Indaial – 2021 Prof.a Adriana Lobo Müller
Prof.a Camile Haslinger Prof.a Vanderléia Batista Biss
1a Edição
C iClos de V ida
e a speCtos
B iopsiCossoCiais
Elaboração:
Prof.a Adriana Lobo Müller Prof.a Camile Haslinger Prof.a Vanderléia Batista Biss
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial.
M958c
Müller, Adriana Lobo
Ciclos de vida e aspectos biopsicossociais. / Adriana Lobo Müller;
Camile Haslinger; Vanderléia Batista Biss. – Indaial: UNIASSELVI, 2021.
263 p.; il.
ISBN 978-65-5663-519-4 ISBN Digital 978-65-5663-520-0
1. Processos biopsicossociais. - Brasil. I. Müller, Adriana Lobo.
II. Haslinger, Camile. III. Biss, Vanderléia Batista. IV. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.
CDD 612
A presentAção
Olá, acadêmico, seja bem-vindo à disciplina de Ciclos de Vida e Aspectos Biopsicossociais! Este livro didático tem como propósito auxiliá-lo em seus estudos. Para realizar o estudo proposto, você deve organizar o seu tempo para ler atentamente os textos, responder às autoatividades que são propostas e buscar informações complementares.
A disciplina de Ciclos de Vida e Aspectos Biopsicossociais busca compreender os principais processos do desenvolvimento humano do período pré-natal até a morte, identificando como e por que as capacidades dos indivíduos vão se diferenciando e entendendo a sequência de mudanças biológicas, cognitivas, psicossociais e seus desdobramentos ao longo do ciclo vital. Assim, busca subsídios para a compreensão do ser humano, o que poderá contribuir para a construção de estratégias que possibilitem intervenções que beneficiem o desenvolvimento dos sujeitos que serão atendidos por você.
Cabe mencionar que, ao estudar o desenvolvimento humano, você se depara com explicações para fatos vivenciados em sua própria história, o que pode dificultar o distanciamento necessário para a compreensão da teoria, produzindo equívocos. Para tanto, é importante que você realize uma leitura reflexiva e crítica do conteúdo, mantendo uma postura investigativa, atenta e dialógica.
Assim, para auxiliá-lo nesse processo de construção de conhecimento, elaboramos este material com textos e autoatividades. Na Unidade 1, nós abordaremos os conceitos básicos do desenvolvimento humano e seus principais aspectos históricos e socioculturais; bem como você conhecerá os principais modelos teóricos do desenvolvimento humano. Da mesma forma, serão discutidos os processos biopsicossociais característicos do período pré-natal, neonatal e da infância; refletindo a importância e a implicação da atuação do profissional de saúde nas diferentes fases do desenvolvimento infantil.
Em seguida, na Unidade 2, estudaremos os processos biopsicossociais da adolescência, adultez e do envelhecimento. Por fim, na Unidade 3, discutiremos as problemáticas contemporâneas em torno dos diferentes períodos do ciclo de vida, incluindo a infância, adolescência, adultez e envelhecimento, e aprenderemos como essas problemáticas refletem no fazer profissional dos profissionais de saúde.
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão.
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE.
Bons estudos!
NOTA
e explicar os processos de mudanças sociais, cognitivas, emocionais, físicas, perceptuais, de linguagem e moral ocorridos na infância, adolescência, vida adulta e velhice, bem como de reconhecer as possibilidades de aplicação de todo esse conhecimento em sua prática profissional.
Desejamos uma ótima leitura!
Prof.a Adriana Lobo Müller Prof.a Camile Haslinger Prof.a Vanderléia Batista Biss
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento.
Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
s umário
UNIDADE 1 — O ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO E A INFÂNCIA ... 1
TÓPICO 1 — QUESTÕES BÁSICAS NO ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO... 3
1 INTRODUÇÃO ... 3
2 DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS E ASPECTOS HISTÓRICOS ...4
2.1 DOMÍNIOS DO DESENVOLVIMENTO ...5
2.2 PERÍODOS DO CICLO DE VIDA ...5
2.3 INFLUÊNCIAS NO DESENVOLVIMENTO ... 7
2.4 CONTEXTOS DO DESENVOLVIMENTO ...8
2.5 ABORDAGEM DO DESENVOLVIMENTO DO CICLO DE VIDA ...13
3 QUESTÕES TEÓRICAS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO ... 15
3.1 EPISTEMOLOGIA GENÉTICA DE JEAN PIAGET ... 17
3.2 TEORIA SÓCIO-HISTÓRICA DE VYGOTSKY ...19
RESUMO DO TÓPICO 1... 22
AUTOATIVIDADE ... 23
TÓPICO 2 — ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DO PERÍODO PRÉ-NATAL E NEONATAL ... 25
1 INTRODUÇÃO ... 25
2 DESENVOLVIMENTO PRÉ-NATAL... 25
2.1 ETAPAS DO DESENVOLVIMENTO PRÉ-NATAL ...26
2.2 INFLUÊNCIAS AMBIENTAIS NO PERÍODO PRÉ-NATAL ...28
2.2.1 Fatores maternos ...28
2.2.2 Fatores paternos ...33
2.2.3 Rede de apoio ...33
2.3 ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA GRAVIDEZ ... 34
2.4 GESTAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO VÍNCULO AFETIVO MÃE-BEBÊ-PAI ...35
2.5 ACOMPANHAMENTO PRÉ-NATAL ...36
3 NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO NEONATAL ... 37
3.1 TRANSIÇÃO PARA A PARENTALIDADE ...38
3.2 PARTO ... 40
3.3 PERÍODO NEONATAL ... 42
3.4 AMAMENTAÇÃO ... 44
3.5 DEPRESSÃO PÓS-PARTO ... 44
RESUMO DO TÓPICO 2... 47
AUTOATIVIDADE ... 48
TÓPICO 3 — ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DA INFÂNCIA ... 51
1 INTRODUÇÃO ... 51
2 PRIMEIRA INFÂNCIA ... 51
2.1 DESENVOLVIMENTO FÍSICO NA PRIMEIRA INFÂNCIA ...52
2.2 DESENVOLVIMENTO COGNITIVO NA PRIMEIRA INFÂNCIA ...56
2.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL NA PRIMEIRA INFÂNCIA ...60
3.1 DESENVOLVIMENTO FÍSICO NA SEGUNDA INFÂNCIA ...66
3.2 DESENVOLVIMENTO COGNITIVO NA SEGUNDA INFÂNCIA ...68
3.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL NA SEGUNDA INFÂNCIA ... 71
4 TERCEIRA INFÂNCIA ... 73
4.1 DESENVOLVIMENTO FÍSICO NA TERCEIRA INFÂNCIA ... 74
4.2 DESENVOLVIMENTO COGNITIVO NA TERCEIRA INFÂNCIA ... 75
4.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL NA TERCEIRA INFÂNCIA ... 78
LEITURA COMPLEMENTAR ... 81
RESUMO DO TÓPICO 3... 84
AUTOATIVIDADE ... 86
REFERÊNCIAS ... 89
UNIDADE 2 — CUIDADO AOS ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DA ADOLESCÊNCIA, ADULTEZ E ENVELHECIMENTO ... 97
TÓPICO 1 — ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DA ADOLESCÊNCIA ... 99
1 INTRODUÇÃO ... 99
2 TRANSIÇÃO DA INFÂNCIA PARA A ADOLESCÊNCIA ... 100
3 IMPLICAÇÕES EMOCIONAIS DESPERTADAS NA ADOLESCÊNCIA ... 105
4 RELAÇÕES FAMILIARES E ADOLESCÊNCIA ... 107
5 ESCOLHA PROFISSIONAL... 109
RESUMO DO TÓPICO 1... 112
AUTOATIVIDADE ... 115
TÓPICO 2 — ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DA ADULTEZ ... 117
1 INTRODUÇÃO ... 117
2 IMPLICAÇÕES EMOCIONAIS NA VIDA ADULTA ... 117
3 PARENTALIDADE, CONJUGALIDADE E CONFIGURAÇÕES FAMILIARES ... 121
4 PERMANÊNCIA E/OU SAÍDA DO JOVEM ADULTO DA CASA PATERNA ... 125
RESUMO DO TÓPICO 2... 129
AUTOATIVIDADE ... 131
TÓPICO 3 — ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DO ENVELHECIMENTO ... 133
1 INTRODUÇÃO ... 133
