HUGO ROSSINI COSTA LONGA
ESPAÇOS DO DESEJO
PROJETO, INTERVENÇÃO E APROPRIAÇÃO NA CIDADE CONTEMPORÂNEA EXPERIÊNCIAS EM CAMPOS ELÍSEOS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.
Orientadora: Profa. Dra. Maria Isabel Villac
São Paulo 2020
L848e Longa, Hugo Rossini Costa.
Espaços do desejo: projeto, intervenção e apropriação na cidade contemporânea. Experiências em Campos Elíseos / Hugo Rossini Costa Longa
164 f. : il. ; 30 cm
Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2020.
Orientadora: Maria Isabel Villac Bibliografia: f. 160-164.
1. Afeto. 2. Arquitetura contemporânea. 3. Corpo. 4 Desejo. 5. Ter- ritório. I. Villac, Maria Isabel, orientadora. II. Título.
CDD 720
Bibliotecária responsável: Paola Damato CRB-8/6271
Autor: Hugo Rossini Costa Longa
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Arquitetura e Urbanismo
Título do Trabalho: Espaços do desejo: Projeto, intervenção e apropriação na cidade contemporânea.
Experiências em Campos Elíseos.
O presente trabalho foi realizado com o apoio de 1:
CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
Instituto Presbiteriano Mackenzie/Isenção integral de Mensalidades e Taxas MACKPESQUISA - Fundo Mackenzie de Pesquisa
Empresa/Indústria:
Outro:
1 Observação: caso tenha usufruído mais de um apoio ou benefício, selecione-os.
Aos meus pais, Patrícia e Donizetti.
Grupo de Pesquisa
Este trabalho está vinculado a pesquisa “UM TEATRO, UMA ASSOCIAÇÃO, UM COLETIVO: EXPERIÊNCIAS DE TERRITORIALIZAÇÃO EM SANTA CECÍLIA, BARRA FUNDA E CAMPOS ELÍSEOS” coordenada pela Profa. Dra. Maria Isabel Villac. Fomentos: MCTIC/CNPq Nº 28/2018 UNIVERSAL | Fundo Mackenzie de Pesquisa - MackPesquisa Edital 2019 – do qual fui bolsista de julho de 2019 a junho de 2020.
Agradecimentos
À minha orientadora Maria Isabel Villac, que se tornou uma verdadeira amiga, cujas conversas e convivência me ensinam sempre com naturalidade.
À querida professora Volia Regina Kato, por sempre ter sido uma entusiasta desta pesquisa e por compartilhar comigo seus conhecimentos e livros.
À professora Lizete Maria Rubano, por me inspirar e ser forte em seus ideais.
Aos professores do curso de pós-graduação que influenciaram este trabalho de alguma forma: Abilio Guerra, Ana Gabriela Godinho Lima, Angélica Benatti Alvim, Eunice Helena Sguizzardi Abascal, Igor Guatelli, José Geraldo Simões Junior, Luiz Guilherme Rivera de Castro, Nadia Somekh, Rafael Perrone e Ruth Verde Zein.
Aos professores e arquitetos Mario Biselli e Artur Katchborian com quem tenho o privilégio de trabalhar e que desde o início acreditaram neste trabalho e o estimularam.
Aos amigos do escritório Biselli Katchborian, principalmente Ana Carolina Ferreira Mendes e Carla Gotardello, pela longa parceria e pelos debates enriquecedores.
Aos professores convidados Luciano Margotto e Claudio Manetti, que fizeram comentários tão oportunos e construtivos na banca de qualificação.
Aos colegas do grupo de pesquisa Edison Ribeiro Batista, Ricardo Luis Silva, Pâmella Mochiute Cruz e André Reis Balsini, que se tornaram referências.
À minha amiga Fabiana Perazolo, pela longa amizade e companheirismo desde a graduação que se refletem neste trabalho.
E aos meus pais, Patrícia e Donizetti, pelo apoio e pelo amor incondicional.
“O desejo move o mundo, ânsia da matéria indeterminada em busca de sua forma acabada e para sempre inalcançável. ” (Marilena Chaui)
Resumo
Espaços do desejo consistem em uma materialização do desejo na arquitetura da cidade através das práticas de sociabilidade e de ambientes que possibilitam a manifestação de um habitar coletivo. Este trabalho apresenta uma reflexão sobre o papel do desejo na existência humana, que desencadeia transformações no espaço urbano. O desejo atua na relação do sujeito com a cidade, mobilizando o corpo e possibilitando sua participação ativa na esfera pública. Assim, a existência do desejo é abordada como uma potência que estimula ações atentas às dinâmicas preexistentes, traduzidas em projetos, intervenções e apropriações na cidade contemporânea. Além disso, esta pesquisa busca enfatizar a atividade arquitetônica que desenvolve projetos mais coerentes com o espaço urbano real, quando considera o desejo de cidade como força motriz do processo. Serão feitas análises de projetos com abordagens distintas que buscam reabilitar o espaço urbano do bairro Campos Elíseos na cidade de São Paulo, assim como uma aproximação afetiva deste território realizada pelo autor, que visa possibilitar uma percepção das culturas do cotidiano e das práticas comuns das pessoas. A reflexão, o projeto e a experiência combinados consistem em poderosas ferramentas que colaboram com a formulação de estratégias de intervenção e apropriação do espaço e contribuem na construção de uma cidade democrática e solidária.
Palavras-chave: Afeto. Arquitetura Contemporânea. Corpo. Desejo. Território.
Abstract
The space of desire consists of a materialization of desire in the architecture of the city through the practices of sociability and environments that enable the manifestation of collective dwelling. This work presents a reflection on the role of desire in human existence, which triggers transformations in the urban space. Desire acts in the individual’s relationship with the city, mobilizing the body and enabling its active participation in the public sphere. Thus, the existence of desire is approached in this research as a power that stimulates careful actions to pre-existing dynamics, translated into designs, interventions and appropriations in the contemporary city. In addition, this research seeks to emphasize architectural activities that are more coherent with the real urban space, when considering the city desire as the driving force of the process.
Architectural designs with different approaches on the rehabilitation of the Campos Elíseos’ neighborhood urban spaces will be discussed, as well as an affective approach of this territory carried out by the author that aims to enable a perception of everyday cultures and common practices of people. Reflection, design and experience combined are powerful tools that collaborate with the formulation of intervention strategies and appropriation of space and contribute to the construction of a democratic and solidary city.
Keywords: Affection. Contemporary Architecture. Body. Desire. Territory.
Resumen
El espacio del deseo consiste en una materialización del deseo en la arquitectura de la ciudad a través de las prácticas de sociabilidad y ambientes que permiten la manifestación de una vivienda colectiva. Este trabajo presenta una reflexión sobre el papel del deseo en la existencia humana, que desencadena transformaciones en el espacio urbano. El deseo actúa en la relación del sujeto con la ciudad, movilizando el cuerpo y permitiendo su participación activa en la esfera pública. Así, la existencia del deseo se aborda como un poder que estimula acciones atentas a dinámicas preexistentes, traducidas en proyectos, intervenciones y apropiaciones en la ciudad contemporánea. Además, esta investigación busca enfatizar la actividad arquitectónica que desarrolla proyectos más coherentes con el espacio urbano real, cuando considera el deseo de la ciudad como la fuerza impulsora del proceso. Se realizarán análisis de proyectos con diferentes enfoques que buscan rehabilitar el espacio urbano del barrio Campos Elíseos en la ciudad de São Paulo, así como un enfoque afectivo de este territorio llevado a cabo por el autor que tiene como objetivo permitir una percepción de las culturas de la vida cotidiana y las prácticas comunes de las personas. La reflexión, el proyecto y la experiencia combinados son herramientas poderosas que colaboran con la formulación de estrategias de intervención y apropiación del espacio y contribuyen a la construcción de una ciudad democrática y solidaria.
