MARIA GLAUCÍRIA MOTA BRASIL
A SEGURANÇA PÚBLICA NO
“GOVERNO DAS MUDANÇAS”:
moralização, modernização e participação
DOUTORADO
SÃO PAULO
2000
MARIA GLAUCÍRIA MOTA BRASIL
A SEGURANÇA PÚBLICA NO
“GOVERNO DAS MUDANÇAS”:
moralização, modernização e participação
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência para obtenção do título de DOUTORA em Serviço Social.
Orientadora: Profa. Dra. Myrian Veras Baptista
SÃO PAULO
2000
COMISSÃO JULGADORA
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
________________________________________________
À professora Teresa Maria Frota Haguette (in memoriam)
Mulher de fibra que orientou toda uma geração de pesquisadores com a determinação e a fascinação que só os apaixonados pela pesquisa social conhecem.
AGRADECIMENTOS
A realização deste trabalho não se deve apenas à minha paixão de pesquisadora mas, principalmente, à colaboração que recebi de pessoas e instituições. Por esta razão agradeço a todos de maneira particular:
à Profa. Dra. Myrian Veras Baptista, pela orientação competente, minuciosa, marcada pelo vínculo do respeito humano e do compromisso ético-profissional e por ter acreditado numa aluna desconhecida, entre tantas, como na música, sem amigos importantes e vinda do interior;
à Profa. Dra. Maria Lúcia Martinelli, pela sua capacidade de olhar espelhos humanos com o sabor do real e do inacreditável;
ao Prof. Dr. César Barreira, pela orientação compartilhada como fala serena de quem tece uma etnografia de todos os dados sem perder nenhum porque a todos atribui relevância;
ao CNPq, pelo suporte financeiro que ajudou na realização deste trabalho de tese;
às pessoas entrevistadas, pela compreensão e presteza com que aceitaram ser entrevistadas;
ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pelo apoio profissional;
à querida amiga Conceição Pio, pelo apoio amplo, geral e irrestrito e em nome de quem agradeço aos demais colegas da Universidade Estadual do Ceará;
àqueles que não foram nominados, pela ajuda direta e indireta que recebi na construção de todo este trabalho de tese.
Por fim, de maneira mais que especial, ao meu marido Aldir e à minha filha Clarice, a quem amo mais que ao sol, pelo tempo roubado em que deixamos de estar juntos.
Sempre se perde o essencial.
É uma lei de toda palavra sobre o nume.
Jorge Luis Borges (1899-1986)
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS
... 12LISTA DE TABELAS
... 14LISTA DE ABREVIATURAS
... 15Resumo
... 20INTRODUÇÃO
... 21CAPÍTULO 1 A CONSTITUIÇÃO POLÍTICO-HISTÓRICA DOS DISPOSITIVOS DE SEGURANÇA PÚBLICA DO CEARÁ
1 A trajetória dos dispositivos de segurança pública na formação do Estado brasileiro... 321.2 A criação da Chefatura de Polícia... 43
1.2.1 A Chefatura de Polícia do Ceará... 45
1.3 A composição dos dispositivos de segurança pública do Ceará... 53
1.3.1 Do Corpo de Polícia à Polícia Militar... 54
1.3.2 Da Guarda Cívica à Polícia Civil... 59
1.3.3 Da Secretaria de Polícia e Segurança Pública à Secretaria da Segurança e Defesa da Cidadania... 64
1.3.3.1 A Secretaria de Polícia e Segurança Pública... 65
1.3.3.2 A Secretaria de Segurança Pública... 66
1.3.3.3 A Secretaria da Segurança Pública e Defesa da Cidadania... 72
1.4 “Entre o passado e o futuro”... 80
CAPÍTULO 2 A REDEMOCRATIZAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO E O “GOVERNO DAS MUDANÇAS”
2 A abertura política do regime militar... 872.1 “O(caso) dos coronéis” no Ceará... 88
2.2 A candidatura das “ mudanças”... 90
2.3 Os governos democráticos e o Estado de Direito... 93
2.4 A segurança pública no “Governo das Mudanças”... 104
2.4.1 Fotos e fatos de uma história recente... 105
2.4.1.1 Tortura na delegacia (1993)... 105
2.4.1.2 Crime de execução sumária (1995)... 107
2.4.1.3 Denúncia de corrupção na polícia (1997)... 108
2.4.1.4 Insatisfação e greve na polícia (1997)... 110
2.4.1.5 O cerco da polícia ao MST (1997)... 113
2.4.1.6 Rebelião no IPPS (1997)... 116
2.4.1.7 Policiais envolvidos com a prostituição infanto
juvenil... 120 2.4.1.8 A violência policial contra trabalhadores rurais na
localidade de Peixe Gordo... 121 2.4.1.9 Espancamento e morte de Lisley... 124 2.4.1.10 Corrupção e enriquecimento ilícito no alto comando
do Corpo de Bombeiros... 130
CAPÍTULO 3
CRISES NA SEGURANÇA PÚBLICA DESAFIAM O “GOVERNO DAS MUDANÇAS”
3 Momentos de crises e mudanças no dispositivo de
segurança pública do Ceará... 140 3.1 Tortura na delegacia: “ policiais civis são flagrados
torturando” o pedreiro Antônio Ferreira Braga... 143 3.2 Corrupção no aparelho policial: O “Caso França”... 160 3.3 Diferenças e descontinuidades no “ Governo das
Mudanças” ao enfrentar as crises na área da segurança
pública... 173 3.3.1 O governo Ciro Gomes (1991-1994)... 175 3.3.2 O governo Tasso Jereissati (1995-1998)... 180
CAPÍTULO 4
A POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA NA
“GOVERNAMENTALIZAÇÃO” DO “GOVERNO DAS MUDANÇAS”
4 A racionalidade do “Governo das Mudanças”... 208
4.1 A modernização e o modelo modernizador “mudancista”... 211
4.2 As práticas discursivas e as ações governamentais que constituem a política de segurança pública do Ceará... 217
4.2.1 Ações político-moralizadoras... 218
4.2.2 Ações técnico-modernizantes... 229
4.2.3 Ações de participação comunitária... 245
4.3 Os desafios que continuam postos... 253
CONSIDERAÇÔES FINAIS
... 261REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
... 284Anexos 1... 319
Anexos 2... 320
Abstrat... 322
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Fotografia do flagrante de tortura do pedreiro Antônio
Ferreira Braga na DFR (Evilázio Bezerra, 1993). 105 Figura 2 - Fotografia do julgamento dos primeiros seis PMs acusados
de matar o vigia das Lojas Paraíso, com dezesseis tiros, no banheiro do convento dos frades capuchinhos (José
Leornar, 1998). 107
Figura 3 - Fotografia do agente da Polícia Civil, João Alves de França, responsável pelas denúncias do denominado "Caso
França" (Edmundo de Souza, 1997). 109
Figura 4 - Fotografia de um soldado que teria atirado no coronel Mauro Benevides na greve das polícias civil e militar, em
junho de 1997 (Evilázio Bezerra, 1997). 110
Figura 5 - Fotografia do cerco da PM ao acampamento do MST na avenida Bezerra de Menezes, em julho de 1997 (Evilázio
Bezerra, 1997). 113
Figura 6 - Fotografia do cenário ao final da perseguição da policia aos detentos fugitivos do IPPS, em dezembro de 1997
(Chico Gadelha, 1997). 116
Figura 7 - Fotografia de duas crianças envolvidas com a prostituição
na cidade de Fortaleza, 1999 (Stênio Saraiva, 1999). 120 Figura 8 - Fotografia dos trabalhadores rurais que ocuparam a Br
116, reivindicando ajuda do Governo estadual, e que foram retirados à força e espancados pela PM (Evilázio
Bezerra, 1998). 121
Figura 9 - Fotografia de Márcio, irmão do tecelão Lisley, verificando a CP-601 usada pelos PMs acusados de espancar e causar a morte do seu irmão, em janeiro de 1999 (Mauri MeIo,
1999). 124
Figura 10 - Fotografia do ex-comandante do Corpo de Bombeiros Militar, coronel Leonel Alencar, acusado pelo major BM Feitosa de cometer uma série de irregularidades
(Alcebíades Silva, 1999). 130
Figura 11 - Mapa delimitando as área dos distritos-modelos e a situação de instalação em cada área (Coordenação dos
DMs-SSPDC). 232
Figura 12 - Gráfico de acompanhamento do perfil de investimento feito pelo Estado do Ceará na área de segurança pública nos últimos 12 anos (1987 a 1999) (Balanço Geral do Estado- TEC e ALEC-Gabinete do deputado João
AlfredoPT). 236
Figura 13 - Representação esquemática do processo de apoio às atividades operacionais realizadas pelo CIOPS (Jornal O POVO, 1.6.1998, p.7F; Diretoria de Tecno1ogia da
Inforrnação-SSPDC). 240
LISTA DE TABELAS
Tabela l - Registro das ocorrências policiais do DM1 ( Conjunto Ceará)
nos primeiros seis meses de sua instalação.
