1. Desejo: teoria e ação
1.1. A potência do desejo
1.1.1. Desejo e corpo: a capacidade de afetar e ser afetado
No livro Micropolítica: cartografias do desejo, Félix Guattari e Suely Rolnik (2011, p. 36) apontam que “todos os fenômenos importantes da atualidade envolvem dimensões do desejo e da subjetividade”. Para melhor compreender sobre subjetividade humana e desejo, este trabalho faz aproximações com o campo da filosofia e da psicanálise. A subjetividade é a composição particular e o agrupamento único de sentimentos de cada indivíduo. É aquilo que é constituído através das experiências individuais no âmbito social e cultural. O desejo é um forte sentimento presente na subjetividade de cada um. É um anseio poderoso e um tanto caótico que gera inquietude no sujeito desejante, a quem é atribuída a energia incontrolável do desejo.
O desejo aparece como algo flou2, meio nebuloso, meio desorganizado, espécie de força bruta que precisaria estar passando pelas malhas do simbólico e da castração segundo a psicanálise, ou pelas malhas de algum tipo de organização de centralismo democrático segundo outras perspectivas – fala-se, por exemplo, em “canalizar” as energias dos diferentes movimentos sociais. Poder-se-ia enumerar uma infinidade de tipos de modelização que se propõem cada um em seu campo, a disciplinar o desejo. (GUATTARI; ROLNIK, 2011, p. 260).
Neste trabalho o desejo não é visto como algo a ser disciplinado, mas como uma potência a ser compreendida. A imprecisão do desejo causa certo delírio, uma exaltação com potencial criativo. Então, o desejo apresenta uma capacidade pujante de criação e construção. É aquilo que inspira, dá fôlego e possibilita novas maneiras de se posicionar e de agir em sociedade.
Quando tento colocar o problema do desejo enquanto formação coletiva, evidencia-se logo que o desejo não é forçosamente um negócio secreto ou vergonhoso como toda a psicologia e moral dominantes pretendem. O desejo permeia o campo social, tanto em práticas imediatas, quanto em projetos muito ambiciosos. Por não querer me atrapalhar com definições complicadas, eu proporia denominar desejo a todas as formas de vontade de viver, de vontade de criar, de vontade de amar, de vontade de inventar uma outra
sociedade, outra percepção do mundo, outros sistemas de valores. (GUATTARI; ROLNIK, 2011, p. 260 e 261, grifo do autor).
Em vista disto, o desejo é caro a esta pesquisa pela sua natureza social e fecunda. Essa vontade gerada pelo desejo, coloca o sujeito desejante em um movimento incessante, o que gera a reflexão da mente e a ação do corpo. “O desejo é sempre o modo de produção de algo, o desejo é sempre o modo de construção de algo” (GUATTARI; ROLNIK, 2011, p. 261).
A mente humana é potente, capaz de refletir sobre objetos e situações e de mover o próprio corpo mediante a força da razão. À medida que gera movimento, são afetados outros corpos e pensamentos, gerando ações que provocam mudanças e sentimentos bons ou ruins. Os afetos consistem em “nossa maneira natural e originária de viver” (CHAUI, 2017, p. 59), ou seja, nossa capacidade de afetar. Como apontado por Rolnik (2016, p. 36), “o desejo, nessa concepção, consiste no movimento dos afetos [...]”, de tal forma, que o desejo é a força que agencia corpos e mobiliza afetos, conformando uma realidade sensível, energética e semiótica.
A própria palavra “afetar” designa o efeito da ação de um corpo sobre outro, em seu encontro. Os afetos, portanto, não só surgiram entre os corpos, - vibráteis, é claro – como, exatamente por isso, eram fluxos que arrastaram cada um desses corpos para outros lugares, inéditos: um devir [...]. (ROLNIK, 2016, p. 57).
Os afetos são paixões e ações energéticas que ocorrem no corpo e na mente. O ser humano é afetivo por natureza, sendo assim, seu corpo e sua mente são potências de ação que definem sua existência. O ato de afetar impõe estar em contato e atingir algo. De tal maneira, que é produzido um movimento invisível que toca por meio do desejo. “No encontro, os corpos, em seu poder de afetar e serem afetados, se atraem ou se repelem” (ROLNIK, 2016, p. 31). A autora aponta que os corpos estão tomados por afetos e estão o tempo todo estabelecendo relações entre si.3 É preciso exteriorizar os afetos, para que assim possa haver movimento.
