F loresta O mbrófila D ensa
Composição florística e estrutura das restingas em Santa Catarina
1Floristic composition and structure of the restinga in Santa Catarina
Alexandre Korte, André Luís de Gasper, Andres Kruger, Lucia Sevegnani
Resumo
Para a análise da composição e riqueza dos remanescentes de restinga de Santa Catarina, foram levantadas quatro Unidades Amostrais, com área prevista de 2.000 m² cada, ao longo do litoral catarinense, com base no mapeamento do IFFSC. No componente arbóreo/arbustivo, foram 7.800 m² de área analisada nos quais foram levantados 818 indivíduos, distribuídos em 60 espécies e em 29 famílias. O limite de inclusão permitiu a inclusão de plantas com altura superior a 1,5 m e DAP ≥ 5,0 cm. O diâmetro médio, a altura média e a área basal foram de 10,39 cm, 4,36 m e 9,42 m2.ha-1, respectivamente. As espécies com maior valor de importância foram Ilex theezans, Guapira opposita, Ocotea pulchella, Clusia criuva, Sebastiania commersoniana e Eugenia pluriflora. Para o componente da regeneração foram 375 m2 de área levantada, onde foram encontrados 163 indivíduos, 48 espécies e 16 famílias, sendo o limite de inclusão DAP < 5,0 cm e altura ≥ 0,5 m. A altura média encontrada foi de 1,68 m. Dentre as espécies com maior valor de importância estão Guapira opposita, Ilex theezans, Ocotea pulchella e Vitex megapotamica. O levantamento florístico foi realizado na área das Unidades Amostrais, no seu entorno e também à beira-mar, incluindo a restinga herbácea e arbustiva. Foram coletadas 225 espécies de plantas, 175 gêneros e 82 famílias. Dentre as famílias que se destacaram foram Asteraceae, Fabaceae, Rubiaceae, Melastomataceae, Myrtaceae e Cyperaceae. Dentre os gêneros com maior número de espécies se destacam: Myrcia, Tibouchina, Myrsine e Pleopeltis. Portanto, a restinga catarinense apresenta grande diversidade de espécies e estrutura complexa, formando zonas ecológicas, limitadas pelos fatores ecológicos naturais estressantes, bem como, pelas perturbações antropogênicas.
Abstract
To analyze the composition and richness of the remnants of restinga in Santa Catarina, four Sample Plots were established, with an sample area of 2,000 m² each, along the coast of Santa Catarina, based on IFFSC mapping.
In the tree/shrub component 7,800 m² were sampled; 818 individuals were collected, distributed in 60 species and 29 families. The threshold for inclusion was tree height > 1.5 m and DBH ≥ 5.0 cm. The average diameter, height and basal area were 10.39 cm, 4.36 m and 9.42 m².ha-1, respectively. The species with highest importance value were Ilex theezans, Guapira opposita, Ocotea pulchella, Clusia criuva, Sebastiania commersoniana and Eugenia pluriflora. For the natural regeneration 375 m² were sampled, where we found 163 individuals, of 48 species and 16 families. The threshold for inclusion was total height > 0.50 m and DBH < 5.0 cm. The average height was 1.68 m. Among the species with the highest importance values are Guapira opposita, Ilex theezans, Ocotea pulchella and Vitex megapotamica. The floristic survey was conducted in the Sample Plots and its surroundings and also in areas near the seashore. We collected 225 species, 175 genera and 82 families. Among the outstanding families were Asteraceae, Fabaceae, Rubiaceae, Melastomataceae, Myrtaceae and Cyperaceae. Among the genera with the highest number of species are: Myrcia, Tibouchina, Myrsine and Pleopeltis. Therefore, the restinga of Santa Catarina has high species diversity and complex structure, forming ecological zones, limited by natural ecological stress factors, as well as by anthropogenic disturbances.
1 Korte, A.; Gasper, A.L. de; Kruger, A.; Sevegnani, L. 2013. Composição florística e estrutura das Restingas em Santa Catarina. In:
Vibrans, A.C.; Sevegnani, L.; Gasper, A.L. de; Lingner, D.V. (eds.). Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina, Vol. IV, Floresta Ombrófla Densa. Blumenau. Edifurb.
9.1 Introdução
O litoral de Santa Catarina apresenta uma extensão de aproximadamente 460 km, tendo como limite norte o rio Saí-Guaçu, município de Itapoá, fazendo divisa com o estado do Paraná, passando pela ilha de São Francisco do Sul, a ilha de Florianópolis e se estendendo até o município de Passo de Torres, na divisa com o estado do Rio Grande do Sul, abrangendo também diversas ilhas de menor tamanho (Reitz 1961).
Nesta região litorânea, encontra-se uma vegetação pioneira que ocupa a primeira faixa de depósitos de areia, esta vegetação é denominada de formação pioneira de influência marinha (IBGE 1992). Num sentido mais restrito, esta vegetação, conhecida como restinga, está intimamente associada e condicionada pelo ambiente marinho, podendo ocorrer numa faixa que varia de poucos metros a 7 km para o interior do continente (Reitz 1961).
O termo Restinga tem vários significados de acordo com Souza et al. (2007). Ele é amplamente empregado na literatura brasileira para designar feições geomorfológicas costeiras, bem como depósitos litorâneos recentes e ainda um tipo de cobertura vegetal (Suguio & Tessler 1984 apud Brizzotti 2009).
Quando o termo indica vegetação é utilizado para designar as diversas comunidades vegetacionais, ou zonas ecológicas, que ocorrem sobre as planícies costeiras arenosas do Quaternário do Brasil (Araújo
& Henriques 1984 apud Silva et al. 2010).
De acordo com a Resolução CONAMA nº 261/1999 (CONAMA 1999), restinga é um conjunto de ecossistemas que compreende comunidades vegetacionais, florísticas e fisionomicamente distintas, situadas em terrenos predominantemente arenosos, de origens marinha, fluvial, lagunar, eólica ou combinações destas.
As restingas podem ser consideradas prolongamentos de áreas, contendo espécies animais e plantas características de outros ecossistemas, que nelas ocorrem em consequência da diversidade das condições físicas que ali se apresentam (Araújo & Lacerda 1987). A despeito disto, Alves et al. (2007) comentam que a variedade e a composição das comunidades de plantas ao longo da planície costeira são determinadas por uma combinação de variáveis ambientais de origem oceânica e continental.
O constante efeito da direção do vento faz com que a vegetação e as árvores isoladas adquiram frequentemente um aspecto anemomórfico, ou seja, com as copas unilateralmente deformadas (Waechter 1985). Estes ventos também carregam constantemente gotículas de água salgada provenientes da quebra das ondas, que são depositadas sobre a vegetação. A intensa insolação faz com que a água evapore, restando apenas uma fina camada de sal sobre as folhas. As halófitas (plantas tolerantes à salinidade) devem ser capazes de absorver e acumular sais, a fim de retirar do solo a água osmoticamente ligada, entretanto, ocorrendo o progressivo acúmulo interno, tornam-se vitais os mecanismos protetores e compensatórios (Larcher 1986). A eliminação de sal é um mecanismo importante, que contribui para a resistência das plantas em ambientes salinos (Pollak & Waisel 1979).