Palabras clave: Afecto. Arquitectura Contemporánea. Cuerpo. Deseo. Territorio.
Lista de ilustrações
Figura 1: Edifício Habitacional Narkomfin. Foto: Robert Byron. Disponível em: <http://socks- studio.com/img/blog/narkomfin-30-photos-11.jpg>. ... 46 Figura 2: Plantas do edifício Narkomfin. Fonte: Socks Studio. Disponível em: <http://socks- studio.com/img/blog/narkomfin-01-plans-1.jpg>. ... 46 Figura 3: Pátio do Centro Cultural São Paulo. Foto: Arthur Rocha. Fonte: acervo do autor. 48 Figura 4: Centro Cultural São Paulo. Foto: Nelson Kon. Disponível em:
<https://www.nelsonkon.com.br/centro-cultural-sao-paulo/> ... 48 Figura 5: Parque Minhocão. Fonte: Foto do autor. ... 51 Figura 6: Edifício da Coopertavia Habitacional La Borda. Foto: Lacol e Lluc Miralles.
Disponível em <https://www.archdaily.com/922184/la-borda-lacol>. ... 57 Figura 7: Planta do edifício da Coopertiva Habitacional La Borda. Fonte: Lacol. Disponível em <http://www.lacol.coop/projectes/laborda/> ... 57 Figura 8: Biblioteca Nacional da França de Bernard Tschumi. Fonte: Bernard Tschumi.
Disponível em <http://www.tschumi.com/projects/25/> ... 66 Figura 9: Cobertura do Sesc 24 de maio num domingo à tarde com pessoas tomando sol e usando a piscina, 15 de setembro de 2019. Foto do autor. ... 67 Figura 10: Pavilhão da Espanha na Bienal de arquitetura de Veneza de 2016. Foto de Laurian Ghinitoiu.
Disponível em <https://www.archdaily.com.br/br/788432/espanha-vence-leao-de-ouro-na- bienal-de-veneza-2016-com-unfinished?ad_medium=gallery> ... 69 Figura 11: Iglesia Corbera d’Eebre. Disponível em <http://unfinished.es/obra/iglesia-corbera- debre/> ... 71 Figura 12: Iglesia Corbera d’Eebre. Foto: José Hevia. Disponível em:
<http://unfinished.es/obra/iglesia-corbera-debre/> ... 71 Figura 13: Conjunto Quinta Monroy. Foto: Cristobal Palma / Estudio Palma. Disponível em:
<https://www.archdaily.com.br/br/01-28605/quinta-monroy-elemental> ... 73 Figura 14: Implantação do térreo e do pavimento superior. Desenhos técnicos do projeto Quinta Monroy com análise gráfica elaborada pelo autor. Fonte: Imagem original do
escritório Elemental com intervenções do autor. ... 76 Figura 15: Fotografia do Conjunto Quinta Monroy com intervenção gráfica do autor. Foto:
Cristobal Palma / Estudio Palma. Fonte: Elemental. Disponível em
<https://www.archdaily.com.br/br/01-28605/quinta-monroy-elemental> ... 78 Figura 16: Conjunto Quinta Monroy com apropriações dos moradores. Foto: Elemental.
Disponível em <https://www.archdaily.com.br/br/01-28605/quinta-monroy-elemental> ... 80 Figura 17: Palacete Elias Chaves. Foto: Guilherme Gaensly. Disponível em
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra11654/palacete-elias-chaves> ... 83 Figura 18: Mapa de trecho dos Campos Elíseos com Palacete Elias Chaves em destaque.
Fonte: Mapa Sara Brasil folha 37/21. Ano 1930. ... 83 Figura 19: Terminal Rodoviário da Luz. Fonte: Acervo da Biblioteca da FAUUSP. Disponível em <http://www.saopauloantiga.com.br/o-terminal-rodoviario-da-luz-em-16-fotos-coloridas/>
... 86
Figura 20: Implantação proposta do projeto urbanístico Nova Luz, desenvolvido pela Prefeitura do Município de São Paulo. Fonte: SP-Urbanismo. Disponível em
<https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/desenvolvimento_urbano/sp_urb
anismo/arquivos/ouc/96_ceouc_nl_consolidado_nov_2011.pdf> ... 90
Figura 21: Centro Cultural Luz, São Paulo. Fonte: Herzog & de Meuron. Disponível em: <https://www.vitruvius.com.br/jornal/news/read/1270> ... 95
Figura 22: Centro Cultural Luz, São Paulo. Fonte: Herzog & de Meuron. Disponível em: <https://www.arcoweb.com.br/projetodesign/arquitetura/herzog-de-meuron-centro-cultural- sao-paulo-23-05-2012> ... 95
Figura 23: Implantação do Complexo Júlio Prestes. Fonte: Desenho realizado pelo autor. 97 Figura 24: Complexo Júlio Prestes. Croqui: Mario Biselli. Fonte: Acervo Biselli Katchborian Arquitetos ... 99
Figura 25: Diagrama de perímetros do Complexo Júlio Prestes. Fonte: Acervo Biselli Katchborian Arquitetos. Disponível em: <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/17.194/6427> ... 100
Figura 26: Perspectiva Complexo Júlio Prestes e Edifício Miri do arquiteto Franz Heep. Croqui: Mario Biselli. Fonte: Acervo Biselli Katchborian Arquitetos. ... 100
Figura 27: Corte do Complexo Júlio Prestes. Croqui: Mario Biselli. Fonte: Acervo Biselli Katchborian Arquitetos. ... 101
Figura 28: Escola de Música do Estado de São Paulo. Croqui: Mario Biselli. Fonte: Acervo Biselli Katchborian Arquitetos. ... 101
Figura 29: Implantação do térreo do Complexo Júlio Prestes. Fonte: Implantação elaborada pelo autor a partir de material fornecido pelo escritório Biselli Katchborian Arquitetos. ... 102
Figura 30: Torres 1 e 2 do Complexo Júlio Prestes. Foto do autor. ... 104
Figura 31: Complexo Júlio Prestes visto do Largo General Osório. Foto do autor. ... 105
Figura 32: Complexo Júlio Prestes visto do Largo General Osório. Foto do autor. ... 107
Figura 33: Muro do Complexo Júlio Prestes. Foto do autor. ... 107
Figura 34: Croquis de Le Corbusier com anotações de Mario Biselli em vermelho. Fonte: Tese de Doutoramento de Mario Biselli. ... 110
Figura 35:Complexo Júlio Prestes com muro e guarita. Foto do autor. ... 111
Figura 36: As clareiras como diretriz projetual na escala das quadras de Campos Elíseos. Fonte: Fórum Aberto Mundaréu da Luz. Disponível em <https://mundareudaluz.org/camposeliseosvivo/> ... 118
Figura 37: Projeto Campos Elíseos Vivo. Fonte: Fórum Aberto Mundaréu da Luz. Disponível em <https://mundareudaluz.org/camposeliseosvivo/> ... 117
Figura 38: Tipologias desenvolvidas para o projeto Campos Elíseos Vivo. Fonte: Fórum Aberto Mundaréu da Luz. Disponível em <https://mundareudaluz.org/camposeliseosvivo/>. ... 119
Figura 39: The naked city. “Ilustração da hipótese das placas rotativas”. Guy Debord, 1957. Disponível em <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/15.176/5458> ... 133
Figura 40: Moradores da Mangueira vestindo Parangolés de Hélio Oiticica. Foto: Andreas Valentin. Disponível em: <https://scielo.conicyt.cl/img/revistas/aisthesis/n63//0718-7181- aisthesis-63-0027-gf01.jpg>. ... 137
Figura 41: Implantação da área de estudo com destaque na área percorrida. Fonte: Mapa realizado pelo autor sobre base Geosampa. ... 139
Figura 42: Área de estudo com indicações das derivas realizadas. Fonte: Mapa realizado
pelo autor sobre base Geosampa. ... 141
Figura 43: Papelaria na Barra Funda. Foto André Balsini. Fonte: Acervo Cultura(s) e cidade. ... 142
Figura 44: Casa noturna Blue Space. Foto André Balsini. Fonte: Acervo Culturas(s) e cidade. ... 143
Figura 45: Encontro da Rua Lopes Chaves com o muro da CPTM. Foto do autor. ... 144
