OLÍVIA OSEAS MATAR
O P
ROCESSO
C
IVILIZATÓRIO EM
F
REUD E
M
ARCUSE
:
P
ENSANDO A CONTEMPORANEIDADE
FACULDADE DE PSICOLOGIA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA
OLÍVIA OSEAS MATAR
O P
ROCESSO
C
IVILIZATÓRIO EM
F
REUD E
M
ARCUSE
:
P
ENSANDO A CONTEMPORANEIDADE
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO COMO EXIGÊNCIA PARCIAL PARA A GRADUAÇÃO NO CURSO DE PSICOLOGIA, SOB ORIENTAÇÃO DO PROF. ODAIR FURTADO.
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA SÃO PAULO
Dedicatória
Dedico este trabalho a todos aqueles que fazem parte de minha vida e àqueles que já fizeram parte dela.
À minha mãe, por ser o alicerce de toda minha existência.
Ao meu pai, presente na memória em mais um fim e começo.
Área do conhecimento: 7.07.00.00-1
Olívia Oseas Matar. O Processo Civilizatório em Freud e Marcuse: Pensando a contemporaneidade, 2008.
Sob orientação do Prof. Odair Furtado.
Palavras-chave: repressão, sublimação, contemporaneidade.
Resumo
Sumário
I. Introdução - 06
II. O Processo Civilizatório de Freud
Teoria dos Instintos - 07
Princípio de Prazer e Princípio de Realidade - 12
Mal-Estar na Civilização - 14
III. Marcuse: Teoria Crítica e Civilização
Mais-Repressão e Princípio de Desempenho - 20
A Dimensão Estética - 26
O Processo Civilizatório em Freud - 31
IV. Pensando a Contemporaneidade - 35
A grande maioria dos homens suporta a vida sem muito
resmungar, e acredita então no valor da existência, mas
precisamente porque cada um quer e afirma somente a si mesmo,
e não sai de si mesmo como aquelas exceções: tudo
extrapessoal, para eles, ou não é perceptível ou o é, no máximo,
como uma frágil sombra. Portanto, para o homem comum,
cotidiano, o valor da vida baseia-se apenas no fato dele se tomar
por mais importante que o mundo. A grande falta de imaginação
de que sofre faz com que não possa colocar-se na pele de outros
seres, e em virtude disso participa o menos possível de seus
destinos e dissabores. (...) Se ele vê, em tudo o que faz, a falta de objetivo último dos homens, seu próprio agir assume a seus olhos
caráter de desperdício.
I. Introdução
O objetivo deste trabalho é fazer um recorte na obra de Herbert Marcuse, de modo a evidenciar sua teoria da civilização realizada sobre a leitura do fundador da psicanálise Sigmund Freud que, em seu interior, analisa as pulsões de vida e de morte em relação à sociabilidade dos indivíduos. Para além de Freud e sua teoria dos instintos, Marcuse ressalta o papel primordial do tipo de organização de sociedade em que estes indivíduos estão inseridos e compõem.
No primeiro capítulo deste trabalho a teoria freudiana das pulsões foi brevemente esclarecida, e o motivo desta tentativa de elucidação foi percorrer parte do caminho feito por Marcuse em Eros e Civilização (1997) sem utilizar, de início, o olhar deste autor, proporcionando assim uma ampliação imparcial de parte da obra de Freud, para então poder estabelecer as críticas que Marcuse faz à mesma.
No segundo capítulo a obra de Marcuse realizada sobre a teoria freudiana foi apresentada. Para isso, o livro Eros e Civilização foi dividido aqui em três partes, que iluminam o trajeto realizado pelo próprio autor: a ampliação do termo repressão para os termos mais-repressão e princípio de desempenho, a dimensão estética oferecida como desvio para a construção de uma sociedade não-repressiva e as possibilidades e restrições na obra de Freud para concretização da utopia marcuseana.
No capítulo final, apresento algumas ampliações da obra de Marcuse que devem ser consideradas, dado o momento histórico atual.
A questão a ser tratada aqui será então o modo de repressão específico propagado pela sociedade contemporânea, a fim de aumentar a produção e o consumo, tornando o sujeito alienado e também agente propagador do ciclo econômico mundial repressivo.
II. O Processo Civilizatório de Freud
Teoria dos Instintos
De imediato alguns termos básicos na obra de Freud devem ser esclarecidos: instintos e pulsões (*).
Segundo ele, os instintos dizem respeito às necessidades biológicas básicas dos organismos, como algo pré-determinado que tem a ver com o comportamento animal. Os instintos podem ser entendidos, de acordo com Freud, como “as forças que presumimos existir por trás das tensões causadas pelas necessidades do id” (FREUD, 1998:15).
Segue afirmando que as pulsões seriam um tipo de modificação desses instintos, que se apóiam nestes, mas desviam-se das necessidades pura e simplesmente biológicas. As pulsões diferenciam o humano do animal, porque o sujeito vai constituir um psiquismo através do relacionamento e do investimento do outro.
A origem das pulsões é remetida a um estado de excitação no corpo, um estado de tensão, e as mesmas têm por finalidade remover essa excitação, dar um destino a ela.
Em última análise, todo sofrimento nada mais é do que
sensação; só existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como
conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está
regulado. (FREUD, 1997a: 26)
Aqui a pulsão torna-se atuante psiquicamente, pois as soluções encontradas variam de ser humano para ser humano. E é no objeto, e graças a ele, que a pulsão pode atingir sua finalidade.
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Em sua primeira teoria, as pulsões básicas do organismo são as do ego (de conservação) e as sexuais. As primeiras dizem respeito às necessidades vitais dos indivíduos, e as segundas à conservação da espécie.
Já em sua segunda teoria, Freud introduz as pulsões de morte (Thanatos), que não compartilham dos mesmos objetivos das anteriores; não constroem ou edificam, têm apenas o caráter de autodestruição.
Assim, o conflito passa a ser não mais entre as pulsões do ego e as sexuais, e sim entre as pulsões de vida e de morte. A pulsão de morte passa a ser o ponto central de sua teoria.
O Eros pode ser chamado de instinto de vida, e Thanatos de instinto de morte. O objetivo de Eros é, resumidamente, a união, o estabelecimento de unidades cada vez maiores por meio da conexão. Já Thanatos seria o oposto do primeiro, uma vez que teria como objetivo a destruição, a cisão, como busca de um estado originário no qual não havia incompletude, mas o qual foi rompido ao nascimento. No entanto, esse instinto também é ambíguo, pois fornece a agressividade necessária ao desempenho humano.
Freud supõe que se devem buscar esses fatores na “história da Terra em que vivemos e em suas relações com o Sol” (MARCUSE, 1982:122), citando Freud em Para Além do Princípio do Prazer:
Freud repetidamente afirma que o desenvolvimento
instintivo primário foi determinado por fatores exógenos: o organismo foi
forçado a abandonar o anterior estado de coisas, “sob a pressão de
perturbadoras forças externas”; os fenômenos da vida orgânica devem ser “atribuídos a influências perturbadoras e diversionistas externas” (...). (MARCUSE, 1982:121)
O nascimento do ego é o resultante da ruptura de um estado integral e, desde então, o organismo tende a regredir àquele estado de completude, no qual não havia qualquer cisão ou falta.
Ambos os instintos possuem a característica de poder mudar de objetivo e de poder substituir-se um ao outro, podendo atuar em cooperação ou competição, presentes em todas as manifestações humanas. O modo de presentificação dos instintos no aparelho psíquico pode ser observado em diversos comportamentos: desde, por exemplo, a violência sexual, como expressão da fusão excessiva entre pulsão sexual e pulsão de morte, até a impotência, derivada da sobreposição do instinto de morte sobre o de vida.
É importante ressaltar a presença da interação entre os instintos em todas as manifestações humanas, pois é essa constante relação que permite tanto a sobrevivência do indivíduo como sua qualidade de convivência. Sem a pulsão de vida, a tendência da pulsão de morte é levar o indivíduo à morte propriamente dita, visando a volta ao estado inanimado; sem a pulsão de morte, a tendência da pulsão de vida é esgotar-se no objeto, uma vez que está de acordo com a cultura e visa a indiferenciação.
