pela Mediação Comunitária;

- Pelotas, pelo Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (CEJUSC) com um grupo de trabalho para atendimento de pessoas idosas.

1

Realizada pelo Centro Integrado de Apoio e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa - CIAPVI O CIAPVI – “projeto da Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República, em parceria com a Defensoria Pública do Estado do Maranhão - é um espaço de garantia de direitos à pessoa idosa e seus familiares. O CIAPVI desenvolve ações de cidadania por meio de atendimento social, psicológico, terapêutico ocupacional e gerontológico, visando à proteção do idoso e ao enfrentamento da violência contra idosos. Realiza ainda mediações e conciliações de conflitos, ações educacionais e culturais. Disponível em:

(15)

6  Pernambuco, em Recife pelo Centro Integrado de Prevenção e Violência à Pessoa Idosa dentre seus objetivos desenvolve o “serviço de mediação de conflitos para os envolvidos no caso “.

Na cidade do Rio de Janeiro: pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro com o Grupo de Mediação e Resolução de Conflitos – GMRC:

O Grupo atua nas mais diversas áreas das relações humanas, tais como, tutela coletiva do meio ambiente, saúde pública, consumidor e políticas públicas, cível, família, infância e juventude, mediação escolar, JECRIM, violência doméstica, conflitos de vizinhança, entre outros 2

Na cidade de São Paulo:

- o Projeto Cantareira de Mediação Penal Interdisciplinar é pioneiro3: de iniciativa do Promotor Airton Buzzo Alves acontece desde 2005 .O propósito do projeto é intervir nos conflitos originados de infrações penais de menor potencial ofensivo, disciplinados pela Lei nº 9.099/95, e caracterizados pelo envolvimento de pessoas com relação continuada, buscando o restabelecimento do diálogo, a transformação dos mediandos e a paz social. Os Promotores de Justiça Criminais de Santana selecionam feitos referentes às infrações penais de menor potencial ofensivo e com a característica marcante de envolver pessoas do mesmo ambiente de convivência, não só na denominada violência doméstica de gênero, mas também conflitos entre pais e filhos, contra idosos, entre vizinhos, entre colegas de escola, entre locador e locatário e do ambiente de trabalho, vale dizer, selecionam conflitos cujos atores são pessoas que mantém relação continuada.

- no contexto cível em que é realizado, também é inovador o Projeto de Mediação Para Idosos em situação de risco, de iniciativa da Promotora de Justiça Dr. ª Mônica Lodder De Oliveira dos Santos Pereira e da Procuradora de Justiça Dr.ª Isabella Ripoli Martins,

acontece na Promotoria de Justiça Cível de Santo Amaro. Os dados a serem coletados na investigação aqui proposta serão obtidos junto a esta promotoria. Através deles procuraremos descrever e analisar uma prática que pode servir de parâmetros para outros locais.

2

Disponível em: http://www.mprj.mp.br/cidadao/projetos-e-campanhas/gmrc. Acesso em 12 out 2012.

3

Disponível em:

(16)

7 Esse trabalho pretendeu, também, analisar os resultados dessa prática à luz da Gerontologia Social, ciência que constitui, conforme FONSECA,

um campo de estudos interdisciplinar que faz do processo de envelhecimento e, mais especificamente da velhice , o seu objeto de investigação.[...] envelhecer do ponto de vista biológico , é um fenômeno que afeta todos os seres, mas do ponto de vista sociocultural e subjetivo ele é marcado por diversidade e singularidade( Apud. ROCHA, 2013; s/p)

A linha de pesquisa desta dissertação é “Gerontologia Social: Políticas Públicas e Práticas Sociais Institucionais”. Nela investigamos uma prática com fim social voltada ao público de 60 anos ou mais. Procurou-se mapear, identificar e analisar o serviço prestado neste contexto.

Sistematizar essa prática mostra-se importante não só pela possibilidade de compartilhar os resultados obtidos, como por explicitar um recurso disponível aos idosos. Importa, pois levantar a origem do projeto, sua construção e desenvolvimento, além de analisar suas conquistas, resultados, desafios, limites e utilidade para realidades semelhantes.

RIFIOTIS (2007) constata que muitos casos de violência contra idosos partem dos seus familiares e que o fato de muitos buscarem as delegacias de idosos não decorre da penalização, mas da procura de reordenação das relações familiares. Nesse sentido destaca a:

necessidade de políticas sociais mais amplas que atuem na origem dos conflitos e na oferta de serviços que universalizem o acesso a outros mecanismos de resolução de conflito ou seu agenciamento( RIFIOTIS, 2007, p. 146).

(17)

8 harmoniosa com os idosos que se encontram em situação de vulnerabilidade.

(18)

9

2. OBJETIVOS

2.1. OBJETIVO GERAL:

 Mapear e descrever a prática da mediação familiar com idosos em situação de risco na Promotoria Cível do Foro Regional de Santo Amaro, São Paulo.

2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

 Levantar a história e o desenvolvimento da prática de mediação para idosos da Promotoria de Justiça Cível do Foro Regional de Santo Amaro, São Paulo/SP;

 Selecionar e relatar dois casos;

(19)

10

3. ABORDAGEM METODOLÓGICA E PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS

3.1. ABORDAGEM METODOLÓGICA

Na pesquisa foi utilizada a abordagem qualitativa; os dados quantitativos utilizados serviram tão somente para alimentar a análise dos resultados.

Na abordagem qualitativa, segundo HAGUETTE (1987; p.59), “os métodos [...] enfatizam as especificidades de um fenômeno em termos de suas origens e de sua razão de ser”.

O desenvolvimento da pesquisa envolveu a análise documental dos materiais existentes para a realização dessa prática. Conforme MAY (2004, p. 212):

Para alguns pesquisadores, um documento representa um reflexo da realidade. Ele se torna um meio através do qual o pesquisador procura uma correspondência entre a descrição e os eventos ao quais ele se refere.