Figura 46: Esquina na Barra Funda. Foto do autor. ... 145
Figura 47: Banca de frutas próximo ao Elevado Presidente João Goulart. Foto do autor. 146 Figura 48: Imagens da deriva em Santa Cecília. Fotos do autor. ... 147
Figura 49: Imagens da deriva em Santa Cecília. Fotos do autor. ... 148
Figura 50: Local de ensaio do bloco Filhos da Santa. Foto do autor. ... 149
Figura 51: Mercado de pulgas na Praça Olavo Bilac. Foto do autor. ... 150
Figura 52: Theatro São Pedro. Foto do autor. ... 151
Figura 53: Feira da Rua Adolfo Gordo e Teatro Escola Macunaíma. Fotos do autor. ... 152
Figura 54: Espaço do desejo: inflexão em reflexão, projeto e experiência. Fonte: Diagrama elaborado pelo autor ... 154
Sumário
Introdução ... 19
Desejo de cidade e isolamento social ... 24
1. Desejo: teoria e ação ... 29
1.1. A potência do desejo ... 30
1.1.1. Desejo e corpo: a capacidade de afetar e ser afetado ... 30
1.1.2. Desejo e produção de movimento ... 34
1.1.3. Desejo de ser: multidão e massificação ... 37
1.2. Habitar coletivo ... 41
1.2.1. O desejo de estar junto ... 41
1.2.2. Outras formas de morar ... 52
2. A construção do projeto por meio do desejo ... 59
2.1. Desejo e projeto: teoria e prática ... 60
2.1.1. O conceito no ato de projetar ... 60
2.1.2. Arquitetura como discurso ... 63
2.2. A manifestação do desejo na arquitetura ... 68
2.2.1. A Bienal de Arquitetura de Veneza 2016 ... 68
2.2.2. O caso Quinta Monroy ... 72
2.3. Experiências em Campos Elíseos ... 81
2.3.1. Aproximações e contextos do bairro ... 81
2.3.2. Cracolândia e tentativas de reabilitação ... 86
2.3.3. Complexo Cultural Luz ... 93
2.3.4. Complexo Júlio Prestes ... 96
2.3.5. Fórum Aberto Mundaréu da Luz: Campos Elíseos Vivo ... 113
3. Experiências do desejo na cidade ... 120
3.1. Desejo coletivo e território ... 121
3.1.1. Desejo de cidade ... 121
3.1.2. Direito à cidade e vida urbana ... 123
3.1.3. A experiência e o caminhar ... 128
3.2. Campos Elíseos: uma aproximação afetiva ... 138
3.3. Espaços do desejo: reflexão, projeto e experiência ... 153
Considerações Finais ... 156
Referências Bibliográficas ... 160
Introdução
O conceito de desejo vem permeando minhas inquietações e protagonizando minhas pesquisas acadêmicas desde a graduação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2016. Em meu último ano de graduação ingressei ao grupo de pesquisa Cultura(s) e Cidade e passei a vivenciar mais intensamente a pesquisa acadêmica. Daquele momento até hoje, os colaboradores do grupo têm contribuído com a minha formação através de discussões e também da própria convivência. É um aprendizado conjunto em que todos permeiam as pesquisas individuais uns dos outros enquanto construímos nossa pesquisa coletiva.
Esta pesquisa iniciou-se em 2016, quando realizei meu Trabalho Final de Graduação.
Naquele momento dediquei-me ao estudo do Parque Augusta e, por consequência, às manifestações frequentes que reivindicavam sua concretização como espaço público na cidade. As mobilizações eram organizadas por diversos grupos diferentes com interesses distintos. O conceito de desejo, que era inicialmente adotado para fundamentar o trabalho, despontou e fez-se maior que o próprio objeto, tornando-se parte primordial da pesquisa. Então, o recorte do Parque Augusta se ampliou, e passei a analisar também outras áreas públicas pulsantes da cidade de São Paulo, como a Avenida Paulista, o Elevado Presidente João Goulart e a própria Rua Augusta. A pesquisa empírica destes lugares foi realizada por meio da técnica da observação direta e da realização de diversas caminhadas.
A aproximação com o objeto de estudo e a experiência empírica desencadearam o programa do projeto de arquitetura proposto: uma espécie de centro cultural voltado aos interesses comuns às culturas do cotidiano do bairro Baixo Augusta. O projeto vislumbrava um espaço democrático e de livre acesso destinado a atividades criativas como teatro, práticas musicais, exibições de filmes, salas de exposições e também ateliês de criação, oficinas de produção e salas para aulas e debates. Compondo o complexo, havia também um bloco habitacional com residências temporárias servido de cozinhas e lavanderias coletivas e outros espaços comunitários. O bloco habitacional dedicava-se a hospedar no complexo pessoas e grupos que viajam até a
cidade para participar de atividades, facilitando a troca entre pessoas de diferentes origens e contextos.
O projeto recebeu o nome de Centro de Culturas Parque Augusta e se esforçava para ser um lugar que promovesse o encontro e fosse um espaço público por excelência, que abraçasse a diversidade da metrópole e intensificasse a vida urbana ao ampliar a convivência coletiva. O projeto podia ser compreendido como um condensador social contemporâneo, pois tratava-se de um palco para as ações humanas que atrairia pessoas pelas inúmeras possibilidades ofertadas.
Esta dissertação de mestrado parte desta experiência iniciada na graduação e se esforça para investigar as relações entre desejo, cidade e arquitetura e discorrer sobre o que denominei de espaços do desejo. Como estratégia de projeto, os espaços do desejo são fundamentados a partir do olhar sensível às dinâmicas do cotidiano da cidade, como o pedestre que percebe a cidade da cota do térreo e usufrui dos espaços públicos como ambientes de permanência e passagem, convivendo com a pluralidade urbana. Esta pesquisa também propõe se inserir de fato no território através da experiência, que permite a leitura aprofundada e o conhecimento do lugar.
O primeiro capítulo desta dissertação apresenta uma discussão teórica que se respalda nas estruturas físicas das cidades contemporâneas. O capítulo se orienta na investigação do conceito de desejo a partir dos campos da psicanálise e da filosofia.
As reflexões norteadas pelo desejo acabam por desencadear outros conceitos e pensamentos que servem de substrato à pesquisa e auxiliam na inflexão entre teoria, experiência e prática. Além disso, a pesquisa discute sobre a importância da subjetividade humana na arquitetura e na cidade, e busca compreender as dinâmicas e relações que ocupam o espaço urbano, bem como as cidades podem ser construídas e receber intervenções apoiadas nesta perspectiva.
O desejo ainda se revela em um habitar coletivo. É um sentimento comunitário que mobiliza pessoas a ocuparem os espaços coletivos da cidade que promovem o encontro. Alguns destes espaços serão abordados nesta pesquisa, como o Edifício Habitacional Narkomfin (1928) em Moscou, o primeiro condensador social da União Soviética e o Centro Cultural São Paulo (1982), um edifício de uso público, considerado um condensador social contemporâneo.
