Destrinchando o Fazer Cinema
Leonardo Mattar
Neste artigo e numa série de outros vindouros, nossa intenção é tornar mais fácil e acessível tanto a linguagem cinematográfica quanto os meios e a maneira de fazer cinema. É preciso antes de tudo desmistificar a idéia do cinema como algo mágico, inacessível e distante. Sim, o cinema é mágico (e isto meus trinta anos como cinéfilo inveterado servem de testemunho) e uma arte um tanto intrincada. Porém, o cinema não é nada mais do que atividades coletivas, arquitetadas e idealizadas por um grupo de pessoas voltadas para o mesmo objetivo. Neste aspecto, não difere em nada de qualquer atividade em equipe, com o diretor servindo como o “maestro” desta grande sinfonia de imagens e som.
Vamos nos servir da inteligência e experiência do grande Inácio Araújo para exemplificar melhor o que é o cinema. Crítico perspicaz, Inácio construiu sua carreira acompanhando os caminhos da sétima arte e analisando a obra de diretores muitas vezes difíceis e malditos, como os grandes John Carpenter e
Jonh Milius, só para citar alguns.
Mas então, como nasce um filme?
O primeiro passo reside num ARGUMENTO. O argumento nada mais é do que a idéia básica, a história de onde se vai elaborar posteriormente o ROTEIRO. Essa história pode ser um argumento original (uma idéia surgida da mente de alguém que formalizará a mesma) ou adaptação de um livro, peça teatral, história em quadrinhos ou qualquer outra história que não esteja especificamente no formato de roteiro cinematográfico. A diferença básica entre um argumento e um roteiro é que no primeiro só esboçamos as situações que estarão contidas no filme, sem grandes detalhes. O roteiro deve conter a seqüência de acontecimentos, a composição dos personagens, o cenário onde a ação se desenrolará, e assim por diante. Mas é importante entender que as regras podem ser quebradas. O cinema, como qualquer arte, deve ser livre, só dependendo da capacidade artística de criadores para florescer. Roteiros podem seguir as mais variadas direções e estruturas. Exemplos disto estão no que foi visto em “Memento” de Christopher Nolan e “Irreversível” de Gaspar Noé. Nestes casos, a narrativa convencional é substituída com ousadia por uma quebra nas estruturas comuns de como contar uma história. Porém, estamos falando de diretores e roteiristas experientes e experimentais. Para o iniciante na arte de escrever roteiros, o melhor talvez seja seguir parâmetros mais convencionais (ao menos no início) para roteirizar uma idéia.
Aqui vão algumas dicas de estruturação de cenas para roteiro de cinema:
- Exposição: Cenas de apresentação para introduzir a trama e nos envolver com a história.
- Evolução: Uma vez feita a apresentação se constrói o enredo.
- Interesse: Inserir de tempos em tempos, novas informações que levem o espectador a manter o interesse pela trama.
- Transição: Cenas que servem para ligar a atmosfera geral do filme.
- Reviravolta: Tudo nos encaminha numa direção, mas, de repente, o roteiro introduz novas informações que geram uma reavaliação da história. Pode ser considerado um “falso clímax”.
- Recomeço: Graças à reviravolta, a trama é relançada.
- Pré-clímax: Toda ação se torna decisiva, com as intrigas a ponto de se resolver.
- Apogeu: Há um envolvimento total do espectador, com todos os elementos do filme se encontrando para um desfecho satisfatório – ou não (obs.: se o seu filme pretender um final em aberto, pode ser que muitos elementos não se resolvam propositalmente, criando um anti-clímax , ou seja, a resolução dos problemas anunciados no roteiro fica por conta da interpretação de cada espectador).
- Clímax : momento alto do filme. Todas as situações-limite atingem uma conclusão.
Basicamente, assim se estrutura um roteiro de cinema. Obviamente estes simples artigos não pretendem “ensinar“ (mesmo com a ajuda do papa Inácio) como fazer um filme assim da noite pro dia, mas apenas dar uma diretriz básica para aqueles que pretendem começar. Há extensa bibliografia especializada que proverá material mais do que suficiente para tanto. No nosso caso específico, temos de agradecer e citar o ótimo livro, de autoria de INÁCIO ARAÚJO, evidentemente: “CINEMA – O MUNDO EM MOVIMENTO“, de 1995, lançado pela Editora SCIPIONE.
No próximo artigo esmiuçaremos o que é a chamada direção de fotografia, um aspecto fundamental dentro da linguagem cinematográfica, já que é através da mesma que um filme é plasticamente construído.