O que encontramos na obra de Freud ao observar a vida humana é sempre a busca da satisfação pulsional devido a uma eterna insatisfação originária. Marcuse cita Freud:
(...) O desenvolvimento instintivo primário foi determinado por fatores exógenos; o organismo foi forçado a abandonar o anterior
estado de coisas, “sob a pressão de perturbadoras forças externas” (...). (MARCUSE, 1982:121)
A questão da perda de um estágio anterior presente em sua afirmação é justamente o que compõe essa eterna busca de gratificação, acentuada pela busca de objetos e riquezas, característica fundamental de nosso século. A vida “(...) prende-se aos objetos pertencentes a esse mundo [externo] e obtém felicidade de um relacionamento emocional com eles”. (FREUD, 1997a: 31)
Diferente de Marcuse, a Freud parece muito mais importar os motivos e causas da civilização que sua especificidade, no contexto de Viena no fim do século XX, ressaltando a existência e a importância da pulsão de vida e seu oposto complementar, a pulsão de morte.
caráter inato das pulsões impediria o desenvolvimento da civilização à não-repressão, podendo apenas ser superado por meio de um novo diálogo entre Eros e Thanatos, que considerasse como tendência da psique o sentido do prazer, e não a punição do princípio de realidade.
O que não é possível em Freud:
Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer
intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de
coisas. Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são
restringidas por nossa própria constituição. (FREUD, 1997a: 24)
Na verdade, o ego é responsável pela sobrevivência do organismo no mundo externo e não tem a intenção de proibição do prazer, realizando esforços na tentativa oposta, de diminuição do desprazer. Dessa forma, no entendimento de Freud, o princípio de realidade não seria o único responsável por todas as sensações de desprazer que afetam o organismo, podendo ser, ao contrário, seu protetor.
Considera-se então, a partir daí, que as pulsões sexuais também seriam fonte de certo desprazer, pois sempre em confronto com o ego e incompatíveis com os desejos de realização futura do princípio de realidade. As pulsões sexuais são sempre parciais, não levam em conta o organismo como um todo e suas possibilidades de obtenção longínqua, embora certa de prazer.
O eterno conflito resulta em que, por esses motivos, as pulsões sexuais acabam sendo banidas pelo ego justamente por meio da repressão e, assim, além de afastadas de sua satisfação, quando alcançam sucesso contra as forças do ego regressam ao aparelho psíquico não como o prazer primeiramente buscado, mas como uma perturbação do organismo, que acabou por estabelecer uma nova ruptura com o princípio de prazer.
De acordo com Mezan, filósofo e psicanalista,
(...) O que é descoberto pelo tema ‘pulsão de morte’ é uma qualidade específica que define a pulsão como tal, a saber, sua
tendência regressiva. Eis por que são os fenômenos de repetição que,
em última análise, o conduzem a postular um ‘além do princípio do
prazer’. (MEZAN, 1997:441).
É a pulsão de morte que surge como princípio de qualquer outra pulsão.
A partir dessas considerações, pode-se pensar na presença da pulsão de morte tanto nas atividades do ego quanto nas pulsões sexuais. Em contraposição, também as pulsões de vida são atuantes, regendo um prolongamento da vida.
Freud nos diz ainda que as pulsões de morte nunca se manifestam puras, que há sempre uma mistura na dualidade pulsional como, por exemplo, no uso de uma certa agressividade para que o ato sexual se realize.
Fica clara então a ambigüidade do ser humano, pois assim como existe uma força para a construção (vida) existe também algo que puxa para a autodestruição (morte).
Assim como a satisfação do instinto equivale para nós à
felicidade, assim também um grave sofrimento surge em nós, caso o
mundo externo nos deixe definhar, caso se recuse a satisfazer nossas
necessidades. Podemos, portanto, ter esperanças de nos libertarmos de uma parte de nossos sofrimentos, agindo sobre os impulsos instintivos. (FREUD, 1997a: 27)
Marcuse se refere à pulsão de morte como o que propicia a repressão quando afirma que “a destrutividade inata deve provocar a perpétua repressão” (MARCUSE, 1982:121). No entanto, não há como estabelecer semelhanças entre a repressão de Marcuse e a repressão pulsional de Freud, que faz referência a um recalque ou impedimento de realização, contrário à sua noção de pulsão de morte.
é justamente rumo à sua realização e não implica num tolhimento da ação ou, segundo as palavras de Marcuse, na repressão.
A pulsão de morte, do retorno ao estado anterior, e a pulsão de vida que prolonga este retorno, estão inteiramente ligadas e eternamente correlacionadas, agindo em conjunto no tempo e propiciando o desenvolvimento do indivíduo e seu caminho, repleto de desvios.
Se o objetivo básico do instinto não é a terminação da
vida, mas da dor — a ausência de tensão — então, paradoxalmente, em
termos do instinto, o conflito entre vida e morte é tanto mais reduzido
quanto mais a vida se aproximar do estado de gratificação. O princípio de
prazer e o princípio do nirvana convergem então. (MARCUSE, 1982:197)
Mas o objetivo só pode ser atingido com eficácia frente à morte, já que o mesmo atua de acordo com o princípio do nirvana: “Tende para aquele estado de gratificação constante em que não se sente tensão alguma – um estado sem carências.” (MARCUSE, 1982:197)
Um estado sem carências é justamente o estado de morte, daí a característica humana da eterna busca pela felicidade, na qual a incompletude se faz presente a todo o momento, resultando então que o ser humano será sempre um ser em falta. “O princípio do nirvana, não como morte, mas como vida.” (MARCUSE, 1982:144).
Princípio de Prazer e Princípio de Realidade
Freud elabora a teoria das pulsões a partir das pulsões de ego e da libido. “Originalmente o ego inclui tudo; posteriormente, separa de si mesmo, um mundo externo” (FREUD, 1997a: 14). O ego teria de ser cindido pelas desagradáveis sensações de desprazer geradas pelo reconhecimento de um mundo externo a ele, mundo esse muito mais pobre do que as alucinações anteriormente utilizadas como fontes de prazer.
Ao falar sobre a eterna busca de gratificação, Freud remete ao sentimento oceânico, afirmando que o mesmo seria justamente a busca de uma fase primitiva do sentimento do ego, antes de sua cisão, fase essa de não falta e de satisfações imediatas.
A “unidade com o universo”, que constitui seu conteúdo
ideacional [do sentimento oceânico], soa como uma primeira tentativa de
consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar
o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo.
(FREUD, 1997a: 19)
Ao voltar-se para o mundo, o indivíduo deve retirar do mesmo suas gratificações, buscando novos objetos por meio dos quais as pulsões sejam capazes de atingir seu objetivo, o de eliminar a estimulação pulsional.
A partir do dado de que a vida psíquica originária tem por função alcançar o prazer, deve-se considerar o fato de que, para tal, a mesma deve lutar para afastar o desprazer. Daí a necessidade da modificação da sociedade pelo homem, com a finalidade de responder ao aparelho psíquico.
Assim, o ser humano percebe que, de alguma forma, o princípio de realidade torna-se necessário na busca por gratificação, a vida em sociedade torna-se indispensável para a satisfação das pulsões.
O princípio de realidade, segundo afirma Mezan (1997), pode ser considerado uma variante do princípio do prazer, assegurando de uma forma ou de outra, por mais dolorosa e trabalhosa que seja, alguma satisfação.
As alucinações não são mais suficientes, assim como os objetos oferecidos pela realidade não são imediatamente prazerosos; o prazer momentâneo deve ser colocado de lado a fim de um prazer distante, mas seguro, por meio de um novo caminho: a modificação da realidade física.
O indivíduo terá de converter em ação sua libido.
O poder de restringir e orientar os impulsos instintivos, de
transformar as necessidades biológicas em necessidades e desejos
da natureza, a ruptura de sua compulsão, é a forma humana do princípio
de prazer. (MARCUSE, 1982:47)
Em sociedade, qualquer satisfação necessita de trabalho, necessita da ação humana sobre a realidade. Sendo assim, como decorrência indireta, a repressão das pulsões faz-se também necessária, direcionando o homem à sua gratificação no longo prazo, movido pela carência.