O segundo capítulo foca na construção do projeto de arquitetura. É pensado o papel do desejo no ato de projetar, desde a concepção até o desenvolvimento das ideias. É destacada a coexistência entre teoria e prática e como essa sobreposição conforma uma possibilidade mais coesa de construção do discurso através da forma, como ocorre na obra de Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha.
Assim sendo, a cidade se coloca como obra construída, porém inacabada, ou seja, apta a sofrer intervenções. Dessa forma, há o compromisso de tomar decisões embasadas na preexistência e no desejo coletivo. Esta postura contemporânea se interessa pelo caráter aberto da cidade e busca propor novas possibilidades de arquitetura, contando com o desejo como uma contribuição ao projeto, como acontece com o conjunto habitacional Quinta Monroy (2003) do arquiteto Alejandro Aravena em Iquique, no Chile.
O recorte espacial escolhido nesta pesquisa é o bairro de Campos Elíseos na região central da cidade de São Paulo. Inicialmente é realizada uma breve aproximação histórica que busca compreender as transformações do bairro desde sua criação, contextualizando-as com sua situação contemporânea para que se possa analisar com mais propriedade intervenções recentes em seu território que integram este trabalho. Tais intervenções correspondem a tentativas de reabilitação que apresentam diferentes perspectivas e visões de mundo. Sendo assim, as estratégias de reconhecimento do espaço e de ação também se diferem. Entre estas intervenções estão as ações recentes na Cracolândia e os projetos Nova Luz (2010), Complexo Cultural Luz (2012, Herzog & De Meuron), Complexo Júlio Prestes (2016, Biselli Katchborian Arquitetos) e Campos Elíseos Vivo (2018, Fórum Aberto Mundaréu da Luz).
A escolha por este recorte se deu devido a convergência da área de estudo do grupo de pesquisa com o qual colaboro (cujos últimos trabalhos se dedicaram aos bairros Campos Elíseos, Barra Funda e Santa Cecília) com a minha experiência como arquiteto colaborador no projeto do Complexo Júlio Prestes, do escritório Biselli Katchborian Arquitetos, desde a fase de concorrência até o desenvolvimento e detalhamento. Portanto, me pareceu interessante aproximar estas duas experiências que apresentam perspectivas distintas para desenvolver esta pesquisa.
As análises dos projetos e intervenções pretendem investigar principalmente a inserção das obras no bairro e as articulações estabelecidas entre os edifícios e as dinâmicas da cidade. A pesquisa se interessa pelos projetos justamente pelo caráter aberto das arquiteturas que misturam usos públicos e privados no interior das quadras e potencializam a pluralidade da cidade. A região trata-se de um local no coração da cidade de São Paulo, uma área repleta de diversidade social, cultural e étnica, e onde vários interesses estão em constante conflito.
O último capítulo desta pesquisa dedica-se às experiências do desejo na cidade que são vividas e sentidas pelo corpo. A cidade comporta uma infinidade de fenômenos sociais. As relações humanas são inerentes ao espaço, que é definido pelas práticas que o ocupam. Enquanto isso, o desejo representa uma potência que mobiliza pessoas em um movimento coletivo a fim de criar uma totalidade harmônica nas cidades que habitamos.
O ato de ir a campo e experimentar o espaço, observando culturas e participando das práticas urbanas é entendido e desenvolvido neste trabalho como uma postura que pode ser adotada como metodologia na leitura e na produção do território, além de modo de viver. Por isso, a pesquisa discute técnicas de reconhecimento e incursões no território que possibilitam uma aproximação afetiva através da experiência. Assim, são tomadas como referência outras experiências empíricas, desde a derivas dos situacionistas em Paris até as experiências de Hélio Oiticica na favela da Mangueira no Rio de Janeiro. Tais vivências conformam um aparato referencial para as experiências realizadas e documentadas neste trabalho, que visam aprofundar o conhecimento do território por meio de suas aproximações empíricas e afetivas que percebem as práticas comuns como potência.
Os três capítulos desta dissertação buscam se complementar através das sobreposições entre teoria, arquitetura e cidade, que se alternam diversas vezes no trabalho. Ou seja, não há necessariamente uma linearidade na pesquisa, pois estas três camadas aparecem durante todo o texto em diferentes dosagens. As intersecções destas abordagens pretendem discorrer sobre a relação entre desejo e cidade. Qual o papel do desejo na conformação de uma cidade democrática que valoriza a vida partilhada? Como o desejo pode ser inserido no ato de projetar? Como a experiência
empírica contribui para a percepção de uma cidade pujante e para a integração da arquitetura nesta realidade?
É esperado que estas questões motivem reflexões que criam dobras nos campos de pesquisa e sintetizam esta ideia. A reflexão teórica, a experiência empírica e o projeto de arquitetura ocorrem simultaneamente e são motivados e amparados pelo desejo, que está presente no interior de cada sujeito. Esta inflexão é o que chamaremos aqui de espaços do desejo.
Desejo de cidade e isolamento social
Durante as pesquisas para minha dissertação de mestrado estive dedicado às reflexões sobre o conceito de desejo e seus desdobramentos na vida pública da cidade. O desejo é a força dentro de cada um de nós que, a partir de nossas subjetividades, move os nossos corpos e produz afetos que percorrem o tecido urbano e preenchem a cidade de vida. Assim, tenho buscado relacionar a potência do desejo com a arquitetura da cidade e demonstrar como esta relação pode desencadear um espírito coletivo.
Neste processo, me deparei com uma de excepcionalidade, que não poderia deixar de ser mencionada neste trabalho: a Covid-19. Desenvolvi então este texto, de caráter mais pessoal, pois se trata de um relato da minha experiência de isolamento durante os últimos meses de produção do trabalho.
A Covid-191 é uma doença causada pelo novo tipo de coronavírus, de alta transmissibilidade, que se tornou uma pandemia que interrompeu diversas dinâmicas em todo o mundo e transformou grande parte das atividades que estávamos acostumados a realizar cotidianamente.
Com altos índices de contaminação, foi constatado que as estratégias mais eficazes de enfrentamento da pandemia são as práticas preventivas individuais de higiene pessoal, o uso de máscaras, a limpeza dos ambientes e o isolamento social. Assim, é possível diminuir a velocidade da contaminação e possibilitar que o sistema de saúde se organize para o atendimento, pois o sistema imunológico dos seres humanos ainda não está preparado para conter este vírus, para o qual ainda não foi desenvolvida nenhuma vacina.
A situação é ainda mais delicada em grandes centros metropolitanos de países em desenvolvimento como São Paulo, onde a parcela mais vulnerável da população vive em condições sanitárias e de moradia precárias e é comum a presença de aglomerações em diversos pontos da cidade. Para enfrentar a pandemia, as pessoas consideradas como grupo de risco e aquelas que desempenham atividades
1 A Covid-19 é uma doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, que apresenta um quadro clínico que varia de infecções assintomáticas a quadros respiratórios graves, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).
consideradas não essenciais foram orientadas a ficar em casa praticando o denominado distanciamento social. Desta forma, estariam se resguardando da contaminação e colaborando para diminuir a propagação do vírus. Nenhum país do mundo possui um sistema de saúde pública eficiente o bastante para tratar os sintomas de milhares de pessoas infectadas ao mesmo tempo.
As autoridades públicas definiram que os estabelecimentos não essenciais que pudessem propiciar aglomerações fossem fechados, dentre eles estão escolas, universidades, bares, restaurantes, escritórios e comércios. Na prática, por um longo período, só permaneceram abertos mercados, farmácias, lojas de material de construção, restaurantes para pronta entrega e etc. A recomendação é sair de casa o menos possível.
Ora, enquanto ficamos em casa, como podemos lidar com nossas práticas cotidianas e o que acontece com o desejo de cidade neste período de isolamento social?