Os dados foram coletados por meio da pesquisa documental realizada nos Procedimentos Administrativos encaminhados à mediação e pelas anotações dos mediadores durante os atendimentos, referentes aos períodos de junho de 2011 a junho de 2015.

(20)

11 Segundo MAY: “as fontes primárias referem-se àqueles materiais que são escritos ou coletado por aqueles que testemunharam de fato os eventos

que descrevem” (2004, p.210).

Os referenciais teórico-analíticos empregados pertencem,

basicamente, aos campos da gerontologia e do direito; no entanto, ciências e conhecimentos afins foram acionados na medida em que se mostraram úteis e necessários.

Nesse sentido LUNA destaca:

Uma revisão teórica, em geral, tem o objetivo de circunscrever um dado problema de pesquisa dentro de um quadro de referência teórico que pretende utilizá-lo. [..] O problema não é gerado por nenhuma teoria particular, mas pode ser derivado de várias teorias ou por elas explicado (2013; p.88-90).

Quanto ao Instrumento de coleta de dados foi utilizada na pesquisa a técnica da observação participante, assim definida por MINAYO (2013) “[...] um processo pelo qual um pesquisador se coloca como observador de uma situação social, com a finalidade de realizar uma investigação científica

(apud. DESLANDES, 2013 p.70).

3.2. LOCAL

(21)

12

4. REVISÃO DA LITERATURA

Este estudo volta-se a pesquisa a trajetória de uma prática, faz-se necessário contextualizá-la a partir de uma revisão teórica que “em geral , tem o objetivo de circunscrever um dado problema de pesquisa dentro de um quadro de referência teórico que pretende explica-lo “(LUNA, 2013, p.88): Com relação a revisão da literatura serão abordados os subtemas: Conflitos; Métodos Consensuais de Solução de Conflitos; Mediação e Mediação Familiar ; para o desenvolvimento da pesquisa serão desenvolvidos os subtemas: Projeto de Mediação Para Idosos em situação de Risco; Riscos aos Idosos , Análise dos Resultados sob Enfoque da Gerontologia Social e Estudos de Casos .

4.1. CONFLITOS

A palavra conflito em geral é interpretada pelo senso comum no sentido de: rivalidade, antagonismo, contrariedade, desconforto, crise, impasse, disputa, certo ou errado, etc. No Dicionário Aurélio conflito significa: “desordem, pendência, choque, embate, luta, oposição, disputa “.

O conceito de conflito para SAMPAIO (2007, p. 31):

um conjunto de propósitos , métodos ou condutas divergentes ,que acabam por acarretar ,um choque de posições antagônicas em um momento de divergência entre as pessoas , sejam físicas, sejam jurídicas.

Em sentido amplo, para GABBAY (2013, p.7) conflito representa:

Desentendimento, oposição de interesses, sentimentos e ideias; no limite, retrata também briga, confusão e desordem, a demonstrar que tensões variadas são inerentes a sua expressão.

(22)

13 Na visão do conflitante, é algo negativo, que surge quando há uma alteração no seu ritmo ‘natural’ de vida (rompimento do equilíbrio) e, que às vezes, é inerente à sua própria evolução. [...]. Depois que a pessoa atravessa o conflito, que consegue administrá-lo, ele passa a ser visto como crescimento e, portanto, como algo positivo.

Conforme CINTRA, GRINOVER e DINAMARCO (2015, p. 33):

[..] a sociedade contemporânea é altamente conflitiva, atingida por um sempre crescente número de desavenças envolvendo cada vez mais os seus integrantes [..] Mas como os conflitos diferem muito entre si, o sistema deve ser flexível para ser apto e propiciar a quem tem razão a tutela jurisdicional efetiva e adequada a quem tem direito, produzindo com isso resultados legítimos perante a lei e os valores da nação.

Importa considerar que o conflito está presente nas relações humanas, bem como na organização social e constitui um importante fator de mudanças. Dentro dessa visão de oportunidade e crescimento que se fundamenta a Moderna Teoria do Conflito, segundo GRINOVER (2001; apud. AZEVEDO, 2013, p.44) ressalta “se conduzido construtivamente, o conflito pode proporcionar crescimento pessoal, profissional e organizacional”.

Nesse sentido AZEVEDO (2013; p 38):

A possibilidade de ser perceber o conflito de forma positiva consiste em uma das principais alterações da chamada Moderna Teoria do Conflito. Isso porque a partir do momento em que se percebe o conflito como um fenômeno natural na relação de quaisquer seres vivos é possível perceber o conflito de forma positiva.

(23)

14 Conforme DEUTSCH (1973):

 os processos podem ser destrutivos quando se enfraquece ou rompe a relação anterior à disputa; construtivos quando há um fortalecimento da relação social preexistente à disputa (apud AZEVEDO, 2013, p.42).

 os conflitos podem ser : manifesto quando explícito ou aberto ; oculto quando implícito ou negado (apud LUCHIARI, 2012, p.6).

Os conflitos também se dividem em subjetivos e objetivos. Quando envolvem questões materiais e as partes não possuem um histórico de relacionamento anterior, sendo este circunstancial, possui características objetivas; no entanto quando as partes já possuem “histórico de inter-relações e deverão manter contatos futuros “ como nos relacionamentos conjugais, familiares, empresariais, de vizinhança, o conflito possui caráter subjetivo. Destaca-se para a composição dos conflitos a importância de a abordagem ser ampla e multidisciplinar (LUCHIARI, 2012).

Outros meios de solução de conflitos além do judicial são utilizados trata-se da alternative dispute resolution –ADR, ou meios alternativos de solução de conflitos–MASC, Cintra et al. (2015, p. 48) esclarecem:

embora na verdade não se trate de alternativas ao processo estatal, mas de outras vias, que subsistem ao lado deste e que, dependendo do tipo de conflito, podem ser mais adequadas.