Para tornar-se social o homem deve desviar seus objetivos, inibindo seus instintos, humanizando-os. Esse desvio é a própria transformação do princípio de prazer em princípio de realidade. O homem renuncia à espontaneidade do prazer ao adiar as gratificações em prol da sociabilidade, revestindo o mesmo prazer sob outras formas mais adequadas ao convívio. O mundo sócio-histórico é a causa da repressão e, ao mesmo tempo, o fornecedor de uma satisfação de caráter mais duradouro.
De acordo com Freud, somente a fantasia pode ser preservada sem modificações essenciais, mantida distante do princípio de realidade, pois a mesma não representa o mesmo perigo de um impulso convertido em ação.
Assim, o ser humano social volta seus desejos para a sociedade e para a alteração apropriada da realidade, de acordo com o que pode ser útil ao homem no adiamento de seus prazeres, com o fim último do convívio.
Dessa forma, se os desejos humanos tendem à alteração da realidade, essas mesmas alterações passam a ser guiadas pela sociedade e não mais por indivíduos de desejos.
Freud faz a analogia com a horda primordial, quando o “pai primordial monopoliza o poder e o prazer e impõe a renúncia por parte dos filhos” (MARCUSE, 1982: 30). Derivado daí, o princípio de realidade será logo representado e organizado num sistema de instituições, que passam a substituir gradativamente os desejos individuais, retirando dos mesmos indivíduos a liberdade instintiva.
Mal-Estar na Civilização
A civilização tem início quando a animalidade é deixada para trás em benefício da vida em comunidade. A partir dessa definição Freud se propõe a caracterizar a civilização: “A civilização humana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou de sua condição animal e difere da vida dos animais” (FREUD, 1997b: 10).
Segundo Freud, a civilização incluiria tudo aquilo que o homem adquiriu na tentativa de dominação da natureza e extração de sua riqueza para suprimento de necessidades básicas. Também ressalta a relevância de leis e normas reguladoras das relações comuns, assim como a distribuição da riqueza como fatores característicos de uma civilização. Conhecimento, riqueza e relações sociais possuem ligação íntima, ao ponto de, ao modificar um destes elementos, toda a tríade receber as conseqüências. E também:
(...) é digno de nota que, por pouco que os homens sejam capazes de existir isoladamente, sintam, não obstante, como um pesado
fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de tornar
possível a vida comunitária. (FREUD, 1997b: 11).
Assim, faz-se necessária a criação de instituições que regulem e protejam os homens de si mesmos. É como se a civilização fosse externa ao homem, imposta a ele que, como animal racional, deve conter-se para não destruí-la.
Com tal afirmação, Freud dá a entender que a civilização é muito mais desenvolvida que os próprios homens que a constituem, o que de fato ocorre quando observa que não haveria a possibilidade de uma civilização não repressiva, pois a renúncia do instinto é fato determinante da vida em comum.
Freud ressalta aqui também a importância que têm os grandes homens nas civilizações. Em O Futuro de uma Ilusão (1997), Freud faz uma afirmação no mínimo perturbadora:
É tão impossível passar sem o controle da massa por uma
minoria, quanto dispensar a coerção no trabalho da civilização, já que as
Somente a presença de autoridades intelectuais possibilitaria a preservação da cultura; somente a racionalidade extrema e a eliminação das influências pulsionais sobre a vida cotidiana dariam rumo à sociedade.
A minoria intelectual, supostamente mais elevada em sua compreensão interna, supostamente detentora de poderes e maior conhecimento, seria a responsável pela utilização da coerção na sociedade. Sem essa minoria a massa tenderia à autodestruição, à vida preguiçosa e débil, indisciplinada.
Assim, pode-se pensar que além do presente poder em mãos de poucos, o futuro da civilização se concentraria nas mesmas mãos.
Gerações novas, que forem educadas com bondade,
ensinadas a ter uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os
benefícios da civilização numa idade precoce, terão atitude diferente para
com ela. (FREUD, 1997b: 14).
Ao ressaltar a questão dos “grandes homens”, afirma que a situação ideal seria, de fato, a de uma sociedade onde reinasse a ditadura da razão.
As medidas da coerção e a distribuição da riqueza têm assim o destino de tornar o homem cada vez mais civilizado, cada vez mais racional e menos instintivo. São “as vantagens mentais da civilização” (FREUD, 1997b: 17), o progresso mental da sociedade.
Esse progresso se dá concomitante ao desenvolvimento do ser humano, uma vez que desde a primeira infância o indivíduo é preparado para internalizar a coerção, de forma que o homem se torne seu próprio comandante social. Quando mais internalizada a coerção, menor a necessidade de coerção externa.
Freud parece estabelecer paralelos entre a internalização da coerção e os graus de moralidade humana. As massas, por exemplo, insatisfeitas com a quantidade de trabalho exigida e a mínima recompensa adquirida seriam os menos propensos à internalização de proibições culturais, por sua rebeldia contra uma cultura pouco gratificante.
original, tratadas como herança constitutiva da espécie humana, dão suporte à repressão social.
Segundo Mezan, há
(...) a necessidade, constante no pensamento freudiano, de encontrar um evento fundador que dê conta do surgimento de um
novo estado ou de uma nova característica. (MEZAN, 1997:486)
Dessa forma, em busca de tal evento fundador, Freud passa a estabelecer paralelos muito próximos entre a base das relações da horda primordial e a base das relações da cultura.
O pai primitivo, ao impor aos filhos a abstinência,
impediria a satisfação das suas tendências sexuais diretas; coartadas
quanto ao fim, elas produziriam como derivação o estabelecimento de
vínculos afetivos com o pai e com os outros filhos (...) (MEZAN, 1997:490)
A sublimação das pulsões sexuais deu origem aos laços fraternos, mas também acabou por desencadear a revolta dos filhos com a condenação e o conseqüente assassinato do pai primitivo; a pulsão sexual consubstanciou-se em uma explosão de agressividade.
O pai primitivo, no entanto, é o detentor do poder e completamente diferenciado dos membros da horda, possuindo um caráter quase divino, respeitoso e poderoso, que provoca fascínio sobre os outros. Seu assassinato fala de uma tentativa de incorporação do pai pelos filhos, explicitado no ato de devoração de seu cadáver.
É neste momento que Freud fala do surgimento da consciência de culpabilidade. “Satisfeito o ódio através do crime, a componente amorosa da relação com o pai ressurge à tona, e se exprime como remorso pelo ato cometido.” (MEZAN, 1997:492).
Freud afirma que “o pai retornará, sob a forma de totem, dos deuses ou de Deus” (MEZAN, 1997:492), derivando do pai primitivo a necessidade de religiões e multidões submissas. As multidões representam a manipulação da massa humana pela demagogia política. O homem seria assim um animal de horda.
As religiões e multidões possuem o caráter da ilusão, onde a mesma seria uma crença encobridora de um desejo inconsciente, desejo esse não necessariamente relativo à realidade. De fato, somente a crença importa, tamanha a urgência da expiação do crime.
Como afirma Mezan, “resulta em ultima análise de que a sociabilidade é um derivado da culpabilidade” (MEZAN, 1997:498).
A repressão seria, assim, um fenômeno histórico imposto pelo homem a si e ao controle da natureza, e a repressão externa passa a ser lentamente internalizada por meio da sociedade:
O indivíduo escravizado introjeta seus senhores e suas
ordens no próprio aparelho mental. A luta contra a liberdade reproduz-se
na psique do homem, como a auto-repressão do indivíduo reprimido, e a
sua auto-repressão apóia, por seu turno, os senhores e suas instituições.
É essa dinâmica mental que Freud desvenda como a dinâmica da
civilização. (MARCUSE, 1982:31).
Dessa forma, o trabalho acaba sendo o substituto dos instintos, e o consumo o substituto do prazer imediato característico do princípio de prazer; é nesse momento que o princípio de realidade toma o lugar de Eros. Em um movimento de auto-sustentação, a sociedade impõe o trabalho aos indivíduos, como a única forma de manter-se.