2 STATUS DE IDOSO E AS IMPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS NO PROCESSO DO ENVELHECIMENTO ... 134
3 TRANSTORNOS MENTAIS, ORGÂNICOS E DEMÊNCIAS LIGADAS AO PROCESSO DO ENVELHECIMENTO ... 138
4 MORTE E O MORRER: ASPECTOS QUE ENVOLVEM A TERMINALIDADE ... 145
5 SUICÍDIO E O ENVELHECIMENTO ... 150
LEITURA COMPLEMENTAR ... 155
RESUMO DO TÓPICO 3... 162
AUTOATIVIDADE ... 165
REFERÊNCIAS ... 167
CONTEMPORANEIDADE ... 171
TÓPICO 1 — CUIDADO INTEGRAL EM SAÚDE AO CICLO VITAL DA INFÂNCIA ... 173
1 INTRODUÇÃO ... 173
2 BEBÊS EM RISCO PSÍQUICO PARA DESENVOLVIMENTO DE AUTISMO ... 173
2.1 O QUE É O AUTISMO ... 174
2.2 PROTOCOLO IRDI ... 177
2.3 M- CHAT- R ... 179
3 TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE (TDAH) NA INFÂNCIA ... 182
3.1 HISTÓRIA DA CONSTRUÇÃO DO DIAGNÓSTICO DO TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE ...182
3.2 CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DO TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE ...185
3.3 TRATAMENTO PARA O TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE ... 187
4 SAÚDE MENTAL E MEDICALIZAÇÃO DA VIDA ... 189
4.1 MEDICALIZAÇÃO DA INFÂNCIA ...192
RESUMO DO TÓPICO 1... 195
AUTOATIVIDADE ... 196
TÓPICO 2 — CUIDADO INTEGRAL EM SAÚDE AO CICLO VITAL DA ADOLESCÊNCIA ... 199
1 INTRODUÇÃO ... 199
2 AUTOMUTILAÇÃO ... 200
3 BULLYING E CYBERBULLYING NA ADOLESCÊNCIA ... 207
3.1 BULLYING NA ADOLESCÊNCIA ...208
3.2 CYBERBULLYING NA ADOLESCÊNCIA ... 214
RESUMO DO TÓPICO 2... 221
AUTOATIVIDADE ... 223
TÓPICO 3 — CUIDADO INTEGRAL EM SAÚDE AOS CICLOS VITAIS DA ADULTEZ E ENVELHEHCIMENTO ... 225
1 INTRODUÇÃO ... 225
2 USO PROBLEMÁTICO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS NA VIDA ADULTA ... 226
2.1 ATENÇÃO INTEGRAL A PESSOAS EM SOFRIMENTO PSÍQUICO ASSOCIADO AO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS (SPA) ...230
2.1.1 Redução de danos ...233
2.1.2 Interface entre determinantes sociais da saúde e uso problemático de álcool e outras drogas ... 234
3 SEXUALIDADE NA VELHICE ... 240
LEITURA COMPLEMENTAR ... 248
RESUMO DO TÓPICO 3... 253
AUTOATIVIDADE ... 255
REFERÊNCIAS ... 257
UNIDADE 1 — O ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO
HUMANO E A INFÂNCIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• discutir os conceitos básicos do desenvolvimento humano e seus principais aspectos históricos e socioculturais;
• conhecer os principais modelos teóricos do desenvolvimento humano;
• identificar os processos biopsicossociais característicos do período Pré- Natal e Neonatal;
• compreender os processos biopsicossociais característicos das fases de desenvolvimento de crianças;
• refletir sobre a importância e a implicação da atuação do profissional de saúde nas diferentes fases do desenvolvimento infantil.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – QUESTÕES BÁSICAS NO ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
TÓPICO 2 – ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DO PERÍODO PRÉ-NATAL E NEONATAL
TÓPICO 3 – ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DA INFÂNCIA
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
TÓPICO 1 —
UNIDADE 1
QUESTÕES BÁSICAS NO ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
1 INTRODUÇÃO
Somos hoje, exatamente, como éramos há um ano? E há cinco anos? E há dez anos? Sim, mudamos! E o que mudou? Por que mudamos? O que foi necessário para que as mudanças ocorressem? Essas e outras perguntas os estudos do desenvolvimento humano procuram responder, o que será abordado e discutido no Tópico 1.
Iniciaremos apresentando os conceitos básicos do desenvolvimento humano, seus domínios e os períodos do ciclo de vida. Da mesma forma, discutiremos as principais influências no desenvolvimento e os vários contextos em que ocorrem. Você verá que cada sociedade e cultura tem uma forma específica de lidar com os diferentes períodos do ciclo de vida. Como exemplo, você sabia que nem sempre as crianças foram cuidadas e consideradas como diferentes dos adultos? Sim, a infância foi inventada! Essas influências refletem quanto o desenvolvimento humano é complexo, influenciado por múltiplos fatores e inserido em um contexto, sendo necessário considerar o indivíduo em interação com o seu meio, abrangendo o desenvolvimento humano nos âmbitos individual e coletivo, e suas relações com a saúde, a cognição, os comportamentos e os vínculos sociais.
Por fim, abordaremos uma visão geral das principais perspectivas teóricas que formam a base do desenvolvimento humano. Você conhecerá os diferentes modelos de pensar e compreender o desenvolvimento, suas limitações e implicações para atuação do profissional. Bons estudos!
2 DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS E ASPECTOS HISTÓRICOS
Carlos e Júlia estavam grávidos de seu primeiro filho. Como muitos pais iniciantes, estavam ansiosos e com muitas dúvidas de como promover os cuidados de seu futuro filho. Se questionavam sobre os cuidados básicos de alimentação, higiene e saúde; e até do que fazer quando o bebê chorar e como saber que ele está se desenvolvendo bem. São perguntas como essas que impulsionaram os estudos sobre o desenvolvimento humano, os quais procuram entender as mudanças e processos no decorrer da vida, compreendendo a constituição do sujeito e fatores necessários para seu desenvolvimento.
As pesquisas sobre desenvolvimento humano objetivam: descrever características comuns aos seres humanos em determinada faixa etária, através de estudos com grandes grupos em que estabelecem médias e normas para tais características; explicar quais fatores influenciam determinados comportamentos, por exemplo: como a linguagem é adquirida e o que explica a sua aquisição tardia para algumas crianças; prever comportamentos futuros, com análises de probabilidades de fatores que influenciam no desenvolvimento humano e por fim, intervir no desenvolvimento com a oferta de terapêuticas adequadas a cada problemática (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
Os resultados das pesquisas sobre o desenvolvimento humano têm aplicações em diversos campos, como educação e saúde, e além de indicar características comuns de cada idade, também pode elucidar aquilo que é singular em cada um de nós (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001; PAPALIA;
FELDMAN, 2013). É importante salientar que o estudo sobre o desenvolvimento humano teve a biologia, genética, antropologia e sociologia como pioneiros, mas a interdisciplinaridade tem sido contemplada quase desde o início, incluindo outras áreas como psicologia, psiquiatria, ciência da família, educação, medicina e história (PAPALIA; FELDMAN, 2013, BARROS; COUTINHO, 2020). Dessa forma, a compreensão do desenvolvimento humano pode ajudar as pessoas a entender e lidar com as transições da vida: a mulher que volta ao trabalho depois de sair da maternidade, a criança em seu primeiro dia na escola, o adolescente que entra no mercado de trabalho, a pessoa que muda de carreira, a viúva ou o viúvo lidando com sua perda, alguém que enfrenta uma doença terminal.