4.2. Princípio do Acesso à Justiça

Segundo a doutrina clássica de CAPPELLETTI e GARTH (1988, p.8):

(24)

15 Os mesmos autores acima destacaram no mundo Ocidental, três posições básicas de acesso, em uma sequência cronológica, que não se sobrepõem, mas coexistem que são representadas por ondas de acesso.

 A primeira onda ressalta o fim econômico de ampliação do acesso à Justiça e possui como fundamentos legais: a Lei nº 1060/50 Assistência Judiciária que Gratuita que regulamenta a concessão da justiça gratuita aos que necessitam, a Constituição Federal de 1.988, no artigo 5º , inciso XXXV que menciona :“ a lei não excluirá da apreciação do judiciário lesão ou ameaça ao direito”; e no artigo 134 que dispõe : “ a defensoria pública é instituição essencial a função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhes a orientação jurídica e defesa em todos os graus dos necessitados “.

 A segunda onda contempla a proteção dos interesses difusos4 ou coletivos, fundamentada nas legislações: Lei de Ação Civil Pública: (Lei 7. 347/1985) e Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990) e a criação dos juizados Especiais de Pequenas Causas (Lei 7.244/84).

 A terceira onda com concepção mais ampla: “centra sua atenção no conjunto geral de instituições e mecanismos, pessoas e procedimentos utilizados para processar e prevenir as disputas da sociedade moderna “.Acesso que verifica “a importância dos diversos fatores e barreira envolvidos de modo a desenvolver instituições efetivas”, entre os quais estão os métodos consensuais de solução de conflitos (CAPPELLETTI, 1988 p.67-68; 73).

Princípio este que não compreende apenas o acesso ao Poder Judiciário, mas na expressão de Watanabe a garantia a uma ordem jurídica justa “na qual se inserem também a possibilidade da solução

dos conflitos de forma consensual com os métodos adequados”.

Nesse sentido, destacam Cintra et al. (2015, p. 58)

4

Conforme Cintra, et. al. p. 49: interesses difusos assim chamados interesses coletivos ou grupais,

(25)

16 Pela arbitragem chega-se a uma sentença proferida pelo tribunal arbitral, a qual, tanto quanto sentença judicial, deve representar a justa resposta às pretensões das partes [...] a res. N. 125 /2010 do Conselho Nacional de Justiça deixa claro que o acesso ao Poder Judiciário deve ser interpretado como garantia de acesso à justiça por qualquer meio adequado de solução de conflitos, como a mediação e a conciliação.

AZEVEDO (2013, p.29) enfatiza:

[..] o acesso à Justiça passa a ser concebido como o acesso a uma solução efetiva para o conflito, por meio de participação adequada – resultados, procedimento e sua condução apropriada- do Estado.

Dessa forma o movimento de acesso à justiça fundamentou-se na possibilidade de o Estado garantir justiça de forma ampla e adequada a todos nas mais diversas situações conflituosas.

4.3. Meios de Composição de Conflitos

Com relação aos meios de composição de conflitos estes podem ser

por autotutela, autocomposição e heterocomposição. Seguem

esquematizados a partir dos estudos de CINTRA et al. (2015, pp.51-53) e TARTUCE (2008, p. 37 -79):

1- Autotutela (autodefesa) 5 Em regra proibida, acontece em

situações excepcionais

expressamente autorizadas pela lei em que o contendor “resolve o conflito por sua própria força”. Como exemplos: legítima defesa, estado de necessidade, direito de

(26)

17 retenção, desforço imediato, direito de cortar raízes ou árvores

limítrofes, a auto-executoriedade das decisões administrativas, etc.6

Autocomposição Pode ocorrer de forma unilateral

quando uma das partes resolve o conflito quando há renúncia, desistência ou reconhecimento jurídico do pedido.

Pode ocorrer de forma bilateral, como na negociação, conciliação e mediação.

2- Heterocomposição Em que cabe a terceiro a solução

dos conflitos como ocorre na decisão judicial e na arbitragem.

4.4. Métodos Consensuais de Solução de Conflitos por Autocomposição e Heterocomposição

Os métodos consensuais de solução de conflitos podem acontecer por autocomposição quando as próprias partes chegam em soluções por si próprias ou delegam a um terceiro imparcial a facilitação para um acordo ou melhora da comunicação. Como ocorre na negociação, a mediação e conciliação.

A negociação segundo LUCHIARI (2013, p. 13) é um método de solução de conflitos:

nele as próprias partes envolvidas chegam a uma solução, sem que seja necessária a intervenção de um terceiro facilitador , podendo, entretanto ,contar com o auxílio de um terceiro especialmente capacitado para o desenvolvimento de negociações (negociação assistida).

6

(27)

18 A mediação segundo GABBAY (2013, p .45):

é o meio consensual de abordagem de controvérsias em que uma pessoa isenta e devidamente capacitada atua tecnicamente para facilitar a comunicação de modo que os envolvidos possam encontrar formas produtivas de lidar com as disputas

A conciliação na definição de SAMPAIO (2007, p.18):

Trata-se de mecanismo muito eficaz para conflitos em que inexiste entre as partes um relacionamento significativo no passado ou contínuo a futuro, portanto preferem buscar um acordo de forma imediata para pôr fim a controvérsia ou ao processo judicial.

Para saber qual é o método consensual adequado a ser utilizado em face de um conflito, deve ser levado em consideração quais são os objetivos das partes envolvidas, as características e peculiaridades que apresentam na questão a ser analisada. Nesse sentido diferencia LUCHIARI (2012, p.8):

A negociação direta apresenta-se como o método adequado quando as partes mantêm bom relacionamento e conseguem tratar objetivamente das questões a decidir. A mediação é o mecanismo adequado quando há conflitos que envolvem inter-relações duradouras e nos quais preponderam os aspectos subjetivos. Quando, porém, o conflito é eminentemente objetivo, pois não há aspectos subjetivos marcantes, nem relação interpessoal passada ou futura, e as partes pretendem resolvê-la com brevidade, o método recomendado é a conciliação.