Marcuse, no entanto, critica a obstinação freudiana de valorizar a repressão, uma vez que é sobre a mesma que a cultura se baseia e, portanto, não teria sob forma alguma teor negativo. Diz que “as aptidões (intelectuais e materiais) da sociedade contemporânea são incomensuravelmente maiores do que nunca dantes”. (MARCUSE, 1979:14).
da falta de liberdade dos instintos sem nomear a liberdade que o conhecimento social provê e, assim, inverte a dinâmica, dizendo que “a liberdade cultural surge-nos à luz da escravidão, e o progresso cultural à luz da coação.” (MARCUSE, 1982:32).
No entanto, Marcuse afirma também que a própria teoria de Freud apresenta noções que possibilitam rejeitar a relação intrínseca entre civilização e repressão. Dá então o primeiro passo rumo à sua teoria de uma sociedade não repressiva a partir do conceito de “memória”. Ao falar da horda primordial, Freud afirma que há uma necessidade contínua de transmissão de geração em geração dos valores institucionalizados, sendo a prova de que nenhum princípio reina soberano sobre o outro, existindo então uma luta eterna entre os mesmos.
A luta se dá pelo conhecimento da possibilidade original de gratificação dessas pulsões, que não desaparecem na memória.
Recordando o domínio do princípio de prazer primordial,
onde a liberdade de carências era uma necessidade, o id transporta os
vestígios de memória desse estado para todo o futuro presente: projeta o
passado no futuro. (MARCUSE, 1982:44).
A recuperação do passado visa ao futuro como possibilidade de realização dos desejos deixados para trás. No entanto, Marcuse afirma contrariamente a Freud que o progresso da civilização e o desenvolvimento do indivíduo não permitem que o superego se deixe enganar pelas promessas do passado,
(...) também inconsciente, rejeita essa reivindicação instintiva sobre o futuro, em nome de um passado que já não é de
satisfação integral e apenas de amarga adaptação a um presente
III. Marcuse: Teoria Crítica e Civilização
A Mais-Repressão e o Princípio de Desempenho
A história da repressão é a história do homem. É a história do berço da repressão à sua idade adulta, madura. É devido a essa repressão que homens podem hoje viver em comunidades e manter laços sociais, pois os instintos humanos permeando de forma livre as relações seriam os mesmos que as destruiriam, homem esse dotado das pulsões de morte e de vida.
Em seu livro Eros e Civilização (1982), Herbert Marcuse relaciona a teoria freudiana dos instintos ao modo de organização de uma sociedade, oferecendo um olhar mais específico à obra de Freud e ao mesmo tempo ampliando as possibilidades de sua teoria.
A intenção de Marcuse ao pensar uma reelaboração da obra de Freud está presente desde seu Prefácio Político (de 1966), em Eros e Civilização, visando a uma interpretação otimista da sociedade colocada por Freud como puramente repressiva. Ao analisar a sociedade industrial como influência específica do tipo de dominação atual, Marcuse acredita que em seu estado avançado habilitaria “o homem a inverter o rumo do progresso, a romper a união fatal de produtividade e destruição, de liberdade e repressão” (MARCUSE, 1982:7).
Seu otimismo dar-se-á pelo fato de que o homem poderia evitar a “fatalidade de um Estado-de-Bem-Estar-Social-Através-de-Um-Estado-Beligerante mediante o estabelecimento de um novo ponto de partida” (MARCUSE, 1982:9), repensando o mundo e tomando o indivíduo como ativo em seu processo histórico e não mais determinado por sua natureza biológica.
Segundo Marcuse, a cultura seria para Freud reestruturante, modificando a estrutura instintiva do ser humano à medida que se desenvolve.
Se Freud justifica a organização repressiva dos instintos
pelo caráter irreconciliável do conflito entre o princípio de prazer e o
princípio de realidade, expressa também o fato histórico de que a
Marcuse acrescenta:
Argumentou-se que o conceito freudiano de princípio de realidade oblitera esse fato ao converter as contingências históricas em necessidades biológicas; sua análise da transformação repressiva dos
instintos, sob o impacto do princípio de realidade, generaliza-se de uma
específica forma de realidade, para a realidade pura e simples. Essa
crítica é válida, mas esta validade não deturpa a verdade da
generalização de Freud, a saber: uma organização repressiva das
pulsões é subjacente a todas as formas históricas do princípio de
realidade na civilização. (MARCUSE, 1982:44).
Justamente pelo fato de que toda a civilização tem sido uma dominação organizada por homens, e não apenas pela natureza instintiva dos mesmos, é que existiria a possibilidade de um princípio de realidade não-repressivo através de modificações dos mesmos controles repressivos.
A distinção entre aspectos biológicos e históricos torna-se fundamental para Marcuse, que escreve que
(...) os termos freudianos, que não diferenciam adequadamente entre as vicissitudes biológicas e as histórico-sociais dos
instintos, devem ser emparelhados com os termos correspondentes que
assinalam o componente histórico-social específico. (MARCUSE, 1982:45).
As formas de organização da sociedade têm sido impostas aos homens por instituições específicas de dominação do progresso técnico e material que modificam as noções de carência e escassez.
Modificando a estrutura instintiva ao direcioná-la única e exclusivamente para o trabalho produtivo, Freud dá início a uma discussão sobre a sublimação com algum otimismo, afirmando que os impulsos de morte, agressivos, se satisfariam através do trabalho feito através de uma escolha livre.
No entanto, por sua constituição primária, os instintos de Eros nunca teriam tido como finalidade a matéria, mas mais propriamente a vida em si. Jamais poderiam ser satisfeitos, portanto, através da labuta.
Marcuse critica a posição freudiana de que o trabalho pode permitir alguma satisfação quando escolhido livremente, como trabalho criador, tal como as formas de arte. Ele acredita que:
(...) se livre opção significa mais do que uma seleção limitada entre necessidades preestabelecidas, e se as inclinações e
impulsos usados no trabalho são diferentes dos prefigurados por um
princípio repressivo de realidade, então a satisfação no trabalho cotidiano
constitui apenas um raro privilégio. O trabalho que criou e ampliou a base
material da civilização foi principalmente labuta, trabalho alienado,
penoso e desagradável - e ainda é. O desempenho de tal trabalho
dificilmente gratifica as necessidades e inclinações individuais. Foi
imposto ao homem pela necessidade e forças brutais; se o trabalho
alienado tem algo a ver com Eros, deve ser de um modo bastante
indireto e com um Eros consideravelmente sublimado e debilitado. (MARCUSE, 1982:82)
Dessa forma, a história social contém a luta dos seres humanos pela existência dentro da sociedade a que pertencem. Temos então, neste plano e segundo Marcuse, a possibilidade de pensar uma sociedade não-repressiva.
Herbert Marcuse amplia os paralelos estabelecidos por Freud, dando início à elaboração e discussão de dois termos: a mais-repressão e o princípio de desempenho.
Também o princípio de desempenho mostra-se mais específico ao falar sobre “a forma histórica predominante do princípio de realidade” (MARCUSE, 1982:45). Em conjunto, a mais-repressão e o princípio de desempenho falam da utilização do trabalho como meio de satisfação de necessidades, observando que esse fato se deve à organização específica de uma sociedade, que acabou por regulamentar a estrutura básica dos instintos até exercer o controle sobre meios e fins da satisfação, assim como deu novos contornos ao significado da carência ou escassez.
A ausência desta diferenciação entre noções biológicas e histórico-sociais mascararia a mais-repressão contida no princípio de desempenho pela ênfase que Freud dá à renúncia pulsional na formação do aparelho mental.
Contudo, esse argumento, que se destaca na
metapsicologia de Freud, é falacioso na medida em que se aplica ao fato
concreto da carência, que na realidade é a conseqüência de uma
organização específica de carência e de uma igualmente específica
atitude existencial, imposta por essa organização. (MARCUSE, 1982:46)
A carência não é mais primordial, mas é adquirida socialmente. Marcuse afirma que a utilização da razão e do poder impôs aos homens uma nova concepção de escassez e prazer: seria a racionalidade da dominação, exercida por poucos grupos poderosos, a fim de manter-se numa condição privilegiada.