Os efeitos nocivos da salinidade, da insolação, da amplitude térmica e da perda de água são minimizados pelo processo de adaptação que as espécies, que vivem na restinga, apresentam.
Algumas destas adaptações (excreção de sal) são muito semelhantes àquelas encontradas nas plantas de manguezais (Araújo & Lacerda 1987). Klein (1978) cita algumas destas adaptações, dentre elas, o tamanho reduzido das folhas, pêlos principalmente na face dorsal e a presença de uma espessa cutícula na face ventral. O mesmo autor considera a fisionomia da vegetação da restinga como sendo produto das condições edáficas especiais existentes, exercendo o clima uma influência secundária.
Diversos trabalhos abordando a florística e fitossociologia foram realizados no Sul do Brasil (Tab. 9.1), dentre eles podemos citar para o Paraná: Sonehara (2005); para Santa Catarina: Reitz (1961); Danilevicz (1990); Souza et al. (1992); Falkenberg (1999) que descreveu as fitofisionomias e os estádios sucessionais da restinga catarinense; Rogalski & Araújo (2005); Daniel (2006); Klein (2007).
Para o Rio Grande do Sul: Rambo (1954); Irgang et al. (1984), que trabalhou com lagoas na Estação Ecológica do Taim; Danilevicz (1989); Scherer (2005); Waechter (1985; 1990), que descreveu ainda de forma sucinta, as diversas tipologias da restinga gaúcha.
Tabela 9.1. Trabalhos de fitossociologia e florística realizados em restinga do Sul do Brasil.
Table 9.1. Phytosociology and floristic studies at the restinga in southern Brazil.
Autores Local Nº de espécies
Rambo (1954) Rio Grande do Sul 1072
Reitz (1961) Santa Catarina 956
Danilevicz (1989) Tavares – RS 75
Danilevicz (1990) Garopaba – SC 135
Souza et al (1992) Florianópolis – SC 150
Sonehara (2005) Matinhos – PR 179
Irgang et al (1984) ESEC Taim – RS 126
Rogalski & Araújo (2005) Ilha Moleques do Sul – SC 34
Scherer (2005) Itapuã – RS 31
Daniel (2006) Araranguá – SC 124
Klein (2007) Araranguá – SC 60
Falkenberg (1999) Santa Catarina -
Waechter (1985; 1990) Rio Grande do Sul -
A expansão da ocupação humana reduziu a restinga a pequenas manchas dispersas ao longo da costa atlântica, geralmente, remanescendo com bom estado de conservação em praias ainda pouco exploradas ou no interior de Unidades de Conservação. Nas demais áreas, a vegetação de restinga perdeu espaço para estradas e balneários, com massivas construções, como ocorre em Barra Velha, Balneário Camboriú, Itapema e Meia Praia, Florianópolis, Laguna, e, mais ao sul, pelos cultivos agrícolas e pastagens. O trabalho de Gasper et al. (2012) registrou pela primeira vez a ocorrência de espécie da samambaia (Asplenium lacinulatum – Aspleniaceae) no estado. Contudo, a espécie ocorre em área de restinga e Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas e a única população da espécie até então conhecida está ameaçada pela expansão imobiliária.
Diante da importância deste tipo de vegetação e com base nos registros feitos pelo IFFSC, este trabalho se propõe a caracterizar a estrutura e a composição florística de remanescentes de restinga de Santa Catarina.
9.2 Metodologia
As Unidades Amostrais de restinga foram definidas de acordo com a metodologia adotada por Vibrans et al. (2010). Foram instaladas três unidades na grade regular (10 x 10 km) e uma Unidade Amostral complementar na Praia do Ervino sitada no município de São Francisco do Sul (Figura 9.1).
Figura 9.1. Mapa de localização das Unidades Amostrais da restinga em Santa Catarina.
Figure 9.1. Location of Sample Plots installed in restinga of Santa Catarina.
As Unidades Amostrais foram adaptadas para a restinga. A partir de um ponto central foram instaladas, após 30 m, quatro subunidades nas direções Norte, Sul, Leste e Oeste (Figura 9.2). Cada subunidade mede 50 m de comprimento por 10 m de largura, abrange 500 m². A área amostral por Unidade Amostral é de 2.000 m². Todas as plantas lenhosas com DAP ≥ 5 cm foram mensuradas e identificadas.
Figura 9.2. Unidade Amostral do IFFSC para a restinga.
Figure 9.2. IFFSC Sample Plot used in restinga.
Para o levantamento da regeneração natural foi adotada uma parcela de 5 x 5 m na extremidade de cada subunidade, totalizando 400 m². Foram levantadas todas as plantas lenhosas com DAP < 5 cm e altura ≥ 0,5 m, sendo que somente a altura dos indivíduos foi registrada. As espécies foram identificadas em campo ou coletadas para posterior identificação e tombadas no Herbário Dr. Roberto Miguel Klein (FURB).
Foram efetuadas coletas de plantas em estado fértil em diferentes zonas ecológicas: nas praias frontais, dunas, antedunas, áreas de banhado, na restinga arbóreo/arbustiva, bem como na área compreendida pelas Unidades Amostrais e seu entorno, procurando abranger as espécies presentes neste ecossistema. Considerando que as coletas foram realizadas em dois ou três dias consecutivos por Unidade Amostral, diversas espécies que não estavam férteis neste período, não foram, portanto, coletadas. Contudo, tendo em vista o grau de ameaça desta formação, sua importância na manutenção da faixa litorânea e a necessidade de ampliar o conhecimento sobre as restingas de Santa Catarina, a lista é apresentada aqui, mesmo que seja incompleta.
Com fins de agrupamentos das Unidades Amostrais, elaborou-se um cladograma com base em matriz de densidades de espécies do componente arbóreo/arbustivo das quatro áreas. A análise foi executada no programa PCORD 6 (McCune & Mefford 2011). Nesta análise, foi usada a distância euclidiana e o método de agrupamento de Ward.
9.3 Resultados e Discussão
Nas quatro Unidades Amostrais estabelecidas na restinga, foram mensurados nos componentes arbóreo/arbustivo e da regeneração natural 981 indivíduos, distribuídos em: duas espécies de pteridófitas (Cyathea atrovirens e C. phalerata – Cyatheaceae) e 74 de angiospermas, compreendendo 54 gêneros e 34 famílias. A área de amostragem compreendeu em 7.800 m² para o componente arbóreo/arbustivo e 375 m² para a regeneração, esta redução se deve a falta de vegetação observada na extremidade de uma das subunidades. A listagem das espécies amostradas encontra-se na Tabela 9.8 e as descrições relativas às Unidades Amostrais no Apêndice V.