A negociação é um método autônomo quando as partes estão aptas a sua utilização e também utilizada em outros métodos consensuais quando as partes estão em conflitos. Dessa forma em uma mediação ou em uma conciliação são utilizadas técnicas de negociação integrativa ou baseada em princípios, que conforme mencionam FISHER, URY e PATTON (2005, p. 16):

(28)

19 FISHER et. al. (2005, p. 28) esclarecem quatro pontos fundamentais que definem “um método direto de negociação” capaz de ser utilizado “em quase qualquer circunstância”, conforme a seguir esquematizado:

Pessoas Separe as pessoas do problema.  Interesses Concentre-se nos interesses, não

nas posições.

Opções Crie uma variedade de

possibilidades, antes de decidir o que fazer.

Critérios Insista em que o resultado tenha por base algum padrão objetivo.

O conflito pode ser consensualmente resolvido por heterocomposição: quando as partes elegem um terceiro para que este chegue em soluções, como na arbitragem ou quando um terceiro emite um parecer técnico sobre o assunto como na avaliação neutra de terceiro.

Na arbitragem conforme TOSTA (2014, p. 271) a partir da Lei 9.307/96:

passou a ser um meio independente e autônomo de solução dos conflitos de natureza patrimonial disponível , na medida em que as decisões arbitrais passaram a constituir título executivo judicial, independente de homologação pelo Poder Judiciário [.. ] .

Em 26 de maio de 2015 foi sancionada a nova Lei de Arbitragem: Lei 13. 129/15:

Entrou em vigor em 27 de julho de 2015 ” Altera a Lei no 9.307, de

(29)

20 arbitragem, a carta arbitral e a sentença arbitral, e revoga dispositivos da Lei no 9.307, de 23 de setembro de 1996.

Conforme LUCHIARI, a avaliação neutra de terceiro,

[...] é um método de solução de conflitos no qual um terceiro neutro (avaliador) se encontra com as partes na fase inicial de um caso, a fim de avaliar, de forma confidencial, a disputa, ajudando-as a reduzir os problemajudando-as, aumentando seu emprenho em chegar a um acordo. (2012, p.15)

4.5. Outros Métodos Consensuais de Resolução de Conflitos

Os conflitos também podem ser resolvidos pela Justiça Restaurativa e por Práticas Colaborativas.

O sistema de Justiça Restaurativa da Nova Zelândia adotou a definição a seguir (New Zealand Restorative Justice Network, apud ASSUMPÇAO e YAZBEK, p. 49):

Justiça restaurativa é um termo genérico para todas as abordagens do delito que buscam ir além da condenação e da punição e abordar as causas e as consequências (pessoais, nos relacionamentos e sociais) das transgressões, por meio de formas que promovam a responsabilidade, a cura e a justiça. A Justiça Restaurativa é uma abordagem colaborativa e pacificadora para a resolução de conflitos e pode ser empregada em uma variedade de situações (familiar, profissional, escolar, no sistema judicial, etc.). Ela pode também usar diferentes formatos para alcançar suas metas, incluindo diálogos entre a vítima e o infrator,

“conferencias” de grupo de comunidades e familiares, círculos de

sentenças, painéis comunitários e assim por diante.

No Brasil,a Justiça Restaurativa é conceituada como:

(30)

21 ASSUMPÇÃO e YAZBEK (2014, p.57) esclarecem a correlação entre a Justiça Restaurativa e a Mediação:

O surgimento da Justiça Restaurativa teve em seu percurso histórico, uma interface com a Mediação, nascendo de um feliz casamento entre os métodos alternativos de resolução de conflitos e a Justiça, instituição responsável pela resolução de litígios em conformidade com as leis, fazendo valer o direito de cada um.

Sobre a diferenciação existente entre a Justiça Restaurativa e a Justiça Comum esclarece SIQUEIRA NETO (2015, p.28):

Ao contrário do processo comum, de viés retributivo, que tem por objetivo principal identificar o autor e fazer a adequação típica impondo uma mediada ao infrator, a Justiça Restaurativa preocupa-se em saber quem foi afetado, qual a repercussão do fato e que obrigações se originaram a partir do ocorrido, seja em relação à vítima, comunidade e também o autor.

As práticas colaborativas constituem um método não adversarial de resolução de conflitos, extrajudicial, conforme a Cartilha das Práticas Colaborativas da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB/RJ):

foram idealizadas por um advogado de família norte-americano, Stuart Webb, na década de 80, que estava insatisfeito com a sua prática litigante por constatar os efeitos devastadores dos processos judiciais para todo o sistema familiar (mesmo nas situações em que seus clientes tinham êxito em seus pleitos). Atualmente, é amplamente utilizada em diversos países, como Estados Unidos, Canadá, África do Sul, Austrália, assim como na Europa, com ampla aplicação também em âmbito cível e empresarial. Atualmente, é amplamente utilizada em diversos países, como Estados Unidos, Canadá, África do Sul, Austrália, assim como na Europa, com ampla aplicação também em âmbito cível e empresarial.

As práticas colaborativas representam desde 2011, segundo GAMA (2015, s/p):

(31)

22 uma equipe colaborativa, rumo ao consenso e soluções de benefício mútuo para as partes envolvidas. Outra ideia colaborativa é a inclusão de profissionais de saúde para assessorar as partes ou mesmo eventuais envolvidos no conflito (filhos por exemplo), ou financistas, caso seja necessário, propondo-se uma abordagem interdisciplinar para facilitação do diálogo e construção de consenso, possibilitando que se lance um novo olhar sobre o mesmo conflito.