231
Tabela 2 - Despesas orçamentárias totais do Estado nos últimos 25 anos (1974 a 1999) e as perdas progressivas que vem sofrendo a área da segurança pública.
235
Tabela 3 - Investimentos feitos na aquisição de viaturas e equipamentos, Construções e reformas de quartéis e delegacias nos anos de 1997 a 2000.
238
LISTA DE ABREVIATURAS
AI = Anistia Internacional
AFIS = Automatic Fingerprint Identification System BEC = Banco do Estado do Ceará
BPM = Batalhão da Polícia Militar
BID = Banco Interamericano de Desenvolvimento
BIRD = Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento(Banco Mundial)
BCPM = Batalhão de Choque da Polícia Militar BPTRAN = Batalhão de Polícia de Trânsito CE = Ceará
CEDH = Conselho Estadual de Direitos Humanos COPOM = Central de Operações da Polícia Militar CG = Comando Geral
CBM = Corpo de Bombeiros Militar CF = Constituição Federal
CCS = Conselho Comunitário de Segurança CGPC = Corregedoria Geral da Polícia Civil
CDH-OAB-CE = Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil-Ceará
CDHC-ALEC = Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará
CGOSPDC = Corregedoria Geral dos Órgãos de Segurança Pública e Defesa da Cidadania
CAOCEAP = Centro de Apoio Operacional e Controle Externo da Atividade Policial
CONSESP = Conselho Estadual de Segurança Pública CCDS = Conselho Comunitário de Defesa Social CIOPS = Centro Integrado de Operações de Segurança CP = Carro Policial
CG = Ciro Gomes
CENIMAR = Centro de Informação da Marinha
CEJIL = Centro pela Justiça e pelo Direito Internacional CIC = Centro Industrial do Ceará
CORPVS = Corpo de Vigilantes Particulares Ltda.
CPI = Comissão Parlamentar de Inquérito CEL = Coronel
CPDOC = Centro de Pesquisa e Documentação (FGV)
CDPH = Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza
CP = Código Penal
DOI-CODI = Destacamento de Operações e Informações-Centro de Operações de Defesa Interna
DOPS = Departamento de Ordem Política e Social DGPC = Delegacia Geral de Polícia Civil
DD = Delegacia Distrital DM = Distrito-Modelo
DPM = Departamento de Polícia Metropolitana DEP = Departamento Especial de Polícia DFR = Delegacia de Furtos e Roubos
DFRV = Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos DIC = Divisão de Investigações Criminais
DIP = Departamento de Investigações Policiais DETRAN = Departamento Estadual de Trânsito
DNOCS = Departamento Nacional de Obras Contra as Secas ECA = Estatuto da Criança e do Adolescente
ETTUSA = Empresa de Trânsito e Transporte Urbano S.A
EMATERCE = Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará FLACSO = Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais
FIEC = Federação das Indústrias do Estado do Ceará
FACIC = Federação das Associações do Comércio Indústria e Agricultura do Ceará
FHC = Fernando Henrique Cardoso
GAJOP = Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares GPS = Sistema de Geoposicionamento por Satélite
GATE = Grupo de Ações Táticas Especiais GEN = General
IBGE = Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPM = Inquérito Policial Militar
IPPS = Instituto Penal Paulo Sarasate II = Instituto de Identificação
IC = Instituto de Criminalística IML = Instituto Médico Legal
IPLANCE = Instituto de Planejamento do Ceará
INFOSEG = Programa Nacional de Informações Criminais MDB = Movimento Democrático Brasileiro
MST = Movimento dos Sem Terra
MCM = Meios de Comunicação de Massa MJ = Ministério da Justiça
MP = Ministério Público
MNDH = Movimento Nacional de Direitos Humanos
NEV-USP = Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo OGE = Ouvidoria Geral do Estado
OEA = Organização dos Estados Americanos OAB = Ordem dos Advogados do Brasil OBAN = Operação Bandeirante
ONG = Organização Não Governamental ONU = Organização das Nações Unidas
OPS = Seção de Segurança Pública PA = Pará
PM = Polícia Militar PC = Polícia Civil
PNDH = Plano Nacional de Direitos Humanos PEDH = Plano Estadual de Direitos Humanos PC do B = Partido Comunista do Brasil PC = Partido Comunista
PSDB = Partido da Social Democracia Brasileira PSB = Partido Socialista Brasileiro
PNAD = Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílio PNUD = Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PMDB = Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PDT = Partido Democrático Trabalhista PSD = Partido Social Democrático PDS = Partido Democrático Social PT = Partido dos Trabalhadores PFL = Partido da Frente Liberal PTB = Partido Trabalhista Brasileiro PGJ = Procuradoria Geral da Justiça PGE = Procuradoria Geral do Estado PTN = Partido Trabalhista Nacional
PROVITA = Programa de Proteção de Testemunhas e Familiares de Vítimas de Violência
RO = Rondônia RJ = Rio de Janeiro
SSPDC = Secretaria da Segurança Pública e Defesa da Cidadania SSP = Secretaria de Segurança Pública
SIP = Sistema de Informação Policial SIC = Sistema de Informação Criminal
SINDES = Sistema Integrado de Defesa Social
SINPOCI = Sindicato dos Policiais Civis do Ceará
SINDEPOL = Sindicato dos Delegados de Polícia Civil do Ceará TJC = Tribunal de Justiça do Ceará
TJ = Tasso Jereissati
UDN = União Democrática Nacional
BRASIL, M. G. M. A segurança pública no “Governo das Mudanças”:
moralização, modernização e participação. São Paulo, 2000. 323p. Tese (Doutorado em Serviço Social) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social. 2000. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
RESUMO
A presente tese tem como objetivo fazer uma análise histórico-investigativa da articulação das práticas discursivas com a materialidade das ações de governo que constituem a política estadual de segurança pública do Ceará, circunscrita no período de 1987 a 1999, que compreende o Governo das Mudanças. É, ainda, um estudo comparativo de dois momentos de crises vividos pelos aparelhos policiais no Ceará, primeiro no governo Ciro Gomes (1991-1994) e segundo no governo Tasso Jereissati (1995-1998). Em seguida a pesquisa se afunila na compreensão e análise da racionalidade das ações de governo operadas no período de 1997 a 1999, uma vez que estas teriam o objetivo de enfrentar o segundo momento de crise dos aparelhos policiais e alterar o perfil da segurança pública no Estado através da implementação de um conjunto de reformas e mudanças (Projeto Ceará Seguro) para o setor com feições de política pública. Em todo esse processo observou-se que o tripé moralização, modernização e participação não foi articulado com êxito na segurança pública; uma vez que a ausência da participação ativa da sociedade civil foi e continua sendo o principal ponto de estrangulamento das ações implementadas na área da segurança pública, considerando, ainda, que estas ações seguem um modelo próprio e de pouca plasticidade, orientadas por um modelo externo de segurança pública contratado à First Security Consulting.
