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DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL NA PRIMEIRA INFÂNCIA

No documento Ciclos de Vida e Aspectos (páginas 70-76)

TÓPICO 3 — ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DA INFÂNCIA

2.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL NA PRIMEIRA INFÂNCIA

“O meu filho nunca sorriu. O senhor acha isso normal, doutor? Uma criança de 7 anos que nunca sorriu?” A pergunta de Luísa, mãe de Pedro, foi uma das mais duras que o psiquiatra infantil Fabio Barbirato teve que escutar em 20 anos de profissão. Balão de São João, presente de Dia das Crianças, Papai Noel do shopping, bloco de Carnaval, férias escolares, passeio no parque: nenhuma situação corriqueira, que faria qualquer criança gargalhar, era capaz de trazer um sorriso ao rosto do filho. Luísa entrou desolada no Ambulatório de Psiquiatria Infantil da Santa Casa da Misericórdia, no Rio de Janeiro. Depois de cumprir um périplo por postos de saúde e hospitais, ouvir diferentes médicos e diagnósticos desencontrados, ela estava ali, diante de Fabio. Naquela manhã nublada, Luísa era a síntese de sentimentos contraditórios:

desilusão e esperança; cansaço e expectativa. O filho sentado ao seu lado, de cabeça baixa, alheio à conversa dos adultos. Não era um caso simples. Pedro carregava um histórico que já seria bastante pesado para qualquer adulto, ainda mais para uma criança. Antes dos 4 anos, havia tentado se atirar da varanda da avó. Aos 5, ameaçou passar na frente de um ônibus em movimento (BARBIRATO; DIAS, 2019, p. 30).

Como podemos explicar os comportamentos de Pedro? Uma compreensão possível é entender seu desenvolvimento psicossocial. O desenvolvimento psicossocial é constituído pela interação entre a personalidade, caracterizada pela forma singular e relativamente duradouro de uma pessoa sentir, reagir e se comportar, e pelo social, que são às mudanças nos relacionamentos com os outros (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Assim, ao estudarmos o desenvolvimento psicossocial das crianças de 0 a 3 anos descreveremos sobre as principais características para o desenvolvimento da noção do eu e, da formação de relacionamentos significativos e efetivos com outras pessoas.

Emoção é uma sequência complexa de reações a um estímulo do meio, incluindo a avaliação cognitiva, mudanças subjetivas, mudanças fisiológicas, impulsos para ação, e comportamentos direcionados a ter um efeito sobre um estímulo que iniciou a reação (PLUTCHIK, 1982). Por exemplo, ao ver uma cobra (estímulo) uma pessoa avalia como algo perigoso (avaliação cognitiva), ocorre a aceleração dos seus batimentos cardíacos (mudanças fisiológicas) e ela sai correndo. Dessa forma, as emoções são importantes para nossa proteção, bem como sinalizam como o meio interfere sobre nós, sendo um guia por permitir aos indivíduos avaliar o perigo, ativar comportamentos, comunicar-se e se conectar aos outros. O padrão característico de reações emocionais é um elemento básico da personalidade, o qual começa a se desenvolver durante a primeira infância (PAPALIA; FELDMAN, 2013).

As pessoas diferem no modo e na intensidade que sentem emoções, de como reagem às emoções e o que causa suas emoções. Além disso, a cultura influencia o modo de lidarmos com as emoções, isto é, algumas emoções são

encorajadas e outras não aceitam (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Por exemplo, a tristeza em nossa cultura muitas vezes é percebida como sinônimo de fraqueza. E como se dá essa demonstração na primeira infância? Um bebezinho tem emoção?

Já no nascimento o bebê apresenta sinais de contentamento, interesse e aflição, por meio de respostas difusas e reflexas à estimulação sensorial ou a processos internos. Aproximadamente aos seis meses, esses estados emocionais iniciais se transformam em emoções: alegria, surpresa, tristeza, repugnância, e depois raiva e medo, as quais passam a serem reações a eventos que têm significado para o bebê. As emoções autoconscientes, como o constrangimento, a empatia e a inveja, surgem entre os 15 e 24 meses com o desenvolvimento da autoconsciência, que é a compreensão cognitiva de se ter uma identidade reconhecível, separada e diferente do resto de seu mundo. A autoconsciência permite que a criança se perceba como o foco da atenção, identifica-se com outras pessoas ou deseja o que outra pessoa tem. Por volta dos três anos, a criança torna-se mais capacitada para avaliar torna-seus próprios pensamentos e atitudes com relação àquilo que é considerado socialmente apropriado, desenvolvendo emoções autoavaliadoras como orgulho, culpa e vergonha (PAPALIA; FELDMAN, 2013).