Reclusos, nossa casa passa a ser local de trabalho, escola, universidade, academia, barbearia, salão de beleza, cinema, etc. A nossa casa vira o mundo inteiro. Depois de algumas semanas de isolamento já conhecemos cada canto do nosso lar de uma maneira que ainda não tínhamos percebido. Nesse período, as relações e significados dos espaços sofrem mudanças.
Em paralelo à redescoberta do nosso próprio espaço privado, somos bombardeados com notícias dos jornais. Estamos a todo o momento sendo atualizados sobre o avanço da contaminação e o crescimento do número de óbitos enquanto acompanhamos as novas descobertas sobre a doença e as medidas de prevenção.
O acúmulo de notícias tristes é desgastante. É um período de angústia coletiva que vem se arrastando nestes meses desde o início da pandemia.
Com o passar do tempo recebemos notícias de outros países que finalmente estão controlando a pandemia. As medidas de isolamento social vão sendo flexibilizadas e aos poucos seus habitantes são autorizados a retornar às suas atividades comuns.
No Brasil ainda enfrentamos o auge da epidemia. Os governantes, principalmente no início da pandemia, demonstraram falta de consenso e de articulação na condução de medidas para o controle da doença. Em várias situações adotaram orientações contraditórias, causando insegurança nas pessoas neste momento crítico.
Enquanto dividimos nossa atenção entre o trabalho e as notícias, as dinâmicas do dia a dia se baseiam na comunicação por meio de telas, como a tela do computador, a tela do celular, a tela da televisão, etc.
Neste período de introspecção e absorção constante de notícias ocorre um acúmulo de desejos em nossos corpos. É um período que possibilita reflexão e o ganho de consciência sobre o mundo, e principalmente, sobre si mesmo. A redução dos estímulos faz com fiquemos mais atentos e sensíveis a todo afeto. Demoramos mais nas coisas, olhamos com mais atenção cada ação e passamos a notar com mais clareza como o mundo exterior pode afetar o nosso mundo interior em seu íntimo. Em algumas situações, pessoas que não conseguiram se adaptar à falta de estímulos podem desenvolver crises de depressão.
O desejo continua atuando em nossos corpos e fazendo-os vibrar. É nos espaços coletivos de uso público, que se encontram impraticáveis, que a vibração dos corpos teria maior visibilidade e maior poder de irradiação. No entanto, estamos isolados em nossos espaços privados e o encontro físico não é realizado. Essa agitação confinada é uma potência retida que está longe de ser infrutífera. Existe uma necessidade de exteriorizar os afetos. O desejo pulsa a fim de extravasar sua energia, portanto procuramos outras maneiras de pôr os desejos em movimento.
Os mecanismos que usamos para trabalhar e nos informar durante o dia são os mesmos meios por onde expressamos nossos desejos, nos comunicamos e nos entretemos. Além de nos acompanhar em nossas reuniões profissionais, as telas também fazem parte da nossa vida pessoal e nos acompanham em nossos encontros com amigos e familiares em almoços, jantares e aniversários. Através das telas ocorre também o lazer, o esporte e a cultura. Podemos assistir apresentações musicais transmitidas ao vivo, fazer aulas de ginástica, realizar maratonas de filmes e séries de televisão, ler livros, etc.
Enquanto bares e restaurantes continuam fechados, algumas casas noturnas têm sobrevivido através da venda de ingressos de festas que ocorrem exclusivamente pelas plataformas de reunião à distância. Todos os convidados ficam em casa e podem dançar enquanto acompanham músicas tocadas e transmitidas ao vivo por
DJs. O mesmo ocorre com grupos de teatro, cujos atores se apresentam remotamente contando e encenando suas narrativas.
Essas dinâmicas demonstram que, de alguma forma, o espaço público das cidades tem se desmaterializado. Isso não é um fenômeno inédito e não começou agora, mas neste momento de isolamento social podemos percebê-lo com mais clareza. A vida pública ainda é exercida, porém ela se desprende da matéria e do espaço e ocorre virtualmente, o que não significa que o espaço público em sua condição física entrará em desuso. O espaço virtual é apenas outro meio que permite ao ser humano se comunicar e se expressar, é uma verdadeira ágora virtual.
Neste momento de isolamento social, as telas são aberturas para o mundo exterior que possibilitam a comunicação. Entretanto, faz falta a vida palpável, a vida material, de carne e osso. Então recorremos para outro tipo de frestas: as janelas, as sacadas, os quintais, os balcões, as varandas. Essas aberturas, além de permitirem a comunicação com o mundo externo, são as frestas por onde a luz penetra e adentra nossas residências. Sabemos de que maneira e em quais horários o Sol bate em cada janela da nossa casa. Esperamos o momento certo para poder tomar um banho de sol de dentro dos nossos apartamentos, muitas vezes apoiados no peitoril da janela, outras vezes estirados no chão da sala.
As frestas são elementos arquitetônicos ou ambientes que se tornaram ainda mais valiosos durante o período de distanciamento social. São os espaços mais públicos dos nossos espaços privados. Através deles podemos olhar a vida e ver o dia passar.
Buscamos nessas frestas uma maneira de nos comunicarmos com o mundo lá fora, o que muitas vezes desencadeia uma reflexão interior. Tais aberturas ainda permitem manifestações políticas (como pendurar bandeiras e participar de panelaços, que indicam a insatisfação do povo com o governo e com a atual conjuntura do país) e artísticas (como apresentações musicais de pessoas cantando e tocando instrumentos).
O desejo sempre encontra outras formas de se manifestar, porém elas não bastam. É cansativo estar sempre em busca de alternativas. Depois de algum tempo, se comunicar com alguém por meio de uma tela não é mais o suficiente, pois ela nos dá uma perspectiva em duas dimensões das pessoas, é uma imagem. Assim, uma
reunião entre amigos via internet não é real o suficiente. Não é a mesma coisa que a presença do corpo. Sentimos falta de compartilhar uma mesa de bar, de nos exercitar em parques, de frequentar cafés movimentados. Estamos com saudade da cidade e das possibilidades promovidas por ela. Sentimos falta do habitar coletivo.
É importante usar este momento para repensar alguns hábitos que vínhamos adotando. A vida na cidade às vezes pode ser solitária para algumas pessoas, e às vezes nós mesmos a encaramos de uma forma individualista. É tempo de adotar novos hábitos e atitudes mais solidárias em nosso cotidiano, contribuindo para a criação de uma realidade mais humana. A esperança é que após a pandemia venha um período de maior sociabilidade.
Um período de adversidade é também um período de criatividade e de autoconhecimento. Podemos canalizar nossa inquietação e inventar novos modos de viver, de nos comunicar, de cultivar nossas relações e de contribuir para a construção um mundo mais solidário. Talvez não precisemos de tantas coisas, talvez a vida possa ser mais simples, mas ela certamente deve ser coletiva.
Este isolamento social marca um momento histórico que reforça a necessidade do encontro humano. Fica clara a natureza do ser humano como um ser gregário que necessita conviver com o outro. A ausência do espaço público reforça a importância das práticas cotidianas que possibilitam atividades de sociabilidade e de convivência.
Essas dinâmicas aparecem como uma potência que designa a cidade como um espaço do desejo.
1. Desejo: teoria e ação
1.1. A potência do desejo
1.1.1. Desejo e corpo: a capacidade de afetar e ser afetado
No livro Micropolítica: cartografias do desejo, Félix Guattari e Suely Rolnik (2011, p.
36) apontam que “todos os fenômenos importantes da atualidade envolvem dimensões do desejo e da subjetividade”. Para melhor compreender sobre subjetividade humana e desejo, este trabalho faz aproximações com o campo da filosofia e da psicanálise. A subjetividade é a composição particular e o agrupamento único de sentimentos de cada indivíduo. É aquilo que é constituído através das experiências individuais no âmbito social e cultural. O desejo é um forte sentimento presente na subjetividade de cada um. É um anseio poderoso e um tanto caótico que gera inquietude no sujeito desejante, a quem é atribuída a energia incontrolável do desejo.