Palavras-chave: segurança pública, práticas discursivas, ações de governo, participação comunitária, político-moralizadora técnico-modernizadora, discurso de verdade.
INTRODUÇÃO
A perplexidade diante de determinados acontecimentos reveladores do arbítrio, da violência e dos muitos ilícitos em que estão envolvidos os aparelhos policiais na história recente e atual do Brasil e, de modo específico, do Ceará, nos desafiou a compreender e a explicar a racionalidade político- institucional desses dispositivos. É um desafio que acabou por nos colocar frente às práticas discursivas, às ações de governo e aos regimes de poder e verdade que têm constituído e efetivado a chamada política de segurança pública do Governo das Mudanças, no Ceará.
A partir desse desafio, elaboramos um projeto de pesquisa com o objetivo de realizar uma análise histórico-investigativa da articulação das práticas discursivas com a materialidade das ações governamentais que constituem a política estadual de segurança pública do Ceará, inscrita no período de 1987 a 1999, ou melhor, nos últimos treze anos do governo mudancista no Ceará.
A realização deste projeto de pesquisa nos ensejou, não apenas a ocasião de trabalhar uma temática relevante e atual que, inegavelmente, entrou na agenda política do País, mas, sobretudo, nos possibilitou a oportunidade concreta de (re)encontrar a temática sobre a qual iniciamos nosso trabalho de pesquisa na academia e que sempre nos apaixonou pela complexidade que envolve suas problemáticas como objeto de busca no âmbito das políticas públicas e da realidade político-social brasileira. Como outro motivo, acrescentamos o fato de que, durante muito tempo, foi indiscutivelmente uma temática maldita e olhada com desconfiança e preconceito, quer pela pouca nobreza que lhe era atribuída pelo establishment intelectual de uma determinada época, quer pelo perigo que
poderia representar a pesquisa do tema num período da história recente do País, controlado por uma ditadura militar que se assentava indiscriminadamente no uso da força e da repressão violenta, a cargo dos dispositivos de segurança pública que, de uma maneira ou de outra, estaria referida, como ainda hoje continua, a esses anos de exceção e arbítrio que marcaram e continuam marcando, de certa forma, as estruturas de funcionamento dos aparelhos policiais na sociedade brasileira.
É, portanto, a partir dessas questões iniciais que situamos não só a relevância de discutir a temática segurança pública hoje, mas, principalmente, a necessidade de compreender, sobretudo, a racionalidade dos regimes de verdade e poder, operada pelo Governo das Mudanças e pelos dispositivos de segurança pública em seu projeto de governamentalização da sociedade. Trata-se de estratégias políticas de um governo que tem com alvo a população e a responsabilidade de garantir a ordem e a segurança pública, ora pelo controle das relações sociais (Foucault, 1986, 1990), ora pela capacidade deste governo em pacificar os espaços sociais (Elias, 1997) como detentor legal do monopólio da força no Estado (Weber, 1999).
No decurso de gestação deste trabalho de tese acabamos alterando e repensando os procedimentos teóricos e metodológicos eleitos ao longo do desenvolvimento da pesquisa de campo e dos seus resultados, ou seja, a realidade empírica redirecionou o tempo todo a investigação, quer pela dinâmica e complexidade da realidade pesquisada, quer pelos limites a que estamos sujeitos diante de determinados objetos, marcados pela fecundidade ou pela esterilidade de informações sobre fatos e acontecimentos pesquisados, quer pela nossa pouca experiência diante do inesperado e até surpreendente.
Desta maneira, a análise histórico-investigativa inscrita no período de 1987 a 1999, se fez, inicialmente, a partir de dois recortes dentro deste espaço de tempo, compreendendo respectivamente dois momentos de crises
vividos pelos disposivos de segurança pública do Ceará. O primeiro em 1993, durante o governo Ciro Gomes (1991-1994) e o segundo em 1997, no segundo governo Tasso Jereissati (1995-1998), com o objetivo explícito de realizar um estudo comparativo desses dois momentos de crises, compreendendo-os como elementos pertencentes à representação Governo das Mudanças.
Em seguida, a pesquisa acabou mais restrita ao período de 1997 a 1999, determinada pelo necessidade de acompanhar o desenrolar dos acontecimentos que constituíram aquele segundo momento de crise vivido pelo aparelho policial e pelo fato de as ações de governo, iniciadas em 1997 para enfrentar aquela mesma crise, não terem sido interrompidas com o final do segundo governo Tasso Jereissati e o início do seu terceiro governo como ocorreu no de Ciro Gomes. Ou seja, observamos que havia um continuous nas ações de governo para a área da segurança pública e que o projeto de reformas e mudanças iniciado para enfrentar a crise dos aparelhos policiais, em 1997, não havia sido interrompido. Pelo contrário, tinha como objetivo alterar o perfil da segurança pública no Estado e passou a fazer isso através da implementação de uma política estadual de segurança pública.
Por outro lado, ao dar prosseguimento às pesquisas, constatamos que todo esse processo se fazia sem a participação da sociedade civil e a partir de um modelo próprio e de pouca plasticidade, tendo com referência uma consultoria externa contratada à First Security Consulting (no valor de meio milhão de dólares). Esta fato nos levou, ainda, a perceber e a pensar a pesquisa como acontecimentos em movimento, quando as coisas estavam acontecendo numa velocidade que nos fazia sempre (re)pensar o que acabavamos de pensar e é fácil perceber nos últimos capítulos que tivemos muita dificuldade em delimitar nossas análises e reflexões ao ano de 1999, entendendo esse limite apenas como um recorte imaginário e pouco preciso na investigação.
A pesquisa de campo que subsidiou todo este trabalho de tese se desenvolveu em quatro momentos: primeiro, a realização de entrevistas exploratórias, com testemunhas privilegiadas e interlocutores ligados direta e indiretamente aos dispositivos de segurança pública e a luta em defesa dos direitos humanos, seguida de entrevistas com informantes chaves; segundo, a utilização de arquivos de jornais, de dados coletados e trabalhados por outros pesquisadores e consulta a documentos oficiais; terceiro, a leitura diária de determinados periódicos para acompanhar o desenrolar dos fatos relacionados à política estadual de segurança pública nos últimos três anos; e quarto, a elaboração de um diário de campo.
Nesse processo de coleta de dados, acabamos privilegiando a utilização de indicadores de arquivos de jornais, trabalhos de estudiosos e pesquisadores e usando a entrevista primeiro como fonte exploratória e segundo para checar informações. Foram realizadas ao todo 20 entrevistas semi- estruturadas e abertas (ANEXO 1) com 20 testemunhas privilegiadas e informantes chaves (ANEXO 2). A escolha dos entrevistados foi intencional e levou em conta a relação que estes mantinham com a temática pesquisada e até mesmo o papel de destaque e o grau de influência que estes mantiveram e/ou mantinham com a discussão e/ou a elaboração da política estadual de segurança pública. Em nossos contatos com os entrevistados (feitos diretamente ou por intermédio de um conhecido comum), assumimos o compromisso de entregar uma via da entrevista transcrita para que o entrevistado fizesse as correções e as alterações que achasse necessárias e, antes do inicio das entrevistas, mostrávamos os roteiros destas e informávamos que, se não quisessem falar sobre determinados assuntos não haveria problema. Ainda com relação aos entrevistados, é bom referir, embora tendo enfrentado dificuldades para marcar entrevistas com determinadas autoridades, todos os entrevistados, sem exceção, acolheram com misto de admiração a realização da presente tese e até de satisfação em estarem participando da pesquisa. Houve até mesmo uma autoridade ligada ao Judiciário
que indagou, em tom descontraído: Como você pode pesquisar o que não existe(a política de segurança pública)?