Foram 28 as espécies amostradas apenas no componente arbóreo/arbustivo e 16 as que ocorrem somente no componente da regeneração. As exclusivas do componente da regeneração são: Maytenus robusta, Andira fraxinifolia, Ocotea lanata, Ocotea lobbii, Tibouchina mutabilis, Campomanesia xanthocarpa, Myrcia racemosa, Myrcia selloi, Faramea montevidensis, Psychotria carthagenensis, Psychotria myriantha, Casearia sylvestris, Allophylus edulis, Daphnopsis racemosa, Bactris setosa e Geonoma schottiana. Estas duas últimas apresentam pequeno porte, mesmo quando adultas. As espécies comuns a ambos os componentes somam 32.
No componente arbóreo/arbustivo, as famílias com maior riqueza de espécies foram Myrtaceae (nove), seguida por Primulaceae e Sapindaceae (quatro cada), Aquifoliaceae, Asteraceae e Lauraceae (três cada). Nove famílias são representadas com duas espécies cada e 16 com apenas uma espécie cada. Dentre os gêneros com maior número de espécies estão: Myrcia (cinco), Myrsine (quatro) e Ilex (três). Sete gêneros são representados com duas espécies cada e 34 com apenas uma espécie cada (Tabela 9.2).
No componente da regeneração, a riqueza de espécies difere um pouco em relação ao arbóreo, com Myrtaceae (12), Primulaceae (quatro), Lauraceae, Melastomataceae, Rubiaceae e Sapindaceae (três cada). Cinco famílias são representadas com duas espécies cada e dez famílias com apenas uma espécie cada. Os gêneros com maior número de espécies foram Myrcia (sete), seguido por Myrsine (quatro) e Ocotea (três). Foram encontrados ainda sete gêneros representados por duas espécies cada e 34 gêneros representados por uma espécie cada (Tabela 9.3).
Tabela 9.2. Síntese da diversidade de famílias e gêneros do componente arbóreo/arbustivo da restinga em Santa Catarina.
Table 9.2. Diversity synthesis of the families and genera sampled in the tree/shrub component at the restinga in Santa Catarina.
Família Nº Espécies Nº Gêneros Nº Indivíduos Gênero Nº Espécies Nº Indivíduos
Myrtaceae 9 4 107 Myrcia 5 34
Primulaceae 4 1 79 Myrsine 4 79
Sapindaceae 4 3 7 Ilex 3 162
Aquifoliaceae 3 1 162 (7) Gêneros 2
Asteraceae 3 2 6 (34) Gêneros 1
Lauraceae 3 2 81
(9) Famílias 2
(16) Famílias 1
Tabela 9.3. Síntese da diversidade de famílias e gêneros da regeneração natural das restingas em Santa Catarina.
Table 9.3. Diversity synthesis of the families and genera sampled in the natural regeneration at the restinga in Santa Catarina.
Família Nº Espécies Nº Gêneros Nº Indivíduos Gênero Nº Espécies Nº Indivíduos
Myrtaceae 12 5 30 Myrcia 7 15
Primulaceae 4 1 16 Myrsine 4 16
Lauraceae 3 1 12 Ocotea 3 12
Melastomataceae 3 2 5 (5) Gêneros 2
Rubiaceae 3 2 8 (24) Gêneros 1
Sapindaceae 3 3 7
(5) Famílias 2
(10) Famílias 1
O cladograma (Figura 9.3), tendo como base as espécies de componente arbóreo/arbustivo, apresenta a similaridade entre as Unidades Amostrais. As Unidades Amostrais 228 (Palhoça) e 391 (Florianópolis) parecem ter maior semelhança de composição entre si do que as Unidades Amostrais 35 (Içara) e 8010 (São Francisco do sul). A distância geográfica se reflete na distância evidenciada pela análise entre as Unidades Amostrais 35 (Içara, no sul do estado) e 8010 (São Francisco do Sul, no norte). Possuem as espécies Clusia criuva, Ocotea pulchella e Guapira opposita como dominantes nas Unidades Amostrais 228 e 391.
Figura 9.3. Cladograma formado a partir da aplicação da análise de agrupamentos sobre os dados médios das Unidades Amostrais alocadas na restinga em Santa Catarina.
Figure 9.3. Dendrogram formed from the application of cluster analysis on the average data of Sample Plots allocated within the restinga in Santa Catarina.
9.3.1 Fitossociologia do componente arbóreo/arbustivo
Nas Unidades Amostrais do componente arbóreo/arbustivo, foram encontrados 818 indivíduos, distribuídos em 60 espécies e 29 famílias. Compreendendo uma densidade absoluta de 1.048,7 ind.ha-1 e uma área basal de 9,42 m2.ha-1, diâmetro médio de 10,39 cm e altura média de 4,36 m (Tabela 9.4). A baixa altura média e área basal, bem como elevados valores de densidade podem significar que a comunidade está sob estresse natural constante (Waechter 1985), o que é facilmente observado nas restingas. Assumpção & Nascimento (2000) observaram que quanto mais se afastavam do mar, maior era a altura e o DAP das espécies analisadas. Valor de densidade muito próximo do encontrado pelo presente trabalho foi registrado por Scherer et al. (2005), para as matas de restinga arenosa no Parque Estadual de Itapuã, Rio Grande do Sul.
As espécies que apresentaram maior valor de importância no componente arbóreo/arbustivo foram Ilex theezans, Guapira opposita, Ocotea pulchella, Clusia criuva, Sebastiania commersoniana e Eugenia pluriflora.
Tabela 9.4. Descritores fitossociológicos do componente arbóreo/arbustivo, apresentando as espécies mais importantes na restinga de Santa Catarina. N = número de indivíduos; U = número de Unidades Amostrais nas quais a espécie ocorre; AB
= área basal (m2); DA = densidade absoluta (ind.ha-1); DR = densidade relativa (%); FA = frequência absoluta (%); FR = frequência relativa (%); DoA = dominância absoluta (m2.ha-1); DoR = dominância relativa (%); VI = valor de importância;
DAP = diâmetro na altura do peito médio (cm); Ht = altura total média (m).
Table 9.4. Phytosociological analysis of tree/shrub component with the main species at restinga in Santa Catarina.
N = number of individuals; U = Sample Plots that the species occurred; AB = basal area (m2); DA = absolute density (ind.ha-1); DR = relative density (%); FA = absolute frequency (%); FR = relative frequency (%); DoA = absolute dominance (m2.ha-1); DoR = relative dominance (%); VI = importance value; DAP = mean diameter at breast height (cm); Ht = mean total height (m).