O desejo aparece como algo flou2, meio nebuloso, meio desorganizado, espécie de força bruta que precisaria estar passando pelas malhas do simbólico e da castração segundo a psicanálise, ou pelas malhas de algum tipo de organização de centralismo democrático segundo outras perspectivas – fala-se, por exemplo, em
“canalizar” as energias dos diferentes movimentos sociais. Poder-se- ia enumerar uma infinidade de tipos de modelização que se propõem cada um em seu campo, a disciplinar o desejo. (GUATTARI; ROLNIK, 2011, p. 260).
Neste trabalho o desejo não é visto como algo a ser disciplinado, mas como uma potência a ser compreendida. A imprecisão do desejo causa certo delírio, uma exaltação com potencial criativo. Então, o desejo apresenta uma capacidade pujante de criação e construção. É aquilo que inspira, dá fôlego e possibilita novas maneiras de se posicionar e de agir em sociedade.
Quando tento colocar o problema do desejo enquanto formação coletiva, evidencia-se logo que o desejo não é forçosamente um negócio secreto ou vergonhoso como toda a psicologia e moral dominantes pretendem. O desejo permeia o campo social, tanto em práticas imediatas, quanto em projetos muito ambiciosos. Por não querer me atrapalhar com definições complicadas, eu proporia denominar desejo a todas as formas de vontade de viver, de vontade de criar, de vontade de amar, de vontade de inventar uma outra
2 Flou (francês) significa algo impreciso, borrado, sem foco.
sociedade, outra percepção do mundo, outros sistemas de valores.
(GUATTARI; ROLNIK, 2011, p. 260 e 261, grifo do autor).
Em vista disto, o desejo é caro a esta pesquisa pela sua natureza social e fecunda.
Essa vontade gerada pelo desejo, coloca o sujeito desejante em um movimento incessante, o que gera a reflexão da mente e a ação do corpo. “O desejo é sempre o modo de produção de algo, o desejo é sempre o modo de construção de algo”
(GUATTARI; ROLNIK, 2011, p. 261).
A mente humana é potente, capaz de refletir sobre objetos e situações e de mover o próprio corpo mediante a força da razão. À medida que gera movimento, são afetados outros corpos e pensamentos, gerando ações que provocam mudanças e sentimentos bons ou ruins. Os afetos consistem em “nossa maneira natural e originária de viver”
(CHAUI, 2017, p. 59), ou seja, nossa capacidade de afetar. Como apontado por Rolnik (2016, p. 36), “o desejo, nessa concepção, consiste no movimento dos afetos [...]”, de tal forma, que o desejo é a força que agencia corpos e mobiliza afetos, conformando uma realidade sensível, energética e semiótica.
A própria palavra “afetar” designa o efeito da ação de um corpo sobre outro, em seu encontro. Os afetos, portanto, não só surgiram entre os corpos, - vibráteis, é claro – como, exatamente por isso, eram fluxos que arrastaram cada um desses corpos para outros lugares, inéditos:
um devir [...]. (ROLNIK, 2016, p. 57).
Os afetos são paixões e ações energéticas que ocorrem no corpo e na mente. O ser humano é afetivo por natureza, sendo assim, seu corpo e sua mente são potências de ação que definem sua existência. O ato de afetar impõe estar em contato e atingir algo. De tal maneira, que é produzido um movimento invisível que toca por meio do desejo. “No encontro, os corpos, em seu poder de afetar e serem afetados, se atraem ou se repelem” (ROLNIK, 2016, p. 31). A autora aponta que os corpos estão tomados por afetos e estão o tempo todo estabelecendo relações entre si.3 É preciso exteriorizar os afetos, para que assim possa haver movimento.
3 Cf. ROLNIK, Suely. O corpo vibrátil de Lygia Clark. Folha de S. Paulo. São Pauo, 30 abr. 2000. + corpo Arte.
Marilena Chaui4 (2017), baseada no pensamento de Espinosa, aponta que a autopreservação é uma potência interna existente em todos nós. O impulso da autopreservação é chamado por Espinosa de conatus5. No corpo, o conatus opera por meio do apetite e na mente através do desejo, sendo assim, a essência do ser humano é o desejo.
Espinosa compara afetos com afecções, pois afecções podem “aumentar ou diminuir, favorecer ou prejudicar a potência do corpo” (CHAUI, 2017, p. 55). A mente experimenta psiquicamente os afetos que influem no corpo e cria-se uma relação afetiva capaz de aumentar ou diminuir sua potência. Os afetos que agem no corpo agem simultaneamente na mente. Há uma relação direta de aumento e diminuição da potência do corpo e da mente por meio do afeto. A ideia de que a potência de ação do corpo aumenta enquanto a potência da mente diminui, é um pensamento moralista e religioso que considera a expansão do afeto do corpo como pecado ou vício. Este pensamento considera que a potência do corpo deve diminuir para que a potência da mente cresça. Trata-se de uma negação do corpo e de seus afetos. O pensamento espinosiano declara justamente o oposto, ou seja, ambas as potências do corpo e da mente são substancialmente ligadas e podem aumentar ou diminuir ao mesmo tempo.
A diminuição da potência do corpo está ligada a ideia do desafeto, uma força reativa que cria um contramovimento e paralisa o corpo e a mente. É um torpor que desorienta o sujeito, impossibilita a ação e extingue seu brilho. O desafeto ocorre na ausência do desejo (ROLNIK, 2016, p. 42).
O desejo é um “sentimento que nos determina a existir e agir de uma maneira determinada, podendo ser alegre ou triste” (CHAUI, 2017, p. 57). Alegria, tristeza e desejo podem combinar-se de diversas maneiras e em variados graus originando inúmeros afetos diferentes, a partir da paixão e da ação.
O corpo é um condutor de intensidades. Por meio dele, os sujeitos habitam os espaços, onde seus desejos agenciam afetos, ao mesmo tempo que desfrutam da
4 Marilena Chaui é filósofa, especialista em história da filosofia moderna, filosofia política e na obra de Espinosa. É professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde leciona desde 1967.
5 Do latim, conatus significa esforço. O filósofo Espinosa utiliza o conceito conatus para se referir ao impulso de autopreservação, ou seja, uma vontade preservar o seu ser e de viver.
capacidade de afetar e de ser afetado. O afeto ocorre também em relação ao meio em que se situa (ROLNIK, 2016, p. 41).
Em A cidade sou eu, Rosane Araujo (2011, p. 188) afirma que "Não há como separar pessoa de mundo". Isso significa que há uma permeabilidade que confunde as delimitações entre corpo e meio, ou seja, entre o sujeito e o espaço habitado. O corpo é poroso, portanto cada sujeito corresponde à relação daquilo que o rodeia e o toca, que são elementos que mimetizam forças ativas que afetam.
Os limites entre corpo e corpo também têm a permeabilidade comprometida, pois os eus da cidade estão constantemente se relacionando. Os corpos se conectam e se afetam, de tal forma que um se torna a referência do outro na construção de suas subjetividades e identificações.
Devido a esta porosidade, cada sujeito é uma continuação daquilo que o envolve, ou seja, é um prolongamento do ambiente em que está inserido, bem como da cidade. O entorno penetra em corpos e mentes que se deixam afetar e afetam e, assim, conformam o que a autora classifica como “pessoa-cidade”. Pessoa e cidade são conceitos que não podemos tratar de forma isolada, pois um não existe sem o outro.
A cidade, ao mesmo tempo que é um modo urbano de viver e ocupar o mundo, é um produto da existência humana.