A presente tese se constitui de quatro capítulos. O primeiro trata da constituição político-histórica dos dispositivos de segurança pública no Brasil, de modo mais específico no Ceará, em cinco períodos históricos, e tem como referências básicas, além do pensamento de Foucault(1983,1986,1990), as obras clássicas de Sodré (1979), Uricoechea (1978), Victor (1943), Faoro (1985), Souza (1950) e os trabalhos mais recentes de Fernandes (1973), Bicudo (1984), Holanda (1987), Pinheiro (1990, 1991 a, 1995), Dallari (1992), Lemenhe (1995), Adorno (1996, 1998), Barreira (1998), e Ponte (1999).
O primeiro período histórico está colado à dominação portuguesa no Brasil, que tinha a missão de assegurar a empresa da colonização.
Ou ainda, ...apossar-se do território, manter o território e expandir a conquista do território. (Sodré, 1979: 59). Na Colônia a defesa do território e os interesses da Metrópole se fizeram pela organização e constituição dos seguintes dispositivos de segurança: as Ordenanças; os Terços lusos e espanhóis; as Bandeiras e as Milícias.
O segundo está relacionado à vinda de D. João ao Brasil e à posterior criação da Intendência Geral de Polícia da Corte e do Estado Geral do Brasil, pelo príncipe Regente, através do alvará de 10 de maio de 1808. Esta fase antecede à criação da Chefatura de Polícia, sendo marcada pelas primeiras tentativas de constituição de um organismo destinado aos serviços de polícia que desobrigassem o Exército Nacional de tais serviços, que traziam enormes problemas ao governo e geravam descontentamentos entre os seus oficiais.
O terceiro se inicia com a criação da Chefatura de Polícia no Brasil, em 1814 e, no ano seguinte, na Província do Ceará. A Chefatura de Polícia
do Ceará se caracteriza durante toda sua existência pela disputa político- administrativa que manteve com a Secretaria de Polícia do Estado (Secretarias de Polícia foram regulamentadas no Império em 1857), no que se refere à direção dos serviços de Polícia. Havia uma alternância quase que constante no comando dos serviços policias, isto é, do dispositivos responsáveis pela direção da Polícia no Estado. Essa escolha ou predileção dependia de decisão do presidente da província na época ou do governador, orquestrada pelas disputas dos clãs oligárquicos. Esse fato levou-nos a ter, em determinado momento, a Chefatura de Polícia como responsável maior pelos serviços de Polícia no Estado e, em outros, a Secretaria de Polícia. Isso ocorreu basicamente entre os anos de 1890 (ano em que o Código Penal retirou das Chefaturas de Polícia as suas atribuições criminais, dando aos Estados a responsabilidade de organizar suas polícias) e 1937 (ano da extinção da Chefatura de Polícia e criação e consolidação da Secretaria de Polícia e Segurança Pública, pelo Interventor Francisco de Menezes Pimentel).
Nesses períodos de estruturação da administração policial do Estado, a Polícia, como Força Pública, era formada em 1918 pela Guarda Cívica, que foi criada em 1889, e pelo Regimento de Infantaria, que teve seu embrião no Corpo Policial do Ceará, criado em 1835. Eram esses dispositivos responsáveis pela execução dos serviços de polícia, no período que compreende a criação e extinção da Chefatura de Polícia do Ceará. No Brasil, até a República, os serviços de polícia foram exercidos pelas seguintes instituições: Ordenanças, Terços, Milícias Municipais, Permanentes e Guarda Nacional. Agregados aos serviços dessas instituições estavam os dragões, caçadores, legiões, pedestres e entidades paramilitares.
O quarto período tem como parâmetro a extinção da Chefatura de Polícia e a criação da Secretaria de Polícia e Segurança Pública (1937) e a posterior criação da Polícia Civil de Carreira (1948). Esta incorporou a Guarda Civil (1928), embora alguns digam ser ela o “embrião” da atual Polícia Civil do
Estado. Os guardas civis são absorvidos pela estrutura funcional e administrativa da Secretaria de Polícia e Segurança Pública, reestruturada no segundo governo do coronel Virgílio Távora (1979-1982), passando a denominar-se Secretaria de Segurança Pública (1981).
O quinto período é marcado pela extinção da Secretaria de Segurança Pública, no segundo governo do empresário Tasso Jereissati (1995- 1998), e criação da Secretaria da Segurança Pública e Defesa da Cidadania (1997), que modificou toda a composição anterior do dispositivo de segurança pública do Estado do Ceará. Foi uma mudança impulsionada pela necessidade político-administrativa do Governo estadual em “moralizar” e “modernizar” o dispositivo de Segurança Pública, mergulhado em graves e sérias denúncias de corrupções, assassinatos, estelionatos, assaltos e outras práticas criminosas envolvendo policiais civis e militares, e a cúpula da segurança pública do Estado do Ceará.
O segundo capítulo aborda inicialmente a redemocratização do Estado brasileiro como pano de fundo da vitória da candidatura das mudanças contra a candidatura dos coronéis ao Governo do Ceará em 1986, para, em seguida, tendo como principais interlocutores Pinheiro (1991, 1996, 1997), Pinheiro & Mesquita (1997), Adorno (1996, 2000), O’Donnel (1988, 1993) e Gondim (1998), discutir os desafios colocados aos governos democráticos com relação à autonomia dos aparelhos policiais e à necessidade de reformulação e adequação de suas estruturas de poder às exigências do Estado de Direito. O Governo das Mudanças, como os demais governos que assumiram pós-regime militar, passou a conviver com as constantes denúncias de truculência, violência, arbítrios e ilícitos que têm caracterizado, até hoje, muitas das ações policiais num continuous de total indiferença à nova ordem democrática do País. A discussão busca compreender e explicar como esses mesmos governos, comprometidos com o Estado democrático de Direito, passaram a enfrentar os desmandos e os crimes das polícias estaduais. No caso específico do Ceará, como o governo mudancista,
à frente do Executivo estadual há treze anos (1987-1999), vem enfrentado essa difícil tarefa que está posta por analistas políticos, e até mesmo por alguns setores governamentais, como o seu calcanhar de Aquiles e que tem levado este mesmo governo ao descrédito junto às entidades de direitos humanos nacionais e internacionais e à população em geral.
O terceiro capítulo está delimitado à análise comparativa de dois momentos de crises ocorridos durante os governos Ciro Gomes (1991-1994) e Tasso Jereissati (1995-1998) no dispositivo de segurança pública do Ceará e de como estes governos enfrentaram os referidos momentos.
A primeira crise explodiu em 21 de abril de 1993, no governo Ciro Gomes, quando policiais civis foram flagrados por parlamentares, representantes de entidades de direitos humanos, da OAB-CE e da imprensa, torturando o pedreiro Antônio Ferreira Braga, algemado e enrolado num tapete, no chão de uma das salas da Delegacia de Furtos e Roubos–DFR, para que confessasse o furto de um televisor. Um horror que acabou denunciado em fotos pela imprensa local, nacional e internacional, obrigando o governador Ciro Gomes a demitir o então secretário de Segurança Pública, delegado Francisco de Araújo Crisóstomo.
A discussão desses acontecimentos se faz a partir de uma análise compreensiva das práticas discursivas e das ações de governo, subsidiada pela analítica do discurso de verdade, pelas relações de poder em Foucault (1986, 1996) e pela análise do discurso como redes de significados da fala e do habitus em Bourdieu (1990, 1998a, 1998b).
A segunda crise ocorreu em 20 de janeiro de 1997, no segundo Governo de Tasso Jereissati, quase quatro anos depois do primeiro momento de crise, quando o agente da Polícia Civil, João Alves de França, ao ser preso com um carro roubado, denunciou o envolvimento de policiais civis e militares numa
rede de corrupções e práticas criminosas, apontando, ainda, como um dos líderes dessa rede de crimes o ex-secretário de segurança pública do governo Ciro Gomes, Francisco Quintino Farias, que na época das denúncias ocupava o cargo de Delegado-Geral da Polícia Civil, e grande parte da cúpula da segurança pública.