3 Cf. ROLNIK, Suely. O corpo vibrátil de Lygia Clark. Folha de S. Paulo. São Pauo, 30 abr. 2000. + corpo Arte.
Marilena Chaui4 (2017), baseada no pensamento de Espinosa, aponta que a autopreservação é uma potência interna existente em todos nós. O impulso da autopreservação é chamado por Espinosa de conatus5. No corpo, o conatus opera por meio do apetite e na mente através do desejo, sendo assim, a essência do ser humano é o desejo.
Espinosa compara afetos com afecções, pois afecções podem “aumentar ou diminuir, favorecer ou prejudicar a potência do corpo” (CHAUI, 2017, p. 55). A mente experimenta psiquicamente os afetos que influem no corpo e cria-se uma relação afetiva capaz de aumentar ou diminuir sua potência. Os afetos que agem no corpo agem simultaneamente na mente. Há uma relação direta de aumento e diminuição da potência do corpo e da mente por meio do afeto. A ideia de que a potência de ação do corpo aumenta enquanto a potência da mente diminui, é um pensamento moralista e religioso que considera a expansão do afeto do corpo como pecado ou vício. Este pensamento considera que a potência do corpo deve diminuir para que a potência da mente cresça. Trata-se de uma negação do corpo e de seus afetos. O pensamento espinosiano declara justamente o oposto, ou seja, ambas as potências do corpo e da mente são substancialmente ligadas e podem aumentar ou diminuir ao mesmo tempo.
A diminuição da potência do corpo está ligada a ideia do desafeto, uma força reativa que cria um contramovimento e paralisa o corpo e a mente. É um torpor que desorienta o sujeito, impossibilita a ação e extingue seu brilho. O desafeto ocorre na ausência do desejo (ROLNIK, 2016, p. 42).
O desejo é um “sentimento que nos determina a existir e agir de uma maneira determinada, podendo ser alegre ou triste” (CHAUI, 2017, p. 57). Alegria, tristeza e desejo podem combinar-se de diversas maneiras e em variados graus originando inúmeros afetos diferentes, a partir da paixão e da ação.
O corpo é um condutor de intensidades. Por meio dele, os sujeitos habitam os espaços, onde seus desejos agenciam afetos, ao mesmo tempo que desfrutam da
4 Marilena Chaui é filósofa, especialista em história da filosofia moderna, filosofia política e na obra de Espinosa. É professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde leciona desde 1967.
5 Do latim, conatus significa esforço. O filósofo Espinosa utiliza o conceito conatus para se referir ao impulso de autopreservação, ou seja, uma vontade preservar o seu ser e de viver.
capacidade de afetar e de ser afetado. O afeto ocorre também em relação ao meio em que se situa (ROLNIK, 2016, p. 41).
Em A cidade sou eu, Rosane Araujo (2011, p. 188) afirma que "Não há como separar pessoa de mundo". Isso significa que há uma permeabilidade que confunde as delimitações entre corpo e meio, ou seja, entre o sujeito e o espaço habitado. O corpo é poroso, portanto cada sujeito corresponde à relação daquilo que o rodeia e o toca, que são elementos que mimetizam forças ativas que afetam.
Os limites entre corpo e corpo também têm a permeabilidade comprometida, pois os
eus da cidade estão constantemente se relacionando. Os corpos se conectam e se afetam, de tal forma que um se torna a referência do outro na construção de suas subjetividades e identificações.
Devido a esta porosidade, cada sujeito é uma continuação daquilo que o envolve, ou seja, é um prolongamento do ambiente em que está inserido, bem como da cidade. O entorno penetra em corpos e mentes que se deixam afetar e afetam e, assim, conformam o que a autora classifica como “pessoa-cidade”. Pessoa e cidade são conceitos que não podemos tratar de forma isolada, pois um não existe sem o outro. A cidade, ao mesmo tempo que é um modo urbano de viver e ocupar o mundo, é um produto da existência humana.
Cada pessoa-cidade é resultante da enorme quantidade de variáveis que mudam de acordo com a configuração das formações de cada um em cada situação. A cidade que cada pessoa é, resulta de um conjunto enorme de formações. Por mais que algumas pessoas possam compartilhar algumas formações em comum, a resultante de todas as formações que constituem uma pessoa nunca será igual à de outra. (ARAUJO, 2011, p. 210).
Sendo assim, pessoa e cidade se confundem. Cada pessoa é atravessada pela cidade, ao passo que as pessoas também afetam a cidade com suas ações e narrativas, a fim de construir a realidade urbana.
A produção de subjetividade de cada um produz desejos que mobilizam os mais diversos afetos, que fazem com que os eus da cidade permitam a contaminação de corpos, objetos, informações e emoções. Assim, é criada uma rede energética e extremamente plural de indivíduos que compõem o mundo em que vivemos.