Espécie N U AB DA DR FA FR DoA DoR VI DAP Ht
Ilex theezans 123 4 1,30 157,7 15,0 100,0 3,9 1,7 13,8 32,8 10,6 3,5
Guapira opposita 91 4 1,23 116,7 11,1 100,0 3,9 1,6 13,1 28,1 11,5 4,2
Ocotea pulchella 67 4 0,80 85,9 8,2 100,0 3,9 1,0 8,5 20,6 10,6 4,7
Clusia criuva 44 3 0,70 56,4 5,4 75,0 2,9 0,9 7,5 15,8 12,2 4,9
Sebastiania commersoniana 51 1 0,74 65,4 6,2 25,0 1,0 1,0 7,9 15,1 11,6 3,7
Eugenia pluriflora 29 3 0,58 37,2 3,6 75,0 2,9 0,7 6,2 12,6 10,0 2,9
Psidium cattleianum 37 4 0,23 47,4 4,5 100,0 3,9 0,3 2,5 10,9 8,3 4,6
Não identificada 30 3 0,28 38,5 3,7 75,0 2,9 0,4 3,0 9,6 10,0 4,6
Myrsine umbellata 35 3 0,16 44,9 4,3 75 2,9 0,2 1,7 8,9 7,2 4,0
Schinus terebinthifolius 14 1 0,50 17,9 1,7 25 1,0 0,6 5,3 8,0 18,9 6,0
Pera glabrata 16 4 0,11 20,5 2,0 100 3,9 0,1 1,2 7,1 8,3 3,4
Ilex pseudobuxus 25 2 0,16 32,1 3,1 50 2,0 0,2 1,7 6,8 8,7 5,1
Alchornea triplinervia 18 2 0,22 23,1 2,2 50 2,0 0,3 2,4 6,5 11,7 7,5
Myrsine venosa 24 2 0,11 30,8 2,9 50 2,0 0,1 1,2 6,1 7,5 4,5
Ilex dumosa 14 3 0,11 17,9 1,7 75 2,9 0,1 1,1 5,8 8,7 3,5
Demais espécies (46) 200 2,17 256,4 24,4 1475 57,8 2,8 23,1 105,3
Somatório / *média 818 4 9,42 1048,7 100 2550 100 12,1 100 300 10,39* 4,36*
Os índices de diversidade de Shannon e de equabilidade variaram entre 2,22 a 3,04 nats e 0,71 a 0,89, respectivamente. Os maiores valores do índice de Shannon e de equabilidade foram encontrados na Unidade Amostral 391, localizada na Praia da Daniela, Florianópolis. O índice de Simpson foi calculado sendo que o menor valor foi encontrado na Unidade Amostral 8010 (São Francisco do Sul) e o maior foi encontrado na Unidade Amostral 391 (Florianópolis). Apresentando a Unidade Amostral 8010, índice de diversidade menor que as demais, e a 391, o maior. Para o coeficiente de mistura de Jentsch, o maior valor foi verificado na Unidade Amostral 8010 (São Francisco do Sul) e o menor na Unidade Amostral 228, em Palhoça (Tabela 9.5).
Tabela 9.5. Unidades Amostrais e respectivos números de indivíduos e de espécies, os índices de Shannon, de Simpson e de equabilidade e o coeficiente de mistura de Jentsch para o componente arbóreo/arbustivo.
Table 9.5. Sample Plots with number of individuals, number of species, Shannon diversity index, Simpson index, equitability index and Jentsch coefficient of mixture of tree/shrub component.
UA Nº indivíduos Nº espécies Shannon Simpson Equabilidade Coef. Jentsch
35 211 30 2,41 0,85 0,71 1: 7,03
228 111 22 2,34 0,86 0,76 1: 5,05
391 235 31 3,04 0,95 0,89 1: 7,58
8010 261 19 2,22 0,82 0,76 1: 13,74
9.3.2 Fitossociologia do componente da regeneração natural
Na regeneração natural foram amostrados 163 indivíduos, segregados em 48 espécies e 16 famílias. A altura média encontrada foi de 1,68 m, a densidade absoluta 4.346,7 ind.ha-1. Como o dossel da restinga é pouco denso, o solo com incidência de mais luz favorece a instalação do maior número de indivíduos, em geral, de pequeno tamanho, fato que pode explicar os elevados valores de densidade absoluta. As espécies que apresentaram maior valor de importância de regeneração foram: Guapira opposita, Ilex theezans, Ocotea pulchella e Vitex megapotamica (Tabela 9.6), sendo que duas destas estão entre as mais importantes do componente arbóreo/arbustivo.
Tabela 9.6. Descritores fitossociológicos da regeneração natural apresentando as espécies mais importantes. N = número de indivíduos; U = número de Unidades Amostrais nas quais a espécie ocorre; DA = densidade absoluta (ind.ha-1); DR = densidade relativa (%); FA = frequência absoluta (%); FR = frequência relativa (%); VI = valor de importância; Ht = altura total média (m).
Table 9.6. Phytosociological analysis of regeneration component with the main species at restinga in Santa Catarina. N = number of individuals; U = Sample Plots that the species occurred; DA = absolute density (ind.ha-1); DR = relative density (%); FA = absolute frequency (%); FR = relative frequency (%); VI = importance value; Ht = mean total height (m).
Espécie N U DA DR FA FR VI Ht
Guapira opposita 10 4 266,7 6,1 100,0 5,8 11,9 1,8
Ilex theezans 12 3 320,0 7,4 75,0 4,4 11,7 1,6
Ocotea pulchella 9 4 240,0 5,5 100,0 5,8 11,3 1,7
Vitex megapotamica 13 2 346,7 8,0 50,0 2,9 10,9 1,0
Eugenia pluriflora 7 3 186,7 4,3 75,0 4,4 8,6 1,7
Myrsine umbellata 8 2 213,3 4,9 50,0 2,9 7,8 2,1
Clusia criuva 6 2 160,0 3,7 50,0 2,9 6,6 2,1
Sebastiania commersoniana 8 1 213,3 4,9 25,0 1,5 6,4 1,8
Psidium cattleianum 5 2 133,3 3,1 50,0 2,9 6,0 2,3
Myrcia brasiliensis 5 2 133,3 3,1 50,0 2,9 6,0 1,5
Não indentificada 5 2 133,3 3,1 50,0 2,9 6,0 1,9
Myrsine coriacea 4 2 106,7 2,5 50,0 2,9 5,4 0,9
Psychotria carthagenensis 4 2 106,7 2,5 50,0 2,9 5,4 0,8
Baccharis angusticeps 6 1 160,0 3,7 25,0 1,5 5,1 2,2
Lithrea brasiliensis 3 2 80,0 1,8 50,0 2,9 4,7 1,7
Demais Espécies (34) 58 1546,7 35,5 875,0 51,0 86,2
Somatório / *média 163 4 4346,7 100 1725 100 200
Os índices de diversidade de Shannon e de equabilidade resultaram em 2,43 a 2,71 nats e 0,86 a 0,95, respectivamente. O índice de Simpson ficou compreendido entre 0,89 e 0,95. Diferentemente do componente arbóreo/arbustivo, o coeficiente de mistura de Jentsch pouco variou, ficando entre 2,11e 2,80 (Tabela 9.7).
Tabela 9.7. Unidades Amostrais levantadas na restinga de Santa Catarina com respectivos índices de Shannon, de Simpson e de equabilidade e o coeficiente de mistura de Jentsch para a regeneração natural.