A análise comparativa e explicativa dessas duas conjunções de fatos se constituiu a partir da discussão e compreensão acerca da racionalidade das práticas discursivas e das ações governamentais operadas no dispositivo de segurança pública do Estado, tendo como referencial o processo de governamentalização da sociedade (Foucault, 1990) cearense operado pelo Governo das Mudanças ou pela sua política geral de verdade (Foucault, 1986).
O quarto e último capítulo é um prolongamento do terceiro porque persiste na compreensão e análise da racionalidade das práticas discursivas e das ações de governo que constituem o projeto de reformas e mudanças para a área da segurança pública ou o que seria a política de segurança pública no modelo modernizante do Governo das Mudanças como projeto de uma determinada governamentalização.
A discussão em questão é intermediada pelos trabalhos de Foucault (1986, 1990), Habermas (1983), Faoro (1992), Gondim (1998), Weber (1999) e Souza (1999), delimitada ao período de 1997 a 1999, os dois últimos governos Tasso Jereissati, e busca especificamente a compreensão e análise de três ações específicas e concomitantes que demarcam as chamadas reformas e mudanças implementadas na área da segurança pública e no seu entorno. A primeira tipificamos de ações político-moralizadoras (compreendem a nomeação, pelo governador TJ, de uma “Comissão Especial”, sob a presidência do Procurador-Geral da Justiça, para apurar as denúncias do “Caso França”, seguida da decisão político-administrativa deste governo de criar a Secretaria de Segurança Pública e Defesa da Cidadania e unificar o comando da segurança
pública no Estado. Depois, a criação e o desenvolvimento de mecanismos institucionais internos e externos aos aparelhos policiais de descentralização, controle e fiscalização de suas atividades como a Corregedoria Geral dos Órgãos de Segurança Pública e Defesa da Cidadania, os Conselhos Comunitários de Defesa Social, a Ouvidoria Geral do Estado, o Conselho Estadual de Direitos Humanos e o Centro de Apoio Externo e Controle da Atividade Policial).
A segunda denominamos de ações técnico-modernizantes ou modelo externo de combate à criminalidade (relacionada à contratação do projeto de consultoria externa de Mister William Bratton, responsável direto pelo projeto de execução e implantação dos distritos-modelos, e reforço da implantação do projeto de modernização e informatização do sistema de segurança pública do Estado, coordenado pela Diretoria de Tecnologia da Informação da SSPDC através do uso de tecnologias de satélite, fibra ótica e radiocomunicação). A terceira classificamos de ações político-comunitárias ou a tentativa do comando da segurança pública em estabelecer canais de articulação e participação comunitária através da criação e disseminação dos Conselhos Comunitários de Defesa Social por todo o Estado do Ceará.
Essas ações demarcam as diretrizes básicas que norteiam a política de segurança pública do governo Tasso Jereissati que chamamos de projeto de reformas e mudanças para a área da segurança pública e o Governo Estadual chama de Projeto Ceará Seguro. É, portanto, a partir da racionalidade operacional desse campo que analisamos as práticas discursivas e as ações governamentais que constituem a materialidade da política geral de verdade no projeto de reformas e mudanças para a área da segurança pública ou do que vem se constituindo na política estadual de segurança pública do governo mudancista para o Ceará.
Em nossas considerações finais, procuramos (re)colocar e até mesmo (re)discutir, buscando mais clareza, algumas questões abordadas ao longo do trabalho de tese, pensando muito mais numa conclusão reflexiva do nosso
tempo e campo de análise do que num remate definitivo de uma realidade que ainda se encontra em movimento e, portanto, entre o passado e o futuro e, por vezes, se confunde ora com o passado, ora com o presente, porque essa separação é pouco visível quando se trata do passado recente ou do passado que nem mesmo é passado. Trabalhar com fatos recentes é fazer pesquisa no movimento destes com a possibilidade de sermos envolvidos pela suas dinâmicas ao transformar sujeitos pesquisadores em sujeitos protagonistas de acontecimentos pesquisados.
Por fim, as sugestões apresentadas espelham indiscutivelmente as nossas concepções políticas e a nossa visão de mundo e, portanto, representam uma determinada perspectiva frente a uma realidade que é muito maior do que o recorte que nela operamos para inferir nossas compreensões e análises sobre a política de segurança pública do Governo das Mudanças e que inegavelmente se articulam a partir de um discurso de verdade e não da verdade como conceito absoluto da produção do conhecimento. Esperando com este trabalho de tese que, na qualidade de pesquisadora, estejamos contribuindo para mudar não o mundo mas, uma pequena parte dele, tornando-a mais compreensível através de um novo olhar.
CAPÍTULO 1
A CONSTITUIÇÃO POLÍTICO-HISTÓRICA DOS DISPOSITIVOS DE SEGURANÇA
PÚBLICA DO CEARÁ
1 A trajetória dos dispositivos de segurança na formação do Estado brasileiro
Ao falar da constituição político-histórica dos dispositivos1 de segurança pública do Estado do Ceará, faz-se indispensável (re)visitar o passado, ou melhor, é necessário compreender como em sua formação o Estado brasileiro vai construindo seus dispositivos de segurança e a si mesmo em determinados momento de sua história. É, portanto, o como das relações e práticas de poder, como estas constituíram a tessitura do aparelho de Estado e de seus dispositivos de segurança. É o que chamamos de uma hermenêutica das práticas de poder, que constituíram e constituem, literalmente, a sociedade brasileira, ou, ainda, as condições de possibilidade em que estas práticas se operaram no espaço privado e público. Para compreender o Brasil contemporâneo, não podemos desconhecer o passado, esse passado que ainda não é totalmente passado2.
Durante os três primeiros séculos de dominação portuguesa no Brasil, a missão era assegurar a empresa da colonização. Ou ainda, ...apossar-se do território, manter o território e expandir a conquista do território. (Sodré, 1979: 59). A pergunta que fazemos é o como dessa missão, é o como da sua estratégia, da sua operacionalização. A resposta poderá nos possibilitar a (re)interpretação dos nossos próprios horizontes históricos, uma vez acreditando
que a experiência continua a nos ensinar ...que a história das formas de racionalidade as vezes é mais efetiva no questionamento de nossas certezas e dogmatismos que a crítica abstrata (Foucault, 1990: 97). Em nossa análise histórica, não temos a pretensão de explicar o presente pelo passado, lido, reconstruído, perquirido, vasculhado, onde não há lugar para o acontecimento, para o inesperado, porque, nessa perspectiva, a história é compreendida como circularidade, no sentido de sempre retornar às suas origens, num anacronismo repetitivo desta. Nossa pretensão é compreender e explicar a materialidade das práticas de poder como ...construções históricas e culturais dependentes dos regimes de poder e verdade em jogo, os quais, por isso mesmo, constróem nossa contemporaneidade (Adorno, 1998: 29).
A missão da dominação portuguesa era assegurar a empresa da colonização. Para isso, era necessário ocupar, povoar e produzir, ...o que exigia esforço armado, vigilância constante, atribuições continuadas, mobilizações permanentes (Sodré, 1979: 25); uma exigência que revestiu a empresa da colonização em empresa militar, visto que a ocupação, o povoamento e a produção assumiram “um caráter guerreiro” imposto pelo meio.
Cada latifúndio desbravado, cada sesmaria povoada, cada curral erguido, cada engenho fabricado tem, como preâmbulo necessário, uma árdua empresa militar. Do norte ao sul, as fundações agrícolas e pastoris se fazem com a espada na mão’ ...Não eram apenas as autoridades mais altas da administração colonial, os governadores gerais, por exemplo, que vinham acompanhados de tropa regular e providos de armas, artilharia e munições, como informam os documentos oficiais;
mas os próprios donatários ou aqueles que pretendiam montar engenho ou fundar lavoura de cana (Oliveira Viana apud Sodré, 1979: 24-5).