Mas o que seria o desenvolvimento humano? O desenvolvimento humano é definido como processos de transformação e estabilidade ao longo da vida do indivíduo, que ocorrem de maneira dinâmica e progressiva e afetam nosso crescimento corporal, a maturação de nossos órgãos, os processos de aprendizagem, nosso psiquismo e o modo como nos relacionarmos socialmente (PAPALIA; FELDMAN, 2013). A seguir, estudaremos as principais influências do desenvolvimento, suas fases e dimensões e seus principais aspectos históricos e socioculturais.
2.1 DOMÍNIOS DO DESENVOLVIMENTO
O estudo do desenvolvimento humano é divido em três principais domínios: físico, cognitivo e psicossocial. O desenvolvimento físico é caracterizado pelo crescimento do corpo e do cérebro, pelo desenvolvimento de habilidades motoras e sensoriais e por aspectos de saúde (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Um exemplo do desenvolvimento físico são as mudanças na forma e características do corpo que ocorrem na puberdade, como o surgimento de pelos e seios em adolescentes do sexo feminino.
Aprendizagem, atenção, memória, linguagem, pensamento, raciocínio e criatividade compõem o desenvolvimento cognitivo (PAPALIA; FELDMAN, 2013). A aquisição da linguagem na infância é um exemplo do desenvolvimento cognitivo. Por sua fez o desenvolvimento psicossocial envolve a interação do indivíduo com o social, englobando características da pessoa e do seu contexto, como emoções, personalidade e relações sociais (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
A forma como uma criança interage com seus colegas da escola representa um exemplo do desenvolvimento psicossocial.
Consideremos os domínios físico, cognitivo e psicossocial separadamente apenas por uma questão didática, ao compreendê-los é necessário pensá-los de forma unificada. Dessa forma, os desenvolvimentos físico, cognitivo e psicossocial estão interligados, se afetando mutuamente, um dano em um domínio pode provocar um dano nos outros domínios. Por exemplo, uma criança com frequentes infecções no ouvido poderá desenvolver mais lentamente a linguagem do que outra que não tem esse problema físico, por sua vez, o atraso na linguagem pode dificultar sua interação social e afetar os sentimentos de autovalor.
De fato, as capacidades física e cognitiva podem causar danos ao desenvolvimento psicossocial, além de contribuir significativamente para a autoestima e afetar a aceitação social e a escolha profissional. Por sua vez, o desenvolvimento psicossocial pode afetar o funcionamento cognitivo e físico, sem conexões sociais significativas, a saúde física e mental terá problemas (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
2.2 PERÍODOS DO CICLO DE VIDA
Outro aspecto importante sobre a compreensão do desenvolvimento humano, refere-se ao fato de ser estudado através dos ciclos de vida. A esse respeito, Papalia e Feldman (2013) alertam que essa divisão é uma construção social, pois não é natural, é determinado por uma cultura ou uma sociedade. Assim, as autoras salientam que “não há nenhum momento objetivamente definível em que uma criança se torna adulta ou um jovem torna-se velho. De fato, o próprio conceito de infância pode ser visto como uma construção social” (PAPALIA; FELDMAN, p. 38). Historicamente, os conceitos de infância, adolescência, adultos e velhice foram influenciados pelos contextos sociais, políticos, econômicos e culturais de cada sociedade (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
Barros e Coutinho (2020) corroboram com essa perspectiva ao afirmarem que há sempre que se demarcar sob que perspectiva histórica as definições são realizadas, já que tais fronteiras assumem contornos distintos em diferentes momentos. A infância como é percebida hoje, com cuidado e proteção, sendo considerada uma fase peculiar do desenvolvimento humano, nem sempre existiu. Até o século XV – a criança era representada como um “adulto em miniatura”, convivendo no meio dos adultos e tendo funções parecidas com esses (ARIÉS, 1981). Dessa forma, podemos pensar a infância como uma invenção da modernidade, que ocorreu nas sociedades ocidentais.
Ao longo desse livro, dividiremos o desenvolvimento em oito períodos do ciclo de vida geralmente aceitos nas sociedades industriais ocidentais, conforme descritos no Quadro 1. Contudo, é importante saber que as faixas etárias indicadas são sempre estimativas, não podendo ser consideradas de forma radical, universal ou absoluta, representam uma construção social.
QUADRO 1 – ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO NO CICLO DE VIDA
FONTE: A autora
Estágio do desenvolvimento Faixa etária aproximada
Período pré-natal Concepção ao nascimento Primeira infância Nascimento aos 3 anos
Segunda infância 3 aos 6 anos
Terceira infância 6 aos 11 anos
Adolescência 11 aos 20 anos
Início da Vida Adulta 20 aos 40 anos Vida Adulta Intermediária 40 aos 65 anos
Vida Adulta Tardia 65 anos em diante
Esses períodos são marcados por padrões, aquilo que é comum cada fase vivenciar, e por individualidades, que dizem respeito ao modo como cada indivíduo irá vivenciar o período da sua vida (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
Por exemplo, é comum que na adolescência todos passem por mudanças corporais relacionadas às características sexuais secundárias, como crescimento dos órgãos sexuais e pelos, mas a forma como cada adolescente lida com essas transformações é singular.
Além disso, embora existam diferenças individuais na maneira como as pessoas lidam com eventos e questões características de cada período, certas necessidades básicas precisam ser satisfeitas e certas tarefas precisam ser dominadas para que ocorra um desenvolvimento normal (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Nesse víeis, para conseguir andar todas as crianças inicialmente precisam ser estimuladas, nutridas e desenvolver tarefas motoras anteriores, como
conseguir manter a cabeça erguida e ficarem de pé, bem como necessitam que ocorra o crescimento e fortalecimento do tronco. Apesar de cada uma vivenciar isso de forma singular, sem o domínio dessas tarefas, sem estímulos e alimentação adequada, não passariam por esse estágio do desenvolvimento.
2.3 INFLUÊNCIAS NO DESENVOLVIMENTO
Quais aspectos influenciam os processos de desenvolvimento? O que faz com que nos tornemos quem somos? Os estudos do desenvolvimento humano abordam o desenvolvimento como algo complexo, influenciado por múltiplos fatores, verificando tanto influências internas ao indivíduo, quanto influências externas, relacionadas a interação do indivíduo com o seu meio (PAPALIA;
FELDMAN, 2013). Nesse contexto, o indivíduo não é passivo ao meio no qual está inserido, ao mesmo tempo em que é influenciado por esse meio o influencia também, por meio de suas características e interações.
As influências internas são caracterizadas pela hereditariedade e pelo processo de maturação do indivíduo. A hereditariedade refere-se aos traços ou características herdadas dos pais biológicos, ou seja, é a carga genética que estabelece o potencial de desenvolvimento de determinados aspectos (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Destaca-se que esses fatores não determinam sozinho as características do indivíduo, há pesquisas que indicam que a inteligência seja fortemente influenciada por aspectos genéticos, mas seu desenvolvimento vai depender dos estímulos do meio em que a pessoa vive, como a estimulação parental, a educação, a influência dos amigos (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001; PAPALIA; FELDMAN, 2013).