Cabe mencionar que na primeira infância, a regulação emocional é realizada na relação com seus cuidadores, sendo que a criança tem dificuldades de lidar e controlar suas emoções.

Outro aspecto importante do desenvolvimento psicossocial é a constituição da personalidade. O desenvolvimento da personalidade é descrito por diferentes vertentes teóricas da psicologia; aqui enfatizaremos a Teoria psicossocial de Erik Erikson (1902-1994). A teoria do desenvolvimento psicossocial de Erikson abrange oito estágios ao longo do ciclo de vida, que serão abordados nos tópicos apropriados deste livro. Erikson foi um psicanalista alemão que modificou e ampliou a teoria freudiana, enfatizando influências culturais e históricas no desenvolvimento da personalidade e estendo o desenvolvimento da personalidade por todo o ciclo de vida. Cada estágio envolve aquilo que Erikson chamou de crise na personalidade, isto é, a existência de um conflito que sua resolução culminaria no desenvolvimento da personalidade. A resolução do conflito de cada fase requer o equilíbrio entre uma tendência positiva e uma tendência negativa correspondente, na qual deve predominar a qualidade positiva, porém é necessário um pouco da qualidade negativa para um desenvolvimento ideal. Embora cada conflito nunca venha a desaparecer completamente, caso o indivíduo responda à crise de maneira positiva; ele consegue enfrentar com sucesso os conflitos dos próximos estágios (PAPALIA; FELDMAN, 2013).

O primeiro estágio do desenvolvimento se refere à confiança básica versus desconfiança básica, que vai do nascimento a um ano. Nesse primeiro estágio, o bebê precisa desenvolver um equilíbrio entre confiança, que lhe permite formar relacionamentos íntimos, e desconfiança, que lhe permite proteger-se.

Se predominar a confiança, como deveria, a criança desenvolve a “virtude” da

esperança, passa acreditar que poderá satisfazer suas necessidades e desejos no mundo e nos seus relacionamentos com os outros. Se predominar a desconfiança, a criança verá o mundo como hostil e imprevisível e terá dificuldade para estabelecer relacionamentos (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Erikson acreditava que o comportamento do cuidador principal (geralmente a mãe) é essencial para a resolução do conflito desse estágio, sendo que as crianças que desenvolvem um senso de confiança firme são aquelas cujos pais são afetuosos e respondem previsivelmente e com segurança (BEE; BOYD, 2011).

No segundo estágio do desenvolvimento, entre os 2 e 3 anos, ocorre o conflito entre autonomia versus vergonha e dúvida. Em virtude das novas habilidades adquiridas, como andar e falar, a criança nessa fase terá maior mobilidade para desenvolver um senso de independência ou autonomia. Se os esforços de independência da criança não forem cuidadosamente conduzidos pelos pais e ela experimentar fracassos repetidos, os resultados podem ser vergonha e dúvida. Alguma dúvida é necessária para que ela entenda quais comportamentos são aceitáveis e quais não são, quais são seguros e quais são perigosos, mas o ideal é na predominância da autonomia (BEE; BOYD, 2011).

Já o desenvolvimento social tem início com o estabelecimento de um relacionamento emocional íntimo entre o bebê e seu principal cuidador, o qual será a base para o desenvolvimento das relações interpessoais futuras da criança, podendo determinar o modo como a criança se relacionará com o outro. Para refletimos sobre esse aspecto, é importante conhecermos a Teoria do Apego.

Desenvolvida por John Bowlby e Mary Ainsworth, a Teoria do Apego é o grande marco contemporâneo na Psicologia do Desenvolvimento, mudando a visão sobre o desenvolvimento infantil. Ao invés de um bebê passivo que necessitava apenas de satisfação de suas necessidades fisiológicas básicas como alimentação e higiene, passou-se a compreender a criança como um organismo ativo, buscando a atenção do cuidador e também com necessidades emocionais como proteção, carinho, contato, reconhecimento (REIS, 2019). Assim, Bowlby percebeu que para além de necessidades fisiológicas, um bebê tem necessidades emocionais, que precisam ser atendidas para que ele se desenvolva de uma maneira saudável.