Foi esse caráter guerreiro, em determinados momentos, aliado à empresa militar colonizadora, que combateu em diversas frentes os chamados inimigos da ocupação, da povoação e da produção colonial. Nesse primeiro momento, a luta foi contra o indígena, depois o embate se amplia contra o pirata e outros povos colonizadores, como os franceses e os holandeses. Com a descoberta do ouro em território brasileiro, o inimigo principal passou a ser o povo, vítima das extorsivas cargas tributárias, impostas pela ganância saqueadora da Metrópole e dos seus representantes. No terceiro momento, a preocupação, ou melhor, o combate se deu contra o castelhano ao sul do País (Sodré, 1979).
No período colonial, a defesa do território e dos interesses da Metrópole se fizeram pela organização e constituição dos seguintes dispositivos de segurança: as Ordenanças, os Terços lusos e espanhóis, as Bandeiras e as Milícias.
As Ordenanças eram forças semi-regulares, constituídas pelo recrutamento obrigatório da população que era posta em arma sob o comando dos proprietários e senhores de terras e escravos, com a missão de combater o inimigo juntos, uma vez que ocupar, povoar e trabalhar eram tarefas que exigiam esforço armado, vigilância e mobilização contínuas da população. Naquele momento, a Metrópole só chegava a socorrer sua empresa em casos extremos, o que obrigava o colonizador residente no Brasil a organizar o seu dispositivo militar, e, nesse mister, os serviços de Ordenanças foram os mais estáveis e amplos.
O socorro em casos extremos era prestado pelo envio de Terços portugueses e espanhóis pela Metrópole. Estes eram forças regulares que compreendiam a reunião de quatro companhias de Ordenanças ou a Terça parte de um regimento. O auxílio da Metrópole, também, se fez na construção de fortificações ao longo do litoral brasileiro, em cidades como o Rio de Janeiro, Salvador, Natal, Fortaleza, São Luiz, Belém... Estas tinham como principal
objetivo defender os portos e garantir o escoamento da produção para os grandes centros comerciais da Europa.
As Bandeiras eram organizações irregulares, que se multiplicavam como dispositivo de defesa do território e ocupavam os espaços não ocupados pelo poder público. Elas
...desempenhavam misteres variados de defesa do território, do policiamento interno, como na destruição dos quilombos, de apresamento de indígenas e da expansão territorial com a mineração (ibidem: 60).
São, portanto, forças militares com múltiplas missões que trabalhavam, também, em cooperação com as forças regulares e semi-regulares na defesa dos
...interesses da classe dominante colonial e espelhavam a supremacia desses interesses, na fase em que a ordem privada era absoluta em sua influência, sendo restrito a ordem pública.
Enquanto os interesses da classe dominante na Metrópole e os interesses da classe dominante na colônia se conjugavam, esse tipo de organização militar satisfez perfeitamente as necessidades e sua vigência atendeu às condições reais da sociedade (ibidem: 32-3).
Mais à frente, veremos que haverá uma quebra nesse pacto estratégico de interesses, tanto na Colônia como na República.
O poder militar que detinha esses dispositivos irregulares estava assentado, fundamentalmente, no poder restrito da ordem pública e no contingente comandado por esses dispositivos. Ou seja,
...cada caudilho é senhor de considerável corpo de negros, índios e mamelucos, em regra, contando-se por centenas, às vezes por milhares. Manuel Preto dispõe de 900 índios frecheiros, não incluindo os negros e os mestiços, Fernão Pais tem milhares de
escravos. Só Antônio Raposo comanda cerca de 3.000 combatentes (Oliveira Viana apud Sodré, 1979: 25).
A criação das Milícias, forças regulares, organizadas sob as exigências da mineração, vai significar uma nova postura política da Metrópole.
Ou seja, a Coroa portuguesa, frente à descoberta dos filões auríferos, tão esperados e procurados durante os dois primeiros séculos, assume não só o monopólio do comércio como também a produção da mineração. Dessa maneira, a acomodação antiga feita pela delegação de poderes à nobreza rural foi desfeita.
Isso levou a Metrópole a criar e a instalar na Colônia um aparelho de poder público que a representasse. Um aparelho que cresceu de maneira absurda e brutal, assentado no fisco, na justiça e na milícia (Sodré, 1979).
São as Milícias os dispositivos inequívocos da repressão, instalados pela Metrópole com função policial de fiscalizar e vigiar o povo, de reprimir as sublevações e rebeliões, mantendo o povo submisso frente à nova ordem.
Nesse momento, as forças irregulares, especificamente as Ordenanças, sedem lugar às Milícias, forças regulares assentadas na ordem pública instalada pela Metrópole. Esta arroga para si não só a organização das forças milicianas como a responsabilidade direta pela indicação dos seus postos de comando e direção, que serão ocupados por elementos de sua inteira confiança e dos seus prepostos, ou seja, os reinóis vindos de Portugal para cumprir essa tarefa ou pelos portugueses já residentes na Colônia e ligados à administração metropolitana.
A expansão e o estabelecimento da empresa da colonização fizeram surgir à sua volta toda uma estrutura socioeconômica, assentada num dispositivo improvisado e híbrido de segurança. Este se organizou por imposição das necessidades do meio e, por isso, espelhava de cima a baixo os interesses
daqueles que detinham e exerciam o poder de mando na Colônia e, portanto, as condições de possibilidades da sociedade da época. Podemos, ainda, adiantar que, com a Independência, pouca coisa mudou neste contexto, uma vez que a herança recebida com a autonomia do País estava profundamente arraigada numa estrutura socioeconômica colonial, que tinha como principal preocupação a organização e defesa do território para sua própria manutenção. De acordo com Sodré
...a independência não foi uma revolução, no sentido de que não alterou a relação entre as classes, manteve a origem da grande propriedade e do trabalho escravo e da economia de exportação: não gerou tipos novos de organizações, portanto, e menos tipos de organizações militar (1979: 60).
Por outro lado, a nova ordem política teve de enfrentar muitos e graves problemas, um deles relacionado à estrutura militar de que carecia e não dispunha para a governamentalização 3 da sociedade pelo Estado.
Logo após a primeira monarquia, inicia-se, basicamente, a formação do Estado brasileiro que, naquele momento, era governado por uma regência em virtude da menoridade de D. Pedro II. O Estado não possuía as condições necessárias para a autogestão e sua administração se fazia de maneira débil, cabendo à sociedade civil disseminar seu disciplinamento e garantir sua ordem social. Coube inicialmente ao segmento agrário da sociedade essa tarefa, além de ser responsável pela formação das milícias particulares, chegando estas a socorrer o Estado, que tinha um exército por demais limitado para proteger suas fronteiras e uma força policial que não chegava a atender às necessidades de policiamento da capital. Esta força policial tinha a tarefa de delimitar o espaço social e manter a ordem pública num momento em que se iniciava a formação do Estado.
Podemos dizer, no que se refere à organização militar e de modo específico aos dispositivos de policiamento dos povoados, vilas e cidades, que a
fase colonial finda com a criação da Guarda Nacional, a 18 de agosto de 1831, pelo Regente do Império, o Padre Diogo Antônio Feijó.
Vamos, assistir, dai por diante, à retomada progressiva de poderes militares por parte do governo. Acentua-se a tendência, que se vinha pronunciado desde a mineração, ainda sobre a dependência colonial, de centralização de poderes, quando os poderes delegados aos senhores de terra foram podados consideravelmente, culminando tudo com a introdução de divisões inteiras de tropas metropolitanas e, ainda, com o recrutamento de mercenários constituindo unidades dentro do conjunto das forças coloniais e mesmos nacionais no sentido de serviços de um país autônomo (ibidem: 58).