Assim, na atualidade, a ciência está interessada em compreender os efeitos conjuntos da hereditariedade e ambiente ao invés de discutir qual é o mais importante no desenvolvimento (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
O crescimento e a maturação dos órgãos também são bases biológicas consideradas influências internas do desenvolvimento, pois modificam a relação que temos com o mundo. A experiência de engatinhar é diferente da experiência de andar e correr, e cada uma dessas mudanças é possibilitada pelo crescimento, como altura e estabilização do esqueleto (BOCK; FURTADO;
TEIXEIRA, 2001).
Maturação orgânica refere-se ao aparecimento de novas capacidades funcionais de um órgão.
NOTA
Muitas mudanças típicas da primeira e da segunda infância, como a capacidade de andar e falar, estão vinculadas à maturação do corpo e do cérebro – o desdobramento de uma sequência natural de mudanças físicas e padrões de comportamento. À medida que as crianças se tornam adolescentes e depois adultos, diferenças individuais nas características inatas e na experiência de vida passam a desempenhar um papel mais importante. Durante a vida toda, porém, a maturação continua influenciando certos processos biológicos como, por exemplo, o desenvolvimento do cérebro (PAPALIA; FELDMAN, 2013, p. 42).
Em relação às influências externas são consideradas o ambiente no qual o indivíduo está inserido, as experiências que ele vivencia nesse meio e suas aprendizagens (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Entre as influências ambientais estão a relação com a família, os aspectos culturais e históricos mais abrangentes e também, as condições socioeconômicas às quais estamos expostos (BOCK;
FURTADO; TEIXEIRA, 2001; PAPALIA; FELDMAN, 2013). Discutiremos essas influências no subtópico a seguir, ao abordarmos os contextos do desenvolvimento.
2.4 CONTEXTOS DO DESENVOLVIMENTO
Contextos diversos interagem ao longo do ciclo vital e, quando resultam em conexões positivas, podem promover o desenvolvimento e contribuir em uma melhor qualidade de vida para as pessoas e as sociedades nas quais estão inseridas (POLETTO; KOLLER, 2008). Para compreender esse processo de interação entre o indivíduo e alguns importantes ambientes de desenvolvimento, como família e escola, discutiremos inicialmente o Modelo Bioecológico de Bronfenbrenner (BRONFENBRENNER; MORRIS, 1998). Bronfenbrenner formulou sua teoria como crítica ao modelo tradicional da época, considerando que as pesquisas experimentais da época conduziam experimentos elegantes, porém colocando a criança em ambientes artificiais e restritos, focalizavam apenas a pessoa em desenvolvimento sem a devida consideração das múltiplas influências dos contextos em que os sujeitos viviam, impossibilitando uma compreensão real do desenvolvimento (BRONFENBRENNER, 1996).
Para Bronfenbrenner, o desenvolvimento é influenciado por características ambientais e individuais que se relacionam mutuamente, sendo importante na sua análise considerar todo o sistema bioecológico que envolve o indivíduo, o qual dependente de quatro dimensões que interagem entre si, denominadas de “Modelo ppct” – Processo, Pessoa, Contexto e Tempo (BRONFENBRENNER, 2005). Os processos proximais são as interações que a pessoa estabelece com o seu meio, por exemplo, uma criança brincando com um objeto, uma professora ensinando um aluno ou alguém realizando uma leitura. De acordo com Bronfenbrenner e Morris (1998), a exposição aos processos proximais pode contribuir com a competência, caracteriza-se pelo desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e capacidade, ou com a disfunção, a qual se refere a dificuldades em manter o controle e a integração do comportamento nas situações e está relacionada a ambientes desfavoráveis ou desorganizados, como por exemplo com a vivência de violência.
No segundo núcleo, Pessoa, Bronfenbrenner (1996) denota a relevância dos fatores biológicos e genéticos no desenvolvimento, vinculados a características individuais da pessoa em desenvolvimento. A pessoa é analisada através de suas características determinadas biopsicologicamente e aquelas construídas na sua interação com o ambiente, sendo essas construídas em uma relação dialética, na qual são produtoras e produtos do desenvolvimento, pois influenciam a forma, a força, o conteúdo e a direção dos processos proximais e, ao mesmo tempo, são resultado da interação conjunta destes elementos (WENDT, 2006). Entre as características da pessoa estão o temperamento, comportamento, modo de lidar com as emoções, experiências, aparência, personalidade, idade, gênero, etnia, entre outros (BRONFENBRENNER; MORRIS, 1998).
Tais características da pessoa são incorporadas dentro do contexto, que é o terceiro núcleo do Modelo Bioecológico. O contexto se refere ao meio ambiente global no qual o indivíduo está inserido e se desenrolam os processos de desenvolvimento, o qual deve ser concebido por um conjunto de estruturas concêntricas, contidas uma dentro da outra, sendo dividido em quatro subsistemas que interferem mutuamente entre si e afetam conjuntamente o desenvolvimento humano (BRONFENBRENNER, 1996). É importante destacar que estes subsistemas não são fixos, são dotados de dinamismo e ocorrem simultaneamente, sendo que podem mudar com o tempo, bem como uma estrutura pertencente a um subsistema pode pertencer a outro. Os quatro subsistemas são: microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema (BRONFENBRENNER, 2005).
O microssistema é o ambiente imediato, no qual ocorrem as interações face a face da pessoa em desenvolvimento com seu ambiente, abrangendo atividades, papéis e relações interpessoais experiências pela pessoa nos ambientes em que estabelece relações imediatas, como as relações que a criança estabelece com a família, escola, amigos, vizinhos, entre outros (BRONFENBRENNER, 2005).
O mesossistema envolve a relação entre dois ou mais ambientes nos quais a pessoa participa ativamente, por exemplo, a relação entre escola e família ou vizinhos e família (BRONFENBRENNER, 2005). O exossistema corresponde às relações entre dois ou mais ambientes, nos quais a pessoa em desenvolvimento não tem contato direto com um dos ambientes, mas este influencia diretamente seu desenvolvimento, por influenciar seus processos no contexto imediato (BRONFENBRENNER, 2005). Um exemplo de exossistema no desenvolvimento de crianças e adolescente é a relação entre a família e o local de trabalho ou a rede de amigos dos genitores. Por fim, o macrosistema diz respeito ao padrão de ideologia, valores e organização das instituições sociais comuns a uma cultura ou subcultura, englobando a economia, formas de organização de uma sociedade, as leis, os costumes, as religiões, que estão presentes na vida de uma pessoa e influenciam seu desenvolvimento (BRONFENBRENNER, 1996).
O cronosistema, quinto subsistema, refere-se às influências do tempo no desenvolvimento da pessoa e as mudanças que ocorrem ao longo do tempo no ambiente, considerando a história transgeracional da família e dos grupos sociais (BRONFENBRENNER, 2005). O cronosistema é considerado de
maneira abrangente, envolvendo as mudanças do próprio indivíduo, como o atributo do crescimento humano (idade cronológica), bem como as mudanças históricas relacionadas à sociedade e à família da pessoa em desenvolvimento (BRONFENBRENNER, 1996). O tempo é um elemento fundamental na constituição e análise dos processos proximais, visto que o impacto desenvolvimental das pessoas em interação é alterado ao longo dos anos.
A partir da teoria bioecológica, a pessoa em desenvolvimento deve ser compreendida de maneira ampla e sistêmica, levando em conta a ecologia em que se desenvolvem (DE ANTONI; KOLLER, 2001). Por exemplo, ao considerarmos o impacto do abuso sexual no desenvolvimento de crianças devemos além de identificar as consequências para a própria criança que vivenciou a violência, verificar as relações mais próximas dessa criança; as relações que indiretamente a influenciam; a rede de apoio social, a rede de serviços destinadas ao atendimento de criança em situação de violência sexual; a cultura envolvendo o abuso sexual infantojuvenil, entre outros aspectos. Todos esses incluídos no modelo PPCT conforme representado na Figura 2.