Dessa forma, a qualidade da relação do bebê com sua principal figura cuidadora passou a ser vista como fundamental para o equilíbrio emocional e o desenvolvimento das habilidades de regulação emocional, pois o vínculo proporcionará ao bebê experimentar sentimentos de confiança e sensação de segurança e bem-estar, sendo de importância vital para seu desenvolvimento (REIS, 2019). É essencial para a saúde mental do bebê que ele e sua figura de apego sintam-se fortemente identificados dentro de uma relação calorosa, de modo que o bebê sente que é objeto de prazer e orgulho para a sua mãe, e a mãe sente uma expansão de sua própria personalidade na personalidade de seu filho (BOWLBY, 2006).

Portanto, um recém-nascido necessita desenvolver um relacionamento com, pelo menos, um cuidador primário para que seu desenvolvimento social e emocional ocorra bem. O bebê tem um aparato inato para responder a estímulos sociais, e se utiliza dele para garantir a proximidade com a mãe, desde o início da vida (REIS, 2019). Recém-nascidos formam vínculos se há alguém para interagir com eles, até mesmo se maltratados. Cabe mencionar, que esse vínculo é um processo que se estabelece de forma dual e gradual, no qual mãe e bebê participam ativamente, sendo que o bebê o influenciam por suas reações e temperamento. A partir da formação do vínculo surge o Sistema de Apego, que tem a função de aproximar a criança da figura de apego, a fim de obter proteção e apoio emocional.

O Sistema de Apego é ativado toda vez que existe uma quebra no equilíbrio entre o organismo e o ambiente, com alguma espécie de ameaça para a sobrevivência, o que gera reações na criança, visando a aproximação da figura de apego, que ao se aproximar estabelece o equilíbrio e o sistema é desativado (REIS, 2019).

Por exemplo, Lucas está sozinho em seu quartinho, se sente assustado, começa a chorar, sua mãe se aproxima, ele agarra-se a ela, se sente protegido, olha para ela, sorri e balbucia.

Quando um bebê começa a engatinhar e a andar, ele precisa das figuras de apego como uma base segura para explorar o ambiente e voltar em seguida.

Assim, o sistema de apego se torna uma base segura para que a criança explore e conheça o ambiente, ao perceber uma ameaça nesse ambiente a criança pode buscar pela figura de apego. As reações dos pais frente à busca de vínculo da criança levam ao desenvolvimento de padrões de apego; estes, por sua vez, levam aos modelos internos de funcionamento, que irão guiar as percepções individuais, emoções, pensamentos e expectativas em relacionamentos futuros.

O desenvolvimento do apego ocorre na primeira infância e determinará a forma da criança perceber e se relacionar com o mundo e com os outros, contudo, esse sistema é flexível, passível de alteração durante toda a vida. No nascimento até oito semanas é a fase de pré-apego, na qual a criança ainda não demonstra preferência por uma figura de apego específica. Dos dois aos oito meses é a fase de formação do apego, a criança começa a distinguir os cuidadores e pessoas próximas. Até os dois anos ocorre a definição do apego, que envolve comportamento mais ativo da criança, com busca de aproximação da figura de apego (REIS, 2019).

Pesquisas realizadas pela psicóloga do desenvolvimento Mary Ainsworth nas décadas de 1960 e 1970, reforçaram os conceitos da Teoria do Apego e introduziram o conceito de Base Segura, permitindo identificar padrões de apego em recém-nascido e posteriormente em adultos. Suas pesquisas foram empíricas, utilizando o Protocolo de “Situação Estranha”, principalmente na Escócia e Uganda (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Ainswoth identificou cinco formas de apego, conforme descritos no quadro a seguir.

QUADRO 6 – HABILIDADES MOTORAS NA SEGUNDA INFÂNCIA segura para exploração. Protesta contra a partida do cuidador e busca proximidade. Pode ser confortada por estranhos, mas prefere claramente o cuidador.

Reage de forma apropriada, rápida e consistente com as necessidades da não permitindo a tomada de riscos que levam aos passos da independência.

Apego Evitativo

Pouca troca afetiva em jogo. Pouca ou nenhuma irritação com a partida do cuidador, resposta pobre ou não visível ao seu retorno, ignorando ou afastando-se sem qualquer esforço para manter contato, se segurada. Trata o estranho de forma semelhante ao cuidador. A criança sente que não há Apego; portanto a criança é rebelde e tem baixa autoestima e autoimagem.