Assim, a dimensão da repressão freudiana amplia-se ao termo mais-repressão na mesma medida em que o poder e a voz concentram-se cada vez mais nas mãos de poucos.
A repressão será diferente em escopo e grau, segundo a
produção social seja orientada no sentido do consumo individual ou no
do lucro; segundo prevaleça uma economia de mercado ou uma
economia planejada; segundo vigore a propriedade privada ou a coletiva. (MARCUSE, 1982:46).
pessoas, onde as últimas passam a ser meios para a primeiras, dotadas agora de maior poder sobre tudo que seja humano.
O princípio de desempenho fala justamente dessa sociedade coisificante, “sob o seu domínio, a sociedade é estratificada de acordo com os desempenhos econômicos concorrentes de seus membros.” (MARCUSE, 1982:52).
Somente um longo período de dominação (racionalizada) pode fazer surgir o princípio de desempenho e, no entanto, há períodos em que mesmo os que são dominados acreditam compartilhar interesses com o sistema dominante, tornando-se coadjuvantes da dominação e consolidando a crença de que o trabalho é o melhor (ou o único) meio de satisfação de desejos, uma vez que seus desejos tornaram-se justamente o que produzem.
Mas essa conformidade com o que uma vez foi imposto não deixa espaços por onde o indivíduo possa perceber que de fato não é dono de seus desejos, e que os mesmos são determinados pelo seu próprio trabalho que é, ao mesmo tempo, controlado por outros que não ele.
Ou seja, esses indivíduos:
(...) trabalham em alienação. O trabalho tornou-se agora geral, assim como as restrições impostas à libido (...). A libido é desviada para desempenhos socialmente úteis, em que o indivíduo trabalha para si
mesmo somente na medida em que trabalha para o sistema, empenhado
em atividades que, na grande maioria dos casos, não coincidem com
suas próprias faculdades e desejos. (MARCUSE, 1982:53)
Marcuse ainda afirma que o desenvolvimento das pulsões tolhido pela mais-repressão e pelo princípio do desempenho seria de fato uma conveniência:
O corpo e a mente passam a ser instrumentos de trabalho
alienado; só podem funcionar como tais instrumentos se renunciam à
liberdade do sujeito-objeto libidinal que o organismo humano
primariamente é e deseja. A distribuição de tempo desempenha um papel
fundamental nessa transformação. O homem existe só uma parcela de
Como seu tempo é quase completamente tomado para instrumento de trabalho, a libido passa a concentrar-se em uma parte específica do corpo: a genitália. Assim, não há desvios da libido, reduzida à procriação. A partir desse fato, Marcuse analisa as perversões sexuais como formas de protesto frente à subjugação da libido àquela única parte do corpo.
Manifestações que não tenham a reprodução como fim seriam manifestações pulsionais arbitrárias, alheias à organização institucionalizada dos instintos, estabelecendo:
(...) relações libidinais que a sociedade tem de votar ao ostracismo porque ameaçavam inverter o processo de civilização que fez
do organismo um instrumento de trabalho (...) um símbolo da identidade destrutiva entre liberdade e felicidade. (MARCUSE, 1982:56)
As perversões conduziriam à libertação do instinto de morte no momento em que
(...) o imperativo categórico que o superego impõe continua sendo um imperativo de autodestruição, enquanto constrói a
existência social da personalidade. A obra de repressão pertence tanto
ao instinto de morte quanto ao instinto de vida. (MARCUSE, 1982:58).
A Dimensão Estética
A não indiferente presença da morte, da finitude humana, parece também contribuir para a eterna busca de satisfação, que não poderá jamais prover uma gratificação duradoura, pelo fato de que o prolongamento da vida na sociedade acaba por se tornar um dos maiores aliados da dominação.
Marcuse afirma que, se há algo inexplicável e incontrolável ao homem, e ao mesmo tempo angustiante, isso seria a passagem do tempo. O ser humano desde muito trava uma guerra perdida contra o tempo, na tentativa de ignorar a sua finitude.
Assim, à medida que o tempo
(...) ajuda os homens a esquecerem o que foi e o que pode ser, fá-los esquecer o melhor passado e o melhor futuro. Essa
capacidade de esquecer (...) é um requisito indispensável da higiene mental e física, sem o que a vida civilizada seria insuportável.
(MARCUSE, 1982:195)
E segue dizendo, que “é também a faculdade mental que sustenta a capacidade de submissão e renúncia.” (MARCUSE, 1982:195).
Se por um lado essa repressão fundamentada em uma das maiores fontes de sofrimento humano garante a própria sobrevivência da espécie civilizada, também garante a relevância de ações cada vez mais repressivas para a manutenção de tal ordem das coisas.
É este então o domínio da mais-repressão, ações desnecessariamente exploratórias em direção ao mais além das necessidades humanas. “É a aliança entre o tempo e a ordem de repressão que motiva os esforços para sustar o fluxo do tempo, e é essa aliança que torna o tempo inimigo mortal de Eros.” (MARCUSE, 1982:196).
Tal aliança determinaria as barreiras a serem transpostas pela cada vez mais instigada libido. Nas palavras de Marcuse, seriam “os obstáculos que ‘dilatam a maré da libido’”. (MARCUSE, 1982:197).
que, como dito anteriormente, seria a única faculdade mental livre da racionalidade do princípio de realidade.
Ao reafirmar a fantasia como resistência ao princípio de realidade, podemos conceber que o domínio do princípio de prazer deve constar nos processos mais profundos e primitivos do inconsciente, tal como o faz a fantasia. Assim, em oposição à consciência racional e objetiva, a fantasia tornar-se-ia irracional e incompreensível, sendo incapaz de atuar e modificar o mundo regido pelo princípio de realidade.
A fantasia desempenha uma função das mais decisivas
na estrutura mental total: liga as mais profundas camadas do
inconsciente aos mais elevados produtos da consciência (arte), o sonho
com a realidade (...). (MARCUSE, 1982:126)
Ao contrapor-se ao princípio de realidade paga o preço de “tornar-se impotente, inconseqüente e irrealista” (MARCUSE, 1982:127), tornando-se ineficaz para agir sobre a realidade.
A fantasia, como imaginação, objetiva a reconciliação do desejo com a razão, ganhando forma ao criar um universo tão subjetivo quanto objetivo. Subjetivo por basear-se em experiências vivenciais pessoais, e objetivo porque, para apresentar-se, deve buscar formas comuns aos outros, formas de expressão sociais. “Isso ocorre na arte. A análise da função cognitiva da fantasia conduz-nos assim à estética como ‘ciência da beleza’”. (MARCUSE, 1982:129).
É então a partir da estética, propiciada pela elaboração imaginativa, que Marcuse vislumbra a possibilidade de reconciliação entre realidade e prazer.
Enquanto subjetivo, apenas referente ao campo da percepção pessoal, a estética é passiva, mero receptor sensorial. Enquanto subjetiva e objetiva, a estética torna-se “pertinente à beleza e à arte” (MARCUSE, 1982:157), refletindo a ordem da sensualidade, expressando o prazer na ordem da razão, no campo do entendimento universal.
Com isso, volta-se à questão da repressão quanto à gênese do processo de sublimação, que parece basear-se em um recalque.
A sublimação do instinto constitui um aspecto
particularmente (...) importante na vida civilizada. Se nos rendêssemos a uma primeira impressão, diríamos que a sublimação constitui uma
vicissitude que foi imposta aos instintos de forma total pela civilização.
Seria prudente refletir um pouco mais sobre isso. (...) É impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma
renúncia ao instinto, o quanto ela pressupõe exatamente a
não-satisfação (pela opressão, repressão, ou algum outro meio?) de instintos
poderosos. Essa ‘frustração cultural’ domina o grande campo dos
relacionamentos sociais entre os seres humanos. (FREUD, 1997a: 52).
Reside aí a dubiedade da sublimação. Ao mesmo tempo em que surge como fruto de uma repressão cultural, também se deve considerar o fato de a mesma ser responsável pela conexão entre os conteúdos inconscientes e conscientes, entre o mundo da fantasia e o mundo da realidade, podendo, portanto, também ser visto como um processo de resistência ao princípio de realidade.