FIGURA 2 – DIAGRAMA DOS NÍVEIS DO AMBIENTE DE UMA CRIANÇA EM SITUAÇÃO DE ABUSO SEXUAL A PARTIR DA TEORIA BIOECOLÓGICA DE BRONFENBRENNER
FONTE: A autora
A abordagem ecológica do desenvolvimento humano é útil ao permitir que o desenvolvimento possa ser entendido de maneira contextualizada e contemplando a interação de múltiplos fatores, podendo evitar visões
estereotipada e reducionistas ao compreender o desenvolvimento humano. Para tanto, utilizamos, igualmente, os fatores de risco e proteção e a capacidade de resiliência da pessoa em desenvolvimento.
Resiliência é a capacidade que a pessoa tem de enfrentar e de superar situações adversas e de crises (YUNES; SZYMANSKI, 2001). Rutter (1999) pondera que resiliência é um processo psicológico, não apenas uma característica individual ou um traço da pessoa. Assim, a capacidade de resiliência de uma pessoa deve ser avaliada a partir da interação dinâmica entre as características individuais e a complexidade do contexto no qual ela está inserida (CECCONELLO, 2003). Para tanto os processos de resiliência exigem a compreensão dinâmica e interacional dos fatores de risco e de proteção (POLETTO; KOLLER, 2008).
Os fatores de risco se referem a eventos negativos de vida, que quando presentes, aumentam a probabilidade de a pessoa apresentar problemas físicos, sociais ou emocionais em seu desenvolvimento (POLETTO; KOLLER, 2008).
Alguns fatores de risco ao desenvolvimento infantil são: divórcio dos pais, vivência de violência, pobreza, desastres e catástrofes naturais, guerras e morte de um dos pais. Ressalta-se que esses fatores não devem ser concebidos de maneira estática, pois, a presença dele não significa necessariamente um dano ao desenvolvimento, o que é mediado pela resiliência e os fatores de proteção (POLETTO; KOLLER, 2008). Por exemplo, nem todas crianças que vivenciam o divórcio dos pais apresentam consequências negativas ao desenvolvimento, o queira depender do modo como elas lidarão com a situação, com a forma que ocorreu o divórcio, como os pais estão lidando, qual o apoio que ela está recebendo, entre outros fatores.
Fatores de proteção são as influências que podem modificar, melhorar ou alterar as respostas pessoais a determinados fator de risco ou situação adversa (POLETTO; KOLLER, 2008). Esses fatores devem ser analisados apenas em relação aos fatores de risco, pois seu papel é o de modificar a resposta em situações adversas, mais do que favorecer diretamente o desenvolvimento. Alguns fatores de proteção fundamentais são os atributos disposicionais das pessoas, como características pessoais que favorecem seu desenvolvimento, por exemplo, inteligência, capacidade de lidar com as emoções; a rede de apoio social, com recursos individuais e institucionais, esse suporte social pode ser escola, amigos, serviços de saúde; a coesão familiar, que se refere à capacidade da família em lidar com conflitos sem violência e atender às necessidades de seus membros; a presença de pelo menos um adulto interesse pela criança, e a presença de laços afetivos no sistema familiar e/ou em outros contextos (POLETTO; KOLLER, 2008).
Definir efetivamente o que é ou não risco e proteção é algo complexo, que requer uma análise ecológica do evento, dos processos, do momento histórico e da pessoa (POLETTO; KOLLER, 2008). Dessa forma, quando analisamos o desenvolvimento de uma pessoa para evitar preconceitos e visões estereotipadas e reducionistas, devemos levar em consideração as características dos contextos dos quais essa pessoa participa direta ou indiretamente, e as relações que
estabelecem nesses ambientes. Além disso, deve-se compreender seu momento desenvolvimental e suas características individuais, para verificar suas fragilidades e potencialidades. A seguir, apresentaremos alguns aspectos dos contextos que exercem influência sobre o desenvolvimento humano.
A convivência em família é nossa primeira experiência de socialização, estudos ponderam a importância das relações intrafamiliares e das experiências vividas na infância, neste contexto, para o funcionamento psicológico ao longo do ciclo vital (POLETTO; KOLLER, 2008). Para compreender como as famílias funcionam é preciso refletir sobre suas transformações, modo de funcionamento, funções que lhe são atribuídas e ainda os papéis que são exercidos por cada membro, de acordo com o contexto histórico e cultural (DESSEN; SILVA NETO, 2000).
As configurações familiares têm se modificado ao longo dos anos. De uma família rural bastante numerosa em que todos ajudavam nos afazeres da propriedade familiar, hoje encontramos, nos centros urbanos, famílias com menos membros em que pai e mãe exercem atividades profissionais fora de casa e os filhos passam o dia na escola (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Outros fatores associados à mudança nas configurações familiares são o aumento no número de divórcios, a constituição de famílias com padrasto e madrasta, enteados;
famílias com convivência ou não com avós, tios e primos, as chamadas famílias multigeracionais e famílias de casais homoafetivos (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
Todas essas mudanças, não alteram o impacto dessas relações em nosso desenvolvimento, pois é através da família que somos apresentados aos costumes e regras sociais e aos modos como nos relacionamos com os outros. É também na família que são realizados os primeiros cuidados com o ser humano que nasce, esses cuidados tanto físicos como psíquicos influenciarão todo nosso desenvolvimento futuro, conforme veremos a seguir ao estudarmos as teorias sobre desenvolvimento humano (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001). Por fim, vale salientar que a família é “um grupo tão importante que, na sua ausência, dizemos que a criança ou o adolescente precisam de uma “família substituta” ou devem ser abrigados em uma instituição que cumpra as funções [...] de cuidado e de transmissão dos valores e normas culturais [...]” (BOCK; FURTADO;
TEIXEIRA, 2001, p. 249 grifos do autor).
As condições socioeconômicas as quais somos expostos também influenciam nosso desenvolvimento, estando relacionadas ao tipo de moradia, ao acesso à assistência médica, nutricional, níveis de escolaridade, atividades laborais, acesso a saneamento básico, desigualdade na distribuição de renda, entre outras (BARATA, 2009; PAPALIA; FELDMAN, 2013). A prolongada exposição à pobreza é historicamente associada a prejuízos no bem-estar físico, cognitivo e psicossocial. Seus efeitos podem ser indiretos, relacionando-se com o estresse causado nos pais e seus impactos no exercício da parentalidade (PAPALIA;
FELDMAN, 2013). No lado oposto, a riqueza é associada a melhores níveis de saúde, qualidade de vida, esperança de vida ao nascer até o envelhecimento e menor mortalidade em todas as idades e por qualquer causa (BARATA, 2009).
Apesar dessas correlações entre pobreza e riqueza, é importante não generalizar e reduzir a problemática a uma questão linear de causa e efeito. Sobre isso, Papalia e Feldman (2013), apresentam estudos em que crianças de famílias ricas podem ter menos contatos significativos com os pais por estes serem muito ocupados e sofrerem um excesso de pressão para que tenham sucesso no futuro, enquanto algumas crianças de famílias pobres podem realizar mais refeições conjuntamente, além de frequentarem atividades comunitárias, como a igreja, com seus pais ou cuidadores. Assim, a pobreza é percebida como um fator de risco e não como uma causa de dano ao desenvolvimento.