4.6. Resolução 125 /2010 do Conselho Nacional de Justiça e a Resolução 118/2014 do Conselho Nacional do Ministério Público.

O Conselho Nacional de Justiça instituiu a Resolução 125 de 2010 como Política Pública: “de Tratamento Adequado dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário”.

Conforme Watanabe (2014, p.4) foram três a grandes inovações dessa Política Pública: “I- atualização do conceito de acesso à justiça; II- transformação da ‘cultura da sentença para a cultura da pacificação’ e III- qualidade dos serviços”.

Pela atualização do conceito de acesso à justiça a Resolução 125 /2010 do Conselho Nacional de Justiça ampliou esse conceito para acesso à

ordem jurídica justa “com a oferta dos métodos consensuais de resolução de conflitos que passaram da serem chamados de métodos adequados, bem como com a possibilidade da oferta de serviços de cidadania, como orientação jurídica e certidões7.

O novo paradigma vivenciado a partir da Resolução 125 do CNJ passa a ser a mudança de cultura: da sentença, do processo, para uma cultura da busca pelo consenso e da pacificação, por meio da valorização e

(32)

23 busca de uma solução amigável por meio de terceiros facilitadores, através da conciliação e da mediação e outros meios adequados.

O terceiro pilar da Resolução 125 do CNJ fundamenta-se na preocupação com a oferta e qualidade dos serviços, dessa forma, traça as diretrizes para como deve ser a capacitação, treinamento e aperfeiçoamento permanente dos conciliadores e mediadores.

A Resolução 125 do CNJ segundo Pereira Júnior (2014, p. 32)

A resolução cria os órgãos responsáveis pela política central de conciliação e mediação, e operacionaliza os braços executivos de tais políticas, os Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania.

Fundamentada na Resolução 125 /10 do Conselho Nacional de Justiça em 2014 foi instituída a Resolução 114 do Conselho Nacional do Ministério Público que: “Dispõe sobre a Política Nacional de Incentivo à Autocomposição no âmbito do Ministério Público” e recomenda

negociação nos conflitos em que o órgão atue como parte, na defesa dos direitos e interesses da sociedade; mediação: para resolver conflitos que envolvam relações jurídicas nas quais é importante a direta e voluntária ação de ambas as partes divergentes; conciliação :nos casos que envolvam direitos ou interesses nas áreas de atuação do Ministério Público como órgão interveniente ( quando do seu parecer sobre normas legais , sem ser parte).

5. MEDIAÇÃO

5.1 Contextualização

Segundo BARBOSA, “mediação tem tradição milenar entre os povos antigos. Entre os judeus, chineses e japoneses, a mediação fez parte da cultura, e dos usos e costumes, muitas vezes integrando rituais religiosos”

(2004, p. 4).

(33)

24

 na civilização antiga, como forma de harmonização e defesa na inter-relação entre os povos ;

 Estados Unidos, em 1970, a mediação iniciou com grande ênfase no âmbito empresarial;

 Inglaterra, no final dos anos 70, com um pequeno grupo de advogados e em 1989 a mediação destacou-se no setor público e privado;

 França, em 1982, iniciou-se no Direito Público para ampliar ao Direito Privado, no Direito do Trabalho e em 1990 no Direito Civil;

 Argentina, em 1982 foi institucionalizada pelo Decreto –Lei 1480/92 atrelada ao Judiciário, com a Resolução 8 /92 em 1995 foi regulamentada a Lei 24.573;

 A Diretiva da União Europeia 2008/52/CE de 2008 incentivou a resolução amigável dos conflitos, com a utilização da mediação aos

litígios transfronteiras em matéria civil e comercial8.

Nesse contexto de evolução, para BARBOSA (2004, p.16) a mediação familiar na França tem o “enfoque para a cultura de paz e não a mera pacificação dos conflitos [...] e que esse conceito de mediação se consagrou no modelo europeu da mediação”.

Com os exemplos mencionados constata-se que a mediação tem uma história própria em cada país que adere a prática que muitas vezes se inicia no contexto judicial, empresarial ou familiar e que se expande para outras áreas.

Com relação aos métodos consensuais no Brasil, desde 1824 a Conciliação vem sendo utilizada e prevista em legislações. A mediação tem percurso histórico mais recente, segundo BARBOSA (2004, p.16) “chega ao Brasil por duas vertentes: em São Paulo veio o modelo francês. Pela

(34)

25

Argentina, chegou ao sul do País o modelo dos Estados Unidos, no início da década de 90.

Também na década de 90 começaram os estudos no Brasil na área trabalhista que serviram de alicerce para a construção da mediação no cenário brasileiro, nos dissídios individuais e coletivos. Nesta área são encontradas referências a mediação e técnicas de negociação (TARTUCE,2014). Também, profissionais da terapia familiar começaram a pesquisar o método.

TARTUCE (2014) descreve o percurso histórico da regulamentação: em 1998 foi proposto o Projeto de Lei nº 4.827 da Deputada Zulaiê Cobra Ribeiro: com sete artigos e enfoque no modelo transformativo de mediação; foi cingido por outro projeto elaborado pelo Instituto de Direito Processual baseado nos modelos americanos e argentino, não teve a tramitação finalizada. Foi apresentado em 2011 o Projeto nº 517/2011.que não avançou na aprovação. Foram criadas duas comissões em 2013: uma do Senado para mudanças na Lei da Arbitragem e para disciplinar a mediação privada, outra do Ministério da Justiça, para disciplinar a mediação judicial e privada e estabelecer um “marco regulatório”. Esses projetos se soma o de número 517/ 2011, que resultou no Projeto de Lei 7169/2014 que dispôs sobre:

a mediação entre particulares como meio alternativo de solução de controvérsias e sobre a composição de conflitos no âmbito da

‘Administração Pública’ foi aprovado em 02 de junho de 2015 pelo

Senado Federal.