Freud estabelece a noção de sublimação unicamente como produto de uma repressão social, e Marcuse nos apresenta outra possível faceta do mesmo processo, sendo a sublimação a demonstração de um desejo que, ao ser expresso na obra de arte, exprime seu caráter universal. Não mais como desejo subjetivo, mas como um processo abrangente de resistência à realidade, como um feixe de luz que possibilita a libertação do mundo das trevas.
A verdade da arte é a libertação da sensualidade através
de sua reconciliação com a razão; é esta a noção central da estética
idealista clássica. (MARCUSE, 1982:159).
O homem não concordaria com o próprio modelo de cultura, pois a cultura reprimiria as grandes potencialidades humanas, deixando de dar vazão às mesmas. A união de polaridades se daria, em Schiller, por meio de um impulso lúdico que seria, em última análise, o responsável pela expressão e manifestação de desejos, vontades e potencialidades humanas. “O impulso lúdico é o veículo desta libertação.” (MARCUSE, 1982:162).
O impulso lúdico teria a mesma função que a estética de Marcuse, de uma reconciliação rumo à libertação humana, emancipação de pulsões reprimidas pela moralidade civilizada.
Nos termos de Freud,
(...) a moralidade civilizada é a moralidade dos instintos reprimidos; a libertação destes implica um ‘rebaixamento’ daquela. Mas
esse rebaixamento dos valores superiores poderá devolvê-los à estrutura
orgânica da existência humana, da qual foram separados, e a reunião
será suscetível de transformar a própria estrutura. (MARCUSE, 1982:168)
Fica clara aqui a idéia defendida por Marcuse desde o início, da possibilidade de uma transformação da realidade a partir de um princípio de realidade não-repressivo. A tensão entre prazer e realidade, expressas na razão civilizada que (aparentemente) serve à satisfação individual, serve na verdade como ferramenta de dominação e repressão. Portanto,
(...) a emergência de um princípio de realidade não-repressivo, envolvendo a libertação dos instintos, regrediria para além do
nível alcançado de racionalidade civilizada. (MARCUSE, 1982:169)
Racionalidade libidinal não como domínio da libido pela razão, ou o inverso, e sim como ampliação dos termos, tendendo para um Eros e Logos cada vez mais abrangentes. Ou seja, tal como o título do décimo capítulo de Eros e Civilização: a transformação da sexualidade em Eros.
Ao revisar Freud, Marcuse explicita que as relações interpessoais duradouras pressupõem a inibição do instinto sexual em seu fim, pois, ao contrário, não haveria construção de sociedade. Relaciona a este processo a sublimação do amor (a legítima e verdadeira ordem do amor), onde sexualidade e afeto devem estar ligados, como responsáveis pelas uniões duradouras e laços sociais. O objetivo sexual é então desviado, passando pelo processo de sublimação.
Ora, se a sexualidade civilizada está relacionada à noção de sublimação, é possível que uma transformação da sexualidade reflita em uma transformação da própria noção de sublimação. “Com a abolição da mais-repressão requerida pelo princípio de desempenho, esse processo seria invertido.“ (MARCUSE, 1982:172). Inversão não do sentido do progresso, como regresso, mas da ordem estritamente racional que rege o mesmo.
A transformação da sexualidade em Eros seria responsável por toda uma modificação na estrutura da civilização. Nas relações sociais, a sexualidade enquanto erotismo pode, por ela mesma, levar à criação cultural e, também, ao progresso cultural.
(...) se o organismo existir não como um instrumento de
trabalho alienado, mas como um sujeito de auto-realização – por outras
palavras, se o trabalho socialmente útil for, ao mesmo tempo, a
transparente satisfação de uma necessidade individual. (MARCUSE, 1982:178),
Em seu livro A Dimensão Estética (1986), Marcuse afirma que “sob a lei da forma estética, a realidade existente é necessariamente sublimada” (MARCUSE, 1986:20). E ainda:
A transcendência da realidade imediata destrói a
objectividade reificada das relações sociais estabelecidas e abre uma
nova dimensão da experiência: o renascimento da subjectividade
E “A idéia estética de uma razão sensual sugere tal tendência” (MARCUSE, 1982:179), ou seja, esta possibilidade já estaria expressa nas obras de arte.
A arte, como a cultura, aparece como construtora de Eros. Ananke parece não mais ser motivo suficiente para os impedimentos instintivos da civilização, mas antes colaborador do crescimento individual e do desenvolvimento social. Eros é energia criadora enquanto sublimação não-repressiva.
O Processo Civilizatório em Freud
Como filósofo político Herbert Marcuse fez questão de aplicar seus conhecimentos à prática, apresentando-nos sua leitura sobre o processo civilizatório em Freud.
Baseando-se no surgimento da sociedade industrial avançada Marcuse diz no Prefácio Político de 1966, que é necessária “uma inversão no rumo do progresso”. (MARCUSE, 1982:9).
Segundo ele, a inversão no rumo do progresso tem como base a inversão do sentido contido nessa mesma noção de progresso dada pelo capitalismo, onde só é verdadeiro aquele progresso que ocorre segundo as categorias de lucro e consumo, cujo único objetivo é a produtividade:
Ao passo que as revoluções anteriores acarretaram um
desenvolvimento mais amplo e mais racional das forças produtivas, nas
sociedades superdesenvolvidas de hoje, porém, revolução significaria a
inversão dessa tendência: eliminação do superdesenvolvimento e de sua
racionalidade repressiva. (MARCUSE, 1982:12)
Daí a necessidade de um novo ponto de partida, que seria a própria renovação da consciência do homem a partir de aspectos como a modificação da estrutura pulsional, a transformação das relações de trabalho, a dessublimação da razão e a própria sublimação.
radical da consciência humana será possível o desvencilhamento das amarras do capital.
A releitura feita por Marcuse da dimensão estética, assim como sua confiança na dinâmica renovadora e transformadora das pulsões (oposta ao conservadorismo pulsional freudiano), serve ao propósito da libertação dos sentidos com o objetivo final da emancipação total do homem, que deve contar com o apoio da força de Eros.
A possibilidade de uma civilização não-repressiva tem início com a modificação da estrutura pulsional, permitida pelo fim da escassez e da luta pela sobrevivência.
A realidade da satisfação se tornou possível na sociedade contemporânea com a crescente automação do trabalho, onde cada vez mais o tempo de trabalho torna-se tempo inútil, uma vez que a força do trabalhador pode ser substituída pela força de máquinas. No entanto, observa que o trabalhador tem sua carga de trabalho diminuída, mas não seu tempo de trabalho, e é justamente com essa fração de tempo que poderia ser disponibilizada a ele que Marcuse se preocupa, partindo para a distinção entre tempo livre e lazer.
O tempo livre deve ser associado ao ócio criativo, tempo frutífero que pode ser aproveitado autonomamente pelo homem; já o lazer é aquele tempo dominado e administrado totalmente pelo capitalismo. Com a evolução da tecnologia e da ciência a produção poderia se tornar ampliadamente automatizada, deixando tempo livre ao trabalhador. Segundo ele,
A redução do dia de trabalho a um ponto em que a mera
porção de tempo de trabalho já não paralise o desenvolvimento humano
é o primeiro pré-requisito da liberdade. (MARCUSE, 1982:134)
Marcuse ressalta a idéia do tempo livre como conceito organizador de uma nova estrutura de sociedade, aonde não haveria fronteiras entre o trabalho e o jogo, anteriormente tematizado por Schiller. O jogo tem o fim em si mesmo, e assim se daria o trabalho, que não seria apenas meio para atingir capital (única fonte de gratificação ao trabalhador alienado), mas seria gratificação erótica em si por um investimento da libido.
Sendo interrompida a produção de bens supérfluos e
suas formas) – as mutilação somáticas e mentais infligidas ao homem por
essa produção seriam eliminadas. (MARCUSE, 1982:12)
A civilização proposta por Marcuse não exige a paralisia do progresso (tal como previamente caracterizado), e sim o abrandamento da luta pela sobrevivência, possível através do progresso.