Table 9.7. Sample Plots with number of individuals, number of species, Shannon diversity index, Simpson index, equitability index and Jentsch coefficient of mixture of natural regeneration.
UA Nº indivíduos Nº espécies Shannon-Wiener Simpson Equabilidade Coef. de Jentsch
35 40 19 2,70 0,94 0,92 1: 2,11
228 39 17 2,43 0,89 0,86 1: 2,29
391 42 18 2,71 0,95 0,94 1: 2,33
8010 42 15 2,47 0,92 0,91 1: 2,80
9.3.3 Florística
Foram coletadas 225 espécies, sendo 175 gêneros, pertencendo a 82 famílias. Reitz (1961), para as restingas catarinenses, registrou 956 espécies e estimava que este número pudesse alcançar 1.200 espécies. Atualmente, como resultado do avanço da urbanização sobre essas áreas, muitas delas estão extremamente perturbadas, reduzidas ou mesmo foram eliminadas. Dessa forma, o número de espécies e o tamanho das populações da restinga, em áreas perturbadas, podem estar reduzidos, contudo, maior esforço amostral deve ser executado, incluindo também as áreas em torno das lagoas e das lagunas, além dos brejos, mais frequentes e com maiores dimensões a partir de Florianópolis para o sul.
Neste levantamento, as famílias que mais se destacaram pela quantidade de espécies foram Asteraceae, Fabaceae, Rubiaceae, Melastomataceae, Myrtaceae e Cyperaceae, dentre os gêneros estão Myrcia, Tibouchina, Myrsine, pertencentes às Angiospermas, e Pleopeltis, às samambaias (Tabela 9.8).
Tabela 9.8. Lista de espécies e famílias amostradas no componente arbóreo/arbustivo, na regeneração natural e na florística na restinga em Santa Catarina. A = número de indivíduos do componente arbóreo/arbustivo; R = número de indivíduos da regeneração natural; * indica que a espécie não foi coletada na florística, apenas no levantamento fitossociológico.
Table 9.8. Species and families recorded in the tree/shrub component and natural regeneration at the restinga in Santa Catarina. A = number of individuals in the tree/shrub component, R = number of individuals in the natural regeneration; * indicates that the species was not found in the floristic, phytosociological only.
Famílias Espécies A R
Acanthaceae Avicennia schaueriana Alstroemeriaceae Bomarea edulis
Amaranthaceae Alternanthera littoralis var. maritima Blutaparon portulacoides
Pfaffia sp.
Amaryllidaceae Zephyranthes sp.
Anacardiaceae Lithrea brasiliensis 5 3
Schinus terebinthifolius 14 1
Famílias Espécies A R
Annonaceae Annona maritima
* Duguetia lanceolata 1
Guatteria australis
Apiaceae Ciclospermum leptophyllum var. leptophyllum Eryngium sp.
Apocynaceae Forsteronia sp.
Mandevilla funiformis Mandevilla pentlandiana Mandevilla petraea Oxypetalum tomentosum Peplonia axillaris
Tabernaemontana catharinensis
Aquifoliaceae Ilex dumosa 14
Ilex pseudobuxus 25 1
Ilex theezans 123 12
Araceae Anthurium gaudichaudianum Anthurium sellowianum Anthurium urvilleanum Philodendron appendiculatum Araliaceae Hydrocotyle bonariensis
Hydrocotyle ranunculoides
Arecaceae * Bactris setosa 1
Butia catarinensis 1 1
* Geonoma schottiana 4
* Syagrus romanzoffiana 1
Asteraceae Baccharis aliena 1
* Baccharis angusticeps 4 6
Baccharis mesoneura Baccharis punctulata Calea pinnatifida Chaptalia integerrima Conyza bonariensis Conyza primulifolia Coreopsis sp.
Cyrtocymura scorpioides
Famílias Espécies A R Emilia fosbergii
Gamochaeta americana
* Gochnatia polymorpha 1
Grazielia serrata Hieracium commersonii Noticastrum calvatum Porophyllum ruderale Pterocaulon lorentzii Pterocaulon polypterum Senecio crassiflorus Senecio leptolobus Verbesina sp.
Bignoniaceae * Handroanthus chrysotrichus 14
Handroanthus pulcherrimus Blechnaceae Blechnum brasiliense
Blechnum serrulatum Boraginaceae Tournefortia sp.
Varronia curassavica Bromeliaceae Aechmea gamosepala
Aechmea nudicaulis Dyckia sp.
Nidularium sp.
Tillandsia geminiflora Vriesea friburgensis Burmanniaceae Burmannia sp.
Cactacea * Cereus hildmannianus 2
Opuntia monacantha 2
Calophyllaceae * Calophyllum brasiliense 3
Calyceraceae Acicarpha spathulata Campanulaceae Lobelia sp.
Cannaceae Canna sp.
Caryophyllaceae Polycarpon tetraphyllum
Celastraceae Maytenus robusta 3
Chloranthaceae Hedyosmum brasiliense
Clusiaceae Clusia criuva subsp. parviflora 44 6
Famílias Espécies A R
Garcinia gardneriana Commelinaceae Tradescantia sp.
Convolvulaceae Evolvulus sp.
Ipomoea alba Ipomoea imperati Ipomoea pes-caprae Cunoniaceae Weinmannia discolor
Cyatheaceae Cyathea atrovirens 10 2
Cyathea phalerata 2 1
Cyperaceae Androtrichum trigynum Cyperus prolixus Eleocharis geniculata Eleocharis nana Fimbristylis cymosa Kyllinga vaginata Remirea maritima Rhynchospora sp.
Scleria sp.
Dilleniaceae Davilla rugosa Dioscoreaceae Dioscorea sp.
Dryopteridaceae Rumohra adiantiformis
Ericaceae Gaylussacia brasiliensis var. brasiliensis Eriocaulaceae Actinocephalus sp.
Syngonanthus chrysanthus Erythroxylaceae Erythroxylum argentinum
* Erythroxylum deciduum 1
Erythroxylum vacciniifolium 3 1
Euphorbiaceae Acalypha reptans
* Alchornea triplinervia 18 1
Croton sp.
Sapium glandulosum Sebastiania argutidens
Sebastiania commersoniana 51 8
Tragia volubilis Fabaceae Abarema langsdorffii
Famílias Espécies A R Acacia longifolia
* Albizia edwallii 8
* Andira fraxinifolia 1
Canavalia sp.
Chamaecrista flexuosa Clitoria sp.
Crotalaria micans Dalbergia ecastaphyllum Desmodium incanum
* Ormosia arborea 3
Sesbania virgata Sophora tomentosa Stylosanthes viscosa Vigna sp.
Zollernia ilicifolia Zornia sp.
Gentianaceae Voyria aphylla
Gesneriaceae Codonanthe devosiana Codonanthe gracilis Sinningia nivalis Goodeniaceae Scaevola plumieri Iridaceae Sisyrinchium sp.