Incapaz de usar o cuidador como uma base segura, busca proximidade antes que a separação ocorra. Irrita-se com a separação com ambivalência, raiva, relutância a aconchegar-se ao cuidador.

Preocupa-se com a disponibilidade do cuidador, buscando contato, mas resistindo furiosamente quando é alcançado.

Inconsistente entre respostas apropriadas e negligentes. Geralmente, irá reagir apenas depois do aumento do comportamento de apego do recém-nascido.

Apego Desorganizado

Estereótipos como se sentisse frio ou balançasse ao retorno. Falta de estratégia de apego coerente demonstrada por associado a muitas formas de abuso contra a criança.

O Apego Seguro prematuro parece ter uma função protetora duradoura, pois crianças com Apego Seguro comparadas com aquelas com Apego Inseguro mostram-se mais competentes socialmente com seus pares. Crianças com apego inseguro, particularmente evitativas, são vulneráveis ao risco familiar. O padrão mais preocupante é o Desorganizado, cerca de 80% dos recém-nascidos que sofreram maus-tratos tornam-se desorganizados, sendo mais propensos a reação de agressividade ou evitação de vínculos sociais, bem como a se tornarem pais abusadores (WAINER, 2016).

Diante do exposto, podemos perceber que a família tem um papel fundamental no desenvolvimento infantil na primeira infância, pais e cuidadores que forneçam doses boas de afeto, carinho, segurança, conforto emocional e capacidade de acalmar as ansiedades e impulsividades da criança, possibilitam que a criança crie “base segura” para toda sua vida, no que se refere ao modo como lidará com os outros e sua estabilidade emocional (WAINER, 2016). Assim, é importante que os pais consigam satisfazer as necessidades da criança de cuidado, afeto, de aceitação e pertencimento, supridas por demonstração de afeto e validação das emoções.

Cabe mencionar que a família, igualmente, contribui com a construção da personalidade da criança, ao fornecerem modelos de como lidar, tanto em termos comportamentais como afetivos, com situações estressantes (WAINER, 2016). No primeiro ano, o bebê humano tem a tendência natural a se ligar a uma pessoa preferencial, após, gradativamente, novas figuras de apego vão entrando em cena, como irmãos e avós (REIS, 2019).

Além da família, o interesse por outra criança aumenta ao longo da primeira infância, especialmente após os doze meses. Nesse período, ocorre o ato de brincar paralelo, as crianças brincam sozinhas, mas mantêm um profundo interesse no que as outras crianças estão fazendo (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Entre os 15/18 meses, há a brincadeira social simples, as crianças se envolvem em atividades similares, falam, sorriem ou trocam brinquedos entre si (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Por volta dos dois anos, iniciam os jogos simbólicos, aqueles que envolvem o faz de conta, a fantasia e a imaginação, que são de extrema importância para o desenvolvimento cognitivo e social. Na primeira infância, a criança gosta da companhia de outras crianças, mas tem dificuldade em se relacionar com elas, podendo ocorrer comportamentos como briga por brinquedos ou morder o amigo (DIAS; CORREIA; MARCELINO, 2013).

O documentário “O começo da vida” (2016), dirigido por Estela Renner foi gravado em nove países e conta com a participação de especialistas na área da infância e de pais de crianças até dois anos. Nesse material, você poderá ver os aspectos fundamentais para o desenvolvimento humano nos primeiros mil dias de vida e como esse período é determinante para a vida adulta.

DICAS

3 SEGUNDA INFÂNCIA

Na segunda infância, período entre os 3 aos 6 anos, a criança está fazendo uma mudança lenta de bebê dependente para criança independente. A criança passa a se movimentar facilmente, se comunicar mais e mais claramente, têm um senso cada vez maior de si como uma pessoa separada com qualidades específicas e têm os rudimentos das habilidades cognitivas e sociais que permitem interagir mais completamente e com sucesso com seus pares (BEE; BOYD, 2011). Essas novas habilidades permitem que a criança deixe de usar a si mesma como a única estrutura de referência e se torne menos ligada a aparências físicas, não precisa mais do mundo físico para poder pensar sobre ele. Neste subtópico discutiremos como é uma criança na segunda infância.

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