Com a redução da carga de trabalho, as necessidades dos indivíduos, impostas na verdade pelos interesses do capital, poderiam ser reconhecidas como verdadeiras ou falsas necessidades, de acordo com cada homem segundo si mesmo. As necessidades verdadeiras seriam facilmente identificáveis, pois não teriam o caráter da superficialidade, mas sim a pureza e a simplicidade.
Acrescenta que, devido a esse mesmo progresso técnico, não se faz necessária a distinção profunda entre Eros e Logos, ou entre razão e sensibilidade. O desenvolvimento das potencialidades humanas já não exige o aplainamento das funções consideradas inferiores em prol da ciência, mas ao contrário, a razão sensível seria responsável pela união entre trabalho e satisfação, onde o trabalho não seria mais visto apenas como suplício, mas também como prazeroso, devido à faculdade dos sentidos.
Marcuse denominou como fator fundamental na construção de uma sociedade não-repressiva tal dessublimação da razão, onde a mesma se torna objeto libidinal. Nas palavras de Marcuse, “o princípio de prazer se estende até a consciência.” (MARCUSE, 1982:189)
No concernente à modificação da estrutura das pulsões, o conceito de imaginação está presente em todos os âmbitos da discussão da possibilidade de uma civilização não-repressiva, dado que o imaginário “guarda os arquétipos da espécie, as imagens eternas recalcadas da memória individual e coletiva, as imagens tabus de liberdade” (MARCUSE, 1982:126).
Como já mencionado, a imaginação (ou fantasia) é a única forma de pensamento que ainda se vê livre do princípio de realidade, mantendo relações diretas com o princípio de prazer. Dessa forma, garante uma estreita relação com o conceito de liberdade, opondo-se à repressão das pulsões e podendo ser representada na forma da arte mais pura de conteúdo.
sociais dar-se-ia um novo jogo de sentidos, todo um redescobrimento do corpo erótico e estético, numa reconciliação do ser humano com a natureza.
Não se trata de uma reorientação das pulsões no sentido do conceito freudiano de sublimação, mas sim de uma modificação na própria dinâmica pulsional. A auto-sublimação da sexualidade em Eros é essencial na fundamentação de relações pessoais duradouras, trata-se de uma
(...) racionalidade libidinal que seja, não só compatível, mas promova até o progresso para as formas superiores de liberdade
civilizada. (MARCUSE, 1982:170)
Mais uma vez, dado a diminuição do esforço necessário ao trabalho, a libertação da sexualidade tem a ver com uma transformação da libido. Enquanto um impulso coletivo, não teria necessidade de a sexualidade ser desviada, mas ela cumpriria sua função de pulsão de vida.
O poder criador de cultura de Eros é sublimação não-repressiva: a sexualidade não é desviada nem impedida de atingir seu
objetivo; pelo contrário, ao atingir seu objetivo, transcende-o a favor de
outros, buscando uma gratificação mais plena. (MARCUSE, 1982:178).
A transformação da sexualidade em Eros implica em uma ampliação da pulsão, que se dirige agora à própria vida, levando a cabo a definição mais originária descrita por Freud como a integração de unidades cada vez maiores, com o objetivo da preservação da espécie.
IV. Pensando a Contemporaneidade
Após a apresentação dos modelos de civilização apresentados por Sigmund Freud e por Herbert Marcuse, podemos perceber a intrínseca relação entre subjetividade e sociedade. Dado seu caráter intrínseco, faz-se primordial estabelecer algumas relações entre a esfera pública e a individual.
Freud falava de como a realidade e o jogo de repressão em que o momento histórico coloca o homem fazem com que este permaneça alheio de si:
O significado e evolução da sociedade nada mais é que ‘a
luta entre Eros e a Morte’. As mudanças nas estruturas sociais são
desprovidas de significado em si mesmas; elas afetam as condições dos
seres humanos somente na medida em que fornecem saída para as
necessidades psíquicas. (FREUD apud POSTER, 1979:47).
Podemos notar assim em que medida o homem está relacionado com a sociedade em que vive.
Essa sociedade pode ser repressiva ou permissiva (no caso desta última a abolição da propriedade privada no comunismo, por exemplo), e seja do modo que for afetará a subjetividade do homem de seu tempo. A sociedade repressiva do sexualismo, a Viena vitoriana na qual Freud nasceu e completou sua formação, forneceu-lhe pacientes em sua maioria do sexo feminino e que apresentavam também em sua maioria traços histéricos, os quais foram relacionados à repressão social dos instintos eróticos.
O século XX é marcado por essa consciência. Não apenas Freud, como inúmeros outros autores falam da relação entre subjetividade e sociedade. Como explicar o homem social?
se transformam na forma de acúmulo de capital; são o elo entre a estrutura psíquica e a estrutura social.
O modo como os valores são internalizados no indivíduo depende de como esses valores são apresentados na realidade. Sendo assim, o acúmulo de capital e a exaltação da riqueza econômica formariam a subjetividade do indivíduo alienado de si, voltado para o trabalho e que tem como objetivo e fim a possessão de bens, pois é com esses bens que o sujeito se identifica e através dos mesmos que ele se coloca no mundo como indivíduo social.
O campo das relações humanas no sentido freudiano é semelhante ao comércio, ou seja, é uma troca de necessidades biologicamente dadas.
Segundo Freud, qualquer acontecimento, seja no plano individual ou no plano cultural, se desenvolve por meio de forças que lutam e se reposicionam sempre. É devido então à repressão que homens podem estabelecer-se em comunidades, convivendo e construindo laços sociais, uma vez que a falta de controle sobre as forças instintivas tornaria desenfreada a busca de satisfação das mesmas, impossibilitando as relações sociais.
(...) finalmente – e isso parece o mais importante de tudo -,
é impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída
sobre uma renúncia ao instinto, o quanto ela pressupõe exatamente a
não-satisfação (pela opressão, repressão, ou algum outro meio?) de
instintos poderosos. Essa “frustração cultural” domina o grande campo
dos relacionamentos sociais entre os seres humanos. (FREUD, 1997a: 52)
No entanto, Marcuse denuncia o exagero da contemporaneidade em lidar com o controle pulsional, desviando completamente os objetivos instintivos e inibindo sua força para que essa mesma energia instintiva passe a ser utilizada a favor da manutenção das condições atuais de sociedade.
ou menos consciente, sem saber de qualquer intenção definida nem se há afinal intenção alguma; e nem tampouco podemos chamá-lo de indiferente.
Acabo de sugerir que o conceito de alienação parece
tornar-se questionável quando os indivíduos se identificam com a
existência que lhes é imposta e têm nela seu próprio desenvolvimento e
satisfação. Essa identificação não é uma ilusão, mas uma realidade.
(MARCUSE, 1979:31)
E segue:
Em sua fase mais avançada, a dominação funciona como
administração. E nas áreas superdesenvolvidas de consumo em massa,
a vida administrada se torna a vida boa de todos. (MARCUSE, 1979:234)
A sociedade organiza então os instintos, nomeando seu lugar e finalidade, por meio do princípio de desempenho e da mais-repressão.
Talvez a evidência mais reveladora se possa obter
simplesmente vendo a televisão ou ouvindo o rádio durante uma hora
inteira por alguns dias, sem desligar nos momentos dos anúncios,
mudando-se vez por outra de estação. (MARCUSE, 1979:20)
Neste cenário, onde indivíduos são “mantidos incapazes de serem autônomos, enquanto forem doutrinados e manipulados (até seus próprios instintos)” (MARCUSE, 1979:27), somente a fantasia permanece livre do controle alienante, preservando a libido em sua forma mais livre e original. Afinal, tudo o que pensamos se situa inicialmente no campo da imaginação, cujo sentido existencial serve de base para todo o trabalho ulterior da razão.
instinto de vida; segundo, a diminuição do tempo de trabalho por meio da máxima mecanização (direção apontada pela sociedade industrial); terceiro, a transformação do trabalho alienante em jogo lúdico.