Ainda em relação às influências do meio no desenvolvimento humano, há o componente cultural e o étnico. Cultura se refere às tradições, valores, linguagem, leis e atitudes compartilhadas por grupos sociais. Já “um grupo étnico consiste em pessoas unidas por determinada cultura, ancestralidade, religião, língua ou origem nacional, tudo isso contribuindo para formar um senso de identidade, atitudes, crenças e valores comuns” (PAPALIA; FELDMAN, 2013, p. 45). Essas influências configuram-se nas composições familiares, sua condição socioeconômica, o tipo de alimentação que ingerem, o modo de socialização, as brincadeiras infantis, o tipo de profissão e na visão de mundo, todos fatores fundamentais para o nosso desenvolvimento (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
É importante ressaltar que o termo raça não encontra bases biológicas que justifique qualquer tipo de segregação entre seres humanos (PAPALIA;
FELDMAN, 2013). A esse respeito, Barata (2009, p. 57), afirma que “a análise das características genéticas da espécie não mostra qualquer indicador seguro da existência de raças ou subespécies humanas”. Porém, há um consenso do uso do termo raça como uma construção social que, pautada em uma ideologia social de inferioridade, fomenta práticas discriminatórias e depreciativas que resultam em desvantagens econômicas, exclusão social, segregação espacial, desvalorização cultural e enfraquecimento de poder político. “A segregação significa restrição das possibilidades de acesso a oportunidades de educação e emprego, resultando em inserção social desvantajosa e ausência de mobilidade social” (BARATA, 2009, p. 66). Nesse contexto, o termo raça, é considerado uma variável que tem potencial de influenciar no desenvolvimento humano.
2.5 ABORDAGEM DO DESENVOLVIMENTO DO CICLO DE VIDA
Até o momento vimos que para compreender o desenvolvimento humano, precisamos estar atentos há muitas variáveis, sendo elas as características herdadas geneticamente, os processos de crescimentos e maturação e ainda os fatores ambientais como família, cultura e condições socioeconômicas. Todas essas variáveis, também precisam ser compreendidas considerando o momento histórico, a faixa etária de cada pessoa e ainda estarmos atentos para as variações individuais, pois como já foi dito, cada ser humano é único.
QUADRO 2 – PRINCÍPIOS PARA ABORDAGEM DO DESENVOLVIMENTO NOS CICLOS DE VIDA
1- O desenvolvimento é vitalício.
O desenvolvimento é um processo vitalício de mudança, ou seja, inicia com a fecundação e finaliza apenas com a morte do indivíduo.
Estamos em constante processo de desenvolvimento! Cada período do ciclo de vida é afetado pelo que aconteceu antes e afetará o que está por vir. Cada período tem características e valores únicos.
Nenhum período é mais ou menos importante que outro.
2- O desenvolvimento é multidimensional.
Ocorre ao longo de múltiplas dimensões (biológica, psicológica e social), que se interagem e podem se desenvolver em ritmos diferentes.
3- O desenvolvimento é multidirecional.
Enquanto as pessoas ganham em uma área, podem perder em outra, às vezes ao mesmo tempo. Exemplo: na adolescência há um aumento da habilidade física e coordenação motora, por outro lado, verifica-se um declínio na capacidade em aprender uma nova língua.
4- Influências relativas de mudanças biológicas e culturais sobre o ciclo de vida.
O processo de desenvolvimento é influenciado tanto pela biologia quanto pela cultura, mas o equilíbrio entre essas influências se altera. Habilidades biológicas, como acuidade sensorial, força e coordenação muscular, tornam-se mais fracas com a idade, mas apoios culturais, tais como educação, relacionamentos e ambientes tecnologicamente adequados à idade, podem ajudar a compensar.
5- O desenvolvimento envolve mudança na alocação de recursos.
Os indivíduos escolhem como “investir” seus recursos de tempo, energia, talento, dinheiro e apoio social de várias maneiras. Os recursos podem ser usados para o crescimento; conservação ou recuperação, ou para lidar com a perda quando a conservação e a recuperação não forem possíveis. A alocação de recursos para essas três funções muda ao longo da vida. Na infância e no início da vida adulta, a maior parte dos recursos é direcionada para o crescimento;
na velhice, para a regulação da perda. Na meia-idade, a alocação é mais equilibrada entre as três funções.
6- O desenvolvimento revela plasticidade.
Muitas capacidades, como a memória, a força física e a resistência, podem ser aperfeiçoadas com o treinamento e a prática, mesmo em idade avançada. Mas, até mesmo nas crianças, a plasticidade tem limites que em parte dependem das várias influências sobre o desenvolvimento.
7- O desenvolvimento é influenciado pelo contexto histórico e cultural.
Cada pessoa se desenvolve em múltiplos contextos – circunstâncias ou condições definidas em parte pela maturação e em parte pelo tempo e lugar. Os seres humanos não apenas influenciam, mas também são influenciados pelo contexto histórico-cultural.
Considerando a importância de todos esses aspectos, Papalia e Feldman (2013), apresentam os estudos de Paul B. Baltes, Smith, Lindenberger, Staudinger e Bluck que organizaram sete princípios para compreender a teoria do desenvolvimento do ciclo de vida, que serão apresentados no quadro a seguir:
FONTE: Adaptado de Papalia e Feldman (2013, p. 51)
Agora que já conhecemos o campo de estudo do desenvolvimento humano, estudaremos as teorias sobre o desenvolvimento humano.
3 QUESTÕES TEÓRICAS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
Teorias são conjuntos de ideias e afirmações logicamente relacionadas que procuram transmitir uma noção geral sobre um determinado tema, a fim de produzir conhecimento e previsões. Nesse contexto, uma teoria científica do desenvolvimento humano se refere ao conjunto de conceitos com o objetivo de descrever e explicar o desenvolvimento, possibilitando intervir e prever os comportamentos que podem ocorrer em certas condições (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Assim, as teorias são a base para a compreensão dos fenômenos, permitindo um maior controle sobre eles. A partir de uma perspectiva teórica podemos compreender o que é necessário para que um bebê se desenvolva de maneira saudável, com esse conhecimento os profissionais de saúde constroem intervenções junto a bebês e desenvolvem políticas de prevenção, visando evitar possíveis danos no seu desenvolvimento.
A pesquisa se refere a uma investigação ou indagação minuciosa, que tem por finalidade a descoberta de novos conhecimentos, utilizando métodos, técnicas e procedimentos científicos (GIL, 2008). A pesquisa requer uma comprovação dos fatos, já a teoria se sustenta por explicações lógicas dos fatos. Teoria e pesquisa estão amplamente interligadas e refletem o modo de fazer ciência. As teorias sustentam e dão direcionamentos para as pesquisas, bem como as teorias surgem por meio das pesquisas e são testadas por elas. Nessa relação, as teorias podem ser refutadas pelas pesquisas, verificando-se que à medida que a ciência evoluiu, as teorias do desenvolvimento humano foram se modificando para acomodar novas descobertas.
Dessa forma, no decorrer da história, constatam-se várias teorias que procuram explicar e compreender o desenvolvimento humano, sendo que várias delas são conflitantes entre si. Cada teoria reflete as perspectivas de seus autores e o momento histórico e social da época, sendo necessário uma avaliação crítica sobre elas. De modo mais amplo, as teorias do desenvolvimento humano pautam-se em três racionalidades iniciais, são elas: inatismo, ambientalismo e o interacionismo. Essas racionalidades estão sustentadas em três perguntas gerais:
(1) as pessoas são ativas ou passivas em seu desenvolvimento, ou seja, podemos influenciar nosso próprio desenvolvimento ou somos totalmente influenciados pelo meio em que vivemos?; (2) o desenvolvimento é influenciado por questões biológicas ou ambientais?; (3) o desenvolvimento é contínuo, ocorrendo de forma gradual e cumulativo, ou descontínuo, sendo desencadeado de forma abrupto ou irregular, por meio de estágios? (BEE; BOYD, 2011).