Juncaceae Juncus acutus Juncaginaceae Triglochin striata
Lamiaceae Vitex megapotamica 2 13
Lauraceae Aiouea saligna 13
* Ocotea lanata 2
* Ocotea lobbii 1
Ocotea pulchella 67 9
* Ocotea pulchra 1
Lythraceae Cuphea sp.
Malpighiaceae Byrsonima ligustrifolia 10 3
Heteropterys sp.
Stigmaphyllon ciliatum Malvaceae Abutilon sp.
Famílias Espécies A R
Pavonia sp.
* Pseudobombax grandiflorum 1
Marantaceae Ctenanthe sp.
Melastomataceae Acisanthera variabilis Leandra australis Leandra pallida
Miconia ligustroides 10 2
Miconia sellowiana 1 2
Ossaea confertiflora Tibouchina asperior Tibouchina clavata Tibouchina clinopodifolia
* Tibouchina mutabilis 1
Tibouchina urvilleana Tibouchina versicolor Moraceae Brosimum lactescens
* Ficus cestrifolia 2
Myrtaceae * Blepharocalyx salicifolius 4 1
Campomanesia littoralis
* Campomanesia xanthocarpa 1
Eugenia catharinae
* Eugenia pluriflora 29 7
Eugenia stigmatosa
* Eugenia umbelliflora 3 1
Eugenia uniflora
* Myrcia brasiliensis 16 5
Myrcia fenzliana
Myrcia multiflora 3 1
Myrcia palustris 9 3
* Myrcia pulchra 3 1
Myrcia selloi 2
Myrcia splendens 3 2
* Myrcia racemosa 1
Psidium cattleianum 37 5
Nyctaginaceae Guapira opposita 91 10
Famílias Espécies A R
Ochnaceae Ouratea salicifolia 2
Sauvagesia erecta Onagraceae Ludwigia multinervia
Oenothera catharinensis Oenothera mollissima Orchidaceae Brasilidium sp.
Cyrtopodium flavum Epidendrum fulgens Gomesa sp.
Vanilla chamissonis
Osmundaceae Osmundastrum cinnamomeum Passifloraceae Passiflora sp.
Pentaphylacaceae Ternstroemia brasiliensis 2
Peraceae Pera glabrata 16
Phyllanthaceae * Hieronyma alchorneoides 1
Piperaceae Peperomia glabella var. glabella Peperomia nitida
Peperomia ramboi Piper miquelianum Plantaginaceae Bacopa sp.
Plantago sp.
Plumbaginaceae Limonium brasiliense
Poaceae Paspalum vaginatum
Polygalaceae Polygala cyparissias Polypodiaceae Microgramma vacciniifolia
Pecluma paradiseae Pleopeltis astrolepis Pleopeltis hirsutissima Pleopeltis lepidopteris Pleopeltis pleopeltifolia Serpocaulon vacillans Portulacaceae Portulaca sp.
Primulaceae * Myrsine coriacea 15 4
Myrsine guianensis
Myrsine parvifolia 5 1
Famílias Espécies A R
Myrsine rubra
* Myrsine umbellata 35 8
Myrsine venosa 24 3
Pteridaceae Vittaria scabrida Rosaceae Prunus myrtifolia Rubiaceae Chiococca alba
Coccocypselum capitatum Coccocypselum condalia Coccocypselum geophiloides Diodella apiculata
Diodella radula Diodia sp.
* Faramea montevidensis 1
Hedyotis sp.
Margaritopsis astrellantha Psychotria brachyceras
Psychotria carthagenensis 4
* Psychotria myriantha 3
Richardia sp.
Rudgea parquioides
Salicaceae * Casearia sylvestris 2
Sapindaceae * Allophylus edulis 1
Cupania oblongifolia 1 4
Cupania vernalis 4
Dodonaea viscosa 1 2
Matayba intermedia 1
Paullinia trigonia
Sapotaceae Chrysophyllum marginatum 2
Pouteria caimito Pouteria venosa
* Sideroxylon obtusifolium 2
Smilacaceae Smilax campestris Solanaceae Calibrachoa sp.
Solanum americanum Solanum pseudodaphnopsis
Famílias Espécies A R Solanum pseudoquina
Symplocaceae * Symplocos sp. 3
Theaceae * Laplacea fructicosa 15 1
Thymelaeaceae Daphnopsis racemosa
Urticaceae Coussapoa microcarpa 3
Verbenaceae Lantana camara Stachytarpheta sp.
Xyridaceae Xyris jupicai
9.3.4 Distribuição das espécies e estrutura das comunidades estudadas
Waechter (1985) propõe dividir as restingas em tipos fundamentais, sendo elas pioneiras, campestres, savânicas ou florestais e derivações conforme o solo e a presença de água. No entanto, Falkenberg (1999), adaptou a proposta de Waechter (1985), dividindo os tipos pioneiros em: restinga herbácea/subarbustiva de praias e dunas frontais; herbácea/subarbustiva de dunas internas e planícies e;
herbácea/subarbustiva de lagunas, banhados e baixadas. Por fim, ainda reconheceu restinga arbustiva e restinga arbórea (ou mata de restinga).
A seguir serão apresentados os locais onde foram realizadas as coletas e as principais espécies ocorrentes. Cabe lembrar que nem todos os ambientes presentes e os diretamente associados com as restingas em Santa Catarina foram percorridos pela equipe do IFFSC. Desta forma, serão abordados apenas os ambientes onde foram realizadas as coletas florísticas com base nas observações de campo, nas espécies coletas e nas observadas (estéreis). A classificação dos ambientes segue Waechter (1985) e Falkenberg (1999), com adaptações.
Vegetação pioneira
Restinga herbácea/subarbustiva de praias e dunas frontais
Logo acima da linha da maré alta, cobrindo as praias frontais, são encontradas as primeiras espécies de plantas. Diferentemente das dunas, essas áreas são afetadas pelo constante spray de água proveniente do estouro das ondas, tornando a areia um pouco mais úmida (Reitz 1961) e com alto teor salino (Klein 1978). Além disso, a pobreza do solo, a grande permeabilidade e o calor do sol vem contribuir de forma negativa para o desenvolvimento da vegetação. Assim, estes ambientes se tornam extremamente desfavoráveis ao desenvolvimento da vegetação, sendo que somente espécies dotadas de adaptações especiais poderão ali se estabelecer (Klein 1978).
Partindo do mar em direção ao continente, as primeiras espécies encontradas são herbáceas dotadas de longos rizomas. Estas espécies podem eventualmente ter contato com a água marinha no caso de uma forte maré alta, fato este que não impede seu desenvolvimento nestas áreas, ocorrendo, então, Alternanthera littoralis, Blutaparon portulacoides, Remirea maritima, Ipomoea pes-caprae, Hydrocotyle bonariensis, Spartina ciliata e Paspalum vaginatum. Logo após a faixa composta por estas espécies, mas agora sem o contato direto com as ondas do mar, podem ser observadas também:
Acicarpha spatulata, Scaveola plumieri, Canavalia rosea, Sennecio crassiflorus, Polygala cyparissias,
Ipomoea alba e Ipomoea imperati (Figura 9.4 A).