Finalmente em 26 de junho de 2015 9 foi sancionada a Lei 13.140

que dispõe sobre: “Dispõe sobre a mediação entre particulares como meio de solução de controvérsias e sobre a autocomposição

de conflitos no âmbito da administração pública “. A lei passa a

estipular como principais pontos10:

 a mediação poderá ser extrajudicial ou judicial;

 os Tribunais criarão e manterão os Centros Judiciários de Solução de Conflitos para a realização da mediação;

 as partes poderão recorrer a mediação, mesmo com processo em

curso ou em “ âmbito arbitral ‘ , nessas hipóteses suspendem a

9

Publicada no Diário Oficial da União em 29 de junho de 2015, passará a vigorar em 180 dias da data da sua publicação.

10

(35)

26 tramitação por prazo que seja suficiente para a realização da mediação;

 “o mediador pode se reunir com as partes, em conjunto ou separadamente, ouvir terceiros e solicitar informações que entender necessárias para o esclarecimento dos fatos e para o

entendimento “;

 a mediação é finalizada com o acordo ou quando não é mais possível o consenso, por solicitação do mediador ou das partes;

 possibilidade da utilização da mediação nos conflitos entre órgãos da administração pública ou entre estes e particulares ;

 possibilidade da União , dos Estados e os Municípios poderão criarem “ câmaras de prevenção e resolução administrativa de conflitos.

Com relação ao Novo Código de Processo Civil Lei 13.105 de 16 de março de 2015, vários dispositivos destacam os métodos consensuais de solução de conflitos: incentivam e conceituam os métodos e definem a função do mediador11.

Para o “caminhar” dos métodos consensuais constata-se a necessidade de uma reformulação de toda uma cultura desde a formação e atualização dos profissionais que trabalham com o conflito como também a oferta de informações à população de quais meios possuem antes de decidirem por um processo judicial, para que aconteça somente quando necessário.

5.2. Escolas e modelos de Mediação

São diversas as escolas ou modelos de mediação, neste estudo são abordados os modelos mais utilizados.

I- Escola ou Teoria de Harvard

11

(36)

27 II- Modelo Circular Narrativo

III- Modelo Transformativo

I. Escola ou Teoria de Harvard:

A Escola ou Teoria de Harvard, também chamada de modelo tradicional é baseada em uma negociação baseada em princípios que fundamentam todos os demais modelos.

GABBAY (2013, p. 47) comenta sobre a Teoria de Harvard:

Trata de negociações que objetivam reconciliar interesses, denominada “negociação com princípios” (principled negotiations),

“negociação baseada em interesses” (interested-basead negotiation) ou “negociação solução de problemas ( problem-solving negotiation). O enfoque reside no tratamento da controvérsia como um problema mútuo e no mediador que atua intervindo junto aos indivíduos em disputa para tornar possível um ajuste.

A Escola de Harvard apresenta como princípios fundamentais: separar as pessoas do problema; focar os interesses e não as posições; criar opções de ganhos-mútuos e insistir em critérios objetivos.

II. Modelo Circular Narrativo

Segundo GABBAY, a Mediação, sob o viés circular narrativo:

(...) foca a desconstrução das exposições iniciais das histórias dos participantes para viabilizar novas percepções sobre o conflito e sua superação. Por meio de perguntas circulares (que mudam o foco do problema) o mediador permite outras conotações e compreensões sobre as experiências vividas. (2013, p. 48)

Conforme SOARES, o Modelo Circular Narrativo fundamentado na terapia familiar sistêmica, nas teorias das narrativas, com a utilização das perguntas circulares:

(37)

28 las teorias postestructurales de las narrativas (SOARES, p. 165); Perguntas Circulares: En su forma mais sencila consiste em perguntar a una persona como ve que se interrerrelacionan otras dos. Dentro de la terapia sistémica se utilizan como el objetivo de descobrir la conxíon existente entre el problema que se presenta y las relaciones familiares (2008, p.178).

Para SAMPAIO (2007, p. 22) os fundamentos do modelo circular- narrativo são: a comunicação, a causalidade circular, os vínculos e a reflexão, que possibilite “a transformação de uma história conflitiva em uma história colaborativa“.

III. Modelo Transformativo

Sob o viés transformativo na Mediação, modelo utilizado na prática desta pesquisa, o foco não é o acordo, mas a transformação da relação; trabalha-se o conflito como oportunidade de crescimento e transformação, de reconhecimento e empoderamento (GABBAY, 2013).

O foco do Modelo Transformativo segundo BARROS (2013, p. 52)

está na relação e na busca da transformação desta relação, enfatizando o empoderamento das pessoas para que tenham condições de decidirem seus caminhos , assumindo responsabilidades em relação as suas escolhas A resolução do conflito por este modelo se dará a partir da transformação da relação entre as partes.

A atuação do mediador no modelo transformativo, segundo BUSH e FOLGER:

O mediador não intervém na relação entre as partes, mas tem um papel essencial na escuta ativa dos problemas, na percepção das oportunidades em que se possa trabalhar o reconhecimento e empoderamento das partes, contribuindo a um diálogo construtivo entre elas. Há inúmeras técnicas a serem aplicadas, sumarizando o que as partes apresentaram, parafraseando, checando o que as partes elencam como pontos centrais do conflito e o que gostariam de levar adiante, de forma que mesmo quando elas estão em silêncio, os mediadores não estão inativos. (2005, apud GABBAY 2013, p. 58):

(38)

29 é um processo que permite que as pessoas em conflito ajam como um maior grau de autodeterminação e responsividade em relação aos outros , ao mesmo tempo que exploram soluções para questões específicas (SCHNITM.AN & LITLEJOHN, 1999, p. 86) .