Na concepção inatista, o fator biológico determina o desenvolvimento humano e o ambiente exerce pouca influência, podendo apenas acelerar ou desacelerar o desenvolvimento (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Assim, possuímos um papel ativo em nosso desenvolvimento, o qual ocorre por processos genéticos, hereditários e maturacionais. Para o inatismo o desenvolvimento seria uma sequência progressiva de estágios em direção à plena maturação (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Um estágio depende do desenvolvimento de
diferentes habilidades e estruturas, bem como está amplamente interligado com o estágio anterior, o desenvolvimento é comparado à subida de uma escada, para chegar ao topo necessito subir um degrau de cada vez. Um teórico inatista ao estudar o desenvolvimento humano, focaliza sua atenção em questões do próprio indivíduo, como suas características pessoais, temperamento, fatores biológicos, maturacionais e subjetivos. Encontramos sua expressão em alguns pensadores, como o filósofo francês Jean Jacques Rousseau, o qual afirmava que as crianças nascem como “bons selvagens”, se desenvolvendo conforme suas próprias tendências naturais positivas, se não forem corrompidas pela sociedade (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
O temperamento é a base da personalidade, sendo seu aspecto mais estável, caracterizado pelas diferenças individuais ao longo do desenvolvimento, incluindo fatores biológicos e psicológicos, por exemplo, o fato de uma pessoa ser mais retraída ou extrovertida (ELSE-QUEST, HYDE, GOLDSMITH, VAN HULLE, 2006).
NOTA
Contrário a esta teoria está o ambientalismo, que pressupõe que o desenvolvimento humano é resultado das nossas experiências ao longo da vida, a partir de nossa interação com o meio ambiente em que estamos inseridos. Nesse modelo, o desenvolvimento sempre é governado pelos mesmos processos, e ao conhecer esses processos podemos prever comportamentos posteriores a partir dos anteriores, permitindo certo “controle” sobre o desenvolvimento (PAPALIA;
FELDMAN, 2013). Deste modo, o desenvolvimento seria uma subida de uma rampa e ao estudá-lo focaria nas relações sociais dos indivíduos, no modo como o ambiente intervém sobre ele, sendo o indivíduo passivo, produto de suas experiências de vida.
No interacionismo temos uma relação entre os dois modelos, o desenvolvimento humano é desencadeado tanto por fatores biológicos quanto ambientais, o indivíduo é produto e produtor de seu desenvolvimento.
O desenvolvimento está na relação entre sujeito e objeto, o sujeito possui potencialidades e características próprias que devem ser favorecidas pelo meio para se desenvolver. Posso ter uma habilidade genética para música, mas se o meio não me proporcionar condições para desenvolver essa habilidade, como o contato com a música, jamais serei um músico. Assim, ao mesmo tempo em que somos influenciados pelo ambiente em que estamos inseridos, influenciamos esse ambiente. Ao estudar o desenvolvimento humano, esses teóricos procuram compreender os múltiplos fatores que influenciam o desenvolvimento humano, biológicos e ambientais. E para você o desenvolvimento é influenciado por questões biológicas, ambientais ou ambas?
As pesquisas atuais sobre desenvolvimento humano apresentam uma visão interacionalista, considerando que o desenvolvimento é influenciado por características internas e externas ao indivíduo, que se relacionam de forma bidirecional: as pessoas modificam seu meio, assim como são modificadas por ele.
IMPORTANTE
A partir do exposto, destacaremos as teorias do desenvolvimento humano de Jean Piaget e Vygotsky, dada a importância de suas proposições para a compreensão do desenvolvimento humano.
3.1 EPISTEMOLOGIA GENÉTICA DE JEAN PIAGET
Jean Piaget (1896-1980) foi um biólogo, filósofo e psicólogo suíço que aos 11 anos publicou seu primeiro artigo científico sobre um pardal albino. Já adulto, realizou pesquisas em laboratórios de Psicologia experimental, entre elas com Alfred Binet que, através de testes de inteligência, tentava descobrir o funcionamento do desenvolvimento intelectual. Sua tarefa era classificar as respostas em certas e erradas, mas Piaget inovou, pois queria entender os processos de raciocínio que levavam a um erro ou a um acerto (GOMES; BELLINI, 2009).
O método clínico de Piaget combinava observação com indagação flexível. Ao perguntar por que as crianças respondiam as perguntas da maneira como o faziam, ele percebeu que crianças da mesma idade cometiam tipos semelhantes de erro em lógica. Assim, por exemplo, ele descobriu que uma criança típica de 4 anos acreditava que moedas ou flores eram mais numerosas quando dispostas em filas do que quando empilhadas. A partir de suas observações acerca de seus próprios filhos e de outras crianças, ele criou uma abrangente teoria do desenvolvimento cognitivo (PAPALIA; FELDMAN, 2013, p. 65, grifo do autor).
A teoria de Jean Piaget também é denominada epistemologia genética, pois estudou as raízes dos processos de aquisição do conhecimento, seus limites e possibilidades e seu desenvolvimento. Assim, o centro de seu trabalho é o conhecimento, a cognição. Nesse processo, para Piaget, o indivíduo adquire conhecimento, se desenvolvendo, por meio de sua interação com o meio, sendo uma teoria interacionista. Esse desenvolvimento acontece por meio de estágios do desenvolvimento, não ocorrendo de forma linear, mas por meio de saltos e rupturas. Cada estágio representa uma lógica das estruturas mentais, que seria uma forma de pensar, a qual será superada por um estágio superior que apresenta outra lógica do conhecimento (PÁDUA, 2009)
Essa mudança de um estágio para outro ocorre por meio da maturação biológica, da atividade, das experiências sociais e da equilibração. A maturação biológica são mudanças biológicas geneticamente programadas, por exemplo, o crescimento cerebral que ocorre durante a primeira infância (SILVA et al., 2015). Nesse processo, Piaget ressalta que o indivíduo só recebe um determinado conhecimento se estiver preparado para recebê-lo. A atividade se refere à capacidade do indivíduo de agir sobre o ambiente e aprender com ele, como exemplo uma criança que ao brincar com um jogo aprende suas regras.
As experiências sociais são as interações sociais e o aprendizado que elas proporcionam (SILVA et al., 2015). E por fim há o processo de equilibração, que possibilita a adaptação do indivíduo ao meio.
Dessa forma, as interações, por meio da atividade e experiências sociais, provocam a desequilibração. Esta levará ao processo de equilibração, que envolve a adaptação, acomodação e assimilação, o que possibilitará ampliação no desenvolvimento do pensamento caso o indivíduo esteja num processo de maturação que permita a acomodação. O processo de adaptação é a tendência das pessoas de se adaptarem ao seu ambiente, que ocorre pelos processos de assimilação e a acomodação. A assimilação ocorre quando as pessoas tentam compreender algo novo, encaixando-o naquilo que o sujeito já sabe, ou seja, incorporando para si elementos que pertencem ao meio. A acomodação é quando o indivíduo modifica seus esquemas existentes para responder a uma nova situação e se adequar às necessidades, o que pode ocorrer através da busca de novas informações para acomodá-las aos esquemas existentes ou pela criação de outro esquema que acomode adequadamente a nova informação (PÁDUA, 2009).
Observamos a figura a seguir para compreender o processo de equilibração.
Uma criança ao ver um cavalo pela primeira vez, aponta para ele e diz “cachorro”.
Neste caso, ocorreu um processo de assimilação, por não conhecer o cavalo, a similaridade entre o cavalo e o cachorro, (ambos possuem quatro patas, um rabo, pescoço, nariz molhado) faz com que um cavalo passe por um cachorro, visto a pouca variedade e qualidade de informação acumulada pela criança que ainda não é suficiente para ela diferenciar os dois animais. Se um adulto intervém e corrige, "não, aquilo não é um cachorro, é um cavalo", a criança poderá acomodar aquele estímulo a uma nova estrutura cognitiva, criando assim um novo esquema, um novo conceito. Terá assim, um esquema para o conceito de cachorro e outro para o conceito de cavalo.