Nas depressões entre as pequenas ondulações, na beira-mar, observa-se uma densidade de indivíduos e espécies muito mais elevados em relação às dunas móveis e dunas frontais à beira-mar. Isto se deve ao fato de essas áreas estarem protegidas do vento e da água marinha, transportada por ele, bem como pela maior estabilidade do substrato arenoso. As espécies que ali se estabelecem são Epidendrum fulgens, Smilax campestris, Diodella radula, Tragia volubilis, Clitoria sp., Rumohra adiantiformis, Remirea maritima, Opuntia monacantha, Cyrtocymura scorpioides, Oxypetalum tomentosum, Plantago sp., Pleopeltis lepidopteris, Peperomia glabella, Varronia curassavica, Dalbergia ecastaphyllum, Vriesea friburguensis e Aechmea gamosepala. A palmeira Butia catharinensis pode ainda ocorrer de forma isolada ou em pequenos agrupamentos (Figura 9.4 B).
À medida que se distancia do mar, a vegetação tende a apresentar porte arbustivo, com aumento da altura, da densidade e do número das espécies. São encontradas: Rumohra adiantiformis, Vriesea friburguensis, Schinus terebinthifolius, Psidium cattleianum, Myrcia multiflora, Guapira opposita, Opuntia monacantha e Erytrhoxyllum argentinum. Várias outras espécies ainda podem ser citadas como: as lianas Vanilla chamissonis, Paullinia trigonia e Passiflora sp. Logo após esta zona de vegetação arbustiva, em direção ao interior do continente, estabelece-se o que poderia ser denominado de restinga arbórea (Figura 9.4 C).
Vegetação das dunas frontais
As dunas são formadas por depósitos eólicos de areia (Teixeira et al. 1986) e, consequentemente, as espécies ali presentes são frequentemente soterradas pelas areias carreadas pelo vento. Estas espécies desenvolveram adaptações como a alta capacidade de regeneração e crescimento rápido (Hueck 1955;
Pfandenhauer 1978 apud Waechter 1985). De acordo com Hueck (1955), estes ambientes apresentam condições extremamente limitantes para o estabelecimento de espécies de plantas, tais como: areia mais seca que aquela muito próxima do oceano, pois tem menos umidade trazida pelo vento, e a temperatura na superfície da areia que pode chegar a 60 ºC nos momentos de maior insolação, no verão, e muito frias durante a noite.
Mesmo com essas limitações é possível encontrar algumas espécies. Dentre as que mais se destacam, são: Oxypetalum tomentosum, Porophyllum ruderale, Senecio crassiflorus, Paspalum vaginatum, Spartina ciliata, Pterocaulon lorentzii, Smilax campestris, Canavalia rosea, Acicarpha spatulata, Polygala cyparissias e Remirea maritima (Figura 9.4 D).
Nas baixadas entre as dunas, onde a umidade é mais elevada, formam-se densos agrupamentos de Poáceas e Ciperáceas, destacam-se Androtrichum trigynum, Spartina ciliata, Fimbristylis cymosa, e ainda Plantago sp., Sauvagesia erecta, além de outras espécies (Figura 9.4 E).
Nas áreas úmidas e protegidas do vento, situadas atrás das dunas, ocorrem, principalmente, espécies herbáceo/arbustivas e trepadeiras como: Dodonea viscosa, Varronia curassavica, Porophyllum ruderale, Sophora tomentosa, Dalbergia ecastaphyllum e Smilax campestris. E, no interior, predominam as lenhosas: Schinus terebinthifolius, Campomanesia litoralis, Guapira opposita, Lithrea brasiliensis, Myrsine parvifolia e Daphnopsis racemosa (Figura 9.4 F).
Algumas espécies tipicamente arbóreas das florestas podem ocorrer nessas áreas sob a forma de arbustos em tamanho muito reduzido. Entre elas, estão Guapira opposita, Lithrea brasiliensis, Vitex megapotamica, Psidium cattleianum, Myrsine parvifolia, Myrcia multiflora e Myrcia palustris. Outra espécie comumente encontrada é Casuarina equisetifolia, exótica e invasora, é frequente nas áreas de dunas em Santa Catarina, onde vegeta e se reproduz intensamente.
Figura 9.4. A) Vegetação de praia e dunas frontais; B) Espécies ocorrendo nas depressões entre os cordões arenosos, atrás das dunas frontais; C) Densa vegetação arbustiva, cobrindo as dunas fixas que seguem os cordões arenosos; D) Poucas espécies encontradas sobre as dunas frontais; E) Vegetação nas depressões entre as dunas frontais; F) Vegetação arbustiva protegida entre duas dunas móveis.
Figure 9.4. A) Vegetation of beach and frontal dunes; B) Species occurring in the depressions between the sand ridges; C) Dense shrub vegetation covering the dunes that follow the fixed sand ridges; D) A few species grow on the frontal dunes;
E) Vegetation in the depressions between the frontal dunes; F) Shrub vegetation protected between two moving sand dunes.
Restinga herbácea/subarbustiva sobre dunas internas e planícies
Nestas áreas, bem drenadas, formam-se núcleos com vegetação arbustiva densa, intercalados com áreas mais abertas e por vezes com o solo completamente desnudo. A vegetação arbustiva é formada por arvoretas baixas, de caules finos e tortuosos, formando, ocasionalmente, um dossel descontínuo.
As espécies de arvoretas presentes normalmente observadas nestas áreas são: Guapira opposita, Ocotea pulchella, Clusia criuva, Campomanesia litoralis, Myrcia palustris, Myrcia multiflora, Ilex theezans, Ilex pseudobuxus, Ilex dumosa, Alchornea triplinervia, Myrsine parvifolia, Pera glabrata, Byrsonima ligustrifolia, Vitex megapotamica, Matayba intermedia, Ternstroemia brasiliensis, Psidium cattleianum, Abarema langsdorffii, Erythoxylum vaccinifolium, Daphnopsis racemosa, Lithrea brasiliensis e Sebastiania commersoniana. A palmeira Butia catarinensis também pode ser observada em grupos ou isolada. As cactáceas suculentas apresentam um aspecto arbustivo, de maior porte, destacando-se Opuntia monacantha e Cereus peruvianus. Além destas, alguns arbustos podem ocorrer, dentre eles estão Dodonea viscosa, Psychotria carthagenensis, Crysophyllum marginatum e Annona marítima (Figura 9.5 A).
As espécies epífitas ocorrem em grande número, mas com diversidade reduzida, principalmente no que diz respeito às bromeliáceas. Dentre as espécies que mais se destacam são Micrograma vaccinifolia, Pleopeltis pleopeltifolia, Pleopeltis hirsutissima, Tilandsia geminiflora, Aechmea nudicaulis e Vriesea friburguensis. As trepadeiras mais frequentemente encontradas são Vanilla chamissonis, Mandevilla petlandiana, Davilla rugosa, Stigmaphyllon ciliatum, Mandevilla funiformis e Passiflora sp.