Cada pessoa-cidade é resultante da enorme quantidade de variáveis que mudam de acordo com a configuração das formações de cada um em cada situação. A cidade que cada pessoa é, resulta de um conjunto enorme de formações. Por mais que algumas pessoas possam compartilhar algumas formações em comum, a resultante de todas as formações que constituem uma pessoa nunca será igual à de outra.
(ARAUJO, 2011, p. 210).
Sendo assim, pessoa e cidade se confundem. Cada pessoa é atravessada pela cidade, ao passo que as pessoas também afetam a cidade com suas ações e narrativas, a fim de construir a realidade urbana.
A produção de subjetividade de cada um produz desejos que mobilizam os mais diversos afetos, que fazem com que os eus da cidade permitam a contaminação de corpos, objetos, informações e emoções. Assim, é criada uma rede energética e extremamente plural de indivíduos que compõem o mundo em que vivemos.
1.1.2. Desejo e produção de movimento
No livro O desejo, organizado por Adauto Novaes, Chaui (1990) colabora com o texto Laços do desejo, onde comenta sobre a origem da palavra-tema do livro. Desejo deriva de desidero, que vem de sidus, no plural sidera como é mais conhecido, que significa conjunto de estrelas, ou seja, constelações. Sidera é usado para designar o papel dos astros na vida das pessoas, ou seja, no campo místico da teologia ou da astrologia, indica a influência dos astros no destino e na vida das pessoas. Dessa forma a palavra considerare significa: examinar e olhar com cuidado aos astros. E, em oposição a palavra desiderare expressa: deixar de olhar aos astros, ou seja, não acreditar no destino, e por consequência, desejar.
Pelo corpo astral, nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas e considerare é consultar o alto para nele encontrar sentido e guia seguro de nossas vidas. Desiderare, ao contrário, é estar despojado dessa referência, abandonar o alto ou ser por ele abandonado.
Cessando de olhar para os astros, desiderium é a decisão de tomar nosso destino em nossas próprias mãos, e o desejo chama-se, então, vontade consciente nascida da deliberação, aquilo que os gregos chamam bóulesis. Deixando de ver os astros, porém desiderium significa uma perda, privação do saber sobre o destino, queda na roda da fortuna incerta. O desejo chama-se, então, carência, vazio que tende para fora de si em busca de preenchimento, aquilo que os gregos chamavam hormê. Essa ambiguidade do desejo, que pode ser decisão ou carência, transparece quando consultamos os dicionários vernáculos, onde se sucedem os sentidos de desejar: querer, ter vontade, ambicionar, apetecer, ansiar, anelar, aspirar, cobiçar, atração sexual. A oscilação dos significados aparece na diferença sutil de duas palavras, em português: desejante e desejoso/desejosa. (CHAUI, 1990, p. 22 e 23, grifo da autora).
Desejar, que origina de desiderare, significa, portanto, a não crença nos astros, a incredulidade frente ao destino, ou seja, trata-se de um ativismo em relação à própria vida. A consciência da ausência de algo desperta a vontade de completude que faz desejar.
Ao assumir a existência do vazio e considerando que o desejo está diretamente ligado a esta ausência, desejar pode significar a busca por aquilo que supera a carência. É escrever o próprio destino enquanto mente e corpo são colocados em atividade, gerando movimento. Assim, o indivíduo que deseja pode transformar sua realidade, tendo em vista um objetivo, sua felicidade.
O desejo é uma movimentação que gera transformação em um território ou em uma arquitetura construída, relacionando corpo e espaço. O desejo nasce do íntimo do indivíduo que deseja e se revela como uma vontade latente por aquilo que não se tem posse, ou seja, nasce da ausência, como aponta Chaui (1990). A inquietude do desejo é uma insatisfação de enorme potencial transformador, de maneira que quando se deseja, cria-se uma ansiedade que faz com que algo seja necessariamente realizado.
Assim, é gerado um deslocamento no imaginário que posteriormente se materializa no mundo real.
O plenamente acabado, subsistente em si e por si, eternamente no esplendor de sua perfeição, é o que Aristóteles chama de fim – tò téleion. Os seres tendem para ele por causa de sua perfeição e acabamento, isto é, de sua imobilidade. A mobilidade universal desejante relaciona-se com o télos através do próprio movimento e o desejo é imitação da imobilidade – mímesis. Desejo de imobilidade, o movimento é carência, privação da perfeição. O desejo de não mais mover-se move os seres. Desejável – perfeito e distante –, o fim move o desejoso – imperfeito e carente. O movimento é o meio que o imperfeito cria para achegar-se ao imutável. O desejo move o mundo, ânsia da matéria indeterminada em busca de sua forma acabada e para sempre inalcançável. (CHAUI, 1990, p. 29).
A autora evidencia que os seres humanos desejam uma perfeição que seria algo que não se tem posse e que é imóvel. Sendo assim, o imperfeito é o caminho por meio da mobilidade. Entretanto, a perfeição se coloca de maneira intangível, pois ela não existe de fato. Logo, o interesse desta pesquisa está no ato de desejar, não na consumação do desejo propriamente dita. Visto que, desejar é aquilo que move. É um ato transformador que pode reinventar o espaço urbano e seus modos de viver.
O desejo é uma verdadeira potência, pois produz o mundo de fato. O desejo é a força capaz de gerar movimento a todo instante e de colocar as pessoas em ação. Rolnik (2016, p. 43) afirma que “[...] o pleno funcionamento do desejo é uma verdadeira fabricação incansável de mundo [...]”.
A força magnética do desejo é uma inquieta insatisfação que possui potencial transformador. Quando se deseja, se transporta a outra realidade, e a partir de seus anseios e sensações, produz-se uma outra visão de mundo. O desejo provoca mente e corpo, os faz vibrar, e, assim, agencia afetos que desencadeiam fluxos e movimentos que tornam possível gerar transformações no mundo.
O desejo é o próprio movimento e traça um percurso transformador que põe em ação as pessoas na cidade. André Lepecki6 (2012) denomina a ordenação de corpos na cidade de coreopolítica. O termo indica a dança de corpos no espaço urbano, que, sob esta perspectiva, apresenta um objetivo de interferir nas dinâmicas convencionais e propõe outras práticas que assumem a cidade como um espaço de pluralidade.
Existem movimentos programados por uma lógica hegemônica que são atribuídos aos sujeitos que ocupam a cidade, mas não são alvos deste estudo. Os movimentos aqui apontados consistem em ações inovadoras e práticas políticas contestadoras. Tais práticas podem referir-se inclusive ao ato de ficar imóvel na cidade, desde que esta postura sustente um discurso ou uma ideia. Ou seja, desde que haja uma presença significante, ficar parado na cidade pode se configurar como um ato revolucionário capaz de mobilizar toda uma ordem social (LEPECKI, 2012, p. 57).
Para integrar a fundamentação interdisciplinar desta pesquisa, a psicanálise de Freud auxilia a reflexão a partir da teoria das pulsões. Ele classifica o desejo como a própria libido, que, de natureza humana, é uma pulsão que movimenta o indivíduo e ocorre após a reflexão da razão. Enquanto, de natureza animal, o impulso parte de um reflexo do instinto, ou seja, não há reflexão ou qualquer caráter racional. Assim, o desejo existe primeiro no pensar, portanto é uma atividade do raciocínio humano (KEHL, 1990).
A psicanalista Maria Rita Kehl (1990) chama a inquietação provocada pelo desejo de fome de mundo. Isto é uma libido que quer provar sempre um pouco mais do mundo, ou seja, uma pulsão.