A Independência, ou seja, a autonomia do Brasil, vai levar a um movimento de descentralização que tem como esteira a situação política do País, procedendo à criação da Guarda Nacional e é marcada por dois acontecimentos:
o governo autoritário de D. Pedro I havia terminado, a atmosfera política não podia dissipar o sentimento geral de mal-estar e apreensão relativa às possibilidades ominosas dos movimentos oposicionistas de restauração (Uricoechea, 1978: 133).
Diante desses fatos, a Guarda Nacional é criada
...para defender a Constituição, a Liberdade, a Independência e Integridade do Império para manter a obediência às Leis, conservar, ou restabelecer a ordem, a tranquilidade pública;
auxiliar o Exército de linha na defesa das fronteiras e costas.
A Guarda Nacional era, sobretudo, uma milícia privada formada de homens livres (ibidem: 132). Sugere o mesmo autor que, enquanto,
...as comunidades políticas burocráticas contemporâneas utilizaram o estado, ...o
estado brasileiro patrimonial militarizava a sociedade civil: no primeiro caso teríamos a
‘civilização’ dos militares em contrastes com o último de militarização do cidadão (ibidem: 131).
Posteriormente, o Estado brasileiro, mais forte no poder de governar, assumirá para si, plenamente, o poder coercitivo, o que não vai eliminar de todo a prática anterior do disciplinamento social. A vigilância e o controle não perderão seus antigos executores e auxiliares, apenas se legitimarão como atividade específica de um aparelho de Estado que, numa determinada conjuntura, não pôde abarcar por inteiro sua atividade de promotor da ordem e da segurança pública, delegando a determinados grupos e dispositivos sua obrigação legítima;
ou ainda, dividindo com estes o monopólio da força4 do qual é detentor legal.
No Brasil, até a República, os serviços de polícia foram exercidos pelas seguintes instituições: Ordenanças, Terços, Milícias Municipais, Permanentes e Guarda Nacional. Agregados aos serviços dessas instituições estavam os dragões, caçadores, legiões, pedestres e entidades paramilitares.
Por não haver um órgão específico para os serviços de policiamento, principalmente no interior do Brasil, cabia às Forças Armadas, ao Exército em particular, as missões policias como guarda de cadeias, captura de foragidos, escolta de condenados e até a caça de escravos fugidos. Essas atividades foram exercidas em sua maioria pelos homens das Milícias, dos Corpos de Ordenanças e, a partir de 1831, pela Guarda Nacional. Contudo os corpos de 1ª linha,5que tinham em suas fileiras oficiais abolicionistas e contrários a esses serviços, diziam não ser tais atividades da competência das tropas militares, principalmente a função de capitão-de-mato.
O policiamento gerava intranqüilidade no seio das Forças Armadas, chegando o Ministro da Guerra a dizer, em 1852, que o exército não poderia chegar à perfeição desejável, enquanto, for obrigado a serviço de polícia
(Sodré, 1979; Holanda, 1987). Com o intuito de solucionar os problemas de policiamento interno, o Padre Diogo Antônio Feijó, então regente do Império, através do Decreto de 14 de junho de 1831, autoriza às províncias a organizar suas forças policiais. As Guardas Municipais criadas eram cópias do pequeno exército que a Monarquia portuguesa introduziu no Brasil. Estas tinham a missão de manter a ordem pública e auxiliar a Justiça. Com isso, estabeleceu-se, pela primeira vez na história do Brasil, atribuições policiais a uma instituição armada criada para esses fins. As Guardas Municipais deveriam ser criada nas jurisdições dos juizes de paz, com poder de polícia devendo ser compostas de esquadrias de vinte a cinqüenta homens (Bicudo, 1984; Holanda, 1987).
A Guarda Nacional representa uma composição de forças públicas e privadas para a manutenção de um poder político e econômico mas é, fundamentalmente, segundo Uricoechea (1978), o poder público se fazendo pelo poder privado para manter ambos. Uma aliança entre as frações de classe6 na busca da ordem e da paz social. A Guarda Nacional é uma instituição armada nas mãos do patronato com o objetivo de suprir as deficiências de segurança externa e interna de um Estado que enfrentava a total falta de recursos financeiros e humanos, com uma administração pública em processo de formação. Assim, vê-se obrigado a militarizar a sociedade civil e a entregar o poder militar aos grandes senhores de terras e escravos que tinham em torno de si verdadeiros bandos e exércitos de jagunços7 (Brasil, 1989). Era, sobretudo, a institucionalização do direito do patronato, fazendo uso do monopólio da força, o que já fazia de fato através de suas milícias particulares. Ainda, de acordo com Silva (1998) esta prática que se intensificou com a autonomia do Brasil em relação a Portugal, período em que as milícias estavam passando por intensas transformações, e os grandes senhores do latifúndio, por não confiarem nas Forças Armadas em formação, passaram a organizar e a financiar suas milícias para que estas lhes assegurassem e garantissem proteção, como fizeram posteriormente com a Guarda Nacional.
As Guardas Nacionais prestavam os mais variados serviços à administração dos governos locais, e
...o mais generalizado e constante deles foi o fornecimento diário de milicianos através das requisição feita por Juizes locais e delegados de polícia, para a captura de criminosos; a transferência de réus de uma cidade para outra ou a sua remoção sob custódia do Juiz;
o transporte de cofres e valores públicos; o patrulhamento e policiamento das cidades, assim como as guarnições de cidades e prisões (Uricoechea, 1978: 136-7).
Nesse serviços prestados pela Guarda Nacional ficam caracterizadas suas funções policiais e de segurança pública que, segundo o mesmo autor, eram consideradas rotineiras. Por outro lado,
...seus serviços foram requisitados para a destruição periódica dos quilombos, a repressão ao tráfico escravo, bem como para circunstâncias mais hieráticas e pomposas de aparato da corte: procissões religiosas, revistas militares e toda espécie de
“consumismos” simbólicos... a história dessa corporação está ligada à administração do governo local e à criação de uma ordem legal (ibidem).
A Guarda Nacional, em determinadas províncias, assumiu uma função eminentemente decorativa, sem descartar sua importância política, ou seja,
...a Guarda Nacional, com sua burocracia, os seus galões, os seus esquadrões de cavalaria sem cavalos, a sua artilharia sem canhões, os seus regimentos restritos só a comandos, esforçava-se por comparecer às paradas e formaturas, com certos aspecto de tropa organizada (Fernandes apud Soares Júnior, 1978: 89).
Não se pode negar sua deficiência em algumas províncias, como São Paulo, e, se debilidade existia, houve em toda a administração pública.
Contudo, é inegável a importância da Guarda Nacional no desempenho das funções de segurança interna e externa num momento deveras débil da administração pública de um Estado que necessitava se manter, ou melhor, formar-se, e não possuía as condições exigidas para isso.
Com o aumento da população e o conseqüente surgimento de povoados, vilas e cidades, vai haver a necessidade do disciplinamento do espaço social. Coube aos donatários, governadores gerais, administradores e aos senhores locais a tarefa de realizar os serviços de polícia e de justiça, ou seja, prover as populações desses serviços. Com isso verificou-se uma certa transposição das leis e normas portuguesas para a Colônia, o que podemos facilmente verificar ao longo de nossa história, cujo exemplo maior é a nossa legislação penal que, até o final do século XIX, ainda aplicava as sanções e penalidades oriundas do Livro V das Ordenações Filipinas, exemplares na crueldade.
Desta maneira, as instituições brasileiras repetem o modelo português. Os dispositivos de segurança, como outros, são modelos transpostos que, em alguns casos, perduraram por muito tempo, mesmo após a instalação da República. Esta não rompe de imediato com esse modelo, pelas dificuldades que terá de enfrentar não só em sua estrutura político e socioeconômica como também na sua estrutura militar.