No interior destes núcleos, onde a luz solar penetra com relativa facilidade, podem ser observadas diversas espécies arbustivas e herbáceas. Destacam-se Psychotria carthagenensis, Bromelia antiacantha, Epidendrum fulgens, Peperomia glabella, Blechnum serrulatum, Pleopeltis lepidopteris, Ruhmora adiantiformis, Sinningia nivallis e Oenothera mollissima (Figura 9.5 B).
Em áreas onde se observa acúmulo de serapilheira e o solo começa a ser formado, podem ser encontradas: Handroanthus pulcherrimus, Aiouea saligna, Cupania vernalis, Myrsine parvifolia, Myrcia splendens, Ficus cestrifolia, Miconia ligustroides, Ouratea salicifolia, Pseudobombax grandiflorum e Erythroxylum argentinum.
Nas bordas dos núcleos de vegetação, são frequentemente encontradas Aechmea nudicaulis, Vriesea sp., Ruhmora adiantiformis e Peperomia sp. (Figura 9.5 C).
Nas depressões mal drenadas e até no interior da restinga arbórea, onde se acumula água ou grande umidade, predominam as ciperáceas, dentre elas estão Scleria sp., Eleocharis geniculata e Eleocharis nana. Podem, igualmente, ser encontradas: Blechum serrulatum, Blechnum brasiliensis e densos agrupamentos de Bromelia antiacantha. Verifica-se também em locais com muita umidade ou mesmo pequenos charcos com a presença de Sphagnum sp. e Rhynchospora sp. (Figura 9.5 D).
Restinga arbórea
Quase sempre, em seguida à restinga arbustiva, quando as condições são favoráveis, encontra- se a restinga arbórea. Esta vegetação se constitui na transição entre a restinga herbáceo/arbustiva e a Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas. A restinga arbórea pode se desenvolver tanto sobre solos arenosos de origem sedimentar marítima como sobre a parte posterior das dunas, formadas por depósitos eólicos (Waechter 1985), onde há densa camada de serrapilheira e um incipiente solo está presente. Na restinga arbórea o fator limitante de desenvolvimento é o solo. De acordo com Waechter (1985), os fatores edáficos mais importantes na determinação dos tipos de vegetação são as condições de drenagem, e em menor escala a salinidade influenciada pelas águas oceânicas.
O dossel formado pelas copas das árvores se torna mais fechado. A altura pode variar de 4 a 12 m. As árvores que compõem o estrato superior são: Alchornea triplinervia, Hieronyma alchorneoides, Pera glabrata, Ocotea pulchella, Laplacea fruticosa, Coussapoa microcarpa, Guapira opposita, Ocotea pulchella, Brosimum lactescens, Byrsonima ligustrifolia, Ficus cestrifolia, Abarema langsdorffii e Calophyllum brasiliense.
O sub-bosque, geralmente é denso, apresentando espécies como Clusia criuva, Ilex theezans, Ilex pseudobuxus, Ilex dumosa, Schinus terebinthifolius, Myrcia palustris, Myrcia multiflora, Myrcia pubipelata, Psidium cattleianum, Myrsine venosa, Myrsine parvifolia, Cyathea atrovirens, Cyathea phaleratha, Miconia ligustroides e Erythroxylum vaccinifolium (Figura 9.5 E e F).
Ocorre também as palmeiras Butia catharinensis, Bactris setosa, Geonoma schottiana e Geonoma gamiova, além de Syagrus rommanzofiana em áreas mais úmidas ou mesmo alagadas.
Em determinados locais, o solo é coberto por um denso agrupamento de bromélias, formando um verdadeiro tapete sobre o solo, fato também observado por Reitz (1961), que encontrou uma média de 13,5 indivíduos por m². As espécies mais representativas são Nidularium innocenti, Aechmea ornata, Aechmea nudicaulis e Vriesea friburguensis (Figura 9.5 G). Este padrão confere dois estratos característicos: a sinúsia das herbáceas e a das árvores. O sub-bosque, com os regenerantes das espécies arbóreas, nestes locais, se torna ralo ou mesmo, pouco expressivo.
Podem ocorrer, ainda, manchas ou clareiras com uma vegetação herbáceo/arbustiva rala, sobre um solo arenoso, bem drenado e claro (sem acúmulo de serapilheira). Nestas áreas, ocorrem Gaylusacia brasiliensis, Epidendrum fulgens, Cyrtopodium flavum, Dodonea viscosa, Myrsine parvifolia, Lithrea brasiliensis e Ilex pseudobuxus (Figura 9.5 H).
As epífitas são frequentes e abundantes, principalmente em árvores de maior porte, ou ainda mais velhas, em condição mais sombreada. São frequentes as espécies Serpocaulon vacillans, Vriesea friburguensis, Pleopeltis astrolepis, Pleopeltis hirsutissima, Pleopeltis pleopeltifolia e Gomesa crispa.
As lianas mais seguidamente encontradas são Vanilla chamissonis, Davilla rugosa, Mandevilla funiformis e Pitecoctenium echinatum.
Apesar do número reduzido de Unidades Amostrais na restinga, esta se revelou rica em ecossistemas e em espécies, desenvolvendo importantes serviços ambientais de relevante significado ecológico.
De acordo com a Resolução CONAMA 04/1993 (CONAMA 1993), as áreas de restinga são, obrigatoriamente, objeto de licenciamento ambiental em caso de interesse em executar atividades, projetos de urbanização, pastagens ou plantações.
As restingas analisadas apresentaram bom estado de conservação, no entanto, em alguns pontos se encontram perturbadas pela ação do homem, resultante da exploração de espécies para uso ornamental, presença de gado e acúmulo de lixo, principalmente próximo aos acessos às praias. Em grandes faixas, ao longo do litoral catarinense, a restinga perdeu lugar para as cidades, pastagens ou plantações.
Figura 9.5. A) Vegetação sobre dunas fixas ou em processo de fixação; B) Interior da vegetação existente sobre dunas fixas; C) Bordas da vegetação arbóreo-arbustiva encontrada sobre dunas fixas;
D) Áreas alagadas, nas depressões entre dunas fixas, com presença de espécies típicas de ambientes com solo úmido ou encharcado; E) Aspecto da vegetação no interior da restinga arbórea; F) Aspecto da vegetação no interior da restinga arbórea; G) Sub-bosque arbustivo ralo e solo coberto por bromélias na restinga arbórea; H) Áreas abertas entremeando a restinga arbórea abrigam espécies arbustivas.
Figure 9.5. A) Vegetation on fixed dunes or in process to be fixed; B) Interior of the existing vegetation on fixed dunes; C) Borders of tree and shrub vegetation on fixed dunes; D) Wetlands in the depressions between fixed dunes, with presence of species typical of humid soils; E) Vegetation within arboreous restinga; F) Vegetation within the arboreous restinga; G) Shrubby understory and soil covered with bromelias in arboreous restinga; H) Open areas in shrubby restinga.