O Modelo Transformativo está fundamentado nas abordagens construcioninsta sociais sistêmicas (SCHNITMAN & LITT LEJOHN, 1999). A perspectiva construcionista, segundo SCHNITMAN (1999, p.24):

Essa perspectiva, de base construcionista social define a comunicação como um conjunto de processos – verbais e não verbais – para conhecer e fazer, como ação e interpretação, de fluxo constante, interativo e co-evolutivo, que estimula formas de operar mediante as quais as pessoas criam, mantém, negociam e transformam suas realidades sociais.

[..] o modelo construcionista social situa-se nos fluxos de interação. A perspectiva construcionista baseia-se em uma metáfora que descreve as pessoas como imersas em uma ecologia de significado e de ação. Assim, as ações verbais e não verbais se sobrepõem e ressoam em múltiplas direções, contribuindo para um processo co-evolutivo de crescimento e transformação.

Segundo SCHNITMAN (1999, p. 22) dentre os temas centrais abordados pelo Modelo Transformativo estão:

 construção do presente a partir da projeção do futuro;  sujeitos co- construtores de suas realidades;

 papel construtivo e geração de possibilidades emergentes;  pequenas flutuações mudanças

Com relação ao pensamento sistêmico e a transformação dos conflitos SALES(2010; p. 18) explica:

(39)

30 O modelo transformativo é fundamentado no empoderamento e no reconhecimento do outro: “O empoderamento gera a percepção pelos indivíduos de seu valor e capacidade de tomar suas próprias decisões para lidar com os problemas” (BUSH, FOLGER, 1999, apud GABBAY, p. 55). Por

reconhecimento compreende-se “a habilidade de cada indivíduo de entender os outros, de respeitá-los e de demonstrar preocupação por eles

(SCHNITMAN & LITT LEJOHN; 1999, p.75).

Segundo FOLGER e BUSH (1999, p. 86) os efeitos transformativos da mediação neste modelo são “o processo pode reforçar a capacidade das pessoas de tomarem decisões sozinhas; e ele também pode reforçar a capacidade das pessoas de verem e considerarem as perspectivas dos outros”.

Além dos diversos modelos mencionados, a mediação pode ser utilizada em vários contextos: familiar, empresarial, penal, educacional, comunitário, entre outros. Neste estudo será abordado o modelo transformativo no contexto familiar.

5.3. MEDIAÇÃO FAMILIAR

(40)

31 O conceito de família não se restringe apenas ao sustento e transmissão das gerações; tanto o rol de participantes como as funções familiares foram ampliadas e redefinidas. De acordo com PEREIRA (2007; s/p.)

a família deixou de ser essencialmente um núcleo econômico e de reprodução. Hoje ela é muito mais espaço do amor, do companheirismo, da solidariedade e do afeto. [...]. A família é fonte de amor e responsabilidade; o Estatuto das Famílias vai além da família conjugal e parental.

Segundo GROENINGA (2011): “a família se compõe nas intenções e tensões”. Este autor prossegue na referência às funções parentais como “mediadoras afetivas” que possibilitam a passagem do biológico, para o humano e o social. Refere-se a um vetor na relação paterno-filial, de acordo com o grau de vulnerabilidade, que coloca o interesse da criança e a solidariedade aos idosos, como um denominador comum no exercício das funções”.

A família representa a vivência do primeiro exercício da vida em sociedade e muitos conflitos são decorrentes da convivência familiar entre seus integrantes. Muitas vezes os laços não se formam ou em face dos conflitos ficam enfraquecidos.

Para SIX (2001; pp.71-72; 242), a mediação no contexto familiar engloba a família de um modo geral e todo ambiente familiar como em assuntos do casal, na relação entre pais e filhos (em qualquer idade) e entre irmãos e irmãs. Como ética, propõe ao mediador familiar o trinômio: “tempo- espaço-relação”:

I. Tempo: em um sentido estimado, nem curto, nem demasiado longo, para não virar “assistências intermináveis “;

(41)

32 III. Relação: no sentido de prevenção, de primeiro tentar o

diálogo, como cuidado com a “saúde familiar”.

Com relação ao mediador, SIX define ética como “coragem, prudência e justeza”; coragem em ter “tempo e distanciamento”; prudência:

de seguir em frente, ser criativo e reflexivo justeza: que requer: “refinamento constante do mediador”.

A mediação familiar possui um contexto transformador que se desenvolve no campo da interdisciplinaridade, sendo considerado “um princípio”. Nesse sentido BARBOSA (2004; p.1) ressalta que: “a mediação familiar tende a inserir no ordenamento jurídico pela interdisciplinaridade, culminando com a recepção da via principiológica”.

Com relação ao enfoque interdisciplinar da mediação familiar destaca: BARROS (2013, p. 122).

a mediação é constituída por uma complementaridade de saberes , sendo assim , a interdisciplinaridade está na sua essência. Essa interdisciplinaridade enriquece a mediação para auxiliar as famílias a decidirem de forma autônoma o que preferem para suas situações.

(42)

33

6. Envelhecimento: questões e reflexões

No Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia o enfoque social das questões abordadas subsidia a interlocução de diversas outras ciências que se agregam ao envelhecimento. Na revisão teórica que fundamenta esta pesquisa destacam-se o processo do envelhecimento, a visibilidade do idoso, tempo, educação, família, cuidados, fragilidade, vulnerabilidade e violência.

6.1. Processo, Visibilidade, Tempo e Educação.

No cenário mundial, o processo do envelhecimento passa a ser visto, como um “problema”; o grande desafio é como transformá-lo em questões para serem trabalhadas no campo da ciência: Como o idoso pode contribuir para a sociedade? Quais são as necessidades específicas da velhice? Quais as contribuições potenciais? Quando começa a velhice? O que é o envelhecimento? (FONSECA, 2014).