A sensação de fome gera felicidade, que é diferente da felicidade de saciedade. A saciedade está próxima ao tédio, pois se trata da realização daquilo que foi anteriormente desejado. Portanto, a saciedade é a morte do desejo, é a conclusão do desejo, assim, o fim do prazer causado pelo desejo. A alegria da fome compreende a
6 André Lepecki é um escritor, curador e professor brasileiro na Tisch School of the Arts na New York University. Seus estudos dedicam-se em performance, coreografia e dramaturgia.
alegria de desejar. É uma agitação do porvir, a excitação por algo novo que ainda não se concluiu. Uma nunca satisfação (KEHL, 1990, p. 366).
Assim, o desejo demanda certa autoestima do sujeito desejante, que precisa acreditar na possibilidade da sua realização para movimentar-se em busca do mesmo.
Portanto, “a alegria de desejar depende de uma curta dose de confiança no real. ” (KEHL, 1990, p. 366 e 367).
1.1.3. Desejo de ser: multidão e massificação
Sabe-se que o desejo nasce da ausência de algo. Falta algo ao sujeito que passa a desejar um objeto para suprir um vazio. O período de gestação no útero da mãe, talvez seja o único momento da existência humana em que o indivíduo experimenta uma sensação de completude, não há sensação de fome, nem frio. Nesta fase, o bebê não é um ser desejante. Ao contrário, é o objeto de desejo de quem o espera.
Ao passo que se desenvolve, o bebê passa a se desvincular de sua mãe, perde sua completude e passa a se individualizar, no sentido de tornar-se um indivíduo. Ele está se tornando um sujeito desejante enquanto deixa de ser o objeto de desejo. Kehl (2017, p. 89) diz que o bebê deseja aquilo que deixou de ser.
O desejo é aquilo pelo qual as pessoas agem, é o motor da própria vida. Através do desejo, é criado tudo aquilo que nos ocupa e nos envolve, inclusive a própria cidade.
Enquanto sujeitos desejantes, temos nossos objetos de desejo que nos motivam e nos guiam.
Kehl (2017, p. 83) afirma em Depressão e desejo saciado que nada é mais triste nesta vida do que não desejar. Quando não há desejo, não há movimento e a vida é tomada pelo vazio e pelo tédio. A autora chama a atenção para a questão da depressão que tem crescido no mundo contemporâneo. É frustrante a não realização do desejo, porém a sua realização também pode causar frustração e resultar no vazio. A ausência de desejo causa tédio e imobiliza o sujeito, o que tende a fomentar uma sociedade desmotivada e uniformizada.
O mercado busca atender este desalento, inserindo o consumo para suprir o desejo.
O desejo de ser passa a ser desejo de ter. Assim, os objetos de consumo passam a seduzir os indivíduos que outrora foram sujeitos desejantes. Há a tentativa de saciar
o desejo oferecendo bens de consumo e mercadorias que muitas vezes não possuem qualquer relação com as necessidades. Kehl (2017, p. 91) conclui e aponta que "a depressão pode ser efeito do desejo saciado, mas o desejo nunca fica saciado o tempo todo. É possível que o mercado não dê conta da imensidão dessa demanda.".
Existe ainda uma porção da população que está de alguma forma desvinculada do desejo ou o reduz à individualidade. A ausência do desejo e a inatividade favorecem uma apatia que pode associar-se a um processo de massificação, que é vantajoso para a atuação do mercado.
Baudrillard (2004) aponta que as massas absorvem os conteúdos, tanto do meio social quanto do político, e os neutraliza. As massas não são capazes de reter o sentido em geral, pois nelas nada se fixa.
[...] elas absorvem toda a eletricidade do social e do político e as neutralizam, sem retorno. Não são boas condutoras do político, do social, nem boas condutoras do sentido em geral. Tudo as atravessa, tudo as magnetiza, mas nelas se dilui sem deixar traços. E na realidade o apelo às massas sempre ficou sem resposta. Elas não irradiam, ao contrário, absorvem toda a irradiação das constelações periféricas do Estado, da História, da Cultura, do Sentido. Elas são a inércia, a força da inércia, a força do neutro. (BAUDRILLARD, 2004, p. 9).
Como apontado pelo autor, as massas estão imobilizadas. Elas são uniformes, desprovidas de senso crítico ou capacidade de reflexão. Possuem alto grau de passividade, portanto são facilmente persuadidas e manipuladas, tanto para o consumo quanto para a política. As massas recebem a informação e a cultura, mas não as cultivam. Elas se interessam pelo espetáculo e tendem a se fixar nas imagens, enquanto os conteúdos e os sentidos passam despercebidos.
A massa só é massa porque sua energia social já se esfriou. É um estoque frio, capaz de absorver e de neutralizar todas as energias quentes. Ela se assemelha a esses sistemas semimortos em que se injeta mais energia do que se retira, a essas minas esgotadas que se mantêm em estado de exploração artificial a preço de ouro.
(BAUDRILLARD, 2004, p. 26).
Dentro das massas não há variedade de cores, pensamentos ou diferenças, mas uma homogeneidade que conforma um agrupamento indistinto. O conformismo das massas as torna mais suscetíveis à sedução do mercado, que encontra em sua inércia
uma oportunidade de lucro. Neste cenário, a condição das massas é conveniente ao consumo e ao individualismo, que tende a limitar as possibilidades de sociabilidade coletiva, de tal forma que a ação política é prejudicada. O consumo individualiza os sujeitos, não no sentido de torná-los singulares, mas de esgotar a potência do desejo coletivo. Porém, nem todas as aglomerações se conformam de maneira homogênea e passiva.
O desejo é incansável e pode mover sujeitos cujas subjetividades são intrínsecas a ele, o que conforma multidões poderosas. Michael Hardt e Antonio Negri (2005) apresentam o conceito de multidão, que se refere a um agrupamento diverso e potente que tem uma vocação revolucionária.
A multidão é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única – diferentes culturas, raças, etnias, gêneros e orientações sexuais; diferentes formas de trabalho; diferentes maneiras de viver; diferentes visões de mundo; diferentes desejos. A multidão é uma multiplicidade de todas essas diferenças singulares. (HARDT; NEGRI, 2005, p. 12).
Diferentemente das massas, o que define a multidão é a diversidade. As multidões sentem uma necessidade desenfreada de agir devido a presença do desejo na sua composição. O desejo energético, encontrado na multidão, atribui a ela o dever infindável de produzir, de manifestar-se e de viver.
O projeto de multidão não só expressa o desejo de um mundo de igualdade e liberdade, não apenas exige uma sociedade global democrática que seja aberta e inclusiva, como proporciona os meios para alcançá-la. (HARDT; NEGRI, 2005, p. 9).
O mercado enfrenta maiores dificuldades ao oferecer seus objetos de consumo à multidão. Isso ocorre, pois, o desejo da multidão não se trata do desejo material de possuir coisas, mas do desejo de ser. As multidões, apesar compostas por sujeitos distintos, atuam de forma a construir um bem comum e democrático. “Um bem comum, que todos os cidadãos devem administrar e democraticamente tomar decisões a seu respeito, não é transcendental, como a vontade geral, mas imanente à comunidade. ” (HARDT; NEGRI, 2014, p. 100). As multidões se mobilizam em prol de um ideal e de uma visão de mundo, que pode ser plural, mas que apresenta o desejo de viver, de criar e de experienciar que busca tornar o mundo um lugar comum, melhor e igualitário.
Hardt e Negri (2014, p. 100) ainda apontam que “tornar-se comum é uma atividade contínua orientada pela razão, vontade e desejo da multidão, que deve passar por uma educação de seu conhecimento e afetos políticos”. Assim, é possível estabelecer o comum como uma busca significativa que articula todos em um único corpo.
O desejo da multidão não segrega, mas agrega sujeitos com todas suas singularidades que, a partir da reflexão, cooperam na mobilização em busca de um mundo comum. Assim, o desejo de ser é uma potência coletiva capaz de transformar as narrativas das cidades em que vivemos.