FIGURA 3 – FIGURA CAVALO OU CACHORRO
FONTE: <https://cerebromente.org.br/n12/mente/construtivismo.htm>. Acesso em: 10 ago. 2020.
Esse processo de equilibração leva o sujeito a um estado superior em relação ao estado inicial, exigindo formas de pensar e se comportar mais complexas, o que possibilitará a mudança de estágio no desenvolvimento. Sua teoria divide o desenvolvimento em quatro períodos ou estágios, a saber:
1° período: sensório-motor (0 a 2 anos);
2° período: pré-operatório (2 a 7 anos);
3° período: operações concretas (7 a 11 ou 12 anos);
4° período: operações formais (11 ou 12 anos em diante) (BOCK; FURTADO;
TEIXEIRA, 2001).
Segundo Piaget, todos nós passamos por todos os períodos, nessa sequência, mas dependendo das características biológicas e do ambiente, o início e término de cada período, difere de uma pessoa para outra. Assim, vale lembrar que as faixas etárias descritas em cada período, são aproximações e não idades fixas (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001). Discutiremos as principais características de cada estágio do desenvolvimento ao abordamos o desenvolvimento cognitivo na infância e na adolescência.
3.2 TEORIA SÓCIO-HISTÓRICA DE VYGOTSKY
Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934) foi um psicólogo russo que realizou diversas pesquisas na área do desenvolvimento humano focalizando na relação entre os processos sociais e culturais e o desenvolvimento cognitivo da criança. Dessa forma, como Jean Piaget, Vygotsky percebia o desenvolvimento humano como resultado da interação entre aspectos biológicos e maturacionais e os estímulos do meio, sendo uma teoria interacionista. Contudo, os estudos de Piaget eram direcionados na relação do sujeito com o objeto físico, enquanto Vygotsky destaca a relação intersubjetiva, isto é, a troca entre as pessoas. Assim, a teoria vygotskiana é chamada de sócio-histórica (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001). Vejamos a seguir, os fundamentos de sua teoria.
A Teoria sócio-histórica compreende o funcionamento psicológico a partir das dimensões sociais, culturais e individuais. Assim, um de seus pressupostos básicos é que o homem se difere de outros animais pelos processos superiores, que incluem comportamento consciente, pensamento, linguagem, memória, atenção voluntária, os quais possuem sua origem nas relações sociais (SILVA et al., 2015).
Portanto, o ser humano constitui-se na sua relação com o outro. Nesse processo de troca com o meio, o qual ocorre durante toda a vida, o indivíduo internaliza as formas culturais e as transforma (SILVA et al., 2015). Portanto, o indivíduo é ativo em sua construção, sendo que ao mesmo tempo que é influenciado pelo meio o influencia e o transforma.
O desenvolvimento do humano, do mesmo modo, é construído sobre o plano das interações por meio do aprendizado. Cabe mencionar que para Vygotsky, o ser humano aprende com qualquer sujeito, desde um professor, pai ou mãe, até com uma criança da mesma idade. Por meio das atividades compartilhadas a criança internaliza os modos de pensar da sociedade, cujos hábitos passam a ser os seus (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Nesse processo, Vygotsky dá ênfase especial à linguagem, como um meio essencial para aprender e pensar sobre o mundo (PAPALIA; FELDMAN, 2013). A linguagem permite que a criança dialogue, converse e interage com outras pessoas, possibilitando expressar seu pensamento, e quando a linguagem é utilizada como meio de comunicação pensamento e linguagem se associam, o pensamento torna-se verbal e a fala racional (SILVA et al., 2015). Assim, a partir da linguagem, a criança adquire novas formas de pensar, agir e se organizar.
Vygotsky define dois níveis de desenvolvimento: o Desenvolvimento Real; e o Desenvolvimento Potencial. O nível de desenvolvimento real caracteriza por aquilo que o sujeito já possui, já aprendeu e sabe fazer. O Nível de desenvolvimento potencial é aquilo que a criança é capaz de realizar, porém ainda precisa de ajuda para fazê-lo, é o que ela irá fazer. Entre esses dois níveis está a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que se é a distância entre aquilo que o indivíduo é capaz de fazer sozinho e aquilo que ele realiza com a ajuda de outras pessoas, ou seja, está no meio entre os dois níveis de desenvolvimento (SILVA et al., 2015). A instrução sensível e eficaz visa desenvolver a ZDP e devem aumentar em complexidade na medida em que as habilidades da criança são aperfeiçoadas, deixando cada vez a criança como responsável pela atividade, por exemplo, quando um adulto ensina uma criança a boiar primeiro ele apoia a criança na água e depois vai soltando-a aos poucos à medida que ela relaxa o corpo e vai conseguindo permanecer sobre a água (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
FIGURA 3 – ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL
FONTE: <https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/15/8/breve-estudo-sobre-lev-vygotsky- e-o-sociointeracionismo>. Acesso em: 17 mar. 2021.
A imagem auxilia a compreender os conceitos. Podemos pensar a Zona de Desenvolvimento Real como o saber atual da criança, a zona de desenvolvimento potencial como o saber a ser alcançado e a Zona de Desenvolvimento Proximal como o processo de mediação para alcançar o saber, é o lugar no qual as aprendizagens são construídas. Por exemplo: o engatinhar em uma criança que está aprendendo a andar seria a Zona de Desenvolvimento Real, o andar sozinha, a Zona de Desenvolvimento Potencial, e o adulto segurar a mão da criança para lhe ensinar andar seria a Zona de Desenvolvimento Proximal.
Diante do exposto, para Vygotsky nos desenvolvemos por meio de nossa relação com o outro e com o outro temos possibilidade de produzir mais do que sozinho. A teoria de Vygotsky tem importantes implicações para a educação, sendo que ele defendia uma interação direta com o professor em sala de aula e entre os alunos, sendo papel do professor não dar respostas prontas, mais sim de mediar seus alunos a irem à busca do conhecimento e solucionar os problemas propostos, sempre os auxiliando (SILVA et al., 2015). Na área da saúde, podemos refletir esses aspectos para políticas de educação em saúde. Além disso, pelos pressupostos da Teoria sociocultural ressalta-se a relevância de conhecermos o contexto social e cultural no qual o sujeito está inserido ao pensarmos sobre seu desenvolvimento.
Zona de Desenvolvimento
Potencial Zona de
Desenvolvimento Real
Zona de Desenvolvimento
Proximal
Neste tópico, você aprendeu que:
• Desenvolvimento humano é o estudo científico de processos de mudança e estabilidade no decorrer do ciclo de vida.
• O estudo do desenvolvimento humano procura descrever, explicar, prever e, intervir no desenvolvimento.
• O desenvolvimento humano é determinado por múltiplos fatores, sofrendo influências internas e externas ao indivíduo.
• Os três principais domínios do desenvolvimento são o físico, o cognitivo e o psicossocial. Cada um deles afeta os demais.
• O desenvolvimento humano pode ser dividido por períodos, que é uma construção social.
• A teoria é usada para organizar e explicar dados e gerar hipóteses que possam ser testadas pela pesquisa.
• As teorias do desenvolvimento humano pautam-se em três racionalidades iniciais, são elas: inatismo, ambientalismo e o interacionismo.
• Para a Epistemologia Genética de Jean Piaget, o desenvolvimento ocorre por meio de mudanças qualitativas no pensamento entre a primeira infância e a adolescência, a partir de um processo maturacional e da interação da criança com o meio.
• Vygotsky desenvolveu a Teoria sócio-histórica, que considera a interação social central para o desenvolvimento cognitivo.