Segundo MORETTI (1998, p.38):

Falar de envelhecimento é falar de vida, do natural processo de viver, iniciado com o nascer biológico, a partir do qual nos tornamos todos envelhescentes e prosseguindo no curso da existência. A ONU estabelece como critério para o envelhecimento no decorrer do curso cronológico da vida, o ingresso nos 60 anos. Essa passagem, no entanto, não se concretiza em um momento instantâneo, um lance fotográfico na vida das pessoas – a velhice não se instala de um dia para outro, vem gradualmente, é construída individual e socialmente e compõe o ciclo da existência. O envelhecimento é, portanto, um processo bio-psico-social; um complexo processo da vida, histórica e culturamente situado e produzido que traz em si a dimensão de “Cronos” – “o tempo cronológico diferente de tempo vivido” e de “Kairós”– “um tempo próprio para a ação”, tempo ou movimento além da razão.

(43)

34 A população idosa é definida aqui como aquela composta de pessoas com 60 anos ou mais de idade. É um grupo etário bastante heterogêneo, pois é constituído por pessoas com idades que variam de 60 a mais de 100 anos. Portanto, inclui indivíduos com graus diferenciados de autonomia, ou seja, idosos independentes e os muito dependentes que necessitam de cuidados permanentes. (Camarano; 2010; p. 95)

Em 1970 BEAUVOIR (1990) escreveu sobre a velhice a partir de questões revolucionárias, como exemplos:

 “Conspiração do silêncio”: traz a voz ao idoso, a sua história e o

contexto social: “a velhice não poderia ser compreendida senão em sua totalidade; ela não é somente um fato biológico, mas também um fato cultural” (BEAUVOIR, p. 20);

 Dificuldade da aceitação da velhice: “[...] uma vez que em nós é o outro que é velho, que a revelação da nossa idade venha dos outros”;

(BEAUVOIR, p. 353);

 Anseios sociais, intergeracionalidade e valorização da produção pela sociedade:

A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que este rende. Os jovens sabem disso. Sua ansiedade no momento em que abordam a vida social é simétrica à angustia dos velhos no momento que são excluídos dela (BEAUVOIR, p. 665)

 Princípios sociais e visibilidade do idoso:

(44)

35 Nas reflexões relacionadas ao lugar do idoso, à visibilidade e aos contextos sociais, ALMEIDA reforça:

O lugar atribuído e ocupado por homens e mulheres, crianças, jovens adultos e velhos decorre das soluções encontradas, por cada coletividade, para responder aos imperativos de sua

existência; como “lugares sociais” revestem-se de valores e juízos morais. Por outro lado, este processo de classificação a partir destes determinantes biológicos não é estático nem imutável, mas dinâmico e constantemente renovado, mesmo naquelas sociedades que, aos olhos do pensamento ocidental, parecem ter

“parado no tempo”. É neste contexto que a velhice deve ser

compreendida. Na velhice, como em qualquer outra etapa da vida, temos a articulação entre mecanismos universais e escolhas particulares. (2003, p.4)

Com relação à complexidade da existência, MORIN afirma (apud. SCHINITIMAN, 1996; p.277): “no fundo gostaríamos de evitar a complexidade, gostaríamos de ter ideias simples, leis simples, fórmulas simples, para entender e compreender o que ocorre em nosso redor e em nós”.

“Medo de envelhecer ou de parecer? “ Com essa questão CONCONE (2007) trava um diálogo com o leitor sobre a questão do pertencimento, e indica que para muitos o “velho é o outro”; ressalta que há muita dificuldade

em compartilhar espaços que são de todos. A autora, ao analisar o que tanto incomoda as pessoas na convivência com idosos e trocar ideias com uma gerontóloga, chega à conclusão que é o “medo da morte“. Constata que a presença do idoso nos espaços coletivos sinaliza a passagem do tempo, a fragilidade e a finitude para nós próprios. Com relação às mudanças ocorridas, a autora enfatiza que “a geração idosa de hoje é diferente daquela que a precedeu” (2007; p.41). Reflete sobre a importância da velhice na

mudança de prioridades e interesse investindo em novas capacidades e tempo vistos com positividade.

(45)

36 Esta autora reflete sobre o tempo internalizado na existência a partir do texto: “Não Somos Cronos, somos Kairós”, de MARTINS (1998, p. 22):

O importante é descobrirmos que “somos”, temos um corpo que é

nosso e que vive as suas próprias experiências. É importante pensar que tempo não é uma dimensão cronológica, medida em dias, meses e anos, mas sim um horizonte de possibilidades do Ser. É importante saber que somos Kairós , isto é um tempo vivido em uma determinação consciente e efetiva da nossa existência .

As narrativas trazem histórias vividas através do tempo, único para cada pessoa e ilustrativo na sua lembrança. Segundo Bosi (1994), as lembranças ilustram fatos sociais e históricos comuns e ao mesmo tempo se relacionam com fatos pessoais marcados por datas, etapas vividas e relações interpessoais. Nesse sentido pontua (BOSI; 1994; pg. 415-418):

 A infância é larga, quase sem margens, como um chão que cede a nossos pés e nos dá a sensação de que nos passos afundam. Difícil transpor a infância e chegar à juventude;  A noite tem durações diferentes para o trabalhador braçal,

para a dona de casa, para o escolar;

 O tempo social absorve o tempo individual que se aproxima dele. Cada grupo vive diferentemente o tempo da família, o tempo da escola, o tempo do escritório. Em meios diferentes ele não corre com a mesma exatidão.

 Cada geração tem, de sua cidade, a memória de acontecimentos que permanecem como pontos de demarcação em sua história.

Além do tempo as histórias são construídas por memórias dos fatos marcantes e do meio social de pertencimento. A lembrança se associa aos grupos coletivos: família, amigos, escolares, trabalho, entre outros. Segundo HALBAWACHS (2003; pp.69-70): “a memória é composta de grupo: a memória é composta de grupos de pertencimentos, a memória individual é um ponto de vista da memória coletiva”.

Referências

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