O jôgo voluntário com possibilidades fantásticas, a aptidão
para agir de boa consciência, contra naturam, para experimentar com homens e coisas, para converter a ilusão em realidade e a ficção em
verdade, são testemunho do quanto a Imaginação se tornou um
instrumento do progresso. (MARCUSE, 1979:227)
A felicidade é como um horizonte orientador de nossos objetivos que não se atem a nenhum deles, daí a fugacidade do prazer orientado pelo consumo, e o aumento da infelicidade, dada a conceituação manipulada de que a felicidade é eterna.
A impressão é de que não haveria condições, dentro do capitalismo, para a formação da autonomia individual e para a conseqüente consciência do jogo da felicidade, dado o nível em que se apresenta o processo de alienação.
A perda do controle sobre o próprio tempo e espaço aparece em todos os âmbitos da sociedade, onde os ditames da mídia corroboram com essa posição alienante do ser humano, administrando totalmente necessidades e prazeres.
É, na verdade, uma visão contraditória, de que cada vez mais o indivíduo é considerado e respeitado em sua individualidade. Como podem, todos e ao mesmo tempo, ser considerados em primeiro lugar? Tal é “um dos aspectos mais perturbadores da civilização industrial desenvolvida: o caráter racional de sua irracionalidade.” (MARCUSE, 1979:29).
As criaturas se reconhecem em suas mercadorias;
encontram sua alma em seu automóvel, hi-fi, casa em patamares, utensílios de cozinha. O próprio mecanismo que ata o indivíduo à sua
sociedade mudou, e o controle social está ancorado nas novas
necessidades que ela produziu. (MARCUSE, 1979:29)
compreensão é limitada; o acúmulo de capital é equivalente ao empobrecimento da identidade.
Segundo Marcuse, a sociedade atual é sociedade tecnológica de racionalidade institucional. Seu caráter unidimensional se dá pelo controle e nivelamento das consciências, “a tal ponto que toda contradição parece irracional e toda ação contrária parece impossível.” (MARCUSE, 1979:30)
O que determina a liberdade quando a introjeção dos controles sociais altera, em suas raízes, até mesmo o protesto individual?
O que determina a liberdade é o poder de escolha, em contraposição à alienação objetiva. O próprio conceito de liberdade deve ser reapresentado:
Assim, liberdade econômica significaria liberdade de economia – de ser controlado pelas forças e relações econômicas;
liberdade de luta cotidiana pela existência, de ganhar a vida. Liberdade
política significaria a libertação do indivíduo da política sobre a qual ele não tem controle eficaz algum. Do mesmo modo, liberdade intelectual
significaria a restauração do pensamento individual, ora absorvido pela
comunicação e doutrinação em massa, abolição da “opinião pública”
juntamente com os seus forjadores. (MARCUSE, 1979:25).
Para Marcuse, a Grande Recusa é o caminho para o processo de emancipação das imposições da sociedade industrial avançada. É a recusa absoluta de todos os valores vigentes e comportamentos pré-determinados: “(...) é o protesto contra a repressão desnecessária, a luta pela forma suprema de liberdade – “viver sem angústia” (MARCUSE, 1982:133).
No caso, o ideal revolucionário se concretizaria por meio da ação da juventude, e não mais pelo povo, transformado em alicerce do capitalismo. De certa forma, neste momento Marcuse concorda com Freud quanto ao caráter revolucionário da juventude intelectual.
Pois, afinal, a quem serve esta sociedade administrada senão somente ao capital?
Na verdade, parece não haver razão alguma, pelo menos
produção e distribuição de mercadorias e serviços se dêem por
intermédio da concorrência competitiva das liberdades individuais.
(MARCUSE, 1979:24)
A administração capitalista altera hábitos, necessidades, conceitos e valores e enfim, o modo de ser. Como já foi visto, também os instintos são modificados por meio da repressão.
Para explicar tal movimento, Marcuse destaca o termo “introjeção”:
Introjeção subentende a existência de uma dimensão
interior, distinta e até antagônica das exigências externas – uma
consciência individual e um inconsciente individual separados da opinião
e do comportamento públicos. (MARCUSE, 1979:30)
Mas, se a dimensão interior já está tomada pelo espaço exterior, como falar nesses termos?
“O resultado não é o ajustamento, mas a mimese: uma identificação imediata do indivíduo com a sua sociedade e, através dela, com a sociedade em seu todo.” (MARCUSE, 1979:31)
É dessa forma que o pensamento e o comportamento são padronizados, tornando-se unidimensionais. O reinado da Razão é tamanho que consegue inclusive abrigar em seu seio a metafísica e a espiritualidade, sem que estes constituam uma ameaça ao sistema material; tudo está sob controle.
A autolimitação do pensamento representa a ineficácia da oposição, onde miséria e injustiça são razoáveis; revolução e rebelião tornam-se sem sentido. Desenvolvimento, crescimento e progresso são instrumentos de dominação.
Ao dissertar sobre o conceito de progresso, Marcuse aproxima a automatização total da sociedade à realidade tecnológica atual. Tal progresso técnico seria suficiente para suprir todas as necessidades vitais dos seres humanos, propiciando ainda uma radical diminuição no tempo de trabalho.
No entanto,
conquistas técnicas e intelectuais, a sociedade industrial madura se
fecha contra essa alternativa. (MARCUSE, 1979:36)
A sociedade industrial está apta para libertar o homem da labuta, fornecendo-lhe condições para a autonomia, tais como espaço e tempo próprios, livre pensamento e ação. A pacificação da existência (termo utilizado para conceituar uma alternativa histórica à repressão e dominação), à medida que se apresenta cada vez mais palpável, é também cada vez mais rejeitada.
Mais uma vez faz-se presente o elemento irracional da racionalidade tecnológica e política.
As principais tendências são familiares: concentração da
economia nacional nas necessidades das grandes corporações, sendo o
Governo uma força estimulante, sustentadora e por vezes até
controladora; deslocamento dessa economia para um sistema mundial de
alianças militares, convênios monetários, assistência técnica e planos
desenvolvimentistas, assimilação gradativa das populações de operários
e “colarinhos brancos”, de tipos de liderança nos negócios e no trabalho,
de atividades das horas de lazer e aspirações em diferentes classes
sociais; fomento de uma harmonia preestabelecida entre a erudição e o
propósito nacional; invasão da vida no lar pelo companheirismo da
opinião pública; abertura da alcova aos meios de informação em massa. (MARCUSE, 1979:38)
O objetivo não é livrar o homem da labuta, mas sim diminuir o preço do produto pela substituição do homem pela máquina; mas não de todos os homens, nem de todas as funções.
Assim sendo, o homem aprende a controlar a máquina, mas serve à mesma e ajusta-se a ela. Seu trabalho torna-se mais e mais específico e alheio ao trabalhador, que nem mesmo vê seu fim e participa indiretamente de sua produção; apertando botões.
de alienação: o trabalhador não tem interferência original no processo, apenas reproduzindo o que lhe é requisitado, sem autonomia nenhuma para criar ou recriar algo.
Também os produtos de seu trabalho perdem a originalidade, a exclusividade, pois são tão padronizados quanto seus produtores e consumidores. Dado que a sociedade, além do controle dos modos de produção, também manipula os meios de comunicação e a educação dos indivíduos.
A educação dos indivíduos?
Quanto a isso, Marcuse salienta em nota de rodapé:
A modificação na função da família desempenha aqui
papel decisivo: suas funções “socializadoras” são cada vez mais tomadas
por grupos e meios de informação externos. (MARCUSE, 1979:30).
Se tudo serve às necessidades do mercado, como então desafiar tamanha hegemonia político-econômica?
O ideal é a substituição de necessidades falsas, pela consciência das verdadeiras necessidades.
O prevalecimento de necessidades repressivas é um fato
consumado, aceito na ignorância e na derrota, mas um fato que deve ser
desfeito, no interesse do indivíduo bem como no daqueles cuja miséria é
o preço de sua satisfação. As únicas necessidades que têm direito
indiscutível à satisfação são as necessidades vitais – de alimento, roupa
e teto ao nível alcançável da cultura. (MARCUSE, 1979:26).
Será possível a aplicação de sua teoria na prática?