Como pudemos ver um dos grandes problemas da Colônia e do Império, no que se refere, especificamente, à sua estrutura militar, era justamente a debilidade desta no enfrentamento dos problemas de segurança interna e externa. Nosso interesse é abordar de modo mais operacional as estratégias dos dispositivos de segurança interna, no exercício das atividades policiais, e como estes dispositivos se constituíram no espaço privado e público de uma sociedade em formação.
1.2 A criação da Chefatura de Polícia
8É com a vinda da Família Real, em 1808, que a polícia começa a ser propriamente instituída. Ao ordenar a sua organização, D. João tinha em mente, principalmente, a criação de
...um mecanismo que o protegesse de espiões e agitadores franceses, dos quais tinha grande medo, do que propriamente um sistema voltado para a prevenção e repressão de crimes comuns (Bicudo, 1984: 241).
A Intendência Geral de Polícia da Corte foi criada pelo Alvará de 10 de maio de 1808, cópia jurídica do Alvará expedido por Dom José I, em 25 de Janeiro de 1760, que delegava ao Intendente Geral de Polícia da Corte Portuguesa ...jurisdição ampla e ilimitada, a ele submetendo, em matéria de polícia, ministros criminais e civis (ibidem). Isto o tornava um verdadeiro ministro de Segurança Pública do Estado português. No Brasil, o cargo de primeiro Intendente Geral foi ocupado pelo Desembargador Paulo Fernandes Viana9,responsável pelo comando de todos os dispositivos policiais do Reino, que eram constituídos, àquela época, pelos ouvidores-gerais, alcaides maiores e menores, corregedores, quadrilheiros, inquisitores meirinhos e capitães de estradas e assaltos (Bicudo, 1984; Holanda, 1987).
Um fato inegável é que a Intendência Geral de Polícia da Corte era, sobretudo, a polícia política do príncipe. O policiamento, propriamente dito, estava a cargo da Guarda Real de Polícia da Corte, responsável pela vigilância e pelo disciplinamento dos espaços sociais, através dos expurgos de vagabundos e criminosos. À frente da Guarda se destacaram, pela atuação e zelo, o coronel José Maria Rabelo e o seu auxiliar, o major Miguel Vidigal. Tal fato leva Bicudo a declarar que desta vocação militar e política, jamais se apartou a polícia brasileira do império aos nossos dias (1984: 141-2).
A criação da Chefatura de Polícia no Brasil dá-se no Império, no ano de 1841. Até essa data, as funções que correspondiam ao cargo de Chefe de Polícia, eram exercidas pelos Juizes de Paz, podendo, entretanto, nas cidades populosas, onde houvesse mais de um Juiz, ser um deles chefe de polícia (Victor, 1943:05). Com a reformulação do Código de Processo Criminal, pela Lei n.º 261, de 03 de dezembro da 1841, o seu artigo 1º passou a dizer:
...haverá no município da Corte, e em cada Província um chefe de polícia, com os Delegados e subdelegados necessários, os quais, sob proposta, serão nomeados pelo imperador, ou pelos presidentes. Todas as Autoridades Policiais subordinadas ao Chefe de Polícia.
A polícia do Império estava subordinada ao Ministério da Justiça no governo central; nas Províncias, aos Presidentes e Chefes-de-Polícia;
nos Distritos, aos Delegados, Subdelegados e Juízes Municipais dentro da jurisdição de cada um.
Contudo, foi o Regulamento n.º 120 de 31 de janeiro de 1842, que orientou a execução do procedimento policial e criminal da lei acima mencionada, ao rezar no seu Artigo 1º:
A polícia administrativa he judiciária e incumbida, na conformidade das leis e regulamentos: 1º - Ao Ministro e Secretário d'Estado dos Negócios da Justiça, no exercício da suprema inspecção, que lhe pertence como primeiro chefe e centro de toda administração, policial do Império; 2º - Aos presidentes das Províncias, no exercício da suprema inspecção, que nelas tem pela lei do seu Regimento, como seus primeiros administradores e encarregados de manter a segurança e tranqüilidade pública, e de fazer executar as leis.
1.2.1 A Chefatura de Polícia do Ceará
No Ceará, a instalação da Chefatura de Polícia dá-se a 31 de janeiro de 1842, tendo como primeira sede o prédio da Câmara, edifício situado à Praça do Ferreira, que serviu de fórum, cadeia e correios, e abrigou várias vezes órgãos públicos. Ocupou, também, o Palácio da Po1ícia na Praça dos Voluntários, Rua do Rosário, atual sede da Superintendência da Polícia Civil, conhecido como Casarão, o qual durante anos abrigou a Secretaria de Segurança Pública. Hoje, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa da Cidadania está instalada no Palácio da Abolição, antiga sede do Executivo estadual.
Miguel Fernandes Vieira foi o primeiro chefe de Polícia efetivo do Ceará e prestou juramento a 14 de novembro de 1848. O Decreto n.º 177, de 15 maio de 1842, marcava o ordenado de 800$00, por ano, a títu1o de gratificação (Victor, 1943). Ainda, segundo o autor, havia uma certa dúvida histórica a respeito de quem teria sido realmente o primeiro Chefe de Polícia do Ceará porque tanto João Antônio de Vasconcelos como André Bastos de Oliveira eram tidos como tal. Os dois realmente foram nomeados para exercer a função de Chefe de Polícia, mas não aceitaram por impedimentos outros. Na galeria dos ex- Chefes de Polícia do Ceará, que havia na antiga sede da Secretaria de Segurança Pública, figuravam como Chefes de Polícia, anteriores a Miguel Fernandes Vieira, o Brigadeiro José Joaquim Coelho e o Conselheiro Paulino, além do Dr. André Bastos de Oliveira.
O Decreto n.º 1898, de 21 de fevereiro de 1857, ainda no Império, regulamentou as Secretarias de Polícia e estabeleceu o número e vencimentos de seus funcionários, tendo como parâmetro o regulamento de Polícia da Corte.
Por esse decreto, as Secretarias das Províncias de São Paulo, Alagoas, Paraíba, Ceará, Maranhão e Pará ficaram compostas de um oficial, servindo ao Secretário, quatro
amanuenses, um porteiro, servindo de contínuo, vencendo o primeiro 1:600$000, os segundos 800$000, e o último 400$000 anuais (ibidem: 08).
No Império, os chefes de polícia tinham atribuições de fundamental importância no que se refere à polícia administrativa e correcional e, de acordo com Victor (1943), lhes competia condenar, impor multas e penas de degredo, o que ocasionava uma interferência na ordem judicial. Por outro lado, possuíam curiosas atribuições, como a de fazer o recenseamento demográfico e intervir em assuntos municipais.
Com a República, vão ocorrer mudanças político- administrativas de substancial importância para a extinção das Chefaturas de Polícia e o estabelecimento definitivo das Secretarias de Polícia com atribuições de coordenar os serviços de polícia.
No Ceará, essas mudanças se iniciam, basicamente, com o decreto n.º 576, de 12 da julho de 1890, do Governo Provisório, que elevou a Secretaria de Polícia do Ceará à categoria da Secretaria do Maranhão, enquanto o decreto n.º 39, de 19 outubro de 1916, baixou o Regulamento Policial, que criou em seu capítulo XI o cargo de Secretário e de Diretor da Secretaria, que mais tarde foram extintos, dando lugar à Diretoria Gera1 (ibidem).
O Código Penal de 1890 retira das Chefaturas de Polícia as suas atribuições criminais, passando aos estados a responsabilidade de organizar as próprias polícias. São Paulo é o primeiro Estado a criar sua Polícia Civil da Carreira, através da lei n.º 23 de dezembro de 1905, um ano antes da criação da Guarda Cívica do Estado do Ceará.
É, entretanto, no governo do general José Clarindo de Queiroz, no ano de 1891, que o Ceará passará por mudanças no seu serviço de Polícia,